CAPÍTULO XI

A VIDA HUMANA TRANSCORRE
NO PARÊNTESE DO TEMPO

A vida humana transcorre no parêntese do tempo

1 - Indagando Deus

Objetivando conhecer a personalidade e as intenções desse Deus, faço alguns sérios questionamentos. Se Ele deseja extirpar as dores humanas, por que não o faz? Por que demora tanto para executar a sua vontade proclamada no Sermão da Montanha? Ele não vê as lágrimas das crianças aflitas que perdem seus pais e o clamor dos pais desesperados que perdem seus filhos? Que Deus é esse que não age?

Acidentes, terremotos, fome, violências fazem parte da rotina humana. Onde está o Deus Todo-Poderoso diante desse caos? Por que não intervém em nossas misérias? Bastava tão pouco para aliviar a humanidade. Essas perguntas me inquietaram durante muito tempo.

Um dos motivos que levaram a Europa, berço do cristianismo, a contrair sua espiritualidade e considerar a busca por Deus algo sem importância foi ter atravessado duas das maiores catástrofes da história, as duas grandes guerras mundiais.

Onde estava Deus diante de tanta miséria? Dezenas de milhões de pessoas foram mutiladas e mortas nos campos de batalha. Deus não ouviu o estampido das armas?

O próprio Papa Bento XVI, ao visitar um campo de concentração na Polônia, em 2006, ficou perplexo. Chocado com a agonia que os judeus e outras minorias sofreram, questionou com ousadia: onde estava Deus diante de todo esse sofrimento? Por que esse silêncio?

Algumas pessoas, embriagadas pelo superficialismo, o criticaram na imprensa mundial, dizendo que lhe faltou fé. Eu não sou uma pessoa religiosa, mas, em minha análise, nem de longe os pensamentos do Papa representaram ausência de fé. Foi um questionamento sensível que brotou das entranhas da arte de pensar, procurando indagar e conhecer o Deus do Pai-Nosso. Onde estava o Pai bondoso diante do palco de terror erigido nos campos de concentração? Por que esse Pai amoroso aparentemente silenciou enquanto as pessoas morriam de fome, frio e miséria?

O Papa entrou, provavelmente sem o perceber, no cerne do embate entre Voltaire e Rousseau. Fez um questionamento sincero diante de dilemas quase insolúveis para a mente humana. Discutir esse assunto é um convite à lucidez, um convite para os que procuram beber das fontes mais profundas da sabedoria.

Em algum momento da vida, todos os seres humanos fazem essas perguntas de diversas maneiras e em diversos níveis, ainda que elas permaneçam inaudíveis. Se não as fazem nos oásis da vida, fazem-nas na travessia dos desertos. Se não quando o mundo os aplaude, fazem-nas quando são vaiados, feridos e incompreendidos.

2 - O embate entre Voltaire e Rousseau

Esse questionamento levou Voltaire a criticar publicamente Rousseau por seu conformismo diante do gravíssimo terremoto que assolou a Europa, sobretudo Portugal, em 1755 (Durant, 1996). Voltaire e Rousseau, dois filósofos franceses brilhantes, colocaram Deus no centro da discussão que se estabeleceu diante da fatídica calamidade.

Conhecido como terremoto de Lisboa, a catástrofe estendeu-se pela Europa, África e América. Abalou também a ilha da Madeira, as Antilhas e a Groenlândia, bem como a Grã-Bretanha e a Irlanda. Grande parte da Argélia foi destruída. Seguiu-se ao terremoto um tsunami que varreu a costa da Espanha e a da África, submergindo cidades.

Foram minutos de terror que devastaram a vida de dezenas de milhares de pessoas. O abalo sísmico ocorreu num feriado religioso, quando os templos estavam lotados. Os desabamentos causaram uma tragédia indescritível.

