PROVAS DA IMORTALIDADE DA ALMA PELA EXPERIÊNCIA

À pergunta - existe a alma? - a ciência responde talvez, os fenômenos do magnetismo, do hipnotismo e da anestesia dizem que SIM, e nisso confirmam todas as deduções da filosofia e as afirmações da consciência.

Constrangidos, pela evidência dos fatos, a admitir uma força diretriz no homem, grande número de materialistas se refugiam em uma última negativa, sustentando que essa energia se extingue com o corpo, de que ela não era senão uma emanação. Como todas as forças físicas e químicas, dizem eles, a alma, essa resultante vital, cessa com a causa que a produz; morto o homem, está aniquilada a alma.

Será possível? Não seremos mais que um simples conglomerado vulgar de moléculas sem solidariedade umas com as outras? Deve desaparecer para sempre nossa individualidade cheia de amor e, do que foi um homem, não restará verdadeiramente senão um cadáver destinado a desagregar-se, lentamente, na fria noite do túmulo? a inanidade de suas crenças primitivas, queimaram o que haviam adorado, e, levando o desdém do passado aos últimos limites, repeliram a noção de Deus e a da alma, como de entidades vetustas, sem nenhum valor objetivo. Assim se estabeleceu a corrente materialista nascida, no 18° século, da luta contra os abusos.

O homem de nossa época não quer mais crer, desconfia mesmo da razão e se refugia na experiência sensível como a única que lhe pode trazer a verdade; eis por que exige ele provas positivas dos fenômenos que eram, até então, do domínio da filosofia. Estas considerações explicam-nos o pouco êxito de escritores eminentes como Balllanche, Constant Savy, Esquiros, Charles Bonnet, Jean Reynaud, que pregaram a imortalidade da alma.

Em nossos dias, um filósofo e sábio, Camille Flammarion, segue a rota gloriosa desses grandes homens. Este vulgarizador de gênio semeia a mancheias as idéias da palingenesia humana, e os resultados correspondem a seus nobres esforços; ele deve, porém, a fama que alcançou, mais à beleza do estilo que às idéias que emite. O espírito humano, agitado há séculos entre os mais diversos sistemas, está cansado das especulações metafísicas e se aferra à observação material como a uma tábua de salvação. Daí o grande credito dos homens de ciência no momento atual. Eles formam um corpo sagrado, cujos julgamentos não têm apelação. Possuem a soberba dos antigos colégios sacerdotais, sem lhes partilhar as raras virtudes, e em ambas as partes a intolerância é a mesma.

A maioria do povo, que só percebe o exterior das coisas, vendo os conhecimentos antigos destruídos pelos descobrimentos modernos, crê cegamente em seus novos condutores e se lança, após eles, no materialismo absoluto. Não mais se raciocina; vai-se de cabeça baixa às últimas conseqüências, e, porque está provado que o cérebro é a sede do pensamento, já não existe a alma; porque não se acredita mais em Jeová a pairar sobre as nuvens, Deus não passa de fabuloso mito.

Contra essas tendências é que o Espiritismo vem reagir. Sendo o nosso século o da demonstração material, ele apresenta ao observador imparcial fatos bem verificados.

O Espiritismo deixa de parte as teorias nebulosas, desprende-se dos dogmas e das superstições e vai apoiar-se na base inabalável da observação científica; os proprios positivistas poderão declarar-se satisfeitos com as provas que fornecemos à discussão, porque elas nos são trazidas pelos maiores nomes de que se honra a ciência contemporânea.

Há 50 anos que essa doutrina reapareceu no Mundo, foi submetida a críticas apaixonadas, a ataques muitas vezes desleais. Seus adeptos foram escarnecidos, ridicularizados, anatematizados; quis-se fazer deles os últimos representantes da feitiçaria; entretanto, apesar das perseguições, acham-se na hora atual mais numerosos e mais poderosos do que nunca; encontram-se, não entre os ignorantes, mas entre os esclarecidos; escritores, artistas, sábios.

