CAPÍTULO VI

PAI-NOSSO: UM GOLPE MORTAL
CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

Pai-Nosso: um golpe mortal contra a discriminação

1 - Tomás de Aquino e a espiritualidade inteligente

Em uma de suas orações, o pensador Tomás de Aquino, num folego intelectual, procura romper as distâncias na relação com Deus, dizendo:

Concedei-me, Senhor meu Deus,
Uma inteligência que Vos conheça,
Um zelo que Vos procure,
Uma ciência que Vos encontre... (Teixeira, 2002)

Tomás de Aquino queria alçar vôo em sua inteligência, não para reconhecer os fenômenos do mundo físico, mas Aquele que os teceu. Possuía uma ambição irreprimível de conhecê-Lo. Desejava um encontro único, sem barreiras nem temor.

Encenar a peça da vida sem explicações mínimas sobre quem somos contorce as entranhas da nossa psique. Uns mais, outros menos, todo ser pensante é contagiado pela ansiedade diante do mundo incompreensível que é e no qual vive.

A espiritualidade e a construção das religiões surgem no espaço da ansiedade por respostas. É um impulso incontrolável que brota do cerne da inteligência humana e que seduz pessoas de todas as línguas, culturas e credos. Através da oração e da meditação, elas buscam o inexplicável, o transcendental, o divino. Buscam inclusive a si mesmas.

O que entristece é que nem sempre a religiosidade irriga as funções mais importantes do ser humano, como a tolerância, a capacidade de expor, e não impor, idéias, a solidariedade e a generosidade.

Quem estudar os segredos da oração do Pai-Nosso entenderá que Jesus queria que os seres humanos tivessem uma espiritualidade regada pela inteligência, pela troca, pelo respeito e a transparência. É significativo que ele comece a falar de um Pai que quer construir relacionamentos sem barreiras e preconceitos.

Apesar de inúmeras pessoas recitarem a oração que Jesus ensinou, passados dois milênios as barreiras continuam, os preconceitos ainda nos controlam, imprimindo inumeráveis sofrimentos, cultivando uma infinidade de transtornos. A proposta de um relacionamento familiar que exale afetividade, compreensão e generosidade parece um delírio numa sociedade individualista.

Certa vez, um bispo católico de excelente nível intelectual e humanístico começou a ter ataques de pânico durante as suas homilias. Apresentando taquicardia, seu coração parecia querer explodir no peito. Ofegante, mal conseguia pronunciar as palavras durante as crises.

Sua saúde estava ótima, mas sua emoção era abalada pela fantasia da morte, levando seu cérebro a reagir como se ele estivesse vivendo seu último instante existencial. O medo de desmaiar em público ou de ter um enfarte súbito o atormentava, esfacelando seu prazer de viver e o isolando cada vez mais. Os ataques de pânico aumentaram de frequência e intensidade. O brilhante ser humano foi se tornando opaco, frágil e depressivo.

Para quem ele contou sua tragédia emocional? Para ninguém. Nenhum outro colega, nenhum superior, nenhuma pessoa a ele subordinada. Tinha medo de ser criticado por seus pares. Tinha receio do preconceito. O medo da crítica o silenciou. Calou-se, quando deveria abrir a boca e investir no único capital que não pode ir à falência - a vida. Felizmente procurou ajuda terapêutica, tratou-se e reescreveu a sua história.

Tenho encontrado líderes católicos, protestantes, budistas, islamitas que sofrem calados, nunca revelam seus conflitos, temendo serem julgados pelos que os rodeiam. Suas lágrimas nunca conquistaram o teatro do seu rosto, com medo das críticas. Quando não existe tolerância e afetividade, o melhor dos ambientes, mesmo religioso, é tirânico.

Muitos dos seguidores têm uma falsa imagem de seus líderes, considerando-os infalíveis, imunes às misérias psíquicas dos mortais e aos transtornos dos "comuns". Mas quem não atravessa os vales da ansiedade patológica em alguns momentos da vida? Quem não sofre alguns transtornos emocionais? Quem não é subjugado por algumas características doentias da personalidade?

Em minhas conferências, às vezes pergunto à platé
ia: quem tem coragem de subir no palco e fazer uma exposição sobre todos os pensamentos e imagens mentais que transitam em sua mente? Nunca ninguém ousou; eu inclusive. Felizmente na oração do Pai-Nosso não se exige de ninguém a perfeição.

