A BIBLIA

Na primavera de 2011 começamos a trabalhar em uma minissérie de TV chamada A Bíblia. Ela começaria com o Livro do Gênesis e terminaria com o Apocalipse. Como você pode imaginar, logo de cara nos vimos diante de um imenso desafio: como contar essa história? Mais especificamente: como transformar uma narrativa sagrada que engloba milhares de anos e conta centenas de dramas individuais em um programa de apenas dez horas de duração?

Tínhamos duas opções: ou selecionavamos dezenas de pequenos resumos e contávamos várias histórias curtas, ou escolhíamos um número menor de personagens e criávamos um roteiro cuja intensidade emocional fosse mais profunda.

Estava claro que a segunda opção era a melhor.

Então nossa equipe de roteiristas começou a escrever a série, sob a orientação de vários teólogos, consultores e especialistas na Bíblia. Todo esse conhecimento trouxe à tona um conjunto muito rico de imagens espirituais e históricas. Para nossa grande alegria, quando mostramos o trabalho para outras pessoas em busca de feedback, a reação foi sempre a mesma: “Eu nunca tinha conseguido imaginar as histórias bíblicas com tanta clareza”, “Preciso reler a Bíblia” e “Vocês deviam publicar esse roteiro”.

A princípio ficamos relutantes, mas começamos a fazer pesquisas e descobrimos alguns fatos impressionantes: metade dos americanos não sabe quais são os primeiros cinco livros da Bíblia; 12% dos cristãos dos Estados Unidos acreditam que Joana dArc foi esposa de Noé e muitos creem que Sodoma e Gomorra foram marido e mulher. Se nosso roteiro fez com que várias pessoas tivessem vontade de reler a Bíblia e lhes deu uma visão mais clara dessas histórias, então, se o transformássemos num romance, poderiamos incentivar ainda mais gente a se interessar pelo livro sagrado.

Assim, começamos a escrever A Bíblia: a história de Deus e de todos nós. Não nos sentimos preparados para ensinar a Bíblia, e não somos teólogos. Somos roteiristas de televisão. Seria fácil as pessoas dizerem que nós “picotamos as histórias” e que incluímos “imprecisões teológicas” no texto. Mas queremos deixar uma coisa bem clara: não pretendemos recontar a Bíblia. Essa história já foi contada da forma mais rica e complexa possível, por meio das palavras de Deus e dos profetas, discípulos e apóstolos que Ele escolheu. O que fizemos foi romancear alguns desses belos relatos com base no roteiro que escrevemos para a minissérie.

Temos muito a agradecer ao nosso pequeno exército de roteiristas, nossa
excelente equipe de produção e todos os nossos consultores e especialistas na Bíblia. Também gostaríamos de agradecer a você por ter este livro em mãos. Esperamos que tanto ele quanto a minissérie inspirem muitas pessoas a lerem e relerem a maior e mais bela história de todos os tempos.

Roma Downey e Mark Burnett Califórnia, 2013

Até agora, nada existe. Não há Universo. Não há vida. Não há luz. Não há escuridão.

Não há respiração. Não há esperança, medos, sonhos, culpa.

Não há pecado.

Nada.

Deus é tudo o que há. E Deus é amor.

Então, de repente, Deus se torna o Criador.

- Haja luz! - retumba Sua voz por sobre o grande vazio.

Um lampejo de claridade infinita extingue o nada, criando os céus. E com essa

luz vem o vento, uma rajada brusca que percorre todo o recém-criado Universo. Então a água, disforme e aparentemente sem fim, alaga tudo.

Em seguida, Deus divide as águas, criando os mares, o céu e a terra.

Ele decreta que plantas, sementes e árvores se espalhem pelo solo e que haja

estações. E estrelas no céu. E criaturas pela terra e pelos mares.

Por fim, Deus cria o homem à Sua imagem e semelhança. Em seguida, cria a mulher, pois o homem não deve estar sozinho. Seus nomes são Adão e Eva, e eles vivem em um paraíso chamado Éden.

Tudo isso leva seis dias no tempo de Deus.

No sétimo dia, Ele descansa.
Mas a criação perfeita de Deus se corrompe, arruinada pelos homens e mulheres que dão as costas para o seu Criador. Primeiro Eva, seguida por Adão, Caim e assim por diante. Geração após geração, a devoção a Deus praticamente desaparece. O mal domina o coração dos homens e das mulheres. Isso não agrada ao Criador, que ama a Terra e seu povo e quer apenas o melhor para eles.

Então Deus começa tudo de novo. Ele destrói a humanidade para poder salvá-la.

É por isso que uma grande arca de madeira está sendo jogada de um lado para outro no mar tempestuoso. É noite. O vento uivante e a chuva torrencial que cai dos céus ameaçam afundar a embarcação. Dentro da arca, o caos é total. Uma lamparina balança no teto e ilumina uma gaiola que abriga dois papagaios de plumagem colorida. Um velho chamado Noé luta para se manter sentado em um banco preso em uma das paredes. Sua esposa está sentada perto dele. Do outro lado da cabine, os três filhos de Noé, apavorados, abraçam firmemente suas mulheres enquanto a grande embarcação oscila na escuridão da noite. Esses momentos de terror são uma experiência cotidiana para todos nessa família, mas ninguém consegue se habituar a eles.

De repente, Noé é atirado ao chão. Ele não é um marinheiro e foi com relutância que aceitou fazer essa viagem. Consegue ouvir, vindos do porão de carga, os mugidos dos bois, o relinchar dos cavalos, os balidos dos carneiros e os gritos de agonia de um sem-número de outros animais. Há exatamente dois de cada espécie. Por mais que Noé limpe os estábulos todos os dias, o porão da arca é uma imundície só, sem nenhuma ventilação. Apenas uma pequena fileira de janelas no convés superior libera o fedor dos grãos putrefatos e dos dejetos de animais, que se mistura à umidade da embarcação e gera um caldeirão de odores repugnantes. Esses cheiros sobem pelos pavimentos da arca e penetram pelas cabines bolorentas e claustrofóbicas. Não só impregnam o ar que Noé e sua família respiram, como também o tecido de suas túnicas, os poros de suas peles e os poucos alimentos que comem. Se o dilúvio passasse, Noé poderia abrir uma escotilha e deixar entrar uma brisa fresca. Mas parece que a tempestade nunca vai acabar.

Um gêiser de água jorra de um novo vazamento no casco. As mulheres gritam. Com esforço, Noé se levanta e tampa o buraco. Do lado de fora, uma baleia-azul salta de dentro dãgua. É um animal gigantesco, mas parece diminuto perto da arca de Noé.

Noé é um líder firme, um marido amoroso e um bom pai. Acalma a família aterrorizada contando a história da criação. Uma história que ele conhece muito bem.

- No terceiro dia - fala Noé com a voz tranquila -, Deus criou a terra, com árvores, plantas...

- Algum dia nós vamos voltar a ver terra firme? - pergunta a esposa de Sem, um dos seus filhos.

Noé a ignora.

- ... com árvores, plantas e frutas. Então...

- Vamos ou não? - insiste a mulher. Ela é linda, seu olhar inocente torna o medo em seu rosto ainda mais perturbador. - Nós vamos voltar a ver terra firme?

A fé de Noé está no limite. Mesmo assim, ele assume uma expressão de bravura.

- É claro que sim. - E continua sua narrativa, mas apenas porque ouvi-la lhes traz consolo. - E no quinto dia... criou todas as criaturas do mar... - Ele dá uma risadinha ao ouvir os gritos dos dois macacos. A gaiola deles fica ao lado da dos papagaios. Aqueles animais podem ser tudo, menos criaturas do mar! -E as criaturas do ar - acrescenta Noé, pensando nas pombas e nos falcões que vivem lado a lado a contragosto. - Por fim, no sexto dia, Ele fez todas as criaturas da terra, inclusive nós! E recebemos de Deus o paraíso. Incrível, não? O paraíso. Mas então... - Noé faz uma pausa para se recompor. A ideia do que está prestes a dizer é desconcertante. A humanidade já tivera tudo em suas mãos.

Tudo. Mas então...

- Mas então Adão e Eva colocaram tudo a perder. Eles comeram o fruto da única árvore no paraíso que lhes era proibida. Esta foi a única coisa que Deus lhes pediu. Nada mais. Não comam o fruto desta árvore. Nada poderia ser mais simples.

O monólogo de Noé está começando a ganhar ritmo, enquanto o dilúvio fica mais violento lá fora. Um trovão rimbomba bem alto, como se uma explosão tivesse aberto uma cratera na arca.

- Escolhas erradas - diz ele com amargura. - Decisões erradas. Esta é a fonte de todo o mal: desobedecer a Deus. É por isso que com um simples gesto de insubordinação Adão e Eva fizeram com que o mal entrasse no mundo. É por isso que estamos nesta arca. Porque o mal que Adão e Eva trouxeram se espalhou pela Terra, e Deus a está purificando para que a humanidade possa ter um novo começo.

Ele corre os olhos pela pequena cabine, fitando as poucas pessoas ali. Sua história afastou a mente delas do dilúvio, e perceber isso o incentiva a prosseguir.

- Foi por isso que Deus me falou: “Construa uma arca.” - Noé se interrompe,
lembrando-se de como o momento tinha sido engraçado. - Eu perguntei: “O que é uma arca?” Deus me respondeu: “É o mesmo que um navio.” Então eu disse: “O que é um navio?”

Todos riem. Eles tinham passado a vida inteira no deserto, onde não havia muita água, muito menos uma embarcação especial que flutuasse nela.

Deus descreveu a arca para Noé. Ela seria projetada e construída de acordo com as especificações ditadas por Ele. A enorme embarcação abrigaria um casal de cada espécie animal existente. Assim que estivesse pronta, Deus lançaria sobre o mundo uma tempestade colossal, que inundaria todas as terras e exterminaria toda a Sua criação. Somente as pessoas e animais a bordo da arca de Noé sobreviveríam.

Noé então a construiu, embora seus amigos houvessem zombado dele e sua própria mulher o tivesse considerado um tolo. Ora, ele estava a quilômetros do mar mais próximo, sem a menor possibilidade de zarpar naquele barco. Mesmo assim, continuou a construir a arca, prego por prego, tábua por tábua, erguendo cercados para abrigar os tigres, elefantes, leões e rinocerontes. Sua imensa embarcação se agigantava sobre o solo do deserto e podia ser vista a quilômetros de distância. Ele e sua arca se tornaram uma grande piada que se espalhou aos quatro ventos, e muitos vieram de longe só para vê-la - mesmo que fosse apenas para balançar a cabeça e rir da loucura de Noé.

Então a primeira gota de chuva caiu. Não foi uma gota qualquer, pois ela atingiu a terra com um estrondo que parecia prenunciar o juízo final. O céu, antes de um azul límpido, primeiro ficou cinzento e depois tornou-se negro. “Entre na arca”, ordenou Deus. Noé obedeceu e trouxe sua família a bordo consigo.
- Ele não precisou falar duas vezes - conta Noé à sua platéia entretida dentro da pequena cabine.

Cada um dos presentes se recorda da correría para entrar na embarcação, lembrando também a visão arrasadora de amigos e vizinhos que imploravam por uma vaga na “loucura de Noé”. Mas não havia espaço.
Uma chuva incessante se abateu. As águas subiram à medida que rios subterrâneos irrompiam do solo. Ondas gigantes se elevavam e engoliam a terra. Inundações varriam casas, mercados e vilarejos inteiros do mapa. As pessoas morriam aos milhares. Os mais sortudos eram os que não sabiam nadar e se afogavam de imediato. Os que tentavam se manter à tona tinham tempo de refletir sobre seu destino e o de seus entes queridos antes de serem tragados pelas águas.

Quando a terra aos poucos começou a desaparecer e foi sendo substituída pela água a perder de vista, Noé fechou a escotilha e derrubou as vigas que sustentavam a arca. Logo o mar ergueu sua gigantesca embarcação (que, para seu alívio, flutuou muito bem) e eles saíram oscilando - para onde, só Deus sabia. Mas uma coisa era certa: Deus os salvaria da aniquilação, por pior que fosse o dilúvio e por mais altas que ficassem as águas.

A narrativa de Noé surte o efeito desejado e deixa todos mais tranquilos dentro da pequena cabine. Noé vai sozinho até o convés, e, pela primeira vez no que parece terem sido meses, os mares estão calmos. Ele sabe que as águas logo começarão a baixar.
Graças a Noé e sua arca, o mundo renasce. Deus o considera um homem justo e, por causa dele, a humanidade tem a chance de recomeçar do zero. Através dele, a fé nascerá. Através dele, Deus continuará a abraçar o mundo e executará Seu plano para o homem - um plano traçado antes mesmo de a Terra ser criada.

Porém, antes de abraçar o mundo, Deus se concentrará numa só nação de pessoas que O temem, honram e adoram. Nessa nação viverá um homem justo e fiel como Noé. Seu nome será Abraão. Mas isso ainda está por vir.

Agora, Noé se delicia com o calor do sol em seu rosto. A arca oscila em direção à terra firme, e ele consegue sentir que as águas do dilúvio estão baixando. Assim, quando ouve a voz de Deus em alto e bom som, ele sabe que sua jornada chegou ao fim.

- Saia da arca - ordena Deus.

A grande porta lateral da embarcação é baixada. Os animais correm em debandada rumo à terra seca e se espalham rapidamente.

Para salvar o mundo, Deus quase o destruiu. Noé foi escolhido para dar prosseguimento aos planos Dele para a humanidade. Mas a humanidade é volúvel e destinada a repetir os mesmos erros, virando as costas para Deus e para Seu amor sem limites.

Mas Ele agirá novamente para salvar o mundo. De uma vez por todas. Da próxima vez, no entanto, não precisará de Noé.

Da próxima vez, irá enviar Seu único filho.

Esta é a história de Deus e de todos nós.

PARTE UM

UM HOMEM CHAMADO ABRAÃO

Milhares de anos atrás, na cidade de Ur, onde hoje em dia fica o Iraque, passa-se a história de um homem chamado Abrão. Ele é descendente direto de Noé, oito gerações depois, através da linhagem de Sem. Abrão é um vigoroso senhor de 75 anos, espadaúdo e com uma longa barba grisalha. Sua esposa Sarai é famosa por sua grande beleza, embora tenha mais ou menos a mesma idade de Abrão. A única tristeza de Abrão é o fato de Sarai ser incapaz de gerar filhos, mas ele jamais deixa essa frustração transparecer. O sorriso nunca abandona seu rosto, e ele sempre traz as palavras “Que a paz esteja consigo” nos lábios.

Abrão entra no grande templo de Ur e é recebido calorosamente por seus amigos. Ur é uma cidade de muitos deuses, e as paredes do templo estão cobertas de símbolos: uma coruja, uma lua crescente, uma cobra e o sorriso sereno de uma deusa. Ao redor de Abrão, adoradores rodopiam, consumidos pelo ritmo de uma procissão que entra pelas grandiosas portas. Uma estátua de madeira pintada com cores vivas é trazida sobre uma liteira e largada em um altar baixo, no qual um bode está amarrado. A multidão canta cada vez mais alto enquanto um sacerdote saca uma faca sacrificial. O barulho é ensurdecedor - berros, cânticos, aplausos clamorosos. O sacerdote segura a parte de trás da cabeça do bode e a puxa para cima, de modo a expor o pescoço do animal.

Normalmente, Abrão estaria concentrado no ritual, mas desta vez ouve uma voz que nunca tinha ouvido antes. Ela fala somente a Abrão, ninguém mais no templo consegue ouvi-la.

- Abrão. - É a voz de Deus. - Deixe seu país, seu povo e a casa de seu pai e vá para a terra que lhe mostrarei.

Abrão ergue os olhos para o céu, boquiaberto de espanto enquanto a voz inconfundível de Deus faz promessas espetaculares em troca daquela enorme exigência.

O sacerdote, que já havia cortado a garganta do bode, afunda a lâmina na barriga macia do animal para revelar seu fígado. Abrão não vê nada disso.

- Farei de você uma grande nação e o abençoarei. Seu nome será conhecido por todos. Abençoarei aqueles que o abençoarem e amaldiçoarei todos os que o amaldiçoarem. E todos os povos da Terra serão abençoados através de você.

Um homem de menor envergadura teria ficado desconfiado. Ou talvez sentisse medo. Mas Abrão dá ouvidos ao chamado de Deus, motivo pelo qual Ele o escolheu para a tarefa que tem em mente, assim como havia escolhido Noé. Abrão fica parado no templo em polvorosa, onde o sacerdote ergue no ar o fígado do bode. Não há uma única gota de dúvida em suas veias.

- Sim - sussurra Abrão para Deus, sua voz transbordando de entusiasmo. - Sim.

Uma coisa é Deus instruir um homem a deixar para trás sua pátria, seus amigos e a linhagem que compõe sua família por gerações a fio; outra completamente diferente é um homem dar esta notícia para sua mulher. Abrão volta correndo para casa, ansioso por contar o ocorrido a Sarai. Quando chega ao seu quintal, vê seu adorado sobrinho Ló.

