CAPÍTULO X

SEJA FEITA A TUA VONTADE

Seja feita a Tua vontade

1 - O Homo bios possui instinto, o Homo sapiens possui "vontades"

Jesus continua a ensinar a oração do Pai-Nosso. Ele quebrou paradigmas milenares com simples frases. Dissecou a solidão de Deus. Aliviou os temores humanos, revelando que o ser mais poderoso do universo é simplesmente um Pai carente de afeto.

Esfacelou toda e qualquer divisão ao inferir que esse Pai não é apenas pai dos judeus e dos cristãos, mas Pai da Humanidade. O sonho do grande Pai-Nosso envolve todo e qualquer ser humano. Jesus também nos deixou atônitos ao indicar que, apesar de ser apaixonado pela humanidade, esse Pai está nos céus, próximo para nos ouvir e distante o bastante para não nos controlar.

Espantou-nos afirmando que Deus tem reações psíquicas muito próximas das de qualquer mortal. Assim como nós, Ele se preocupa com o próprio nome, aprecia elogios, alegra-se quando é honrado, valorizado, aceito, envolvido, seja nos pensamentos seja nos diálogos humanos.

Foi mais longe ainda ao dizer que Deus possui um reino. Mas estilhaçou nossos conceitos ao mostrar que o desejo desse Rei é diferente do de todo rei humano ou líder político. Ele não quer controlar, dominar ou constranger o ser humano, mas libertá-lo de dentro para fora. Quer ensiná-lo a ser rei de si mesmo, líder do teatro da sua mente. É por isso que Jesus disse "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" {Lucas 23:34). Ele quer libertar, irrigar o ser humano de alegria, sabedoria e paz.

Continuando sua oração, Jesus fala de uma palavra aparentemente simples, mas que possui grande significado: vontade. Antes de entrar especificamente nesse pensamento, preciso tecer alguns comentários sobre a vontade como fenômeno psicológico.

A vontade representa a capacidade de escolha, de corrigir rotas, de definir metas. A capacidade de escolha, por sua vez, é fruto da consciência de um ser que pensa, sabe que pensa e tem capacidade de traçar, através dos seus pensamentos, os próprios caminhos e, desse modo, autodeterminar-se. A vontade nos retira do casulo psicológico, nos anima, estimula e excita.

Nietzsche defendeu a tese de que o mundo se constitui de vontade e poder (Durant, 1996). A construção das mais variadas vontades, sejam elas lúcidas ou estúpidas, altruístas ou egoístas, projetos a longo prazo ou desejos fugazes, bem como o poder para executá-las constituem o cerne do tecido social. Quem elabora vontades e consegue as ferramentas para materializá-las ocupa espaço, conquista terrenos, seja no campo financeiro, social ou intelectual.

Há vontades construtivas e vontades destrutivas. Se os diversos psicopatas que existem na sociedade, inclusive nos meios políticos, tivessem poder para executar suas vontades, causariam desastres. Tornar-se-iam ditadores cruéis, gerariam sociedades fascistas, fariam faxinas étnicas. De outro lado há inúmeras pessoas altruístas que, se tivessem o poder democrático para executar suas vontades, seriam promotoras de sociedades justas e livres e brilhariam mais do que qualquer político.

A vontade é diferente do instinto. O instinto representa uma pulsão biológica direcionada para a sobrevivência, como a fome, a sede e o sexo. A vontade é uma construção intelectual e emocional. A vontade é fruto da inteligência; o instinto, da carga genética. Por que nossa espécie é tão complexa e complicada? Porque nossas vontades convivem com nossos instintos. O homem intelectual convive com o homem animal.

Chamo de Homo bios nosso lado instintivo e de Homo sapiens a nossa face pensante. Há uma luta quase permanente nas salas de aula, nos escritórios e nas empresas entre o Homo bios e o Homo sapiens. Quando o primeiro prevalece sobre o segundo, ele potencializa os instintos, levando o ser humano a cometer atrocidades inimagináveis que outros animais jamais cometeriam, como guerras, vinganças, discriminações, competição predatória, assassinatos.

