QUANDO O AMOR VEIO À TERRA

Prefácio

Jesus é o maior fenômeno da História. Com menos de três anos de atividade missionária, sua influência foi, e é, decisiva no desenvolvimento social da humanidade.

Já nos referimos a isso anteriormente, e vamos repeti-lo aqui:

"Parece que muitos 'intelectuais' do nosso tempo, e alguns 'cientistas' do Movimento Espírita em particular, desconhecem que sem os Evangelhos não haveria o mundo tal como o conhecemos.

Foi Jesus quem precipitou o processo que fez desaparecer o Mundo Antigo, levando à derrocada o império Romano, e com ele todo o ciclo da antiguidade, tanto Oriental como Clássica.

"Foram os bárbaros que destruíram a hegemonia de Roma, alguns tentarão contra-argumentar, esquecendo que as tribos bárbaras, na maioria dos casos, já eram cristãs, convertidas pelos arianos, novacianos e outras correntes que a intolerância clerical denominou de "hereges", cujos missionários se espalharam por todo território Imperial, bem como além de suas fronteiras. Na verdade, as invasões geralmente caracterizavam uma luta fratricida, levada a efeito por grupos de cristãos rivais e antagônicos."

Mais ainda, Jesus foi quem propôs a única revolução efetiva, no sentido sociológico do termo. Todas as que são louvadas pelos estudiosos da Sociologia ou da História foram, até hoje, meras "maquiagens sociais", que mudaram apenas aspectos perfunctórios da Sociedade, sem atingirem o ponto fundamental, capaz de refazê-la completamente, tornando-a mais justa: o Homem.

A prova de nossa afirmação pode ser exemplificada por dois grandes movimentos sociais: a Revolução Francesa e a Revolução Bolchevista.

A primeira desfraldou a bandeira de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Diziam seus líderes que começava uma nova ordem político-social na história humana. Não haveria fome, discriminação social, privilégio ou despotismo. Todavia, mesmo em pleno processo revolucionário, todo esse ideário se perdeu numa orgia autofágica das diversas facções que o conduziam.

Com a Revolução Russa de 1917 foi diferente. Conseguiu criar um Estado Socialista, sendo vencidas as reações contra-revolucionarias, bem como as tentativas neutralizadoras das nações capitalistas. Dado o primeiro passo: a conquista do poder "pela classe proletária", começou a estruturação do processo político-econômico que terminaria por construir, segundo pensavam as lideranças revolucionárias, o Estado Comunista. O estágio político básico, a ditadura do proletariado, foi iniciado e nunca terminou. Foi liquidado por um defeito congênito da teoria inspiradora: o materialismo. Produto artificial da cultura humana, o materialismo é uma filosofia desagregadora, por radicalizar o individualismo e estimular, anomalamente, o egoísmo.

"Não é à ausência de qualquer crença que temos de atribuir o relaxamento dos laços de família e a maioria das desordens que minam a sociedade?".

Inquire com muita propriedade o Espírito de Santo Agostinho, em crítica bem fundamentada do materialismo:

"Certas pessoas, e entre as mais céticas, fazem-se apóstolos da fraternidade e do progresso. Mas a fraternidade supõe o desinteresse, a abnegação da personalidade". "Com que direito imporeis um sacrifício àquele mesmo a quem dizeis que com a morte tudo se acabará para ele, e que amanhã talvez nada mais seja do que uma velha máquina desarranjada e atirada fora? Que razão terá ele para se impor alguma privação? Não é muito mais natural que nos curtos instantes que lhe concedeis ele procure viver o melhor possível? Vem disso o desejo de possuir bastante para melhor gozar. Desse desejo nasce a inveja aos que possuem mais e dessa inveja ao desejo de tomar o que eles possuem vai apenas um passo. Que é o que o retém? A lei? Mas a lei não abrange todos os casos. Direis que é a consciência, o sentimento do dever? Mas em que se baseia o sentimento do dever? Esse sentimento encontra uma razão de ser na crença de que tudo acaba com a vida? Com essa crença uma única máxima é racional: cada um por si. As idéias de fraternidade, de consciência, de dever, de humanidade e mesmo de progresso não são mais do que palavras vãs".

Vemos nesses raciocínios uma análise lógica do Materialismo Histórico, que os fatos vieram testificar.

