CAPÍTULO VIII

SANTIFICADO SEJA O TEU NOME

Santificado seja o teu nome

1 - O ateísmo de Diderot e a crítica à religião

Continuando a exposição das idéias dos grandes ateus, Diderot, o mais afiado dos filósofos que quiseram banir Deus da sociedade, proclamou:

"É inútil, ó supersticioso, que busques tua felicidade mais além das fronteiras do mundo em que te coloquei. Ousa libertar-te do jugo da religião, minha orgulhosa competidora que desconheces meus direitos; renuncia aos deuses que se arrogaram o meu poder e volta às minhas leis. Volta outra vez à natureza da qual fugiste; ela te consolará, espantará de teu coração todas as angústias que te oprimem e todas as inquietudes que te atormentam. Entrega-te à natureza, entrega-te a ti mesmo e encontrarás, em qualquer lugar, flores no caminho da tua vida." (Moura, 2005)

Para Diderot, o ser humano rompeu com as raízes da natureza ao construir religiões. A natureza e somente ela deveria nos consolar de todas as nossas miserabilidades e promover as aspirações e inspirações da inteligência. O seu conceito de natureza é amplo, representando a capacidade de adaptação do ser humano à sociedade e ao meio ambiente.

A crítica filosófica de Diderot à religião é inquietante e radical. O ser humano deveria libertar-se do cárcere da religião e esquecer a busca do transcendental. Raramente um pensador discursou contra a religiosidade como Diderot. Porém, ele comete um erro crasso, pois abraça o que mais rejeita, abraça uma nova religião: a religião da natureza. E faz uma pregação que não difere muito da de um vibrante homem de fé.

Brilhante no discurso, mas ingênuo nas propostas, Diderot conclama as pessoas ao ateísmo para encontrar um caminho de flores nos invernos existenciais. Ele discorre sobre um oásis a ser descoberto nas leis da natureza e na entrega a si mesmo. Mas o processo que defende parece mágico.

Como viver dias felizes se não aprendermos a proteger a emoção? Como ser saudável sem refinar a capacidade de filtrar os estímulos estressantes numa sociedade que esmaga a identidade e nos transforma em números? Como se encantar com a existência se o autodiálogo está cambaleante, e o diálogo interpessoal, doente.

A oração do Pai-Nosso, direta ou indiretamente, toca em todos esses pontos. Nela não há nenhuma referência aos privilégios dos filhos. Como vimos, Jesus não promete aos que procuram Deus um jardim sem espinhos. Em todo o Sermão da Montanha, ele insiste que é necessário lapidar a arte de pensar, aprender os caminhos da mansidão, da compaixão, da capacidade de se doar sem esperar compulsivamente o retorno, da superação da ansiedade, do perdão, do desprendimento das ofensas, da conquista de uma emoção livre e apta para amar, inclusive os que nos frustram.

Tanto na trajetória dos ateus como na dos que aderem a uma religião não há caminhos planos, altares festivos e ausência de intempéries. É necessário cultivar as flores, lavrar a terra e, às vezes, irrigá-la com lágrimas. O processo é mais complicado e complexo do que Diderot pensava. Não basta se entregar à natureza para cultivar os caminhos da vida.

Para o Mestre dos Mestres, a vida é longa para errar e construir conflitos, e curta para acertar e construir a sabedoria. Jesus estimulava uma espiritualidade que promove a saúde mental e o prazer de viver, que estimula as funções mais importantes da inteligência, a troca de experiências, a capacidade de pensar antes de agredir, de enxergar um problema por vários ângulos.

O mais forte motivo que incentivou Diderot a anular Deus e substituí-lo pelas dádivas da natureza foi a religiosidade sectária e intolerante que ele observava em sua época. Diderot, infelizmente, não estudou filosoficamente a oração do Pai-Nosso. Se a tivesse estudado, provavelmente ficaria perplexo. A segunda frase dessa oração diz: "Santificado seja o Teu nome."

Deus sonha que seu nome seja "santificado". No entanto, por incrível que pareça, Ele não está tão preocupado com sua honra e adoração. Ele se preocupa muito mais com seu status de Pai, um Pai que não discrimina, não exclui e não domina, mas, ao contrário, aposta, investe, acarinha, promove a liberdade nos seus aspectos mais amplos. Diderot talvez nunca tenha entendido, mas seu sonho de um ser humano livre está amplamente desenhado nos segredos da oração do Pai-Nosso.

