SERÁ QUE DEUS ACREDITA EM MIM

Esta é a história de um ser que sofria por não sofrer, por não sentir nas profundezas de si mesmo senão o imenso vazio da aridez, a solidão, o desencanto, a desesperança. Estivera conosco na semana anterior mas não houvera tempo para continuarmos o diálogo e ele retirou-se.

Voltou na semana seguinte, ainda preso às estruturas de pensamento a que se habituara. Continuava sem planos, sem esperanças, indiferente a tudo, inclusive quanto ao que dele pudesse ser feito. De início, não sabia nem o que dizer. Notava, porém, uma coisa estranha: enquanto a regra geral era prometer ajuda e esquecer do prometido no momento seguinte, nós éramos diferentes, porque estávamos realmente nos esforçando por ajudá-lo, com as nossas preces, a expressão do nosso encorajamento na telepatia do amor fraterno. Isso tocara-o bastante, enquanto aguardava uma oportunidade de voltar a falar conosco. Assistira palestras, conversara com nossos companheiros espirituais, fizera perguntas, observara a vida, enfim, de ângulos que lhe eram inusitados. Por isso estava mais calmo, sentia a mente menos sobrecarregada. Vinha agradecer, mas nem tudo estava bem, como que num passe de mágica.

Acreditava, por exemplo, na existência de Deus, mas via agora como as coisas eram difíceis. A gente vem para a vida de encarnado com a impressão de que viver é uma aventura fácil como um cruzeiro, com todo o conforto e as facilidades de uma excursão. E aí começamos a acumular erros em cima de erros e cada vez mais vamos nos enredando pelos caminhos.

Acha ele - e com ele concordamos - que, em grande parte, a responsabilidade quanto a essa atitude cabe à maneira pela qual, aqui no mundo, somos ensinados a crer. Não pode dar certo um sistema educacional - seja ele qual for - baseado na mentira, pensava ele.

- Desde que você questiona um ponto - prossegue ele - e ele é falso; você questiona outro e ele contém uma meia-verdade e você questiona um terceiro e ele contém, não a meia-verdade, mas uma falsa verdade. .. Que ela é diferente da mentira - Você vai juntando isso e fica difícil saber onde está mesmo a Verdade.

É o caso dele. Perdeu-se tanto nesses meandros que ouviu a verdade, mas não consegue senti-la. Por isso, encontra-se agora numa posição sui-generis. Aceita a existência de Deus, como vimos. Sabe que ele próprio é um espírito imortal e responsável, está convencido quanto à realidade da reencarnação, mas o resto é tudo uma persistente indiferença.

Lá mesmo, na instituição regeneradora, à qual foi recolhido temporariamente para repouso e meditação, observou durante a semana a movimentação dos seres que ali se encontram - alguns para servir, ajudar, instruir e a maioria para ser preparada para novos cometimentos. Foi-lhes dito que não há mais tempo a perder; que precisavam retornar à carne o quanto antes e que, para isso, orassem a Deus, buscassem apoio de amigos e protetores, a fim de começar logo a tarefa da recuperação já de muito retardada. Muitos foram os que começaram logo a procurar informações e a fazer planos, a sonhar sonhos e alimentar esperanças. Vira lá um companheiro que, programado para renascer sem os dois braços, pleiteava ansiosamente abrandar a dificuldade em perspectiva, solicitando que ao menos um braço lhe fosse concedido.

Quanto a ele, não. "É pra cortar os dois braços? Pois sejam cortados. Precisa nascer na imbecilidade? Está bem, serei imbecil." É tudo um só desencanto, uma só indiferença, a secura fria, a ausência da emoção. Aceita tudo, concorda com tudo, não discute, não pondera, não pleiteia nada. Dizem-lhe até que a sua indiferença é uma forma de revolta, uma espécie de protesto de quem não sente necessidade de reformar-se, o que ele admite ser verdadeiro.

O doutrinador pondera que essa ausência incrível de emoção, deve ter suas raízes em algum episódio extremamente doloroso no passado, que resultou num bloqueio assim tão rígido e desesperador. A regressão, contudo, não fora feita com ele no mundo espiritual, embora haja sido promovida em outros de seus companheiros.

- Mas, como é que faço para achar isso? - pergunta ele.

Onde que está esse elo?

O doutrinador insiste que esse bloqueio deve ter sido provocado por uma violenta repressão do amor em algum ponto de suas existências pregressas. Ele admite a validade da suposição e prossegue:

- Os senhores me ajudaram muito esta semana com os pensamentos. Porque antes, sabe, eu sentia um silêncio terrível; agora não. É como se eu sentisse um calor diferente, como se uma "coisa" começasse a falar dentro do meu pensamento. Comecei a ouvir sons, sabe? Não está aquele vazio tão vazio ...

Já sente a presença humana na sua vida. -É isso.

Sim, meu caro. Mas além disso, você não é um ser esquecido do amor de Deus. Temos em nós uma centelha que não se extingue, ou então, se extinguiria o nosso ser.

- O senhor sabe? Eu lhe digo que creio em Deus, mas não tenho fé ... O senhor sabe qual é a diferença?

- Não. Não sei.

- Crer, eu creio. É como eles disseram lá, a fé é como o sangue, que alimenta o Espírito. Então, eu estou anêmico em termos de fé. Eu creio em Deus, como o senhor crê na água, como o senhor crê no que vê, como ...

