REENCARNAÇÃO E IMORTALIDADE

À GUISA DE PREFÁCIO

Quando o processo da fecundação se completa, esboçam-se os pródromos do milagre da vida na Terra (Em conseqüência da ruptura do folículo de De Graf, é a célula sexual feminina, após a maturação devidamente processada, ejetado por sobre a superficie ovariana, tão logo recolhida pelo pavilhão da trompa de Falópio. Da união dos gametas, precedida de avanço de mais ou menos 2,5 centimetros, em cada 8 minutos, por parte do espermatozóide, surge o zigoto, mapa do futuro ser humano, nos próximos nove meses de gestação normal).

As mães, por vezes, são capazes de detectar uma como "presença", especialmente nos primeiros meses de gravidez, presença essa que poderá ser interpretada de mil e um modos pelos grandes rotuladores que pontilham nossa época, não vamos dizer de negação, porque não cremos possível que o ser humano se negue a si mesmo, tão dramaticamente. Aberraria da presença de Deus em nós ... Digamos, por isso mesmo, que atravessamos a era dos desesperos existenciais, em cujo seio temos a mais bela lição de unidade, se já a não possuíssemos na própria unidade que configuramos: a lição contundente, é fato, mas libertadora, de que os "retratos rasgados" do poeta recompõem-se, sem deixar cicatrizes.

O que a ciência busca definir, mediante algumas concessões legitimas aos valores do mundo, no qual vivemos, quais a criação e propagação de vasta sinonímia para o termo Espírito, é, pura e simplesmente, a integração do homem no Universo, mediante a aceitação da cruz, que ele jamais esqueceu ou esquecerá, desde o dia em que, da hora sexta à hora nona, a Terra cobriu-se de trevas e, pela cruz, o Salvador deixou o mundo das formas, voltando aos braços de Deus-Pai.

De tempos imemoriais a imortalidade da alma inspira as mais extraordinárias filosofias, constituindo-se num dos segredos da mais alta e secreta iniciação no interior dos santuários. Já Platão, retratando - no Fédon - as dissertações de Sócrates pouco antes de ingerir a mortal cicuta, e mesmo durante a agonia que lhe precedeu a libertação, afirmava:

- "Mas, em realidade, uma vez evidenciado que a alma é imortal, não existirá para ela nenhuma fuga possível a seus males, nenhuma salvação, a não ser tornando-se melhor e mais sábia. A alma, com efeito, nada mais tem consigo, quando chega ao Hades, do que sua formação moral e seu regime de vida - o que, aliás, segundo a tradição, é justamente o que mais vale ou prejudica ao morto, desde o inicio da viagem que o conduz ao além."

Poderia, com efeito, ser diferente, se, imortal, desde que criado, o homem move-se em Deus, vindo do infinitamente pequeno para o infinitamente grande?!. ..

E ainda Sócrates, por Platão, quem diz:

"Depois de haverem recebido o que mereciam e de terem lá permanecido durante o tempo conveniente, outro guia os reconduz para cá, através de muitos e demorados períodos de tempo."

Poderia, meu Deus, ainda uma vez ser diferente, se, preexistindo, existindo e sobrexistindo, marchamos do infinitamente pequeno para o infinitamente grande?!. ..

A India milenar, cujo pensamento é muito anterior assim como sobrexistente ao pensamento grego, já apresenta, a partir da filosofia védica, uma desvalorização do mundo empírico, uma profunda conscientização do problema da vida e do mal, com a redução a seus devidos termos do sofrimento e da morte, cultuando divindades naturalistas, procurando integrar o homem com o meio, do mesmo modo como o taoísmo buscava identificá-lo com a Natureza, e o confucionísmo trazer a Natureza mais para perto do homem. Nada disso se faz, contudo, sem a noção de uma vida ininterrupta, num ciclo que nos leva à libertação, não conducente à quietação no nada, mas à quietação no absoluto, ou seja, a integração em Deus. A isso muitos estudiosos apelidaram de metempsicose, embora se trate, realmente, de reencarnação, conforme demonstrou Allan Kardec, com todas as distinções que possam ser levantadas.

Se no pensamento védico e bramânico a noção da imortalidade e das diversas vidas permanece, de alguma sorte, sob a necessidade da fórmula, dos rituais, dos cultos às divindades, o mesmo não acontece no "Bhagavad-Gitâ", que integra o "Mahabharatha", ou "Epopéia da Grande India", onde a reencarnação explode de modo impressionante, tendo por personagens centrais Krishna e Arjuna. A este diz Krishna, que com ele se situa entre dois exércitos, "kurus" e "pandavas", num campo de batalha, dando-lhe lições da mais alta sabedoria:

- "Assim como pomos de lado uma roupa usada e vestimos uma nova, assim o espirito se desfaz de sua indumentária de carne e se reveste de uma nova."

E, um pouco adiante, sintetiza de modo magistral:

- "Chorarás se te disserem que o homem recém-falecido é como o homem recém-nascido? O fim do nascimento é a morte; o fim da morte é o nascimento: tal é a lei."

Quase identicamente ao que se encontra insculpido no dólmen de Kardec, a notável frase que lhe tem sido atribuída! Com uma diferença de mais de 2.000 anos!... Uma verdade única em diferentes épocas. E sempre o erro, sempre a cegueira!

O Budismo, embora assegure, em algumas de suas correntes, a extinção do ser no Nirvana, recebeu diretamente de Çakya-Muni a Segunda Nobre Verdade, que diz:

... "0 sofrimento provém do desejo de ser, que conduz de nascimento a renascimento, juntamente com a luxúria e o desejo que encontram satisfação aqui e ali; o desejo de ser, o desejo de prazeres e o desejo de poderes, tais são as fontes de sofrimento."

