12 - TRANSCRIÇÕES

Do opúsculo citado Para os Aprendizes do Evangelho transcrevemos aqui os capítulos seguintes que, inteiramente, se integram e completam este trabalho.


1 - O mundo interno


Em todos os casos, sejamos ignorantes ou sábios, retardados ou evoluídos, tudo o que se faz a Lei registra, e nada escapa à sua surpreendente flexibilidade. No esforço de esclarecimento próprio, ler, interpretar, colaborar na divulgação da Doutrina, obter conhecimento teórico, tudo isso é fácil; oferece atrativos e até causa deleite, porém só vale o que se passa no íntimo. O mundo interno é que é o nosso mundo. Não vivemos para solucionar os problemas do Universo, porque estes já estão desde sempre solucionados por Deus. Nosso problema é a questão evolutiva, o desenvolvimento do Eu individual.

Porque há um céu interno, feito de valores divinos, que devemos revelar, exteriorizar, se bem que, muito ao contrário, o que sucede é que os homens mais se devotam às coisas exteriores, preocupando-se com problemas inúmeros, pertencentes quase todos à criação divina e, portanto, já elaborados e solucionados, desde sempre, por Deus. Esses problemas exteriores, para que se os conheça basta que se lhes dê atenção, que se os estude, utilizando-se da inteligência e, nesse esforço, mesmo quando se descubra coisa nova, nada mais se faz que penetrar em terreno já conhecido antes, já existente antes, unicamente ainda desconhecido para nós.

Mas o campo interno, esse precisa ser edificado por nós, realizado e revelado por nós mesmos; esse é que é o nosso problema fundamental, para solução do qual fomos criados, encarnamos e desencarnamos, sofrendo e aprendendo sempre. Nada que seja exterior nos dará felicidade, nem resolverá nossa equação espiritual, antes que primeiramente o campo interno tenha sido conquistado, edificado e revelado por nós, com sacrifício, perseverança e sofrimento, e antes que, para essa solução, saibamos manejar a arma poderosíssima do Evangelho, isto é, a do amor, porque esta é a chave maravilhosa que abre todas as portas do mundo espiritual. Foi isso que Jesus revelou como fundamento de seus ensinos e foi com isso que Ele apontou o caminho da Redenção.

O amai-vos uns aos outros é isso ... Ele nos mostrou até onde podemos ir no esforço imenso da evolução, dizendo que o Reino de Deus está dentro de nós; e por isso nosso pensamento principal deve ser esse de revelar o Eu interno, despertar em nós as virtudes crísticas, revelar em nós o Reino de Deus, para vivermos nele e nos libertarmos do círculo das reencarnações punitivas.

A esse esforço glorioso de realizar o amor, criando-o, primeiramente, em nosso coração e depois expandindo-o para fora com o intuito de com ele beneficiar o mundo, é que devemos intensamente nos devotar.
Este é o acrisolamento de toda a iniciação, seu ponto alto, definitivo, porque o amor é o fator transcendente da evolução, o único que constrói para a eternidade e que representa o rumo seguro e certo para a edificação, desde já, do Reino de Deus na Terra.


2 - As etapas dos resgates


A Doutrina Espírita é severa no expor essa questão, porque, simplesmente, expõe a verdade, segundo ela se apresenta nos planos da vida espiritual. Assim, esclarece que a libertação do Espírito, em relação aos males praticados, subordina-se às seguintes etapas:

1°) Compreensão do erro;

2°) Arrependimento;

3°) Expiação da falta;

4°) Reparação.

O Espírito culpado só se libera da cadeia dos resgates quando passar por essas quatro fases sucessivas e complementares do processo, para qualquer das quais necessita coragem e boa vontade. Enquanto não o fizer, permanecerá nas trevas e na infelicidade, vendo fechados para ele os caminhos da ascensão. Não é necessário dizer que não se pode resgatar todos os erros numa só vez; o Pai Celestial não dá a seus filhos cargas excessivas; cada vez se paga uma dívida, encerra-se um ciclo do Carma, vira-se uma página do livro da vida. E nem tampouco os resgates são feitos de acordo com a ordem cronológica das transgressões; resgata-se numa vida aquilo que foi julgado compatível com as circunstâncias do momento, seja qual for o tempo em que a transgressão tenha sido praticada.

Espíritos endurecidos ficam séculos afundados no mal, e, antes que ocorra o tédio, pelo desgaste natural do tempo, ou haja alguma intercessão benévola a seu favor, não retornam aos caminhos da ascensão. Tomemos por exemplo um Espírito de condição evolutiva inferior, ainda capaz de cometer violência e mortes. Vivendo entre sombras, sua consciência ainda não despertou para a realidade da vida espiritual superior, porém quando tal coisa suceder, estará em condições de iniciar o resgate de seus erros pretéritos; compreenderá que é sagrada a oportunidade da vida na carne e que destruir o veículo material é acumular pesadas responsabilidades e sofrimentos no futuro.