Tomás de Aquino queria ter capacidade para entender Deus, explorar seus pensamentos, conhecer seus projetos. Uma espiritualidade só pode ser saudável se nos levar também a respeitar nossos limites. A religiosidade que almeja produzir super-homens, pessoas infalíveis, rígidas, juízes dos outros, que não promove o autodiálogo e o diálogo interpessoal, torna-se uma fonte de doenças psíquicas.

2 - O Pai-Nosso implodindo o racismo e a discriminação

A oração do Pai-Nosso vai além de promover o diálogo entre os pares, entre os amigos e companheiros de jornada. Ela é o golpe mais excelente contra um câncer que nunca foi extirpado da nossa espécie. Um câncer que teima em criar raízes até nos ambientes mais inesperados: o racismo e a discriminação.

Onde está a vacina contra a discriminação nessa assombrosa oração? Na dimensão da palavra Pai e na abrangência da palavra Nosso. Pai de quem? Dos judeus? Dos cristãos? Dos muçulmanos? Dos budistas? Dos bramanistas? Pai de que grupo religioso? De que pessoas? De quantas pessoas? Pai dos puritanos ou dos errantes? Pai dos ricos ou dos miseráveis? Dos intelectuais ou dos iletrados? Pai dos portadores de depressão, de psicose, ou dos que se regalam do prazer de viver?

A junção das palavras Pai e Nosso me assombra e revela mais um espetacular enigma, o sétimo segredo: Deus é 100% pela humanidade. A oração do Pai-Nosso estilhaça estigmas. Muitos querem controlar Deus, ser seus proprietários, inseri-lo na dimensão de seus dogmas religiosos. Mas Deus quer se libertar. Ele quer ser o Pai-Nosso. Ele é muito grande para caber na cartilha de nossa religiosidade.

Por um lado, Deus possui uma personalidade consolidada, desejos peculiares e preceitos revelados enfaticamente por Jesus. Mas, por outro, Ele é inclusivo, compreensivo e tolerante. Embora Deus seja 100% pela humanidade, creio que quase 100% das pessoas que oram ou conhecem a oração do Pai-Nosso já cometeram, de diversas formas e em diferentes graus, discriminações, exclusões e outras formas de agressividade em algum período da vida.

É provável que muitos já se consideraram superiores pela cultura ou religião. Outros julgaram e condenaram. Outros ainda mataram, se não fisicamente, pelo menos psiquicamente. Pais sufocaram emocionalmente seus filhos. Maridos asfixiaram a personalidade de suas esposas ou foram asfixiados por elas. Executivos e religiosos anularam colegas de trabalho.

Muitos seres humanos destruíram outros em nome de um Cristo inventado em seu imaginário. O Deus proclamado por Jesus não discrimina, apenas acolhe e abraça. Não exclui, apenas insere. Ama qualquer ser humano de qualquer lugar, de qualquer religião.

O Deus do Pai-Nosso revela doçura e suavidade. Não exige nenhum sacrifício humano, nenhum esforço desmedido. Ao contrário, quer nos nutrir com o pão diário da sabedoria, da tranquilidade, da serenidade.

A multidão estava atônita diante das palavras de Jesus. Nunca tinham visto Deus como Pai. Nunca imaginaram Deus com necessidades psíquicas. Jamais pensaram que Ele fosse tão próximo.

Parafraseando Nietzsche, Deus é humano, demasiadamente humano.

Pensar, refletir e analisar os comportamentos dos nossos filhos nos aproxima deles, mas não nos permite penetrar na sua natureza psíquica. Só estarão dentro de nós como símbolos, representações, imagens registradas. Mas Jesus anunciou um Deus que desejava superar de maneira tão surpreendente sua solidão que sonhava em esfacelar esse paradigma da psicologia. Por isso teve a ousadia de dizer: "Eu neles e tu em mim, para que cheguem à perfeita unidade" (João 17:21).

Quem pode entender esse fenômeno? O Deus Todo-Podero-so se fez pequeno para alcançar os pequenos, porque os pequenos, apesar dos seus defeitos, são insubstituíveis para Ele.