Abrão espalma a mão em seu ombro em um gesto amigável e se encaminha a passos rápidos para a porta de entrada.

A mulher de Ló também está por ali, varrendo o quintal, quando Abrão passa depressa por ela. Ela e o marido trocam olhares intrigados: percebem na mesma hora que há algo diferente em Abrão. Algo muito diferente. Os dois encolhem os ombros.

Ao entrar em casa, Abrão chama a esposa:

- Sarai. - Então, grita: - Sarai!

Ele encontra sua mulher nos fundos, ajoelhada diante de uma estatueta de argila.

- Uma estatueta de fertilidade? - A voz de Abrão soa terna e reconfortante. - Precisamos mesmo delas? De que nos serviram? Elas nos trouxeram filhos, por acaso?

Sarai chora, pensando ouvir decepção na voz do marido.

- Abrão, fracassei como sua esposa. É por minha culpa que não fomos abençoados.

Abrão se lembra da boa notícia que tem para contar e toma sua mulher nos braços.

- Sarai, nós fomos abençoados. Hoje Deus falou comigo.

- Que Deus?

- O único.

Sarai recua, confusa. O mundo deles possui muitos deuses e ídolos diferentes, cada qual destinado a suprir uma necessidade específica. Depositar sua fé em um só deus é uma atitude extremamente arriscada.

- É verdade - assegura Abrão. - Ele me escolheu. Escolheu a nós.

- Para quê? Não entendo.

- Ele quer que saiamos daqui.

- Sair daqui? Mas é aqui que está toda a nossa vida.

- Isso mesmo, Sarai. Vamos partir desta cidade rumo a uma nova terra. E teremos filhos lá. Disso eu tenho certeza. Deus me prometeu.

Sarai quer acreditar em Abrão. Ela quer desesperadamente ter uma criança, e faria qualquer coisa para dar um filho homem ao seu marido. Mas a ideia de abandonar seu lar e partir lhe parece quase insuportável. Ela olha firme para Abrão, dividida entre o amor que sente por ele e o medo do que pode acontecer se deixarem a segurança de Ur.

Abrão compreende. Ele é um homem compassivo que ama sua esposa mais do que a si mesmo. Mas sabe que deve fazer a vontade de Deus.

- Acredite em mim, Sarai. Acredite. Ele falou comigo. Ele me prometeu. E Deus sempre mantém Suas promessas. Precisamos ter fé e crer que Ele nos conduzirá a uma terra de maravilhas.

Sarai sempre acreditara que havia algo de extraordinário em seu marido. Ele não é homem de fazer afirmações delirantes. Embora ele esteja pedindo algo inimaginável, ela sabe que deve confiar nele.

Sarai aperta a mão de Abrão e sorri.

- Conduza-nos até lá.
Abrão parte com Sarai, seu sobrinho Ló e a esposa, e mais um pequeno exército de agregados composto de amigos e servos da família. Entre eles está a jovem serva de Sarai, uma egípcia chamada Hagar. Eles viajam na direção noroeste, seguindo as estradas milenares da região atualmente conhecida como o Crescente Fértil, confiando que Deus os conduzirá à terra que havia prometido a Abrão. A viagem os leva até uma cidade chamada Harã e, por fim, até um local de fartura, repleto de água e árvores e que oferece um oásis verde em meio ao deserto árido. Mas essa terra não é suficiente para todo o grupo de Abrão e seus animais. Além disso, sementes de discórdia são plantadas pela esposa de Ló, uma mulher invejosa e mesquinha que desafia a autoridade de Abrão por este tê-la obrigado a abandonar sua terra natal. Logo eles chegam a um impasse, com Abrão e seus seguidores de um lado e os seguidores de seu adorado sobrinho Ló de outro.

A situação finalmente sai do controle quando dois pastores começam a brigar. Um acredita que o outro está invadindo seu pasto e vice-versa. Eles rolam no chão, trocando socos e se engalfinhando. Ló é quem os vê primeiro. Ele corre em direção à briga, sua mulher acompanhando-o a poucos passos de distância.

- Lemuel! - grita Ló ao seu pastor. - Pare! Agora!

Com relutância, Lemuel larga Amasa, um dos pastores de Abrão. Amasa ainda consegue dar um último soco e se esquiva antes que Lemuel possa revidar. Os dois homens estão ofegantes, suas túnicas estão cobertas de poeira e seus rostos, arranhados e sangrando.

Abrão ouviu a confusão e se aproxima do local.

- O que está havendo aqui? - pergunta.

- O seu pastor está roubando o nosso pasto - sibila a mulher de Ló.

- Precisamos de pasto para alimentar nossas famílias - insiste Amasa.

- Nós também - retruca Lemuel, de punhos cerrados, pronto para voltar a brigar.
- Esta terra é de todos nós - diz Abrão calmamente para os homens. - Ela nos foi dada por Deus para que a dividíssemos.

A esposa de Ló está furiosa. Ela fuzila Abrão com o olhar.

- Então Ele deveria nos ter dado uma terra maior - reclama ela. Um silêncio de espanto recai sobre o grupo. A esposa de Ló estava zombando não apenas de Abrão, mas também de Deus. Ela deveria se desculpar com Abrão e pedir perdão a Deus. Mas ela ainda não terminou. - Isso não pode continuar assim - diz para Abrão antes de lançar um olhar duro para o marido. - Diga a ele o que nós decidimos.

Ló parece desconfortável. Ele ama Abrão como um pai e não consegue suportar a ideia de desapontá-lo. Hesitante, engole em seco antes de dizer o que precisa.

- Abrão - balbucia. - Somos muitos. E simplesmente não há terra o bastante.

- Mas o Senhor proverá - responde Abrão, esforçando-se ao máximo para soar otimista. - Tenha fé!

- Em um Deus que não podemos ver? - ironiza a esposa de Ló.

Abrão finge não ter ouvido essas palavras. Ele olha bem no fundo dos olhos do sobrinho, que se recusa a retribuir o olhar.

- Está na hora de cada um seguir o seu caminho - diz Ló.

Abrão fica horrorizado.

- Não! Devemos ficar juntos.

Ló está prestes a falar, mas sua mulher o interrompe.

- Para morrermos de fome, velho? Para vermos nossos pastores matarem uns aos outros por uma folha de relva?

Desta vez, Abrão dá atenção à esposa de Ló, mas apenas para lhe lançar um olhar duro feito pedra. Por mais amoroso que Abrão seja, e apesar de sua reputação de ser gentil, ele também é um homem rigoroso. A mulher se encolhe sob o olhar dele e sua língua mordaz se cala na mesma hora.

- Tio - diz Ló, relutante. - Nós vamos embora. Não temos escolha.

- Mas para onde vão? - pergunta Abrão em tom de súplica.

- Para onde os pastos são mais verdes, perto de Sodoma.

- Ló, Sodoma é uma cidade cruel e perversa. As pessoas de lá deram as costas para Deus.

- Mas pelo menos não estão passando fome - rosna a esposa de Ló.
Abrão está sozinho no topo de uma colina a partir da qual consegue enxergar por quilômetros de distância em todas as direções. Ele está construindo um altar para louvar a Deus. Pedra por pedra, ele se põe a erguê-lo, mergulhado na meditação silenciosa do trabalho. Pode ver as tendas de seu povo no vale quase vazio mais abaixo, os rebanhos se recolhendo para a noite, os grandes bosques. Também vê Ló e sua tribo ao longe, seguindo seu caminho rumo ao leste, na direção de Sodoma. É um momento triste. A luz vermelha do crepúsculo banha toda a vasta região. Abrão suspira. Ele ama aquela terra que Deus lhe deu e se delicia com suas muitas belezas. Deus tornou a falar com ele depois que Ló foi embora, e Abrão O ouviu como um servo obediente.

- Erga seus olhos de onde está e lance seu olhar para norte, sul, leste e oeste. Toda a terra que vê, Eu a darei a você e aos seus descendentes para todo o sempre.

Abrão fez conforme Deus mandou, e construir o altar para oferecer um sacrifício é uma maneira de agradecer-Lhe. Mas seu coração continua em grande conflito. Ele se sente profundamente perturbado pela partida de Ló e pelo fato de Sarai ter voltado a adorar ídolos de fertilidade. Dúvidas sobre sua capacidade de liderança o atormentam todos os dias.

Para Abrão, ser escolhido por Deus tinha parecido uma bênção. Mas agora ele sabe que também significa uma luta. Abrão coloca uma última pedra ao pé do altar e então se ajoelha para orar. Semanas se passam e Abrão continua a sentir a falta do sobrinho. Um dia, enquanto ora, ele baixa os olhos para o vale e fica surpreso ao ver uma figura solitária caminhando em sua direção. Parece Lemuel, o pastor de Ló. Embora ainda esteja muito longe, Abrão consegue ver que ele está mancando e puxando um dos lados do corpo.

Abrão desce correndo a colina e segue a passos rápidos até a figura que se aproxima. Lemuel arrasta os pés até ele, quase sem forças. Suas roupas estão em farrapos. Sangue seco cobre sua pele. Seu rosto está ferido e sujo. Quando vê Abrão, ele para e cambaleia, como se estivesse prestes a desmoronar.

- O que aconteceu? - pergunta Abrão, chocado.

- Não tivemos a menor chance. Havia muitos deles - geme Lemuel, caindo ao chão. - Fomos parar no meio de um conflito entre grupos rivais da região. Meu rebanho se perdeu. Até a última ovelha.

Abrão retira seu odre do pescoço e o entrega para o pastor, que bebe a água com avidez. Ele espera que Lemuel termine antes de fazer mais perguntas. Olha bem no fundo dos olhos do pastor, sem desviar o olhar nem por um instante.

Lemuel sabe no que Abrão está pensando e, ao entregar de volta o odre, sua voz fica embargada de agonia.

- Ló está vivo - diz ele. - Mas eles o capturaram.

Abrão fica horrorizado.

- Ele me ajudou a fugir - prossegue Lemuel - para que eu pudesse encontrá--lo e implorar por sua ajuda.

Hagar, no esplendor de sua juventude e vitalidade, chega com uma tigela dagua. Ela mergulha um pano na água e o torce, em seguida abrindo a túnica de Lemuel para limpar um ferimento em um dos lados de seu corpo. Mesmo se encolhendo de dor, ele não desvia o olhar de Abrão.
À noite, Abrão se reúne em sua tenda com Sarai e as famílias que o acompanharam em busca de um novo lar. O assunto é a guerra.

- Vamos lutar. Entre nós há muitos homens treinados em combate - diz Abrão para o grupo.

- Mas, meu amor - interrompe Sarai, ansiosa -, vocês não são soldados.

- Não importa. Eu fiz Ló vir conosco. Disse a ele para confiar em Deus.

- Mas Ló e sua esposa tiveram escolha. Foram eles que resolveram partir!

Abrão já estava decidido.

- Eles são parte da nossa família - diz ele para Sarai. - Precisamos ajudá-los.

A esposa de Amasa, o pastor briguento, balança a cabeça. Ela está prestes a

dizer para Abrão que resgatar Ló seria uma loucura. Mas, antes que pudesse se pronunciar, seu marido leva um dedo aos seus lábios. Ele então se levanta e se aproxima de Abrão, parando ao seu lado. Os outros homens fazem o mesmo.

- Nós voltaremos - promete Abrão a Sarai.

Ele corre os olhos pelos seus corajosos homens enquanto eles se preparam às pressas para a batalha e se despedem de suas famílias, sem saber se voltarão um dia. Sarai está aflita e abraça com força a cintura de Abrão, com os olhos marejados de lágrimas.

- Eu amo você - diz ela.

Abrão se afasta sem dizer nada. Seu amor por Sarai já está mais do que claro. Ele é um homem firme e um bom marido. Abrão apanha sua espada, cuja lâmina afiada brilha à luz do fogo. Ergue a arma para examiná-la, em busca de pontos fracos. Não vendo qualquer imperfeição na lâmina, ele a enfia no cinto.

- Deus olhará por nós - diz Abrão, tranquilizando a esposa.

Suas palavras são poderosas, e a confiança em seus olhos faz o coração de Sarai se encher de orgulho, apesar do medo que sente. Ela pousa com carinho a mão no rosto do marido e o puxa para si. Beija-o com paixão, sabendo que talvez seja a última vez.

Abrão olha-a bem nos olhos, então se afasta e parte em direção à noite escura. Não há tempo a perder.
Abrão e seu exército improvisado avançam com cautela rumo ao acampamento inimigo. Se eles estivessem mesmo em guerra, haveria guardas a postos, e as fogueiras para preparar a comida já estariam apagadas há tempos. Mas aqueles soldados tinham acabado de derrotar seus oponentes - que fugiram para as colinas, alguns caindo nos poços de piche do vale de Sidim -, e o momento é de comemoração. Eles estão sentados em volta do fogo, rindo e bebendo. Os prisioneiros que decidiram não matar encontram-se sentados em um círculo no chão, as mãos atadas atrás das costas. A esposa de Ló está sendo cutucada com uma lança pelo guarda que a vigia. Ela grita de dor, o que faz com que os soldados a olhem com mais lascívia. Há muito tempo que estão longe de suas casas e de suas mulheres. Um deles, talvez vários, irá possuí-la esta noite. Amarrado e amordaçado, Ló é forçado a assistir àqueles homens devorarem sua esposa com os olhos e humilhá-la. Suas tentativas de protestar são inúteis e conseguem apenas divertir os guardas.

Abrão observa a cena de onde está, nos limites do acampamento. Sua família aumentou desde que ele seguiu as ordens de Deus e saiu em busca de uma nova terra. Seu exército é composto de 318 pastores. Não são guerreiros, mas sabem manejar facas e machados graças aos anos de experiência afugentando lobos de seus rebanhos.

Seus inimigos, no entanto, são centenas. São homens rudes, com cicatrizes pelo corpo e músculos conquistados em longos dias de campanha e incontáveis horas de combate cara a cara. São oponentes treinados e disciplinados, que acabaram de derrotar os reis de Sodoma e Gomorra e seus exércitos. Estão descansados e de barriga cheia. Atacá-los em seu próprio acampamento seria suicídio.

Mas Abrão sabe que seus homens têm duas coisas a seu favor: o fator surpresa e a profunda fé em Deus.

Enquanto seu exército se espalha ao redor do acampamento na calada da noite, Abrão ora. Pede a Deus que abençoe seus homens e que lhe dê força e confiança para liderá-los. Enquanto ora, consegue sentir o cheiro de cordeiro sendo grelhado na fogueira, o fedor de madeira queimando, o odor pungente de homens sujos e o aroma pesado e empoeirado da própria noite. Os cheiros tornam a batalha ainda mais premente. Uma voz baixa e discreta em sua cabeça o recorda de que existem momentos em que o melhor é virar as costas e ir embora. Ló e sua mulher fizeram uma má escolha ao abandonar Abrão. Ninguém o chamaria de covarde se ele decidisse voltar agora que suas chances estão claras. Ele termina sua oração, saca sua espada, ergue-a no ar e aponta-a para a frente: o sinal de que seus homens devem iniciar o ataque. Uma onda silenciosa de pastores-soldados invade o acampamento inimigo.

- Confiem em Deus! - vocifera Abrão. Seu exército avança. As fogueiras iluminam Abrão e seus homens. Abrão é o primeiro a verter sangue, afundando sua espada na barriga de um soldado inimigo. O soldado grita de agonia e, num piscar de olhos, todas as cabeças no acampamento se voltam na direção deles.

- Raaaaaghh! - grita Abrão, arrancando sua espada do corpo do homem morto e brandindo-a imediatamente contra outro soldado inimigo.

Outros imitam o grito de guerra. Uma espada corta o ar bem ao lado do rosto de Abrão, errando-o por centímetros. Sem perder tempo, ele crava sua própria espada no corpo do inimigo. O caos toma conta do acampamento à medida que os soldados correm para apanhar suas armas. Mas, em meio à confusão, eles não conseguem chegar às tendas: Abrão e seus homens os ceifam como trigo, cortando-os e esmurrando-os. Ele tinha razão sobre o ataque surpresa.

Atravessando uma pilha de cadáveres, Abrão encaminha-se até onde Ló está aprisionado.

- Deus está conosco! - sussurra no ouvido do sobrinho enquanto corta a corda que ata suas mãos.

A essa altura, a batalha está se tornando um massacre. Os inimigos fogem noite adentro. Os homens de Abrão os perseguem e os matam, pois sabem que, se não forem abatidos, os soldados irão voltar em algum momento para obter vingança.

A mulher de Ló chega ao lado do marido, puxa-o para perto e sussurra em seu ouvido, evitando o olhar de Abrão.

- Ló - exclama Abrão, extasiado. - Não está vendo? Tão poucos de nós contra tantos deles! Este é um triunfo do nosso poderoso Deus!

Mas agora é Ló quem não consegue olhar Abrão nos olhos.

- O que foi? - pergunta Abrão. Seu instinto lhe diz que está prestes a ouvir más notícias. Mas que má notícia poderia haver depois de tamanha vitória?

