A ALMA É UM SER TRANSCENDENTAL

Vê-se, indiscutivelmente, das pesquisas feitas há meio século, pelos sábios mais notáveis do mundo inteiro, que existe no homem um principio transcendental, desconhecido dos quadros da Fisiologia oficial, porque nos é revelado com faculdades que o tornam muitas vezes independente das condições de espaço e de tempo, que regem o mundo material.

É o que se verifica dos trabalhos da Sociedade Inglesa de Pesquisas Psiquicas que, desde 1882, publicou mais de 30 volumes, com as observações e as experiências, que seus membros registraram, depois de minuciosos inquéritos. Os nomes de Crookes, de Sidgwick, de Myers, de Gurney, de Barret, de Oliver Lodge, e de muitos outros, são penhores seguros da realidade dos fatos ali relatados.

Inquéritos semelhantes foram feitos nos Estados Unidos, pelo ramo americano de Pesquisas Psíquicas, sob a direção do Prof. Hyslop e de Hodgson; na França, por grande número de psiquistas e, em particular, por Camille Flammarion, em seus três volumes: "La Mort et son Mystere".

Ultimamente, Warcollier, engenheiro químico, publicou um volume sobre a Telepatia, e o Dr. Osty, dois livros: "Lucidité et Intuition" e "La Connaissance Supranormale", que se referem às faculdades desconhecidas do ser humano.

Na Itália, a revista "Luce e Ombra" reuniu indiscutível quantidade de testemunhos e Bozzano publicou uma série de monografias sobre este assunto, e que são do mais alto interesse.

É, pois, absolutamente certo, que o pensamento de um individuo pode exteriorizar-se e agir sobre outro ser vivo, independentemente de qualquer ação sensorial, apesar da distância que os separa. É a este fenômeno que se dá o nome de Telepatia. Não é menos certo que a visão a distância, apesar dos obstáculos interpostos, se exerce durante a vigília ou o sono, sem recorrer ao sentido ocular, o que necessita um poder diferente do puramente fisiológico.

Eis-nos, ainda aí, em presença de uma faculdade inteiramente distinta das que os fisiologistas reconhecem à substância nervosa. Enfim, está estabelecido, por exemplos numerosos e indiscutíveis, que um fenômeno tão extraordinário como o do conhecimento do futuro ou a da premonição foi várias vezes verificado. Tudo prova que existe no homem um ser independente do organismo físico e que é rigorosamente condicionado pelas leis que regem o mundo material.

Isto, agora, é tão incontestável, que um filósofo da envergadura de Bergson não recuou dizer, numa Conferência sobre a alma e o corpo, a 28 de abril de 1912:

"Se, como procuramos demonstrar, a vida mental transborda a vida cerebral, se o cérebro se limita a traduzir em movimentos uma pequena parte do que se passa na consciência, a sobrevivência, então, se torna tão verossimil, que a obrigação da prova incumbirá àquele que nega, em vez daquele que afirma, porque a única razão de crer na extinção da consciência depois da morte, é que se vê o corpo desorganizar-se, e esta razão não terá mais valor, se a independência da quase totalidade da consciência em relação ao corpo é também um fato verificável."

1 - O PERISPÍRITO E SUAS PROPRIEDADES

A Independência desse princípio interior foi estabelecida por provas numerosas e variadas. A alma é individualizada pelo perispírito.

Há melhor ainda; esse princípio espiritual não é uma vaga entidade metafísica, uma palavra abstrata ou uma função da substância nervosa, mas um ser concreto, com individualidade, porque, mesmo durante a vida, é esse ser ao qual se deu o nome de alma ou de espírito, que pode separar-se do corpo e manifestar sua realidade objetiva nos fenômenos de desdobramento.

O desdobramento do ser humano está, agora, demonstrado por observações mil vezes reiteradas. Verificou-se, de uma parte, a presença do corpo material, em um determinado lugar e, simultaneamente, a existência do duplo em outro.

O fantasma do vivo traz, consigo, a sensibilidade, a inteligência e a vontade; pôde-se reproduzir esse fenômeno experimentalmente, o que é uma segunda demonstração da independência do ser interno, designado habitualmente sob o nome de espírito.