- Sim, meu caro, mas o que vejo no seu espírito, procurando prescrutar a sua alma mais com o coração do que com a mente - pois a mente não penetra nessas coisas - buscando em você sua condição de irmão, de amigo, não é bem isso. Eu não colocaria aí a diferença entre fé e crença. Se você tem a crença, tem também a fé. O que você não está conseguindo ainda é movimentar essa crença, porque a fé tem uma substância emocional, ela não é intelectual. E você ...

- O senhor não entende isso. .. O senhor acredita que a Terra é um planeta, que revolve em torno do sol e em torno do seu próprio eixo. O senhor crê nisso, mas isso é fé? É assim que eu creio em Deus. Sei que Deus é uma força que cria; tanto cria que me criou.

Então, meu querido. Está faltando a emoção. Às vezes me dizem: "Não creio na reencarnação". "Meu caro, digo eu, não adianta você crer ou não crer. Tanto faz você crer ou não, duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio produzem água, sob determinadas condições. Não é uma questão de fé, é o fator condicionante do afeto, da emoção; é alguém a quem você ame que venha trazer-lhe esta mensagem.

- O senhor sabe que nesta semana eu já me senti melhor. Senti que alguém se interessa por mim. Os senhores pensaram em mim, os senhores conversaram comigo. Já não me sinto tão sozinho. E pensei: alguém pelo menos sabe que não sou maluco! Não sou um bólido no espaço. Porque antes eu achava que era como um meteoro, um meteorito, uma parte da criação que está ali solta, à revelia de si mesma ... Isso é o que eu sentia.

- Mas, aqui entre nós, na primeira vez que conversamos, quando você disse que estava sozinho, que não tinha ninguém por você, nós oferecemos nossa amizade e não foi uma oferta só para constar; você viu que ela realmente valeu. Você viu mais, que não houve uma compreensão superficial - você foi entendido em profundidade aqui entre nós. Graças a Deus conseguimos levar a você essa mensagem.

- Eu fui, sim, compreendido. Eu agradeço. Isso foi muito bom, sabe? Inclusive lá, no meio "deles" (no mundo espiritual) eu me sentia assim tão estranho porque todo mundo pelo menos está querendo fazer alguma coisa, ou está chorando, ou está se maldizendo, ou está ... sei lá. .. E eu estou ali como se fosse um peso morto no meio daquilo tudo. Agora eu sinto que. Bem, pelo menos alguém entende minha posição de peso morto.

- Mas nós não consideramos você um peso morto e sim um ser que está procurando alguma coisa e nós temos um pouco dessa alguma coisa para lhe dar. Você aprendeu a confiar em nós ... Embora as desconfianças originais fossem grandes, você nos testou e viu que éramos confiáveis. Por isso você cedeu a sua parte. Respeitamos e agradecemos a decisão que você tomou porque sabemos que não foi fácil: Chegar aqui, renunciar àquilo que você vinha fazendo, sem saber ainda o que vai fazer daqui por diante. Sabemos, portanto, que sua decisão foi grave, foi importante para você, como é importante para nós, pois o que está em jogo aqui não é, digamos, o sucesso em nosso trabalho, é você, como ser humano. O que desejamos é que você volte a acreditar em SI mesmo.

- Eu pedi para vir aqui. Sabe por que? Porque aqui, com os senhores, é como se eu me sentisse humano entre os humanos, pessoas que compreendem que eu tenho essas falhas; gente com a qual eu não tenho vergonha de falar. Lá, eu fico com vergonha. Todo mundo tem fé, todo mundo. " a gente acaba se sentindo mal. E eu penso: abro a boca e sou uma incongruência, porque não tenho nada para contribuir ali. Pelo menos aqui sinto que os senhores me entendem".

- Você está sendo muito rigoroso consigo mesmo. Não acho que você esteja deixando de contribuir. Você está contribuindo com uma coisa muito importante que é a lição da busca. Você tem uma busca séria e honesta a fazer.

- Então, me ajuda, por favor!

- Você já começou a sentir no seu espírito as primeiras vibrações das respostas que o amor consegue de nós. Aqui entre nós você está como se na sua família, conversando com aqueles a quem você amou. Como se estivesse voltando de uma viagem e começasse a conversar assim: "Escuta, estou com uns problemas ... ". E você é acolhido desta maneira, como irmão, como companheiro que há muito tempo esperávamos que chegasse. Essas respostas que você está suscitando no seu espírito são apenas o prenúncio das identificações que você vai fazer daqui a pouco ou mais tarde, não sei quando, aqui entre nós, de amigos que teve no passado.

- Hoje mesmo, quando eu vim para cá - até estou sentindo uma coisa diferente, uma coisa estranha dentro de mim, sabe? Antes eu não sentia nada. Teve um momento, quando cheguei aqui que senti até, sei lá ... uma vontade assim de ... coisa estranha ... como se eu quisesse chorar, compreende? Houve uma coisa qualquer aí que alguém disse ou pensou que mexeu lá muito fundo, dentro de mim. Senti uma nostalgia ... Não foi vazio, não, foi uma nostalgia ... Uma coisa assim.

- A gente sempre tem que dar o primeiro passo. Costumo dizer que a ave só nasce quando ela quebra o ovo de dentro da casca para fora. Você deu o primeiro passo. Antes, os companheiros que desejavam aproximar-se de você, seus amores do passado - pois você também os tem, é claro - não tinham ali, como às vezes digo, um preguinho para pendurar uma comunicação, uma emoção. Não havia uma tomada onde pudessem ligar-se com seu espírito para deixar fluir novamente a corrente da vida. E agora você já está abrindo essas brechas naquilo que era a sua aridez. Você vai começar a receber o influxo dessas aproximações. Nós nos colocamos aqui como seus amigos, não com o desejo egoista ou artificial de realizar um bom trabalho, mas porque você é realmente um irmão nosso. Por isso é que oferecemos a você o abrigo temporário, provisório, do nosso coração.