Rousseau discorria sobre o sofrimento humano que o terremoto provocou. Tinha uma visão romântica da existência. A visão de Voltaire, um dos mais afiados iluministas, era pragmática e crítica da realidade. Rousseau queria defender Deus e mostrar que os seres humanos atravessavam os vales das suas misérias por causa de suas próprias ações. Voltaire questionava Deus e não aceitava esses argumentos.

Por que Deus permitiu essa tragédia? O que retém suas ações diante do sofrimento dos mortais? Será que a humanidade é um projeto falido que Ele abandonou? Será que Ele está ocupado demais para não intervir? Será que, apesar de desejar, Ele não consegue intervir na dor humana? Ou Deus nada mais é do que uma aspiração da nossa mente?

Muitos, ao longo da história, fizeram tais questionamentos e se tornaram ateus. Detiveram-se nas perguntas e não procuraram as respostas com a persistência do sedento em busca de água. Eu mesmo fui um dos poucos que entraram nesse labirinto.

Recordo-me das muitas vezes que mergulhei dentro de mim e, olhando para os terríveis eventos humanos, bombardeava-me de perguntas. Por fim, concluía: "Deus, você é uma invenção do meu imaginário!"

Eu me debatia num emaranhado de dúvidas, até que, depois de estudar detalhadamente a personalidade de Jesus, de compreender algumas vertentes do projeto de Deus e de analisar filosoficamente os fundamentos da existência, encontrei algumas respostas. Não sei se são respostas verdadeiras, mas foram as que aquietaram minha mente. Passei não apenas a crer em Deus, mas a me encantar com
Ele, embora sem defender uma religião. Tornei-me um ser humano sem fronteiras.

Quem dera que as pessoas, independentemente de suas religiões e crenças, fossem seres humanos sem fronteiras, sempre expondo, e não impondo, as suas idéias. A imposição das idéias, sejam elas religiosas, políticas ou cientificas, sempre foi um câncer que corrói nossa espécie e destrói a liberdade. Jesus divulgava seus pensamentos claramente, mas convidando: "Quem tem sede venha a mim e beba." Era um ato voluntário.

Foi o primeiro da linhagem dos seres humanos sem fronteiras. Por isso, repetiu dezenas de vezes que era o "filho do homem". Tal expressão indica que ele não tinha raça, cultura ou bandeira. Era, antes de tudo, um ser humano sem fronteiras e, em seguida, um judeu.

Por tudo isso, procurarei expor, e não impor, as respostas que encontrei sobre as reações do Autor da existência. Elas atingem frontalmente as indagações de Voltaire. O embate entre Voltaire e Rousseau indica que grandes mentes do passado discutiam sem fronteiras os fenômenos da existência e os ditames de Deus.

Infelizmente, a maioria dos pensadores da atualidade não debate mais sobre Deus. Deixam esse assunto apenas para os teólogos. Têm medo, vergonha ou dificuldade para formular idéias numa sociedade massificada. Reina o silêncio, cultivam-se os conflitos.

Observando a destruição e o sofrimento causados pelo terremoto de Lisboa, Voltaire expressou com argúcia três simples mas grandiosos questionamentos ou hipóteses: ou Deus não existe, ou existe, mas não quer executar a própria vontade, ou quer executá-la, mas não pode.

O iluminista tocou no centro da oração do Pai-Nosso.

3 - Discutindo os questionamentos de Voltaire

Vamos examinar a primeira hipótese: "Deus não existe." Comentei no início deste livro dois argumentos filosóficos que a derrubam. Primeiro, é impossível que o "nada existencial" seja despertado do seu eterno sono da inexistência para produzir o mundo existente. Segundo, o vácuo existencial jamais pode ser assombrado com o pesadelo da realidade, pois é eternamente estéril.

Diante desses dois argumentos, nenhuma idéia ateísta, nenhuma teoria evolucionista, nenhum tratado agnóstico, nenhuma teoria da formação do universo podem banir, em última instância, a idéia de Deus. Em algum momento da cadeia de intermináveis eventos que explicam o mundo existente Deus, ou qualquer nome com que se possa chamá-lo, tem de entrar.

