O REDENTOR

Inúmeras são as obras escritas sobre a vida e os fatos referentes a Jesus de Nazaré - o Divino Redentor da humanidade terrena -, cada uma delas apresentando-O de certa maneira, segundo pontos de vista pessoais ou sentimentais sectários.

Animando-nos a fazer este trabalho, outro intuito não temos que render homenagem humilde a tão excelsa entidade espiritual tentando uma reconstituição histórica de sua última passagem pela Terra, a cuja humanidade legou a lembrança imorredoura do sacrifício da cruz e os sublimes ensinamentos do Evangelho.

Não nos iludimos quanto às dificuldades da tarefa, pois que Jesus nada escreveu de si mesmo, talvez porque sua divina presciência descortinava as deturpações que sofreriam seus ensinamentos, não querendo concorrer para as mistificações religiosas e as inevitáveis explorações de documentos e relíquias que mais tarde ocorreriam: preferia, como diz um inspirado instrutor espiritual dos nossos dias que tais alterações fossem feitas "não sobre o que escrevesse, mas somente sobre o que outros dissessem".

Não havendo documentação original provinda de outra fonte, devemos ater-nos aos Evangelhos, codificados na Vulgata Latina, cujos veneráveis Autores não se preocuparam em mencionar os fatos cronologicamente: por outro lado, cada um deles seguiu plano diferente, ou talvez nenhum, omitindo circunstâncias e fatos que serviriam para identificar protagonistas e situar os acontecimentos em datas e lugares apropriados.

O próprio Lucas que, não tendo sido discípulo, escreveu seu trabalho lendo e ouvindo a uns e outros, anos depois do Gólgota, da mesma forma não estabeleceu a necessária ordenação histórica, a seqüência justa dos fatos, provavelmente por já encontrar dificuldade em fazê-lo, não obstante ainda viverem naquela época alguns dos "Doze": Pedro e Tiago, em Jerusalém; João, em Éfeso e outros alhures.

Estas falhas, entretanto, em parte se justificam, porque cada autor escreveu isoladamente, em épocas diferentes, segundo aquilo de que se lembrava e debaixo, ainda, da emoção do drama do Gólgota e do espírito sacrificial que a todos empolgou enquanto viveram.

De outra parte, preciosas indicações e subsídios se perderam ao transitarem os pergaminhos primitivos por milhares de mãos de adeptos na Palestina e em outras partes e, ainda, por último, porque os documentos que se salvaram e chegaram às mãos do erudito padre Jerônímo, a quem o papa Damaso I que exerceu o pontificado entre os anos 366 a 384, incumbiu de codificar o cristianismo disperso, selecionando as 44 narrativas existentes na época I, todas com foro de autenticidade, tais documentos foram por Jerônimo desprezados em sua quase totalidade, aceitando ele somente aqueles que constavam terem sido escritos pelos apóstolos (testemunhas de vista) a saber: João e Mateus, além de Marcos (que não o fora) e ainda de Lucas, por suas ligações estreitas com Paulo de Tarso e de idoneidade comprovada, elaborando assim a codificação intitulada "Vulgata Latina" até hoje adotada, sem contestação, pela maior parte da cristandade.

Mas teriam tais Evangelhos sido escritos pessoalmente pelos Apóstolos? Comparando-se Lucas I: I com "Atos dos Apóstolos" 1:1 que dizem, sem exceção, nos cabeçalhos: "segundo Mateus, segundo João, segundo Lucas e segundo Marcos", enquanto o cap. 10 de Atos diz: "Fiz o primeiro tratado, Teófilo, acerca de todas as coisas, etc." não é de perguntar porque Jerônimo em todos os cabeçalhos escreveu a ressalva "segundo Marcos, segundo João, etc."? Não é de se concluir que os documentos que chegaram às suas mãos eram somente cópias, ou cópias de cópias, mas não os originais? Não há, portanto, certeza de que os Evangelhos, como estão escritos, representam exatamente aquilo que Jesus ensinou, na sua integridade primitiva. Este fato, entretanto, em quase nada desmerece seu altíssimo valor, visto que a estrutura fundamental, a base moral ou iniciática é idêntica em todas as quatro narrativas.

E se nos voltarmos para as obras de caráter mediúnico, da mesma forma encontraremos inúmeras divergências, de forma e de fundo, que não levam a maiores certezas. Têm-se, então, a impressão de que ainda não chegou a época de ser o assunto esclarecido pelos Instrutores Espirituais que, conquanto se mostrem muitas vezes até mesmo prolixos na exposição de assuntos doutrinários ou filosóficos, não trazem maiores esclarecimentos a respeito da parte histórica da vida do Divino Messias.

Mas daí não se conclua que esta última seja desinteressante no seu valor qualitativo, pois tudo que respeita à vida de Jesus ter alto valor iniciático e edifica, sempre, em todos os sentidos. A vida dos condutores espirituais da humanidade é sempre cheia de exemplos preciosos e educativos, porque espelham condutas mais altas e perfeitas e traçam rumos sempre seqüentes à evolução dos seres habitantes dos mundos inferiores.

E nem há que admirar que muito se ignore sobre a vida de Jesus, passada há quase vinte séculos, vivida com grandeza, mas com simplicidade, preferentemente em contato com o povo ignaro e humilde, sem nenhuma projeção de caráter político ou social quando, nos dias que vivemos, neste século de tamanha expressão científica, dispondo os homens de poderosos meios de intercâmbio e publicidade, ainda também muito se ignore sobre assuntos atuais de alto interesse para a evolução da coletividade humana.

