CAPÍTULO XIII

PROCURANDO O DEUS DESCONHECIDO

Procurando o Deus desconhecido

1 - Faça-se a Tua vontade assim na terra como no céu

Somos a única espécie que exalta a liberdade, e a única que é especialista em destruí-la. Há décadas temos condições de estancar a fome no mundo, mas o jogo de interesses beira o instinto selvagem. Sobram boas intenções, falta vontade política. Toda escolha implica perdas, mas quem está disposto a perder?

Somos a única espécie que fala da paz, mas também a única que conspira contra ela. Na época de Sócrates e Platão, um terço da população grega era constituída de escravos. Escravizamos inimigos de guerra, índios, negros, crianças e até nós mesmos.

Falamos com o mundo pelos celulares, mas não sabemos falar de nós mesmos e, o que é pior, nem com nós mesmos. Muitos percorrem o mundo, mas são forasteiros em suas próprias casas e com eles mesmos. Rejeitam a solidão, mas conhecem no máximo as camadas externas da sua personalidade. Abandonaram-se numa sociedade de solitários.

Jesus encerra a primeira parte da sua oração tocando indiretamente no mundo contraditório da mente humana. No Pai-Nosso, ele ensina as pessoas a suplicarem para que Deus execute Seu projeto ou Sua vontade na terra, assim como ela é feita no céu.

Não sabemos que céu é esse. Mas, como vimos, é um lugar suficientemente distante para que Deus não superproteja o ser humano e perto o suficiente para que Ele perceba as nossas intenções e ouça o sopro mais silencioso das orações. Segundo Jesus, nesse céu, seja onde estiver e o que for, não há problemas. Nele, o misterioso Autor da existência tem completo domínio.

A terra é o problema. Em meu pensamento, ao falar da terra, Jesus se referia menos ao mundo físico e mais aos solos da psique humana. Certa vez, colocou-se como um semeador e classificou o coração psíquico em quatro tipos: os superficiais, que são impermeáveis e não se abrem para novas idéias; os entusiasmados, que aderem com alegria a situações novas, mas desprezam suas raízes; os preocupados, que são meticulosos, mas pouco a pouco se atolam em atividades e por isso são asfixiados pelos eventos da vida e pelas riquezas.

Por último, descreveu a boa terra em cujo solo se cultiva um conhecimento profundo. O solo de alguém com sede de conhecer, com o desejo ardente de mudar suas rotas existenciais.

Nossa psique tem inúmeras áreas inconquistáveis. Quantos não se tornam máquinas de trabalhar? Quantos não se aprisionam pela necessidade neurótica de poder e prestígio social? No livro A ditadura da beleza comento o padrão tirânico da beleza que escraviza milhões de pessoas, em especial as mulheres, esmagando a auto-estima e gerando uma série de transtornos, como anorexia nervosa, bulimia e depressão.

Construímos cultura, ciência, política e economia, mas não sabemos alargar as fronteiras da inteligência para resolver nossos milenares conflitos intrapsíquicos e psicossociais. Uma crítica nos derrota, uma rejeição nos golpeia e uma decepção ainda furta a tranquilidade de muitos.

Nossa espécie é antropocêntrica - vê o ser humano como centro do universo - e como tal deseja que a natureza, o mundo físico e até Deus gravite em nossa órbita. Temos vocação para sermos deuses. O egoísmo e o individualismo não precisam ser ensinados, pois desenvolvem-se espontaneamente como erva daninha no solo da personalidade. A solidariedade e a capacidade de se doar são plantas delicadas que dependem de um refinado trabalho educacional.

2 - Schopenhauer e o apogeu do pessimismo

Muitos, ao analisar cruamente o solo psíquico e social, bem como as atrocidades cometidas por nossa espécie, penetraram no vale do negativismo existencial. Sófocles há muitos séculos já via o mundo com pessimismo. Observando eventos sociais e históricos, disse: "Nunca ter nascido é a sorte mais feliz, e, depois disso, a melhor coisa é morrer jovem."

O pensamento de Sófocles era mórbido, para ele não havia beleza que compensasse os capítulos tristes da vida. Não conseguia ver esperança no caos, aprendizado nas perdas e prazer depois das tempestades.