O Marxismo, com seu brilhante humanismo, pretendendo a criação de uma sociedade justa e igualitária nos seus processos, não teve condições de sobreviver ao embate contra o egoísmo das coletividades onde triunfou. A perspectiva materialista do sistema levou Marx à conclusão de que não tendo alma que sobrevivesse após a morte, a consciência humana era apenas um epifenômeno, produzido pelas reações fisico-químicas do sistema nervoso. Ela refletiria, tão somente, o movimento da matéria no seu entorno. Por outro lado, a ação consciente do ser humano sobre o meio, provocaria modificações, e o meio modificado voltaria a agir sobre o homem, levando-o a uma nova transformação, e assim sucessivamente. A sociedade, sendo regida pela infra-estrutura econômica, as relações de produção a ela inerentes é que construiriam a superestrutura ideológica, a qual, refletida pela consciência através dos procedimentos sociais, comandaria o comportamento individual e coletivo. Para resolver o problema das desigualdades e injustiças da sociedade atual, seria bastante socializar os "meios de produção" para que os indivíduos mudassem por via de consequência. Acontece que a teoria tem um diagnóstico até certo ponto correto do problema, mas a eliminação do Espírito, enquanto entidade preexistente e sobrevivente ao corpo, foi um erro fatal. Primeiramente porque o Espírito, mesmo que não existisse, teria de ser levado em conta, dado o critério lógico utilizado pela crítica marxista da sociedade: a dialética hegeliana. Esta preceitua que toda tese exige, necessariamente, uma antítese, para ser construída uma síntese, tese de um novo binômio tese-antítese, em nível mais elevado. Nessa linha de pensamento, a matéria requer, como premissa coligada e antagônica, a negação da matéria, ou seja, o Espírito, para que a equação do raciocínio apresente-se harmônica, com todos os seus termos claramente posicionados. Ao considerar o espiritual uma irrealidade, portanto descartável, os corifeus do Materialismo Histórico serraram o galho onde estavam sentados. Esqueceram da antítese, mergulhando unilateralmente no interior da tese, para construírem raciocínios e tirarem conclusões. Resultado: suas premissas foram edificadas sobre falsos supostos, o que prejudicou a elaboração sistêmica.

O Espírito é imperativo categórico, requerido pela análise dialética; não é apenas uma variável necessária, mas uma realidade da Natureza. Sem ele seria impossível a existência da matéria, por ser a "força" que lhe dá consistência e objetividade. Sem qualquer dúvida, como Marx e Engels concluíram, o Espírito e a matéria interagem dialeticamente, um modificando o outro, em regime de aperfeiçoamento constante. Diferentemente da "consciência evanescente" do Marxismo, o Espírito é permanente, preexistindo e sobrevivendo ao corpo que o alberga temporariamente. Os resultados da interação com o meio material ficam indelevelmente impressos nele.

Sem dúvida que a curto prazo o apelo humanista do Marxismo é capaz de motivar alguns idealistas a gestos nobres de desprendimento e doação, mas a longo se mostrou incapaz de inspirar o mesmo às coletividades. Os regimes comunistas foram corroídos pelo germe da dissolução inerentes à própria base do sistema, terminando por implodirem fragorosamente, tragados pelo vórtice genético auto-aniquilante. Isto é, o egoísmo findou por vencer a diminuta capa de altruísmo.

Que o egoísmo é o maior obstáculo à elevação moral da Humanidade é reconhecido pelos Espíritos Codificadores:

"Dentre os vícios, qual o que se pode considerar mais radical? Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da Sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.

No que tange à falência do sistema socialista, podem ser alegados vários outros fatores, na vã tentativa de se encontrar uma explicação diferente, como, por exemplo, a pressão econômica sistemática das nações capitalistas, lideradas pelos Estados Unidos da América do Norte.

É verdade que isto aconteceu, todavia se os povos que viviam a experiência marxista houvessem adquirido noção efetiva de dedicação ao bem coletivo, crendo firmemente nos valores que os regiam, teriam suplantado qualquer obstáculo, mesmo à custa de imensos sacrifícios. Existe um exemplo formidável a esse respeito, que nos foi dado pelos cristãos dos primeiros séculos. Perseguidos de forma cruel pelo Império Romano, colocados fora da lei em regime absoluto, lhes sendo negada a mais ínfima proteção legal, dever impostergável de qualquer Estado Civilizado, mantiveram-se fiéis aos postulados abraçados, embora lhes custasse a tortura pessoal e dos entes queridos, bem como a morte. Foram três séculos, que não são três dias, de luta ciclópica, onde as armas dos oprimidos era a perseverança, o perdão e a caridade para com os algozes, ou seja, a anti-revolução.

