CAPÍTULO V

DEUS NÃO É AUTISTA

Deus não é autista

Eu tenho profunda preocupação e afeto pelas crianças e adultos autistas. Os autistas se isolam em seu mundo em diversos níveis. Alguns fazem movimentos corporais repetitivos devido à ansiedade exacerbada. Quanto menor for a fonte dos estímulos intrapsíquicos construídos em sua mente - como imagens, pensamentos e fantasias - e dos estímulos sociais, mais intensa é a ansiedade neles.

Pessoas autistas têm dificuldade de demonstrar sentimentos, necessidades, trocas, limites. Não pensam nas consequências dos seus comportamentos. Não conseguem colocar-se no lugar do outro e perceber suas dores e necessidades psíquicas.

Como elaboram pouco suas experiências psíquicas - como medo, dor, apoio, perdas -, deixam de registrar na memória matrizes necessárias para promover o processo de construção da personalidade. Por isso, repetem os mesmos erros com frequência.

Já tratei de várias crianças autistas. Por motivos biológicos ou psicológicos, ocorre nelas um bloqueio da memória, contraindo a construção de cadeias de pensamentos, imagens mentais e fantasias.

Quando a matriz do córtex cerebral está preservada e consegue se desbloquear a memória através de técnicas de estimulação, começa a ocorrer um registro espontâneo e inconsciente arquivando as experiências existenciais. Assim, tece-se pouco a pouco a colcha de retalhos da personalidade, expandindo a solidão intrapsíquica e a social.

Quando a solidão intrapsíquica e a social se expandem, surge espontaneamente a necessidade de construir relacionamentos com os que as cercam e obter retornos, como elogios, sorrisos, afetos. Surge também a necessidade de construir novos pensamentos e imagens mentais. A criança começa a brincar, a se distrair, a fantasiar, diminuindo assim os níveis de ansiedade. O resultado é impressionante. Parece um botão de flor asfixiado que desabrocha na primavera.

Quanto mais uma criança autista se torna sensível, afetiva, e quanto maior sua consciência social, mais depende dos outros, mais procura relacionamentos. Quanto mais ensimesmada, mais se isola, seja por dificuldade de interagir, por timidez, medo de se expor ou de correr riscos.

Após essa rápida abordagem sobre o autismo, descubro o terceiro segredo da oração do Pai-Nosso: Deus não é autista. Por quê? Porque foi vítima da solidão intrapsíquica e da social, porque teve inumeráveis encontros com seu próprio ser e porque procura ansiosamente construir relações sociais. Se não tivesse forjado em sua personalidade os vários tipos de solidão, Deus poderia ser o maior de todos os autistas. Não precisaria de ninguém. Não almejaria ser um pai, não amaria.

A eternidade seria para ele um presídio, e a imortalidade, mn calabouço. Deus se bastaria pelos séculos dos séculos, deixaria de ser um criador exuberante. O teatro da sua mente estaria desprovido de idéias e de criatividade. Não haveria inúmeras galáxias, talvez nenhum planeta, um átomo ou um ser vivo além Dele. Deus continuaria só pelos séculos dos séculos, sem ter consciência da solidão. O tudo e o nada seriam a mesma coisa.

1 - A ansiedade vital

No Sermão da Montanha, logo após pronunciar a oração do Pai-Nosso, Jesus discursou eloquentemente sobre a ansiedade (Mateus 6:31-32). Fiquei impressionado ao analisar suas palavras. Que homem é esse que discorreu sobre as causas da ansiedade 19 séculos antes de surgirem a psiquiatria e a psicologia modernas?

Com argúcia sem precedentes, Jesus comentou que a ansiedade doentia, patológica, é originada principalmente por três grandes fenômenos:

a - as preocupações existenciais,

b - os pensamentos antecipatórios

c - e a dificuldade de desenvolver a arte da contemplação do belo, de extrair prazer dos pequenos estímulos da rotina diária, como um abraço, um breve diálogo ou a imagem de um lírio do campo.

Quem vive atolado de preocupações e sofre pelos eventos futuros se enclausura nos pântanos da própria ansiedade e do humor depressivo. É um miserável no território da emoção, mesmo que seja invejado financeiramente.

O Mestre dos Mestres disse categoricamente "Não andeis ansiosos". Andar ansioso é ter uma ansiedade patológica que gera uma psique irritadiça, perturbada, irreflexiva e não-criativa.

Mas será que toda ansiedade é doentia? Toda ansiedade aborta o prazer de viver e bloqueia a inteligência? Em hipótese alguma. Existe uma ansiedade, que chamo de ansiedade vital, que é normal e fomenta o ânimo, a inventividade, a inspiração, a superação. Jesus tinha consciência da importância da ansiedade vital como mola propulsora da motivação e da criatividade.

