CAPÍTULO IX

VENHA A NÓS O TEU REINO

Venha a nós o Teu reino

1 - Um trono no coração psíquico

Jesus se posicionou nos evangelhos como o Filho de Deus, e esta posição entra na esfera da fé. Ele demonstrava que sabia de quem estava falando. Para ele, Deus é um rei. Como rei, Ele deveria ter um reino cercado de pompas, glórias e fausto.

Mas, apesar de ter se posicionado como filho desse rei, Jesus recusava insistentemente o trono político. Sua reação era incompreensível. Uma boa parte da população de Jerusalém queria aclamá-lo rei de Israel.

Entretanto, no auge da fama, quando as multidões o colocavam nas alturas, Jesus chocou todo mundo ao entrar na grande cidade de Jerusalém sem uma comitiva, sem pompa, mas montado num pequeno e desajeitado jumento. Foi um ato consciente e deliberado.

Ao seu lado se encontrava um grupo de galileus que se apresentavam como seus seguidores. Antes de entrar em Jerusalém, estavam eufóricos com a fama de seu mestre, sentindo-se ministros do rei. Ao ver seu despojamento, ficaram abalados e tão espantados quanto a multidão. Provavelmente alguns tenham querido esconder o rosto e disfarçar as reações para não revelar que o seguiam.

Os discípulos tinham ouvido a oração do Pai-Nosso, mas não a entenderam. Ouviram Jesus clamar "Venha a nós o Teu reino". Imaginaram que Deus fosse um rei e que, como tal, deveria dominar a Terra. Enxergaram o que a maioria enxerga diante de uma obra de arte: apenas os traços marcantes da imagem, não os detalhes mais profundos.

"Venha a nós o Teu reino" parece uma frase de simples compreensão, mas possui significados chocantes. Durante muito tempo eu a explorei e fiquei impressionado com suas implicações políticas e filosóficas. Aos olhos do Mestre da Vida, Deus é um rei completamente diferente de todos os reis que a Terra conheceu. Deus não quer um trono político, mas um trono no coração psíquico do ser humano. Esse é o décimo segundo segredo.

O desprendimento de Jesus pelo poder político era um reflexo de que o Deus-Pai que ele divulgava também não estava interessado nesse tipo de poder. Ele já tinha um poder incomensurável e não precisava demonstrá-lo.

Deus queria ser um rei que não escraviza, domina e explora seus servos. Queria ser rei nos solos da mente e do espírito humanos, uma área em que tanto intelectuais como iletrados, tanto ricos como miseráveis são frequentemente frágeis. Almejava o trono interior para se tornar o maior provedor da mais plena liberdade, aquela que começa de dentro para fora.

Jesus foi o protótipo dessa liberdade. Foi um grande rei de si mesmo. Reinou sobre o orgulho, o medo, o individualismo, o egoísmo, o ódio, a vingança, a culpa. Reinou sobre o desespero, a ansiedade, o mau humor, a irritabilidade.

Quando Jesus disse "amai os inimigos e orai pelos que vos perseguem", fez um pedido impossível para o ser humano. Mas fez porque vivia o que pediu. Jesus conseguia amar seus inimigos e tratar com serenidade os que o maltratavam. Não era um fraco nem um psicótico, mas alguém livre, tão livre que era capaz de compreender e amar as pessoas que o frustravam. Ninguém lhe roubava a tranquilidade.

Quando disse para dar a outra face, estava afirmando que o ser humano pode aprender a ser tão forte e seguro a ponto de tornar-se capaz de elogiar quem o ofende, de abraçar quem espera uma rejeição, de acolher quem mereceria ser afastado. Lembre-se de que é nos primeiros 30 segundos de tensão que cometemos os maiores desatinos. Muitos assassinatos e suicídios ocorrem nesse período. Se aprendêssemos a dar a outra face, muitos acidentes teriam sido evitados na história.

Eu tento ser crítico dos comportamentos de Jesus, mas eles me deixam abismados. Muitos têm uma necessidade neurótica de ser o centro das atenções, de buscar obsessivamente o prestígio e o status social (Horney, 1993). Mas Jesus reinou sobre essa necessidade. Ao contrário, vivia em função dos outros, mesmo quando mutilado na cruz, quando deveria ter se voltado apenas para seu próprio sofrimento.