Deus, portanto, é muito mais do que uma hipótese da fé, como até hoje tanto a ciência como as religiões pensaram. Filosoficamente falando, Deus não é uma hipótese cuja existência é possível, mas um ser impossível de inexistir. Só a existência pode construir, gerar e conceber a existência.

Um ateu, seja ele um intelectual ou um filósofo de botequim, pode dizer que não crê em Deus, mas não afirmar que "Deus não existe". Pode-se não ter qualquer religião, ser contra a idéia de Deus e bradar aos quatro ventos que não se crê Nele, mas é insensatez intelectual afirmar que Deus é um delírio da mente humana, como no passado eu pensava.

Portanto, sobram as outras duas argumentações de Voltaire. Vamos examinar a segunda: "Deus existe, mas não quer executar a própria vontade." Essa argumentação contrapõe-se ao Pai-Nosso. Deus é Pai, e como Pai deseja ansiosamente realizar a sua vontade. Mas alguém poderia questionar: será que essa oração não é uma utopia fabricada por Jesus, uma alucinação religiosa?

Vejamos.

Jesus falou coisas que nem os pacientes psiquiátricos em seus surtos psicóticos tiveram a ousadia de falar: "Eu sou o pão da vida, quem de mim comer jamais terá fome", "Quem crê em mim, ainda que morra, viverá", "Os céus e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão". Diante disso, poderia se concluir que Jesus foi o mais real dos seres ou a maior fraude da história.

Para interpretar o comportamento de alguém devemos analisá-lo dentro do contexto. Analisando os comportamentos de Jesus, observamos uma coerência, uma fineza de idéias, um altruísmo, uma solidariedade, uma capacidade de se colocar no lugar dos outros e de pensar antes de reagir sem precedentes. Alguém com indiscutível inteligência jamais poderia ser uma fraude ou um psicótico. Vamos recordar.

Ele conseguiu ver as lágrimas ocultas dos leprosos e estancou-lhes a solidão. Foi provavelmente mais generoso com eles do que seus pais biológicos, irmãos e amigos. Fez deles seus amigos. Solidarizar-se com os leprosos era mais importante do que o mau cheiro que exalava de suas feridas.

Jesus correu risco de morrer apedrejado por causa das prostitutas, mas não se importou em colocar sua cabeça a prêmio. Nunca as constrangeu nem denunciou seus erros. Como vimos, deu-lhes o status de seres humanos, tratou-as com respeito e compaixão. Seu altruísmo exalava o perfume mais excelente do afeto e da tolerância.

Disse que os mansos herdarão a terra, que as pessoas livres deveriam perdoar tantas vezes quantas fossem necessárias quem as frustrou. Afirmou que no julgamento do seu Pai, quem dá o rigor da lei não é a lei, mas o próprio ser humano. Acrescentou que seríamos medidos pela medida com que medirmos os outros. Tal comportamento não tem precedentes no mundo jurídico.

Procurou proteger Judas no ato da traição, resgatar Pedro com um olhar no ato da negação, e ainda lhe sobrou fôlego para soltar um grito ao Pai pedindo que perdoasse os carrascos que se encontravam aos pés da cruz.

Que homem é esse, capaz de deixar fascinada a psiquiatria e embasbacada a filosofia? Quem agiu com tal lucidez? Um homem tão lúcido não poderia estar brincando quando, no Sermão da Montanha, ensinou a mais intrigante oração da história. Portanto, o conteúdo dessa oração merece todo o crédito.

Se Jesus disse que o Deus que se esconde atrás do véu do tempo e da cortina do espaço é um Pai, o segundo argumento de Voltaire cai por terra: "Deus existe, mas não quer executar a própria vontade." A humanidade não pode ser um projeto falido abandonado por Ele, por mais que ela o decepcione.