Kant (2001), ilustre filósofo alemão, ao contrário de Diderot, comenta: "É absolutamente necessário estar convencido da existência de Deus; não é igualmente necessário demonstrá-la." Para Kant, as provas racionais da existência de Deus não são possíveis, porque Deus está além dos limites da física e por isso não pode ser provado a partir de nossa experiência de espaço e tempo. Desse modo, crer em Deus depende do fôlego da intuição e do paladar da fé, não da experiência da racionalidade.

2 - As consequências de um nome ferido

Certa vez, no início da minha carreira, atendi um paciente que há 12 anos não saía de casa. Era portador de fobia social, um prisioneiro em sua própria casa. Ao tentar sair, tinha crises de ansiedade, insegurança, medo de ser observado. Além disso, experimentava diversos sintomas psicossomáticos, como taquicardia, falta de ar, tremores, vertigem, suor excessivo.

Analisando a sua história, compreendi que desde a adolescência esse homem já era introspectivo, hipersensível, tímido e excessivamente preocupado com a opinião dos outros. Era um ser humano ótimo para a sociedade, mas autopunitivo e superexigente consigo mesmo.

Atravessara uma crise financeira em que tinha perdido tudo, em especial o seu "nome". Apesar de ser agricultor experiente, o fracasso da última colheita coincidira com a queda dos preços. Perdeu o crédito no banco e o crédito em si mesmo. A partir daí começou a viver num casulo, encerrado em casa. Desencadeou, assim, um transtorno psíquico chamado fobia social.

Não suportou a dívida financeira nem a dívida da emoção. Sem autoconfiança, sua auto-estima e sua auto-imagem esfacelaram-se. É fundamental não nos esquecermos de que o mundo pode não acreditar em nós e nos rechaçar, mas, ainda assim, somos capazes de sobreviver psiquicamente. Quando, porém, não acreditamos em nós mesmos e nos auto-abandonamos, é quase impossível não adoecer.

A mente do meu paciente virou um palco de terror. Idéias negativas roubavam-lhe a paz. Sentia-se policiado e desconfortável em qualquer lugar público. Escondeu-se no pequeno mundo da sua casa, mas quem pode fugir de si mesmo? Ninguém. Não há um lugar neste mundo onde possamos nos esconder de nós mesmos.

Inúmeras pessoas tentaram resgatá-lo, mas ele era resistente. Os psiquiatras e psicólogos são como agricultores, mas só conseguem ajudar a cultivar o território da psique se os pacientes permitem.

Nem sempre o insucesso do tratamento está na falta de experiência dos terapeutas, mas na resistência dos pacientes em deixar sua clausura.

No início do tratamento, meu paciente não abria espaço para que eu pudesse ajudá-lo. Sentia-se o pior dos homens, o mais incapaz. Dizia que seu nome nunca seria restaurado. Seria sempre visto como um mau pagador, malsucedido, um fracassado.

Em vez de empurrá-lo para fora de casa, estimulei-o a frequentar as avenidas do seu ser. Incentivei-o a resgatar sua identidade, a confrontar seus fantasmas, principalmente o fantasma da honra ferida, o monstro do nome dilacerado, a necessidade neurótica de se preocupar com a opinião dos outros e de ter sua imagem social intocada.

Enquanto penetrava no tecido da sua história, encorajei-o a questionar os seus dogmas. Algo único ocorreu depois de 12 anos de masmorra psíquica. Pouco a pouco, ele desenvolveu consciência crítica sobre seu conflito, resgatou a liderança do eu e deixou de ser um espectador passivo de seu drama interior.

O agricultor conheceu o mais complexo dos solos - o da sua personalidade - e começou a lavrá-lo com inteligência. Meses depois reeditou algumas zonas de conflito no inconsciente e inseriu-se novamente na sociedade, feliz, radiante. Parecia um menino que descobriu a liberdade e resgatou o prazer mais excelente diante da vida.

Na realidade, não fiz muito por ele. Os psiquiatras e psicólogos são apenas garimpeiros de diamantes soterrados nos escombros das mentes e nas emoções dilaceradas. Há muitas outras pessoas que sofreram perdas e desenvolveram dramas psíquicos iguais aos desse paciente.

Na grande depressão econômica americana, nos anos 1930 do século XX, muitas pessoas não conseguiram honrar seus compromissos financeiros. Tiveram seus nomes manchados. A honra atirada no lixo produziu os mais variados transtornos.

Alguns enfartaram, outros nunca mais conseguiram ser empreendedores, outros ainda, sufocados pela baixa auto-estima e pelo sentimento de incapacidade, bloquearam a inteligência, perderam o sentido existencial e deram cabo de suas vidas.