O Espiritismo se espalha no Mundo com rapidez inaudita; nenhuma filosofia, nenhuma religião tomou tão considerável desenvolvimento em tão curto tempo.

Hoje, mais de 40 publicações, mensais ou hebdomadárias, levam ao longe o resultado das pesquisas empreendidas em todas as partes do Mundo, e seus partidários, grupados em sociedade, contam muitos milhões de aderentes em toda a superfície do Globo.

A que é devida essa progressão formidável? Tão-só à simplicidade dos ensinos espiritistas, baseados na justiça de Deus, e, sobretudo, aos meios práticos que essa nova ciência emprega para convencer a todos da imortalidade da alma.

Há duas fases distintas na história do Espiritismo, que é útil assinalar. A primeira compreende o período que vai do ano de 1846, data de sua aparição, até o ano de 1869, que foi o da morte de um escritor célebre, Allan Kardec. Durante esse tempo, estudou-se em toda parte o fenômeno espírita, as experiências se multiplicaram e os observadores sérios descobriram que os fatos novos eram produzidos por inteligências que viviam uma existência diferente da nossa. Dessa certeza nasceu o desejo de estudar tão curiosas manifestações, e, com documentos recolhidos em toda a parte, Allan Kardec, compôs "O Livro dos Espíritos" e, mais tarde, "O Livro dos Médiuns", que são o vade-mécum indispensável às pessoas desejosas de se iniciarem nessas novas práticas. O grande filósofo que os escreveu, imprimiu vigoroso impulso a tais investigações, e à sua dedicação infatigável, pode dizer-se, é que se deve a propagação tão rápida dessas consoladoras verdades.

O segundo período, que se estende de 1869 até nossos dias, é caracterizado pelo movimento científico, que se voltou para as manifestações dos Espíritos. A Inglaterra, a Alemanha, a América parecem caminhar de acordo nessas pesquisas. Já os mais autorizados sábios desses países proclamam alto a realidade dos fenômenos espiritistas e, dentro em pouco, o mundo inteiro se associará a esses nobres trabalhos, que têm por fim arrancar-nos à crença degradante do materialismo. Já veremos os documentos em que se estriba nossa afirmação.

Passou o tempo em que se podia, a priori, repelir as nossas idéias sem lhes dar a honra de as discutir; hoje, o Espiritismo se impõe à atenção pública. É preciso que os absurdos preconceitos que o acolheram no berço desapareçam diante da realidade. É necessário saber que, longe de serem visionários, de possuírem cérebro oco, os espiritistas são observadores frios e metódicos, que só relatam os fatos bem observados.

Força é que se convençam de que muitos milhões de homens não são vítimas de uma loucura contagiosa; que, se crêem, é porque a doutrina lhes oferece os mais dignos ensinos, porque abre ao espírito os mais vastos horizontes. Convém, enfim, que se deixem de lado as fáceis zombarias empregadas há vinte e cinco anos nos jornalecos, e que nem mesmo fazem rir os que os editam. A nova ciência que ensinamos não consiste, somente, no movimento de uma mesa, porque, tão grande é a distância que vai destes modestos ensaios às suas conseqüências, quão da maçã de Newton à gravitação universal.

Convidamos os homens de boa fé a fazerem pesquisas sérias, pedimos-lhes que meditem nos ensinamentos de nossa filosofia e eles se convencerão de que nas nossas explicações nunca intervém o sobrenatural.

O Espiritismo repele o milagre com todas as forças. Faz de Deus o ideal da justiça e da ciência; diz que o Criador do Mundo, tendo estabelecido leis que exprimem seu pensamento, não pode derrogá-las, pois que elas são a obra da razão suprema e é impossível qualquer infração a essas leis. Os fatos espíritas podem ser todos, senão explicados, pelo menos compreendidos com os dados da ciência atual.