Deus enxerga todas as lágrimas humanas, até as que nunca foram derramadas. Mas por que não age? O que causa seu silêncio? Essa é outra questão que introduz à terceira hipótese de Voltaire: "Deus quer executar a própria vontade, mas não pode."

4 - Sofrendo pela humanidade: vendo-a além do parêntese do tempo

Quanto mais tento entender a mente de Deus a partir do discurso de Jesus, mais Ele implode meus conceitos e rompe os parâmetros da minha lógica. Deus sofre quando vê uma criança ceifada por um câncer, vítima da fome ou de acidentes? Sim!

Uma mãe perdeu um filho de seis anos de câncer. Antes de sua morte, a mãe dia e noite ficava aos pés da sua cama. Cada gemido da criança a golpeava. Cada quilo perdido a afligia. Daria tudo que tinha, até a própria vida, para que o filho sobrevivesse.

De acordo com a oração do Pai-Nosso, é impossível que Deus não sofra com nossas dores. Devemos nos lembrar que Ele tem uma personalidade concreta e que é supersensível. Além disso, clama que amemos o próximo como a nós mesmos.

Se Ele faz esse revolucionário pedido, é porque o vive. Conclui-se que Deus ama o ser humano como a si mesmo. O território da sua emoção é tão embriagado de sentimentos que Ele se importa com o sofrimento da humanidade num nível maior do que a teologia jamais enxergou.

Porém, há um problema. Deus não intervém nas mazelas humanas como gostaríamos, ou intervém de uma maneira que não compreendemos, ou numa velocidade diferente da que desejamos.

Por que Deus reage de modo tão estranho? A única resposta que encontrei para todas essas indagações é que Ele enxerga os eventos existenciais além do parêntese do tempo, de modo completamente distinto de como os vemos. Nós enxergamos a temporalidade da vida, Ele vê a eternidade. Nós queremos aliviar o sofrimento imediato, Ele procura uma solução definitiva e completa.

Sofrer dias ou anos tem um peso enorme para os mortais, mas são frações de segundo perante o projeto eterno e inextinguível de Deus. Nele não há espaço para dor nem para o pranto. A vida será um eterno prazer, um jardim de sonhos, uma fonte de aventuras.

E como ter certeza desse projeto? Aqui a ciência se cala, e a fé começa seu discurso. Aqui a filosofia retém seu fôlego, e a esperança inicia seus argumentos. Crer na superação da morte e no projeto eterno de Deus é um mergulho no terreno indecifrável da fé.

Não há certeza científica. Só haverá uma certeza depois de enfrentarmos o momento final, o apagar das luzes da vida, o ponto mais frágil da existência humana, a mais insólita solidão, o instante único onde tudo o que temos e conquistamos não vale nada: a morte.

Enfim, só depois de enfrentarmos o drama de um túmulo poderemos confirmar o projeto de Deus. Quem quiser caminhar nessa trajetória tem de ter a humildade de deixar o terreno da ciência e cultivar nos solos da fé. Entretanto, apesar desse projeto entrar no âmbito da fé, podemos ainda tecer algumas teses a respeito dos comportamentos de Deus.

5 - Um Pai que estava chorando

Vimos que, se Deus estivesse no centro da Terra, provendo todas as nossas necessidades e nos superprotegendo, em pouco tempo o ser humano seria deus e faria de Deus seu servo, pondo-O a gravitar na órbita das suas vaidades e ambições. Todos aqueles que quiseram ser deuses na história tornaram-se algozes que violentaram o direito dos outros.

O Deus revelado por Jesus tem o sonho de estancar o sofrimento da humanidade como nenhum medicamento jamais conseguiu. Mas, se interviesse do jeito que desejamos, Ele destruiria completamente nossa liberdade, as pessoas perderiam sua espontaneidade e agiriam artificialmente.