Um outro elemento que tem prejudicado as tentativas de transformação social por via revolucionária é o emprego da violência para implantação dos princípios idealizados. Jesus foi taxativo: "Todos que tomam a espada, pela espada perecerão" (Mt 26, 52).

O problema com a forma da luta revolucionária é justamente o método empregado para assumir o poder. Na Revolução Francesa, quanto na Russa, a sanha assassina dos revolucionários vitoriosos foi um triste espetáculo de crueldade. Acontece que só o corpo é morto, mas o Espírito permanece guardando toda sua condição emocional, ou seja, odiando e antagonizando seus algozes, aos quais acompanham, ininterruptamente, procurando por todos os meios e modos a desforra do que lhes aconteceu. Além do mais, a Lei de Causa e Efeito estabelece que estamos ligados, impreterivelmente, às consequências de nossas ações, boas ou más, num sistema de responsabilidade impostergável pelo resultado das atitudes e escolhas tomadas. Por isso, as vítimas de uma revolução terminam por voltar à vida física, através da reencarnação no círculo familiar ou social dos seus verdugos diretos e indiretos, os quais lhes restituem, automaticamente, o poder tirado, o que é o mesmo que anular os ideais que sustentavam o movimento, a médio e longo prazo.

A violência desnecessária, cometida quando da implantação do Socialismo, levou a maioria dos executados à ação obsessiva sobre seus algozes, bem como a um permanente trabalho de solapa do sistema, pela inspiração de planos e decisões que, ao longo do tempo, redundariam em fracasso, lançando ao descrédito a instituição socioeconômica.

Trabalhando o egoísmo dos indivíduos e das corporações, os "exilados da espiritualidade" findaram por conseguir fazer da "ditadura do proletariado" uma tirania brutal. A abnegação revolucionária foi substituída pela opressão estatal. No lugar do despotismo czarista, entronizou-se o despotismo ideológico do partido único no poder. Pela centralização dos meios de produção nas mãos do Estado, todos viraram funcionários públicos, instituindo-se um governo paralelo, corporativista, mais poderoso do que o Institucional: "a ditadura da burocracia". Os burocratas, passaram a se conceder todas as "mordomias" e benesses possíveis, enquanto o povo era instado aos maiores e difíceis sacrifícios, como acontecia no regime anterior, e acontece nos países do terceiro mundo, como o Brasil. A falta de exemplos de altruísmo por parte dos quadros dirigentes privou a coletividade de uma fonte natural de estímulos ao desprendimento e à abnegação. O materialismo entronizado como visão de mundo, e permanentemente difundido pela propaganda estatal, levou ao apodrecimento das instituições, por incentivar a falta de caráter e a inescrupulosidade em todos os escalões do governo, gerando a revolta e o antagonismo na população, a qual terminou por impor a queda do sistema, o que aconteceu em apenas três anos.

De acordo com o que vimos expondo, só teremos uma sociedade realmente justa quando conseguirmos implantar em cada indivíduo a certeza de que ele é um Espírito imortal. Veja-se bem que dissemos "certeza", e não uma mera crença imposta de cima para baixo, como aconteceu na Europa, Ásia Menor e Norte da África, quando da transformação do Cristianismo em religião de Estado. As religiões tradicionais diferem do Espiritismo nessa condição básica: enquanto aquelas informam, baseadas no critério da autoridade, sobre a imortalidade da alma, este leva à certeza por comprovar o fato experimentalmente. Enquanto as religiões apelam para o "credo quiam absurdum", a Doutrina Espírita estatui: "Fé inabalável só é aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade".

Conscientizado o homem da sua condição de Espírito, a etapa seguinte é fazê-lo viver as consequências dessa conscientização, pela reforma de hábitos e atitudes, de acordo com a ética cristã, instando-o para viver o altruísmo e o amor, destruindo o impulso centralizador da personalidade: o egoísmo.

Mas será que existe um processo para a eliminação do câncer infeliz e virulento do egoísmo? Sim, existe.