A parte espiritual do homem foi desprezada pelos sábios; seus trabalhos versam tão-só sobre o corpo e eis que os Espíritos invadem a Ciência que os havia desdenhado.

Histórico

Narremos sucintamente como se produziram os fatos. Pancadas, de que não se podia adivinhar a causa, Se fizeram ouvir pela primeira vez em 1846, na casa de um tal Veckmann, numa pequena aldeia chamada Hydesvillle, não longe da Arcádia, no Estado de Nova York.

Nada foi desprezado para descobrir-se o autor dos ruídos misteriosos; mas tudo resultou inútil. Uma vez, também, durante a noite, a família acordou com os gritos da mais jovem das filhas, de oito anos de idade, que assegurou ter sentido qualquer coisa como uma mão que tivesse percorrido o leito e enfim passado sobre o seu rosto, o que se dera em muitos outros lugares em que as pancadas se fizeram ouvir.

"Desde esse momento nada mais se manifestou, durante seis meses, quando a família deixou a casa, que passou a ser habitada por um metodista, John Fox e sua família, composta de mulher e duas filhas. Durante três meses ele aí viveu tranqüilamente; depois as pancadas recomeçaram com maior intensidade.

A princípio eram ruídos ligeiros, como se alguém batesse no assoalho de um dos quartos de dormir, que vibrava a cada ruído; as pessoas deitadas percebiam a vibração e a comparavam à ação produzida pela descarga de uma bateria elétrica. As pancadas se faziam ouvir sem interrupção e não era possível dormir na casa; durante toda a noite, esses ruídos leves, vibrantes, manifestavam-se suavemente, mas sem cessar.

Fatigada, inquieta, sempre à espreita, a família decidiu-se, enfim, a chamar os vizinhos para auxiliá-la a descobrir a chave do enigma. Desde então, as pancadas misterioosas detiveram a atenção de todos.

Colocavam na casa grupos de seis ou oito indivíduos, ou então saíam todos, e o agente invisível batia sempre. A 31 de março de 1845, não tendo podido a Sra. Fox e suas filhas dormir na noite precedente, já exaustas, deitaram-se, cedo, no mesmo quarto, esperando, assim, escapar às manifestações que se produziam, ordinariamente, alta noite. O Sr. Fox estava ausente. Mas as pancadas recomeçaram logo e as duas moças, despertadas pelo ruído, puseram-se a imitá-lo, fazendo estalar os dedos. Vendo com grande espanto que as pancadas respondiam a cada estalo; então, a mais jovem, miss Kate, quis verificar este fato surpreendente: ela deu um estalo, ouviu-se uma pancada, dois, três ... e o ser ou agente invisível respondia sempre com o mesmo número de pancadas. A irmã, gracejando, disse: - Agora, faça como eu, conte um, dois, três, quatro ... e batia na mão o número indicado. As pancadas se seguiram com a mesma precisão, mas, como a mais moça das meninas se alarmasse com este sinal de inteligência, ela cessou logo a experiência.

Disse, então, a Sra Fox: "Conte dez", e imediatamente dez golpes se fizeram ouvir. Ela acrescentou: "Quer dizer a idade de minha filha Catarina?"

E as pancadas indicaram o número de anos que tinha essa criança. Perguntou depois a Sra. Fox se era um ser humano o autor das pancadas. Não houve resposta. Disse ela ainda: - "Se é um espírito dê duas pancadas." Imediatamente elas se fizeram sentir. - "Se é um espíriito a quem fizeram mal, responda da mesma forma: E as pancadas foram ouvidas.

Tal foi a primeira conversa estabelecida nos tempos modernos e verificada entre os seres deste e do outro mundo. Assim chegou a Sra. Fox a saber que o Espírito que lhe respondia fora o de um homem assassinado, havia muitos anos, na casa que ela habitava; que se chamara Charles Ryan; que era caixeiro viajante, e que tinha 31 anos de idade quando a pessoa que o hospedara o assassinou para tirar-lhe o dinheiro.

