7 - CRÍTICAS AO SISTEMA

Este sistema e os métodos adotados para a reforma íntima, têm dado resultados positivos e recebido aceitação geral; mas, como é natural, mereceu algumas criticas e aproveitamos esta oportunidade para comentá-las.

À caderneta individual: É um precioso recurso de autocontrole de dirigentes. Não se trata de processo confessional, incompatível com a liberdade que a Doutrina assegura a todos e apresenta inúmeras vantagens:

a) estimula o aprendiz e o acostuma a auto-exames periódicos para o desenvolvimento de capacidade e de responsabilidade pessoal;

b) ajuda a combater o orgulho e os preconceitos de inferioridade, que são sempre inibitórios;

c) alimenta a autoconfiança, pelo conhecimento de suas possibilidades e limitações.

d) ajuda a adquirir humildade, uma das maiores virtudes cristãs, capacidade de transigência, tolerância e subordinação;

e) representa para o aprendiz uma relíquia de valor estimativo, testemunha silenciosa dos esforços feitos, dos fracassos e dos êxitos; elemento de comparação nas mudanças que nele mesmo se operam; troféu de uma batalha que venceu contra si mesmo e contra as ilusórias atrações do mundo material; uma espécie de diário de atividades espirituais, sempre à mão, uma bússola que aponta e relembra compromissos de caminhos retos e conduta perfeita.

Doutra parte e do ponto de vista prático, é um simples elemento informativo a ser presente, periodicamente, aos dirigentes do curso, sobre as transições pessoais que levam ao êxito da reforma íntima, base fundamental das atividades escolares; teste valioso e conclusivo, posto face ao aprendiz, desde os primeiros dias da iniciação, para medir sua capacidade de compreensão e sujeição às regras e servidões que a reforma exige.

Jamais, porém, um forçamento, um atentado à vontade pessoal, porque nessa caderneta o aprendiz escreveu livremente o que deseja, o que julga útil ao seu próprio esforço de melhoria, não sendo, portanto, uma imposição que atente contra o livre-arbítrio, altamente respeitado em todos os casos e circunstâncias.

Ademais, quando o aprendiz se inscreve na Escola, sabe porque o faz; e o que deseja é justamente isso, a saber: transformar-se moralmente, evangelizar-se e receber o auxílio que se lhe dá para isso. E logo às primeiras aulas isso lhe é exposto com clareza, com a advertência de que se o que busca não é exatamente a evangelização, nas bases em que a Escola a oferece, melhor será não prosseguir, porque certamente não haverá êxito na frequência.

E aqueles que, mesmo assim, persistem e não se devotam, tornam-se em curto prazo desambientados e incompatíveis. E dessa forma opera-se um selecionamento dos elementos mais aproveitáveis e de maior interesse para a propagação da Doutrina; porque a finalidade da Escola, repetimos, não é transmitir conhecimentos acadêmicos, comuns, mas, exclusivamente, encaminhar o esforço de evangelização dos que a procuram.

Por outro lado, a Escola não mantém controle de conduta propriamente dita, mas de aproveitamento do esforço de renovação; e os ensinamentos dados, as regras e instruções fornecidas, os atendimentos prestados, o auxílio para ajudar o despertamento das consciências a respeito do que é justo ou injusto, certo ou errado, concordante ou não com os propósitos íntimos da renovação espiritual, devem bastar para orientar o livre-arbítrio individual assegurando, no futuro, uma conduta reta e perfeita, quanto seja possível.

Para a Escola de Aprendizes, no primeiro grau, podem entrar todos os que o desejarem, sem restrições, inclusive de crença; para o segundo, somente se podem transferir os aprovados no estágio anterior e que se disponham aos testemunhos de serviço aos semelhantes; mas, para a Fraternidade dos Discípulos, somente os que estejam capacitados à vivência evangélica, à exemplificação pessoal no mundo exterior, como norma definitiva de conduta, em todas as circunstâncias. Essas condições são fundamentais. Mas, perguntam: unicamente o título de discípulo pode assegurar essa vivência no futuro?

Resposta: Evidentemente que não. O que assegura a
conduta é a consciência evangélica que, a essa hora, deve estar formada na alma do servidor; sua fidelidade aos conhecimentos que recebeu e a nova mentalidade adquirida; só isso é que pode oferecer garantias; porque na vida espiritual, nada do que seja exterior pode influir ou modificar a conduta diretamente e somente seus reflexos e projeções alcançam a intimidade do Espírito na sua área de atividade psíquica.

Distintivos: Para os três estágios da iniciação foram criados, no início, distintivos especiais, considerando várias circunstâncias, como
sejam:

— o valor rememorativo dos esforços feitos
— seu sentido unitivo, de fraternização
— sua utilidade como sinal de identificação
— caracterizarem o sentido evangélico da iniciação
— seguirem a sistemática dos Planos Espirituais, onde os seres se agrupam em comunidades, por afinidades sintônicas e hierarquias assinaladas por símbolos expressivos.