- É horrível você sentir-se sozinho.

- Eu sei, mas a gente se isola, não é? Nós é que nos isolamos, não somos isolados. A gente fecha a comunicação com o mundo exterior. .. Como é que vai receber? E você, graças a Deus, já está se abrindo e já sente um pouco de afeto por nós e de reconhecimento, de gratidão. E, no entanto, nós é que somos gratos a você por ter renunciado a tanto e ter-nos trazido essa confissão tão bonita, tão honesta, tão sincera e comovente.

- O senhor sabe? Vou lhe dizer uma coisa. Essa semana pensei muito numa coisa que uma pessoa daqui (do grupo mediúnico) pensou e "falou" para mim. Que eu pensava muito em mim mesmo, que eu estava muito concentrado em mim mesmo, que precisava pensar nos outros, que a vida também tem coisas boas, que é bom viver, que há outros aspectos ... Eu comecei a pensar nisso.

- É. Para encontrar os outros, a gente tem de sair de dentro de si mesmo.

- Mas aí tenho pensado... Pensar nos outros. .. Que outros? Onde vou buscar o outro? Onde está o outro para eu pensar? Qualquer criatura da qual eu chegar perto para projetar meus pensamentos, vou perturbar!

Não vai, não. Você não está nos perturbando aqui.

- (Pausa). Não tenho nada ainda com o que possa ajudar.

- Meu caro, você está enganado consigo mesmo. Você tem muito com que ajudar. Por exemplo, essas coisas que você está dizendo, as decisões que tomou ...

- Estive pensando. . . Bom, se é assim, se Deus me criou, devo ter um fim útil.

Perfeitamente. Ele tem planos a seu respeito. - É. . . deve ter, porque ele me criou ...

- Ele não iria criar um ser inútil, ou criar para o mal, ou criar para a indiferença. Ele criou porque tem planos a seu respeito. E tem.

E a seguir uma linda pergunta:

- Será que Deus acredita em mim?

- Se não acreditasse você já teria desaparecido. Se ele deixasse de lhe amar um só momento, você deixaria de ser.

Faz-se um longo silêncio e depois ele comenta, meio perplexo:

É ..

O que nos sustenta é aquela luz que ele colocou em nós; em você, em mim, em todos. Se ele retirasse isso, tombaríamos no nada.

- Eu não tenho nada, mas vou dizer: se tivesse alguma coisa daria tudo que eu tivesse só por um tantinho assim de fé, igual à que vocês têm, um tantinho ... Não é fé ... É uma coisa que faz com que vocês se conformem, aceitem ..

- Você tocou num ponto importante. A aceitação também é ativa, o remorso também precisa ser construtivo. Tudo isso tem de ser positivado. Não se pode cruzar os braços e dizer: "Aceito. Deixa o que vier ... " Porque aí você não constrói. A aceitação é, sim, um fator importante, mas ela tem de ter o seu dinamismo. Você não acha? Você não tem ninguém, um amigo com o qual pudesse trocar idéias ...

- A gente aqui, no lugar em que ... - pelo menos eu vivia, que eu não vivo mais lá - a gente não tem amigos. Você faz amigos assim: você compra. Compra porque tem medo dele. Antes que ele lhe atinja, você fica amigo dele. Da mesma forma que o outro fica seu amigo porque tem medo de você. Entende? É assim; amizade porque um tem medo do outro.

- É tudo um jogo de interesses. Mas, você vê, em tudo isso, o que falta na sua fé. Falta o amor. Nesse relacionamento com os companheiros ... falta o amor.

-. Sabe, estive pensando nessa senhora. (Trata-se da companheira que transmitiu mentalmente a ele as observações sobre as quais ele falara há pouco). Ela tem os filhos, ela gosta muito deles. Isso eu percebo. "Eles" (nossos mentores) me ajudaram, sabe, me deixaram ir lá .. E eu pensei: "Alguém está pedindo por mim". Deixa eu falar o seguinte: eles estavam lá me mostrando e perguntaram: "Você quer ver o que é ?" E eu vi. Essa senhora _ .. quer dizer, toda mãe quer para seus filhos o melhor possível, mas nem sempre o que ela acha que é melhor, o filho quer. No entanto, o filho vai, e faz aquilo que da acha que não é o melhor para ele. E ela continua a gostar dele. Aceitar. Isso é que eles dizem que é aceitar, como se nada houvesse acontecido. E ele disse assim para mim: "Assim é que Deus aceita você. Você foi, escolheu seu destino e ele deixou. Mas continua aceitando você. Está esperando que você volte. A mãe também espera que o filho, quando sair de lá da experiência dele, volte". Até digo para o senhor uma coisa: tenho até medo de influenciar o aparelho (a médium) com as minhas idéias, porque tenho estado muito ligado a ela.

- Não, meu querido. Não se preocupe com isso. Nosso trabalho é esse mesmo e você não é nenhum monstro que vem nos perturbar.

- Não quero prejudicar ninguém, não.

- Eu sei. Ao dizer isso você demonstra que está tentando ajudar alguém.

- O senhor disse para mim agora que deve existir na minha vida uma coisa qualquer ... O senhor não pode me ajudar a achar isso?

- Podemos.