Mas quando o Homo sapiens prevalece sobre o Homo bios, algo fenomenal ocorre. Ele aprende a se colocar no lugar dos outros, se doa, se entrega, protege, solidariza-se, apoia, elogia. O Homo bios vive para si; o Homo sapiens, para si e para os outros. Quem só vive para si e sempre coloca suas necessidades em primeiro lugar é instintivo, tem o lado animal dominante, ainda que possua status de intelectual e títulos acadêmicos.

2 - Conclusões inquietantes

A multidão mal respirava ao ouvir as palavras do Mestre dos Mestres. Sua oração era música aos ouvidos do povo, mas certamente suas idéias não eram entendidas. Como acontece hoje, as pessoas que escutavam Jesus não prestaram atenção aos detalhes do que ele revelava. Mesmo os discípulos não penetraram nos segredos da oração naquele momento. Era um tesouro que precisaria de décadas para ser desvendado. E provavelmente alguns deles morreram sem conhecê-lo plenamente.

Jesus fez uma breve pausa, inspirou profundamente e proclamou: "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu." Vou começar tratando da primeira parte dessa frase.

A análise da frase nos leva a importantíssimas conclusões. A primeira é que Deus tem uma vontade, o que indica que Ele possui uma personalidade complexa, uma estrutura intelectual sofisticada, lá tratei dessa questão ao abordar o pensamento contido em "Santificado seja o Teu nome". Agora iremos ver que a psique de Deus é uma fonte de desejos.

As Escrituras dizem que Deus é o único ser que existe por si mesmo. Ele não precisa de nada para sobreviver, não se deteriora, não envelhece, não dissipa sua energia nem esgota sua existência ou experimenta os efeitos do caos que desorganiza toda a estrutura física no universo. Deus não possui, portanto, instintos nem precisa deles. Ele possui vontades.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus não fala de uma vontade qualquer, produzida aleatoriamente. Não podemos nos esquecer que essa oração é um mapa sintético, um corpo de enigmas que decifra o coração psíquico do Autor da existência. A segunda conclusão a que ela nos leva é que a vontade apontada por Jesus é uma vontade solene, sublime, que alça voos eternos e revela um plano quase indecifrável.

Eis o décimo quinto segredo: a vontade de que fala a oração do Pai-Nosso revela o projeto de vida de Deus. Um projeto rigorosamente bem planejado, cuja execução O levará até às últimas consequências.

Que projeto é esse? É o projeto do Pai. Seu projeto é ter uma família eterna, uma nova sociedade onde não haverá luto, dor, lágrimas, angústias, injustiças, mesmice. Ninguém pode negar que se trata de um sonho fascinante.

A vontade de Deus não é individualista nem egocêntrica. Ela inclui todos os seres humanos e é irrigada de afeto, pois não constitui o projeto de um Criador cercado de poder, mas de um Pai apaixonado por suas criaturas.

Deus não é passivo, aborrecido, inerte ou alienado. Ele não está sentado num trono em algum lugar do universo, com o cenho cerrado e reclamando: "Que vida dura! Como é difícil realizar minha vontade com os humanos !"

O Deus que Jesus revela com suas palavras e comportamentos é uma pessoa sorridente, de bom humor, sociável, que adora uma boa conversa e aceita de bom grado até mesmo uma simplória oração. Essa é a terceira conclusão.

Harold Bloom, respeitável crítico literário americano, comenta que Deus não é uma divindade amorosa como a que os cristãos cultuam (Bloom, 2005). Ele diz ainda que Jesus tinha uma relação social pouco afetiva, era pouco apegado aos seus discípulos. Se Bloom tivesse tido a oportunidade de analisar os comportamentos de Jesus, como eu o fiz, provavelmente reveria sua posição.

Na coleção Análise da Inteligência de Cristo mostrei um Jesus que implode conceitos teológicos. Ele gostava de festas e jantares. Era tão espontâneo, agradável e sociável que tinha a ousadia de se convidar para jantar na casa de pessoas que não conhecia.

Somos engessados, temos uma preocupação neurótica com nossa imagem social e com a opinião alheia. Jesus, não. Era espontâneo, solto, vibrante. Creio que o Deus que ele revelava tem as mesmas características. Tal Pai, tal filho.