Entretanto, a compreensão unicamente não basta; se não se arrepender sinceramente, chorar suas fraquezas, assumir consigo mesmo o compromisso de melhoria espiritual, não entrará sequer no caminho da reabilitação. Porém, quanto tempo passará antes que realize esse segundo passo? As forças do mal o solicitam insistentemente e o Espírito ainda é frágil para resistir a elas com vantagem. Mas, mesmo que triunfe e se arrependa e delibere reabilitar-se, somente isso basta? Não basta: o devedor continua devendo suas dívidas; o arrependimento não as redime e a terceira etapa deve ser infalivelmente enfrentada.

Vem, pois, a expiação: o Espírito vai sofrer o que fez sofrer para que, então, pague o débito e ponha-se em dia com a justiça divina, desde que, bem entendido, sofra a expiação com espírito de humildade e subordinação à Lei de Deus. Mas, terminada a expiação, estará o Espírito reabilitado? Ainda não, porque, se deu os três passos anteriores, agindo no plano individual em benefício de si mesmo, os males praticados no plano coletivo, contra o próximo, continuam de pé, a espera de ressarcimento.

Por isso o culpado entra na última fase, a de reparação, durante a qual deve desfazer o que fez, reparar suas consequências e compensar as vítimas, beneficiando-as com o seu auxílio espontâneo, com a sua assistência amorosa, fraternal. Então sim, e só então, estarão as dívidas satisfeitas até o último ceitil, terminados os resgates, redimido o Espírito perante si mesmo e perante Deus; contrito e maravilhado, entra ele agora no caminho da felicidade espiritual.

Preparação: Observando o mundo, como se estivéssemos fora dele, em uma torre imensamente alta, veríamos como não existe paz e fraternidade em parte alguma e como a humanidade, desorientada, corre em todas as direções, sem saber bem o que quer, ou para onde vai; e lutam os homens uns com os outros e se revoltam e se desesperam. Vendo isso compreenderíamos, então, como a dor e a morte governam no mundo.

Assim sempre foi e continua a ser nos nossos dias, porque as leis que ainda imperam no coração do homem são as do instinto e da animalidade. Mas quantos emissários divinos já desceram do Plano Espiritual para mostrar caminhos diferentes, que levam para o amor? E quanto já não se sacrificaram, tentando levar os homens para rumos mais justos e acertados? E ainda nos cantam aos ouvidos as palavras carinhosas esclarecedoras daquele — maior de todos — que por último esteve entre nós, no mais sublime intuito de libertar a humanidade de seus sofrimentos, da cegueira mortal, e do desvairamento.

Mas entregando seu corpo à morte cruenta na cruz, selando com seu sangue a tarefa sublime da salvação, plantou Ele raízes tão fortes no coração dos homens, deixou no chão marcas tão profundas de seus passos, que sua lembrança não se apagou jamais e seus ensinamentos sobreviveram como uma grande luz a iluminar as trevas do mundo. Jesus, como Ele mesmo disse, venceu a morte, glorificando a vida eterna do espírito; e iluminou os caminhos escuros com as luzes de seu Evangelho de amor e de paz, que desde então, e muito mais agora, se torna o único e verdadeiro recurso capaz de redimir a humanidade e afastá-la dos abismos terríveis do aniquilamento.

Sabendo disso é que Jesus informou a seus discípulos que, ao termo do ciclo, haveria a separação de bons e de maus, conquanto desejasse redimir a todos. Essa é a tarefa que cabe aos discípulos de hoje, não de visão curta, mas bem ampla: ajudar para que o maior número possível de irmãos nossos se esclareçam enquanto é tempo, penitenciem-se e enveredem sem mais tardança, pelo caminho que leva ao reino prometido... O chamamento reboa dos céus para que essa Terra, transfigurada e santificada pelo sofrimento de tantos, se torne apta a receber em seu seio uma humanidade regenerada e feliz.


3 - Como evoluir mais depressa


I - O Espírito para evoluir precisa purifícar-se.

Quando involui para adquirir forma aparencial, materializou-se, e, nas provas da vida inferior, adquiriu defeitos e deixou-se dominar por paixões que ainda conserva. Esses defeitos são justamente os obstáculos que impedem a purificação. Dentre eles o egoísmo é aquele que mais alimenta o Eu inferior e o indivíduo somente evolui quando vence as inferioridades; quando consegue viver com os pensamentos postos em alvos elevados fora da matéria e das paixões do mundo inferior encarnado.