E Deus, será que também dá importância ao próprio nome? Está acima dos sentimentos humanos, ou se preocupa com o que os outros pensam Dele? Por que na mais importante oração existe um pedido explícito para que Seu nome seja santificado? Por que alguém tão grande pode ser afetado pelo que se fala Dele? São perguntas inquietantes.

Antes de analisar a frase "Santificado seja teu nome" contida na oração do Pai-Nosso e discorrer sobre a relação entre Deus e seu nome, gostaria de comentar alguns fenômenos inconscientes que constroem cadeias de pensamentos e geram o mundo dos símbolos, do qual o "nome" é um dos mais penetrantes.

Muito se repetiu no correr da história que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. A oração do Pai-Nosso mais uma vez confirma secretamente essa tese.

3 - O jogo entre o gatilho e a janela da memória

Por que nosso nome nos toca tão profundamente? As críticas, ofensas, injúrias e difamações dirigidas ao nosso nome não lesam nosso corpo. Mas por que lesam tanto a emoção humana?

Perder ou aviltar um nome perturba as raízes do ser humano. Por quê? Porque o nome é um símbolo que representa nossa personalidade, nossa história, o tecido da nossa consciência existencial.

Para muitos, o nome é uma obra-prima insubstituível. Algumas pessoas nunca mais foram as mesmas depois que alguém a quem atribuíam valor zombou do seu nome ou se sentiram humilhadas publicamente.

Comentei que a consciência existencial é virtual e que, por ser virtual, tem um imaginário fértil e livre e uma capacidade sem precedentes de construir no intelecto, através do processo de interpretação, todos os fenômenos que nos envolvem. Pensamos no amanhã e no ontem sem que eles existam. Viajamos para planetas e para átomos que nunca veremos.

Como a consciência é virtual, compreendemos o mundo através dos significados psíquicos ou símbolos arquivados na memória. Vou explicar.

Eu posso pensar num paciente, ainda que ele esteja a centenas de quilômetros do meu consultório, através das representações que tenho dele em minha mente. Um pai se preocupa com o filho que se encontra em outro continente, usando as imagens mentais inseridas no teatro de sua mente.

Sem símbolos não há imagens mentais, sem imagens mentais não há construção da realidade. O problema é que os símbolos nem sempre representam a realidade tal como é, mas uma distorção dela.

Por isso, pequenos animais podem ser vistos como monstros, falar em público é capaz de gerar um enorme estresse, e um novo desafio produz muitas vezes taquicardia e diarréia.

Para certas pessoas, o nome é um símbolo tão poderoso que sua perda gera um vexame social insuportável, como no caso do paciente a que me referi. Vamos então entender a razão de o ser humano e Deus darem tanta importância ao próprio nome. Para isso, vou explicar como esses símbolos são formados e como, em alguns casos, eles têm o poder de adoecer a psique.

Existe um fenômeno que chamo de RAM - registro automático da memória. Ele arquiva em nossa psique todas nossas experiências psíquicas, sejam elas saudáveis ou angustiantes, gerando diariamente centenas de representações psicossemânticas ou símbolos. Quando as experiências envolvem rejeição, injustiças, injúrias, o fenômeno RAM as registra de forma privilegiada, gerando numa área da memória uma zona de conflito, que chamo de janela killer.

As janelas killer contêm representações que geram alto volume de tensão. Quando são abertas, bloqueiam milhares de outras janelas, impedindo-nos de encontrar informações capazes de fornecer respostas inteligentes nas situações estressantes. É por isso que os maiores erros da nossa vida são cometidos nos primeiros 30 segundos de ansiedade, depois de uma experiência que causou estresse.

As palavras e reações que nunca deveriam ter sido expressas são produzidas nesse curtíssimo momento. Depois vem o arrependimento: "Puxa, exagerei!", "Poderia ter reagido de outro modo", "Nem pensei em quem estava ao meu lado". Nos momentos de tensão, o Homo bios pode prevalecer e dominar o Homo sapiens, obstruindo a inteligência e comprometendo os mais diversos níveis de consciência. Por isso, é sábio esperar algum tempo para reagir ante uma situação estressante.

Todos temos janelas killer, uns mais, outros menos. Mesmo as pessoas mais serenas passam por momentos de estupidez e ansiedade. Quem abre as janelas da memória? É aquilo que chamo de fenômeno do gatilho ou da autochecagem (Cury, 1999). Quanto tempo leva para abrir uma janela? Frações de segundos. Diariamente abrimos milhares de janelas das quais extraímos informações para dialogar, pensar, compreender o conjunto de imagens e sons que recebemos.