Encontramos em O Livro dos Espíritos a fórmula fundamental para eliminação desse fator negativo, causa real das misérias morais do Homem:

"Como se poderá destruir o egoísmo? De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de anular-se, porquanto deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, não pôde libertar-se e para cujo entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação. O egoísmo se enfraquece à medida que a vida moral vai predominando sobre a vida material e, sobretudo, conforme a compreensão que o Espiritismo vos faculta do vosso estado futuro, real e não desfigurado por ficções alegóricas. Quando bem compreendido, se tiver identificado com os costumes e as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações sociais. O egoísmo baseia-se na importância da personalidade. Ora, o Espiritismo, bem compreendido, mostra as coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece, de certo modo, diante da imensidade. Destruindo essa importância, ou, pelo menos, reduzindo-a às suas legítimas proporções, ele necessariamente combate o egoísmo. O choque que o homem experimenta do egoísmo dos outros é o que muitas vezes o faz egoísta, por sentir a necessidade de colocar-se na defensiva. Notando que os outros pensam em si próprios e não nele, é levado a ocupar-se com ele mesmo, mais do que com os outros. Sirva de base às instituições sociais, às relações legais de povo a povo e de homem a homem, o princípio da caridade e da fraternidade, e cada um pensará menos na sua pessoa, vendo que os outros nela pensaram. Todos experimentarão a influência moralizadora do exemplo e do contato. Diante do atual extravasamento de egoísmo, grande virtude é verdadeiramente necessária para que alguém renuncie à sua personalidade em proveito dos outros, que, geralmente, em absoluto não lhe agradecem. Principalmente para os que possuem essa virtude é que o reino dos céus se acha aberto. A esses, sobretudo, é que está reservada a felicidade dos eleitos, pois em verdade vos digo que, no dia da justiça, será posto de lado e sofrerá pelo abandono em que se há de ver, todo aquele que em si somente houver pensado".

A base das conquistas citadas está nos ensinos de Jesus, que o Espiritismo, como Consolador Prometido, recorda e aprofunda.

O Rabi Galileu nunca se colocou na postura de Filósofo das massas, muito pelo contrário, os ensinamentos que ministrou sempre foram dirigidos, de forma particular, para cada um dos ouvintes, e continuam a ter um caráter individual. Seu postulado sociológico é a "teoria do fermento":

"O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado".

O significado é óbvio: a transformação social deve acontecer de dentro para fora. Será necessário que os indivíduos se transformem individualmente, em primeiro lugar, antes de exigirem a modificação dos outros. A partir daí, ajam como fermento, levedando a massa, lenta, mas seguramente. O Mestre sabia que uma Sociedade é sempre a síntese dos elementos que a compõem. Através do exemplo particular, cada um que realize a reforma íntima atua positivamente, modificando. É uma aplicação da "Lei de Imitação", definida por Gabriel Tarde, considerado o Pai do Psicologismo Social, no século XIX. Essa Lei explica como se dá o processo de socialização dos seres humanos, cujo aprendizado se faz por imitação dos atos sociais em vigor na Sociedade, como a fala, a cultura, os usos e costumes etc. Note-se que, na citação acima, o Espírito de Fénelon diz a mesma coisa, quando fala na importância do exemplo para aprimoramento das relações sociais, pela difusão de normas éticas de conduta.

Na medida em que se expande a vivência dos princípios éticos do Evangelho do Cristo, pela vivência individual, a imitação faz com que as atitudes morais elevadas se propaguem, promovendo a mudança das unidades sociais, numa progressão constante, através dos séculos, culminando por transformar completamente a Sociedade.

Por isso o Mestre insta os seguidores, de todas as épocas, para que exemplifiquem Seus ensinamentos:

"Vós sois o sal da terra: porém se o sal se tornar insulso, com o que será salgado? para nada mais serve, a não ser para se jogar fora e ser pisoteado pelos homens. Vós sois a luz do mundo, não pode uma cidade situada sobre um monte ser escondida. Nem se acende uma lamparina e se a põe sob uma vasilha, mas no candelabro, e brilha para todos que estão na casa. Assim, deixai brilhar vossa luz ante os homens, para que possam enxergar vossas realizações nobres e louvem vosso Pai, que está nos céus." (Mt 5, 13-16).

Allan Kardec, inspirado pelos Espíritos Codificadores, endossou tal proposta, de forma decisiva: "A Humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tomam a dianteira e arrastam os outros".

Essa "revolução", sem qualquer dúvida, é a única com capacidade para promover a reformulação social absoluta, realizando as utopias sonhadas por grandes pensadores, desde Platão até Karl Marx, sem retrocessos destrutivos.