Essa conclusão demonstra que o terceiro questionamento de Voltaire tem um sábio fundamento: "Deus quer executar a própria vontade, mas não pode." Se fizesse, seria um joguete nas mãos humanas. Não haveria amor, mas uma rede de interesses. O Deus do Pai-Nosso fracassaria.

Quem não entender esse processo poderá pensar que Deus inexiste ou que é alienado. Mas quem entendê-lo perceberá que o preço que Ele paga para dar liberdade ao ser humano é grande, e o que nós pagamos é gigantesco.

O conformismo de Rousseau, embora inteligente, é inaceitável. A inquietação de Voltaire é procedente. Deus quer desesperadamente agir, mas não age. Entretanto, apesar de aparentemente estar distante, nenhum sussurro de dor passa incólume, nenhum gemido fica inaudível e nenhuma emoção de cada criança ou de cada adulto passa despercebida para Ele.

Deus se angustia e sofre por cada ser humano mutilado, perseguido, injustiçado, vítima de violência ao longo da história da humanidade. Se não sofresse, poderia ser um criador, um arquiteto da existência, mas não seria Pai. Este é o décimo sexto segredo da oração do Pai-Nosso.

Para mim, esse é o segredo mais eloquente da oração mais conhecida do mundo e, paradoxalmente, a menos compreendida. Entretanto, apesar de sofrer, Deus deve proteger sua emoção e governar seus pensamentos num nível que desconhecemos. Caso contrário, não suportaria tanta dor na humanidade. Seu poder, onipresença e onisciência seriam um grande problema para Ele.

Mais de um milhão de crianças e adolescentes judeus morreram nos campos de concentração nazista. Mas Deus não é 100% pela humanidade? Onde, então, Ele se encontrava nesse momento? O que estava fazendo? Nada? Não! Deus estava chorando! Deus toma emprestadas as lágrimas dos seres humanos para chorar junto com eles.

Depois de uma análise detalhada, a única explicação que consegui encontrar é que o Pai da oração de Jesus estava pranteando, aflito, sofrendo junto com as crianças dos campos de concentração, bem como com outras crianças flageladas ao longo da história. Ele nunca esteve alienado.

Observando o sofrimento delas, saturado de compaixão, Ele talvez estivesse bradando aos céus para que em breve esses pequenos fossem acolhidos em seus "braços". Talvez estivesse proclamando no secreto do seu ser que em mais alguns instantes as aliviaria, cuidaria e protegeria pelos séculos dos séculos.

6 - A terra move os céus

A terra é um palco onde ocorrem os fenômenos naturais e onde o ser humano encena com plena liberdade a sua peça existencial. Segundo Jesus, a terra é o reino do governo humano. O reino de Deus tem de vir do "céu" para a terra, e a sua vontade tem de ser feita aqui como é realizada no "céu".

Mas como realizá-la? Como estimular Deus a intervir na humanidade já que Ele quer, mas não pode? Como desatar suas mãos, libertá-Lo para interferir na nossa liberdade? Esse é um assunto complexo. Somente a liberdade pode libertar plenamente a própria liberdade. Eis uma tese fascinante.

Só a construção livre de um diálogo aberto e espontâneo com Deus pode estimulá-Lo a ter liberdade para agir. Esse diálogo se chama oração. Nada é tão frágil como a oração no mundo físico, e nada é tão poderoso quanto ela no mundo espiritual.

Imagine a cena. Jesus estava no alto da montanha falando sobre o Deus Altíssimo. Em vez de dizer que esse Deus é magnífico, superpoderoso e capaz de executar a própria vontade sem nenhum problema, ele ergue um muro inimaginável. Pede para os seres humanos orarem para que Deus faça a sua vontade.

Ele quis dizer que, se o ser humano não agir, Deus não age. Ou age pouco. A liberdade do Autor da existência encontra limites na liberdade humana. Como exigir que a ciência não fique assombrada com esse fenômeno?