E não há maior ideal que unir-se a Deus, unindo-se ao próximo. Mas como Deus está acima de nossa atual compreensão, devemos focalizar Jesus — o Divino Mestre — entidade espiritual, que é uma imagem de Deus acessível aos homens, correspondendo a todos os nossos anelos, tendo a Ele como um padrão divino de vida moral, alvo muito acima de nós, mas que se torna próximo quando nos esforçamos por alcançá-Lo. Basta, às vezes, um curto período de vida e de esforços bem conduzidos, rigorosamente dentro da lei espiritual, para evoluirmos mais depressa que em cem anos de vida improdutiva.

Se Jesus é o alvo a atingir, o Evangelho é o caminho para esse alvo, nenhuma vacilação devemos ter em penetrarmos nele, dentro das regras e condições exigidas. Assim, a vida do aprendiz é cheia de estímulos porque noite e dia trabalha e se esforça no silêncio e na meditação, para atingir esse alvo, reprimindo, cada dia com mais intensidade e determinação, os impulsos que vêm do Eu inferior; e nesse esforço também, dia por dia, a partícula divina, que jazia sepultada ao peso da matéria, vem surgindo para fora, como luz que sobe por detrás de um horizonte escuro.

É como está figurado na parábola evangélica "A semente que cresce": tal o reino de Deus, como um homem que lança a semente sobre a terra; e que dorme e se levanta e a semente brota e cresce sem ele saber como. Porque a terra, por si mesma, produz primeiramente a erva, depois a espiga, e por último, o grão. O animal se transforma pela purificação em Espírito de luz autêntico e visível: o coração se vai dulcificando, os sentimentos mudando e o aprendiz se sente crescer, expandir-se diariamente, como uma chama que fulgura cada dia mais.

O desprendimento, o desinteresse, a repressão ao Eu inferior, devem prosseguir infatigavelmente, até que o tempo, passando, mostre as mudanças que se operaram e assim, período a período, dia por dia, as mudanças se vão acumulando, e o aprendiz vai galgando os degraus da evolução.

O endeusamento do Eu inferior normalmente é a principal preocupação do homem encarnado, que se deixa engolfar completamente pelas atrações ilusórias do mundo material, e é dessa atração, que está em tudo, que o aprendiz deve libertar-se se quiser evoluir mais depressa, e tornar-se digno de habitar esferas mais perfeitas do mundo espiritual; somente assim subirá para as luzes das moradas felizes.

II - "Das forças íntimas da renovação, a mais poderosa é a do amor ao Bem".


Quando essa força começa a surgir em nós isto é sinal de que devemos tomar as rédeas da evolução em nossas próprias mãos, emergindo das sombras da ignorância e da inconsciência. No plano espiritual mais chegado à Terra, o Espírito já despertado para o Bem assume compromissos de renovação íntima e colaboração no plano coletivo, e assim reencarna. Essa preparação exige, antes de mais nada, a reforma íntima, operação custosa, sacrificial, testadora de vontades, mas sempre gloriosa ao final, quando há êxito; e sem ela não pode haver sucesso em realização alguma, mesmo quando as sanções corretivas continuem a incidir sobre os recalcitrantes.

Mas, de livre vontade, quantos se recordam dos compromissos e os realizam? Quantos corajosamente os iniciam? A maior parte é tomada de roldão pelas tentações do mundo e negligenciam ou se negam. Entretanto, esse é o único caminho e quando os obedientes e sensatos resolvem entrar por ele, não pode haver recuos sem redobramento de corretivos, pois que a Lei é severa; e é com os pensamentos postos nesse quadro e os olhos presos às metas marcadas que o aprendiz deve caminhar sem desfalecimentos, vencendo as etapas sucessivas, uma por uma, até o término do esforço engrandecedor.

E assim como ocorre com a semente na terra, que pela manhã já mostra seus brotos, assim brotam no seu coração as virtudes evangélicas da renovação. É incrível a rapidez com que se operam em nosso íntimo essas transformações redentoras e como cresce depressa, sob as luzes do Evangelho, a seara dourada do amor e da esperança! Na medida em que mais e mais no devotamos, mais intensamente age a força renovadora até que brilhe em nós, para fora, como um raiar de sol; e à medida que caminhamos, tudo em torno se vai vestindo dessa luz, tornando o nosso caminho claro e belo, com os obstáculos todos à vista, fáceis de transpor.

E só então compreendemos como é poderosa e real a força renovadora do Evangelho
e que a palavra "religião" nada significa em si mesma enquanto não se transformar em realizações íntimas, concretas, conquistadas com o próprio esforço e o suor do rosto, numa trajetória de sacrifícios que deixa marcas bem visíveis no chão que foi pisado. Compreendemos que essa força é o amor imenso do Cristo agindo em nós, abrindo-nos olhos e corações, para que se veja como se opera a ressurreição nas almas pecadoras que, nessa altura, já podem refletir para as trevas do mundo um pouco de suas próprias luzes nascentes.