Antônio Damásio, respeitável neurocientista português, embora talvez não conheça os fenômenos do gatilho e das janelas da memória da teoria da Inteligência Multifocal, fala com propriedade sobre a formação da consciência a partir deles. Diz: "Você está olhando para esta página, lendo o texto e construindo o significado das minhas palavras à medida que lê" (Damásio, 1995).

O que Damásio quer dizer é que cada palavra escrita detona o gatilho, abre as janelas, fornece as representações simbólicas que geram as imagens mentais e idéias e financiam o espetáculo da consciência existencial.

Tenho estudado esses fenômenos por mais de duas décadas. O leitor não percebe, mas centenas de janelas estão sendo abertas durante a leitura deste livro, gerando uma consciência instantânea que o faz ter consciência de quem é, onde está, qual a posição do corpo no tempo e no espaço, qual o ambiente social. As janelas abertas geram a compreensão simbólica da realidade exterior. Parece que isso ocorre não apenas com o ser humano, mas com o Deus da oração do Pai-Nosso. Deixe-me explicar melhor.

4 - A complexa personalidade de Deus

Quando alguém nos ofende diretamente ou difama nosso nome, ainda que não nos fira fisicamente, detona o gatilho da memória, abrindo janelas com alto volume de tensão, capazes de nos ferir emocionalmente. É o jogo dos símbolos. Do mesmo modo, um elogio pode irrigar-nos de alegria, ainda que seja exagerado.

No mundo animal, os símbolos não importam. Um predador só é temido se atacar. Nenhuma gazela fica imaginando dias antes do ataque o seu derradeiro momento nem se perturba com o ataque sofrido no mês anterior. Mas na mente humana o jogo inconsciente entre o gatilho da memória e as janelas da memória gera o jogo dos símbolos ou representações psicossemânticas.

Só tem o jogo dos símbolos quem possui uma personalidade complexa, uma consciência virtual de altíssima sofisticação, como é o caso da mente humana. Tal jogo nos faz preocupar com o amanhã e sofrer com o passado. Só quem tem uma personalidade complexa se preocupa em construir uma história.

Deus se preocupa em construir uma história? A meu ver, sim, mais do que o ser humano. A própria Bíblia é um relato da história da relação de Deus com a humanidade. Ele dá imensa importância aos símbolos psíquicos. O inusitado pensamento contido na frase "Santificado seja o teu nome" comprova essa tese.

O nome de Deus esquadrinha sua personalidade, seu ser, sua história, sua consciência existencial. A preocupação com o próprio nome revela que Ele dá importância ao jogo das representações mentais. Aqui está o décimo segredo da oração do Pai-Nosso: Deus não é uma energia despersonalizada, mas um ser concreto, com uma personalidade altamente sofisticada, que constrói uma história e se preocupa com os símbolos psíquicos, entre os quais seu nome tem grande destaque.

Deus pode ser todo-poderoso intelectualmente, mas sua estrutura emocional não está isenta de alegrias e sofrimentos. Ele sente decepções e prazeres. O Deus do Pai-Nosso é mais "humano" do que podemos pensar, e nós somos mais "divinos" do que imaginamos. Jesus escandalizou os religiosos da época dizendo: "Vós sois deuses."

Jesus não queria dizer que devemos ser adorados, que somos infalíveis ou intocáveis. Ele sabia que somos cheios de falhas e fragilidades. Queria dizer que a estrutura emocional, e em certo sentido também a intelectual, tem princípios compatíveis com a do Deus que ele revela. Afinal de contas, só pode haver pai e filhos se ambos tiverem o mesmo nível de complexidade. Caso contrário, o conteúdo da oração do Pai-Nosso é uma utopia - algo irrealizável.

Quem é Deus? O que Ele está sentindo neste exato momento? O que Ele está pensando do meu livro? Meus textos são tolices, ou têm algum fundamento? O que Ele está sentindo a respeito do conflito árabe-judeu? A oração do Pai-Nosso nos provoca, rompe o superficialismo religioso e nos estimula a dar a importância à personalidade de Deus.

Deus sofre, sente júbilo, se frustra, se encanta com as reações humanas externas e com os pensamentos e intenções represados no recôndito silencioso das nossas mentes. Se o seu nome - Deus - não tivesse importância alguma, falar bem ou difamá-Lo também não teria importância. Mas Ele espera que seu nome seja santificado, valorizado, amado, honrado.