Ló hesita e então olha de relance para a esposa, que assente com a cabeça.

- Abrão... Tio... - balbucia Ló. Estas são as palavras mais difíceis que ele já teve de pronunciar na vida: - Nós vamos continuar seguindo nosso caminho.

Abrão olha primeiro para um e depois para o outro, confuso.

- Para onde? - pergunta.

- Sodoma.

- Sodoma? Não pode estar falando sério.

- Vamos voltar para a cidade. Viveremos melhor por lá.

O rosto de Abrão fica carregado. Essa não é uma expressão que Ló vê com frequência, e ele sabe que deve temê-la. Abrão faz um gesto amplo com o braço, indicando os corpos dos que morreram em combate. Conhece todos pelo nome. Conhece suas esposas e filhos e sabe que, ao voltar, terá que dar pessoalmente a eles a notícia de suas mortes. Eles lutaram com bravura. No entanto, a decisão de Ló faz com que tudo tenha sido em vão. Abrão sente uma tristeza profunda em seu coração.

- Ló, ouça bem minhas palavras: esses homens morreram para salvá-lo.

- Eu sei! E não tenho como retribuir o que eles fizeram por mim. Mas também perdi homens - justifica Ló.

- Se não fosse por eles, você estaria morto pela manhã - diz-lhe Abrão. - Sua mulher teria sido um troféu para algum soldado sujo... e para muitos de seus amigos. Não venha me falar sobre os homens que perdeu.
Tio, veja bem, o seu Deus não cumpriu Suas promessas. Não podemos comer fé. Tampouco podemos bebê-la. Ela também não vai nos dar o que vestir.

- Mas eu irei fazer tudo isso, Ló. E Deus está cumprindo Suas promessas. Não está vendo? Meu pequeno grupo de pastores mal treinados derrotou um poderoso exército. De que outra forma isso seria possível? Eu imploro: venha conosco!

- Por quê? - diz a esposa de Ló, dando um passo à frente com ousadia. - O que o seu Deus prometeu?

- Uma nação! Um futuro! Uma família! Um filho! - responde Abrão. Ele acredita em cada sílaba do que diz.

- A sua mulher nunca lhe dará um filho - zomba ela.

Essas palavras magoam Abrão, que, arrasado, cai em silêncio.

A esposa de Ló prossegue:

- E quanto a comida? Água? Abrigo?

Abrão a ignora. Ele está exausto. A batalha deixou seus nervos em frangalhos. E agora isto? Ele pousa a mão no ombro de Ló.

- Sobrinho. Desta vez devemos ficar juntos.

Ló tinha os olhos baixos, mas sua mente estava decidida. Ele pousa a sua mão na de Abrão e a remove do seu ombro com delicadeza.

- Não, tio. Nós precisamos ir.

Enquanto os corpos dos feridos são colocados em carroças para serem levados de volta para casa, a esposa de Ló tenta argumentar com Abrão.

- Venha conosco - oferece.

Abrão olha no fundo dos olhos dela pelo que parece ser uma eternidade. Então lhe dá as costas, enojado, e passa andando pelos seus homens.

- Vamos - ordena por sobre o ombro. Ele e seus soldados vão embora.

O ar está pesado. Ló, ao lado da esposa, fica parado em silêncio em meio aos inimigos abatidos, sabendo que Abrão jamais voltará a confiar nele.

Abrão não olha para trás. Em vez disso, concentra seus pensamentos nas viúvas que precisará consolar e nos amigos mortos que terá de enterrar. A parte mais difícil será encarar Sarai e lhe explicar como deixou Ló e sua mulher partirem para Sodoma depois do enorme preço que seus homens tiveram de pagar para resgatá-los. Ela sempre havia confiado em sua sabedoria, mas, desta vez, Abrão sabe que a decepcionou.
salvá-lo.

Deus havia prometido a Abrão uma terra repleta de leite e mel, assim como descendentes tão numerosos quanto as estrelas do firmamento. A fé de Abrão nunca se abala. Ele faz imediatamente tudo o que Deus ordena. Acredita Nele e em Suas promessas do fundo do coração. Porém, está frustrado com o “cronograma” de Deus. Sua barba já está quase toda grisalha. Quando Sarai lhe dará um filho homem? Ou mesmo uma filha? Apesar da idade, Sarai ainda conserva uma beleza incomparável - uma verdadeira princesa. As constantes tentativas de terem um filho fazem do estilo de vida nômade uma aventura ainda maior, mas a ideia de que Abrão será de fato o pai de muitas nações parece impossível.

Sozinho na noite fria do deserto, Abrão ergue os olhos para o céu. Uma fogueira arde até as últimas brasas. O vento chacoalha a tenda atrás dele, onde Sarai treme enquanto dorme. Ele pensa nos homens mortos em batalha durante o resgate de Ló e na inutilidade de suas mortes.

- Abrão - sussurra Sarai, ainda trêmula ao surgir de dentro da tenda. A luz do fogo ilumina seu rosto. Ela está envolvida em uma manta feita de um tecido grosso, que a protege do vento. Porém, mesmo coberta desse jeito, sua beleza deixa Abrão sem fôlego. - Entre - diz ela com carinho, segurando a aba da tenda aberta.

Abrão também está tremendo. Ele vê o interior da tenda, a cama deles, tão quente e segura. Mas, em vez de aceitar o convite, dá as costas para a esposa. Tornando a erguer os olhos para o céu, reflete sobre a enormidade do Universo acima de si, com seus milhões de estrelas, como se compreendesse pela primeira vez a imensidão da criação de Deus.

Então ele cai.

- Abrão! - grita Sarai, correndo até ele. Quando olha dentro dos seus olhos, vê apenas sua profunda crença nas promessas divinas.

- Todas essas estrelas... Conte-as! Conte-as! - exclama ele.

Sarai segura a cabeça de Abrão, temendo que seu amado marido esteja enlouquecendo. Ela acaricia sua barba tentando acalmá-lo.

- Nosso Criador, que fez as estrelas, nos dará essa quantidade imensa de descendentes! - diz ele com fé inabalável, lembrando a si mesmo e a Sarai do que Deus lhe prometera. A chama nos olhos de Abrão fica mais forte à medida que sua revelação se desdobra. - Para povoar a nossa terra! Para nós! E para nossos filhos!

Agora é a vez de Sarai parecer abatida.

- Há quanto tempo oramos por filhos?

Ele não responde.

Ela olha bem fundo nos olhos de Abrão e diz três palavras muito duras:

- Eu. Sou. Infértil.

- Mas Ele prometeu! Você terá um filho! Terá, sim!

Ela balança a cabeça.

- Não posso. E não terei. Não há a menor chance de eu conceber uma criança.

Eles se encaram por alguns instantes. O silêncio é ensurdecedor. Por fim, Sarai fala devagar, com brandura e ponderação.

- É tarde demais para mim, mas você é homem. Para você, ainda há uma chance. - Sarai morde o lábio. Ela puxa o marido para mais perto de si. - Os planos de Deus são muitos e Ele sempre cumpre as promessas que faz... mas à Sua maneira. Quem somos nós para dizer como os planos Dele se concretizarão?

- Do que está falando?

- Estou falando que Deus lhe prometeu que você seria pai. Não que eu seria a mulher que carregaria seus filhos.

Sarai meneia a cabeça em direção a tenda de Hagar, a bela serva egípcia. A luz de uma vela tremula lá dentro.

- Vá até ela, Abrão - fala Sarai. - Você tem minha permissão.

Abrão olha para sua esposa, incrédulo.

- Não - diz ele com firmeza. - Não. Não. Não.

Sarai assente, com uma expressão resignada no rosto.

- Sim - diz ela, beijando-o com ternura. - É o que deve fazer.

Abrão se sente dividido. Sempre fora fiel a Sarai, acreditando ser o desejo de Deus que ele não se deitasse com nenhuma outra mulher. Já havia notado a beleza de Hagar, mas nunca se imaginara dormindo com ela.

Sarai não consegue olhar para o marido enquanto o empurra com delicadeza em direção à tenda.

- Você precisa de um herdeiro - diz ela baixinho. - Deus lhe prometeu um filho. Agora vá.

Abrão puxa o rosto de Sarai para si, beija-a na boca e cola o corpo dela ao seu para que ela tenha certeza de que é seu verdadeiro amor. Então se levanta devagar e se encaminha para a tenda de Hagar. A tenda é pequena, em conformidade com seu status social, a lona não é tão lustrosa ou resistente quanto a deles. Ela vem de uma terra diferente, com deuses diferentes. Abrão não conhece os caminhos de Deus. Talvez Ele queira que Abrão se una a outras nações ao gerar uma criança mestiça e cujos descendentes representarão a mistura de duas tradições religiosas diferentes. Ele afasta a aba da tenda de Hagar e entra.

A bela e estéril Sarai se senta diante do fogo. Uma lágrima rola devagar pelo seu rosto enquanto ela observa as chamas.

Quando Abrão sai da tenda de Hagar, Sarai consegue ver pela aba aberta que a jovem está dormindo. Sarai continua sentada diante do fogo, balançando-se !entamente para a frente e para trás. Seu olhar se cruza com o de Abrão. Os olhos dela estão inchados e as lágrimas ainda escorrem pelo seu rosto. Ambos sabem que algo se perdeu, sentem um peso estranho no coração. Mesmo com a melhor das intenções, eles talvez tenham se precipitado, não confiando em Deus.

Abrão percebe as lágrimas de ciúmes e arrependimento da esposa. Ela não está feliz por tê-lo dividido com outra mulher. Se ele tiver colocado um filho na ?arriga de Hagar, Sarai jamais terá Abrão só para si novamente. Todas as vezes que olhar para a criança, ela se lembrará daquela noite, da dolorosa sensação de vazio dentro do seu peito. Sarai daria qualquer coisa para voltar atrás.

Abrão está atormentado. O que está feito, está feito, diz a si mesmo. Por ora, ele afasta da mente a dura verdade de que forçou a promessa de Deus a acontecer em seu próprio tempo, em vez de confiar nos planos Dele. Então ajeita sua túnica e se encaminha para a tenda que divide com Sarai, que continua a fitar as chamas.

Os poucos momentos que passou com Hagar naquela noite límpida no deserto irão mudar o mundo para sempre.
Quatorze anos se passam.

Ismael, o filho de Abrão e Hagar, agora tem 13 anos de idade. O rapaz é tudo o que um pai poderia esperar de um filho: compassivo, amoroso, engraçado, forte e bonito. Sarai nem sempre compartilha da alegria de Abrão. Sempre que olha para Ismael, ela se lembra daquela noite, não muito tempo atrás, em que ela e Abrão demonstraram sua falta de fé ao agir por conta própria, sem esperar que a promessa de Deus se concretizasse no tempo que Ele determinasse. Um pensamento não abandona a mente de Sarai desde aquela noite: Deus tudo pode. Isso significa que Ele pode fazer com que uma mulher infértil engravide, seja qual for sua idade. Ela sabia disso desde o início. Devia ter confiado na promessa de Deus. Devia ter esperado.

Abrão agora tem 99 anos. Sarai tem 90. Eles vivem em um oásis próximo de um lugar chamado Mamre - entre palmeiras, cedros, figueiras e água corrente límpida -, ainda nas tendas que há tanto tempo chamavam de lar. Não é o paraíso; tampouco é a terra que Abrão imaginou quando ele e seus seguidores partiram em sua jornada anos atrás. Há muita discórdia entre o grupo, a começar por Sarai e Hagar. Sempre que Sarai vê Hagar e Ismael, ela sente uma pontada lancinante no coração. Tornou-se uma mulher amargurada.

Numa tarde de calor, enquanto Abrão está sentado diante da sua tenda, o Senhor surge para ele.

- Eu sou Deus Todo-Poderoso - diz para Abrão, que se curva e leva a cabeça ao chão, em louvor. - Confirmarei a aliança entre nós. E aumentarei em muito os seus números.

Deus ordena que Abrão mude seu nome para “Abraão”, que significa “pai de muitas nações”. Deste momento em diante, Sarai deverá ser chamada de “Sara”, que significa “princesa”. Deus também ordena que todos os homens da sua tribo, chamados por alguns de “hebreus”, sejam circuncidados. A circuncisão é um sinal da aliança entre Deus e o homem e um lembrete físico cotidiano da presença de Deus em sua vida. Até Abraão, apesar de idoso, deve ter seu prepúcio cortado.
É então que Deus faz uma promessa chocante para Abraão: Sara dará à luz um filho.

- Ela será a mãe de nações. Reis sairão de seu ventre.

A ideia faz Abraão rir. Ele não acredita que Sara possa dar à luz. Mas Deus insiste, dizendo que uma longa linhagem de reis terá início a partir desta descendência.

As palavras calaram fundo no coração de Abraão, enchendo-o de uma alegria que ele nunca havia sentido. Mal podia esperar para contar a Sara. E, embora lhe parecesse completamente impossível que um homem da sua idade ainda pudesse conceber um filho, Abraão também lembrou a si mesmo que Deus tudo pode -até trazer essa criança ao mundo.

Abraão se volta para Deus para Lhe agradecer, mas Ele já havia desaparecido.

Um dia, não muito depois do ocorrido, Abraão está praticando arco e flecha com seu filho. Ismael é um bom atirador e não tem dificuldade em acertar o alvo.

- Muito bem, meu filho - diz Abraão com orgulho. Ele se vira para a esposa: - Você viu isso, Sara? Viu o meu filho?

- “Meu filho.” Não “nosso filho” - sussurra ela com desdém. A velha volta pisando firme para dentro da tenda. Abraão suspira. Já está habituado à tensão constante.

- Continue, Ismael - diz ele para o rapaz.

Hagar está por perto, observando a cena com orgulho materno. Sente-se feliz por seu filho ser o herdeiro de Abraão e pouco se importa com a tensão entre ela e Sara.

Quando Abraão vai apanhar as flechas, vê três homens fortes e misteriosos ao longe, vindo na direção do seu acampamento. Vestem túnicas feitas de um tecido refinado. É possível ver o volume das armas debaixo das roupas de dois deles, embora o grupo não pareça ameaçador. Pelo contrário, sua presença emana a sutileza dos homens sagrados. Abraão sente uma afinidade instantânea com eles e, como de hábito, desempenha com prazer o papel de bom anfitrião. Mas aqueles homens parecem diferentes, de modo que os trata com mais respeito. Viajantes, em sua maioria andarilhos e vagabundos, passam frequentemente pelo acampamento de Abraão e recebem apenas água e a hospitalidade básica.

Sua intuição está correta. Dois dos homens são anjos. O terceiro é Deus disfarçado de mortal. Embora já tivesse ouvido a voz do Senhor, ele não O reconhece.

- Sejam bem-vindos - diz Abraão. - Por favor, sentem-se.

Ele indica um canto em que o grupo pode descansar à sombra.

- Estão com fome? - pergunta. Sem esperar por uma resposta, Abraão ordena que uma serva traga comida.

- Vocês vêm de longe? - prossegue Abraão.

- Sim, de muito longe - responde um dos anjos. Um longo silêncio se segue.
- Onde está sua esposa? - pergunta o outro anjo.

Abraão aponta para a tenda que divide com Sara.

Por trás das paredes de lona, Sara ouve vozes estranhas, mas está cansada e sem disposição para entreter viajantes.

O Senhor então fala e faz uma previsão audaciosa.

- Garanto-lhe que retornarei por volta desta época no ano que vem e sua esposa, Sara, terá um filho.

Sara ri em pensamento ao entreouvir essas palavras. Sem dúvida, esse homem, seja quem for, não sabe que a esposa de Abraão é muito idosa e estéril.

- Por que está rindo? - diz o Senhor para ela.

Sara quase morre de susto. Ela se vira para ver quem está falando, mas não há ninguém na tenda. Eu não ri, pensa ela.

- Riu, sim - responde o Senhor, com a voz gentil. Sara torna a se virar depressa para ver quem lhe está pregando aquela peça. Mas está sozinha.

Deus prossegue:

- Para que nunca se esqueça de como duvidou de Mim, quando seu filho nascer, você lhe dará o nome de Isaque, que significa “risada”.

Sara sente o poder de Deus e se enche de esperança. Lágrimas escorrem pelo seu rosto. Ela corre até onde seus ídolos de fertilidade estão escondidos, apertando um deles em suas mãos até reduzi-lo a pó. Enquanto os grãos de argila escorrem pelos seus dedos, ela cai de joelhos e agradece a Deus.
É chegada a hora de os três estranhos partirem. Abraão os havia tratado com extrema gentileza e deferência. Trouxe água para limpar-lhes a poeira da estrada dos pés. Preparou-lhes um bezerro gordo e lhes serviu uma refeição suntuosa, com direito a coalhada, leite e finas fatias de pão. Aqueles estranhos imponentes e misteriosos eram especiais, e Abraão se deleitara com a honra de recebê-los. Chamou a si mesmo de servo, chegando até a se afastar enquanto eles comiam, esperando até ser convocado. Os homens mantiveram seu ar distante, pouco disseram após sua audaz previsão e aproveitaram a comida e a sombra fresca.

