5 - ESQUEMA E FUNCIONAMENTO DA INICIAÇÃO ESPÍRITA

Uma iniciação com base escolar, em três graus ou estágios, os dois primeiros efetivados em uma Escola de Aprendiz do Evangelho e o último, com estabilidade permanente e definitiva, em uma FRATERNIDADE DOS DISCÍPULOS DE JESUS.

 

INICIAÇÃO

ESPÍRITA

 
ESCOLA DE APRENDIZES
(GRAU DE)
  APRENDIZ   PREPARAÇÃO INDIVIDUAL
         
    SERVIDOR   SERVIÇO E TESTEMUNHO
           
 
FRATERNIDADE DOS DISCÍPULOS
DE JESUS
  DISCÍPULO   APERFEIÇOAMENTO DOUTRINÁRIO
       
      COLABORAÇÃO LIVRE
       
      TESTEMUNHO ATIVO NO MEIO SOCIAL

FUNCIONAMENTO:

A - NA ESCOLA DE APRENDIZES:

- Inscrições livres, sem restrições.

- Turmas sucessivas e independentes; programas e regras idênticas até o final do aprendizado.

- Ensino dividido em duas partes: teórica e prática - a primeira para fornecer noções de doutrina e a segunda para a evangelização propriamente dita.

Para a primeira não há exigências maiores de apuração de resultados mas, para a última, ao contrário, há rigor na condução e no controle da reforma íntima individual, com todas as prioridades, por ser esta a razão fundamental da existência da Escola. Ao final do primeiro estágio — o de aprendiz — que é mais que tudo de ambientação ao meio, adaptação ao regime escolar, conhecimentos gerais da Doutrina e preparação pessoal, os aprendizes passam ao grau de servidor, no qual já se exige a testemunhação, com trabalhos em bem dos semelhantes, no campo coletivo, oferecido pela própria Casa em seus numerosos departamentos de atividade pública ou, externamente, à escolha do próprio servidor, caso possa ser atendida a preferência.

Ao fim deste segundo estágio os servidores, após um período probatório de três meses, são transferidos para a Fraternidade dos Discípulos de Jesus e iniciam, por conta própria e inteiro livre-arbítrio, atividades independentes com programas por eles mesmos organizados. Neste último estágio os discípulos prosseguem nos seus esforços de aperfeiçoamento doutrinário, em caráter facultativo, frequentando cursos e trabalhos adequados, dentro ou fora da Casa sem, contudo, perderem os vínculos com a Fraternidade, da qual são partes integrantes, em caráter definitivo.

Dotados de conhecimentos satisfatórios, teóricos e práticos, estão habilitados a desempenhar com proficiência, as dignifïcantes tarefas que lhes cabem nos dias atuais, como propagadores do Evangelho redentor, confirmando os ensinamentos com exemplos pessoais, como nos tempos apostólicos. Desde o início dos cursos. Fraternidades do Espaço colaboram nas atividades da Escola, em tarefas específicas, como sejam: as culturais, as referentes ao mediunismo, à reforma íntima, à proteção da Casa, seus trabalhadores e familiares, aos atendimentos públicos para benefício de necessitados, etc.

A colaboração é assídua, pronta e altamente proveitosa, feita por número considerável de benfeitores espirituais e, em grande parte, por causa disso, a partir da primeira aula os aprendizes, via de regra, dão-se conta de uma cobertura espiritual carinhosa e constante, que lhes traz bem-estar, estímulos e segurança. Esses benefícios, inútil será dizer, não lhes são prestados em caráter de privilégio, mas de auxílio para manutenção da fé, do ânimo, e da confiança própria, necessários ao processamento da reforma íntima, desde que haja, bem entendido, da parte deles, sinceridade de propósitos, firmeza de atitudes, desejo inalterável de espiritualização, para se fazerem discípulos.

A progressão nos estágios sucessivos resulta da aplicação perseverante dessas qualidades, da tenacidade no esforço, da capacidade de realizações espirituais objetivas, da compreensão e subordinação aos programas, o que é apurado pelos dirigentes, por meios simples e justos, com plena consciência e colaboração dos alunos, em observações semestrais, anuais e finais dos cursos, em cada turma, separadamente.