Nota: A iniciação espírita evangélica difere da iniciação clássica oriental, porque:
1 - na primeira os aprendizes não se isolam do mundo, lutam no aconchego moral e afetivo dos companheiros

2 - e sabem que lhes está assegurada, pela bondade de Deus, a assistência amorosa, constante e sábia, dos protetores espirituais.

III - O corpo orgânico:

O perispírito, como matriz fluido-magnética, não se altera numa mesma encarnação, como estrutura; o mesmo, porém, não sucede com o corpo denso, que sofre alterações de tempo, de acidentes, de moléstias, de traumatismos morais e outros. O corpo é sustentado por energias de diferentes origens: as provenientes dos reinos da Natureza, pela alimentação; as da atmosfera, pela respiração; as do Cosmo (raios e ondas) e as do campo mental, oriundas do próprio Espírito.

As primeiras interessam às células orgânicas, na sua formação, sustentação e substituição e tendem a densificá-las, como elementos próprios que são do mundo material; as absorvidas pela respiração queimam resíduos do metabolismo orgânico, vitalizam o sangue, dão calor ao corpo; as provindas do Cosmo penetram os chacras, passam aos plexos, alimentam as atividades nervosas; e, as que vêm do Espírito, através da mente, destinam-se ao comando do corpo e às relações com o mundo exterior, pelos sentidos.

E há ainda energias mais poderosas, vindas do Alto, que sustentam o Espírito intimamente, através de canais psíquicos pouco conhecidos. O homem comum, pouco evoluído, normalmente desconhece essas energias e submete-se a elas inconscientemente. Há pois energias de condensação celular retentoras de sintonia animal e outras, mais elevadas, que arrastam para cima, no fulcro ascensional.

As primeiras, vindas dos reinos naturais, materializam o homem e se refletem sobre o perispírito, densificando, de certa forma, suas células fluídicas. Por causa disso são lentas e difíceis as reações psíquicas de caráter ascensional; o Espírito, de onde poderiam vir poderosos impulsos nesse sentido, está ainda incapacitado de emiti-los, porque são insuficientes seu entendimento e capacidade volitiva.

Quando, pelo tempo, trabalhado pelas vicissitudes e ganhando experiências, almeja mudanças e começa a interferir, nesse momento é que esclarecimentos adequados e orientação evangélica operam nas almas transformações surpreendentes. Considere-se que mais da metade da humanidade planetária desconhece tais esclarecimentos, não tiveram a ventura de recebê-los, nem estão preparados para isso e ingressam nos planos espirituais inteiramente alheios às suas realidades.

IV - Purificação do corpo:

Não nos referimos, é claro, à higiene pessoal ou qualquer outro cuidado de caráter exterior, mas sim a fatores intrínsecos, dos quais o principal é a alimentação. Com a alimentação formada de produtos naturais puros, não animais, ajudamos as células a se libertarem ou reduzirem ao mínimo o processo de densifícação. Mas a vibração própria dos produtos animais transmite-se às células, mantendo a densifícação e o ritmo vibratório do mundo animal, dando à situação cada vez maior estabilidade e permanência.

Esse processo de densifícação, contrário aos impulsos ascensionais do Espírito, influi fortemente no psiquismo humano, como elemento francamente retardador da espiritualização. Essa é a razão mais ponderável de se desaconselhar a alimentação carnívora, quando se deseja apressar a evolução. No esforço de reforma íntima, eliminados que sejam os vícios comuns (fumo, álcool, etc.) e alterada convenientemente a alimentação, as células irão pouco a pouco se libertando da carga grosseira da vibração animal, desafogando-se e adquirindo uma tonalidade vibratória mais delicada; isso trará como consequência imediata uma melhor sintonia entre corpo e espírito, facilitando a atuação deste sobre os sentidos físicos e aumentando a sensibilidade perispiritual, permitindo ao Espírito maior facilidade nas ligações com o Plano Espiritual.

V - Purificação do Espírito:

Além da ação cármica que houver, a purificação depende, em grande parte, da dominação ou, no mínimo, do controle dos sentidos, das paixões, dos impulsos inferiores e da formação de um status mental resguardado das atrações do mundo físico, apto aos selecionamentos e substituições aconselháveis. A música é uma dessas substituições. Não a música irritante, sensual, neurótica, dos nossos dias, mas a música suave, harmoniosa, das melodias, ou a clássica, de certos compositores mais inspirados, que abrem nas almas portas largas à sensibilização; nem tampouco a música simplesmente técnica, exibidora de virtuosismo, mas a que fala aos sentimentos e os sintoniza com planos de vida mais elevados, produzindo calma, serenidade, enlevo.

