SOBRE A REENCARNAÇÃO

Em suas obras faz o historiador judaico Josefo profissão de sua fé na reencarnação; refere ele que era essa a crença dos fariseus. O padre Didon o confirma nestes termos, em sua Vida de Jesus: "Entre o povo judeu e mesmo nas escolas acreditava-se na volta da alma dos mortos na pessoa dos vivos".

E o que explica, em muitos casos, as perguntas feitas a Jesus por seus discípulos.

A propósito do cego de nascença, o Cristo respondeu a uma dessas interrogações:

"Não é que ele tenha pecado, nem seus pais, mas é para que nele se manifestem as obras de Deus."

Os discípulos acreditavam que se podia ter pecado antes de nascer, isto é, numa existência anterior. Jesus compartilha da crença deles, pois que, vindo para ensinar a verdade, não teria deixado de retificar essa opinião, se errônea fosse. Ao contrário, a ela responde, explicando o caso que os preocupa.

O sábio beneditino Dom Calmet se exprime do seguinte modo em seu Comentário sobre essa passagem das Escrituras:

"Muitos doutores judeus acreditam que as almas de Adão, de Abraão, Fineias, animaram sucessivamente vários homens da sua nação. Não é, pois, de modo algum para estranhar que os apóstolos tenham raciocinado como parece raciocinarem aqui sobre a enfermidade desse cego, e que tenham acreditado que fora ele próprio quem, por algum pecado oculto, cometido antes de nascer, tivesse atraído sobre si mesmo semelhante desgraça."

A respeito da conversação de Jesus com Nicodemos, um pastor da igreja holandesa nos escreve nestes termos:

"É claro que a reencarnação é o verdadeiro nascimento em uma vida melhor. É um ato voluntário do Espírito, e não o exclusivo resulltado do contacto carnal dos pais; decorre da dupla resolução da alma de tomar um corpo material e tornar-se um homem melhor."

"Repare-se como S. João (I, 13) nega abertamente a intervenção dos pais no nascimento da alma, quando diz: Que não são nascidos do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus."

"Todos esses pontos obscuros se iluminam de uma viva claridade, quando os consideramos no ponto de vista espírita."

Na conversação de Jesus e Nicodemus, este, ouvindo o Cristo falar de renascimento, não compreende como possa ele ter lugar. Diante dessa estreiteza de espírito, Jesus fica perplexo.

Não lhe é possível dar ao seu pensamento a extensão e o arrojo próprios. Para ele a reencarnação representa o primeiro elo de uma série de mais transcendentes verdades. Era já conhecida dos homens desse tempo. E eis que um doutor em Israel nada percebe a tal respeito! Daí a apóstrofe de Jesus: Como! Se não compreendeis as coisas terrestres, poderei eu explicar-vos as coisas celestes, as que se referem particularmente à minha missão!

De todos os padres da Igreja, foi Orígenes quem afirmou, do modo mais positivo, em numerosas passagens dos seus Principios (livro 1°), a reencarnação ou renascimento das almas. É esta a sua tese: "A justiça do Criador deve patentear-se em todas as coisas." Eis em que termos o abade Bérault-Bercastel resume a sua opinião:

"Segundo este doutor da Igreja, a desigualdade das criaturas humanas não representa senão o efeito do seu próprio merecimento, porque todas as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria ignorância, e todas, também por isso, absolutamente iguais. O maior número incorreu em pecado e, na conformidade de suas faltas, foram elas encerradas em corpos mais ou menos grosseiros, expressamente criados para lhes servir de prisão. Daí os procedimentos diversos da família humana. Por mais grave, porém, que seja a queda, jamais acarreta para o Espírito culpado a retrocessão à condição de bruto; apenas o obriga a recomeçar novas existências, quer neste, quer em outros mundos, até que, exausto de sofrer, se submeta à lei do progresso e se modifique para melhor. Todos os Espíritos estão sujeitos a passar do bem ao mal e do mal ao bem. Os sofrimentos impostos pelo Bom Deus são apenas medicinais, e "os próprios demônios cessarão um dia de ser os inimigos do bem e o objeto dos rigores do Eterno." (História da Igreja, pelo abade Bérault-Bercastel.)

Lemos na Apologética de Tertuliano:

"Declare um cristão acreditar possível que um homem renasça noutro homem, e o povo reclamará em grandes brados que seja lapidado. Entretanto, se foi possível crer-se na metempsicose grosseira, a qual afirmava que as almas humanas voltam em diversos corpos de animais, não será mais digno admitir-se que um homem possa ter sido anteriormente um homem, conservando sua alma as qualidades e faculdades precedentes?"

S. Jerônimo por sua vez afirma que a transmigração das almas fazia parte dos ensinos revelados a um certo número de iniciados.

Em suas Confissões diz Santo Agostinho:

"Não teria minha infância atual sucedido a uma outra idade antes dela extinta? ... Antes mesmo desse tempo, teria eu estado em algum lugar? Seria alguém?"

Firmando este princípio moral: "Conforme a justiça divina, aqui neste mundo não pode existir um desgraçado que não haja merecido o seu infortúnio", esse padre da Igreja faz pressentir a razão dos sofrimentos das crianças, a causa geral das provações que padece a Humanidade,-assim como a das deformidades nativas. A preexistência das almas à dos corpos em uma ou várias existências anteriores à vida terrestre explica essas aparentes anomalias, de tal sorte, repitamos, que os sofrimentos, segundo Orígenes - que adotara a tal respeito a opinião de Platão - seriam curativos da alma, correspondendo à necessidade simultânea da justiça e do amor, não nos sendo imposto o sofrimento senão para nos melhorarmos.

Léon Denis - Cristianismo e Espiritismo