Quando o sol da tarde fica mais fraco, eles se levantam para ir embora.

- Para onde vão? - pergunta Abraão com cautela, ainda sem se dar conta de quem eram seus hóspedes.

Um dos anjos olha para Deus, pedindo permissão para responder.

Deus assente com a cabeça.

- Estamos aqui para decidir o destino de Sodoma - responde o anjo solenemente, puxando para trás o capuz que lhe cobre a cabeça.

O outro anjo faz o mesmo e os dois vão embora, deixando Deus sozinho com Abraão. Ele está preocupado, pois seu sobrinho Ló ainda vive em Sodoma.
Deus caminha com Abraão até o topo de uma colina, de onde é possível ver Sodoma ao longe.

- Devo esconder de você o que estou prestes a fazer? - pergunta-se o Senhor em voz alta. - Você se tornará uma nação grande e poderosa, e todos os povos da Terra serão abençoados através de você. Pois Eu o escolhi para que ordenasse aos seus filhos e à sua família a se conservar no caminho do Senhor e a fazer o que é certo e justo, para que Eu possa cumprir a promessa que lhe fiz.

Abraão fica pasmo ao perceber que está diante de Deus. Quem mais podería ser? Esta é a maneira como Deus tantas vezes lhe falara: com sinceridade, como um amigo ou servo de confiança. E Abraão fica igualmente pasmo ao se dar conta de que a destruição de Sodoma significará a morte de Ló. Apesar de suas diferenças, Abraão o ama como a um filho e teme pela sua segurança.

Abraão reúne coragem e pergunta a Deus:

- Mas o Senhor exterminará tanto os ímpios quanto os justos?

- Se encontrar 50 homens justos em Sodoma, Eu pouparei toda a cidade por amor a eles - responde Deus.

Abrão reflete sobre a questão por alguns instantes. Ele conhece Sodoma, sabe que é a região mais vil que existe. Duvida que haja real possibilidade de se encontrar sequer 10 homens justos ali, quanto mais 50. Então respira fundo e torna a falar:

- Agora que já tive a ousadia de me dirigir ao Senhor, embora eu próprio não passe de pó e cinzas... e se o número de homens justos for 50 menos cinco?

O Senhor ama Abraão, e a aliança entre eles é um vínculo poderoso. Em nome desse amor, Deus responde:

- Se eu encontrar 45 homens justos, não destruirei Sodoma.

Abraão se enche de coragem, querendo desesperadamente salvar Ló.

- E se encontrar apenas 40 homens justos?

- Então pouparei a cidade por amor a eles.

- Rogo ao Senhor que não se irrite, mas deixe-me falar - prossegue Abraão, apreensivo. - E se forem apenas 30?

- Não destruirei a cidade se nela encontrar 30 homens justos.

E assim continua Abraão, barganhando em prol do povo de Sodoma enquanto o Senhor gentilmente faz concessões, até que o número de homens justos chega a 10. Então, Deus vai embora. Abraão fica sozinho na estrada, receoso por Sodoma e por seu sobrinho. Ele sabe, assim como o próprio Senhor, que sua ousada negociação foi em vão. Em toda Sodoma não há 10 homens justos.

Na verdade, há apenas um.

Deus, naturalmente, sabe disso. Ele negociou com Abraão apenas para reafirmar a aliança entre os dois. O medo que Abraão sente de ver Sodoma destruída demonstra quão profunda é sua compaixão, e Deus quis honrá-la. Agora, está nas mãos daquele único homem justo salvar a si mesmo e à sua família.
Ló está sozinho diante do portão de entrada de Sodoma. Já é noite. O deserto além das muralhas é agradável e perfumado, em nítido contraste com as ruas da cidade, que cheiram a urina e vômito. Ló adora respirar o ar noturno do lado de fora da cidade. A brisa está fresca depois de um dia longo e quente, e ele se delicia com a paz daquele local. Ele e sua esposa agora têm duas lindas filhas. A cidade é famosa por seus vícios e depravações; um lugar de idolatria que não só virou as costas para Deus, mas que se vangloria desse fato. A esposa de Ló gosta muito dali e recusou seus vários pedidos para que fossem embora. Ele tem a sensação de que a vida é muito curta para estar tão distante de Deus. Ló teme pelas suas filhas, receoso de que, depois de crescidas, elas se tornem tão libidinosas e incrédulas quanto as mulheres de Sodoma. Corta seu coração imaginar suas belas meninas levando uma vida definida pela luxúria, e não pelo amor; pelo medo, e não pela fé.

Ló suspira. Não há nada que possa fazer a respeito. O que será, será. Até o dia em que sua esposa decida ir embora de Sodoma - um dia que ainda acredita estar por vir -, Ló simplesmente suporta sua vida, em vez de vivê-la em sua plenitude.

Sozinho diante dos portões da cidade, fitando a vastidão do deserto, Ló consegue ouvir música e gargalhadas estridentes transbordando das tavernas. Ouve os gemidos de homens e mulheres fazendo sexo em becos escuros e sujos. Caso se virasse naquele exato instante, poderia ver um jovem casal quase despido se apalpando, prostitutas praticamente nuas oferecendo o próprio corpo, um grupo de percussionistas entretendo um bando de bêbados e um cão raivoso amarrado a um poste, rosnando alto para todos os que passavam e louco para abocanhar carne humana. Não era exatamente um bom lugar para se criar uma família. Ló é um homem honrado, o que o torna um cidadão raro. A perversidade de Sodoma lhe causa grande perturbação. É por isso que ele sai para fitar o deserto.

Dois homens encapuzados atravessam a passos firmes o portão da cidade. São corpulentos e possuem a expressão serena de guerreiros que não temem homem algum. Caminham com determinação, como se estivessem ali a negócios. Os dois estranhos parecem deslocados naquelas ruas. O coração de Ló acelera. Pela primeira vez em um bom tempo, ele tem a sensação de que não é o único homem justo por ali. Ele se levanta depressa e corre para alcançá-los.

- Senhores - exclama Ló -, sejam bem-vindos a Sodoma. Convido-os a passarem a noite na minha casa. Lá poderão lavar seus pés e jantar.

- Não - responde um deles. - Passaremos a noite na praça.

Ló está determinado a não aceitar um “não” como resposta. Assim, pouco tempo depois aqueles guerreiros espirituais entram em sua casa, onde seu anfitrião lhes oferece uma refeição simples e lhes mostra onde irão dormir.
Dentro da casa de Ló, uma lamparina fraca está acesa, iluminando os rostos de Ló, de sua esposa, de suas duas filhas adolescentes e daqueles estranhos misteriosos.

Ouve-se uma grande confusão do lado de fora e, de repente, punhos esmurram a porta. A mulher de Ló e as meninas se abraçam, apavoradas.

- Abram! Expulsem os estranhos! - grita uma voz. - Ou queimaremos esta casa!

- Eles não lhes fizeram mal e são meus convidados. Deixe-os em paz - grita Ló de volta, por trás da grossa porta de madeira.

- Onde estão os homens que chegaram à cidade mais cedo? - grita a voz, mais alto e com mais insistência do que antes. - Entregue-os para nós!

Ló busca uma grande coragem dentro de si. Ele sai para enfrentar o povo de Sodoma, jovens e velhos reunidos numa turba, um homem contra muitos. Tenta argumentar com eles, mas o grupo fica ainda mais agressivo. Lá dentro, os estranhos permanecem em silêncio, ouvindo cada palavra e admirando a bravura de Ló. Sua esposa se agarra às filhas, desejando nunca ter encontrado aqueles forasteiros. Sua vida tinha sido virada de ponta-cabeça mais uma vez.

Ló percebe que suas tentativas de negociar se mostraram inúteis e começa a recuar para dentro de casa, mas então a turba ataca. O grupo passa por ele com o objetivo de arrombar a porta. Ló tenta afastá-los com um cajado, manejando-o com habilidade. É como se ele fosse um novo homem, repleto de espírito guerreiro. Quando o líder da multidão agarra o cajado e o puxa para si, com uma expressão sádica no rosto, Ló se recusa a soltá-lo, mas sua coragem não é páreo para a força do homem.

- Fique fora disso - diz o líder do grupo, cuspindo no rosto de Ló.

- Afaste-se - ordena um dos anjos. Ele dá um passo à frente e fecha os olhos, como se orasse. O segundo anjo se junta a ele. Uma rajada repentina de vento sopra pela casa e desloca-se na direção das ruas, acompanhada pelo ribombar de um trovão. A hostilidade do líder da turba é substituída pelo medo. Ló dá um passo para trás, sem entender o que está acontecendo. O homem coça os olhos, esfregando-os com força, até lágrimas de sangue escorrerem pelo seu rosto.

- Estou cego - grita. - Estou cego!

Mas ele não é o único. Um a um, os demais membros da turba gritam de horror ao perceber que também estão cegos. Os que ainda conseguem ver ficam ainda mais enfurecidos e se lançam para a frente em busca de vingança. Porém, antes que possam dar o primeiro passo, os dois anjos despem suas túnicas, revelando armaduras incríveis, forjadas com maestria, mais resistentes do que qualquer lança que se possa atirar contra elas.

Um anjo saca duas espadas curtas e se põe a brandi-las como um exímio espadachim. O outro não vê necessidade de perder tempo com sutilezas. Uma enorme espada de lâmina larga pende da sua cintura. Com um único movimento rápido, ele a saca e faz um dos adversários de Ló pagar pelo seu comportamento. O homem cai ao chão.

- Precisamos sair daqui! - diz o anjo para a família de Ló. - Apressem-se.

Ló e sua família hesitam; no entanto, eles não têm escolha. Os anjos os arrancam à força de dentro da casa, empurrando-os pelos ombros através da multidão, sem lhes dar a chance de voltar atrás ou desacelerar o passo.

- Não parem de correr! - grita o primeiro anjo. - Por nenhuma razão.

Enquanto um dos anjos os conduz pelas ruas, o outro protege a retaguarda.

Eles brandem suas espadas contra a multidão, derrubando um homem atrás do outro em sua missão de levar a família de Ló para um lugar seguro. Eles sabem, como Deus sabia quando barganhou com Abraão, que os únicos cidadãos justos de Sodoma são os da família de Ló. Deus está prestes a destruir a cidade. Todos ali irão sofrer uma morte terrível, e o local desaparecerá sem deixar vestígios. A não ser que Ló e sua família fujam imediatamente, sofrerão o mesmo destino.

Sem nenhum aviso, fogo começa a cair dos céus. Uma bola flamejante se precipita em direção às ruas com um sibilo e um estrondo repentinos. A esposa de Ló fica quase paralisada de pavor e sente o calor daquela explosão, mas o segundo anjo a obriga a seguir em frente aos tropeços.

A turba continua a segui-los ao mesmo tempo que mais uma bola de fogo atinge Sodoma. E depois outra. O segundo anjo para de correr e usa a ponta afiada da sua espada para desenhar um círculo ao redor de si no chão de terra batida. Enquanto Ló e sua família continuam sua fuga desesperada rumo à liberdade, ele enfrenta todos os que se aproximam, ceifando-os como se não passassem de gravetos.
Enquanto isso, na encosta da colina que dá vista para Sodoma, Abraão testemunha horrorizado as chamas se erguerem à medida que as construções da cidade começam a queimar. Bolas de fogo continuam a cair do céu, acompanhadas de relâmpagos e do perturbador ribombar dos trovões.

Ele teme por Ló e sua família enquanto observa a cena pavorosa e ora para que seu sobrinho saia de lá vivo.

Deus está atrás dele, mas Abraão não pode vê-Lo.
- Ao nos salvar, vocês salv cisão de nos ajudar foi um tes rem de correr. Mas lembrem-

Os anjos desaparecem diante de seus olhos maravilhados de Ló e sua família. Eles então se veem envoltos pela luz do luar e pelo fogo distante que consome Sodoma.

- Sigam em frente - grita Ló - E não olhem para trás.

Eles correm sem parar, seus pés chutando a areia do deserto à medida que fogem rumo a uma nova vida. Um relâmpago monumental ilumina de repente o céu, caindo com estrondo sobre as ruinas de Sodoma. Então , com uma última explosão brilhante, a cidade desaparece.Ló ouve suaesposa arquejar. Ele a ama de todo o coração, mas sabe muito bem qiamtp eça é teimosa e orgulhosa. Antes que a mulher cometesse o erro contra oqual hav iam sido alertados pelos anjos, ele lhe pede:

- Não olhe para trás!

Em Sodoma, construções de pedra começam a desmoronar. O fogo consome a madeira e a palha dos telhados. Vigas desabadas prendem muitas famílias em suas próprias casas, e os gritos dos que sofrem a agonia de ter suas peles queimadas pelas chamas rasgam a noite.

Depois de finalmente derrotar todos os seus oponentes, o segundo anjo vingador alcança a família de Ló.

Mas ela não consegue conter sua curiosidade. Simplesmente precisa ver com seus próprios olhos o que está acontecendo. à cidade que passou mais de uma década chamando de lar.

A última coisa que vê é uma explosão de luz. Seus olhos ficam cegos, seu corpo é paralisado e ela se transforma em uma coluna de sal..

Uma ventania sopra. Ló se limita a olhar incrédulo, para aquilo que antes era sua esposa. Ele observa a sua esposa. Ele observa com uma agonia esmagadora as rajadas de vento castigando a escultura de sal. Logo a noite escura pedaços dela começam a se soltar e desaparecem na noite escura.. O vendaval não para até toda a coluna ter sido reduzida a pó e ser soprada para longe.

Temendo sofrer o mesmo destino, Ló e suas filhas fogem para salvar suas vidas.Cas. Não ousam olhar para trás. Como se perseguissem, os gritos incensantes dos habitantes de Sodoma se propagam pelo deserto. A alvorada rompe no horizonte enquantos eles correm. É o começo do novo dia, de uma nova vida para Lo' e suas filhas. Eles correm sem parar, atravessando o deserto e subindo rumo à segurança das colinas, onde viverão pelo resto de seus dias.

O tempo passa: do acampamento de Abraão vem o urro agustiado de uma mulher sofrendo as dores do parto. Sara está agachada dentro de sua tenda, acompanhada por uma parteira. Lá fora, Abraão anda de um lado para o outro, nervoso. Está extasiado pelo fato de sua esposa estar lhe dando um filho.

Os gritos de Sara cessam, subtituidos pelo som de um bebê recém-nascido sorvendo o ar pela primeira vez, para em seguida berrar tão alto que seu choro pode ser ouvido por todo o vale.

Quando Ab raão dá um passo à frente para entrar na tenda, seu olhar se cruza com os de Hagar e Ismael. O rapaz, agora um adolescente, é robusto e bonito, além de muito parecido com os pais. Se o bebê for menina, Ismael continua sendo o primeiro na linha de sucessão. Se for menino, ele perderá o direito à herança, de acordo com a tradição hebraica.

Abraão afasta a aba de entrada da tenda. Sara segura o bebê diante do seio, cheia de alegria. O marido se inclina sobre ela, que, sem dizer uma só palavra, lhe entrega a criança. Lágrimas se acumulam nos cantos dos olhos dele ao segurá-la.

- Um menino - sussurra Sara, radiante.

- Exatamente como Deus prometeu - diz Abraão, maravilhado. - Somente o Todo-Poderoso pode fazer o impossível.

Abraão ergue o bebê no ar.

- Seu nome será Isaque.

Ele e Sara começam a gargalhar de felicidade.

Do lado de fora da tenda, Hagar e Ismael ouvem a comoção e, sem que ninguém precise lhes dizer, sabem que o bebê é um menino. Hagar passa o braço em volta da cintura do filho, na esperança de consolá-lo.
Um ano se passa. A tensão no acampamento de Abraão aumenta dia a dia. A guerra silenciosa pelo afeto de Abraão se dá entre Sara e Hagar, que se ressentem de cada instante que ele passa com a rival. Abraão precisa se desdobrar para tentar manter a paz entre as duas mulheres, mas não é nada fácil. A tenda de Abraão e Sara é sempre armada perto da de Hagar e Ismael, de modo que o rapaz fique próximo ao pai. Cada palavra e gesto de Abraão é rigorosamente examinado pelas duas mulheres.

Sentada na sombra diante da sua tenda, Sara está feliz e cantarola baixinho uma canção de ninar para o pequeno Isaque. O ar cheira a lenha da fogueira e a poeira do deserto. Isaque já sabe andar e está começando a formar palavras, mas nesse instante está dormindo em seu berço. Para Sara, que não consegue desgrudar os olhos do bebê, ele é a criatura mais perfeita do mundo. Então ela vê Abraão chegar ao acampamento e abraçar Ismael, que veio correndo lhe mostrar seu novo arco e flecha. Abraão gira o arco nas mãos, analisando-o em busca de imperfeições. Não vendo nenhuma, o pai despenteia os cabelos de Ismael com ternura.

- Bom - diz ele para o filho -, muito bom.