Perguntou a Sra. Fox ao interlocutor invisível, se as pancadas continuariam a dar respostas, caso ela chamasse os vizinhos. Fez-se ouvir uma pancada afirmativa.

Os vizinhos chamados não tardaram a chegar, contando rir à custa da famfiia Fox; mas a exatidão dos pormenores fornecidos pelas pancadas, em resposta às perguntas dirigidas ao ser invisível, sobre os negócios particulares de cada um, convenceram os mais incrédulos. Espalhou-se longe a fama desses fatos e logo vieram de toda parte sacerdotes, juízes, médicos, e uma multidão de pessoas.

A família Fox, que os autores das pancadas acompanhavam de casa em casa, acabou estabelecendo-se em Rochester, cidade importante do Estado de Nova York, onde milhares de pessoas vieram visitá-la e procuraram, em vão, descobrir se havia alguma impostura no caso.

O fanatismo religioso irritou-se com essas manifestações de além-túmulo, e a família Fox foi atormentada. A Sra. Hardinge, que se fez defensora do Espiritismo na América, conta que nas sessões públicas dadas pelas filhas da Sra. Fox, correram elas os maiores perigos.

Nomearam-se três comissões para examinar os fenômenos e essas comissões afirmaram que a causa do ruído lhes era desconhecida. A última sessão pública foi a mais tempestuosa, e, se não fora a dedicação de um quaker, as pobres meninas teriam parecido, vítimas de sua fé, linchadas por uma multidão em delírio.

É triste ver que no século dezenove se encontraram homens bastante atrasados para renovar as cenas bárbaras das perseguições da Idade Média. Isto é tanto mais lamentável, quanto este exemplo de intolerância foi dado nas Américas, que se diz, entretanto, a terra de todas as liberdades.

A nova do descobrimento se espalhou rapidamente e houve em toda parte manifestações espirituais. Um cidadão, Isaac Post, teve a idéia de recitar o alfabeto em alta voz e convidar o Espírito a indicar, por meio de pancadas dadas no justo momento em que as pronunciasse, as letras que deviam compor as palavras que ele quisesse ditar. Nesse dia estava descoberta a telegrafia espiritual.

Para logo fatigou tão incômodo processo e os próprios batedores indicaram novo modo de comunicação. Bastava, simplesmente, se reunirem as pessoas em torno de uma mesa, porem as mãos em cima, e a mesa, levantando-se, enquanto se soletrasse o alfabeto, daria uma pancada no justo momento que se pronunciasse cada uma das letras que o Espírito quisesse designar. Este processo, apesar de muito lento, produziu excelentes resultados, e assim apareceram as mesas girantes e falantes.

É preciso dizer que a mesa não se limitava a levantar-se num pé, para responder às perguntas que lhe faziam: agitava-se em todos os sentidos, girava sob os dedos dos experimentadores, algumas vezes se elevava no ar, sem que se pudesse ver a força que a mantinha assim suspensa. Outras vezes, as respostas eram dadas por estalos, que se ouviam no interior da madeira. Esses fatos estranhos atraíram a atenção geral e, em breve, a moda das mesas girantes invadiu toda a América.

A par dos levianos, que viviam a interrogar os Espíritos sobre a pessoa mais amorosa da sociedade ou sobre um objeto perdido, pessoas sérias, sábios, pensadores, em vista do ruído que se fazia em torno desses fenômenos, resolveram estudá-los cientificamente, a fim de premunirem seus concidadãos contra o que chamavam de loucura contagiosa.

Em 1856, o juiz Edmonds, jurisconsulto eminente, que gozava incontestável autoridade no Novo Mundo, publicou um livro em que afirmava a realidade dessas surpreendentes manifestações. Mapes, professor de química, na Academia Nacional dos Estados Unidos, entregou-se a rigorosa investigação e concluiu pela intervenção dos Espíritos.