A música é fator espiritualizante que satura o mundo celular de harmonias, relaxando-o e elevando o tônus vibratório do perispírito. O homem rude, primário, sintoniza-se com música de baixo teor vibratório, que lhe recorda as vidas primitivas, enquanto que o mais evoluído prefere a música inspiradora e delicada, que o leva para fora do mundo grosseiro da matéria física. São também elementos sensibilizadores a pintura, a escultura e as artes em geral, através das quais a alma humana procura expressões acima do mundo material; como, também, contatos estreitos e amiudados com a Natureza, onde se manifestam, abertas e livremente, as forças da Criação, o encanto e a beleza das formas e das cores, sobretudo a mensagem comovente e viva que está por detrás de tudo que seja manifestação do Deus criador.

Esses são fatores que educam os sentidos e os desviam das sensações grosseiras e negativas das paixões e desejos impuros que retardam a evolução, prendendo o homem à matéria perecível. Na sua luta de todos os instantes os aprendizes devem orar e vigiar, controlando cuidadosamente os impulsos maus, e as atividades mentais, para evitar que, do subconsciente, venham à tona reminiscências negativas do pretérito animalizado, de há muito tempo ali acumuladas.

Organizem um programa de ação pessoal, conforme as possibilidades, escolhendo local e momentos propícios para meditações e cultura do silêncio, com fundo musical harmonioso e suave. Abram nessas horas as portas da imaginação focalizando precisamente o que desejam obter, de bom e de útil, ao seu adiantamento espiritual; essas imagens se irão integrando no seu subconsciente e trabalharão em silêncio para sua efetivação em futuro breve; e, em havendo mediunidade, com esse regime ela despertará mais facilmente, sem sobressaltos e violências, porque os benfeitores espirituais terão mais oportunidades de orientar e ajudar.

A evangelização verdadeira exige tudo isso que, aliás, é bem pouco, considerando-se os surpreendentes resultados que desses esforços advirão desde os primeiros dias. Em resumo, para desenvolver a sensibilidade é preciso:

A — descondensar as células orgânicas, adotando alimentação natural, de produtos vegetais, gradativamente;

B — dominar os impulsos inferiores dos sentidos físicos, utilizando práticas adequadas, de refreamento e desviamento;

C — manter sintonia com o Plano Espiritual superior, sentindo, pensando e agindo sempre pelo Bem.

Considerem, porém, os aprendizes, o seguinte: desde que se disponham a purificar-se de corpo e espírito e a combater o mal, a começar de si mesmos, passam a ser automaticamente agentes do Bem, tornando-se, desde logo, alvos das forças das sombras. Como defesa devem armar-se de compreensão, fé e humildade, sem o que não vencerão a ofensiva dos desejos, paixões e ambições, contra a sua capacidade de renúncia e de sacrifícios. Em textos de sabedoria antiga lê-se isto: "Como a fumaça envolve a chama, a ferrugem o metal, e o útero materno a criança que vai nascer, assim o homem do mundo é envolvido pelos desejos".

Como os desejos, em geral, têm sua sede nos sentidos e na imaturidade do Espírito, nesse esforço de purificação grande poder tem a mente, através da qual o Espírito manifesta a sua vontade, conduz o corpo e utiliza a razão, para discernimento das coisas que o rodeiam; o Espírito é o elemento dominante do maravilhoso conjunto humano, o senhor do sistema, que possui as virtudes potenciais da própria Divindade Criadora da qual derivou e recebeu a graça da vida imortal. Esses são fatores que asseguram todas as vitórias mas não sem luta...


4 - Síntese da matéria exposta


Esta Iniciação Espírita visa:

a) a conquista do conhecimento espiritual verdadeiro, fora de qualquer limitação sectária ou exclusivista, o Espiritismo compreendido como doutrina racional, evolucionista e universalista.
A ortodoxia, útil quando dentro de limites justos, não deverá tornar-se um entrave à expansão doutrinária, respeitada a estrutura fundamental estabelecida na Codificação, o exame sensato e rigoroso do subsídio doutrinário que veio depois e continua a vir pela revelação mediúnica progressiva e que deve ser aceito e acrescentado ao corpo da Doutrina, num trabalho discreto, prudente, porém liberal, de atualização;

b) a reforma íntima e a conquista de virtudes evangélicas, com preparação individual para as testemunhações públicas que a expansão da doutrina exige;

c) a transformação moral do homem velho, saturado de defeitos e fanatismos, em um ser renovado, esclarecido, cristianizado, espiritualizado;

d) o esclarecimento do maior número de pessoas, tendo em vista o selecionamento dos dias finais deste ciclo.

