CAPÍTULO XII

A PAIXÃO DE CRISTO PELO
PRISMA DA PSICOLOGIA

A paixão de Cristo pelo prisma da psicologia

1 - Alterando as matrizes da sua memória

A paixão de Cristo sempre foi alvo de debates. Talvez este seja um dos assuntos mais discutidos, encenados e filmados de todos os tempos. No entanto, o que me entristece é que esse assunto crucial foi tratado frequentemente com superficialismo. O motivo é ter sido sempre focado pelos olhos da religião. Não estou defendendo a psicologia, mas os fenômenos psicológicos que ocorreram nos bastidores da cruz são tão ou mais importantes do que os teológicos. Aliás, são eles que fundamentam os fenômenos teológicos.

Para se ter idéia do que estou afirmando, vamos analisar este pensamento: os bastidores da cruz indicam que, pela primeira vez na história, um pai viu seu filho morrendo e não fez nada por ele. Quantas implicações importantíssimas estão inseridas nesse pensamento? Nunca na história um pai, sobretudo um pai rico em sensibilidade, reagiu do modo como Deus reagiu.

Por que Ele não protegeu seu filho, já que é o mais afetuoso dos seres? Se a pergunta for feita de outro modo, fica ainda mais insolúvel: qual foi o maior sofrimento, o do filho ou o do Pai?

Por que não houve uma solução que envolvesse menos dor? O que aconteceu na emoção e na memória de Deus diante da agonia do seu filho? Tenho feito essas perguntas a teólogos das mais diversas religiões. Muitos ficam atônitos, não sabem o que responder, pois nunca pararam para pensar nisso.

Para executar o projeto de Deus - a Sua "vontade" - ocorreu algo que deixa em pânico os pressupostos humanistas da filosofia: a morte de um filho. Querendo escalar o mais alto monte da inclusão e da solidariedade, Deus abandonou Jesus no vale mais cruel da violência. Por quê? Isso me perturbou muitíssimo. Até que visitei o solo dos insights - das percepções anônimas.

É muito difícil entrar nesse assunto, mas gostaria que o leitor tivesse paciência para raciocinarmos juntos. Imagine que em Sua poderosa memória Deus tenha arquivado todos os estupros, assassinatos, violência contra crianças, discriminações e demais formas de injustiça e crueldade cometidas no passado da história da humanidade.

Agora vamos imaginar Deus na perspectiva da oração ensinada por Jesus. Qual é seu maior problema para se relacionar com os seres humanos e dar a eles tudo o que é? A sua memória. Algumas pessoas nunca mais conversam depois de determinados atritos. Os atritos vividos foram registrados privilegiadamente na memória delas e se tornaram fatos inesquecíveis.

A memória contém a colcha de retalhos da personalidade, tanto de Deus quanto dos seres humanos. Deus não pode passar por cima da sua consciência crítica, não pode esquecer nossas loucuras. A sua memória é seu grande problema. A crucificação foi muito mais do que um ato de compaixão, amor, doação, sacrifício. Ao que tudo indica, ela atuou como um turbilhão que invadiu a mente de Deus e entrou nos recônditos mais ocultos da sua memória.

Antes de tocar nesse complicado assunto, preciso tecer alguns comentários sobre a memória e o processo de construção de pensamentos para formar uma base para meu raciocínio.

2 - Dois dilemas humanos

O ser humano vive dois grandes dilemas ligados aos papéis da memória. Eles afetam diretamente o desenvolvimento da personalidade e o funcionamento global da mente. Primeiro dilema: o registro da memória é involuntário, não depende da vontade consciente do eu, ou seja, da sua capacidade de decidir.

Nos computadores somos livres para arquivar o que desejamos, mas na memória humana não temos esta liberdade. Cada experiência emocional e intelectual, seja ela coerente ou perturbadora, é arquivada, pelo fenômeno que chamo de RAM - registro automático da memória -, na memória consciente (MUC - memória de uso contínuo) ou em regiões inconscientes (ME - memória existencial).