Notem que ele disse "Não andeis ansiosos". Não nos pediu para eliminar toda e qualquer ansiedade do anfiteatro de nossa psique. Os vários tipos de solidão estimulam a construção das viagens mentais, das fantasias, das idéias e dos relacionamentos sociais. Mas é a ansiedade vital que está na base dessas construções intelectuais e emocionais. Ela é a energia do trem da inteligência que aciona a locomotiva dos vários tipos de solidão.

O homo sapiens é criativo porque tem uma complexa ansiedade vital como fonte da energia psíquica que canaliza os vários tipos de solidão para construir ininterruptamente pensamentos e relações sociais.

Cada pessoa tem um nível de ansiedade peculiar que pode ser enquadrado dentro dos limites da normalidade. Destruir esta ansiedade é indesejável e impossível, pois seria destruir a galinha dos ovos de ouro da criatividade. A ansiedade vital só se torna doentia quando os níveis de tensão geram conflitos psicos-socais e produzem sintomas psíquicos e psicossomáticos. Se a mente humana precisa da ansiedade vital para ser construtiva, o que acontece com a mente de Deus? Deus possui uma ansiedade vital que estimula sua criatividade? Na minha limitada opinião, sim. Vamos retornar à solidão social de Deus.

Quanto tempo Deus ficou só? Bilhões de anos? Mas bilhões de anos são apenas frações de segundo perante a eternidade. O que se passava na mente de Deus quando o tempo inexistia? Que experiências tocaram sua emoção quando Ele tinha milhões de palavras para dizer, mas ninguém para ouvi-lo? Embora possa ter havido uma primavera existencial no passado quanto à solidão intrapsíquica, em algum momento sua tranquilidade foi perturbada pela necessidade de ter filhos. Será que Ele não poderia prever que os seres humanos o decepcionariam ao máximo?

Desculpe-me, mas confesso minha ignorância. Falo da solidão de Deus como o caminhante que sou, vagando pelo traçado da existência tentando me entender e entender o intangível. Sedento, não consigo deixar de perguntar. Perguntando, tenho uma mente livre para pensar. Pensando, reconheço minhas limites e tenho como consolo a convicção de que deixo de ser um mero átomo vivo, entorpecido, esperando a morte arrombar as portas da minha história e me mostrar que o que vivi foi uma brincadeira no tempo. Não, a vida é um espetáculo.

Crer que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, independentemente de ter usado um processo evolutivo ou instantâneo, entra na esfera da fé, que não é minha área. Se Deus é concreto, Ele tem habilidade tanto para usar processos instantâneos que desobedecem às leis da física, da química e da biologia como pode usar as leis da teoria da evolução, fundamentada nas mutações genéticas e na seleção natural das espécies mais aptas. Não discutirei essas teses.

Quero discutir algo mais profundo, o quarto segredo subjacente à singela e explosiva oração do Pai-Nosso: A ansiedade vital de Deus associada à consciência de que Ele é um ser único no teatro da existência gerou uma explosão criativa. Não quero discutir como Ele criou, mas por que criou um universo incompreensível, com incontáveis fenômenos físicos, biológicos e psicológicos.

2 - A solidão e a criatividade

Aquele que nunca atravessou turbulências na vida e não sente falta de nada vive um eterno conformismo capaz de engessar seu intelecto. De outro lado, quem passou por inúmeros problemas estressantes, mas aprendeu a canalizar sua ansiedade para expandir o mapa das suas experiências psíquicas, tornou-se um construtor de novas idéias.

A diferença entre um pensador e um espectador é que o pensador usa seu estresse para produzir o espetáculo das idéias, e o espectador usa seu conformismo para aplaudi-lo.

Por que o processo criativo tem mais chance de acontecer nas crises? Porque nos momentos de perdas, rejeições e desafios a ansiedade vital expande-se, aumentando consequentemente a percepção da solidão. Esta, por sua vez, expande a necessidade de superação através das construções intelectuais.

Muitos artistas construíram suas obras-primas quando o mundo desabava sobre eles. Muitos poetas e intelectuais produziram seus melhores textos quando desprezados e humilhados.

Foram garimpeiros de ouro nos solos da sua inteligência.

Tenho necessidade de momentos de interiorização solitária. Na solidão, faço um passeio íntimo, crio caminhos, produzo novas idéias. Na solidão, penso, repenso e me reencontro. Na solidão, percebo minha pequenez, compreendo que um dia vou para um túmulo, que não sou melhor que ninguém.

Na solidão, me procuro, me acho, me refaço.

Quando é que os cientistas produzem suas melhores idéias?

