CAPÍTULO II

A SOLIDÃO DE DEUS

A solidão de Deus

1 - A oração do Pai-Nosso: o grito da solidão de Deus

A análise da primeira palavra da oração de Jesus expressa um grito que ecoa além dos limites do espaço e do tempo. Ao começar a ensinar o mais excelente diálogo entre o ser humano e o Autor da existência, o Mestre dos Mestres usou a palavra Pai. Essa pequena palavra contém alguns segredos importantíssimos. O primeiro segredo entra frontalmente na esfera da psicologia e da sociologia: Deus possui uma intensa e dramática solidão!

O Deus que aparece no discurso de Jesus é um pai que possui um rombo emocional que não pode ser solucionado com nenhum artifício, nenhum tipo de poder, servidão ou adoração. A carência afetiva desse complexo Pai só pode ser resolvida se tiver filhos com uma personalidade tão complexa quanto a sua e que sejam capazes de interagir com Ele e construir uma rede de relacionamentos.

Jesus não disse "Deus Nosso que estás no céu", ou "Criador Nosso", ou "Todo-Poderoso Nosso". É significativo que tenha dito "Pai Nosso" A palavra pai indica necessariamente a existência de uma relação íntima entre o que gera e os que são gerados.

Implica a identidade essencial entre as partes, uma troca de experiências, um cruzamento de mundos.

Não gosto da expressão "filhos adotivos", pois ela carrega estigmas e inverdades psicológicas. Mesmo que os pais não sejam biológicos, que não exista a transmissão da carga genética, o processo de formação da personalidade dos filhos contém um número suficiente de variáveis para que os pais não-biológicos se tornem pais psicológicos.

Não há filhos nem pais adotivos. Se as histórias se cruzam, se existe uma trama de relacionamentos rica e contínua, eles se tornam filhos e pais psicológicos. Por outro lado, quando o relacionamento entre pais e filhos biológicos é distante, frio e desprovido de afeto, quando a participação no processo de interação e formação da personalidade é insuficiente, eles se tornam pobres pais e pobres filhos psicológicos. Dividem o mesmo espaço físico, mas não a mesma história.

A oração do Pai-Nosso reflete o clamor do ser mais misterioso deste universo procurando uma relação íntima e aberta com a humanidade. Pode haver um Deus sem filhos e um Criador sem filhos, cercado apenas por suas criaturas, mas não existe um pai sem filhos. Pode haver um rei, um presidente, um multimilionário rodeados de serviçais e bajuladores, mas é impossível haver um pai sem filhos.

O primeiro segredo assombroso da oração do Pai-Nosso é que Deus pode ser mais poderoso do que qualquer religião jamais imaginou, mas é um Deus solitário e, portanto, incompleto. Deus pode ser indecifravelmente perfeito e insondavelmente grandioso, mas falta-lhe algo. É como se Ele tivesse criado o teatro da existência com bilhões de galáxias, porque procura ansiosamente algo que não possui.

Muitos teólogos e filósofos debateram sobre Deus. Alguns afirmaram que Deus é onipotente, outros, onipresente, e ainda outros, onisciente. Mas nenhum deles descobriu que a oração do Pai-Nosso discorre não sobre o Deus todo-poderoso, mas sobre o Deus carente.

Ao se posicionar como Pai, Deus bradou que precisa de filhos. Mostrou que é vítima da mais complexa e poética solidão. Ele pode apreciar a existência de bilhões de planetas, pode admirar milhões de espécies da natureza, mas tem uma dramática necessidade psíquica de se relacionar e construir laços afetivos com filhos.

Inúmeras pessoas tiveram medo de Deus ao longo da história. Outras se prostraram diante Dele mostrando espantosa reverência, e ainda outras, envolvidas na colcha de retalhos das próprias dúvidas, bradaram: "Deus não existe!"

Observando e analisando todos esses comportamentos, não há como negar que, ao longo da história, Deus tirou o sono de bilhões de pessoas, tanto de religiosos como de ateus. Ainda hoje Ele inquieta a mente humana mais do que qualquer outro fenômeno. Mas o ser humano também inquieta a mente desse enigmático Pai mais do qualquer outra coisa.

Por estranho que seja, o Deus todo-poderoso necessita escrever nas tábuas do seu ser a poesia que se inicia com essas palavras: "Eu preciso do ser humano."

2 - Os pais dependem dos filhos?

Os seres humanos de todas as culturas e religiões sempre tiveram a tendência de se colocar numa posição de desigualdade em relação a Deus. Deus é imortal, o ser humano é mortal. Deus é imbatível, o ser humano é frágil e inseguro.

Carl Jung comentou sobre as imagens construídas no inconsciente coletivo (Jung). Quanto menos se conhece alguém, mais corremos o risco de construir a sua imagem de maneira distorcida, aumentando-a ou diminuindo-a. Através desse mecanismo, muitos carrascos viraram heróis ao longo da história, e muitos heróis se transformaram em carrascos na mente das futuras gerações.

Preenchemos a falta de elementos que definem a personalidade de uma pessoa com fantasias, imaginações, superstições.