As experiências psíquicas do presente, logo após serem produzidas, experimentam o caos, deixando de ser imagens mentais, pensamentos organizados, prazeres, frustrações, e arquivam-se no córtex cerebral em forma de código físico-químico.

Segundo dilema: uma vez arquivadas, as experiências não podem mais ser deletadas. Isso nos diferencia de qualquer máquina inventada pelo ser humano.

Não é possível evitar o registro nem deletar os arquivos, sejam eles conscientes ou inconscientes, a não ser que haja um trauma físico, um tumor ou uma degeneração cerebral. Mas nós conseguimos reciclar o registro das experiências doentias se as criticarmos, através de um autodiálogo, no exato momento em que as experimentamos. Quem não consegue reciclar as ofensas ou frustrações no instante em que as experimenta destrói pouco a pouco sua qualidade de vida.

É importante saber que, passados alguns minutos do momento em que foram processados os registros doentios em nossa memória, é inútil tentar apagá-los. Não conseguimos mais esquecer - consciente ou inconscientemente - os problemas vividos. Eles viram pandemônios em nossa mente.

Eu não sei como funciona a memória de Deus, mas imagino que sua capacidade de registro é incomparavelmente mais eficaz do que a nossa. Concluímos então que nossas mazelas entulham Sua memória.
A leitura da memória é feita por territórios específicos ou janelas. Por essas janelas da memória interpretamos o mundo, enxergamos os eventos da vida. Nosso desafio é abrir o máximo de janelas para obter a maior quantidade de informações capazes de subsidiar a produção das melhores respostas.

O maior inimigo de quem vai ser sabatinado não são os examinadores, mas a própria ansiedade. O volume de ansiedade pode bloquear as janelas, impedindo o fornecimento de informações e gerando um desastre para o raciocínio.

Os registros de experiências saudáveis, como elogios, apoios, compreensão, desafios, atitudes de tolerância, geram janelas light, que são territórios que iluminam o eu e expandem a arte de pensar.

Por outro lado, os registros de experiências doentias, como medo, agressões, rejeições, perdas, geram janelas killer, que são as zonas de conflitos ou traumas. É a ansiedade existente nessas janelas que bloqueia a leitura das demais janelas, aprisionando a arte de pensar. Por isso, volto a repetir: os piores erros humanos ocorrem nos primeiros 30 segundos de estresse. É fundamental nesses momentos fazer a oração dos sábios: o silêncio.

Se não podemos deletar a memória, somos então reféns do passado? Sim! O passado sempre foi nosso libertador - quando aprendemos com ele e crescemos - ou nosso carrasco - quando nos subjuga e escraviza. Podemos ficar livres das pessoas e dos problemas externos, mas jamais ficaremos livres de nós mesmos, da nossa história.

Deus pode ficar livre da sua história? Ele pode evitar os registros em sua memória dos nossos comportamentos ou deletá-los, se quiser? Não sei. Mas, se pudesse fazer isso num passe de mágica, não seria justo nem com Ele mesmo nem com as pessoas que foram violentadas, feridas, injustiçadas. Portanto, reafirmo: a memória de Deus é seu grande problema na relação com a humanidade.

De acordo com a Teoria da Inteligência Multifocal (Cury, 1999), não podemos evitar o registro nem deletá-lo. O que fazer então para deixar de ser refém dos traumas do passado? Como superar os conflitos tecidos nas entranhas das janelas killer? Há dois caminhos: reeditar o filme do inconsciente ou construir janelas paralelas.

Esses caminhos foram construídos, ainda que intuitivamente, na psicologia moderna por duas grandes correntes teóricas: a psicanálise e as teorias comportamental-cognitivas (TCC).

O que é reeditar o filme do inconsciente? É sobrepor novas experiências no lócus das janelas killer. Essa é a especialidade das TCC. Isso ocorre quando um terapeuta comportamental faz uma intervenção direta nos sintomas do paciente e/ou o expõe aos estímulos estressantes.