Um elogio, uma atitude humilde, um ato de amor e uma reação de generosidade não abalam em um milímetro a rotação da Terra, muito menos o movimento das estrelas, mas são capazes de abalar a estrutura emocional do misterioso Autor da existência. A interpretação do Pai-Nosso me inquieta e me encanta.

5 - O paradoxo de Deus

A frase "Santificado seja o teu nome" oculta também o décimo primeiro segredo: o paradoxo de o Pai querer que seu nome seja conhecido, honrado, difundido e santificado no meio da humanidade, mas, ao mesmo tempo, procurar o anonimato.

Diariamente milhares de pessoas em todas as sociedades lutam para preservar seu próprio nome, sua imagem. Algumas têm uma necessidade neurótica de autopromoção e se empenham para tornar seu nome célebre. Outras sentem uma necessidade compulsiva de colocar seu nome nos anais da história. Muitas pagam para sair nas colunas sociais. Há mesmo as que se dizem tão humildes, que têm orgulho da própria humildade.

Jesus usou o verbo no imperativo na construção da oração do Pai-Nosso: "Santificado seja", "Seja feita a Tua vontade, "Venha a nós o Teu reino", "Dá-nos o pão de cada dia", etc. É uma oração suave, mas revolucionária; tranquila, mas estrondosa. É uma pena que as pessoas a recitem sem compreendê-la em profundidade.

Apesar de usar o verbo no imperativo, uma análise filosófica das implicações desses verbos revela uma brandura fascinante. Nas Antigas Escrituras, ou Velho Testamento, algumas vezes Deus se apresenta como o poderoso senhor dos exércitos. Mas no Novo Testamento sua imagem é a de um Pai sensível, gentil, que possui uma solidão, que deseja abraçar toda a humanidade, mas dá plena liberdade para cada um seguir seu caminho. Como atrair os seres humanos? Que método usar?

Se quisesse controlar o ser humano e subjugá-lo seria facílimo para Ele. Mas Deus parece gostar do caminho mais complicado e inexplicável. Ele nos deixa atônitos com a singeleza das suas reações.

No grego, santificar significa "exaltar em adoração". Também significa ser separado e honrado de maneira única e exclusiva. Deus quer que seu nome seja santificado e adorado, mas, em vez de usar sua força descomunal, pede que o "grupo" de seguidores de Jesus realize seu desejo, sem qualquer gota de pressão ou agressividade. Nada tão estranho para alguém que possui tanto poder!

Deus quer ser honrado no seio da humanidade, mas, em vez de impor sua vontade, pede que as pessoas usem a ferramenta da oração do Pai-Nosso e de outras orações para realizar seu intento. Nada tão perturbador ! Quer que os seres humanos o exaltem, mas foge dos holofotes da mídia e não pune quem lhe dá as costas. Como não ficar fascinado com esse Deus?

Gostaria de saber se há algum teólogo que não se perturbe com esses comportamentos paradoxais. A teologia estuda Deus há milênios, mas quem pode perscrutá-Lo? Não sou teólogo, mas para mim um dos mais importantes ensinamentos da teologia deveria ser: "Estudamos Deus, mas, quanto mais O estudamos, mais concluímos que não O entendemos."

Se o estudo teológico, psicológico ou filosófico sobre Deus gerar orgulho e arrogância, algo está profundamente errado. Se despertar humildade e revelar nossa ignorância, estamos no caminho correto. Apesar de entrar em áreas que talvez outros não tiveram a oportunidade de estudar, cada vez mais penetro na minha ignorância.

Perturbados com o fato de Jesus não se autopromover, de valorizar o conteúdo, e não a estética, o interior, e não o exterior, alguns dos seus íntimos interromperam a caminhada da Galiléia para Jerusalém e o questionaram: "Não conseguimos entendê-lo. Ninguém que deseja ser divulgado procura se ocultar. Declara-te ao mundo."

Por que uma minoria é exaltada pela mídia, enquanto uma grande maioria gravita em sua órbita? Esse é um sinal de insensatez das sociedades modernas. Aqueles que buscam a fama e desprezam a riqueza escondida nas coisas simples e anônimas destroem sua saúde emocional.

O Mestre dos Mestres sabia que o culto à celebridade era uma estupidez da psique humana. Não queria ser exaltado de fora para dentro, mas de dentro para fora. Não queria uma platéia de torcedores, mas de pessoas que conhecessem o alfabeto do amor e da sensibilidade.