O que produziu, porém, o maior efeito, foi a conversão às novas idéias de Robert Hare, célebre professor da Universidade de Pensilvânia, que estudou cientificamente o movimento das mesas e consignou suas experiências, em 1856, num volume intitulado - Experimental investigations of the spirit manifestation.

Empenhou-se, desde então, a batalha entre incrédulos e crentes. Escritores, sábios, oradores, eclesiásticos lançaram-se na peleja, e para dar uma idéia do desenvolvimento da polêmica, basta lembrar que, já em 1854, uma petição, assinada por 15.000 nomes, tinha sido apresentada ao Congresso, solicitando que se nomeasse uma comissão, a fim de estudar o neo-espiritualismo (é este o nome que, na América, se dá ao Espiritismo).

O pedido foi repelido pela Assembléia, mas estava dado o impulso; surgiram sociedades que fundaram periódicos e neles se continuou a guerra contra os incrédulos.

Enquanto esses fatos se produziam no Novo Mundo, a velha Europa não ficava inativa. As mesas girantes tomaram-se uma interessante atualidade e nos anos de 1852 e 1853 muitos, em França, se ocuparam em fazê-las girar. Em todas as classes sociais só se falava dessa novidade; fazia-se a todos essa pergunta sacramental: já fez girarem as mesas? E depois, como tudo que é moda, após o momento de interesse, as mesas deixaram de ocupar a atenção e tratou-se de outros assuntos.

Aquela mania teve, entretanto, um resultado importante, o de fazer muitas pessoas refletirem sobre a possibilidade da relação entre mortos e vivos. Pela leitura se descobriu que aquilo que se chama a crença no sobrenatural era tão antiga como o Globo.

A história de Urbano Grandier e das religiosas de Loudun, dos tremedores das Cevenas, dos convulsionários jansenistas, provaram que muitos fatos históricos mereciam ser esclarecidos, e, para citar apenas os mais célebres, o demônio de Sócrates e as vozes de Joana d' Arc, que a levaram a salvar a França, são ainda mistérios para os sábios. Em vão, Lélut quis assemelhar a heróica Lorena a uma alucinada; desejar-lhe-íamos idêntica moléstia, a fim de que se lhe esclarecesse o juízo.

A narrativa da possessão de Louviers, a história dos iluminados martinistas, dos swedenborguenses, das estigmatizadas do Tirol, e, há apenas 50 anos, a do padre Gassner e da vidente de Prevorst, conduziram os homens sérios a examinar os fenômenos novos. Comparou-se o Espírito de Hydesville ao que revolucionou o prebistério de Cydeville; uma teoria geral nasceu do exame de todos esses fatos; ela está exposta nas obras de Allan Kardec.

As mesmas cóleras que acompanharam as manifestações espirituais na América, renovaram-se em França. Os jornais, as revistas científicas, as Academias esgotaram os sarcasmos para com a nova doutrina. Chamavam, gratuitamente, os seus partidários, de loucos, idiotas, impostores. Acusavam-nos de querer fazer voltar o mundo aos maus dias da superstição da Idade Média; pedia-se, mesmo, aos tribunais, que impedissem a exploração vergonhosa da credulidade pública. Os padres trovejavam do alto do púlpito contra os fenômenos espiritistas, que eles diziam ser obra do diabo. Enfim, como remate, o arcebispo de Barcelona mandou queimar em praça pública as obras de Allan Kardec, por contaminadas de feitiçaria!

Dir-se-ia que sonhamos ao ler tais coisas; infelizmente elas são bem verídicas e mostram como são ainda rotineiros os homens, apesar do magnífico surto de progresso que determinou o movimento científico moderno. É preciso uma doutrina como a nossa, que brilha por sua simplicidade e sua lógica, para conduzir os Espíritos às grandes verdades que se chamam Deus e a alma. Nossa filosofia, em sua forma primitiva, sintetiza as crenças mais elevadas dos pensadores, mas ela tem a mais por si o fato, que, se impõe por si mesmo como o Sol, o rei do dia.