Por exemplo, se uma pessoa tem claustrofobia - medo de lugar fechado -, ela deve entrar num elevador ou simular estar num ambiente fechado e discutir os seus sintomas com o terapeuta. Desse modo, tendo contato racional com o estímulo estressante e entendendo-o, o fenômeno RAM registra uma série de experiências que contêm segurança, ânimo, auto-estima, no lócus das janelas killer, reeditando-as.

Construir janelas paralelas, por sua vez, é produzir janelas light paralelamente às janelas killer. Essa é a especialidade da psicanálise e das psicoterapias analíticas.

Para entender esse processo, vamos tomar o mesmo exemplo da pessoa que sofre de claustrofobia. Em vez de expô-la ao estímulo estressante, o psicoterapeuta analítico usa a técnica de associação livre, estimula o paciente a falar tudo o que lhe vem à cabeça associado ao trauma ou fobia. Ou então investiga as causas que provocaram a fobia no passado. Essas técnicas levam ao autoconhecimento que, registrado, produz as janelas paralelas.

Vamos usar essas informações para entender minimamente os fenômenos psicológicos envolvidos na crucificação de Jesus. Por incrível que pareça, Deus, 19 séculos antes da psicologia moderna, ao que parece, usou esses dois caminhos para executar a Sua vontade eterna, Seu projeto de vida.

3 - Um clamor no Jardim do Getsêmani

Cerca de 9 a 12 horas antes de ser crucificado, Jesus se encontrava no Jardim do Getsêmani. Seu coração estava ofegante, taquicárdico. Seus pulmões procuravam mais oxigênio. Ele havia predito quatro vezes como morreria. Agora se preparava para a longa noite de escárnio, deboche e açoites e, em seguida, para a crucificação.

Bebia seu cálice amargo na mente. Tinha de se equipar para suportar o insuportável. O estresse era tão intenso que foi vítima de um caso raríssimo na medicina: os capilares sanguíneos romperam-se, extravasando hemácias junto com o suor. Só Lucas, biógrafo que era médico, descreveu esse detalhe em seu evangelho. Tinha de ser alguém com um acurado olhar clínico.

O mais tranquilo dos homens vivenciou o mais alto patamar da ansiedade, gerando uma reação depressiva momentânea e intensa. Todas as células do seu corpo clamavam através dos sintomas psicossomáticos para que ele fugisse da cena. Mas ele permanecia. Seu desejo? Fazer a vontade de seu Pai.

Jesus estava no apogeu da fama. Se quisesse ser um herói religioso, deveria esconder seu drama, camuflar sua fragilidade. Mas, ao contrário da maioria dos líderes religiosos, ele chocou a psiquiatria e a psicologia clínicas. Chamou três discípulos, Pedro, Tiago e João, e teve a coragem e o desprendimento de dizer-lhes que sua alma estava profundamente deprimida até a morte.

Sabia que Pedro o negaria e que os dois irmãos, Tiago e João, o abandonariam. Mas mesmo assim abriu-se com eles, foi honesto, transparente. Ensinou-nos assim a agir da mesma forma, mesmo quando as pessoas nos decepcionam. Ensinou-nos a não viver isolados. Devemos sempre abrir nosso coração com alguns amigos. Muitos intelectuais e líderes espirituais se isolam à medida que conquistam sucesso e fama. Tornam-se mais infelizes.

Jesus é exaltado em todas as grandes religiões, inclusive entre budistas e islamitas. Mas muitos não entendem que não foram seus grandes gestos os mais espetaculares, mas os pequenos. Ele nos ensinou a encontrar grandeza na pequenez, coragem na fragilidade, nobreza nas perturbações.

Gostamos de repartir o sucesso, mas somos péssimos para compartilhar os fracassos, os temores, as angústias. As sociedades modernas tornaram-se fábricas de pessoas que simulam suas reações. Grande parte dos sorrisos são disfarces.