Hagar está sentada em uma almofada de frente para Ismael, olhando para o filho com a mesma expressão amorosa que Sara dedica a Isaque. Ela seria capaz de qualquer coisa por ele.

- Sara! - chama Abraão, encaminhando-se a passos largos em direção à sua tenda. Ele não percebe a expressão de mágoa no rosto de Ismael quando o pai transfere abruptamente sua atenção para a esposa.
Abraão se agacha para entrar na tenda. Sara está sentada em uma almofada grossa, agora com o pequeno Isaque nos braços. Seu humor de repente ficou péssimo, como Abraão rapidamente percebe.

- Qual é o problema? - pergunta ele, embora saiba muito bem o que está incomodando Sara.

- Aquela mulher acha que o filho dela vai herdar o que pertence a Isaque por direito - sibila ela.

Abraão se faz de desentendido, como se a questão da herança nunca tivesse lhe passado pela cabeça.

- Do que você está falando?

- Quem será o primeiro de toda a nossa tribo, Abraão? A primeira estrela dentre todas as demais no firmamento?

Abraão se aproxima até estar a poucos centímetros de sua esposa, para que suas palavras fiquem somente entre eles.

- Não precisamos discutir isso agora.

- Ah, precisamos sim. Vai ser o nosso filho? Ou o dela?

Abraão tem dificuldade em responder à pergunta.

- Sara, eu...

- Decida! Agora mesmo! Fui clara?

Isaque balbucia “mã-mã” como se estivesse louco para entrar na conversa.

Sara olha para o marido. Eles já passaram por muita coisa juntos, mas é como se o visse pela primeira vez.

- Ou você decide - diz ela com uma voz firme, porém furiosa -, ou deixe Deus decidir. - Ela sai como um furacão da tenda, carregando Isaque no colo.

Abraão, sentindo o peso da noite que havia passado com Hagar tanto tempo atrás, senta-se e reflete sobre o destino de seus dois meninos. Ele ora a Deus por orientação e a recebe. Embora a ideia o encha de tristeza, ele sabe que deve seguir as instruções que o Senhor deposita em seu coração naquele instante. Deus diz a Abraão que dê ouvidos a Sara. Isaque é quem deve receber a herança. Essa é a Sua decisão. Isso significa que não há mais lugar para Hagar e Ismael no acampamento, mas o Senhor o tranquiliza, assegurando-lhe que irá cuidar deles e que os filhos de Ismael também irão se tornar uma grande nação.
Abraão está arrasado ao dar a notícia de que Ismael terá que se lançar ao mundo e buscar sua própria sorte, mas nada se compara à maneira como se sente enquanto Hagar e seu filho se preparam para partir rumo ao deserto. É manhã. Pão ázimo é virado sobre um fogo baixo. Hagar guarda dois pedaços ainda quentes em um saco pequeno. Ismael vem ajudá-la. Ele está calado e triste, mas isso não abala sua devoção à mãe. Para a viagem, usa apenas sandálias, um lenço na cabeça e uma túnica que lhe vai até os joelhos. Hagar está vestida praticamente da mesma forma, exceto por uma túnica com capuz para protegê-la da brisa fria do deserto.

Abraão os espera nos limites do acampamento segurando um odre nas mãos. Coloca a alça sobre o ombro de Ismael e deixa que sua mão se detenha com ternura no filho por alguns instantes.

- Adeus - balbucia ele, tomado pela tristeza. Ele olha Ismael nos olhos. - Meu menino, Deus um dia irá abençoá-lo com muitos filhos. - Seus próprios olhos se enchem de lágrimas.

Ismael permanece calado, mas seus olhos analisam os traços de Abraão, memorizando a aparência do pai. O rapaz se mantém impassível. Sara fica afastada. Isso tudo está acontecendo por causa dela, que sabe muito bem que essa exigência pode levar à morte de Hagar e Ismael. Sabe também que foi ela quem criou o problema ao insistir que Abraão se deitasse com Hagar. E essa é a sua solução. Sara fica surpresa ao notar que não sente prazer em expulsar Hagar e Ismael dali. Por mais que seja uma atitude cruel, ela não é uma mulher cruel. No entanto, tem certeza de que é o que precisa ser feito. Se não fizesse isso, eles enfrentariam graves problemas quando os dois filhos de Abraão se tornassem adultos.

Abraão e Sara ficam observando Hagar e Ismael começarem sua jornada. Num instante, eles não passam de pontinhos ao longe; no momento seguinte, desaparecem.

- Seja forte - diz Hagar para Ismael, embora também o esteja dizendo para si mesma. Os dois vagarão sozinhos pelo deserto, porém ela confia que Deus irá protegê-los. Hagar ora a Deus por ajuda, e Deus a oferece. Em menos de uma semana eles ficarão sem água e Hagar temerá por suas próprias vidas. Nesse momento, um anjo do Senhor surgirá, prometendo a Ismael que um dia ele se tornará o líder de uma grande nação. Depois que o anjo for embora, um poço cheio dagua aparecerá de repente para Hagar e Ismael, salvando-os da morte.
Mais dez anos se passam.

Isaque sai da tenda da sua família, cuja entrada é ornada com borlas e seu tecido listrado. Ele boceja e se espreguiça enquanto passa pelo curral das cabras e segue até o fogo, onde Sara está moendo grãos para fazer farinha para o pão matinal.

Abraão já está acordado há horas. Sua idade avançada começa a pesar, e, embora tenha dormido a noite inteira, está exausto. A vida não tem sido a mesma desde que expulsou Hagar e Ismael. Abraão vê sua vida escapar-lhe pelos dedos. Não se sente o líder que Deus queria que ele fosse. Não se sente digno de Deus, da Terra Prometida ou da perspectiva de ter tantos descendentes quanto as estrelas do firmamento. Sua fé não foi abalada, e ele não se afastou dos planos do Senhor desde aquela noite em que sua falta de confiança o levou à tenda de Hagar. Envelhecendo a cada dia que passa, Abraão questiona seu propósito na Terra.

O vento fica mais forte e sopra os grãos para dentro do fogo. Abraão olha ao redor e percebe que está completamente sozinho. Todos no acampamento, incluindo Sara e Isaque, desapareceram.

Há muito tempo que o Senhor não falava com Abraão, mas ele ainda conhece Sua voz.

- Um sacrifício? - sussurra para Deus.

Abraão está habituado a oferecer sacrifícios para o Senhor. Em um abate ri-tualístico, o pescoço do animal é cortado e ele então é oferecido como sinal de agradecimento. Em seguida, o animal é queimado em uma fogueira a céu aberto.

Deus continua a lhe dar os detalhes de Seu pedido.

A princípio, Abraão não entende o que está ouvindo. Então, ao se dar conta do que Deus está dizendo, fica horrorizado.

- Não - sussurra ele. - Por favor, não. Já não Lhe demonstrei fé suficiente? Querido Deus, farei qualquer sacrifício que me pedir. Qualquer coisa - agora, ele mal consegue falar -, qualquer coisa, menos Isaque.
Essa é a vontade de Deus. Com o coração pesado, Abraão vai até a tenda e apanha a melhor de suas facas. Ele e seu povo estão acampados aos pés de uma grande montanha do deserto, o monte Moriá. Enquanto o sol se ergue cada vez mais alto no céu, Abraão sai em busca de Isaque, a faca presa com firmeza à bainha em sua cintura.

Ele o encontra comendo pão com Sara.

- Coma mais - incentiva ela. - Como vai crescer se não se alimentar?

Quando vê Abraão se aproximando, contudo, ela para de falar. Sara nota a

perturbação no olhar do marido, mas ele parece determinado. Não lhe restam dúvidas de que algo está prestes acontecer.

- Abraão? - diz ela com cautela.

- Deus deseja um sacrifício - fala Abraão, estendendo a mão ao filho. Ele estremece quando o menino coloca a palma da mão em seu punho musculoso. - Venha comigo.

- Sim, senhor - responde Isaque com animação, saindo correndo para apanhar sua bolsa para a longa e árdua escalada.

Abraão conduz o filho pelo monte Moriá, deixando Sara confusa, mas acreditando que o marido irá levar um dos carneiros do curral para oferecer como sacrifício.

Nuvens carregadas começam a surgir no céu e Abraão e Isaque ouvem o leve ribombar de um trovão que se aproxima. Os dois juntam lenha para uma fogueira, e a cada graveto e galho que Isaque entrega ao pai, Abraão se sente mais t om

atormentado pelo que está prestes a fazer. Isaque, o filho leal e obediente que ele ■ üsu

acreditava que um dia daria início a uma dinastia, deve ser morto. Isaque, o filho

pelo qual ele e Sara tanto oraram, deve ser morto. Isaque, o jovem belo e corajo-

so que é o orgulho de Abraão, deve ser morto. Deus exigira que aquele menino

inocente fosse entregue em sacrifício. isso

- Pai? - fala Isaque, entregando-lhe um novo punhado de gravetos. I p Al

Abraão pega a lenha das mãos do filho. j o c«

- Obrigado - diz ele. - Vamos apanhar mais um pouco. ■

Logo o feixe está tão volumoso que Abraão o amarra com uma corda e o prende

às costas de Isaque para que ele possa carregá-lo com mais facilidade. Em seguida,

Abraão faz outro feixe, que então coloca no ombro para a escalada até o cume.

- Agora já chega de lenha - diz ele para Isaque. - Vamos subir.

- Mas por que estamos indo direto para o topo? - pergunta Isaque. - Temos a lenha para o sacrifício, mas ainda precisamos descer para apanhar o carneiro.

Abraão suspira. Seu coração está pesado.

- Deus proverá o sacrifício, meu filho.

No acampamento, Sara fica tão angustiada que vai ao curral para contar o rebanho. Todos os animais estão lá. Para seu horror, percebe que Abraão não levou nenhum carneiro consigo. Ela cai de joelhos. Será possível que o sacrifício seja, na verdade, do seu adorado Isaque? Será Isaque o Cordeiro de Deus? Ela se levanta para ir atrás dos dois.

No topo da montanha, a tempestade fica mais violenta. Por estranho que pareça, o céu está completamente claro, mas em seguida fica negro. O vento sopra em turbilhão. As nuvens parecem tão pesadas e baixas que é como se eles pudessem tocá-las. Abraão sabe que não há maior sacrifício do que um pai oferecer seu próprio filho. Este é o mais duro teste de fé que ele já teve de enfrentar. Abraão ama a Deus, mas não está certo de que conseguirá fazer o que Ele lhe pediu.

Com as mãos trêmulas, Abraão larga a madeira e começa a erguer um altar de pedra. Usando as rochas espalhadas pelo topo da montanha, ele monta com cuidado uma estrutura na qual deitará sua oferenda. Pedra por pedra, Abraão constrói o altar. Já fez isso inúmeras vezes no passado, de modo que trabalha depressa.

Então, Isaque torna a perguntar:

- Pai, onde está o sacrifício? Vai ser um cordeiro ou um carneiro adulto? - !

Isaque está intrigado, pois eles não trouxeram nenhum animal consigo e não vê nenhum outro no topo da montanha.

- Jehovah-jireh - responde Abraão com esperança, invocando uma frase comum que significa “O Senhor proverá”.

Quando chega a hora de fazer o que deve, Abraão segura com força as mãos do filho e começa a amarrá-las com uma corda. Isaque se debate, mas apenas por um instante. Abraão fixa no menino um olhar que o congela no ato, deixando-o assustado demais para desobedecer.

- Você precisa confiar em Deus - fala Abraão, engasgando de angústia ao dizer estas palavras.

Isaque, apesar de muito confuso, assente. Abraão continua a amarrar-lhe as mãos. Em seguida, ergue o filho e o deita sobre o altar. Uma ventania feroz fustiga Abraão. Isaque olha para a faca na mão do pai, aterrorizado. Abraão olha para o céu, sem saber ao certo por que precisa fazer aquilo. Ele levanta a faca com as duas mãos, erguendo-a bem acima da cabeça. Detém-se nessa posição, sabendo que em instantes enfiará a lâmina bem fundo no pescoço do próprio filho.

Isaque olha para cima, com a respiração curta e acelerada. Seus olhos estão arregalados de pavor.

Abraão sente as mãos se apertarem em volta do cabo da faca. Ele quer acabar com aquilo de forma rápida e indolor. Isaque não deve sofrer.

Ele respira fundo e lança a faca para baixo.

- Abraão! - exclama uma voz.

Ele para no meio do golpe, a faca suspensa a poucos centímetros de Isaque.

A voz pertence a um anjo, que Abraão vê parado em um dos lados do altar, perto de um arbusto.

- Não machuque seu filho - diz o anjo. - Você já provou sua fé em Deus. O Senhor irá abençoá-lo com descendentes tão numerosos quanto as estrelas do firmamento.

Abraão dá as costas ao anjo e olha para Isaque. Pai e filho estão às lágrimas enquanto ele desamarra as cordas. Isaque olha para o local em que o anjo estava, mas ele não se encontra mais ali. Em vez disso, ambos veem, incrédulos, um pequeno cordeiro branco preso entre os galhos do arbusto.

Deus havia providenciado o cordeiro para o sacrifício.
Enquanto isso, Sara está subindo a montanha às pressas para tentar impedir Abraão antes que seja tarde demais. Mas ela é velha, de modo que não consegue andar muito rápido. Em seu coração, ela teme que a tragédia seja inevitável e que nunca mais tornará a ver seu amado Isaque. Seu filho adorado, pelo qual ela esperou 100 longos anos, talvez esteja morto. Mesmo assim, ela segue adiante, sem parar para descansar. Com a respiração pesada, ora pela vida de seu filho. Por fim, dá um último passo e chega ao topo.

Uma vez ali, Sara vê a cabeça, os olhos e o belo e radiante sorriso do seu isaque. Ele está vivo. Isaque corre em direção à mãe, seguido por Abraão. Sara envolve seu menino nos braços, soluçando e gritando palavras de louvor a Deus.
Abraão se junta ao abraço. Sua fé em Deus havia sido testada, mas ele sem dúvida passara no teste.
Anos após sua morte, os bisnetos de Abraão fundarão as 12 tribos de Israel, que serão assim batizadas porque seu pai, Jacó (filho de Isaque), também é chamado de Israel. Isso, no entanto, não garante que a harmonia se espalhe pela região, ou mesmo o surgimento de um reino poderoso, pois há grande rivalidade entre os irmãos. Essa inveja intrafamiliar é em grande parte direcionada a José, o décimo primeiro filho. Jacó não escondia que o rapaz de 17 anos era o seu favorito. Os demais irmãos tramam às escondidas uma maneira de se livrar dele.

Um dos símbolos do amor de Jacó por José é uma deslumbrante e suntuosa túnica multicolorida. Jacó não possui o bom senso de tratar todos os filhos com igualdade. Como Abraão havia descoberto no passado, qualquer grupo - seja ele grande ou pequeno - precisa de uma liderança sábia, e é isso que falta a Jacó. Dada a José como um presente, a túnica passou a simbolizar tudo o que os irmãos desprezam a seu respeito. O mais sensato seria não usá-la, mas o rapaz não consegue evitar, o que só serve para deixar os outros ainda mais furiosos.

Um dia, nos campos que se estendem para além da propriedade da família, os irmãos encurralam José. Eles o derrubam no chão e se juntam ao redor dele. Simeão, um dos irmãos mais velhos, puxa com raiva a túnica vistosa.

- Dê isso para nós - exige ele.

- Não - retruca José, desafiador.

Em seguida, ouve-se o som de tecido se rasgando. Os irmãos riem e puxam vigorosamente a túnica, enquanto José grita de agonia. Empurram sua cabeça contra o chão e chutam terra em seu rosto. A situação rapidamente foge ao controle e logo fica óbvio que os rapazes pretendem fazer muito mal a José.

- Vou matá-lo - promete Simeão.

- Não - diz Rúben. - Não devemos derramar o sangue do nosso irmão.

Ninguém sabe o que fazer, mas eles também têm consciência de que não podem parar o que começaram. José é arrastado pelos braços pelo chão pedregoso, engasgando com poeira e temendo pelo pior.

- Olhem! - diz Judá.

José logo compreende qual será o seu destino. Ao olhar para onde seu irmão aponta, vê uma fileira de animais de carga e uma fila indiana de homens atados uns aos outros. Trata-se de uma caravana de escravos que atravessa Israel a caminho do Egito com um novo lote de homens para ser vendido.

Pouco tempo depois, José observa, incrédulo, um saco de moedas ser passado para as mãos de Simeão. Os mercadores de escravos o agarram e passam uma corda pelos seus punhos e pescoço. Vestido agora apenas com uma tanga esfarrapada, ele tropeça na areia. Mas, no mesmo instante, um puxão da corda em volta do seu pescoço o obriga a seguir em frente.

Os irmãos de José não sentem nenhuma tristeza enquanto o observam ser conduzido para uma vida de escravidão. O que está feito, está feito. Agora, eles devem encontrar uma maneira de ocultar do pai seu gesto desprezível.
A túnica de José jaz em frangalhos na terra rachada. Simeão e os outros irmãos derramam sangue de um bode morto sobre o tecido até ele estar encharcado. Então, assumindo as expressões mais solenes e inconsoláveis de que são capazes, eles se aproximam do pai para lhe dar a terrível notícia.