Mas, à Lei de Imitação será necessário ajuntar o princípio natural da reencarnação, explicada e aprofundada pela Doutrina Espírita. Os indivíduos que lutam pela própria transformação moral não o conseguem numa só existência, de modo geral, e ao retornarem, depois da desencarnação, à vida física, terão sempre maior facilidade em aderir ao processo, progredindo gradualmente no seu objetivo. Além disso, sua influência sobre os outros homens se propaga no tempo, através das vidas sucessivas, aumentando o poder de atuação da citada Lei. O número crescente de Espíritos em processo de renovação já se faz sentir, no momento presente, quando surgem e se expandem, como nunca, os movimentos em prol da modificação positiva do comportamento humano, tanto individual como coletivo. Vemos nascer uma consciência de valores comportamentais éticos, em todos os níveis da atividade social. Movimentos pela valorização da vida, pelo desaparecimento dos métodos cruéis da tortura, pelo respeito à liberdade de pensamento, pela preservação da Natureza, pela paz entre as nações, pela melhoria das condições de existência dos pobres, de apoio aos deficientes físicos, pela abolição da fome etc. Esses são indicadores positivos de que as proposições de Jesus estão agindo, como um levedo, na estrutura social, construindo lenta, mas seguramente, o "Reino de Deus", na face da Terra.

Profundamente vinculada aos ensinos de Jesus, a Doutrina Espírita não pode ser afastada deles sob pena de perder sua finalidade precípua: o aprimoramento moral e espiritual do homem. É por isso que todas as tentativas de estabelecer um Espiritismo inteiramente "científico", isto é podado de sua feição religiosa, tende ao mais absoluto fracasso. Já abordamos o assunto em outra obra:

"Aqui se põe a discussão do problema do Espiritismo laico.

"Segundo os defensores desta idéia, o Espiritismo deveria cortar os laços com qualquer tipo de religiosidade, principalmente a cristã para, sobrepairando as diferenças e radicalismos religiosos, universalizar-se, cumprindo o objetivo de fazer progredir a humanidade.

"Argumentam que a cristianização da Doutrina Espírita põe barreiras à sua aceitação por parte da maioria não cristã da Humanidade, o que é possível pelos seus princípios fundamentais que, de resto, já são aceitos por grande parcela dos povos, desde a mais remota antiguidade, independentemente do nível de civilização que possuam. Allan Kardec concorda com esta parte, escrevendo que o mérito da Doutrina está em provar o que os outros sempre afirmaram, apoiados apenas no critério da autoridade ou da tradição."

Analisando o problema, escreve o Codificador:


"Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões:

- Deus, a alma, a imortalidade, as penas e as recompensas futuras, sendo, porém, independente de qualquer culto em particular. Seu objetivo é provar àqueles que negam ou duvidam, que a alma existe, que ela sobrevive ao corpo e que sofre, após a morte, as consequências do bem ou do mal que praticar durante a vida corpórea: o objetivo de todas as religiões.

- Quanto à crença nos espíritos, também se encontra em todas as religiões, assim como em todos os povos, porquanto em toda parte em que há homens há almas ou espíritos. Suas manifestações pertencem a todas as épocas e em todas as religiões, sem exceção, há narrativas a este respeito. Católicos — gregos ou romanos —, protestantes, judeus ou muçulmanos podem crer nas manifestações dos Espíritos e ser, por conseguinte, Espíritas. A prova está em que o Espiritismo tem adeptos em todas as seitas.

- Como moral é essencialmente cristão, porque a doutrina que ensina nada mais é que o desenvolvimento e a prática daquela do Cristo, a mais pura dentre todas, cuja superioridade ninguém contesta, prova evidente de que é a expressão da lei de Deus. Ora, a moral está ao alcance de todos. O Espiritismo, independente de qualquer forma de culto, não aconselhando nenhuma e não se preocupando com dogmas particulares, não constitui uma religião especial, pois não possui nem sacerdotes nem templos. Aos que lhe perguntam se fazem bem em seguir tal ou tal prática, apenas responde: 'Se sua consciência aprova o que você faz, faça-o'.

Numa palavra, o Espiritismo nada impõe a ninguém. Não se destina aos que têm fé, e a quem esta fé é suficiente, mas à numerosa classe dos inseguros e dos incrédulos. Não os afasta da Igreja, porquanto já estão dela moralmente afastados, de modo total ou parcial. Mas os leva a fazer três quartos do caminho para nela entrarem: cabe à Igreja fazer o resto" .