A missão do Espiritismo é espiritualizar os homens antes desse selecionamento; essa espiritualização depende, em grande parte, do esforço individual de renovação, mas se o Espiritismo não conseguir interessar os homens nesse esforço, não terá obtido êxito em sua missão cósmica; esta Escola de Aprendizes do Evangelho, com a organização que recebeu, colabora em nosso meio para que esse objetivo seja alcançado no mais amplo nível possível. O que se refere à letra "A" desta síntese é conhecimento teórico indispensável, mas não fundamental e, muito menos eliminatório; ao passo que em relação à letra "B" a falta de aproveitamento por parte do aprendiz é fator impossibilitante de prosseguimento, eliminatório, portanto; quem não demonstrar progresso na reforma íntima, mesmo que o demonstre em relação à parte teórica, não compreendeu as finalidades da Escola e inútil será prosseguir, pelo menos enquanto isso proceder.

Por outro lado, como a base da reforma é o Evangelho, ninguém pode escusar-se ao cumprimento rigoroso dos seus programas, com desvios ou argumentação capciosa.


5 - Os dirigentes


Quanto aos dirigentes de turmas ou de cursos, além de tudo o mais que lhes compete, devem ter em vista e aplicar, sistematicamente, os recursos e meios viáveis e adequados à apuração do aproveitamento da renovação, sem o que sua tarefa não terá êxito. Cuidarão para que os pontos dados e os temas tenham em vista sobretudo o processamento dessa renovação, devendo ser posto em evidência tudo aquilo que valha como exemplo e regra de conduta, norma de ação, incentivo, estimulação e apoio para esse grande esforço exigido dos aprendizes.

Em certo sentido os dirigentes são os responsáveis pelo êxito das turmas que dirigem, quando não forem exemplo para todos e não orientarem o ensino e as práticas visando única e exclusivamente a finalidade redentora da iniciação. Se lhes confiaram o encaminhamento de centenas de aprendizes, tudo devem fazer para que não haja incompreensões, desânimos, fracassos e, só depois disso, estarão isentos de responsabilidade espiritual.

O melhor dirigente ou expositor de matéria não é aquele que conhece bem o ponto a ser dado e cita com boa memória passagens do Evangelho, mas aquele que retira dos pontos e dos temas elementos valiosos de edificação moral, que valem como diretrizes justas e estímulos para o prosseguimento da luta difícil na qual os aprendizes estão empenhados.


6 - Os expositores


O índice mental de uma classe de aprendizes é normalmente o mediano e também por isso a direção do ensino não lhes deve fazer maiores exigências da natureza intelectual. Por isso, também é recomendável que os pontos e os temas previamente sejam estudados, e compreendidos na sua verdadeira significação iniciática, isto é, nas suas relações e consequências com o que se visa oferecer aos candidatos.

A exposição deve ser feita de forma clara, acessível e simples, fugindo o expositor a terminologia empolada ou pedante, com tiradas literárias ou filosóficas de difícil entendimento, que muitas vezes somente servem para evidenciar a vaidade dos seus autores. Simplicidade, clareza, método e síntese, eis as qualidades que devem ter as exposições doutrinárias, a melhor maneira de se apresentar os assuntos e torná-los acessíveis e úteis a todos.


7 - A testemunhação


Esta parte é essencial porque demonstra, logo à primeira vista, o quanto os aprendizes estão progredindo no conhecimento das coisas e na preparação moral exigida pela reforma, como também indica como se vai processando no seu íntimo essa tão desejada transformação. Devem eles, portanto, aproveitar todas as oportunidades para essas exteriorizações do espírito, que valem como auto-testes no decorrer da luta difícil que encetaram; e quando os dirigentes, por qualquer motivo, não estejam atentos à necessidade do fornecimento de estímulos e oportunidades, devem agir por si próprios, criando circunstâncias favoráveis, aceitando encargos e realizando tarefas de cooperação que lhes permitam o exercitamento indispensável.

E certos podem estar de que, na medida em que se forem tornando aptos, o Plano Espiritual lhes vai abrindo portas à frente, oferecendo-lhes campos cada vez mais vastos, para esse exercitamento, até que sejam dados como capazes de coisas maiores e mais úteis.


8 - Diretrizes


Quem entra nesta Escola e ouve aulas, palestras, toma parte em reuniões e atos sociais, mas não realiza a reforma íntima, melhora, talvez, sua cultura geral, mas movimenta-se somente à superfície do problema principal, não lhe atinge o fundo e, portanto, não o resolve, perdendo preciosa oportunidade de progredir espiritualmente, nesta atual encarnação.

A - Quem vive sua vida cumprindo unicamente seus deveres para com o mundo e se devota firmemente à sua renovação espiritual, está nos primeiros degraus da escada difícil que leva aos mundos superiores. É aprendiz do Evangelho.

B - Aquele que já sentiu despertar em seu coração o interesse pelo próximo e suas necessidades, o desejo de servir, e a isso se empenha com sinceridade, renunciando ao seu próprio repouso e comodidades, subiu mais alguns degraus na longa ascensão. É um servidor.