Nessa Escola a reforma íntima é, realmente, uma batalha que se trava no campo interno e que se vence, positivamente, com recursos próprios e auxílio dos instrutores dos dois Planos, fortemente empenhados no êxito dos esforços, que se tornam, assim, comuns. E um forte sentimento de fraternidade e recíproca colaboração liga, desde os primeiros dias, os componentes das turmas, criando-se, assim, uma atmosfera de perfeita harmonia que se transforma, nas aulas e na vida individual, em verdadeiro enlevo espiritual.

Essas circunstâncias, todas de caráter psíquico, resultam, em pouco tempo, na formação de uma mística, aliás indispensável em qualquer agrupamento humano que vise fins religiosos; não uma mística de crer cega e fanaticamente em algo, mas mística racional, que una para a conquista de uma vitória comum, destinada, neste caso, não à prática de um rito religioso, que não existe no Espiritismo, mas à formação de um ideal religioso de elevada expressão espiritualizante, coisa portanto muito diferente do que se possa pensar a respeito, sem melhor exame.

No grau de aprendiz é indeterminado o número de alunos. O ensino teórico baseia-se na série "Iniciação Espírita" com aulas semanais e duração máxima de duas horas, sobre noções de doutrina, sem rigores de apuração de resultados, como já dissemos atrás.

No referente à reforma íntima, entretanto, a apuração é indispensável e se faz por vários meios, entre os quais podemos citar os temas, que são dados em todas as aulas, para desenvolvimento em casa e explanação em classe, temas que obrigam ao estudo dos textos doutrinários, desenvolvem a capacidade de meditação e de interpretação e, nas explanações em classe, revelam as inclinações, desenvolvem capacidade oratória, combatem as inibições pessoais, e servem de estímulo e emulação na conquista das virtudes morais que focalizam.

Ao termo de cada aula, após as observações do dirigente da turma, o Plano Espiritual se manifesta, através de médiuns adequados, previamente escalados, que oferecem também sua apreciação sobre o tema do dia, e conselhos e instruções necessárias e úteis ao progresso de todos.

Em cada estágio os aprendizes preenchem testes, no princípio e no fim dos períodos. No primeiro estágio o teste refere-se mais propriamente a condições pessoais, servindo também, futuramente, como meio de comparação dos progressos realizados. Em havendo necessidade, os aprendizes são encaminhados a trabalhos da Casa, para atendimentos pessoais, e nos casos de mediunidade, recebem assistência competente, com frequência facultativa à Escola de Médiuns, ou Cursos de Triagem mediúnica.

No segundo grau — de servidor — prosseguem as aulas teóricas mas o aluno, já adaptado e possuidor de noções gerais da Doutrina, é levado a práticas obrigatórias de serviços aos semelhantes, com início de testemunhações evangélicas, preferentemente na própria Casa, que lhes oferece campo bastante amplo e diversificado. O servidor tem faculdade de optar pelo setor que mais lhe agrade, conquanto seja levado a servir em todos, para complementação de conhecimentos e maior aptidão para servir futuramente em quaisquer circunstâncias, seja qual for o problema com o qual se defrontar.

Prosseguem os temas e os testes e os serviços prestados já passam a constituir elementos de julgamento, para avaliação de aproveitamento final. Se no currículo do 1° grau para eliminação de vícios, estabelecem-se prazos curtos (6 a 8 meses) para os defeitos morais — orgulho, egoísmo, avareza, etc. — não há prazo a estabelecer; via de regra, ao transferirem-se os alunos para o estágio de servidor, os defeitos que impossibilitem as tarefas do serviço no plano coletivo devem ser atacados com o máximo rigor, em constantes e assíduas tentativas de repressão, realizadas nas áreas correspondentes, isto é, praticagem de virtudes opostas aos defeitos a combater.

Se o grau de aprendiz é de preparação e adaptação, o de servidor já é uma luta aberta e constante, de franca testemunhação, enriquecendo-se a caderneta individual com anotações próprias. É neste estágio que o servidor aprende a conduzir-se com retidão e alto sentido de responsabilidade pessoal, modificando seu modo de ver e de sentir as coisas do mundo, em vivência efetiva de sentido evangélico. Nesta altura já não possui vícios e seus defeitos estão sendo francamente combatidos e vencidos; sua vontade desenvolveu-se, transformando-se em força ativa à sua disposição, utilizada livremente em seu benefício para atingir as metas fixadas.