É dever nosso afastar de nossas experiências qualquer suspeita. Indispensável é que procuremos destruir as prevenções e mostrar como são falsas, mesquinhas e incompletas, comparadas às nossas, as explicações aventadas para os fenômenos espíritas.

É o que faremos facilmente nas páginas seguintes, ao examinar as objeções que nos têm sido opostas. Antes, porém, descrevamos o movimento espiritualista que se produziu na Inglaterra e na Alemanha, e se verá quantos homens de ciência são espíritas convencidos.

Na França a opinião pública habituou-se a confiar inteiramente em algumas sumidades literárias ou científicas, quanto aos seus julgamentos sobre os homens e as coisas, de sorte que, se essas notabilidades têm qualquer interesse em enterrar uma questão, a maior parte do público as acompanha e faz-se o silêncio, o vazio em torno das matérias em litígio. É para protestar contra esse ostracismo, que reproduzimos as afirmativas de sábios da Grã-Bretanha; ver-se-á quanto esses homens íntegros pouco se inquietaram do que se diria e com que honestidade enérgica proclamaram sua opinião, solidamente baseada nos fatos.

Comecemos por citar as memoráveis palavras pronunciadas por William Thompson, no discurso inaugural, lido em 1871, na Associação Britânica de Edimburgo: "A Ciência é obrigada, pela eterna lei da honra, a encarar de face, e sem temor, qualquer problema que lhe seja francamente apresentado."

São nobres sentimentos, partilhados por grande número de homens de ciência. Caminha à frente, William Crookes, químico eminente, a quem se deve o descobrimento do tálium, e que, em Westminster, demonstrou a existência de um quarto estado da matéria, que chamou, segundo Faraday, de matéria radiante.

Para que compreendamos a grandeza do descobrimennto, escutemos os elogios com que lhe saudaram a aparição:

"Dora em diante, as experiências do sábio inglês, para sempre ilustre, estabelecem problemas que se relacionam com a natureza mais Última das coisas e abrem à imaginação científica horizontes de que ela mal começa a perceber os esplendores. - Edmond, Perrier."

Parville, em seu folhetim científico, qualifica de grandioso aquele descobrimento e anuncia que ele vai revolucionar as teorias atuais.

Enfim, Wurtz, o conhecido químico, assim se pronuncia na Revue des Deux Mondes: "O ilustre inventor do radiômetro penetra num domínio até então completamente desconhecido, e que, marcando o limite das coisas que se sabem, toca nas que se ignoram e que, talvez, nunca se venham a saber."

Esse químico ilustre, esse físico de gênio, Crookes, submeteu a estudo as manifestações espíritas, não com idéias preconcebidas, mas com o desejo firme de instruir-se e de só apoiar o seu julgamento na evidência. Diz ele:

"Em presença de semelhantes fenômenos, os passos do observador devem ser guiados por uma inteligência tão fria e pouco apaixonada, quanto os instrumentos de que faz uso. Tendo a satisfação de compreender que está na trilha de uma verdade nova, esse único objetivo deve animá-lo a prosseguir, sem considerar se os fatos que se lhe apresentam são naturalmente possíveis ou não." Com tais idéias, começou ele seus estudos sobre o Espiritismo; duraram perto de 10 anos e foram publicados com o título - Recherches sur les phénomenes du Spiritualisme, traduzido do inglês por J. Alidel.

