RESSURREIÇÃO E VIDA

1 - APRESENTAÇÃO

Sejam estas páginas, extraídas de um sincero desejo de ser útil, o testemunho da minha solidariedade aos homens, meus irmãos perante Deus. Que eles saibam que no dia em que o túmulo se fechar sobre o corpo inerte de um homem raiará, para sua alma, nova era de um destino imortal.

Que se estanquem as lágrimas da saudade à beira das sepulturas; que serene o desespero no coração das mães diante do esquife de um filho que não mais sorri; que se levante a fronte do ancião, cujo desânimo só tem a morte por finalidade. Para aquém do túmulo existe, é real, é infinitamente mais intensa e positiva, a vida com que o Criador nos dotou, vida que nos cenários terrenos tão curta e tão angustiosa nos parece! O ser humano sobrevive em Espírito, em Inteligência e Vontade, após a corrupção da morte, que nada mais é do que a transição de um estado anormal — o de encarnação — para o estado normal e verdadeiro — o espiritual!

Se um só dos prováveis leitores destas páginas conseguir acalentar dores e dirimir dúvidas quanto ao importante assunto da imortalidade da alma humana, certificando-se da verdade que há milênios se tenta testemunhar, dar-me-ei por bem recompensado das dificuldades que precisei arredar a fim de ditá-las. Se apenas um, dentre eles, sentir que seu coração nelas se inspirou para a procura dos santos ensinamentos cristãos, exultarei de alegria, louvando o Senhor por me haver concedido ensejo de ser útil ao meu próximo. E se um só adepto da Revelação Espírita — à qual hoje tributo respeito e admiração — entender que contribuí, com pequena colaboração, para a sementeira dos vastos campos que ela será chamada a cultivar, terei a consciência reconfortada pela certeza de que cumpri um sacrossanto dever.

Mas escrevo apenas para os pobres, os simples e os sofredores. Sei que somente eles me compreenderão e aceitarão. Dou-lhes, pois, o meu testemunho de imortalidade além do túmulo. Que esse testemunho seja motivo de paz, alegria e fraternidade para os que me lerem são os votos que aqui deixo.
Leão Tolstoi.

2 - Introdução

Este volume será a contribuição do meu amor às comemorações do centenário de "O Evangelho segundo o Espiritismo", organizado por Allan Kardec sob orientação dos Espíritos prepostos pelo Senhor para a reeducação da Humanidade. Beneficiária que sou desse compêndio admirável, em suas páginas encontrando roteiro generoso para os trabalhos de reabilitação espiritual que me cumpria, aqui deponho o meu testemunho de respeito e veneração às sábias entidades que o inspiraram e à memória de Allan Kardec, o nobre codificador do Espiritismo.

Não desconheço entretanto, a grande responsabilidade que assumo, perante Deus e os homens, apresentando este livro ao público e atribuindo sua autoria a uma individualidade das mais eminentes que a Terra tem hospedado em suas sociedades, isto é, ao Espírito Leão Tolstoi. No entanto, eu o faço sem temor porque tão convencida estou dessa realidade que não vacilo na atitude que tomo.

Jamais tive a pretensão de supor que semelhante entidade pudesse vir até mim para ditar um trabalho mediúnico. Não o desejei sequer. Nada pedi, como jamais pedi aos amigos espirituais, que me honraram com seus ditados literários. Nem mesmo me detinha a pensar em Leão Tolstoi. Nunca lera um único livro de sua autoria, e de sua importante bagagem literária eu apenas tinha conhecimento de uma transcrição existente em "Os Milagres do Amor", de O. S. Marden, o qual, com palavras próprias, narra o conto "Jesus e o aldeão russo" daquele escritor. Não obstante, em junho de 1961 tive, por assim dizer, a maior surpresa de minha vida de espírita quando, durante a noite, notei que uma entidade amiga vinha buscar meu espírito para algo que no momento não pude prever. Segui-a de boamente, presa de encantamento sedutor, irresistível. Não foi possível recordar integralmente o que se passou então. Lembro-me, porém, com certeza absoluta, que caminhando ao seu lado me vi tratada com polidez principesca, uma afetividade comovedora. Reconheci na entidade o grande "apóstolo russo", como é chamado, mas tal coisa, assim em espírito, não me atemorizou, não me surpreendeu, nem sequer me admirou. Mantive-me naturalmente, como se fôssemos antigos conhecidos. E ele disse:

— Desejava escrever algo ao mundo terreno, por seu intermédio...

Então, sim, admirei-me, e como que um vago temor sobressaltou-me. Num relance, passou por meu entendimento a dificuldade do feito: — Um escritor de tal renome, russo, sem grandes afinidades comigo, pois nem mesmo conhecia uma única obra sua. .. Ainda se fosse Victor Hugo, que nos é familiar, ou algum outro francês. ..