Porque eu quero, realmente. Ou eu saio disso, ou continuo nisso. E vou dizer uma coisa: se eu continuar ... está muito difícil ...

- Mas você gostaria de pesquisar esse passado?

Eu gostaria de achar uma coisa que me desse esperança.

O senhor sabe o que é esperança?

- Sei, mas você não se importa se nesse passado houver algum erro clamoroso que vá dificultar-lhe as coisas?

Que diferença faz? Eu já não errei? Não estou na pior.

- Sim, meu querido, mas o erro traz a lição ...

É, mas que importa! Se eu tiver o erro, já fiz mesmo o erro. O fato de não saber não vai tirar o erro de dentro de mim. Porque, é como ele diz... como é? "A mãe espera sempre que o filho volte. Deus espera também. Só que a mãe não tem certeza se o filho vai voltar. E Deus sabe que um dia você volta." Você sabe qual é a diferença? É que Deus espera que eu volte, mas eu não espero nada!

- Sim, meu filho, mas não depende de você acreditar ou não: a coisa é assim. É aquela história do raciocínio matemático ou químico de que falamos há pouco: tanto faz você acreditar como não, é isto! Você não é caso único no universo; isso acontece com todos nós - o arrastamento para o erro, para o engano, para a falta e depois, a gente pára pra pensar como você está parando agora - pode levar mais tempo ou menos tempo - e voltar sobre nossos passos.

- O senhor sabe? O senhor não vai ficar horrorizado se eu falar uma coisa pro senhor? Nenhum dos senhores vai ficar horrorizado? É uma coisa que está dentro de mim; não tenho coragem de falar com ninguém. Vou dizer pro senhor. Sabe o que eu penso em relação a Deus? É como se, de repente, eu tivesse visto Deus e dissesse assim: "Mas é isso?" O senhor está entendendo? Eu esperava muito mais. Agora não me pergunte por que eu sinto isso assim, não. Não sei, não sei por que tenho esse sentimento. Alguma coisa me levou a acreditar que ...

- Sim, escuta. Se ele criou você com a capacidade para fazer essa análise aí, é um Ser Superior? Você pode até questioná-lo .. "

- Olha, não é desrespeito, não ...

- Eu sei !.. Estou entendendo. Bom, vamos, então fazer uma experiência. Não posso lhe garantir o êxito, mas podemos tentar. Vamos procurar essa informação?

- Ah, meu Deus. Eu quero qualquer coisa ... Eu queria que quando dissesse isto - Ah, meu Deus! -- eu dissesse acreditando, repercutindo lá dentro da minha alma.

Procuramos transcrever esse interessantíssimo diálogo com o mínimo de comentário para não quebrar o fluxo da narrativa. Ficamos, contudo, impressionadíssimos com a profunda e comovedora honestidade desse companheiro, com a sua franqueza e com a confiança que depositou em nós. E outra observação: embora não seja o único é um dos raros casos em que o próprio espírito nos propõe fazer a regressão da memória para descobrir as raízes negras das suas angústias. Do que se depreende também, como são, às vezes, praticamente inexpugnáveis os bloqueios que nos isolam da lembrança dolorosa dos atropelos mais remotos. Mesmo desejando saber o que se passou com ele de tão tenebroso a ponto de levá-lo e mantê-lo naquele estado de perplexidade, ele não consegue vencer os bloqueios senão com ajuda especializada. É como se precisasse de um companheiro para ir de mãos dadas, tateando com ele na escuridão, onde a cada passo pode-se pisar num escorpião venenoso, ou trombar com um fantasma medonho.

Nesse ponto, ele foi magnetizado e induzido à regressão. O diálogo é retomado no ponto em que ele começa a falar, já mergulhado nas memórias de uma existência na Veneza de muitas belezas, muitos mistérios e muitos crimes. Aliás, Veneza é a primeira palavra inteligível que ele pronuncia, como que a chave daquele arquivo secreto da memória.

- Estou vendo - diz ele, a Ponte dos Suspiros ... Sabe onde é? O Doge (1) sabe quem é o Doge? Ele ...

A palavra ainda é algo errática, mas aos poucos ele vai encontrando o seu caminho, ante as sugestões apropriadas do magnetizador.

- Não consigo lembrar, diz ele. Vejo o Doge. Estou sentado. .. Vejo segmentos. O Doge !. vejo um calabouço. O Doge ... E uma água que corre ...

- Tem alguém lá?

- Tem. Acorrentado. O Doge !.. ele fez isso. O Doge, o Homem de Ferro de Veneza. Ele tem um segredo .. - Você sabe qual é o segredo?

- Sei. E por isso ele me acorrentou. Vivo aqui como um cão, acorrentado ...

A voz é lenta, meio pastosa, como um lamento.

- O que foi que você fez? Só porque conhecia o segredo?

- É um segredo terrível! Ele me acorrentou aqui. Ele vai mandar matar-me. É assim que ele vai fazer.

Então, você descobriu alguma coisa a respeito dele. - Sim.

- E contou para alguém? Não sabe ... Vamos ver, então o que aconteceu depois disso aí. Você ficou preso muito tempo? - Ele, um dia, mandou afundar-me num dos canais ... Está confuso isto. " .

É evidente que o núcleo da sua problemática ainda não está ali, embora seja bem possível o vínculo, ou relação com algum episódio anterior que seria a matriz de tudo aquilo. Resolvemos, contudo, não aprofundar mais aquelas lembranças, pois ali ele já estava resgatando algo e não se comprometendo ainda mais.