Simeão puxa a aba de entrada da tenda de Jacó e mostra a túnica ao pai.

- Não... - diz Jacó, o sorriso desaparecendo do seu rosto. Ele passa a mão por um dos buracos no tecido. - Um animal selvagem fez isso?

Simeão encolhe os ombros, impotente.

- Só pode ter sido. Não vimos o que aconteceu.

- Por quê? - brada Jacó para os céus. - Ó, Senhor, por quê?

Ele enterra o rosto na túnica. Benjamim, que aos 10 anos é o mais jovem de seus filhos, observa a cena, desamparado. Ele jurou manter silêncio e sabe muito bem que não deve trair seus irmãos. O rosto de Jacó, agora sujo de sangue, logo é manchado pelas lágrimas. Seu filho está morto. Nunca mais voltará a vê-lo.

José é vendido para uma família egípcia rica e parece ter garantido para si mesmo uma vida de tranquilidade. Porém, quando resiste às investidas românticas da esposa de seu dono, ela mente e diz ao marido que foi José quem agiu de forma imprópria - e não ela. De repente, sua vida parece estar indo de mal a pior. Ele é expulso da casa e atirado na prisão. O tempo passa e José fica esquelético e imundo por conta dos meses passados em condições precárias e desumanas.

Porém, ele é um homem otimista e conserva um bom coração, mesmo nos momentos mais difíceis. Logo faz amizade com seus companheiros de cela, ambos ex-funcionários do palácio real - um deles é copeiro e o outro, padeiro. José tem o dom de ouvir a Deus com reverência e atenção. Isso faz com que ele consiga interpretar o significado dos sonhos. Durante seu tempo na cadeia, não tem medo de dividir esse dom com seus dois companheiros e decifrar seus sonhos.

- E o que significa meu sonho? - pergunta o padeiro certa manhã. Os três homens se sentam no chão sujo da cela, suas correntes retinindo sempre que eles tentam se mover. - O dos pássaros e dos cestos.

José fecha os olhos para se concentrar.

- Você estava carregando três cestos de pão?
Sim! E então os pássaros me atacaram e comeram o pão!

José se concentra mais.

- Daqui a três dias... - Ele levanta a cabeça e encara o padeiro. - Você será executado - diz José, solenemente. Vira-se para o copeiro: - E você será libertado.

A execução ocorre, como José havia previsto. Logo em seguida, o copeiro é libertado da prisão, deixando José sozinho na cela. Ele passa seus dias ajoelhado, orando, na esperança de adivinhar o plano de Deus para sua vida. O relacionamento dos homens com Deus parece incompreensível, mas José tem a sensação de que o Senhor está olhando por ele.

Certo dia, a luz invade a cela de José quando um carcereiro entra para limpar a sujeira do seu corpo. José sente um aperto no coração, pois sabe que ser banhado só pode significar uma coisa: um encontro com o faraó - que, obviamente, também significa execução.

Logo as mãos de José estão atadas atrás das costas. Ele é tirado da cela e conduzido até o salão do trono. Por ser um forasteiro, prisioneiro e escravo, José sabe que sua vida não tem o menor valor para o soberano. Não obstante, ele mantém a cabeça erguida, depositando sua fé em Deus.

O faraó entra no salão e se senta no trono. Ele meneia a cabeça e José ouve o ruído de uma espada sendo desembainhada. Porém, em vez de sentir a pressão da ponta afiada em suas costas, José percebe, pasmo, que as cordas de seus punhos estão sendo cortadas. A parte chata da lâmina encosta nas pernas dele, forçando-o a se ajoelhar no chão.

O copeiro que José conheceu na prisão dá um passo à frente e oferece uma bebida ao faraó. O soberano a aceita, bebericando lenta e pensativamente da taça de ouro antes de limpar a garganta para falar.

- Venho tendo sonhos estranhos - diz ele a José. - Meus magos não são capazes de decifrá-los. Mas fui informado de que você seria.

- Não - fala José, seu rosto colado ao chão. - Deus é capaz de decifrá-los. Através de mim.

- O deus de quem? - pergunta o faraó, sua voz cheia de desdém. - O seu Deus?

José ousa erguer os olhos.

- O que sonhou? - arrisca-se a perguntar. A espada toca sua nuca, obrigando-o a baixar os olhos novamente. É assim que ele fica enquanto ouve o faraó descrever seu sonho.

- Eu estava às margens do Nilo - começa a falar o faraó - quando de repente saem do rio sete vacas, gordas e saudáveis. Então outras sete vacas, magras e feias, devoram as primeiras sete por inteiro. Depois, tive um sonho diferente. Sete espigas cheias de trigo brilham sob o sol, para em seguida serem devoradas rapidamente por sete espigas podres, mirradas e castigadas pelo vento. - Ele torna a beber, pensativo. - O seu Deus consegue explicar isso?
José fica em silêncio, imerso em orações. Ele espera pacientemente pela voz de Deus. No instante em que o faraó está prestes a perder a paciência, José se pronuncia, seu olhar ainda voltado para o chão de pedra.

- As vacas e os grãos são a mesma coisa - diz ele.

- O que quer dizer?

- Haverá sete anos de fartura. Mas eles serão seguidos por sete anos de fome. O senhor precisa armazenar comida para se preparar para esse tempo.

- Não haverá fome - diz o faraó com altivez. - O Nilo sempre irriga nossas plantações. Todos os anos, sem falta.

- O senhor não entende: haverá fome. - José se detém de repente, quase engasgando. Em um piscar de olhos, a ponta da espada está debaixo do seu queixo. Ela o força a levantar a cabeça e encarar o faraó, que a essa altura está furioso.

- Você ousa contradizer o faraó?

José escolhe suas próximas palavras com cautela, pois sabe que podem ser suas últimas.

- O senhor mesmo é que está contradizendo o seu sonho.

- Prossiga.

- Façam estoque de trigo. Armazenem parte da colheita quando ela for boa. Se não fizerem isso, o povo passará fome. Esse é o significado do seu sonho.

O faraó se levanta e desce do trono.

- Estou impressionado com sua convicção. Considere-se livre, mas com uma condição.

- Qual é ela, faraó?

- Você terá a responsabilidade de dizer às pessoas que elas devem fazer estoque de suas colheitas.
A profecia de José se prova verdadeira. Graças ao poder que o faraó lhe concedeu, ele consegue obrigar os lavradores de todo o Egito a estocar suas colheitas. I sso impede que a nação passe fome quando chegam os tempos difíceis.

Para José, a providência divina é responsável por essa reviravolta em sua sorte. Este será, para o resto de sua vida, um lembrete de que sempre há esperança, mesmo nos momentos mais sombrios. Seu sucesso faz com que seja incorporado à sociedade egípcia. Um anel com sinete é colocado em seu dedo. Seus olhos são pintados com delineador, para que os fortes raios de sol não os queimem. Ele usa uma peruca negra e lisa e seu queixo está sempre muito bem barbeado.

José logo se torna um dos homens mais populares do Egito, seu prestígio superado apenas pelo do faraó. Ele chega até a assumir o nome egípcio de Zafenate-Pa-neia. Graças a José, a riqueza do faraó aumenta imensamente - embora à custa de muitos egípcios, que são obrigados a vender suas terras para sobreviverem à fome.
E não é só o Egito que sofre com os sete anos de seca. Os povos de nações vizinhas padecem à medida que suas plantações murcham e morrem. Milhares e milhares de estrangeiros chegam ao Egito, que se tornou lendário por seus celeiros abastecidos. Dentre eles, estão os irmãos de José, enviados até ali por Jacó para comprar trigo. Se não fizessem isso, sua linhagem chegaria ao fim, pois todos morreriam de fome em Israel.

Um dia, José vê seus irmãos no meio da multidão enquanto passa por uma movimentada rua da cidade em sua carruagem. Na mesma hora, ordena que eles sejam levados para sua residência no palácio. José nunca falara a ninguém sobre a maneira dolorosa como seus irmãos haviam mudado sua vida, mas tampouco jamais se esquecera daquilo. Agora, ele tinha o poder de mudar a vida de seus irmãos - para o bem ou para o mal -, assim como eles fizeram com a sua.

Os irmãos de José são levados por guardas armados até uma sala de visitas formal. A parte chata da lâmina de uma espada atinge a parte de trás das pernas de Simeão, como um lembrete de que ele deve se ajoelhar. José entra na sala com toda a graça majestosa com que aprendeu a se portar durante sua longa ascensão ao poder. Graças à peruca e ao delineador nos olhos, seus irmãos não conseguem reconhecê-lo.

Eles se encolhem enquanto José analisa seus rostos. Pode fazer tudo o que quiser com eles: aprisioná-los, escravizá-los, até condená-los à morte. Contudo, os pensamentos de José estão sempre voltados para Deus. Ele mostra aos irmãos o mesmo amor e misericórdia que o Senhor sempre lhe mostrara, especialmente quando os tempos eram tão duros que mal havia uma centelha de esperança em sua alma.

- Alimente-os - ordena José.

Seus irmãos não acreditam nos próprios ouvidos. Jamais poderiam sonhar com tamanha bondade. Assim que são liberados, saem da sala de visitas e veem que seus burros estão sendo carregados com várias sacas de trigo para que as levem de volta para Israel. Em nenhum momento suspeitam que José seja o irmão deles.

Mas José ainda não acabou. Sua bondade tem um preço, pois ele quer saber se seus irmãos se emendaram e aprenderam a ter compaixão pelo próximo. Para tanto, ele bolou um plano: escondida dentro de uma das sacas de trigo, há uma taça de prata. Os guardas foram instruídos a cortar a saca em questão, revelando a taça, e acusar seus irmãos de roubo. É aí que começa o teste de José.

Tudo ocorre conforme o planejado. Simeão, Judá, Benjamim e os demais aguardam pacientemente enquanto seus burros são carregados com as sacas de trigo. Um guarda finge notar algo suspeito quando os homens estão prestes a partir e corta uma das sacas para examinar uma estranha protuberância. Quando a taça de prata cai no chão, os irmãos de José são agarrados e imediatamente levados de volta à presença de José.

Os irmãos tornam a se ajoelhar, desta vez mais aterrorizados do que antes.
- Fui informado de que este homem é o culpado - diz José para seus irmãos, olhando para Benjamim. Ele escolheu deliberadamente o irmão mais jovem para culpar, pois, entre todos, somente ele não se envolvera na venda de José para a escravidão.

- Benjamim jamais roubaria - implora Simeão.

- Silêncio - vocifera José. - Voltem para casa. Todos vocês. Exceto este aqui; ele será meu escravo.

Todos os irmãos erguem o rosto, rogando em uníssono:

- Não! - exclamam. - Por favor! Nós imploramos!

José se põe a examiná-los, divertindo-se com a situação.

- Não podemos deixá-lo - protesta Judá.

- Isso mataria nosso pai! - concorda Simeão.

- Eu serei seu escravo no lugar dele - acrescenta Judá.

Simeão protesta ao ouvir isso, dizendo que é ele quem deveria ser escravizado.

- Silêncio! - torna a ordenar José. Ele precisa se esforçar para manter a com-oostura. Todos os irmãos colam o rosto ao chão, temerosos. Com um gesto de mão, José dispensa todos os guardas. Quando eles vão embora, José agiganta-se diante dos irmãos.

- Traga o nosso pai até aqui - diz ele com um sussurro rouco.

Desconcertado, Simeão lança ao homem um olhar furtivo, que a essa altura já

orou sua peruca egípcia.

- José? - pergunta Simeão, pasmo.

Os outros erguem os olhos.

José esperou muitos anos por este momento.

- O que me fizeram foi errado - diz ele para os irmãos. - Mas Deus corrigiu o erro de vocês. Ele olhou por mim. Eu salvei muitas vidas, graças a Ele.
?s irmãos fazem conforme lhes é ordenado: voltam para casa e trazem Jacó (Israel) para o Egito, de modo que ele possa reencontrar o filho. Toda a família está reunida novamente. Mas eles estão no lugar errado, e sabem disso. Pois, embora vivam com luxo, aquela não é a terra que Deus prometera a Abraão.

Para piorar, a seca que José previu significa que milhares e milhares de pessoas serão forçadas a abandonar suas terras ao longo das próximas gerações. O povo de Israel viajará para o Egito em busca de comida. Eles construirão os grandes calácios e monumentos egípcios, trabalhando durante todo o dia, sob o sol escaldante do deserto, e se tornarão escravos de um grande faraó.

Mas serão salvos por um assassino, um foragido, um homem que terá a mais extraordinária relação com Deus.

O nome dele é Moisés.

PARTE DOIS

ÊXODO

Quase 500 anos se passam desde a morte de Abraão. As margens do rio Nilo estão banhadas de sangue. Os descendentes de Abraão se encontram a centenas de quilômetros da Terra Prometida, e há uma geração que nenhum deles sequer a vê. Eles são escravos no Egito, mas também são um povo duro e orgulhoso. Conforme Deus prometeu, tornaram-se tão numerosos quanto as estrelas no firmamento - tão numerosos, na verdade, que se viram diante de um terrível mal: a prática do infanticídio. Temendo que seus escravos hebreus iniciassem uma revolta contra sua autoridade, o faraó egípcio enviou soldados por toda a região para matar todas as crianças israelitas do sexo masculino.

As mães choravam enquanto seus filhos eram arrancados de seus braços e levados embora em plena luz do dia. A visão aterradora de carroças repletas de bebês aos berros era comum. Mas eles não gritavam por muito tempo. Os soldados simplesmente os atiravam no Nilo, onde se afogavam ou se tornavam refeição fácil para os lendários crocodilos do rio.

Contudo, uma corajosa mulher judia toma medidas extremas para salvar seu filho. Há três longos meses que ela vem ocultando seu menino dos soldados egípcios. Agora, ela tenta salvar a vida dele embrulhando-o em uma manta e escondendo-o dentro de um cesto. O cesto simples, conhecido como tevah, que significa “arca”. Assim como Noé foi escolhido por Deus para salvar o mundo, aquela mulher construiu uma segunda arca para carregar um menino que se tornará um homem e continuará o trabalho iniciado por Noé.

É então que vem a parte difícil de sua decisão - tão difícil que a mãe não é capaz de testemunhar. Por isso, pede a sua filha Miriã que esconda o cesto em meio aos juncos às margens do Nilo, sabendo que inúmeras coisas terríveis podem acontecer ao seu bebê: crocodilos, cobras de l,80m de comprimento, víboras mortíferas. E, é claro, a criança ainda poderia ser levada pela correnteza, deixando Miriã de mãos atadas, observando seu irmão flutuar em direção à morte.

Miriã não quer fazer isso, mas não tem escolha. Ou esconde o irmão em meio aos juncos ou o destino dele será a morte nas mãos dos soldados egípcios. Melhor tomar alguma atitude - por mais insensata que seja - do que deixá-lo ser arrancado do seio de sua mãe e atirado nas águas azul-escuras do Nilo. Então ela fica ali, impotente, observando a cena. Tenta permanecer calma enquanto observa a pequena arca ser lentamente carregada pelas águas.

Bátia, a filha do faraó, tem o hábito de ir ao Nilo todas as manhãs com suas A filha do faraó, no entanto, percebe a sabedoria que existe neste plano.

- Faça isso agora mesmo - ordena ela.

Miriã vai correndo até sua mãe para lhe contar sobre o novo lar de Moisés e para lhe dizer que precisa de uma ama de leite. Sua mãe chora de alegria. Seu filho irá viver.
Dezoito anos depois.

O príncipe Moisés olha para a frente enquanto a serva aplica o delineador preto que irá proteger seus olhos dos raios de sol e dos nocivos grãos de areia do deserto. Ele é um jovem forte, idealista e otimista. Cresceu na corte do faraó como neto adotivo e nunca teve um só dia de medo, preocupação ou dificuldade. Cada desejo seu é concedido e cada capricho, providenciado - ao contrário dos escravos hebreus que trabalham duro para o faraó, dos quais ele nem desconfia ser descendente. Poucos conhecem a verdadeira história de Moisés, inclusive ele próprio.

A serva posiciona-se atrás de Moisés para prender o amuleto em volta do seu pescoço, como faz todas as manhãs. O talismã garantirá sua segurança e boa sorte, embora, considerando o ambiente luxuoso em que Moisés vive, usá-lo é mais um ritual para satisfazer os muitos deuses do Egito.

Bátia, sua mãe, entra no quarto de vestir com uma expressão muito preocupada. Ela já não é a adolescente que trouxe Moisés para o palácio tantos anos atrás, mas ainda conserva grande beleza.

- Moisés, não me diga que vai lutar novamente - reclama.

O príncipe se levanta, vestido para o combate. Ele parece imenso diante de Bátia. Seus bíceps musculosos e seu peito bronzeado são um lembrete de que passou muitas horas treinando a arte da luta.

- Ele continua a me desafiar, mãe - responde Moisés, tranquilamente.