A Terra é apenas um planeta, mas, espiritualmente falando, é ela que move os céus. Por isso, o Mestre dos Mestres teve a ousadia de dizer que tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus. Que força é essa que tem a oração, capaz de romper as poderosas forças da física?

Incompreensível ou não, essa é a tônica do ensinamento de Jesus. Apesar de incompreensível, podemos vislumbrar a sabedoria filosófica sem precedentes de Deus, pois nada é tão democrático quanto a oração, seja ela feita em voz alta ou em silêncio, com eloquência ou timidez, formulando pedidos ou expressando agradecimentos.

Não se exige perfeição, puritanismo, competência intelectual, status social nem financeiro para orar. Apenas um coração singelo e honesto. Reafirmo, a oração é a mais democrática comunicação humana.

A oração de um miserável pode ter tanto ou mais valor do que a de um arquimilionário. A meditação de uma prostituta pode ser tanto ou mais penetrante do que a de um líder religioso. A súplica de um iletrado pode alçar um vôo mais alto na mente desse enigmático Deus do que a do mais ilustre pensador. Espantoso!

7 - 0 mais excelente educador

Os meninos e as meninas que foram mortos nas guerras, acidentes, doenças, ou violentados por psicopatas, desapareceram para sempre depois da destruição do seu córtex cerebral? As crianças que morreram ao nascer nunca mais conquistarão a consciência existencial?

Se essas crianças não tivessem direito de ter uma inteligência que permanece na eternidade, por que sofrer nesse árido deserto existencial? Que justiça haveria, se foram ceifadas tão cedo? Nenhuma. A oração do Pai-Nosso seria uma alucinação.

Só poderá haver justiça no projeto de Deus se as crianças que morreram na mais tenra infância conquistarem o direito de ter uma personalidade complexa, capaz de pensar, decidir, ter consciência crítica, enfim, de serem autoras da própria história.

Não estou usando nenhum argumento católico, protestante, islamita, judeu, espírita, budista ou de outra religião para defender essa idéia, apenas uma argumentação psicológica e filosófica.

A grande pergunta é: quem será o educador dessas crianças? Esse educador foi anunciado na eloquente oração de Jesus. É o Pai-Nosso.

Em outra oportunidade, o Mestre dos Mestres toca nesse assunto diretamente, embora de forma sintética. Uma das coisas mais fascinantes que disse foi que o reino dos céus pertence às crianças. E prosseguiu. Comentou que, se os adultos não se comportassem como elas, principalmente na sua capacidade de aprender, não entrariam nesse complexo reino.

E tem mais. Infere-se em sua abordagem que, quando as crianças e os adolescentes morrem, o Pai entra em cena e de algum modo que não nos foi revelado resgata suas personalidades e as educa. Deus as acolhe, acarinha, alivia, estimula e protege. Elas têm prioridade em seu reino.

E podemos também concluir que Deus cuida da solidão dessas crianças de um modo que nenhum pai ou mãe jamais cuidaria. Por quê? Porque, melhor do que ninguém, Ele sabe o que é a solidão. Ele foi um Deus solitário num tempo em que o tempo inexistia. Ele é um Pai carente que sabe amar e acariciar, pois tem necessidade psíquica de ser amado. Essa é uma grande notícia.

Jesus suavizou o traçado da existência. Não é preciso ter medo da vida, mas medo de não vivê-la plenamente. Ele retirou o temor da jornada e introduziu uma primavera de esperanças. Porém, para executar esse projeto, o Pai e o filho sujeitaram-se ao mais incompreensível vale da dor.

Apesar de todo o seu poder, nos últimos capítulos da história de Jesus, Pai e filho foram feridos, excluídos, humilhados. Por que não se pouparam? O que sustentava tamanha coragem? Por que tomaram o caminho mais árduo? Para entender tal comportamento precisamos estudar a crucificação de Jesus à luz da psicologia.

Augusto Cury