Insistimos nos passes e nas sugestões adequadas, projetando seus sensores mais profundamente no passado. Sua primeira reação é ainda de temor, pois ele esboça "um recuo, dizendo que não pode e não quer ir lá", ou seja, no tenebroso núcleo do seu drama íntimo. Aos poucos, contudo, vai cedendo, mais confiante. É um longo mergulho, pois alguns momentos decorrem antes de sentirmos nele qualquer indício. De repente, nova palavra-chave:

- Mileto..(2)

-A voz é mais desembaraçada e ele parece mais lúcido

-Você está vendo? - pergunta ele. Estou aqui, escondido. Porque vim vê-las banharem-se aí no rio.

-E quem é você?

-Argo. Sou um jovem e entre elas está a minha prometida.

-Por que então, você vai espioná-la?

Porque gosto de vê-la. De ver como ela é bela. E você se casou com ela?

-Sim.

-E não foi feliz?

-Sabe? Coroaram-nos no dia do casamento. Com flores.

-Felizes?

Ele começa a gemer e agitar-se, a medida que se aproxima do perigoso e misterioso centro de irradiação de todas as suas aflições. Mais uma vez sente-se fraquejar e mesmo em pleno transe magnético, ainda pede temeroso: "Ouero voltar!"

- Quero voltar! Não quero entrar ali. Não vou entrar ali.

Não de novo ...

Sem procurar forçá-lo de qualquer maneira, o doutrinador procura encorajá-lo a prosseguir, pois estamos, afinal, a poucos passos do mistério.

- Tenha coragem. Nós te ajudaremos. Precisamos fazer isso. Por favor.

- Eu creio no amor. Eu creio na beleza. Creio no amor, creio, na virtude. Sabe? Eu creio.

Alcançou, portanto, um período em que acreditava nisso.

Como e por que teria tudo ruido diante dele e dentro dele?

- Gosto de ver um corpo belo, não por lascívia, mas porque é como uma escultura, compreende? São as formas dos deuses ... perfeitas. Eu acredito ... Tudo ... Eu quero crer em tudo isto.

- Ouer crer? O que aconteceu, então, que pôs você em dúvida?

- Não, não quero entrar lá ...

- Vamos, coragem! Vem comigo.

Ainda hesita e reluta, mas, por fim, começa:

- Sabe? Sou muito rico, mas não ligo para essas riquezas.

Só ligo para uma riqueza: o amor, a beleza. Ela é como uma ninfa, uma deusa ... Está vendo? Eu tenho este palácio. Vivo aqui com meu pai. Sou seu único filho. Herdo tudo. Tenho tudo isso... mas não me interesso por isso... Porque acho que existem coisas além de um palácio. Um palácio acaba com o tempo, a beleza não. A beleza se aperfeiçoa com o tempo, fica mais bela. O amor cresce com o tempo, torna-se cada profundo.

Voce não me disse nada... Argos é o seu nome, não é?

- Ar-go.

- Diga-me, então, o que aconteceu aí, depois disso. O que você está temeroso de ver? Vamos, coragem!

- Não ... não ... (E, de repente, após um espasmo de horror e com voz forte: Não quero entrar ali, não quero passar por ali !

- Por que? Você não é um jovem corajoso, forte e belo?

Vai atemorizar-se apenas por passar ali?

Longos silêncios. E depois com voz solene e em tom deliberado:

- Eu sei o que está ali.. É horrível o que está ali. Sabe?

Eu voltava nesta tarde, feliz, trazendo presentes para ela, porque, além de tudo ... (pode-se perceber claramente que avolumava-se nele a força de uma represada emoção que ele contém a custo agora). .. Temos o nosso primogênito. Eu... eu viajo muito, mas eu confio nela. Eu ... voltei nessa tarde e eu ... (Falta-lhe a voz). E eu não era esperado. Eu.. estranhei este silêncio ... E eu.. começo a subir os degrau, para entrar na câmara dela. É estranho, isso ... Encontro com ele, este velho servo, sabe? ele ajudou a me criar, me criou, ele tenta impedir e diz: "Senhorzinho, não entre! Volte!" E eu estranhei aquilo e tentei afastá-lo com carinho porque gosto dele, tenho respeito por ele. Ele atira-se a meus pés e envolve minhas pernas para que eu não ca-mi-nhe. E eu tenho de fazer um gesto brusco porque estava impaciente e o atiro ao chão. Agora quero ir mais depressa para ver o que está acontecendo. E eu, oh!.. (É um momento dramático. Ele está literalmente sufocado e só consegue emitir uma sílaba de cada vez). Afasto a cortina e ... e, lá estão os dois no meu próprio leito! O meu próprio pai! Compreende? E eu fico louco. E eles também, porque não me esperavam. Eu fico como que naquele estupor, parado. E não posso falar. .. Não posso dar um passo... Não posso ! Não posso ver, compreende? Mas o pior não foi isto ... não foi isto... Foi aquilo que eu fiz. Quando eu acordei daquele estupor em que fiquei, avancei para ele e para ela e eu não sabia o que fazer. Eu gritava. Ele, então, atingiu-me, jogou-me ao chão, segurou-se pelos ombros, sacudiu-me e disse: "Seu tolo, você não vê que ... " (não consegue repetir). E eu dizia: "Não. Não. Diga que não é verdade!" Ele disse ... não, ele não disse ainda, ele riu e ela riu. E então enlouqueci e tirei da cinta um punhal que eu tinha, todo cravejado. Era uma adaga. Primeiro eu a atingi. Eu a segurei pelos cabelos e a golpei uma, duas. .. Eu estava louco e ele também ficou louco e disse para mim: "Seu insensato! O que está fazendo? Saiba que, com toda esta idade, o teu primogênito é meu filho. Antes que tu a possuísse eu já a tinha possuído. "Então eu o matei. E também peguei a criança e a matei. E não apenas os matei, eu os golpeava e golpeava e quanto mais sangue eu via, mais eu os golpeava porque não os matei apenas, eu estava matando a mim mesmo! Eu acho que ... acho que enlouqueci, porque... Os gritos deles atraíram os gritos dos servos. Veio o meu pobre velho, arrastando-se e quando me viu e todo aquele sangue, a cabeça dela, sabe? segura pelos cabelos ... Eu separei ... tirei-lhe a cabeça e mostrava e dizia: "Veja! Aqui está a traidora!" Depois disso, ficou tudo escuro e não vi mais o que aconteceu ...

