RESUMO DOS PRINCÍPIOS
DO NOVO ESPIRITUALISMO

Em resumo, os princípios que decorrem do novo espiritualismo - princípios ensinados por Espíritos desencarnados, em muito melhores condições do que nós para discernir a verdade - são os seguintes:

1 - EXISTÊNCIA DE DEUS:

Inteligência diretriz, alma do Universo, unidade suprema onde vão terminar e harmonizar-se todas as relações, foco imenso das perfeições, donde se irradiam e se espalham no infinito todas as potências morais: Justiça, Sabedoria, Amor!

2 - IMORTALIDADE DA ALMA:

Essência espiritual,que encerra no estado de germe todas as faculdades, todas as potências; é destinada a desenvolver estas pelos seus trabalhos, encarnando em mundos materiais, elevando-se por vidas sucessivas e inumeráveis, de degraus em degraus, desde as formas inferiores e rudimentares, até a perfeição na plenitude da existência.

3 - COMUNICAÇÃO ENTRE OS VIVOS E OS MORTOS:

Ação recíproca de uns sobre os outros; permanência das relações entre ambos os mundos; solidariedade entre todos os seres, idênticos em origem e nos fins, diferentes somente em sua situação transitória; uns, no estado de Espírito, livres no espaço, outros revestidos dum invólucro perecível, mas passando alternadamente dum estado a outro, não sendo a morte mais que um tempo de repouso entre duas existências terrestres.

4 - PROGRESSO INFINITO:

Justiça eterna, sanção moral; da alma, livre em seus atos e responsável, edifica por si mesma o seu futuro; conforme seu estado moral, os fluidos grosseiros ou sutis que compõem seu perispírito e que atrai a si pelos seus hábitos e tendências, esses fluidos, submetidos à lei universal de atração e gravidade, a arrastam para essas esferas inferiores, para esses mundos de dor onde ela sofre, expia, resgata o passado, ou então a levam para esses planetas felizes onde a matéria tem menos império, onde reina a harmonia, a bem-aventurança; a alma, na sua vida superior e perfeita, colabora com Deus, forma os mundos, dirige suas evoluções, vela pelo progresso das Humanidades e pelo cumprimento das leis eternas.

Tais são os ensinos que o Espiritismo experimental nos traz. Não são outros senão os do Cristianismo primitivo, desprendidos das formas materiais do culto, despojados dos dogmas, das falsas interpretações, dos erros com que os homens velaram e desfiguraram a filosofia do Cristo.

A nova doutrina, revelando a existência dum mundo oculto, invisível, tão real, tão vivo como o nosso, abre ao pensamento humano horizontes diante dos quais ele hesita ainda porque fica atônito e deslumbrado. Mas, as relações que esta revelação facilita entre os vivos e os mortos, as consolações, as animações que daí decorrem, a certeza de que encontraremos todos esses a quem supúnhamos perdidos para sempre, de que recebemos deles os supremos ensinos, tudo isso constitui um conjunto de forças incalculáveis, de recursos morais que o homem não pode esquecer ou desprezar sem incorrrerem penas.

Entretanto, apesar do grande valor desta doutrina, o homem do século, profundamente céptico, imbuído de preconceitos, não lhe teria ligado importância se os fatos não viessem corroborá-la. Para abalar o espírito humano, superficial, indiferente, eram precisas as manifestações materiais,estrondosas. Eis por que, cerca do ano 1850, em meios diferentes, móveis de toda a espécie foram agitados, soaram fortes pancadas nas paredes, corpos pesados se deslocaram, assim contradizendo as leis físicas conhecidas; mas, após essa primeira fase grosseira, os fenômenos espíritas tornaram-se cada vez mais inteligentes. Os fatos psíquicos (do grego psyché, alma) sucederam às manifestações de ordem física; médiuns escreventes, oradores, sonâmbulos, curadores, se revelaram, recebendo mecânica ou intuitivamente inspirações cuja causa estava acima deles; aparições visíveis e tangíveis se produziram, e a existência dos Espíritos tornou-se incontestável para todos os observadores que não estavam obcecados por idéias preconcebidas.

Assim apareceu à Humanidade a nova doutrina, apoiada, por um lado, nas tradições do passado, na universalidade dos princípios que se encontram na origem de todas as religiões e da maior parte das filosofias; pelo outro, nos inumeráveis testemunhos psicológicos, nos fatos observados em todos os países, por homens de todas as condições.

Coisa notável: esta ciência, esta filosofia nova, simples e acessível a todos, livre de todos os aparatos e formas de culto, esta ciência apresenta-se mesmo na ocasião propícia, em que as velhas crenças se enfraquecem e se esboroam, no momento em que o sensualismo se espalha qual praga imensa, quando os costumes se corrompem e os laços sociais se afrouxam, quando o velho mundo erra em aventuras, sem freio, sem ideal, sem lei moral, como um navio privado de leme, flutuando à matroca.