É ele que, depois da morte, sobrevive e se manifesta objetivamente, por aparições materializadas, que são, em todos os pontos, semelhantes às dos vivos. Eis-nos, pois, em presença duma demonstração direta e imediata:

1°, o Espírito não é um produto do corpo, pois que sobrevive à sua desagregação;

2.°, possui, sempre, o mesmo organismo fluídico, que o acompanha durante a vida, e que o individualiza, ainda, depois que se separa do corpo material.

Durante a vida, o conhecimento do perispírito faz-nos compreender:

1°, a conservação do tipo individual, apesar do renovamento incessante de todas as moléculas carnais;

2.°, a reparação das partes lesadas;

3.°, a continuidade das funções vitais, num meio continuamente em renovação.

Os espiritistas conhecem há muito esses interessantes e curiosos fenômenos e vêem com satisfação que a ciência ofiicial, pela voz de alguns dos seus representantes e dos mais autorizados, vai sancionando, pouco a pouco, todas as ordens de fatos que compõem esta nova ciência. É, pois, legítimo que nos sirvamos desses preciosos conhecimentos para experimentar resolver o problema da origem da alma e de seus destinos.

Está perfeitamente demonstrado que nas sessões de materialização se forma um ser estranho aos assistentes, e que é objetivo, porque todo o mundo o descreve da mesma maaneira; porque é possível fotografá-lo; porque deixa impressões digitais ou moldagens dos seus órgãos; porque age fisicamente, deslocando objetos; porque pode falar ou escrever.

Este ser possui, pois, todas as propriedades fisiológicas de um ser humano comum e faculdades psicológicas.

Não se trata de um desdobramento do médium, não só porque dele difere em todos os pontos de vista, mas também porque costumam aparecer, simultaneamente, vários Espiritos materializados. De mais, tem-se, por vezes, verificado que o médium, acordado, conversa com a aparição. Em outras ocasiões, o Espírito materializa-se, de maneira ídêntica, com médiuns díferentes, e, enfim, sua identidade é freqüentemente estabelecida pelos que o conhecem.

Uma vez que o perispírito possui a faculdade, após a morte, de materializar-se, reconstituindo, íntegralmente, o organismo físico que aqui possuía, somos levados a supor que, no instante do nascimento, é ele que forma seu invólucro corporal, o qual não passa de uma materíalização estável e permanente, enquanto nas sessões experimentais ela é apenas temporária, porque produzida fora das vias normais da geração.

Essa opinião, que eu emitia há 25 anos em "A Evolução Anímica", acaba de ser aceita pelo eminente Sir Oliver Lodge, numa conferência feita na Inglaterra, em 1922, diante de um público escolhido.

O corpo espiritual, a que a alma está indissoluvelmente ligada, conserva o estatuto das leis biológicas que regem a matéria organizada.

Ele contém, igualmente, todos os arquivos da vida mental, porque a consciência só nos faz conhecer uma fraca parte desse imenso oceano, à superfície do qual ela emerge, e que constitui o fundo de nossa individualidade.

Pode-se dizer, portanto, que o conhecimento do perispírito é o fecho de toda a explicação das vidas sucessivas. A cada nascimento, é um ser antigo que reaparece.

2 - ONDE E COMO O PERISPÍRITO PODE ADQUIRIR SUAS PROPRIEDADES

Uma das mais belas conquistas da ciência do XIX século, foi haver demonstrado a unidade fundamental da composição de todos os seres vivos: todos nascem de um ovo, todos são formados de células, cujo protoplasma é sensivelmente o mesmo, apesar de sua prodigiosa diversidade. Todos os seres nascem, evolucionam e morrem. Todas as funções orgânicas são essencialmente semelhantes: a nutrição, a digestão, a respiração e a reprodução operam-se de maneira quase idêntica.

É uma demonstração pelo fato da unidade de plano da Natureza e, desde que a inteligência, posto que diferente da matéria, lhe é, entretanto, associada, licito é acreditar que o princípio espiritual lhe é também fundamentalmente o mesmo, apesar das diferenças quantitativas que existem em todos os graus de seu desenvolvimento.

Verificamos que as faculdades transcendentais, como a telepatia, a clarividência, e mesmo a ideoplastia, existem igualmente nos animais, o que é uma razão a mais para admitir a identidade do plano da Criação.