Foi nesse clima que Jesus, horas antes de morrer, viveu intensamente um dos pensamentos mais vivos da oração do Pai-Nosso: "Faça-se a Tua vontade assim na terra como no céu." Esse é o décimo sétimo segredo dessa oração. Jesus clamou ansiosamente: "Pai, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas a Tua vontade."

A vontade do seu Pai estava em jogo. Se Ele quisesse, sua vontade prevaleceria. Deus só aceitaria um sacrifício de amor, um ato único e espontâneo.

No Jardim das Oliveiras, Jesus viveu o que pregou no Sermão da Montanha. É significativo. As azeitonas são prensadas para produzir um rico azeite. O Mestre da Vida foi prensado pela dor para reciclar a memória de Deus.

Jesus não era um suicida. Raramente alguém amou a vida tão intensamente quanto ele, mas, desobedecendo ao clamor de bilhões de células que produzem sintomas psicossomáticos e que rogavam que fugisse, ele ficou. Estava chorando, ofegante, não queria morrer, mas pediu a Deus que executasse a Sua vontade. Estava disposto a ir até o fim.

4 - Usando o princípio da técnica comportamental-cognitiva

Certa vez, na Segunda Guerra Mundial, um filósofo que sempre foi muito gentil e compassivo, ao ver um soldado matando pessoas inocentes, ficou tão transtornado que pegou em armas e atirou nele. No foco de tensão, não raciocinou.

Ao clamar "faça-se a Tua vontade", Jesus sabia que essa vontade envolveria os insondáveis sofrimentos impostos pela crucificação. E o que era mais insuportável: para agradar o Pai, o filho deveria amar quando odiado, incluir quando discriminado, perdoar quando escarnecido. Tarefa que nenhum ser humano jamais realizou em qualquer foco de tensão.

O que aconteceu com Deus no momento em que Jesus morria? Que fenômenos atingiram a mente desse Pai que o filho descreveu no alto de uma montanha? Enquanto Jesus gemia de dor, ocorria na psique de Deus um turbilhão emocional que conquistou uma força incontrolável e invadiu diretamente os solos da sua supermemória. Beira o inimaginável!

Novamente pergunto: Quem mais sofreu? O filho que morria, ou o Pai que assistia? É difícil dizer. Nenhum pai ou mãe desejaria jamais, nem em pensamento, experimentar essa situação.

João, o discípulo que quando andava com Jesus era jovem e inexperiente, escreveu em sua velhice algo que jamais lhe saíra da sua mente: o Pai e o filho cometeram loucuras de amor pela humanidade {João 3:15).

Certa vez, pai e filho seguiam pela mesma estrada, cada um em seu carro. O pai vinha atrás. De repente, o filho perdeu o controle do veículo e chocou-se com uma árvore. Não havia ninguém para ajudar. O filho estava preso nas ferragens e sangrava. Em seguida, o carro começou a pegar fogo. O rapaz gritava, desesperado: "Pai, me salve, não me deixe morrer!"

O pai entrou em total angústia. Contrariando os manuais de segurança, sacudia a porta com todas as forças, tentando abri-la. O fogo queimava suas mãos, mas ele não se importava, lutaria pelo filho até as últimas consequências. O carro ameaçava explodir, mas o pai não enxergava o perigo. Só conseguia ver a face de sofrimento do seu filho. Perdê-lo era perder tudo o que tinha. Foram segundos de tensão extrema. Por fim, conseguiu resgatá-lo.

Nunca mais pai e filho esqueceram a cena. O pai ficou tão abalado que durante anos acordava sobressaltado. Reconstruía tudo em sua mente, imaginando o que teria acontecido se não estivesse presente.

Ouvia a voz do filho clamando por ele. O registro daquela experiência foi privilegiado e se tornou inesquecível.

Eu fico pensando no desespero do Deus do Pai-Nosso ao ver seu filho se contorcendo de dor. Enquanto o filho morria fisicamente, o Pai provavelmente "morria" emocionalmente. As seis horas da crucificação foram mais longas do que toda a eternidade para o Deus onipresente.