Ele, porém, prosseguiu:

— Desejo escrever, mas quero regionalismo russo. Protestei, sem temor:

— Não será possível... O regionalismo é sempre difícil, mesmo para o feito mediúnico...

— Não no seu caso... — respondeu docemente — pois saiba que teve uma existência na Rússia... embora no momento esteja esquecida... Encontrei no seu subconsciente o cabedal necessário...

Peço-lhe confiança...

Também essa revelação não me admirou. Conheço bastante a Revelação Espírita para não duvidar da possibilidade de havermos existido em qualquer parte da Terra, ontem ou remotamente. Não tenho maior ou menor simpatia por aquele país do que por outro qualquer. A Terra toda é grata ao meu coração e eu viveria de boa-vontade em qualquer país, segundo creio, não conservando preconceitos contra nenhum deles. Respondi-lhe após, sinceramente:

— Se for da vontade de Deus, meu irmão, então estarei às vossas ordens, com todo o meu coração, pronta às disciplinas necessárias e a qualquer sacrifício. Dai-me, pois, as vossas ordens...

Levou-me então à sua Pátria. Vi-me vagando a seu lado pelas ruas de Moscou (a antiga Moscou imperial, da época em que ele próprio viveu), em São Petersburgo e várias outras cidades cujos nomes me são desconhecidos; pelas aldeias e lugarejos. Mostrou-me e explicou-me mil coisas, de que não conservei lembrança. Fez-me examinar indumentárias masculinas, trajadas por personagens que se encontravam sempre à mão. Mostrava-me mangas e punhos de blusas masculinas, botas, tipos de calçados, interiores domésticos, utensílios como o "samovar", aparelho onde se prepara a água para o chá, de que eu nunca ouvira falar antes; mostrou-me fachadas de residências nobres com seus parques sugestivos, e também as residências humildes das aldeias, a que chamou "isbas" (1). E depois, amavelmente, disse ainda: — Agora lhe mostrarei o Outono em minha terra. Como é poético!...

E com efeito, um panorama belíssimo, com um pôr de sol nostálgico, quando já se sentia frio; o céu cinzento-azulaão, com reflexos róseos; as folhas se desprendendo das árvores e rodopiando no ar, caindo de encontro a janelas fechadas, de várias casas senhoriais, tocou-me a sensibilidade e um sentimento intraduzível, misto de atração e nostalgia profunda, sucedeu-se em meu espírito.

Tão forte fora a sugestão por mim recebida, ou a "recordação" extraída do meu subconsciente, que cheguei a ouvir o rumor do vento e das folhas que se despegavam das árvores para tapetarem o chão...

E a entidade tomou a dizer, docemente:

— Vejamos agora o Inverno...

Então, planícies geladas se sucederam, tempestades de neve, granizo; e habitações, e ruas, e estradas, e jardins e parques cobertos de neve, todo o panorama detalhado do que possa ser o Inverno na Rússia surgiu à minha vista com particularidades que seria longo enumerar. Caminhávamos, entretanto, e tão real era a visão, ou o quer que seja, que eu ouvia os passos do meu acompanhante rumorejando sobre a neve, que rangia sob seus pés.

Um convívio doce e afetuoso seguiu-se então entre os nossos Espíritos, a partir dessa data. Desse convívio, uma impressão terna, gratíssima, eu conservo: a impressão de que meus pecados mais graves foram perdoados por Deus, porque recebi a graça de ter podido conviver espiritualmente com a alma de um santo.

Seis meses depois do primeiro encontro, sem que eu estivesse preparada, pois tencionava terminar outro trabalho que tinha em mãos, apresentou-se ele subitamente e ditou, pela psicografia, de uma única arrancada, "O Sonho de Rafaela", que aqui figura em terceiro lugar, o primeiro dentre dois trabalhos sem referências ã Rússia. E ao terminar exclamou auditivamente:

— Foi para decidi-la de uma vez... e ver como será fácil, pois sei que desconhece também assuntos piemonteses...

E, realmente, embora o ditado se verificasse tão-só psicograficamente, desacompanhado das visões a que me habituei com as demais entidades com quem tenho trabalhado, foi esta a obra que mais fácil se me tornou captar do Além-Túmulo. Entrego-a, pois, ao publico, esperando que ela reconforte os corações sedentos de Esperança, para satisfação da nobre alma de apóstolo que amorosamente ma concedeu.

(1) Pequena casa de madeira muito usada na Rússia, para os homens do campo.

YVONNE A. PEREIRA

..1 - O REINO DE DEUS
..2 - A LIÇÃO MATERNA
..3 - O SONHO DE RAFAELA
..4 - O SONHO DE "STARTSI"
..5 - O DISCÍPULO ANÔNIMO
..6 - RESSURREIÇÃO E VIDA
..7 - O PARALÍTICO DE KIEV
..8 - O SEGREDO DA FELICIDADE
..9 - CONCLUSÃO