C - Mas aquele que vive no mundo e dele se desprende, ligando-se fortemente a Deus e devotando-se ao Bem, sem exclusivismos; que se esforça por viver o Evangelho em tudo que pode, esquecendo-se de si mesmo, este subiu muitos degraus e à hora da morte estará mais próximo do Senhor; atravessará a Porta Estreita e entrará no Caminho do Reino. É discípulo.

Mas tenham presente que quem serve a Espíritos inferiores, sabendo que o são, com eles se identifica, e encarna neste mundo sob domínio desses Espíritos; como, também, que há muitos que vivem nas sombras e combatem pensando que servem à Luz e que o Evangelho é luz que ilumina todos os caminhos. Fecha pois as portas dos teus sentidos a tudo aquilo que possa diminuir ou aniquilar o valor do teu esforço de purificação interna e abre a tua alma para a Luz, pois dela emanam sempre eflúvios saneadores e inspirações salvadoras.

Despreocupa-te da opinião de estranhos e faz a tua parte silenciosa e humildemente, dentro de ti mesmo, em comunhão estreita com Deus; pelos caminhos do amor que o Evangelho espelha, Ele se torna acessível muito mais depressa. Crê firmemente na Sua ajuda e na Sua presença em tudo e em ti mesmo, mesmo sem o perceberes; na água que bebes, no alimento que ingeres, no teto que te cobre, no aconchego do lar, na liberdade de pensar e de agir, na luz do sol que alumia e aquece, nas cores vivas e no aroma das flores e dos frutos, nos sons da Natureza, nos vastos horizontes, nas madrugadas e nos crepúsculos, na certeza feliz da vida imortal.

Em tudo Deus está presente, envolvendo-te com o Seu divino amor, dando-te esperanças, forças e paciência. Esforça-te dia a dia e de cada vez teus olhos ficarão mais abertos para os esplendores da vida espiritual; e quando as lutas desta encarnação chegarem ao seu fim e voltares ao grande lar do espaço infinito, com surpresa verás que foi nos Seus braços amorosos que viveste neste mundo escuro e neles mesmos foste levado à ressurreição da morte.

Mas jamais te esqueças que a eterna caravana dos mortais conta bilhões e todos seguem os mesmos rumos, sob o látego dos sofrimentos e das dores comuns; verás que essa caminhada terrível segue veredas sombrias; mas a meta é sempre a mesma para todos, a saber: os alvos cimos onde as dores não mais penetram, pois para isso Jesus trouxe ao mundo a redenção. E a luz que alumia a caminhada escura vem do Evangelho, o mesmo que queres ajudar a propagar no mundo; e os penitentes são "o próximo" a quem Jesus se referia e que tu, por fim, aprendeste a servir e a amar como discípulo.

Olha tudo com grandeza e esperança, mas recorda-te que só se é grande na humildade, servindo, e isso podes. Segue pois com eles, sofrendo e ajudando como um exemplo vivo do que o Mestre ensinou quando disse: "o que fizeres em benefício de um destes pequeninos é a mim que o farás". E assim estarás fazendo mais que dar o pão ao corpo perecível, pois que estarás abrindo os olhos e conduzindo os teus semelhantes pêlos caminhos alvos que levam ao Reino Eterno da Luz.


9 - A grande tarefa


Além do mais, é também finalidade principal desta Escola:

A - aumentar o número daqueles que atendem ao chamamento e desejam devotar-se à revivescência do Cristianismo Primitivo;

B - preparar os guerreiros para os duros embates que se vão ferir, neste período difícil e tormentoso do transcurso deste ciclo evolutivo;

C - lançá-los depois na batalha redentora cujo chefe é Aquele que disse: "vinde a mim todos vós que sofreis, que ansiais por justiça, que estais desamparados e necessitais proteção; que estais perdidos e não atinais com os rumos certos, que estais nas trevas e ignorais a existência da Luz; vinde a mim e encontrareis a salvação".

Esse é o nosso condutor divino, que aplaina os caminhos dizendo: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vai ao Pai senão por mim". Preparai-vos pois, aprendizes, burilando vossas almas, enobrecendo-as com virtudes, purificando-as, vencendo a animalidade inferior, desprendendo-vos do mundo, lembrando-vos também destas palavras: "aquele que amar a vida pelo amor do mundo, perdê-la-á, mas aquele que perder a vida por amor de mim, achá-la-á e ainda mais sublime e para sempre". Quando atingirdes nesta Escola o grau de discípulo e fordes declarados prontos para as grandes lutas, que então possais ouvir de novo essas palavras de Jesus, não mais somente em vossos ouvidos mas sim na profundidade de vossas almas esclarecidas.

- O Espiritismo oferece à humanidade oportunidades de recuperar o tempo perdido e preparar-se, com relativa rapidez, para enfrentar as transformações a virem no fim deste ciclo, com a separação dos bons e dos maus.

