VIDAS DÚPLICES

O estágio terrestre, pelos valores transitórios sobre os quais se levanta, ainda permite à criatura viver duas vidas diversas, o que acontece a muita gente. Vidas dúplices, experiências que se tipificam, distintas, uma em casa, outra na profissão; uma no círculo religioso, outra na esfera social; uma em certa época, outra depois, trocando-se até mesmo de nome; uma em determinada cidade, outra em cidade à parte e, às vezes, uma no lar verdadeiro, outra em lar diferente.

Para o Espírito desencarnado, entretanto, é impossível viver simultaneamente de dois modos, evoluir por duas rotas ou trilhar dois destinos. Jamais conseguirá ser, ao mesmo tempo, conscientemente, benfeitor e obsessor, apóstolo e falso profeta. Escolha entre bem e mal impõe-se à consciência livre. As máscaras valem apenas à sombra da atmosfera humana. Liberta, a alma se revela tal como é.

Diante da Lei, admite-se o uso de certas normas de ocultação produtiva da verdade em favor dos semelhantes, nas relações naturais homem a homem; contudo, o excesso de subterfúgios e artifícios, transformando a existência num campo de manobras, não é ingrediente da conduta digna.

Quem rende culto à doblez negligencia as obrigações espirituais e esquece-se de que um dia voltará ao Plano em que a mente se despoja de toda ilusão.

Perante a criatura desperta para o sentido da eternidade, todos os departamentos da vida são solidários entre si, objetivando o aperfeiçoamento íntimo. Nem mesmo o setor dos negócios materiais escapará à orientação básica dos seus atos.

Cada Inteligência existe índivisível, cabendo-lhe o dever de conservar-se inteiriça no convívio que lhe é próprio. Toda responsabilidade surge individual, antes de ser coletiva. A Humanidade emancipar-se-á unicamente alma por alma.

Entreguemos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, permanecendo convictos de que ninguém consegue servir a dois senhores.

A desencarnação é o processo de que a vida se utiliza para elimínar o que parece, e deixar o que é. Combatamos em nós toda disparidade de procedimento, evitando caminhar com um pé na estrada e outro na sarjeta.

Analisemos a silenciosa lição da Sabedoria Divina, ao dotar o homem com a forma em que se expressa: ele possui dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, dois braços e duas pernas, mas dispõe somente de um coração - íntegro marcador de nosso caráter que deve ser uno e inconfundível.

PEDRO RICHARD