No início ou no auge da carreira acadêmica? Seria de esperar que fosse no auge, quando são mais cultos, maduros e experientes. Mas é no início da carreira! Por quê? Porque no auge da carreira, são aplaudidos e valorizados e correm o risco de se tornarem perigosamente auto-suficientes.

No início da carreira são perturbados pelos desafios e pela nessidade ansiosa de desbravar o desconhecido e serem reconhecidos. Einstein era imaturo intelectual e emocionalmente quando produziu os pressupostos da teoria da relatividade. Tinha 27 anos. A maioria das grandes descobertas da matemática, ocorreu antes dos 20 anos de seus descobridores.

O reconhecimento acadêmico, os títulos, o status intelectual que os cientistas, escritores e pensadores recebem ao longo da vida podem se tornar um veneno que mata a criatividade, obstruindo a ousadia, a capacidade de introspecção, observação, dedução e indução.

Jesus fez subliminarmente referências à solidão de Deus diversas vezes, como quando disse "Na casa do Pai há inúmeras moradas","Eu sou a videira e vós os ramos" e em diversas parábolas, como a do filho pródigo e a do semeador. Porém, pelo menos uma vez falou abertamente sobre a solidão que abarca a psique de Deus desde tempos remotos: "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só" (João 12:24).

Os discípulos queriam interromper o plano de Jesus, impedindo-o de ser crucificado. Parecia loucura e insanidade prever a própria morte e não evitá-la. Mas ele preferia morrer e sacrificar-se para resolver a solidão de Deus.

Sua morte seria uma ponte entre a humanidade e o Autor da existência. Foi a primeira vez que a dor e o caos da existência foram usados para que a vida ressurgisse. Fico imaginando a dimensão da palavra "só". O grão de trigo precisava romper a casca do isolamento para se multiplicar.

Por que existem bilhões de galáxias com trilhões de planetas e estrelas? Bastava uma galáxia com milhões de astros. Por que existem milhões de espécies na natureza? Bastavam milhares. Por que o Autor da existência é tão abundante no processo criativo?

Talvez porque criar não seja uma opção intelectual de Deus. Criar faz parte da sua natureza, é seu destino inevitável. A sua solidão exuberante e sua serena e inextinguível ansiedade vital fazem a criatividade fluir espontaneamente da sua mente complexa.

O Pai da enigmática oração ensinada por Jesus não é amordaçado pelo cárcere da rotina. De eternidade a eternidade, viveu uma explosão criativa, no bom sentido da palavra. Tudo nele parece se renovar, rejuvenescer, reflorescer.

Um dia o processo criativo pode acabar? A solidão humana poderá ser extinta? A solidão de Deus poderá desaparecer do cerne da sua psique? Não creio. A solidão é psiquicamente incurável, sem solução definitiva. Esse é o quinto segredo. Felizmente, ela não pode ser resolvida, o que nos faz procurar inúmeros relacionamentos. Ela é retroalimentada pela consciência existencial, nos renovando num processo contínuo e inextinguível de buscas.

Penso que a solidão, tanto a humana quanto a de Deus, sempre nos fará procurar por nós mesmos e pelos outros. A criatividade nunca será extinta. Nunca seremos auto-suficientes e abastados. Como já disse, viver em sociedade não é uma questão de sobrevivência física, mas psíquica.

Jamais viveremos na clausura, no drama do isolamento. A não ser que desenvolvamos uma depressão catatônica, nesse caso embotaremos nossos pensamentos e emoções.

Os demais segredos da oração do Pai-Nosso apontam para ma atmosfera onde as relações sociais ocorrem de forma borbulhante; onde o amor é uma poesia; descobrir o outro é uma ventura; sonhar juntos, uma fonte de prazer; trocar experiências, um convite à maturidade. É uma pena que as sociedades modernas estejam se tornando um grupo de estrangeiros que habitam na mesma terra.


3 - O grito de Deus na oração do Pai-Nosso e os Dez Mandamentos

O sexto segredo da oração do Pai-Nosso é o mais simples e mais intrigante de todos: Deus tem necessidade psíquica de ser amado. Para Ele não basta construir relações, é preciso ter o amor como ingrediente fundamental.

Bob Marley cantava que os seres humanos "amam o poder e não o poder de amar". De fato, inúmeras pessoas sonham em estar acima das outras, em serem cortejadas, servidas, admiradas. Deus não tem essa necessidade neurótica, embora possua poder para controlar as pessoas.

O Deus descrito na oração do Pai-Nosso não é apenas um Deus solitário que tem necessidade de construir relacionamento e trocar experiências. Ele possui necessidade psíquica de amor. Essa necessidade é maior do que um desejo de afeto, carinho e atenção.

O amor se entrega, não procura os próprios interesses, inclui, sonha junto. Não é tecido de ciúme, despe-se da soberba e veste-se da humildade. O amor revigora o cansado, anima o abatido, encoraja o ferido. O amor não controla, não domina, não bloqueia a inteligência. Promove a liberdade, realça a auto-estima, reacende a esperança.