3 - A mais excelente tolerância religiosa

O racismo, a discriminação religiosa, o anti-semitismo e a rejeição ao islamismo depõem dramaticamente contra a oração do Pai-Nosso. Os conflitos religiosos sempre foram motivo de grandes atritos, o estopim de guerras e violências. Fico feliz porque minha origem é multirracial.

No meu corpo corre o sangue de judeus, árabes, italianos e espanhóis. Minha esposa tem, entre outras ascendências, a alemã. Minhas três meninas são filhas da humanidade. É um prazer sublime compreender que somos uma única espécie pela qual devemos ser apaixonados e lutar.

Sócrates e Platão acreditavam em um Deus único, apesar de a Grécia antiga ser povoada de deuses. O Deus de Sócrates é diferente do Deus dos cristãos? Há diferentes formas de procurá-Lo, de conhecê-Lo, de reverenciá-Lo. Mas se há um Deus no universo e se Ele tem uma inteligência incomparavelmente superior à nossa, não será Ele capaz de compreender as diferentes linguagens dos seres humanos das mais diversas religiões? Não entenderá a linguagem dos que não têm religião?

Saulo de Tarso, o arquiinimigo dos cristãos, religioso radical que matava, encerrava no cárcere e constrangia os que pensavam diferentemente da sua religiosidade, ao tornar-se seguidor de Jesus abriu o leque da sua inteligência para compreender os diferentes.

Ele teve a ousadia de dizer que não sabemos orar, nos comunicar com Deus, que nossa linguagem é tosca para atingir o Criador. Para o apóstolo Paulo, Deus tem de decifrar os códigos da nossa limitada comunicação e racionalidade. Ele é um Pai que enxerga o que os sons não apontam.

Além disso, Paulo elevou a tolerância religiosa ao mais alto patamar no segundo capítulo da Carta aos Romanos. Teve a ousadia de dizer que os que julgam e excluem os outros condenam-se a si mesmos. E completou afirmando que Deus olha para a consciência humana, perscruta os pensamentos, as intenções, e não a prática religiosa exterior.

Teve a coragem de afirmar que os que não têm lei, os que nunca tiveram uma religião formal, serão julgados sem lei. Eles têm a "consciência do eu", organizada a partir do autoquestionamento e da capacidade de decidir. Ao usar o pensamento para se avaliar, acusar e defender o eu, cria sua própria justiça (Romanos 2:14-15). Segundo Paulo, é para isso que Deus olha.

Aquele que mais atacou e discriminou os cristãos foi mais longe ao dizer que o projeto de Deus inclui toda a humanidade. Indica dessa forma que o Deus dos cristãos se entrelaça com o Deus dos muçulmanos, dos judeus, dos budistas, dos que não professam qualquer religião.

Interpreto essa passagem como se fosse o brado do Pai-Nosso afirmando que Deus enxerga muito além dos rituais religiosos e da adoração formal. Ele enxerga, como já disse, o que a psiquiatria e a psicologia não conseguem ver. Nós nos limitamos a observar comportamentos, mas Deus é um Pai que compreende a linguagem profunda de cada ser humano, mesmo aquelas linguagens que jamais ganharam sonoridade. Ele observa o intangível, os cenários sutis desenhados na arena de nossa psique.

Paulo não deixou de defender o que pensava. Discorria sobre Jesus Cristo com todas as letras e ia pouco a pouco dissipando seu radicalismo e incorporando a sublime tolerância do próprio Jesus.

4 - O filósofo Kierkegaard e a destruição de preconceitos

O brilhante filósofo Kierkegaard tinha uma ligação estreita com o pensamento de Jesus Cristo, mas era crítico da religiosidade asfixiante (Durant, 1996). Querendo estimular a arte de pensar e provocar a mente das pessoas para dissipar preconceitos, certa vez propôs uma complexa questão.

Disse que existem duas pessoas: uma adorando um deus falso, mas com o coração verdadeiro; outra adorando o Deus verdadeiro, mas com o coração falso. Após fazer essa descrição, perguntou:

-Qual delas o Deus verdadeiro ouve?

Fiz essa pergunta a várias pessoas das mais diversas religiões. Todas me responderam que Deus ouviria quem tem um coração verdadeiro. E continuaram: se o coração é falso, superficial, simulador, de nada adianta adorar o Deus verdadeiro. Ele considerará essa adoração uma maquiagem exterior sem correspondência com a realidade interna.