Arthur Schopenhauer foi um mito do pessimismo (Padovani, 1994). Nascido em Dantzig, na Polônia, em 1788, era de família ilustre, abastada e de requintada cultura. Dedicou-se ao mundo das idéias, fez incursões na filosofia. Viajou pela Europa conhecendo pessoas das mais diversas castas e culturas. Formou-se em 1813 e, alguns anos depois, passou a lecionar na Universidade de Berlim.

Para Schopenhauer, a vida humana transcorria tragicamente entre o sofrimento e o tédio. O desejo, inerente à vida, quando não satisfeito, expandiria a dor psíquica, trazendo a reboque a fadiga e a mesmice.

Sua análise pessimista da condição humana ganhava combustível ao observar as discrepâncias sociais, as atitudes irracionais e as miserabilidades humanas. Certa vez arquitetou com inteligente argúcia estas palavras: "Se é certo que um Deus fez este mundo, eu não queria ser esse Deus. As dores do mundo dilacerariam meu coração."

Para mim, o mau humor e o pessimismo de Schopenhauer decorriam não apenas da visão crítica dos eventos sociais, mas principalmente da falta de proteção emocional. A terra da sua emoção era invadida facilmente pelos multiformes conflitos humanos. Era hipersensível, não sabia filtrar os estímulos estressantes.

As pessoas hipersensíveis costumam ser ótimas para os outros, mas algozes de si mesmas. Sofrem o impacto dos pequenos problemas, vivem a dor dos outros e se doam demais. Infelizmente, não sabem se proteger.

3 - Deus não é pessimista

Quanto mais se tem consciência da realidade, maiores são as chances de asfixiar a singeleza e o prazer. Quanto mais se percebem os sofrimentos e dificuldades da vida, mais aumentam as preocupações e aflições. Por isso, em tese, as crianças são mais felizes do que os adultos.

O excesso de conhecimento, sem a arte da contemplação do belo, expande a angústia. Não espere encontrar nas universidades os seres humanos mais bem-humorados. Não espere que os psiquiatras e psicólogos sejam as pessoas mais alegres.

É claro que existem exceções, mas, por lidar com a miséria humana, muitos se tornam excessivamente críticos, têm mais dificuldade em se soltar, em brincar, e relaxam menos. Quem lida com as mazelas humanas precisa treinar diariamente a própria inteligência para viver com suavidade, para se encantar com os pequenos eventos do cotidiano que o dinheiro jamais compra.

Será que Deus é pessimista? Embora tenha todos os motivos para sê-lo, não parece haver sombra de pessimismo no seu dicionário! Recapitulando tudo o que escrevi neste livro, conclui-se que o Deus do Pai-Nosso é o mais otimista dos seres. Seu humor é irrefreavelmente irrigado de motivação e esperança.

No Antigo Testamento, às vezes Deus parece autoritário e mal-humorado. Mas uma análise acurada de algumas de suas reações, dentro do contexto histórico, revela uma paciência ímpar, uma tolerância sólida. Nossa irritabilidade surge nos primeiros segundos das frustrações, a de Deus surgiu depois de décadas ou séculos de silêncio.

Jesus tinha mais motivos do que Sófocles e Schopenhauer para ser um pregador do pessimismo. Foi perseguido de morte aos dois anos de idade. Carregou toras e serrou madeiras na adolescência. Não teve privilégios sociais.

Quando adulto, não tinha morada certa. Dizia que as raposas e as aves dos céus possuíam um lugar para repousar, mas ele, não. Foi exaltado solenemente e rechaçado como poucos. Expulsaram Jesus de ambientes sociais, zombaram dele publicamente, foi considerado escória do mundo.

Alguns quiseram apedrejá-lo. Outros o julgavam impostor. Outros ainda o achavam indigno de viver. Além disso, tinha a mais aguda consciência de que o sistema era doentio e controlador.

O que se esperaria de uma pessoa com esse currículo? Humor depressivo, ansiedade, pessimismo desenfreado, irritabilidade exacerbada. Mas jamais se viu alguém com tamanha serenidade e otimismo.

Era tão tranquilo que tinha coragem de dizer às pessoas que aprendessem com ele o caminho da mansidão e da paciência. Era tão feliz e bem resolvido que teve a coragem de convidá-las a beber do seu prazer de viver.