Eu acho poético e ao mesmo tempo estranho alguém tão grande quanto Deus ter essa necessidade de ser amado e, ainda por cima, declará-la corajosamente em prosa e verso. Quantas vezes Deus a declarou! Em muitas formas na Torá, no Novo Testamento e no Alcorão, para citar o exemplo dos livros sagrados de três grandes religiões.

Nos Dez Mandamentos entregues a Moisés no monte Sinai a necessidade de ser amado foi declarada da maneira mais eloquente. Milhões de pessoas, incluindo judeus e cristãos, são capazes de repetir esses mandamentos sem perscrutar com profundidade o significado deles. Seus ouvidos precisam se abrir para entendê-los psicológica e filosoficamente.

Nunca perceberam que no primeiro desses mandamentos existe a mais contundente declaração de amor do Deus Altíssimo e, ao mesmo tempo, o mais profundo e honesto reconhecimento de sua sede psíquica, de sua necessidade emocional. O Deus Onipotente não teve vergonha de assumir a sua fragilidade emocional.

Ao declarar no primeiro mandamento "amar a Deus sobre todas as coisas", Ele grita sem medo: "Preciso ser profundamente amado. Não tenho vergonha de reconhecer que preciso ser amado com um amor ardente. A humanidade pode achar que não preciso de nada. Mas tenho sede de amor."

Nós temos vergonha de declarar nossos sentimentos. Há pais e mães que morrem sem nunca terem dito a um filho "Eu preciso de você, deixe-me conhecê-lo". Sem jamais terem perguntado em que desertos o filho caminhou sem que o pai soubesse. Que lágrimas o filho chorou sem que a mãe percebesse.

Fico perplexo ao constatar que Deus desceu aos patamares mais impressionantes da dependência emocional. Era de se esperar que Ele subjugasse o ser humano, mas, ao invés disso, Ele Implorou por seu amor. Que coragem! O amor une, ata, entrelaça. O amor rompe todas as barreiras e aproxima todas as distâncias. Esse Deus rompe paradigmas e preconceitos.

Calígula matou o neto de Tibério César quando se tornou Imperador romano. Não queria que seu trono fosse ameaçado. Antes de chegar ao poder parecia gentil e afetivo. O poder o transformou, o aprisionou. Era mais uma pessoa despreparada para assumi-lo. Foi tão seduzido pelo poder que, no final, queria ser reconhecido como um deus. Detestava o povo judeu, por ser na época o único que não se submetia à sua paranóica busca pela divindade.

Caligula queria ser imortal, um homem acima das fragilidades humanas. Fazia questão de mostrar sua grandeza, seus exércitos, sua severidade implacável aos desobedientes e sua gratidão aos subordinados.

O Deus que se declarou nos Dez Mandamentos teve um comportamento completamente diferente do daqueles que se declaravam deuses. Na primeira vez em que resolveu mostrar a verdadeira face a Moisés, em vez de imprimir medo e severidade, revelou um extremo amor pela humanidade. Jesus repetiu as palavras Dele no Novo Testamento de diversas maneiras. Nenhum rei, ditador, imperador, presidente, executivo, chegou a fazer um pedido igual. Todos querem reverência, reconhecimento, e alguns, servidão. Foi a primeira vez na história que alguém grandioso pediu "por favor, me amem". Pediu algo que seu poder não podia comprar ou obter.

A idéia central dos Dez Mandamentos está inserida na oração Pai-Nosso. Esses dois textos não falam de servidão, mas de afeto; não falam de religião, mas do entrelaçamento da emoção; não falam de temores, mas de amores.

Pode parecer loucura, mas entendo que o Deus dos Dez Mandamentos e da oração do Pai-Nosso pede para ser amado acima de todas as coisas porque Ele deve amar o ser humano dessa mesma forma, acima de todas as coisas, inclusive da nossa estupidez.

Nosso amor é condicional, as decepções o esmagam. O amor de Deus é irrestrito. Amamos se tivermos retorno, Ele ama mesmo frustrado. O Deus que muitos consideram temível é um Deus dependente de amor. Como não ficar chocado com suas reações?

Mas, se Deus ama tanto a humanidade, por que não mostra a sua face? Por que parece omisso? Por que não intervém nas loucuras humanas? Por que se esconde atrás do espelho dos fenômenos físicos?

Por que deixa nossa mente inquieta sobre sua identidade? Por que incentiva o ser humano a usar a frágil ferramenta da oração e da meditação para tateá-lo nos recônditos do espírito humano?

Essas perguntas fervilham no caldeirão das questões que discutiremos posteriormente.

Augusto Cury