O pensamento de Kardec é pleno de lógica e coerência argumentativa, contudo a psicologia humana, egocentrista, raciocina, geralmente, de acordo com padrões maniqueístas, onde as proposições são mutuamente excludentes.

O Espiritismo como ponto axiologicamente neutro, onde as religiões pudessem se encontrar, acima de quaisquer sentimentos antagônicos, não vingou. A oposição hostil da Igreja Católica e das Igrejas Reformadas, pôs seus crentes, que aceitavam o pensamento Espírita, diante de um impasse: ou abjuravam o conhecimento e os ensinos que os fatos demonstravam verdadeiros, retornando à crença nos dogmas vetustos, senis e irracionais, ou seriam implacavelmente excomungados como heréticos.

Paralelamente a isto, deslancharam perseguição sistemática contra os espíritas, que atingiu paroxismos de intolerância e perversidade. Kardec assim descreve esses lamentáveis episódios inquisitoriais:

"Em certas localidades não foram indicados (os espíritas) à censura de seus concidadãos, até serem perseguidos e injuriados nas ruas? Não se ordenou aos fiéis fazê-los fugir como empestados, não se dissuadiram os empregados de entrar para o seu serviço? Não se solicitou às mulheres separarem-se de seus maridos e aos maridos de suas esposas, por causa do Espiritismo? Não se fizeram despachar empregados, retirar a operários o seu pão de cada dia e a necessitados o pão da caridade, por serem espíritas? Até cegos não foram expulsos de certos hospitais, porque tinham recusado abjurar suas crenças?".

E, finalmente, conclui o sábio lionês: "Em resumo, a Igreja, repelindo sistematicamente os espíritas que voltavam a ela, forçou-os a se refugiarem na meditação. Pela violência de seus ataques, alargou a discussão e levou-a para um novo terreno. O Espiritismo não era mais que simples doutrina filosófica; foi a própria Igreja que o desenvolveu, apresentando-o como um temível inimigo.

Foi ela, enfim, quem o proclamou como nova religião. Era uma demonstração de inépcia, mas a paixão não raciocina.

"Atingido o status de religião, que o Codificador procurara evitar, a situação tornou-se altamente complicada. Acabou-se a neutralidade axiológica. Desde então, todo aquele que se torna espírita abandona sua religião tradicional, numa típica atitude de 'conversão'.

"Se o problema é tão grave entre pessoas da mesma tradição cristã, imagine-se com as de tradições absolutamente diversas, ou até antagônicas, como a dos Islamitas. Neste caso particular a situação tem um agravante, a afirmação supra mencionada de ser, como o é, a moral espírita absolutamente cristã, que Kardec afirma ser superior a todas as outras, é ponto fatal de rejeição do Espiritismo.

"Pretender-se retornar ao status quo ante, pela simples exclusão do Evangelho segundo o Espiritismo, de forma arbitrária, do elenco da Codificação, é de uma ingenuidade gritante. Seria preciso fazer uma recodificação, eliminando dela toda e qualquer afirmativa cristã, o que, além de absurdo, é totalmente impossível.

"A Doutrina Espírita surgiu como sendo o Consolador prometido pelo Cristo, como afirmamos linhas atrás. Sua moral é a estabelecida nos Evangelhos, como escreveu Kardec, e ratificou a publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo.

"No Brasil, onde o Espiritismo encontrou sua pátria real e se desenvolveu de forma extraordinária, ele é totalmente evangélico, e com esta característica está retornando ao berço de origem, a França, e se expandindo pelo mundo, propagado pelos nossos médiuns e expositores. Assim, o Espiritismo laico não passa de um sonho impossível, em completa discordância com a realidade histórica".

A essas ilações, podemos acrescentar que os princípios nos quais se estriba o Espiritismo são, por si mesmos, universais, porque Leis da Natureza. Todos os seres vivos, pelo menos, possuem um "campo organizador da forma", o qual preexiste e sobrevive à morte do organismo. Esse campo, enquanto desligado do corpo, permanece com todos os seus atributos mentais e emocionais ativos, numa dimensão própria, que envolve e penetra a nossa.

Por guardar suas funções de racionalidade e sentimentos, continua a interagir com os demais "campos", tanto no sentido horizontal do habitat onde vive, quanto no vertical, com os que ainda se encontram vinculados à matéria, influenciando-os e sendo por eles influenciados.

