9 - REGRAS DE CONDUTA

Após a primeira aula e já tendo tomado conhecimento do sistema adotado, do programa da Escola e das obrigações e deveres a cumprir, o aprendiz deve auscultar cuidadosamente seus sentimentos e suas idéias para saber se, realmente, deseja prosseguir nesse caminho difícil da auto-purificação; se possui o ideal de melhorar-se, preparando-se para os testemunhos que o discipulado exigirá futuramente.

Se a resposta for favorável, assumirá então, consigo mesmo e com Jesus, um amplo compromisso de trabalhos e devotamento presentes e futuros, anotando as seguintes regras de conduta:

- a) assiduidade rigorosa, aos trabalhos escolares;

- b) despreocupar-se de opiniões, atitudes e interferências de terceiros; de preconceitos religiosos e sociais, que interfiram para desviá-lo do intento visado;

- c) reagirá a cansaços, desânimos e dificuldades de qualquer espécie, pois sabe poder contar com o auxílio dos benfeitores espirituais;

- d) ter sempre à vista o quadro pré-organizado de defeitos e vícios, para regular sua repressão com prudência e equilíbrio;

- e) manter rigor progressivo nos esforços de melhoria, a começar no lar doméstico, onde agirá de forma compreensiva, tolerante, bondosa, controlando palavras, gestos e impulsos menos dignos, até que a conduta se torne espontânea e natural;

- f) fugir de atritos, discussões, comentários malévolos, disputas sobre o que for, cedendo sempre que possível a tudo o quanto não prejudique a terceiros ou ao seu trabalho;

- g) intervir como elemento conciliador sempre que necessário, evitando, porém, interferências não solicitadas ou impositivas;

- h) tratar a todos com bondade e paciência, invariavelmente;

- i) ser justo e enaltecer as virtudes, sem ferir aqueles que não a possuem;

- j ) fazer o bem sem ostentação, aconselhando, protegendo, ensinando, ajudando, mas sobretudo esclarecendo espiritualmente, pois que essa é a maior dádiva e a que tem realmente força para transformar moralmente os homens;

- k) ser sempre um exemplo vivo de boa conduta e sentimentos elevados, no lar e fora dele, para que possa merecer confiança e respeito;

- l ) evitar fazer proselitismo impertinente, forçando pessoas a aceitarem pontos de vista e conhecimentos que não estão em condições de compreender e assimilar;

- m) semear sempre a boa semente, sem preocupação de resultados imediatos;

- n) realizar esforços permanentes de melhoria, porque há sempre falhas a corrigir, coisas novas a conquistar, vivendo, como vivemos, em um mundo inferior;

- o) não se preocupar em demasia com acessos a cargos, posições ou bens materiais, porque o que cabe a cada um de nós a seu tempo nos virá às mãos, da parte do Doador Eterno;

- p) aperfeiçoar e desenvolver em si mesmo capacidades intrínsecas e energias potenciais, visando tarefas e responsabilidades futuras;

- q) ter presente que a evangelização é um estado íntimo do Espírito e não uma mera suposição de ser o que realmente não é, ou manter aparência ilusória de situação interna que não existe;

- r) ser verdadeiro em tudo e buscar perfeição espiritual com todo afã, enquanto viver;

- s) compreender que nada vem do exterior que possa substituir o esforço próprio, vindo do mais íntimo da alma e da consciência despertada pelo anseio de purificação;

- t) considerar que o passado de erros e acertos fez o presente, um estado já mais avançado, donde pode, como aprendiz, lançar-se agora, sob o escudo do Evangelho, a mais altas esferas de atividade espiritual; que as raízes do passado são irremovíveis, a não ser pelos resgates de sofrimento e pelos trabalhos em benefício dos semelhantes, que a evangelização favorece;

u) que, como homem do mundo, não tinha rumo ou ideal definitivo como tem agora, como simples aprendiz, e de forma definitiva e segura.

Os aprendizes que, nesta encarnação, conseguem realizar-se dessa forma, são os que já se sobrepõem às influências da animalidade inferior, já se saturaram de valores negativos e aspiram situações melhores; sentem fome de espiritualidade e aspiram lançar-se nos caminhos difíceis de ascensão, sem medir sacrifícios.

Apesar de vinculados estreitamente ao mundo material, pela mente e pelos sentidos físicos, todavia a ele passarão a não mais pertencer se tiverem êxito; conquanto dependam ainda desse mundo material para a realização das provas e experiências necessárias à evolução neste atual estágio, todavia, como Espíritos, seu habitat não é este.

Em consequência, devem lutar para impedir que a matéria física os absorva e desoriente, dominando-os com inferioridades, fechando com ilusões e enganos as rotas da ascensão; devem lutar para que predominem sobre a matéria os valores morais, os conceitos mentais, os sentimentos altos de Espíritos mais evoluídos. Tomem as rédeas de direção desse mundo interno para poderem mantê-lo equilibrado face às reações que nele se refletem vindas do mundo exterior; porque esse mundo íntimo é o verdadeiro e nele é que se equacionam os fatores que influem na evolução, esteja o Espírito encarnado ou não.

Se vencerem este passo de agora estarão preparados para quaisquer outros, porque aguçaram a vontade, provaram os valores morais, os sentimentos, e fortaleceram um ideal de superior significação e amplas perspectivas para o futuro, após a morte física; e adquiriram capacidade para tornarem suas vidas úteis desde já à comunidade humana, o que é um alto testemunho da universalidade de sentimentos que caracteriza o verdadeiro cristão.