Quando carregava penosamente a cruz a caminho da crucificação, viu inúmeras mulheres aflitas chorando por sua causa. Apesar de estar todo cortado pelos açoites e enxergando pouco devido aos edemas faciais, interrompeu seu dramático cortejo (Lucas 23:28). Fitou essas mulheres e lhes disse que não se importassem com ele. Pediu que se preocupassem com elas mesmas e derramassem lágrimas por seus filhos.

Que homem era esse que não cessava de se doar, mesmo quando não tinha forças? Que mestre era esse, capaz de consolar as pessoas, quando ele mesmo necessitava de alívio? Jesus foi um rei, o mais excelente líder de si mesmo.

2 - A expansão territorial nos EUA

Em 1800, os Estados Unidos tinham seis milhões de pessoas. Cinquenta anos depois, multiplicou sua população por quatro, passando a 23,5 milhões. Inúmeros povos migraram para o país, promovendo uma explosão populacional. A mistura de raças foi um bálsamo cultural para os EUA, expandindo o conhecimento, a tecnologia e o desejo exploratório.

Independentemente das críticas que possamos fazer à atual política externa norte-americana, o fato é que a superpotência sempre foi um exemplo de hospitalidade. No início do século XIX, ao expressivo aumento populacional acrescentou a expansão territorial.

Em 1803, os EUA executaram o maior golpe da diplomacia do século XIX, a "compra de Louisiana". Pela ninharia de 11.250.000 dólares adquiriram da França um território maior do que todo o território que possuíam. A França não imaginava a dimensão da perda.

O alcance desse ato diplomático foi enorme. Acrescentou-se à nação americana não apenas o estado de Louisiana, mas também o Arkansas, Iowa, Nebraska, Dakota do Norte e do Sul, grande parte de Minnesota, Kansas, Wyoming, Oklahoma, Montana e considerável parte do Colorado. A compra do Alasca, pertencente à Rússia, seguiu a mesma trajetória. Foi uma das raras vezes em que não se pegou em armas para expandir um território.

Analisando a frase "Venha a nós o teu reino, percebemos que o reino de Deus também é expansionista. Ele almeja alargar suas fronteiras. Mas como realizar essa expansão? Qual a sua esfera de governo? Que fundamentos jurídicos o constituem? Quais são suas classes? Que terras ele quer ocupar? É possível alargar seu território usando dinheiro, comprando terras, como fizeram os EUA?

Um reino tem território, burocracia, normas, leis, constituição, sistemas de controle e castas distintas de pessoas, como os nobres, os políticos, os militares, comerciantes, agricultores, plebeus, e assim por diante. Em todo reino há os que ocupam o palácio e têm acesso às suas benesses e há os que o sustentam.

A ênfase de Jesus sobre a vinda do reino na oração do Pai-Nosso, bem como seu discurso ao longo da vida indicam que o Reino de Deus tem uma esfera de governo e princípios de condutas que invertem todos os nossos valores. Vejamos de que maneira.

3 - O ateísmo de Karl Marx e o ópio social

Marx sonhou com um governo em que o proletariado vivesse uma teia de igualdade e onde não houvesse lutas de classes (Marx, 1982). Um dos obstáculos para atingir seus objetivos era a religiosidade. Para ele, a religiosidade era o ópio da sociedade, capaz de obstruir a habilidade de pensar e decidir.

Além de tentar banir a religião, os que implantaram o socialismo na Rússia controlaram os meios de produção, os meios de comunicação e até o comportamento das pessoas. Foi um desastre social e psíquico. O controle dos meios de comunicação castrou a liberdade. O controle da produção obstruiu a competitividade e o desenvolvimento tecnológico. A criatividade nasce no terreno dos desafios, do estresse saudável. O sonho da igualdade imposto de fora para dentro gerou o pesadelo da desigualdade.

Deus não é capitalista. Também não é socialista, mas seu sonho de igualdade é maior do que o imaginado pelos socialistas. Ele sabe que os seres humanos possuem potenciais e capacidades diferentes. Sabe que algumas pessoas têm mais habilidades do que outras. Aceita e admite isso.