Qualquer observador refletido não desconhecerá que a sociedade moderna atravessa uma crise temerosa. Profunda decomposição a corrói surdamente. O amor do lucro, o desejo dos gozos, tornam-se dia por dia mais aguçados, mais ardentes. Deseja-se possuir a todo o custo. Todos os meios são bons para se adquirir o bem-estar, a fortuna, único alvo que julgam digno da vida. Tais aspirações só poderão produzir estas conseqüências: o egoísmo inexorável dos felizes, o ódio e o desespero dos infortunados. A situação dos pequenos, dos humildes, é dolorosa; e estes, muitas vezes atirados às trevas morais, onde não vislumbram uma consolação, buscam no suicídio o termo de seus males. Por uma progressão gradual, o número dos suicidas, que no ano de 1830 era de 1.500, calculando-se só os da França, foi-se elevando cada vez mais até atingir atualmente mais de 8.000.

O espetáculo das desigualdades sociais, os sofrimentos de uns em oposição às alegrias aparentes, às satisfações sensuais, à indiferença de outros; esse espetáculo atiça no coração dos deserdados um ódio ardente. A reivindicação dos bens materiais já se acentua. Organizem-se essas massas enormes de entes humanos, levantem-se, e o velho mundo será abalado por convulsões terríveis.

A Ciência é impotente para conjurar o mal, erguer os caracteres, curar as feridas dos combatentes da vida. Na verdade, as ciências da época apenas tratam de assuntos superficiais da Natureza, reunindo fatos, oferecendo ao espírito humano uma soma de conhecimentos sobre o objeto que lhe é próprio. É assim que as ciências físicas se enriiqueceram prodigiosamente desde meio século, mas esses trabalhos esparsos são deficientes em concatenação, unidade e harmonia. A Ciência por excelência, essa, que da série dos fatos deve remontar à causa que os produz, essa que deve ligar, unir as ciências diversas em grandiosa e magnífica síntese, fazendo despontar uma concepção geral da vida, fixar nossos destinos, desprender uma lei moral, uma base de melhoramento social, essa Ciência uniiversal e indispensável não existe ainda.

Se as religiões agonizam, se a fé velha desaparece, se a Ciência é impotente para fornecer ao homem o ideal necessário, a fim de regular sua marcha e melhorar as sociedades, ficará tudo por isso em situação desesperada?

Não; porque uma doutrina de paz, de fraternidade e progresso, desce a este mundo perturbado e vem apaziguar os ódios selvagens, acalmar as paixões, ensinar a todos a solidariedade, o perdão, a bondade.

Oferece à Ciência essa síntese desejada, sem o que ela permaneceria estéril para sempre. Triunfa da morte e, além desta vida de provações e males, abre ao Espírito as perspectivas radiosas dum progresso sem limites na imortalidade.

Diz a todos: Vinde a mim, eu vos animarei, vos consolarei, vos tornarei mais doce a vida, mais fáceis a coragem e a paciência, mais suportáveis as provas. Povoarei de bastante claridade vosso caminho escuro e tortuoso. Aos que sofrem, dou a esperança; aos que procuram, concedo a luz; aos que duvidam e desesperam, ofereço a certeza e a fé.

Diz a todos: Sede irmãos, ajudai-vos, sustentai-vos na vossa marcha coletiva. Vosso alvo é mais elevado que o desta vida material e transitória, pois consiste nesse futuro espiritual que deve reunir-vos todos como membros duma só família, ao abrigo de inquietações, de necessidades e males inumeráveis. Procurai portanto merecê-lo por vossos esforços e trabalhos!

No dia em que for compreendida e praticada esta doutrina, fonte inesgotável de consolações, a Humanidade será grande e forte. Então, a inveja e o ódio ficarão extintos; o poderoso, sabendo que foi fraco e pode tornar a sê-lo, que a sua riqueza deve ser considerada como um empréstimo do Pai comum, tornar-se-á mais caritativo, mais afável para com seus irmãos desgraçados.

A Ciência, completa, fecundada pela nova filosofia, expelirá as superstições, as trevas. Não mais haverá ateus ou cépticos. Uma fé simples, grandiosa, fraternal, se estenderá sobre as nações, fará cessar os ressentimentos, as rivalidades profundas. A Terra, desembaraçada dos flagelos que a devoram, prosseguindo sua ascensão moral, elevar-se-á cada vez mais na escala dos mundos.

Léon Denis - O porquê da vida