- O mundo regenerado que virá em seguida terá novo aspecto e o Evangelho será a norma de conduta dos seus habitantes; e os costumes e leis serão também diferentes, espelhando virtudes cristãs, a duras penas conquistadas nas vidas anteriores.

Enquanto, pois, é tempo, aproximemo-nos das verdades espirituais veiculadas pela Doutrina dos Espíritos, que antes de tudo exige a reforma moral dos adeptos, semelhantemente ao que ocorreu nos tempos de Jesus, quando o Precursor mergulhava simbolicamente os israelitas nas águas do rio Jordão, para que se purificassem e pudessem merecer o Reino de Deus, que o Messias esperado vinha implantar na Terra.

Pois chegou agora o momento dessa conquista espiritual, não como antigamente, para um só povo, mas para toda a humanidade; porque o Messias veio, apontou os caminhos, selou com o seu sangue suas promessas de redenção, um tempo bem longo já passou, restando agora o selecionamento dos homens, para separar os que merecem viver nesse reino prometido. Importante é saber que a base dessa escolha será justamente a claridade própria individual indicadora do grau de evangelização de cada um. E não haverá apelo para esse julgamento.

Eis como se expressou um aprendiz das primeiras turmas, que dá aqui forte testemunho em favor das afirmativas que se fazem neste trabalho e que pode ser multiplicado por milhares: -"Eu não acreditava em nada, não tinha esperança de nada, vivia como um animal simplesmente racional, dominado pelas ambições da matéria e pelos instintos inferiores. Numa tarde de que nunca mais me esquecerei, deixei-me arrastar por um amigo e compareci a uma aula da Escola de Aprendizes do Evangelho.

-Os acordes harmoniosos do "Largo" de Haendel e as palavras comovedoras da prece que foi cantada, me trouxeram um extraordinário bem-estar, calaram muito fundo na minh'alma atribulada e creio que marcaram os novos caminhos que eu deveria percorrer daí em diante. Hoje, do homem que fui, pouco mais resta. Achei meu caminho e nele encontrei o que nunca tive antes, que é a consolação, alegria e esperança de vida melhor e mais feliz". O que faltava a esse aprendiz era o que ele encontrou e que, da mesma forma, encontra todo aquele que busca o rumo certo da vida espiritual, com honestidade, e permanece nele.

E por fim, as palavras do venerável benfeitor Bezerra de Menezes: "O iniciante em qualquer escola espiritual caminha como se seus pés não tocassem o solo, de tal forma tem postos nas esferas superiores mente e coração. Mas, invariavelmente, vem a tropeçar, pois a ninguém é dado atingir a perfeição de súbito, ainda que muito se possa vencer de um golpe, num impulso libertador e santificante. O discípulo esclarecido e corajoso contempla a pedra que o deteve anota-lhe o peso e a localização, analisa o motivo pela qual a encontrou, e adquire valiosa experiência.

O discípulo entusiasta, mas pusilânime, avista no menor obstáculo intransponível montanha e se detém à margem do caminho, perdendo preciosas oportunidades de ascensão. Existe terceira categoria de discípulos, talvez a mais útil às entidades empenhadas na continuação do mal na Terra, pois que, de certa forma, com elas colaboram, inconscientes, porém responsáveis; tropeçam e não o percebem; detêm-se, mas julgam estar ainda avançando; as sombras os envolvem, mas crêem-se portadores de luz; erram, acreditando praticar sublimes ensinamentos; o bem que realizam traz de envolta muito mal, mas se consideram assessores de Jesus.

O quadro é velho conhecido dos espíritas sob os nomes de obsessões e fascinação, nascidas da vaidade, do temor ou da sintonia com quaisquer correntes maléficas na obediência a impulsos inferiores. E o discípulo, nessas condições, recebe inefáveis bênçãos de Jesus, sem o perceber, exaltado às vezes pela contemplação das próprias obras, que a seus olhos avultam como realizações plenas do mérito, sendo simplesmente o socorro de Deus aos sofredores, sem que o desvalor dos intermediários o diminua.

Parece haver razões para que temamos, e outras para que nos maravilhemos. Mas como nos atemorizarmos se o Mestre descreveu, sim, dores e sofrimentos, mas afirmou que ao fim toda a lágrima seria enxugada? E por que nos maravilharmos se disse, com tal singeleza, que faríamos maiores obras que as Suas? Tudo vem de Deus, ou com Sua permissão: sofrimentos acerbos ou esplêndidas realizações. Confiemos em Sua amorosa sabedoria; que tenhamos antes os olhos postos no Redentor do Mundo do que nas trevas do caminho e na pobre claridade de nossas almas, pálido reflexo da Divina Luz".

Edgard Armond