A tarefa messiânica era sanear a Terra de suas iniqüidades; oferecer à humanidade diretrizes espirituais mais perfeitas e definitivas, redimir os homens e encaminhá-los para Seu reino divino de luzes e de amor e foi cumprida em todos os sentidos, não importando ao Divino Cordeiro os sofrimentos físicos e morais que suportou. Indicando os caminhos luminosos do amor e da paz universais, deixou ao mundo um legado eterno que é lei, não somente para a Terra, pequenina e retardada, mas para todo o Cosmo.

A tarefa do Divino Enviado não teve, como dissemos, projeções políticas e sociais na sua época, porque tais não eram Seus objetivos, conquanto prevenisse aos pósteros sobre suas conseqüências futuras quando disse: "não vim trazer a paz, mas a divisão".

E, realmente, seus ensinamentos, logo após a morte dos apóstolos, provocaram interpretações as mais diversas e contraditórias sendo, logo depois, o cristianismo primitivo absorvido por forças poderosas que dele se apoderaram para a organização de um religião oficial, dominadora no campo dos valores materiais o que, como era de esperar, retardou de muitos séculos a evolução espiritual do mundo.

E a projeção social, isto é, a influência desses ensinamentos sobre os indivíduos e sobre as massas humanas, no seu devido sentido redencionista, como código moral que exige conduta perfeita e iluminação interior, esta somente se fez sentir há pouco mais de um século, com o advento do Espiritismo - O Consolador prometido por Jesus-- na inspirada e magnífica codificação elaborada por Kardec, na França.

O Espiritismo arrancou o Evangelho das sombras místicas das concepções dogmáticas e o apresentou ao povo, indistintamente, aberto e refulgente, expressivo e edificante, como a força que mais poderosamente realiza transformações morais, no mais íntimo das almas, e impulsiona os homens para as luzes da redenção.

Por estas razões e circunstâncias, ao escrever este modesto trabalho, adotamos o arbítrio de permanecer nas bases históricas do Evangelho codificado, dele somente nos afastando para acrescentar detalhes e complementos idôneos e julgados úteis à melhor clareza e lógica do conjunto, sobretudo quando vindos pela mediunidade, que tem sido canal da revelação divina em todos os tempos.

É evidente que, se houvesse sido promovido o conhecimento preferencial do Evangelho e a vivência dos ensinamentos com a reforma íntima, outra e muito mais evoluída seria a Humanidade.

Como nos Evangelhos não há cronologia nos acontecimentos, procuramos narra-los obedecendo a uma seqüência lógica que, entretanto, não representa nem se oferece como vantagem especial sobre qualquer outra.

Na confecção deste trabalho fugimos de divagações literárias para encobrir falhas e, dada a vastidão dos temas e a finalidade da obra, não nos arredamos também da feição didática, cujas características são método, clareza e concisão.

Queremos também adiantar que reunimos informes de diversas origens, inclusive mediúnicas, redigidos e adaptados à finalidade referida, quase sempre sem transcrições e citações, mas cujas fontes e autores constam da bibliografia contida no final deste prólogo.

Não se podem inventar os fatos, a não ser em obras de ficção, mas somente narrá-las; e, como em relação à vida de Jesus os eventos foram narrados por centenas de autores e repetidos inúmeras vezes, cada vez com aspectos diferentes, e como nosso intuito não é acrescentar uma narração a mais, uma repetição a mais, julgamos útil fazer uma compilação de dados, sendo de nossa autoria somente a disposição deles, a redação, a interpretação, os comentários e as conclusões.

Julgamos assim resguardados a paternidade das idéias e conceitos pertinentes a outros dignos autores, aos quais apresentamos desde já nossos melhores agradecimentos pela participação, conquanto indireta, na confecção desta obra.

Edgard Armond

..EVANGELHOS APÓCRIFOS ..A TRADIÇÃO MESSIÂNICA
..O NASCIMENTO DO MESSIAS ..CONTROVÉRSIAS DOUTRINÁRIAS
..OS REIS MAGOS ..EXÍLIO NO ESTRANGEIRO
..A CIDADE DE NAZARÉ ..JERUSALÉM
..JESUS NO TEMPLO ..O GRANDE TEMPLO JUDAICO
..REIS E LIDERES ..AS SEITAS NACIONAIS
..A FRATERNIDADE ESSÊNIA ..COSTUMES DA ÉPOCA
..JESUS E OS ESSÊNIOS ..O PRECURSOR
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..VOLTA A JERUSALÉM ..AS ESCOLAS RABÍNICAS
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..NA SINAGOGA DE NAZARÉ ..A MORTE DE JOÃO BATISTA
..OS TRABALHOS NA GALILÉIA ..PREGAÇÕES E CURAS
..OUTROS LUGARES ..HOSTILIDADES DO SINÉDRIO
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..A CENA DO TABOR ..AS PARÁBOLAS
..O SERMÃO DO MONTE ..ABANDONO DA GALILÉIA
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..O ENCERRAMENTO DA TAREFA PLANETÁRIA ..PRISÃO E DISPERSÃO
..TRIBUNAL JUDAICO ..O JULGAMENTO DE PILATOS
..PARA O CALVÁRIO ..NOS DIAS DA RESSURREIÇÃO
..CONCLUSÃO ..ADENDO