Esse estágio tem singular importância, porque é o terreno fecundo das decisões definitivas, sofrendo o servidor reações íntimas de várias origens, como as do amor-próprio, do apego aos bens materiais, e outras que lhe permitem definir-se ante si mesmo e saber se prossegue ou desiste da caminhada difícil porém gloriosa, que a evangelização exige dos que aspiram realizá-la. Até aqui tem sido esclarecido e amparado, passo a passo, e deve agora começar a agir deliberadamente contra suas falhas, em plena consciência e inteiro livre-arbítrio.

Nas testemunhações muitos fracassam ao enfrentar os preconceitos sociais, o desconforto pessoal, a redução de comodidade, as incompreensões, os remoques, as advertências de amigos e familiares, profïtentes porventura de outros credos. Neste grau de servidores já expõem verbalmente seus lemas, diante dos demais, para se desembaraçarem e se tornarem aptos aos trabalhos da difusão da palavra, quando discípulos.

Tomam parte nos trabalhos práticos para aprendizado e colaboração pessoal, do que também serão feitas as devidas anotações nas cadernetas individuais. São futuros discípulos que se armam das qualidades e dos recursos morais que o título reclama para as futuras atividades espirituais. Ao fim deste estágio transferem-se para a Fraternidade dos Discípulos de Jesus e cessam, como já dissemos, as obrigações escolares e as servidões de serviços obrigatórios; podem afastar-se da Casa e organizar programas próprios de atividade pessoal; prosseguir, caso queiram, na frequência a cursos de aperfeiçoamento na própria Fraternidade, como, ainda, colaborar em qualquer dos departamentos da Casa, como sejam:

a) assistentes de trabalhos públicos materiais e espirituais;

b) expositores de matéria, em quaisquer de seus cursos ou escolas, desde que tenham qualidades para isso;

c) dirigentes de trabalhos práticos;

d) componentes do coral;

e) oradores em reuniões públicas, na Casa ou fora dela;

f) membros de órgãos administrativos ou direcionais da Casa.

É então quando se pode repetir para eles as palavras de Jesus: "Ide e pregai... e dai testemunho de mim..."
Eis alguns dos temas propostos aos aprendizes nos dois estágios:

1°) As dores sangram no corpo, mas acendem luzes nas almas.

2°) O sofrimento é um recurso do próprio Espírito para evoluir, mas há outros mais suaves.

3°) O mundo desengana e justifica o pessimismo de muitos; mas este julgamento é uma visão imperfeita.

4°) Face aos erros, paguemos o tributo devido e nos libertemos logo.

5°) O homem retarda, porém a lei o impulsiona.

6°) A paz é uma conquista íntima do Espírito em prova.

7°) A finalidade da vida é a glorificação de Deus nas almas.

8°) O culto de um deus exterior é um retardamento evolutivo.

9°) Sem desprendimento dos mundos materiais não pode haver ascensão espiritual.

10°) "Deus não dá por medida".

11°) A verdade liberta e estimula para a redenção.

12°) Toda virtude que se conquista é uma porta nova que se abre para um mundo melhor.

13°) Nos caminhos das realizações espirituais não há quedas definitivas.

14°) A vida se afirma na ressurreição da morte.

15°) Nos graus inferiores da evolução somente os que sofrem compreendem, se humilham e se salvam.

16°) Caminhar com Cristo é superar a morte, vencer a vida e ingressar, desde já, na eternidade.

17°) Somente após superar o transitório, poderá o aprendiz conquistar a individualidade eterna.

18°) Servir com desprendimento, sem visar retribuições do mundo, é viver com sabedoria.

19°) Cultivar o silêncio é lutar pela paz interna, vencendo a agitação do mundo.

20°) Falar pouco e certo é dizer muito em poucas palavras.

21 °) A vida é mudança; o dia de amanhã será diferente e marcará a vitória, se a diferença for para melhor.

22°) Não estacionar no Bem, nem progredir no Mal.

23°) Para as conquistas de ordem espiritual é bom que não haja nem entusiasmos nem desânimos.

24°) Nos caminhos de espiritualização o progresso se mede em milímetros.

Edgard Armond