Mas, além disto, essa Iniciação Espírita, ao ser lançada cm 1949, não foi bem compreendida por todos, na sua verdadeira e alta significação espiritual; como uma reprodução em nossos dias, de certa forma e em diminutas proporções, dos fatos do passado cristão; revivência dos mesmos ideais de devotamento aos semelhantes; a mesma disposição e coragem para sacrifícios e renúncias, nas tarefas que engrandeceram os antigos discípulos. Humilde na analogia lembra, contudo, o trabalho apostolar da propagação da Boa Nova; o anseio dos atuais servidores de se tornarem também dignos, entre os muitos chamados, do título discípulos, que aqui se emprega sem vaidade alguma ou presunção inaceitável, porque o discípulo verdadeiro é todo aquele que segue com fidelidade os ensinamentos de um mestre ou de uma escola.

Conquanto julgassem, alguns poucos, desnecessário o rigor da reforma, tomado por exagero doutrinário, e outros, mais modernos, por masoquismo, isso não importa, porque a verdade existe por si mesma independentemente de opiniões, e sua conquista não se faz com palavras ou simples boa vontade; exige muito mais, e muito mais ainda de valores internos, provindos do fundo da consciência individual, porque nesse esforço cada um por si mesmo se glorifica ou condena. Transcende a tudo o quanto se refere ao plano da vida material, e conquanto, também nesse plano, existam deveres a cumprir e tarefas a realizar, isso não substitui o esforço interno consciente, rigoroso e sacrificial da reforma íntima, que provoca mudanças profundas no campo da vida moral, porque isto é o mais importante.

A evangelização, diziam, é assunto pessoal, do foro íntimo de cada um, e deve ser realizada por cada um, segundo seus próprio pontos de vista e de compreensão; e os testemunhos não devem ser dados de forma assim tão obrigatória e imperiosa... Esse temor dos testemunhos objetivos e concretos é que, em parte, motivou as reservas feitas, desestimulando, por outro lado e consequentemente, trabalhadores potenciais, que se abstiveram ou se desviaram para outros rumos, não pela obrigatoriedade da reforma, mas pelo sugestionamento dos timoratos.

Pesou também nessa balança o espírito de comodismo, o personalismo, a tendência ao imobilismo, incompatíveis com as realizações evangélicas que a Doutrina exige, fatores esses que deram causa ao retardamento da propagação doutrinária por quase um século, sendo, entretanto, tão nova !...Mas a verdade é que se fôssemos esperar tais iniciativas ao sabor de cada qual, que se alinham a idéias sem grandeza, sem maior visão de futuro, os resultados seriam mínimos, como se têm revelado até hoje, em muitas outras religiões ou agrupamentos religiosos, inclusive no próprio Espiritismo que, um século até então decorrido após a Codificação, perdeu tempo precioso em teorizações e atividades não objetivas, limitando-se a práticas de hábitos, a estudos de gabinete, a atendimentos individuais, muito justos mas nem sempre capazes de criar raízes nas almas, nem lhe modificarem o destino, sobretudo agora nestes nossos tempos tumultuosos e libertários, que fluem com sistemática rebeldia, exigindo em todos os setores atitudes categóricas, igualitárias; nestes tempos, as doutrinas religiosas ou filosóficas, para terem êxito, devem sair a campo, colocarem-se à frente das necessidades populares, que por toda parte levantam cartazes agressivos, que definem suas aspirações irreprimíveis.

As atividades religiosas de ritmo lento ou contemplativo, contrastam com as necessidades de um mundo que caminha a grandes saltos e não mais se coadunam com contemporizações; exigem desassombro e coragem na oferta de soluções. Para sobreviverem, as doutrinas devem ter isso em conta, sob pena de ficarem extemporâneas, sacrificando, doutra parte, o próprio destino da humanidade que têm a missão de esclarecer e conduzir à redenção. Era, pois, preciso uma providência à altura para que não sucedesse que "as pedras falassem" em nosso lugar ou, se algum bem houvesse, fosse obtido "apesar de nós".

Em todo esse tempo não houve uma compreensão clara e justa da necessidade de preparação individual dos adeptos, nos termos em que o Divino Mestre exigia dos que o procuravam, a todos encarecendo a necessidade das testemunhações pessoais e da vivência dos ensinamentos, que, com tanto amor, transmitia ao mundo.

Pois foi dentro dessa compreensão, valendo-nos da flexibilidade da Doutrina, que se imaginou e foi efetivada essa Iniciação, com programas próprios, métodos adequados e originais que visavam, direta e objetivamente, auxiliar e orientar os adeptos na luta pela reforma moral, preparando-se para as tarefas espirituais, previstas no seio da comunidade nacional, com vistas a outros desdobramentos futuros.

Isso, aliás, como já dissemos, era o que na ocasião competia fazer, face às instruções do Plano Espiritual Superior, do qual a Federação era e deve continuar sendo um dos mais categorizados canais de expressão em nosso País e além dele...

Edgard Armond