Apesar de toda a avalanche de estímulos estressantes, não culpou ninguém por sua miséria exterior. Entendia que por detrás de alguém que o frustrava havia uma pessoa decepcionada com a vida.

Sabia proteger sua emoção. Exaltava o que tinha e não recla¬mava do que não tinha. Era um artesão da emoção. Em meio à sua intensa atividade, era capaz de deter-se para observar as coi¬sas pequenas. Gostava de festa e de diálogos prolongados. Sabia contemplar o belo. Transitou com suavidade pelo teatro da vida.

Jamais reclamou, a não ser uma única vez. Pregado na cruz, proferiu algumas palavras incomuns na sua biografia. Reclamou não do coração ofegante, das fibras musculares lesadas, da desidratação, da angústia, da rejeição que o mundo lhe dispensava. Reclamou da mais dramática solidão, ao bradar: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46).

Nas primeiras três horas da crucificação, Jesus chamou o Autor da existência de Pai. Nas últimas três horas, assumiu plenamente a condição humana e O chamou de seu Deus. Foi pouco antes de morrer que sentiu a ausência de Deus e não a suportou.

Ele sabia que Deus iria abandoná-lo, sabia que teria de passar pelos extremos da solidão antes de seus últimos suspiros, mas não havia experimentado a dimensão desse sofrimento. O pensamento central dos evangelhos nos deixa pasmos: Deus abandonou seu filho para resgatar a humanidade que o abandonou.

Diante disso, refaço a pergunta: quem foi mais esmagado pela solidão, o filho ou o Pai? Cada um deve construir sua própria resposta e meditar sobre ela. Mas talvez só sejamos capazes de obter uma resposta plausível quando passarmos por uma forte experiência de abandono.

No entanto, é possível inferir que a solidão calou mais profundamente em Jesus e no Deus do Pai-Nosso do que consegui descrever nesta obra.

4 - O ateísmo de Nietzsche e o equívoco de Deus

Depois de ter percorrido as idéias de grandes ateus, por fim entrarei nas idéias de Nietzsche. Ele foi o mais inteligente e contundente dos ateus. Muitos religiosos tremem diante dos seus pensamentos. Consideram-no o mais herético dos intelectuais. Não é o que eu penso.

Sobre os alicerces do seu ateísmo, Nietzsche indaga com contundência: "Como? O homem é só um equívoco de Deus? Ou Deus é apenas um equívoco do homem?" (Nietzsche, 1888.)

Se esse arguto filósofo tivesse estudado os segredos fascinantes da oração do Pai-Nosso, entenderia que Deus e o ser humano são cúmplices um do outro, frutos do mais excelente equívoco, o equívoco do amor. Um amor nascido nas tramas sublimes da solidão.

Nietzsche era de fato um ateu? Queria destruir a idéia de Cristo do seu imaginário? Achava uma estupidez psicológica o ser humano procurar por Deus nessa curtíssima trajetória existencial? Considerava um desperdício ocupar a mente com as idéias sobre Deus? Não!

Nietzsche procurava preparar os solos da sua psique para conhecer os mistérios que cercam a vida. Era alguém inconformado com o superficialismo. Nele havia um desespero intelectual em busca do Autor da existência.

Sua ansiosa procura foi um dos exemplos mais espetaculares da inquietação de um ser humano imerso nos pântanos da solidão. Para discutir esse assunto, quero transcrever e depois comentar uma "oração filosófica" feita pelo próprio Nietzsche, e que é muito pouco conhecida. Esta oração foi traduzida pelo ilustre Leonardo Boff diretamente do alemão (Boff, 2000):

5 - Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente, uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: "Ao Deus desconhecido."
Teu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-Te.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti.
(Friedrich Nietzsche)

Nessa oração, os pensamentos de Nietzsche fluem como um rio que jorra do manancial das suas dúvidas. Esse rio flui não apenas na direção do Deus que está além dos limites do tempo e do espaço, mas do Deus que ele procura nos recônditos do próprio ser.

Nietzsche se debate tentando fugir de Deus para seguir sua história e traçar seus próprios caminhos. Mas não consegue fugir de si mesmo. Os caminhos se cruzam. Só, num mergulho introspectivo e solitário, o filósofo se aproxima do Autor da existência.