Nesse livro, ele declara lealmente os resultados do seu inquérito, tal como se lhe apresentaram; não contente do testemunho dos sentidos, construiu instrumentos delicados, que medem matematicamente as ações espirituais. Longe de temer o ridículo, Crookes assim responde aos que o induziam a dissimular a fé, por não se comprometer:

"Tendo-me assegurado da realidade desses fatos, seria uma covardia moral recusar-lhes meu testemunho, só porque minhas precedentes publicações foram ridicularizadas por críticos e pessoas que nada conhecem do assunto, além de cheios de preconceitos para verem e julgarem por si próprios. Direi, simplesmente, o que vi e que me foi demonstrado por experiências repetidas e fiscalizadas, e preciso ainda que me provem não ser razoável o esforço por descobrir a causa dos fenômenos inexplicados."

Eis a linguagem da verdadeira ciência e da honestidade; possam aproveitá-la nossos sábios franceses. Poder-se-ia acreditar que Crookes é uma brilhante exceção; seria erro grosseiro supô-lo, e se afirmação de tal homem é inestimável para a nossa causa, ainda é ela aumentada, consolidada pela de outros sábios, que se deram ao trabalho de estudar o Espiritismo.

Citaremos, em primeiro lugar, Cromwell Varley, engenheiro chefe das companhias de telegrafia internacional e transatlântica, inventor do condensador elétrico. É ainda um físico, cuja assertiva não é menos nítida que a de Crookes. Ele fez experiências em sua casa, com as mais rigorosas condições de fiscalização e sua convicção é absoluta. Termina uma carta sua dizendo:

"Não fazemos mais do que estudar o que foi objeto das pesquisas dos filósofos, há dois mil anos; se uma pessoa bem versada no conhecimento do grego e do latim, ao mesmo tempo a par dos fenômenos que, em tão grande escala; se produzem, desde 1848, quisesse traduzir cuidadosamente os escritos daqueles grandes homens, o Mundo logo saberia que tudo o que se passa, agora, é nova edição de velha face da história; estudada por espíritos ousados, chegou ela a um grau que diz bem alto do crédito desses velhos sábios clarividentes, porque se elevaram acima dos acanhados preconceitos do século e, ao que parece, estudaram o assunto em proporções, que, sob vários aspectos, ultrapassam, de muito, nossos conhecimentos atuais:'

Como se vê, químicos e físicos não recusam adesão ao Espiritismo. Outro sábio, célebre naturalista, que descobriu, ao mesmo tempo que Darwin, a lei de seleção, Alfred Russel Wallace, faz também profissão de fé espírita, em carta dirigida ao Times que nós relataremos ao expor os fatos sobre os quais se baseia nossa convicção. Narremos somente em que condições ele foi levado a ocupar-se com as manifestações dos Espíritos.

Existe em Londres, independentemente da Sociedade Real, que é a Academia de Inglaterra, um grêmio de sábios - a Sociedade Dialética; conta ela homens notáveis como Thomas H. Huxley, Sir John Lubbock, Henry Lewes e outros. Esta sociedade resolveu, em 1869, estudar os pretendidos fenômenos espíritas, a fim de esclarecer o público.

Nomeou-se uma comissão de 30 membros e, 18 meses depois, apresentou ela o seu relatório, inteiramente favorável às manifestações espíritas. Segundo o hábito, a Sociedade, vendo suas idéias desmentidas pelos fatos, recusou imprimir as conclusões dos seus comissários. Assim, também a Academia de Medicina repeliu o trabalho de Husson sobre o magnetismo animal, o que prova que as corporações sábias são as mesmas em todos os países; elas se compõem de ilustres mediocridades, que emperram, aterrorizadas, diante de todas as novidades.

Quando uma novidade, como o Espiritismo, se maniifesta de maneira anormal, e força a atenção pública, pela singularidade dos seus processos, logo se eleva um clamor de reprovação e procura-se sufocar oficialmente as teorias que tiveram a irreverência de produzir-se fora dos laboratórios diplomados desses senhores.