Durante a travessia nos vales áridos do sofrimento, Deus reeditou as matrizes da sua memória. Usou, com a mais excelente maestria, o princípio das teorias comportamental-cognitivas. Enquanto seu filho morria, Ele se expôs ao máximo aos estímulos estressantes e viu passar em sua mente o filme contendo todos os erros, violências, falsidades, discriminações, agressões, ambições cometidas pela humanidade em todas as eras.

Nunca um pai abandonou um filho num momento extremo, ainda mais um pai amoroso. As cenas indescritíveis de seis horas na cruz penetraram como um raio na memória sofisticadíssima de Deus, causando um vendaval sem precedentes. Foi inesquecível.

Não consigo enxergar de outro modo. Todas as frustrações e decepções causadas pelos seres humanos ficaram diminutas, um grão de areia num deserto. Foi um ato de amor solene que mexeu com fenômenos psicológicos, gerando uma revolução única no funcionamento da mente do Autor da existência. Por isso, há um texto nas Escrituras em que Deus tem a coragem de dizer ao ser humano: "De suas falhas nunca mais me lembrarei."

Como Deus pode esquecê-las, se elas são gritantes? Para nós é impossível deletar a memória. Deus não a deletou, Ele a reeditou. Foi um prodígio incrível. Passou a limpo o passado da humanidade. Fez o que não seria possível a qualquer juiz ou sistema jurídico realizar.

Nós, médicos, somos silenciados diante do fim da vida, derrotados pelo último suspiro da existência. Nos velórios, os mortos silenciam e os vivos refletem, tomando consciência de que a vida é belíssima, como as flores na primavera, mas perde seu esplendor aos primeiros raios do tempo. Mas, no projeto de Deus, a morte deixa de ser um ponto final e passa a ser uma vírgula na história. Nunca o amor atingiu patamares tão elevados. Nunca a bondade foi tão generosa.

Mas, e as falhas futuras? Como resolver as loucuras das gerações seguintes? Não bastava reeditar a memória, o passado. Era necessário abrir um fato inesquecível, uma janela light memorável na mente de Deus. Era necessário construir a mais excelente janela paralela.

5 - O princípio da técnica analítica reescrevendo a memória de Deus

Quando Jesus estava no ápice da dor física e emocional, na primeira hora da cruz, aparentemente o Pai não suportou seu sofrimento. Iria intervir e resgatá-lo. Creio que esse foi um fenômeno jamais analisado na história, especialmente pela teologia.

Quando Deus parecia prestes a intervir, Jesus, num esforço sobre-humano, clamou: "Pai, perdoa-os porque eles não sabem o que fazem." (Lucas 23:34)

Essa frase possui uma força incalculável. Provavelmente foi a primeira vez na história que um ser humano mutilado e esmagado pelo sofrimento conseguiu abrir as janelas da memória, construir pensamentos com maestria e se preocupar com as pessoas que o torturavam.

Do ponto de vista psiquiátrico, quando alguém está ferido, o Homo bios - o lado animal ou instintivo - prevalece sobre o Homo sapiens. Não devemos esperar uma resposta inteligente de alguém ferido física ou emocionalmente.

Einstein se irritou com os que defendiam o princípio da incerteza da teoria quântica, dizendo "Deus não joga dados". Freud excluiu amigos que não pensavam como ele. Muitos pensadores foram mais longe. Perseguiram e ainda perseguem seus discípulos ou parceiros quando sentem ciúmes ou são ameaçados por suas idéias. Nos focos de estresse, nosso lado predador acorda.

Seria compreensível que Jesus reagisse com intensa irritação, violência e ódio contra seus inimigos. Não havia nenhuma condição intelectual para raciocinar quando estava cravado na cruz, muito menos para entender, desculpar e incluir seus carrascos. Mas, esfacelando os parâmetros da lógica psicológica, ele os defendeu diante de Deus.