A sua voz vai se apagando, esgarçada e quebrada, como se a própria vida se fosse extinguindo dele, enquanto se alongam as pausas.

- Tudo escuro ... eu ali, prostrado ... No outro dia acho eu não sei quantos dias se passaram - eu acodei e estava eu andava e não via. Sabe? eu não podia falar, eu... Não sei. Não sei quanto tempo ... Não sei ... não sei ...

Estamos todos impactados no pequeno cômodo em penumbra. Há como que uma densidade no silêncio, uma tensa e hipnótica atmosfera de torpor que não conseguimos sacudir com facilidade, pois todo o seu horror como que se comunicou a nós. Parece mesmo que ele morreu ali, embora continuasse a viver como um sonâmbulo. Após alguns momentos de silêncio e respeito, o doutrinador retoma a palavra, ainda meio aturdido e propõe que ele retome ao presente com a lembrança de tudo aquilo, a fim de reavaliar seus problemas numa nova, ainda que tão dramática, perspectiva. Não há como deixá-lo ali, hebetado e não há como sepultar novamente aquelas pavorosas lembranças, como se nunca houvesse ocorrido nada daquilo. Afinal de contas, fora um ser extremamente sensível e precisávamos ajudá-lo a reconstruir seu mundo interior.

- Eu não matei meu corpo, entende? Eu estou morto por dentro...

- Sim, meu querido. Esses espíritos todos, como você, continuam vivos. Vamos voltar para aqui, onde estamos conversando. Deixa esse passado, lembrando-se dele, contudo, e mais aquele episódio em Veneza ... pois ali você resgatou uma parte das suas faltas. Vamos analisar tudo isto agora, com calma, com tranquilidade. Você deve ter tido outras vidas e novas oportunidades de amar e de reencontrar aqueles espíritos. Acredito que a moça não deixou de lhe amar, você não acha? Foi uma falta grave, é certo, mas ...

- Amor implica fidelidade. O amor não pode ser falso.

Meu pai era um homem corrupto. Um homem ... Ah! tão diferente de mim. .. Ele era vil.

- O fato de ter ele cometido essa falta, que é muito grave, não justifica que você também se torne vil por causa disso. Pelo contrário, você mesmo faz uma diferença entre ele e você, não é? Você ficou alucinado naquele momento ali, também cometeu suas loucuras, mas a vida tem de prosseguir. Somos espíritos imortais e se tivéssemos tempo de buscar isso mais atrás você iria ver as razões pelas quais passou por aquele episódio. Quer ir buscar também isto?

- Não. Eu não sei... matei a minha vida, minhas aspirações. Dali por diante, eu sinto ... estou vendo agora. Eu não sabia que tínhamos muitas vidas. Desencantei-me, porque eu trazia uma descrença. Muitas vezes magoei por causa da minha descrença, fiz sofrer, como se quisesse vingar a mim mesmo. Nunca mais pude amar; fechei as portas do sentimento.

- Mas ninguém lhe amou?

- Sim, mas eu não confiava. Às vezes eu queria ... quando eu percebia que estava gostando de alguém, fugia, eu procurava magoar essa pessoa. Não queria mentir a mim mesmo. Tinha medo de uma violência.

- Mas olha aqui, irmão. Nenhum sofrimento desses é inocente, sem razão. Quando você passou por isso aí em Mileto, já trazia compromissos anteriores que o levaram àquela situação. Assim como você está tendo a chance de recuperar-se, os outros também tiveram. Essa recuperação começa com o perdão, inclusive o perdão de nós mesmos, entende?

- Tenho aprendido, sabe? Estou vendo como que uma estrada, como que vou passando, vou pisando, como pessoas que pisam nos marcos que estão à beira da estrada e os derrubam e passam por cima. Todas as vezes que quis crer depois disso, falhei.

Mas veja bem: você está jogando toda a sua filosofia de vida - inclusive o seu relacionamento com o nosso Pai, e você admite a existência dele - num episódio passional, não é verdade?

- Não, senhor. Eu agora estou lembrando ... Sim, estou revendo. Sou um sacerdote e fui enforcado porque eu era bom e porque acreditava. Era um contexto corrompido.

- Não fez mais do que o Cristo, que também era bom e puro e foi crucificado sem ter culpa. Você tinha as suas.

- Ah! eu já fui morto de tantas maneiras ...

- Isso quer dizer, meu irmão, que num passado mais remoto você deve ter assumido gravíssimos compromissos, porque a lei não nos cobra nada que a gente não deva. Você deve ter feito coisa semelhante, mas não é necessário pesquisar. Você localizou aí o ponto traumático da sua problemática.