Quando os índios se dobram com humildade e sinceridade diante de uma rocha ou do Sol, será que não são ouvidos por Deus? Quem pode afirmar que Deus não os escuta, não entende sua linguagem? Quando um africano de uma tribo primitiva se prostra diante das chamas do fogo, reverenciando-o com sinceridade, será que não é ouvido pelo Altíssimo?

Não sou teólogo, não posso entrar na seara da fé. Mas posso entrar no campo do pensamento filosófico e psicológico. Para mim, quando Jesus juntou as palavras "Pai" e "Nosso" na única oração que ensinou claramente, quis dizer, tanto do ponto de vista psicológico quanto do filosófico, que Deus não é propriedade humana, nem de uma religião ou de um povo, ainda que essa religião ou esse povo esteja em maior sintonia com sua vontade do que outros.

Em tempos de tantas guerras e discriminações religiosas que envolvem o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, eu gostaria de novamente enfatizar: Deus é pela humanidade e para a humanidade. As discriminações contra os muçulmanos estão infelizmente aflorando depois do 11 de setembro de 2001. O anti-semitismo vem se expandindo em diversas sociedades. As sociedades estão se tornando um barril de tensões, prestes a explodir. O terrorismo, em suas diversas formas, e a ditadura do consumismo e da estética estão criando raízes.

Uma pessoa que tem maturidade intelectual e emocional não deve abrir mão do que pensa, mas deve dar aos outros o direito de pensarem contrariamente às suas idéias. Não deve deixar de falar sobre as verdades em que acredita a respeito de Deus e de sua religião, mas deve aprender a expor, e não impor, suas idéias. Quem impõe suas idéias, ainda que estas sejam excelentes, é escravo, e não livre; destrói e não cura. É intelectualmente uma criança, e não um adulto maduro.

Se não nos apaixonarmos pela humanidade, se não lutarmos pela espécie humana, se não incluirmos, tolerarmos e amarmos, estaremos fora dos padrões do Pai-Nosso. Certa vez Jesus falou de dois homens que se dirigiam a Deus. Um era um brilhante religioso, tinha um currículo espiritual invejável, jejuava, orava frequentemente e dava ofertas para sua religião. O outro era um miserável, religiosamente deplorável, saturado de erros. Além disso, não sabia orar e reverenciar Deus. Apenas batia no peito pedindo compaixão diante de sua miserabilidade.

Após esse relato, Jesus propôs uma questão mais complexa do que a do ilustre Kierkegaard. Qual dos dois homens dessa perturbadora parábola Deus ouviu? Uma pesquisa mundial provavelmente seria unânime em apontar o religioso, por ser mais ético, sensato e coerente. Mas, como já disse, nós analisamos comportamentos, Deus sonda pensamentos, avalia a consciência existencial e as intenções subliminares.

Para perplexidade dos ouvintes, Jesus afirmou que Deus aprovou e exaltou o miserável. Essa avaliação não parece loucura? É como se um professor desse a nota máxima a um aluno que errou a prova inteira e zero para quem acertou todas as questões.

O religioso da parábola de Jesus não tinha contato com as próprias fragilidades, inseguranças, incoerências e estupidez. Ao contrário, ele se auto-exaltava, considerando-se acima dos mortais. Certamente era mais um que excluía os outros por não se encaixarem nos seus dogmas nem nos preceitos de sua religião. Aos olhos de Jesus, ele adorava o Deus verdadeiro, mas seu coração era falso.

Por outro lado, o miserável tinha consciência de suas falhas, coragem para olhar no espelho da própria alma e assumir sua arrogância, agressividade e fragilidade. Porque era fiel à sua consciência, foi honesto no único lugar em que não se admite ser falso: dentro de si mesmo. Assim, ele tocou o coração do Deus do Pai-Nosso.

Para Jesus, seu Pai não é uma figura mitológica ou uma representação do imaginário humano. Ele é concreto, real e procura pessoas não artificiais para construir uma história real e não falsa. Ele cicatriza as feridas dos desprezados, aproxima os ricos dos carentes, revela que os puritanos podem ser mais impuros do que os que são considerados escórias da sociedade.

Augusto Cury