Os judeus foram rejeitados e banidos ao longo dos séculos por terem sido acusados de assassinar Jesus. Eu tenho raízes judias e digo que essa punição é uma indecifrável injustiça. A grande maioria dos judeus o amava. Houve apenas um grupo de fariseus e sacerdotes que o rejeitaram.

No fundo, toda a humanidade estava representada por esses fariseus, bem como pelos soldados romanos. Reitero: Jesus defendeu todos os seres humanos perante Deus.

Só faltou Jesus acrescentar o que estava implícito: "Apesar de tudo eu os amo e sei que Tu os amas. Apesar de eu estar sendo tratado como o mais vil dos homens, Tu és o Pai-Nosso. Não Te importes comigo, pensa apenas na humanidade." Era como se ele fosse aquele filho preso entre as ferragens, sangrando e queimando, mas pedindo para seu Pai não salvá-lo. Pedindo-lhe para não correr riscos por ele, mas cuidar dos outros irmãos.

O filho chorava sem lágrimas enquanto o Deus Altíssimo descia das alturas e curvava seu rosto sobre a Terra, desesperado. Eu não consigo descrever a cena. Cada reação de dor, tremor e asfixia do filho percorria as entranhas do ser de Deus. Ele ficava sufocado quando Jesus não conseguia abrir seus pulmões para respirar.

Ao gritar a plenos pulmões para Deus perdoar os seres humanos que zombavam dele e o matavam, dizendo que eles não sabiam o que estavam fazendo, Jesus, como o mais excelente analista, compreendeu o incompreensível.

Enquanto vivia o drama do Calvário, mergulhou dentro de si e gerou o mais elevado autoconhecimento já atingido em situações de estresse. Um autoconhecimento provavelmente jamais alcançado por Freud, Jung, Adler, Melanie Klein, Bion. Ele sabia o que queria. Sua morte não foi um suicídio. Jesus cumpria o mapa da oração do Pai-Nosso.

Sob o olhar da psicologia, foi nesse momento, penso eu, que se produziu uma janela memorável na mente de Deus. Foi aí que um ser humano assumiu a plena forma do cordeiro de Deus. A partir desse acontecimento, toda vez que um ser humano erra e se aproxima de Deus, seja qual for a maneira de aproximação, suas falhas são compreendidas. Se Ele perdoou os torturadores de Seu filho, quem pode escapar da grandeza do Seu amor?

Não há pessoa vil, miserável e impura que não possa ser abraçada pelo Deus do Pai-Nosso. Por isso, essa oração é revolucionária, gera um rio de tranquilidade numa sociedade altamente punitiva e agressiva. Quantas atrocidades foram cometidas na história em nome de um deus punitivo e implacável construído no inconsciente coletivo - um deus que nunca existiu?

Ao tratar de algumas pessoas extremamente ricas, vi miseráveis morando em mansões. Não tinham problemas externos, mas eram vítimas das janelas killer nas suas memórias. Nunca tinham reeditado o filme do inconsciente ou construído janelas paralelas. Eram prisioneiros vivendo em uma sociedade livre. Eram pessoas infelizes, embora invejadas socialmente.

O Dalai-Lama é um dos mais brilhantes divulgadores do ato de compaixão. Não sei se ele teve a oportunidade de estudar os fenômenos psicológicos por detrás da intrigante passagem das últimas horas da história de Jesus na Terra.

Se estudou, deve ter ficado extasiado. O Pai e o filho viveram o ápice da compaixão num momento em que qualquer ato solidário parecia inimaginável. Percorreram as avenidas de seus próprios seres e, ao mesmo tempo, se colocaram no lugar dos humanos e se compadeceram de cada um deles num contexto em que era impossível pensar nos outros, apenas em si mesmos.

Amaram quem os odiou, abraçaram os que lhes deram as costas, beijaram quem lhes cuspiu no rosto. Foram livres e fortes, pois só os fortes são capazes de dar a outra face, só os livres têm um romance com a vida e são apaixonados pela humanidade.

Augusto Cury