Eu me sinto tão só! Estou muito só. - Você estava.

- Você vê? Está vendo? Nessa estrada aí, eu caminhando? Caminho sempre só.

- Mas você não disse que fechou todas as portas? Comece a abri-las.

- Abri-las para quê? Abri-las para que a agressão volte a entrar por elas? (Novamente se exalta e a voz sai aos arrancos). Abri-las para quê e para quem? Para quem, se você não pode confiar sua casa ao seu próprio pai? (Explode, afinal, o choro convulsivo, arrancado das profundezas do seu ser dolorido, sofrido e macerado). Para que você vai abrir a porta? Quem vai entrar por ela? Qual o chacal que vai entrar por ela? Os homens são os próprios chacais. São eles. Eles gargalham e esperam você estar morto para irem alimentar-se do seu ca-dá-ver!

Novamente está sem fôlego e a voz se quebra no final da frase.

- Escuta - acode o doutrinador. Temos de ir, então, um pouco mais atrás.

- Para onde eu vou? - grita ele. Para onde? Chacais ...hienas.

Volta o doutrinador a magnetizá-o, pois, como vimos, não foi possível a ele superar o impacto do episódio em Mileto, como, aliás, temíamos e ele, mais do que ninguém, o temia.

- As hienas gargalham, você sabia? Elas ficam rondando para esperar que você morra. Elas pressentem quando você está impossibilitado ... as hienas ... as hienas. .. chacais... Quem cria os chacais não é o homem; é Deus, não é?

Na nova magnetização, vai rapidamente ao transe profundo.

Começa a falar uma língua irreconhecível, inteiramente estranha a qualquer entendimento nosso. Não é difícil, porém, compreender que ele é um brutamontes, e está, evidentemente, vivendo uma situação divertida, se bem que dramática. Ri, com prazer, arrogância e brutalidade. Como lamentamos não entender o que ele fala! É uma língua bárbara e rude. Parece mais conversar consigo mesmo do que com alguém junto dele. A voz é grossa, masculina, áspera. A partir de certo ponto, começa a pronunciar dificultosamente algumas palavras em português:

- Che. .. che... chefe hicso(3). Hic-so. .. Eu... eu ... guerr ... guerrei ... guerra conquista ... eu faz mulher de chefe con-cu-bi-na ... Eu possue mulher de chefe na frente de chefe!

À medida que fala, vai marcando as palavras com pequenas palmadas na mesa.

Ele era o faraó?

- Ele chefe. .. eu chefe ...

- E você o matou também? Matou.

E bate no peito orgulhoso:

- Eu chefe! Eu conquista. Eu, guerra, conquista. Eu forte!

Eu ser guerreiro ...

Quanto ao nome, ele "não saber dizer".

- O importante não é você saber dizer o nome: é que você saiba o que se passou aí.

Novamente é trazido à época presente, por passes especiais de despertamento.

Esta foi, portanto, a terrível história pessoal daquele companheiro. Finda a regressão à sua existência como guerreiro hicso, ele foi retirado. Estávamos agora sabendo - e ele também - por que razão se fechara tanto num denso e impenetrável casulo de isolamento. Qualquer fresta que deixasse aberta poderia servir de acesso a um dos terríveis "chacais humanos".

Sua grande surpresa conosco foi a de que deixou cair algumas das suas guardas e depois viu que não éramos chacais e sim gente comum, também sofrida e imperfeita que - mais estranho ainda - não queria dele senão que aceitasse o nosso amor, a nossa compreensão. Seria possível aquilo, ou era outra das muitas traições da vida? Era possível, sim e foi possível.

Este é um caso que oferece tantas lições que seria impraticável lembrá-las todas aqui, mesmo porque é bom que fique ao leitor espaço para as suas próprias meditações. Só queria um pouco mais de tempo para expressar nossa gratidão e respeito pela maneira correta e humana com que agem nossos caríssimos irmãos espirituais, Vejam bem: eles não o levaram à regressão no mundo espiritual, pois era preciso primeiro que o querido irmão aprendesse a confiar em nós, seres encarnados, que a seu ver, como humanos estávamos em melhor posição de entendê-lo e aceitá-lo. Foi tão grande essa confiança, que ele próprio nos propõe mergulhar no escuro poço da memória, onde se agitavam medonhos fantasmas do passado remoto.

Meu Deus! que fantástica precisão da lei, que espera milênios para que um pobre ser desvairado se ajuste, mas que vai buscá-lo inexoravelmente, ainda que caridosamente, pois do contrário ele continuaria mergulhado nas trevas. Séculos depois de violar a esposa do faraó na presença de seu próprio marido, o guerreiro hicso, já mais trabalhado pela sensibilidade - porque senão não aproveitaria a lição - vê a sua esposa adorada nos braços do próprio pai ..

Daí decorriam todos os seus problemas com a fé, com os seres humanos em geral, com a indiferença, que era revolta e inconformação.

Esta história ainda tem um apêndice de emoção e poesia que me sinto no dever de relatar.

Estava eu certa manhã luminosa e pacífica no Parque das águas em Caxambu, a deliciosa estância mineral da minha terra adotiva, quando um sabiá começou o seu maravilhoso recital numa árvore a poucos metros de onde eu estava sentado.

- Meu Deus - pensei eu. Será que esse maravilhoso tenor de plumas não poderia levar para nós, uma mensagem ao Pai?

Claro que podia. E como estivera alí ainda há pouco pensando no querido irmão que dizia crer em Deus mas não ter fé, "cometi" um dos meus raríssimos poemas, mesmo sem ser poeta.