Essa Escola prepara os aprendizes para que assim seja e assim, realmente, tem sido, desde sua criação, há trinta anos (NOTA: Embora o pedido de abertura desta escola tenha sido feita pela Alta Espiritualidade em 1949, devido a preparação e adequação (lugar, sala, professores, conteúdo, material em geral, etc...), a Escola de Aprendizes do Evangelho foi inaugurada em 06/05/1951), e em crescente proporção; e hoje eles são os esteios mais firmes e valiosos da estabilidade e das atividades funcionais desta Casa de Ismael e de Jesus, na ampla área que lhe compete para a propagação da Doutrina dos Espíritos em nosso País.

Por outro lado, organismos desse tipo (pois que surgirão outros) serão uma colaboração preciosa, concreta e oportuna, do Espiritismo para a redenção da humanidade terrena. Essa é a tarefa que cabia às religiões de filiação cristã e que não foi efetivada por motivos óbvios. Se o tivesse sido — e para isso houve tempo de sobra — o cristianismo autêntico dominaria no mundo e este seria então muito diferente do que é na atualidade.

E se o Espiritismo também não fizer, com os homens de hoje — o que está aliás de certa forma ressalvado na conhecida frase: "com os homens, sem os homens ou apesar dos homens" — dele se poderá dizer a mesma coisa futuramente. Esta é, pois, a responsabilidade individual dos espíritas verdadeiros: cuidarem de si, prepararem-se, evangelizando-se para que a Doutrina tenha êxito na missão transcendente, em razão da qual foi outorgada ao mundo de nossos dias pelo Divino Redentor.

Durante o aprendizado, na luta contra as inferioridades, o aprendiz verificará, surpreso, o quanto vem sendo facilitado seu esforço e satisfatórios, além do imaginado, os resultados alcançados. Isso se deve, duma parte, ao fato de desconhecer suas próprias forças e, doutra, o ser grandemente auxiliado pelos benfeitores espirituais, que estimulam e ajudam o esforço meritório, estendendo esse auxílio aos familiares que dele dependem; e ainda, por ser esse esforço concordante com as leis divinas da evolução.

Via de regra, as tentativas de auto-purificação são precárias e improfícuas, porque o desejo de realizá-las é simplesmente teórico e, consequentemente, superficial a decisão tomada a respeito, frouxa a vontade na execução e ausente a indispensável sinceridade. Por exemplo: cumprindo as regras da Escola, o aprendiz, logo no primeiro semestre, deixa de fumar, mas, no fundo, gosta do vício e reluta em levar o esforço até o final. Por outro lado, o organismo, intoxicado pelo alcalóide, reage, exigindo a dose habitual. Isso leva o aprendiz a voltar atrás, fracassando na tentativa que, nesse caso, deve recomeçar, mas se o fracasso repetir-se, então somente um acontecimento que cale fundo no corpo ou no Espírito (uma interferência espiritual, um revés grave, uma doença, por exemplo) terá a virtude de recolocá-lo no caminho abandonado.

Na realidade o aprendiz, no seu íntimo, preferiu o prazer físico ao aperfeiçoamento moral; mas quando a decisão de início é firme e categórica, amparada por uma vontade forte ou uma necessidade imperiosa, a tentativa surte efeito rápido, os defeitos transformam-se em virtudes e os obstáculos se removem com notável facilidade.

A partir do dia em que comparecem à primeira aula, os aprendizes verificam também, e duma forma geral, que novos horizontes se lhes vão abrindo à frente; profundas modificações se vão processando no seu psiquismo e na saúde física; novos alentos e esperanças vão surgindo e energias desconhecidas penetram-lhes nas almas, impulsionando-os ao prosseguimento e à distensão dos esforços iniciados.

Verificam também que os sentimentos se vão modificando para melhor, em todos os sentidos; surgindo uma maior capacidade de compreender e de agir, de perdoar agravos, inclusive em relação a desafetos; de encarar e sofrer suas provações corajosamente. Percebem como aceitam com mais facilidade e suportam com mais conformação os acontecimentos menos felizes, como moléstias, contratempos domésticos, perdas de dinheiro e outros, nos quais tinham a alma presa; mais facilmente se desprendem do mundo material, dando mais valor aos bens do espírito; desaparece o temor do desconhecido, das moléstias e da morte; cessam as dúvidas de caráter religioso em relação ao presente e ao futuro e aos poucos se vão sobrepondo às contingências e dominações da vida material, integrando-se melhor nas coisas que não têm consistência aparente, por já saberem que as realidades verdadeiras estão por detrás delas, em um mundo de harmonia e de paz, que é agora o alvo de seus mais caros anelos.

Tornam-se enfim homens novos, aos quais Jesus se referia e cujas esperanças, segurança e estabilidade, não podem ser oferecidas pelo mundo material, perecível e enganoso. Muitos desses estados de alma habitualmente se dão com aqueles que se iniciam no Espiritismo, porém como aprendizes penetram muito mais fundo, ampla e diretamente, nesse mundo psíquico, por se terem decidido corajosamente pela evangelização, que é o ponto alto da evolução espiritual.

E, ao chegar ao fim do caminho, ao termo desta atual encarnação bem aproveitada, após tantas lutas, é natural que, assim transformados, muito mais fortes, decididos, confiantes nas próprias forças e na assistência poderosa que lhes vem dos planos invisíveis, terão conseguido, enfim, libertar-se dos mundos probatórios, onde dominam os valores negativos da animalidade inferior que por tantos séculos os dominaram, mas que agora, se os resgates do passado foram feitos, se encontrarão vencidos e relegados ao esquecimento, substituídos pelas luzes do saber e pela glória de serem discípulos.

Edgard Armond