A vontade de Deus o anima, excita, rejuvenesce e transforma no maior sonhador de todos os tempos. Essa é a quarta conclusão. Só um indecifrável sonhador carregaria no mapa da sua alma uma vontade que não se dissiparia nos tempos eternos. Entendo que para quem passou uma eternidade na solidão a humanidade deve ser uma festa, ainda que possa lhe arrancar "lágrimas" e transformar-se num grande pesadelo.

É melhor sofrer decepções do que não ter ninguém com quem se decepcionar, do que viver no silêncio. Devemos nos lembrar que para nós o tempo é fundamental, para Deus ele não existe. A vida média do ser humano é de 70 anos. Para Deus, esses anos são lampejos, breves minutos.

Mesmo 20 ou 30 bilhões de anos, que provavelmente é o tempo de existência do universo, é apenas um soluço de tempo perante a eternidade. Esse longo intervalo não deve durar para Deus muito mais do que o tempo da aurora ao ocaso de um dia.

3 - Os anti-heróis executando a vontade de Deus

A quinta conclusão da frase "Seja feita a Tua vontade" é que, sob o prisma da psicologia, a vontade de Deus evoca os mais altos patamares da maturidade psíquica. Os psicopatas vivem para si, os sensíveis se preocupam com algumas pessoas e os supersensíveis vivem para os outros. Deus é, no melhor sentido da palavra, supersensível. Ele vive para os outros.

Analisaremos posteriormente que, por incrível que pareça, Deus pensa mais na humanidade do que em si mesmo. Alguns dirão: "Não é possível. Veja quantas misérias solapam as sociedades! Onde está Deus?"

Essa pergunta é cortante e tem fundamento. Eu mesmo a fiz de diversas maneiras. Mas vamos deixar para discuti-la no próximo capítulo, quando entrarmos no grande embate filosófico entre Voltaire e Rousseau diante de uma calamidade que abalou a Europa em seu tempo.

Jesus pediu à multidão que orasse rogando a Deus para que Sua vontade fosse realizada. Por que Deus, cujo poder não tem limites, precisa da nossa oração para cumprir sua vontade? Não parece loucura? Se um rei tem um grande projeto e condições de executá-lo, por que precisa das frágeis súplicas humanas para estimulá-lo a cumprir sua vontade?

A sexta conclusão é que, apesar da importância do projeto para a humanidade, o misterioso Autor da existência rejeita o exercício do poder para executá-la. Ele possui um plano global e eterno, mas se recusa a usar a força para que esse plano saia da sua prancheta.

O fato de se colocar como um Pai faz com que Deus aja ao contrário do que o senso comum pensa de um líder. Ele não trata os seres humanos como serviçais, como criaturas que devem se prostrar diante de sua grandeza, mas como potenciais filhos. Como um Pai amoroso, que respeita os filhos, Deus não exercerá essa vontade de cima para baixo, mas de baixo para cima, ou seja, contando com a participação humana.

Ficamos com a impressão de que Deus dificulta as coisas, pois onde entra o ser humano entra o ciúme, a inveja, as segundas intenções, a competição predatória. Compreensível ou não, esse é o caráter de Deus apresentado por Jesus. O poder ilimitado do Deus da Bíblia encontra seus limites na ação humana. Ele não age se o ser humano não agir.

A sétima conclusão é que, apesar de ser decisivo na execução do projeto de Deus, o ser humano também deve desprezar o poder exercido pelas armas, pela pressão social, pela força física, pelo controle financeiro. Deve, ao contrário, valorizar as ferramentas nobilíssimas da inteligência que foram apresentadas no Sermão da Montanha.

Essas ferramentas se contrapõem ao ensinamento milenar das civilizações. Elas não constroem gigantes, mas anti-heróis. Para a sociedade individualista e agressiva, esses anti-heróis são fracos e tolos, mas para o senhor do universo são os verdadeiramente fortes, felizes e bem-aventurados.