- Então ignore-o!

- Não posso. - Uma espada está apoiada contra um banco próximo dali. Moisés vai apanhá-la, agarrando-a com as duas mãos. - Não tenho escolha.
O retinir de espadas logo ecoa pelo pátio do palácio. De um lado da arena, Moisés, um espadachim habilidoso e precavido, com grande espírito competitivo. Do outro, um dos filhos de Ramsés e herdeiro do trono egípcio. Ambos empunham uma espada e um escudo. Eles não passam de adolescentes, mas um dia liderarão poderosos exércitos no campo de batalha, portanto, é fundamental que se preparem para a arte da guerra.

- Eu venho praticando - exclama o jovem Ramsés com falsa bravata. Ele trinca os dentes enquanto rodeia Moisés com cautela, seus olhos fixos na espada do adversário.

- Não precisamos fazer isso - diz Moisés, com a voz calma.

- Ah, precisamos sim - anuncia Ramsés, sentindo gotas de suor escorrerem pela sua testa e sobre seus olhos.

O som de espada contra espada chama a atenção do faraó para o duelo. Irritado, ele atravessa a passos rápidos as colunas e estátuas que adornam o palácio.

Bátia vem atrás dele, esforçando-se para acompanhar seu ritmo.

- Eles estão lutando outra vez - explica ela para o pai.

- Estou ouvindo.

- Faça alguma coisa! - pede Bátia, ansiosa.

- Eu lhe mandei controlar Moisés - responde o faraó com rispidez. - Você não conseguiu fazer isso. Agora espera que eu resolva o problema?

- Eles vão se matar! Pai... por favor...

O faraó lança um olhar impaciente e contrariado para a filha. Moisés tinha sido um acréscimo bem-vindo, ainda que não natural, à sua corte, mas agora o faraó está farto dele - especialmente porque Bátia adotara uma criança que é mais forte, mais sagaz e mais ambiciosa do que seu próprio filho. Se algo acontecesse a Ramsés, Moisés podería se tornar o herdeiro do seu trono, graças à considerável influência de Bátia. Isso não pode acontecer, e as coisas estão prestes a mudar.

- Quer que eu resolva isto? Pois bem, é o que vou fazer - diz ele com frieza.
Na arena, o jovem Ramsés se sente cada vez mais confiante. É uma confiança tola, em nada baseada nos fatos. Mas ele decide provocar Moisés.

- Você pode ser o preferido da minha irmã, mas eu sou o herdeiro direto do trono do meu pai, o faraó. Não se esqueça disso. - Ele se lança para a frente, golpeando o lado do corpo de Moisés com a espada.

Entediado, Moisés evita o golpe, e tudo o que resta do ataque é o ruído da lâmina ricocheteando nas paredes lisas de pedra que cercam a arena.

Quando Ramsés percebe que Moisés não tem intenção de revidar, ele investe outra vez, golpeando com força o escudo do adversário com sua espada. Moisés chega até a apoiar um joelho no chão, como se quisesse mostrar que aquele duelo era inútil, mas os ataques prosseguem.

- Rá! - exclama Ramsés. - Eu fiz você se ajoelhar!

Moisés se levanta. Ele mantém seu escudo erguido, mas deixa sua espada pender, sem uso, junto ao chão.

- Chega. Não quero machucar você.

- Lute, Moisés. Isso é uma ordem!

Moisés, no entanto, lhe dá as costas. Furioso, Ramsés corre em sua direção e o ataca por trás. Essa atitude viola toda e qualquer regra de combate, e ambos sabem disso. Farto do comportamento do tio, Moisés se vira de volta e luta. Ele desfere uma série de golpes contra o escudo de Ramsés enquanto fala, como um irmão mais velho para um caçula impertinente:

- Não irei mais tolerar este comportamento ridículo.

Ramsés cai, apoiando-se em um joelho, e se encolhe atrás de seu escudo, na esperança de que Moisés não dê o próximo passo e o mate.

O faraó chega bem a tempo de ver Moisés humilhando seu filho, fazendo o futuro soberano parecer fraco e incapaz. Bátia e vários cortesãos estão ao seu lado, testemunhando a vergonha de Ramsés. Logo o boato se espalhará pelo palácio e pelos vilarejos mais próximos, e todos pensarão que Moisés é quem deve ser o próximo faraó.

- Pare! - vocifera o soberano.

Moisés, contudo, está decidido a lhe dar uma bela surra. Ele volta a se atirar sobre o jovem Ramsés, jogando-o contra uma parede coberta de hieróglifos.

- Basta! - insiste o faraó. - Deixe-o em paz!

Moisés nunca teve intenção de matá-lo, mas o jovem Ramsés está ofegante. No calor do momento, a lâmina da espada de Moisés raspa com força a maçã do rosto de Ramsés. Um talho se abre e o sangue jorra do ferimento. Não é fatal, mas deixará uma horrível cicatriz quando sarar.

- Moisés! - vocifera o faraó.

Intimidado, Moisés afasta os olhos de Ramsés para encarar o soberano.

Ramsés grita para Moisés em agonia:

- Você vai pagar por isto! Eu serei faraó. Eu serei Deus! - Ele então se volta para o pai: - A culpa é toda sua. Nunca deveria tê-la deixado ficar com ele. - Ele cospe um pouco de sangue e lança uma última farpa contra Moisés: - Você nem é um de nós!

- Ele tem razão - diz o faraó para Bátia.

Moisés olha para a mãe, que vira o rosto. A verdade começa a emergir.

- Do que ele está falando?

- Conte para ele - ordena o faraó à filha. Com estas palavras, tanto o soberano quanto Ramsés, que ostenta um sorriso maldoso, deixam a arena seguidos por um pequeno exército de cortesãos aflitos.

O príncipe Moisés, a essa altura muito confuso, fica sozinho com Bátia.

- O que tem para me contar, mãe? - pergunta ele, sem saber ao certo se quer ouvir a resposta.

Bátia baixa a cabeça, mas se mantém calada.

- O que foi? - implora Moisés. - Conte para mim. Quem é meu pai?

Uma lágrima escorre pelo rosto de Bátia.

- Moisés, eu o amo como se fosse meu filho. Mas você não é sangue do meu sangue.
Então... quem é minha mãe? - balbucia ele, chocado. - De onde eu vim?

Bátia começa a falar, as palavras saindo em enxurrada de sua boca.

- Você é filho de escravos - explica ela, aninhando com ternura o rosto de Moisés nas mãos. - Papai matou todos os meninos recém-nascidos do seu povo... pois eles eram muitos e constituíam uma ameaça.

- Assim como sou agora uma ameaça para Ramsés.

- Sim.

- O que quer dizer quando fala “meu povo”?

Bátia o leva até uma janela. Ao longe, eles podem ver os hebreus trabalhando sob o sol quente.

- Os escravos, Moisés. Você era uma criança escrava. Eu o salvei. Você tem um irmão e uma irmã, mas eles não são como nós. Eles adoram o Deus de seu ancestral, Abraão, e esse Deus os abandonou.

- E minha mãe de verdade? Onde ela está?

Bátia se cala. Moisés sai às pressas da arena. Ele precisa ver aquele povo - o seu povo - com os próprios olhos.

Assombrado pelas palavras da mãe, Moisés caminha sem rumo. Sente-se aterrorizado diante da visão de escravos sendo espancados e depois chutados quando caem ao chão. Ele observa homens, mulheres e crianças trabalharem sob o sol escaldante. O calor é infernal. Seus rostos estão cansados e seus espíritos, aniquilados. Seu povo não tem esperança ou futuro. Em seus 18 anos na corte do faraó, Moisés nunca tinha nem sequer olhado para aquela gente. Sempre haviam estado abaixo deles, um povo à parte que nunca merecera sua atenção. Até agora, ele jamais havia testemunhado a crueldade a que eram submetidos no dia a dia. Seu coração está em conflito, pois Moisés poderia ser um deles. Em algum lugar entre aquelas pessoas está a família que ele nunca conheceu.

Então, Moisés ouve um grito angustiado. Ele se vira e vê um escravo israelita sendo arrastado para uma construção próxima dali.

- Por favor, não! - grita o escravo.

Moisés segue os sons até um canto escondido, onde encontra um feitor de escravos espancando um rapaz com um grande porrete.

- Escravo asqueroso - diz o homem com desprezo, cuspindo no hebreu.

Ele desfere golpe atrás de golpe enquanto o rapaz se encolhe e tenta proteger j rosto. Moisés não sabe o que fazer. Aquilo não é problema dele. O escravo deve ter feito algo para merecer aquela surra. Contudo, ao ver o porrete se erguer no ar e descer de volta repetidas vezes, Moisés sente que não pode mais ser um espectador passivo. Sem se dar conta das implicações de sua atitude, o príncipe Moisés - residente do grande palácio do faraó e reconhecido em toda a região como filho de Bátia - vai em direção ao feitor de escravos e apanha um pedregulho do chão. Ele se aproxima do homem pelas suas costas e levanta a pedra bem acima da sua cabeça.

O feitor se vira bem a tempo de ver Moisés se preparando para desferir o golpe que esmagaria seu crânio e o mataria imediatamente. O homem estende a mão e, por instinto, agarra o amuleto dourado que pende do pescoço de Moisés, conseguindo de alguma forma enroscá-lo em seu punho. Isso não basta para protegê-lo do golpe. Mas, quando cai no chão, o amuleto continua enrolado em seu punho cerrado.

Moisés olha, aturdido, para o egípcio morto aos seus pés. Não sabe ao certo o que fazer em seguida. Por fim, sai correndo dali.
O feitor foi enterrado às pressas por outros escravos para ocultar o crime. Em vez de uma lápide majestosa como aquelas dedicadas aos faraós ou aos membros da alta sociedade egípcia, seu corpo foi simplesmente jogado em um buraco aberto no chão duro do deserto e nele enterrado. Os escravos hebreus se encarregaram do trabalho árduo de cavar a sepultura, e como não poderia ser diferente para o cadáver de um homem cruel odiado havia tempos, a cova é tão rasa que mal oculta o corpo. Apenas uma fina camada de terra é jogada para cobri-lo.

Mais tarde, uma chuva forte começa a cair, trazendo um alívio bem-vindo para o calor opressivo. A água arrasta a terra de cima da sepultura, revelando a mão do feitor morto ainda segurando o amuleto de ouro arrancado do pescoço de Moisés. Não são abutres ou cães selvagens que encontram o corpo, mas sim soldados do faraó, que levam o príncipe Ramsés até o local.

Um soldado ilumina com uma tocha um pedaço de metal reluzente preso à mão do cadáver. Ramsés se inclina para enxergar melhor e, curiosamente, o que vê é um artigo de ouro que conhece muito bem: o amuleto de Moisés. Ramsés sorri. Aquela é toda a prova de que necessita. Não é preciso dar continuidade à investigação. Moisés é o assassino. A chuva continua a cair, mas o príncipe não sente uma só gota dela.

- Bem-vindo à sua nova vida, Moisés! - vocifera, exultante. - Agora, você não é mais nada. Nada!

Ao anoitecer, a notícia do terrível crime já se espalhara por todo o reino. Na calada da noite, tochas são usadas para vasculhar o deserto em busca de pistas sobre o paradeiro de Moisés, que é agora um fugitivo da justiça egípcia.

- Vamos capturá-lo - diz um dos principais comandantes do faraó.

- Não. Deixe-o fugir - responde Ramsés. A humilhação do duelo com o sobrinho continua fresca em sua memória, alimentando sua sede de vingança. -Não há água no deserto. Nem comida. Em breve, ele estará morto.
Quatro décadas se passam.

Ramsés agora ocupa o trono egípcio; a cicatriz deixada por Moisés é um lem-rrete cotidiano de que seu arqui-inimigo está em algum lugar lá fora.

Moisés conseguiu escapar naquela noite, tantos anos antes, depois de assassinar o feitor de escravos, mas nunca teve a oportunidade de se despedir de Bátia :u de agradecer-lhe por ter salvado sua vida quando ele era apenas um bebê. Sua •ida de príncipe não passa de uma lembrança distante. Ele agora é um pastor e •dve na região de Midiã, na península arábica, fadado a passar seus dias sozinho com seu rebanho. É uma vida dura e solitária. Sua barba é longa e seu rosto está ressecado e curtido pelo sol. Seu corpo tornou-se enrijecido e forte por ter so-r revivido às intempéries.

Enquanto a lona da tenda se agita violentamente sob o vento do deserto, Moisés se agarra a ela com todas as suas forças. A areia castiga sua pele e ele fecha os olhos com força para evitar que ela os atinja. A tenda está prestes a ser soprada para longe, então ele crava as estacas mais fundo no solo, batendo em sua extremidade com uma grande pedra achatada. Cada vez que Moisés bate com a pedra nas estacas de madeira, seus pensamentos são levados de volta ao Egito. O som e o movimento são muito parecidos com os que fez quando esmagou o crânio do feitor de escravos. Moisés é constantemente assombrado por imagens de sua terra natal.

Crack - ele vê os escravos no canteiro de obras.

Crack - as faces desconhecidas de escravos encarando-o na multidão.

Crack - o rosto ensanguentado do homem que ele matou.

Crack - uma mulher carregando um jarro d agua. Será sua irmã?

As mãos de Moisés estão sangrando. Ele se obriga a esquecer o Egito para salvar sua tenda. O vento sopra mais forte, devastando tudo ao redor. Um pequeno arbusto, arrancado pelo vendaval, passa rolando por ele até parar a poucos me-ms de distância, aparentemente preso a uma rocha.

Moisés pega uma corda para prender a tenda, mas ela se solta das suas mãos calejadas. Não importa - a tenda finalmente parece estar firme. Lançando um último olhar para as ovelhas, que pressionaram seus corpos rente ao chão, ele entra cambaleando em sua tenda para esperar a tempestade passar. O vento continua a soprar forte. Moisés se enrola em uma manta áspera. Vira de um lado para o outro, tentando dormir por algumas horas enquanto os relâmpagos estouram lá fora. Por um breve instante, a noite fica clara.

Então, silêncio.

Moisés, no entanto, não fica em paz. Depois de horas de barulho, aquele silêncio repentino é preocupante. Ele abre os olhos, pestanejando. Levanta-se e sai da tenda aos tropeços para confirmar se a tempestade de fato passou.
Espera ver apenas escuridão. Talvez uma nesga de luz das estrelas em um céu tomado pelas nuvens. Espera ver um ou outro relâmpago crepitar no horizonte. E, o que é pior, espera encontrar seu rebanho espalhado por toda parte, o que significaria mais uma longa noite vagando pelo deserto para recolher os animais e trazê-los de volta para aquele pequeno torrão de capim seco que ele ousa chamar de pasto.

Mas não vê nada disso.

O que vê é muito mais perturbador: o pequeno arbusto que havia passado rolando à sua frente mais cedo agora está totalmente em chamas. Porém, suas folhas e galhos não se consomem. Tampouco há cheiro de fumaça. É apenas uma grande labareda, tão brilhante quanto o sol do meio-dia.

Moisés se aproxima com cautela, com medo do calor intenso. Ao fazer isso, as chamas começam a rugir, emitindo um som distorcido. Moisés chega mais perto. Ele protege o rosto com a mão para não ser queimado pelo calor ou cegado pela luz.

Ao longe, um trovão ribomba com um rosnado grave. Em meio a esse rosna-do, contudo, Moisés ouve uma voz:

- Moisés! Moisés!

- Estou aqui - responde ele com cautela.

Então vem o estrondo ensurdecedor de um trovão. Moisés leva as mãos aos ouvidos, deixando seus olhos expostos à intensidade do arbusto em chamas.

- O Senhor é real?

As chamas brilham tão intensamente que Moisés precisa proteger os olhos.

- EU SOU - diz-lhe a voz. - EU sou o Deus do seu pai. O Deus de Abraão. O Deus de Isaque. O Deus de Jacó.

Moisés esconde o rosto, pois tem medo de olhar para Deus.

- O que o Senhor quer de mim? - pergunta ele.

Outro trovão. Este faz Moisés saltar para trás, em pânico.

- Eu compreendo o sofrimento do seu povo... do Meu povo. Ouço-os todos os dias em Meus sonhos. Eles clamam por liberdade - fala Deus.

Um vento forte sopra ruidosamente. Com um rugido, as chamas do arbusto se alargam, erguendo-se ainda mais alto. Desta vez, no entanto, Moisés não fica com medo e se aproxima do arbusto. Ele escuta as instruções de Deus, mas fica confuso.

- Libertá-los? Como posso libertá-los? Não sou mais um príncipe. Não sou nada. Por que eles me dariam ouvidos? Deve estar havendo um engano. Deve haver alguma outra pessoa que possa fazer isso.

As chamas sobem mais alto em resposta. Elas então se estendem na direção de Moisés, envolvendo-o. Contudo, ele não se queima. Em vez disso, sente uma nova força correr pelas suas veias. Ele é invadido por uma incrível sensação de propósito.
- Eu farei o que me pede - diz ele, sua voz agora decidida. - Devo dizer que *_i enviado por quem?