A igualdade nasce não porque todos são iguais, mas porque usam suas diferenças para suprir as necessidades uns dos outros e para promover a harmonia e a solidariedade. A igualdade nasce primeiramente no território da emoção, para depois conquistar o território da razão.

Jesus nos deixa perplexos ao inverter os valores e afirmar que os maiores devem servir os menores. Os que têm mais capacidade devem honrar os menos capazes. Para ele, os fortes devem ter compaixão e compreensão. Esse foi o último grande ensinamento de Jesus aos seus discípulos. Como os maiores servirão os menores? Como os grandes cuidarão dos pequenos? Isso raramente ocorreu na história.

Jesus viveu o que ensinou. Gosto dessa frase que cunhei para sintetizar seu comportamento: nunca alguém tão grande se fez tão pequeno para tornar os pequenos grandes. Para o Mestre dos Mestres, doar-se é um privilégio, um júbilo solene, e não um martírio. Quem tem sede de poder não é digno dele.

Se Marx tivesse estudado a atmosfera social do reino proposto na oração do Pai-Nosso, teria ficado embasbacado e provavelmente repensaria alguns pilares do sua famosa obra O capital. O monarca do reino anunciado por Cristo é incapaz de entorpecer a psique de alguém. Seu governo é um raio de sanidade em nossa rígida e mesquinha inteligência. É uma fonte que gera mentes livres.

O décimo terceiro segredo do Pai-Nosso é que o reino de Deus é constituído de uma grande família real: o Pai e filhos. Não há classes sociais nem súditos, embora as personalidades sejam diferentes. Apesar das diferenças profissionais e sociais entre as pessoas, é a primeira vez na história que um reino não tem servos nem uma minoria privilegiada. Uma prostituta tem o mesmo valor que um religioso.

4 - Um novo ser humano

Como esse reino é expandido? O reino de Deus é alargado não pela força ou pelo dinheiro, mas por gestos que exalam mansidão. Esse é o décimo quarto segredo. Minutos antes de ensinar a oração do Pai-Nosso, Jesus disse: "Felizes os mansos, porque herdarão a terra" (Mateus 5:4). Ele fala do território desse reino que, como já disse, refere-se principalmente ao interior do ser humano.

Quem é manso? Quem é tranquilo? Eu já me decepcionei com muitas pessoas aparentemente tranquilas. O mais tranquilo dos seres humanos tem suas crises de estresse. O mais sereno passa por momentos de desespero. Não é difícil defender uma tese de mestrado ou doutorado, mas construir uma emoção tranquila é dificílimo. Não é difícil dar conferência para milhares de pessoas num auditório, mas lapidar uma emoção que suporta com mansidão as frustrações é uma árdua tarefa.

Prevendo nossas enormes dificuldades nesse campo, como estudaremos no segundo livro do Pai-Nosso, Jesus discorreu sobre o mais penetrante e importante nutriente da personalidade: o pão nosso de cada dia, em especial o pão da tranquilidade.

Quem não se nutre desse pão adoece psiquicamente e leva as pessoas ao seu redor a adoecerem. Além disso, não conquista os territórios da própria psique, permanece na superfície da inteligência. Pode ter cultura acadêmica, mas será sempre uma criança na maturidade psíquica.

Ao clamar "Venha a nós o Teu reino", Jesus fala não apenas sobre a esfera incomum do reino de Deus, uma esfera social impensável pela democracia e inatingível pelo socialismo. Ele também anuncia a possibilidade de construção de um novo ser humano.

Um ser humano alegre, satisfeito, criativo, emanando tranquilidade, que se renova diariamente, que não experimenta o tédio, que ama o outro como a si mesmo. Um ser humano que tem domínio próprio, que lidera e administra seus pensamentos e emoções, que supera o individualismo, mas, ao mesmo tempo, cultiva a individualidade e os diferentes potenciais que geram as aspirações e os sonhos. Não há um ser humano completo a esse ponto, mas há aqueles que investem para caminhar nessa direção.

Milhões de pessoas repetem a oração do Pai-Nosso, mas quem é incendiado por suas labaredas e vive os seus segredos?

Augusto Cury