Por nunca terem visto, tocado e se relacionado com Deus sem barreiras e distâncias, as pessoas das mais diversas culturas e religiões construíram no inconsciente coletivo uma imagem do Criador. Uma característica comum na construção dessa imagem em todas as religiões, incluindo as cristãs, é que Ele é intocável, incompreensível, desprovido de necessidades. No entanto, a oração do Pai-Nosso mostra um Deus que possui uma fascinante necessidade psíquica. A necessidade de superar sua solidão.

A parada estratégica de Jesus no Sermão da Montanha procurava abrir os olhos da humanidade. Para o inteligente homem de Nazaré, Deus não quer que os seres humanos tremam em Sua presença, mas que tenham intimidade com Ele. Não quer mostrar poder, mas sensibilidade. Não quer controlá-los, mas fomentar sua liberdade.

Certa vez um milionário chorou intensamente em meu consultório. Era invejado financeiramente e cortejado socialmente. Tinha tudo, mas se sentia um miserável. Por quê? Porque não possuía o amor dos seus filhos.

Eles conheciam o saldo bancário do pai, mas não conheciam seus sentimentos. Sabiam explorá-lo, mas não amá-lo. Jamais lhe perguntavam sobre seus sonhos, preocupações e decepções. O pai era uma máquina para satisfazer-lhes os desejos, tal como é Deus para muitos seres humanos. Esse pai que me falava do seu sofrimento estava convicto de que, se um dia perdesse a fortuna, perderia seus filhos.

Uma parte significativa da humanidade reage assim. Exploram Deus, mas não se importam com seus sentimentos. Discorrem sobre Deus, mas não percebem que Ele possui uma personalidade real e concreta. Para eles, Deus é desprovido de necessidades psíquicas, é um pai que não precisa de diálogo.

Segundo Jesus, o Deus que se esconde atrás da cortina do tempo e do espaço não é um Deus temível, mas um Pai sensível. Não é um Deus auto-suficiente, mas um Pai solitário. Não é um Deus que imprime culpa e controla comportamentos, mas um Pai apaixonado que deseja ardentemente ser conhecido e criar vínculos de amor. É certamente um Deus muito diferente do que foi proclamado em milhares de anos de história.

As pessoas decoraram a oração ensinada por Jesus sem analisar seus mistérios, sem lubrificar os olhos com o colírio filosófico e psicológico contido em seu texto. A oração do Pai-Nosso implode temores e provoca amores.

3 - A solidão movimenta a psique

Temos a tendência superficial de achar que a solidão é uma característica doentia da personalidade. No entanto, a solidão é uma das mais importantes e saudáveis características da personalidade humana. Ela só assume formas doentias quando não é superada, provocando isolamento, insegurança, timidez, fobia social, sentimento de inferioridade, reações depressivas, preocupação neurótica com o que os outros pensam e falam de nós, necessidade doentia de controle, obsessão insana pelo poder.

Em seu aspecto positivo, a solidão é a mola mestra que movimenta, consciente e inconscientemente, as construções intelectuais. Quando usada de forma construtiva, ela estimula as relações sociais, retira-nos do individualismo, cultiva a solidariedade, excita a tolerância, realça o poder criativo. A solidão pode nos levar à interiorização, à reflexão existencial e à correção de rotas de vida.

Há três grandes tipos de solidão que fazem parte da natureza psíquica de qualquer ser humano. A primeira é inconsciente, enquanto que as outras duas podem se manifestar conscientemente:

1. A solidão gerada pela virtualidade da consciência existencial;

2. A solidão intrapsíquica;

3. A solidão social.

Vamos examinar sinteticamente esses três tipos de solidão. A primeira, que é inconsciente, é a fonte das duas outras. Ou seja, a natureza virtual da consciência existencial contribui para gerar inconscientemente a solidão intrapsíquica e a solidão social. Sei que esse assunto é extremamente complexo, mas procurarei abordá-lo de maneira simples.

Dentro das minhas limitações intelectuais, digo que esses três tipos de solidão não atingem apenas a psique humana. Vamos ver como eles atingem frontalmente a psique do Autor da existência.

Parece um delírio psicológico e filosófico discorrer sobre a mente de Deus, se mal conheço as entranhas inconscientes e conscientes da minha própria mente. Mas, em meu entendimento, acredito que sem esses três tipos de solidão seria provavelmente impossível tanto para Deus quanto para o ser humano envolverem-se numa empreitada de criatividade e de construção de uma trama de relacionamentos sociais, bem como de relacionamentos com eles mesmos.

É provável que, se esses três tipos de solidão não fizessem parte da personalidade do Criador, não haveria nenhum compromisso desse enigmático e misterioso Deus com a humanidade. Seríamos uma experiência laboratorial logo descartada. Um brinquedo construído por Ele para se divertir no tempo, e que logo O entediaria, ainda que esse "logo" pudesse durar milhares ou milhões de anos. Uma vez entediado, o Autor da existência nos jogaria na sua lixeira eterna.

Felizmente a oração do Pai-Nosso aponta fortemente em outra direção.

Augusto Cury