ASSIM SERÁ SEMPRE

Jesus, por onde andou, tranqüilizava as almas e convulsionava os quadros da vida exterior. Representava em si a Verdade, e a Verdade ainda não é aceita no mundo sem ásperos conflitos.

Decerto, não provocou intencionalmente qualquer choque; no Íntimo, sabia que as realidades das quais se fazia mensageiro fermentariam as massas. Em razão disso, afirmou: - "Não vim trazer a paz, porém, a divisão"; asseverando de outra feita: - "Vim para trazer fogo à Terra."

Desde o berço, viu-se rodeado de agitações.

O problema começou na família, constrangida a fugir para o Egito, em seguida à glorificação da manjedoura.

Para eliminá-lo, Heródes mandou fossem exterminadas numerosas crianças em Belém e arredores.

Deslocavam-se multidões de uma região para outra, a fim de ouvi-lo.

Os gadarenos rogaram a ele para retirar-se das suas terras, amedrontados com o domínio que demonstrava sobre os Espíritos obsessores.

Os fariseus afirmaram que ele restabelecia os enfermos, operando pelo poder do demônio.

Autoridades judaicas representaram publicamente contra ele, acusando-o de injuriar tradições, porque se utilizava dos sábados para fazer o bem.

O povo de Nazaré, onde residia desde a infância, escandalizou-se ante a sua presença, atirando-lhe sarcasmos.

Cobradores de impostos experimentaram-lhe a paciência.

Ele, a seu turno, enfrentou as situações difíceis qual se apresentavam. Não poupou os fariseus. Fez calar os saduceus. Argumentava com sacerdotes e escribas com tamanha lógica que lhes ocasionava melindre e indignação. Esclareceu os discípulos que seriam odiados por todas as nações, à vista de seu nome. Anunciou, com antecedência, a conspiração com que lhe tramavam a perda.

De resto, foi preso pela multidão armada de espadas e varapaus e, no Sinédrio onde compareceu, escribas, anciães, sacerdotes e guardas lhe salivaram o rosto, espancaram-no, esbofetearam-no.

No triênio que lhe marcou o apostolado, foi a verdade invariável, fulgurando entre ironias e pedradas, perturbações e dificuldades, atritos e deserções, malícias e tumultos, até que os homens, incapazes de lhe suportarem as lições vivas, o colocaram na cruz, para se livrarem da sua presença.

É que os preceitos do Mestre nos obrigam a reconhecer que não há reforma sem renovação profunda, nem renascença da alma sem que se desatem os laços da rotina comodista.

Eis por que, ainda hoje, na luz da Nova Revelação que lhe revive o ensinamento libertador, para que tenhamos paz íntima é preciso conservar tranqüilidade na consciência, cultivando tolerância diante das reações alheias, sem nos acomodarmos com a estagnação e sem nos acumpliciarmos com aqueles que exploram a região dos desentendimentos humanos em proveito de interesses inferiores.

Jesus e o Espiritismo esclarecem que não existe verdadeira paz sem preço. Quem quiser a luz da paz, por dentro do coração, aceite o combate da sombra em derredor. Assim será sempre.

Eurípedes Barsanulfo - Seareiros de Volta