Ei-lo:

O Cântico do Sabiá

Canta teu canto de paz - quero ouvi-lo,

Canta como só tu sabes fazê-lo.

A nota pura do teu peito sobe,

Mensageira fiel da minha prece.

Leva às alturas o meu canto mudo ..

P'ra que palavras se já dizes tudo?

Se falas com Deus diretamente.

Na doce língua universal do amor?

Transmite ao Pai Nosso que está no céu

Esta inarticulada gratidão

Que tão pungente sinto no meu ser.

Sem saber expressá-la como tu .

"Vede as aves do céu - disse Jesus

E tantos lírios pelo vasto campo;

Poetisas, elas, espalhando cantos;

Cobertos, eles, de fulgentes mantos"

Soberano e poeta, fala por mim,

Alado cantor, fala a Deus de mim,

Pois na ambição da glória me perdi,

Descendo, passo a passo, a trilha escura.

Que, em pranto, subirei de volta à luz!

NOTAS

1 - DOGE

Do latim dux, ducis - lider, condutor, dirigente, duque. O Doge era o principal magistrado nas repúblicas de Veneza (de 697 a 1797) e de Gênova de 1393 a 1707, e depois, de 1802 a 1805.

Era um regime abertamente elitista, ainda que, de inicio, por eleição direta, sendo o cargo vitalício. Em 1528 Andrea Daria reduziu o mandato para dois anos, declarando inelegiveis os plebeus e determinando eleições indiretas através de um conselho.

Seja como for, sabemos pelo testemunho dos historiadores que a organização administrativa, especialmente em Veneza, era modelar, "provavelmente a melhor da Europa no século XV", assegura-nos Will Durant em (The Renaissance), edição Simon & Schuster, 1953. Governantes de outras regiões enviavam até observadores e estagiários para estudarem ali a arte de governar.

Corroborando a informação dada pelo Espírito manifestante, o eminente historiador americano informa que as leis eram claramente formuladas e o sistema judiciário "eficiente e severo". As penas eram aplicadas Indistintamente a nobres e plebeus. "A prisão - escreveu Durant - era frequentemente em celas exíguas, com um mínimo de luz e ar. O açoite, o estigma com ferro em brasa, a mutilação, a cegueira, a ablação da língua, o fraturamento dos membros na roda e outras delícadezas faziam parte das punições legais. Gente condenada à morte poderia ser estrangulada na prisão ou secretamente afogada, enforcada em uma das janelas do Palácio dos Doges, ou queimada na fogueira".

Não há dúvida de que tais penalidades, no dizer de Durant, "refletiam a crueldade dos tempos", mas é igualmente certo que o nosso caro irmão desta história não exagerou o rigor com que foi tratado.

Creio que somente uma pesquisa mais extensa e profunda poderia identificar o Doge que teria tido a alcunha de Homem de Ferro de Veneza, mas a literatura histórica sobre a maravilhosa cidade-estado é torrencial e demandaria tempo de que, lamentavelmente, não dispomos, apenas para apurar um pequeno detalhe.

2 - MILETO

Antiga cidade da Ásia Menor. Antes da migração jônica, era habitada pelos cários. Consta que invasores gregos originários de Pilos, sob o comando de Neleus, destruíram a antiga cidade para construírem outra junto ao mar.

Aí por volta do ano 500 antes do Cristo, já Mileto era a maior cidade grega do lado Oriental e considerada importante centro cultural. Além de Anaximandro, Anaxímenes e Hecateus, é originário de Mileto o famoso filósofo Thales.

Excavações contemporâneas revelaram alí imponentes ruinas e alguns edifícios bem preservados, suficientes para atestarem a importância cultural da cidade.

O nosso visitante daquela noite teria, pois, vivido numa comunidade algo sofisticada, onde havia gente rica com lazer bastante para cultivar a inteligência e a sensibilidade. A tragédia em que se envolveu o nosso companheiro afogou em dor durante milênios o seu espírito sensível traído nos seus mais nobres ideais de beleza, lealdade e fidelidade.

3 - HICSOS

Lembra Will Durant, em "Our Oriental Heritage", que o Estado resulta habitualmente da força e pela força é mantido, como assinalou Summer. E mais: que a sujeição pela violência foi usualmente imposta, no passado, por uma tribo nômade de caçadores e pastores agressivos sobre uma comunidade estável de agricultores.

As canseiras de um longo dia de trabalho no campo não permitiam às populações agrícolas espaço para a belicosidade.

A teoria assenta como luva ao Egito, onde a pacífica gente local foi facilmente dominada pelos hicsos, e depois, por etíopes, árabes e turcos, bem como por civilizações estáveis como as da Assíria, Pérsia, Grécia, Roma e por fim, a Inglaterra.

Os hicsos, nômades da Ásia, invadiram as cidades, arrasaram templos, saquearam o que puderam e destruiram o que não lhes interessava, como preciosos e irrecuperáveis tesouros artísticos.

Durante dois séculos dominaram o Egito, de onde foram expulsos ao cabo de uma decidida campanha libertadora. Logo em seguida, teve início a valorosa 18ª. Dinastia de faraós, que elevaria a civilização egípcia a novos patamares de riqueza, poder e glória até então inatingidos.

O companheiro espiritual que nos visitou naquela noite nos deu realmente a impressão de um brutamontes insensível que se divertia com a própria crueldade, ao violentar a rainha na presença do esposo contido à força, incapaz de uma reação.

Hermínio C.Miranda - (O exilado)