Para Deus, os fortes usam o diálogo; os fracos, o poder e as armas; os fortes são pacificadores, diplomatas da paz; os fracos promovem conflitos; os fortes perdoam; os fracos condenam; os fortes amam e dão a outra face; os fracos excluem e, às vezes, eliminam os que pensam de forma diferente; os fortes não fazem propaganda de seus atos generosos; os fracos são especialistas em autopromoção, ainda que através de ações sutis.

A que classe pertencemos? Dos fortes ou dos fracos? Não poucas vezes reconheço que pertenço ao rol dos fracos. O Sermão da Montanha é um espelho que reflete nossas fragilidades e denuncia nosso egoísmo.

São os anti-heróis que cumprem a vontade do mais misterioso dos seres - Deus. São os que não se escondem atrás da sua maquiagem de falsa perfeição. Que Deus é esse que esfacela conceitos e inverte nossos valores?

4 - Procurando intimidade como o ofegante procura o ar

Um dos maiores erros das teologías das várias religiões ao longo dos séculos foi a formação de uma classe de especialistas em Deus que não se apoiaram nos alicerces da humildade. Humildade vem da palavra grega humus, que é a camada mais fértil do solo. Sem a humildade, a mente não fertiliza as idéias, não abre o leque da inteligência para descobrir o novo.

Alguns técnicos em Deus consideraram Jesus o mais herético dos seres. Não era possível que na pele de um miserável de Nazaré, um maltrapilho social, se escondessem os tesouros da sabedoria. Ao longo das eras, achando que estavam servindo a Deus, alguns técnicos em teologia, usando sua cartilha de heresias, subjugaram pessoas, sufocaram idéias, calaram vozes.

Infectados pelo orgulho, esqueceram-se de ser pequenos aprendizes. Apesar de termos produzido milhões de livros com bilhões de informações nas mais diversas áreas, da física à filosofia, da psiquiatria à teologia, ainda somos crianças mergulhadas num universo de mistérios. Sabemos muito pouco do quase-nada.

A todo momento temos o que aprender com os seres humanos e as experiências. Apesar de pesquisar e teorizar sobre o intangível funcionamento da mente por muitos anos, procuro aprender belíssimas lições com cada pessoa.

Mesmo os pacientes psicóticos, perturbados com suas alucinações e assombrados por idéias de perseguição, têm muito a me ensinar. Até um paciente depressivo cujo prazer de viver foi esmagado e teve o sentido existencial esfacelado pode nos dar preciosas lições.

Quem perde a capacidade de aprender torna-se intelectual¬mente estéril. Morre como cientista, pensador, escritor, profis¬sional, teólogo. É difícil conviver com esses mortos-vivos. Não entenderam que a sabedoria não está na convicção do quanto sabemos, mas na consciência do quanto não sabemos.

Sabemos pouquíssimo sobre a personalidade humana, menos ainda sobre a personalidade de Deus. Mas, se Ele afirmou que é um Pai, no mínimo deseja que os humanos ousem conhecê-lo, desvendá-lo, inquiri-lo. Qualquer pai que tenha o mínimo de conhecimento em psicologia sabe que se duas pessoas não se conhecem em maior profundidade a relação será artificial.

Não me canso de repetir: muitos pais e filhos não conhecem os capítulos mais importantes da história um do outro, apenas o prefácio. Nunca perguntaram quais foram suas lágrimas e conflitos mais marcantes. Sequer sabem quais são seus sonhos. O resultado? Suas relações são distantes, secas e frias.

Quase dois bilhões de pessoas repetem as palavras do Pai-Nosso, mas poucas agem como se Deus fosse um Pai cujo relacionamento deve ser íntimo, aberto, afetivo e até questionador.

Para muitos, esse Pai do Sermão da Montanha é despersonalizado, não tem um mundo a ser descoberto. Parece um Deus que exige uma servidão e um respeito algemados pelas correntes do medo.

Mas o Deus do Pai-Nosso, na realidade, estimula-nos a indagá-Lo e a romper o artificialismo religioso. Por isso, toda a oração está no imperativo:

"Santificado seja o Teu nome!

Venha a nós o Teu reino!

Faça-se a Tua vontade!

Dá-nos o pão de cada dia!"

É uma oração ousadíssima. Nela, Deus parece procurar intimidade com o ser humano como o ofegante procura o ar.

Augusto Cury