Se assim é, se realmente a alma vem subindo os degraus da escala zoológica, não será surpreendente que a cada nascimento ela reproduza, em resumo, toda a história do seu passado, como se nota durante a vida embrionária de todos os seres.

Estas induções são legítimas, encadeiam-se mutuamente, e podemos considerá-las como provas da palingenesia universal.

Não se compreende, ainda, claramente, como o príncípio inteligente, que anima inumeráveis milhares de milhões de organismos rudimentares e primitivos, chegue a sintetizar-se em uma unidade de uma ordem superior, assim como não se pode explicar, claramente, como essa passagem se opera de uma espécie a outra. Não é, entretanto, menos real que existe uma ligação permanente e contínua entre todos os degraus de escala vital, e se a vida é una no Universo, o mesmo acontece com o princípio espiritual.

Somos, daí, obrigados a perguntar onde o perispírito pôde adquirir suas propriedades funcionais, e parece lógico supor que ele as fixou em si, no curso de suas evoluções terrestres, passando, sucessivamente, por toda a fieira da série anlmal, integrando em sua substância indestrutível as leis cada vez mais complicadas que lhe permitem animar e reparar, automaticamente, organismos cada vez mais complexos, das formas mais simples ao homem. É uma gradação sucessiva e uma evolução contínua.

Se esta hipótese é exata, devem-se reencontrar, na série animal, fenômenos análogos aos observados na Humanidade. É indiscutivelmente o que se dá, pois que já verificamos que a alma do animal sobrevive à morte.

Em obra precedente, "A Evolução Anímica", procurei indicar como se podia conceber o desenvolvimento progressivo do princípio espiritual, e mostrei que, colocando-se a causa da evolução nos esforços empregados pelo princípio inteligente, para libertar-se progressivamente dos laços da matéria, explicam-se melhor os fatos do que pela teoria materialista dos fatores únicos da hereditariedade e do meio.

O progresso físico e intelectual provém de esforços incessantes, reiterados, de melhoramentos quase imperceptíveis, a cada passagem, mas cujo termo está na Humanidade, que resume e sintetiza essa grande ascensão.

O ser, chegado a um grau qualquer da escala vital, não pode mais retrogradar, simplesmente porque não encontraria mais, em razão do seu estado evolutivo, as condições necessárias para encarnar nas formas inferiores, que já ultrapassara.

Os cruzamentos são, em geral, infecundos, entre espécies diferentes, porque os híbridos não se reproduzem, e com mais forte razão entre as famílias e os ramos.

Notemos, ainda, que as funções vitais, nutrição, respiração, reprodução, e mesmo a sensibilidade e a motricidade, não criam diferenças essenciais entre os animais e os vegetais, o que estabelece a grande unidade fundamental que existe sob o véu das aparências.

Demonstrou-nos a Ciência que o transformismo não passa de um caso particular de uma lei geral.

Tudo evoluciona, tanto as nações como os indivíduos, assim os mundos como as nebulosas. Tudo parte do simples para chegar ao composto; da homogeneidade primitiva vai-se à prodigiosa complexidade da Natureza atual, realizada por leis que só pedem tempo para produzir todos os seus efeitos.

Vimos que, nos vertebrados superiores e mais particularmente entre os animais domésticos, a inteligência adquiriu grande desenvolvimento para compreender a linguagem humana, para formular raciocínios, para resolver certos problemas.

É evidente que se encontra, ainda, num grau inferior de mentalidade, mas que é da mesma natureza que a nossa.

Assinalei, igualmente, que os chamados poderes supranormais, como a telepatia, a clarividência, o pressentimento, se observam bastantes vezes, na raça canina, o que permite, ainda, assimilar o princípio espiritual do animal ao do homem e, repito-o, existem fantasmas de animais inteiramente análogos, em suas manifestações, às manifestações materializadas dos mortos. (V. "Revue Métapsychique", janeiro-fevereiro, 1923,)

Em resumo, em todos os seres vivos há as mesmas contribuições orgânicas, as mesmas funções vitais, o mesmo princípio pensante, o mesmo invólucro perispiritual.

Magnifica demonstração é essa da grande lei de continuidade que rege o Universo inteiro.

Gabriel Delanne - A reencarnação