6 - Carlos Magno comete atrocidades em nome de Cristo

Milhões de cristãos adoecem psiquicamente porque valorizam o julgamento de um Deus severo, e não a compreensão do Pai amoroso; exaltam a grandeza do Criador, e não o abraço do Pai; enfatizam o temor que inspira o Todo-Poderoso, e não o afeto do Pai. Construíram em seu inconsciente um Deus diferente do que se revela no Pai-Nosso.

No século VIII surgiu na Europa um poderoso e legendário rei, Carlos Magno. Ele se tornou o mais importante dos carolíngios, nome pelo qual sua linhagem passou a ser conhecida. Patrocinou a literatura e as artes e procurou ampliar a grandeza da corte com a sabedoria cristã.

Carlos Magno era um rei guerreiro que se sentiu investido da missão da santificação cristã. Queria levar o nome de Deus e a conversão à fé cristã a todos os povos pagãos da Europa. Empreendeu muitas lutas, derramou sangue e forçou inúmeras pessoas a deixarem seus deuses e aceitarem o nome de Jesus Cristo. Subjugou povos para levar adiante a bandeira de Jesus, um absurdo inconcebível. Carlos Magno não conheceu o código do Pai-Nosso.

Se Jesus estivesse presente fisicamente nos tempos desse rei, também seria morto, considerado um herege, pois seu evangelho só tem validade quando se expõem as idéias, em vez de impô-las, quando se dá a outra face, quando se ama o inimigo e se respeitam as diferenças.

Muitos outros reis fizeram guerras em nome de Cristo. Na realidade, inventaram um "Cristo" em sua mente como desculpa para dar vazão à própria ambição, para dar curso à sua arrogância e sede de poder. Lembrem-se do que já dissemos: como a consciência existencial é virtual, torna-se facílimo criar um Jesus totalmente distante da realidade.

Quem são os piores inimigos das teorias existentes na ciência? São seus defensores radicais. Os piores inimigos de Marx foram os marxistas que não tiveram a ousadia de reciclar suas idéias e adaptá-las às situações atuais. Os piores inimigos da democracia também são seus defensores radicais que se enclausuram em suas idéias e não abrem o leque da inteligência para corrigir rotas.

Toda forma de radicalismo é um câncer contra a sabedoria. Quem são os piores inimigos de Deus? São seus defensores radicais! Aqueles que criaram em suas mentes um Deus que mata, fere, chantageia e conquista novos adeptos com uma "espada" sobre seus pescoços. Por isso o fundamentalismo gera transtornos inimagináveis

Apesar de Deus ter muitos nomes na Bíblia, bem como na Torá e no Alcorão, a deslumbrante oração ensinada por Jesus só aponta um nome: Pai. Pai é um nome que qualquer ser humano compreende, um nome que não fere nenhuma cultura e não fomenta qualquer sectarismo.

E por que a frase "Santificado seja o Teu nome" vem logo depois de "Pai-Nosso que estás nos céus"? Porque a honra e a grandeza de Deus não são o mais importante, mas sim seu coração de Pai. Muitos pais se preocupam sobretudo em fazer seus filhos os honrarem, obedecerem e seguirem seu manual de regras. Pouco investem no amor solene na relação com os filhos.

Tratam os filhos como depósitos de informações. Colocam-nos nas escolas para que os professores os eduquem no microcosmo da sala de aula, mas esquecem de criar um clima de afeto no microcosmo da sala de casa, procurando desenvolver a troca, o toque, o contato e o amor. Qual é o resultado? A falência do amor nos tempos modernos. A solidão grita. Como sempre enfatizo, a família moderna se tornou um grupo de estranhos.

Deus parece ter pavor de que sua família se torne um grupo de estranhos. É o amor do Pai que vem primeiro, seguido depois de seu nome, da obediência, da honra e de tudo o mais. Se o objetivo fundamental desse misterioso Deus fosse ter filhos bem comportados, obedientes e perfeitos, seria melhor que criasse robôs, pois nós, seres humanos, somos uma decepção. Mas Deus é dependente do amor.

A humanidade toda pode aplaudi-lo, reverenciá-lo, mas, se não houver um relacionamento íntimo e espontâneo regado pelo amor, Deus não saciará sua necessidade psíquica. Ainda será um Deus solitário e frustrado. É o amor que movimenta o intelecto do Autor da existência, que o encanta, o envolve, o inspira e é capaz de tocar o cerne da sua estrutura.

Augusto Cury