Graças à faculdade mediúnica, podem provocar fenômenos diversos, através dos quais atestam sua existência e continuidade. Ora, o Espírito — como denominamos geralmente o "campo organizador da forma"— é, portanto, um fato independente de crença, posição social, condição econômica, ética ou cultural. Assim, budistas, maometanos, protestantes, católicos, ateus, xintoístas, et caterva, podem promover os meios e modos de intercambiarem com os seres espirituais, criando seus próprios sistemas filosóficos em torno do que conseguirem. Isto não é proibido, nem pode sê-lo, a não ser pelos dogmas e preconceitos alienantes que cultivam. Não é a feição cristã da Doutrina Espírita que os impede. São eles que se impedem de ter acesso ao manancial de ensinos e consolações que o intercâmbio mediúnico enseja.

Os Evangelhos, bem como o Novo Testamento, são livros fundamentais para a Doutrina Espírita, que os esclarece e aprofunda, da mesma forma como Jesus o fez com o Moisaísmo.

O Movimento Espírita necessita se preocupar sempre mais e mais com o seu papel de veiculador dos princípios Evangélicos. Não podemos esquecer que o Espiritismo está no mundo para influenciar decisivamente no progresso da humanidade, justamente por ser uma revivescência do Cristianismo:

"Por que meios o Espiritismo contribuirá para o progresso? Anulando o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens realmente saibam onde se encontram seus verdadeiros interesses. Não mais estando a vida futura velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe possível compreender o seu futuro. Destruindo os preconceitos de seita, de casta, de cor, o Espiritismo ensina aos homens a prática efetiva da solidariedade, levando-os a se unirem como irmãos". E para conseguir esse desiderato apresenta-nos um padrão, que deve ser seguido, de maneira absoluta: "Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo? Vede Jesus".

Ao que o Mestre de Lyon, com sua intuição privilegiada, acrescenta: "Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra".

Este livro tem como finalidade chamar atenção para o estudo e a meditação sobre Jesus e seus ensinamentos. Não é uma "Vida de Jesus", no sentido tradicional do termo. São histórias em torno de passagens da pessoa do Mestre, enquanto viveu entre nós.

Como o "Encontro com Jesus", nasceu sob a inspiração do Espírito Mnêmio Túlio, responsável pelo conteúdo das histórias, mas absolutamente inocente dos erros históricos, ou de outros gêneros, nelas existentes, que devem ser debitados à incompetência do co-autor encarnado. Isto porque elas aconteceram por via da mediunidade de inspiração, a qual, segundo Allan Kardec, não permite seja feita uma separação objetiva entre o pensamento da entidade comunicante e o do médium. Nesse caso, por que não assumimos definitivamente a completa autoria do livro? Pelo simples fato de percebermos, quando o fenômeno inspirativo se dava, que a idéia nascia fora de nossa mente e, nessas condições, o assumir-lhe a paternidade seria uma apropriação indébita, incompatível com o culto à honestidade que o Espiritismo nos ensina.

Djalma M.Argollo ( pelo Espírito Mnêmio Túlio)

 

01

..A VISÃO DE ZACARIAS

02
..A ANUNCIAÇÃO
03
..VISITANDO ISABEL
04
..MOMENTO DIFÍCIL
05
.."NASCEU-VOS HOJE UM SALVADOR"
06
..A CIRCUNCISÃO
07
..ENTRE OS DOUTORES
08
..A DESPEDIDA
09
..ELIAS RETORNA
10
..O INÍCIO DA NOVA ERA
11
.."EU O SOU..."
12
..O DIA INESQUECÍVEL
13
..FENÔMENOS NOTÁVEIS
14
..RESGATE INTERROMPIDO
15
..HISTÓRIAS QUE TRANSFORMAM
16
..ALIMENTANTO ALMAS E CORPOS
17
..NA CALADA DA NOITE
18
..UMA SESSÃO ESPÍRITA NO TABOR
19
..EXPULSÃO DOS VENDILHÕES DO TEMPLO
20
..A ÚLTIMA SEMANA
21
..A TRAIÇÃO
22
..TREVAS DENSAS
23
..MADRUGADAS DE LUZ
24
..OS FELIZES GALILEUS
25
..BETÂNIA: O ÚLTIMO ENCONTRO
26
..POSFÁCIO