Como terra árida que clama pela chuva, qual sedento que sonha em refrigerar sua alma, ele tem a ousadia de dizer que ergue altares festivos para Ele. Na esperança de ouvir o inaudível, de perscrutar a Sua voz.

Nesses altares estão inscritas em fogo as palavras dirigidas ao mais comentado dos seres e o menos conhecido da história: o Deus desconhecido. Aquele que perturbou a mente de intelectuais e deixou em suspense a inteligência dos filósofos. Aquele que é especialista em se esconder, mas inscreve sutilmente sua assinatura através das gotas de orvalho, do sorriso de uma criança, da brisa que toca o rosto.

Nietzsche não sabe como defini-Lo, mas sabe que não pode deixar de pensar Nele. Embora tenha criticado a religiosidade com virulência ímpar e fosse contra a submissão cega, para nosso espanto declara "Teu, sou eu", apesar de até aquele momento ter criticado as idéias ligadas a Deus. Quem pode explorar as vielas da mente desse filósofo?

Quando todos pensavam que Nietzsche fosse o mais radical dos ateus, na realidade era um filósofo desesperado em busca de uma experiência radical com um Deus vivo, e não com o deus construído pelos seres humanos.

Nietzsche era um anti-religioso que, com uma coragem única, anunciou a morte de Deus. Mas não é a morte do Deus do Pai-Nosso, mas do deus criado pelo ser humano, o deus construído à imagem e semelhança do seu individualismo, arrogância e autoritarismo. O deus que é um joguete nas mãos humanas, que faz guerras, que subjuga e exclui.

Em sua oração, o filósofo tenta separar o deus humano que o decepcionou, do Deus concreto que alicerça a existência. Tentou fugir de ambos, mas agora se sente compelido a procurar o Deus real. Não vê sentido se não encontrá-Lo. Inquieto com suas próprias conclusões, Nietzsche se lança como um raio em direção a explicações mais profundas.

Com uma humildade raramente vista entre os mais célebres pensadores, ele reconhece sua pequenez e clama em alta voz e sem medo: "Eu quero Te conhecer, desconhecido!"

Ele clama de forma imperativa, como se tivesse em sintonia com o tempo verbal usado na oração do Pai-Nosso. Ele não está no alto da montanha, mas no cume dos questionamentos. Nesse cume, deixa-se refrescar pela brisa da serenidade. Não perdeu sua capacidade de aprender.

Para mim, é como se Nietzsche estivesse recitando a oração do Pai-Nosso à sua maneira. Como se dissesse: "Deus desconhecido que estás nos céus, quero elogiar Teu nome, mas não sei quem Tu és. Sai do Teu reino e penetra no meu ser. Ansiosamente espero ouvir a Tua voz. Deixa-me conhecer Teu projeto e saber onde eu me insiro nele. Sulca os solos da minha alma. Não me deixes sucumbir nos áridos vales das dúvidas. A Ti pertenço. Teu sou eu, embora, até o presente, eu tenha Te negado. Dá-me o pão diário que nutre a inteligência. Eu quero Te conhecer, desconhecido."

Ateus e não-ateus, independentemente de uma religião, sempre tiveram Deus como um tema central em suas inteligências. Disseram palavras que, embora nunca pronunciadas, expressaram estas idéias: "Deus, quem és Tu? E quem sou eu? Penetra o meu pensamento. Invade meu orgulho, irriga meu radicalismo com o orvalho da humildade antes que se dissipe meu tempo e eu me torne uma terra seca e estéril. Ensina-me a ouvir no silêncio e a enxergar na ausência da luz. Eu quero Te conhecer."

Há uma busca insaciável em todo ser humano. Parafraseando Jesus, o Mestre dos Mestres: "Bem-aventurados os que se esvaziam em seu espírito e se tornam garimpeiros em busca de suas origens, porque, ainda que se percam num mar de dúvidas, deles é o reino da sabedoria."

Afinal, a grande conclusão do texto mais recitado e menos compreendido da história é:

Deus e o ser humano são dois seres solitários que vivem no teatro da existência procurando ansiosamente um ao outro no pequeno parêntese do tempo...

Augusto Cury