O Egito faraônico, berço de praticamente toda a filosofia e toda a ciência de que hoje temos pálidos reflexos, manteve em segredo o princípio da reencarnação, no que ele possui de mais transcendente, para deixar, exotericamente, todo o conjunto de símbolos, tais como a abertura da boca do cadáver, a fim de que o morto pudesse dizer as palavras necessárias diante de Osiris, o Senhor do mundo dos mortos. No entanto, no seio da mais pura corrente iniciática, corria a seiva de uma assência imortal e dotada de razão. Os egípcios levaram tão longe o conhecimento do processo reencarnatório que chegaram a distinguir, dentre muitas outras realidades, o perispírito, a que chamavam Kha, e que sabiam estar eivado de necessidades, de acordo com o estado evolutivo do ser. O depósito de alimentos nas urnas funerárias nada mais significa do que a exteriorização de uma necessidade que o morto irá experimentar de alimentação, segundo esteja o seu perispírito mais ou menos condensado. Não discrepa isso do que nos dizem as obras mediúnicas do nosso século, notadamente as de André Luiz. Tudo contido no "Livro dos Mortos", cujo verdadeiro título é "O Livro Oculto da Morada"! E isso, por épocas que se afastam até mesmo à casa dos 5.000 anos!

Todos os estudiosos da Ciência Psíquica são unânimes em afirmar a reencarnação, até mesmo como veículo da própria imortalidade. E, muito embora alguns teosofistas insistam em afirmar que os renascimentos só se repetem de 1.500 em 1.500 anos - o que talvez possa valer para entidades em altíssimo grau de evolução, mas não para a generalidade das criaturas - martinistas, ocultistas em geral, rosa-cruzes, maçons, templários, orientalistas, e assim por diante, todos ... todos abraçam a palingênese, que Allan Kardec, o missionário de Lyon, clareou e popularizou, chamando a criatura humana às responsabilidades que ela acarreta.

É o Espírito que impulsiona um determinado espermatozóide, em direção a um determinado óvulo, a fim de que - ambos - guardem o mapa do que necessitará ele, Espírito, para galgar mais um degrau, numa determinada vida. Assim sempre foi e há de ser. O campo vibratório do Espírito, natural, e espontâneo, provoca uma vibração característica sobre o filamento espiralado, no colo, entre a cabeça e a cauda, deslocando-o em direção ao alvo. E, muito embora alguns cientistas tentem, desesperadamente, alegar automatismo biológico para excluir a hipótese da presença da entidade reencarnante, nada obtêm, porque o automatismo biológico tem sua atuação restrita a pequeno período da formação do novo corpo, predominando, depois, de forma inegável, a presença do perispírito da entidade reencarnante. É ele quem serve de molde vivo para o próprio corpo somático, os três folhetos blastodérmicos originando, sobre ele. O folheto inferior esboçando o tubo intestinal, e daí o estômago, as diversas alças, etc. O folheto mediano, tracejando a coluna vertebral, músculos e vasos inúmeros. O folheto superior dando as tintas dos tubos nervoso e epidérmico, e assim por diante. Os núcleos de potenciação, em progressiva neutralização, acarretando maior acréscimo no torpor quanto mais cresça a condensação do corpo somático, e quanto mais se acentue a redução vibratória perispiritual.

E até que o novo ser veja a luz do mundo, quantas preocupações do outro lado da vida, quantos diálogos, quantas doutrinações, quantas intercessões e preces; quantos procedimentos de emergência.

Só pela reencarnação nós poderemos encontrar a Deus. E quando "os questionarem sobre o prosseguimento da vida, devolvamos aos Mestres da moderna Israel, parodiando Jesus, a antiga mas atualíssima pergunta:

"Tu és mestre no mundo e desconheces essas coisas?"

Possam todos quantos estudarem os artigos do autor, agora publicados em coletânea, encontrar subsídios a novas e imprescindíveis pesquisas. E possam os que simplesmente os lerem, sem aprofundamento, sem lhes buscar o suporte fático, perceber, ainda que palidamente, os ensinamentos da Doutrina Espírita, que se superpôs a todos os credos e hierarquias, a todos os preconceitos políticos e sociais. E possam uns e outros receber o tempero prudente do sal, que, só num ponto exato, poderá salgar e salvar a Terra.

GILBERTO CAMPISTA GUARINO

1 - Arquivos espirituais da Ind. do Brasil 2 - A redescoberta da reencarnação
3 - "Você vive depois da morte 4 - Universalidade da Realidade Espiritual
5 - "Além do inconsciente 6 - O fenômeno "Theta"
7 - O Bispo e os Espíritos 8 - Pesquisadores negativos
9 - A lição de Abigail 10 - Gente sentada em cima do muro
11 - Psiquiatria e reencarnação 12 - Espírito: nova arma secreta do Materialismo
13 - Os soviéticos descobrem o Perispírito 14 - A Verdade chega àquele que está...
15 - O Dr. Wickland e os seus "mortos" 16 - A opção dos milênios
17 - "Das Índias ao Planeta Marte" 18 - Benvenuto Cellini - o homem....
19 - "Nos bastidores da obsessão" 20 - O grande dia do Calvário
21 - Reencarnação - instrumento para o ... 22 - Allan Kardec e o mistério de uma...
23 - Cinco perguntas dum cristão inteligente 24 - Entre a revolta e a dor
25 - Ouvidos apartados da verdade 26 - Algumas notas colhidas em "Two Worlds"