Felizmente, para honra do gênero humano, encontram-se ainda homens que não recuam diante da verdade e Wallace é desse número. Membro da junta de investigação, pôde observar uma série de fatos que o convenceram, e publicou um livro - Miracle and modern Spiritualism -, onde suas experiências são relatadas por extenso.

Faz ele precisamente notar que, no seio da comissão, o grau de convicção produzida no espírito dos diversos membros foi, tendo-se em conta a diferença dos caracteres, proporcional à soma do tempo e dos cuidados empregados na investigação. Isto nos leva a dizer que quem quiser experimentar seriamente e consagrar alguns meses ao estudo do Espiritismo, chegará certamente a convencer-se.

Na França, porém, quer-se aparentar tudo saber e tudo conhecer sem jamais ter-se estudado. Vejamos uma prova: Um deputado, o Sr. Naquet, anunciou, há alguns anos, que iria fazer uma conferência sobre o Espiritismo e seus adeptos. Esperava-se do eloqüente orador uma refutação em regra, apoiada em bons argumentos. Não houve nada disso; limitou-se ele a reeditar os lugares comuns, já fora da moda, e levou a audácia a ponto de dizer que nenhum homem de certa notoriedade se havia ocupado do assunto. Levantou-se, então, uma senhora e lhe fez chegar às mãos a lista dos sábios estrangeiros que haviam publicado obras sobre o Espiritismo. Naquet confessou ingenuamente sua ignorância.

Diante de tais fatos não será tempo de reagir? Como! Sábios, conferencistas pretendem destruir o que chamam nossas superstições, e não estão sequer ao corrente dos trabalhos publicados sobre o Espiritismo! É verdadeiramente triste constatar tal presunção aliada a tanta incúria!

Podemos ainda citar na Inglaterra, entre os adeptos do novo espiritualismo, alguns homens eminentes: Augusto de Morgan, presidente da Sociedade Matemática de Londres; Oxon, professor da Faculdade de Oxford; P. Barkas, membro do Instituto Geológico de Newcastle, e o professor Tyndall, autor de notáveis estudos físicos. Todos se tomaram espiritistas, depois de verificarem de visu as manifestações dos Espíritos.

Deixamos, propositadamente, de falar dos magistrados, dos publicistas, dos médicos que trataram da matéria, não que seus testemunhos sejam destituídos de valor, mas para conservar em nossas citações o caráter eminentemente científico.

Depois da enumeração de tantos nomes ilustres, podemos sorrir da ingênua pretensão dos que, sem estudos preliminares, querem repelir o Espiritismo, tendo-o como vulgar superstição, ou melhor, como "uma sandice de mundo nascente", na opinião graciosa de Dupont White, reproduzida por Jules Soury.

Se há sandice, estamos em boa companhia, porque a estudiosa Alemanha nos oferece, também, respeitável contingente. Vemos, à frente, o ilustre astrônomo Zõellner que, em suas memórias científicas, narra as experiências que fez com Ulrici, professor de filosofia do maior valor; Weber, célebre fisiologista, Fechner, professor da Universidade de Leipzig, com Slade, o médium americano.

Ressalta desses estudos e das experiências conscienciosas instituídas por esses sábios, não só que as manifestações espíritas são reais como são dignas, ainda, no mais alto grau, de atrair a atenção dos cientistas.

Na França, pelas razões supracitadas, não contamos em nossas fileiras tantas notabilidades oficiais, mas os nomes de Flammarion, Victor Hugo, Sardou, da Sra. de Girardin, de Vacquerie, de Louis Jourdan, de Maurice Lachâtre e de outros têm algum valor e formam belo contingente, no qual Dupont White e Jules Soury não poderão encontrar, jamais, lugar. (Depois da primeira edição deste livro foi criado em Paris um Instituto Metapsíquico Internacional, para o estudo dos fenômenos espíritas e numerosos sábios afirmam a autenticidade dos fatos. (Nota da nova edição.))

GABRIEL DELANNE - O ESPIRITISMO PERANTE A CIÊNCIA