Moisés ouve a resposta no vento. Neste exato momento, o fogo se apaga. O arbusto continua ali, intacto.

- Senhor - maravilha-se, brincando com a palavra em sua língua. - Senhor... i i farei o que me pede. Eu libertarei o Seu povo... o meu povo.

Moisés dorme profundamente pelo resto da noite. Ao amanhecer, ele conduz seu -eoanho até o Egito. Venderá os animais na primeira oportunidade. Pois seu Deus, : Deus de Abraão, está prestes a lhe dar um novo tipo de rebanho, muito diferente.

Mas cuidar dele não será tão fácil.

Para garantir que essa calamidade nunca aconteça, o trono fica em cima de um c anque. Logo em seguida, os lacaios - que não ousam olhar em sua direção -c -rregam um trono menor até lá e então o posicionam ao lado do trono maior. Esta cadeira real é reservada para o filho de Ramsés, que um dia receberá o status divino áe faraó. Comandar o Egito exigirá anos de paciência e prática, como o próprio Ramsés sabe muito bem. Seu império é o maior de toda a Terra, e ter sua posição agnifica ser adorado como se fosse um deus.

O filho de 10 anos de Ramsés é escoltado até o trono menor. Ele parece inti-—lidado e olha com nervosismo para o pai em busca de orientação sobre como ceve se comportar. Mas Ramsés não lhe demonstra nenhum afeto, nenhuma nstrução a respeito de como um grande faraó deve governar. Em vez disso, sim-c esmente chama um cortesão com um gesto, que logo dá um passo à frente e entrega ao menino uma carruagem de brinquedo. O menino ergue os olhos para o pai, que sorri e lhe garante:

- Um dia você terá todo um exército dessas carruagens... e elas serão de erdade.

Enquanto isso, em uma olaria bem longe daquela sala do trono, Moisés volta à cena do seu crime capital depois de atravessar o deserto. O cheiro da poeira fina do ar egípcio invade suas narinas e ele sente um arrepio de nostalgia ao pensar no palácio onde foi criado, em meio ao esplendor e ao luxo. Agora vê diante de si os escravos cobertos de pó e exaustos conduzindo carroças cheias de tijolos. O trabalho deles é essencial para a prosperidade do reino.

Moisés, a essa altura um idoso, foi incumbido de uma tarefa impossível: per-cadir o faraó a alforriar aqueles escravos. Eles devem ser libertados, mesmo que sso signifique o fim da glória do Egito.
- Tanto sofrimento... - balbucia Moisés, lançando o olhar sobre homens e mulheres que nunca conheceram a liberdade. Cobertos de pó, macilentos, castigados. Este é o seu povo. Miseráveis e enfraquecidos, eles não fazem ideia do que significa a liberdade. Para eles, é um ideal, um sopro de esperança, uma promessa distante de um Deus que há gerações e gerações não lhes dirige a palavra. Como Moisés, um assassino foragido que nunca viveu entre eles, irá convencer o faraó a libertá-los? E, mesmo que consiga, como irá liderá-los? A tarefa não é apenas impossível. É impensável. Moisés sente medo, mas foi convocado por Deus. Somente a lembrança daquele arbusto em chamas consegue ajudá-lo a combater seu impulso de dar meia-volta e retornar para a paz de sua montanha.

- Ei, velho - grita um feitor de escravos antes de trazer Moisés de volta à realidade com um empurrão. O homem ergue seu chicote para golpeá-lo, mas um escravo corpulento chamado Josué sai em defesa de Moisés bem a tempo.

- Não se preocupe, senhor. Não se preocupe - diz Josué, tranquilizando o feitor. - Acho que este homem está um pouco confuso. Deixe que eu cuido dele. Sinto muito.

O feitor olha para Moisés e Josué como se fossem lixo. Ele cospe uma grande bola de catarro no chão e se afasta lentamente, estalando seu chicote pelo caminho.

Josué puxa Moisés para um canto. Quando estão fora de vista, confronta o estranho que apareceu de repente.

- Você quer fazer com que todos nós levemos uma surra? - sibila Josué. - Eu mesmo deveria lhe dar uma, isso sim.

Moisés se limita a encará-lo.

- Quem é você? - pergunta Josué.

- Meu nome é Moisés.

Josué fica tão pasmo que dá dois passos para trás. Seus olhos ficam vidrados de espanto.

- Moisés? Você é Moisés?

- Sim.

- O Moisés?

Ele respira fundo. Aquela é uma prova de que não foi esquecido. Um chamado à luta.

- Isso mesmo. O Moisés.
Mais tarde, naquele dia, fica óbvio que nem todos estão contentes em ver Moisés. - O que você quer de nós? - pergunta um escravo chamado Ira.

Os anciãos israelitas se reúnem na pequena praça reservada à comunidade e a escrava. Moisés foi levado até ali por Josué e apresentado a todos. Os poucos jovens presentes mantêm um silêncio cauteloso.
Moisés assimila a cena enquanto reflete qual a melhor maneira de responder cquela pergunta. Ele passou toda sua longa caminhada de volta ao Egito buscando essa resposta, e agora sabe o que deve dizer. Ainda assim, não responde de imediato. Em vez disso, ergue os olhos para o céu, onde um pássaro voa em liberdade nas alturas. A ave inspira Moisés no momento em que ele mais precisa de inspiração. Quando finalmente se pronuncia, algo no seu tom de voz captura ■ atenção de todos.

- Estou aqui para libertá-los.

Ele ouve arquejos de espanto. Alguns parecem constrangidos.

- Quanta bondade, Sua Alteza - diz a voz irônica de Ira, que nomeou a si mesmo o porta-voz do grupo.

O comentário gera risadas na mesma hora, e Moisés é invadido por uma insegurança repentina. Mas não cede aos seus medos. Ele olha bem para os rostos dos homens à sua frente e percebe que, apesar das risadas, alguns estão bastante intrigados.

- Deus me enviou - acrescenta Moisés.

- Deus...? - pergunta Ira, cuja voz soa um pouco menos sarcástica.

- Sim. Deus me enviou para falar com vocês. Lembram-se de Deus? O seu Iriador? O Deus do seu ancestral Abraão? - Alguns homens saem das sombras para ouvi-lo. As gargalhadas e o desdém diminuem temporariamente. Moisés conquistou a atenção deles e não pretende perdê-la. - Bem, mesmo que tenham se esquecido de Deus, Ele não se esqueceu de vocês.

- Caso você tenha se esquecido, o faraó é o único deus que temos a temer -retruca Ira.

- Quem criou a terra, os mares e o céu? - insiste Moisés. - Ou, mais especifi-.amente, quem criou você? - Antes que Ira possa dizer uma só palavra, Moisés ccrescenta o seguinte à sua pergunta: - Foi Deus? Ou o faraó?

Atrás de Josué, Moisés vê uma mulher se juntar à multidão. Isso é muito in-comum, pois as mulheres normalmente deixam esse tipo de discussão para os homens. Ela está acompanhada de outro homem, mais ou menos da idade de Moisés, com os olhos atormentados e as faces cavadas de um escravo. Seu nome e Arão, e a mulher se chama Miriã.

Josué entra na discussão.

- Mas por que Deus enviou você? E por que o faraó lhe concedería uma audiência ou lhe daria ouvidos?

Agora Moisés está em terreno firme. Ele abre um sorriso matreiro.

- Ah, ele vai querer me ver. E estou certo de que irá ouvir cada palavra que eu disser.

Arão fala pela primeira vez.

- Ele tem razão.
- Deus me enviou um sonho - prossegue Arão. - Ele me disse que Moisés estava vindo. E que devemos ajudá-lo a conquistar nossa liberdade.

E então, para grande surpresa de Moisés, Arão o envolve em um abraço apertado.

- Bem-vindo ao lar, meu irmão. Eu sou Arão. E esta - acrescenta ele, apontando para a mulher - é Miriã. Sua irmã.

- Irmão - diz ela com ternura, tomando as mãos de Moisés nas suas.

Moisés a encara, chocado. Ele não tem palavras. Sente suas emoções virem à tona.

- Minha família - diz ele, tocando com carinho o rosto de Miriã. Então, vasculhando os olhos de todos os presentes, acrescenta: - Meu povo.

Todos os demais observam a cena, maravilhados, sem saber ao certo o que acontecerá em seguida. Neste momento de hesitação de Moisés, é Arão quem assume o controle, olhando dentro dos olhos de cada homem ali, desafiando-os a contestá-lo.

Ninguém faz isso.
Moisés envia uma mensagem ao palácio, solicitando uma audiência com Ram-sés. Conforme havia previsto, a simples menção ao seu nome é suficiente para que seja recebido pelo faraó. Logo em seguida, ele e Arão são escoltados pela grandiosa escadaria que leva ao trono de Ramsés, passando por pilares e estátuas esculpidas com requinte. O ar cheira a perfume e folhas de palmeiras. Tudo isso é novidade para Arão. Ele se esforça ao máximo para não demonstrar, mas sente um medo profundo de tudo o que esteja relacionado à realeza egípcia. Aquele é o covil dos poderosos, daqueles que esmagaram o povo israelita. Arão se encolhe ao passar pelos guardas, lembrando-se de todas as vezes em que um chicote fustigou sua carne. Embora tente manter a cabeça erguida, no fundo Arão tem certeza de que ele e Moisés jamais sairão vivos daquele palácio.

Moisés chega ao seu antigo lar com um cajado de madeira retorcido em uma das mãos, tão alto e imponente quanto no dia em que deu a Ramsés a cicatriz que o marcaria pelo resto da vida. Uma onda de recordações invade a mente de Moisés à medida que ele reconhece cada estátua, cada hieróglifo, cada porta. Enquanto se encaminha para a sala do trono, vez por outra cumprimenta algum velho amigo, trocando um sorriso ou um aceno de cabeça. Ao longo daqueles corredores em que brincou quando criança, ele reflete sobre o estranho rumo que sua vida tomou. Estar de volta ao lar, palácio sagrado, sob as atuais circunstâncias, é quase surreal.

Um cortesão conduz os dois israelitas até um grande salão. Ramsés está sentado em um imenso trono de ouro. Seu filho está sentado ao seu lado em uma réplica menor da cadeira real. Moisés sorri para o menino, que sorri de volta.

Você tem um filho - diz Moisés para Ramsés.

- Um herdeiro. Minha dinastia durará para sempre.

Moisés torna a sorrir para o rapaz, que desvia o olhar com timidez. Ele nota a cicatriz no rosto de Ramsés, tão visível quanto antes, mesmo depois de tantos anos. O faraó tem uma expressão severa. Os dois homens se encaram, recordando o passado.

- Você veio pedir perdão? - pergunta o faraó, ansioso. Ele esperou anos para auvir um pedido de desculpas.

Os guardas do palácio dão um passo à frente. Se Moisés desrespeitar o soberano, basta que este estale os dedos para que os dois homens sejam jogados no chão. Se Moisés tentar se aproximar do faraó, será morto.

Mas ele se mantém onde está.

- Deus me salvou - explica Moisés. - Por um motivo.

Em toda a corte, a atmosfera fica pesada, pois está claro que Moisés não está falando de um deus egípcio, mas sim do Deus de Abraão - uma divindade que : s egípcios não conhecem nem veneram.

- E que motivo seria esse? - pergunta o faraó, com uma expressão perplexa.

- Exigir que você liberte meu povo da escravidão.

- Exigir? - fala Ramsés, alisando distraidamente sua cicatriz com o polegar. Zle desce do seu trono e se aproxima do sobrinho adotivo. Os dois homens ficam cara a cara: um faraó e um hebreu. Em qualquer outra circunstância, Moisés teria sido derrubado e morto no mesmo instante pela ousadia de olhar nos olhos do soberano. Mas aqueles dois homens compartilham de uma história mais profunda, e este não é um momento qualquer.

Moisés não recua.

- Liberte o meu povo.

- Você sempre foi um guerreiro, mas nunca soube perceber quando é derrotado.

Moisés pesa suas palavras antes de responder.

- Isso porque você nunca me derrotou. Se desafiar Deus, receberá uma punição mais severa do que qualquer coisa que eu poderia imaginar infligir a você.

- Estou a um triz de lhe dar um murro na cara, Moisés - sibila Ramsés -, mas não pretendo reviver nossas disputas infantis, nas quais você sempre foi um cdversário desleal. Você mata um egípcio honrado, torna-se um fugitivo e então volta, depois de todos esses anos, para me ameaçar? Diga-me, caro Moisés, é o seu deus invisível que vai me punir? Aquele que abandonou seu povo? Aquele que fugiu de suas responsabilidades, de seu passado... de sua família? - Ramsés gesticula para os guardas. - Mostrem a ele quem é deus!

Os guardas, homens corpulentos e ameaçadores, cerram suas mãos em torno do pescoço de Moisés e Arão, empurrando-os para o chão de pedra. O filho do faraó observa Moisés e Arão serem espancados. A visão e os sons da surra são chocantes para a criança. Ramsés está mostrando ao filho, na prática, como age um faraó: qualquer insurreição deve ser sufocada com medidas enérgicas.

- Eu sou deus! - grita Ramsés enquanto eles são arrastados dali. - Eu. Sou. Deus.

- Não, Ramsés - exclama Moisés -, você não é Deus! É apenas um homem. E libertará o meu povo, para que todos possam prestar culto comigo no deserto!

Um chute violento na cabeça de Moisés o silencia, mas suas palavras ecoam pela sala do trono como uma maldição.
Uma semana depois, Moisés está caminhando pelas margens do rio Nilo com Ira, sua irmã Miriã e seu irmão Arão. Ele sabe que seu primeiro teste de verdade está por vir. Embora ele tivesse desafiado o faraó, Deus o protegeu, impedindo o soberano de matá-lo. Agora precisa convencer os hebreus de que Deus está ao lado deles. Os hebreus são um povo de fé, mas sentem-se abandonados pelo Senhor. Moisés sabe que, se Deus não lhes enviar um sinal, aquelas pessoas não permitirão que ele seja seu porta-voz, por medo da punição que virá em seguida

- Moisés, você enfureceu o faraó - alerta Ira. - Nós seremos punidos. Não piore a situação.

Moisés se detém e olha para o céu. Por um instante, perde-se em seu próprio mundo, observando um bando de gansos voar baixo, logo acima do Nilo.

- Deus falou comigo - diz Moisés com convicção. - Ele fará com que o faraó nos liberte... Ele o obrigará a fazê-lo, se necessário. - Então se volta para Arãe

- Nós somos agentes Dele agora, eu e você. Está preparado?

Arão faz que sim com a cabeça.

- Foi para isso que Ele reuniu nossa família novamente.

Miriã se aproxima dos dois irmãos.

- O que devemos fazer?

- Devemos confiar em Deus. Esperem e verão. Ele nos mostrará o que fazer

- responde Moisés.

Ele abre caminho por entre os juncos em direção à beira do rio. Seus dedos roçam a vegetação e ele hesita por um instante. Deus está falando com ele. De repente, Moisés sabe o que fazer. Ele ergue os braços para o céu e aponta seu cajadc para as alturas. Então volta-se para Arão e baixa lentamente o cajado até ele estar apontado para o seu irmão.

- Coloque seu cajado na água - ordena Moisés.

Arão fica confuso. Ele não ouviu a voz de Deus, e Moisés parece estar agindc de forma estranha. Mas obedece mesmo assim. Arão coloca a ponta do seu cajado no Nilo, mal tocando a superfície. Porém, a partir daquele simples ponte de contato, a água começa a ficar vermelha. Um vermelho bem escuro, como cor de sangue. Na verdade, é exatamente isso: as águas do Nilo, o maior rio da Terra, que se estende por milhares de quilômetros, haviam se transformado em sangue.
Enquanto isso, mais adiante no rio, Ramsés nada no balneário real. Ele mergulha e sente o líquido frio contra a pele, em total contraste com o ar causticante do deserto. Seus pés tocam o fundo e ele se mantém submerso até seus pulmões es-: -rem prestes a explodir. Então se levanta, erguendo a cabeça acima da superfície. Ouve um grito e olha para os cortesãos ao longo das margens - suas bocas estão rapadas, os olhos arregalados de horror.

Chocado, Ramsés olha para baixo e vê que seu corpo está totalmente coberto de sangue. Atrás dele, o rio se estende, plácido, calmo... e rubro. Ele ouve uma voz dentro da sua cabeça. É a voz de Moisés: “Você não é Deus! É apenas um - ornem. E libertará o meu povo!”

Ramsés ignora a voz. Ele cambaleia em direção à margem, onde escravos pas-sam a limpá-lo com um pano branco, que logo fica tingido de vermelho. Um .artesão distraído vai buscar um balde de água no Nilo, na tentativa de enxaguar o corpo do faraó, mas tudo o que consegue é sujá-lo ainda mais de sangue.
•loisés olha para o rio, nem um pouco surpreso com o que acabou de acontecer, osué se aproxima da margem e lança o olhar para as águas, sem compreender ao certo o que está vendo. Aquilo tudo é real?

- Você ainda tem dúvidas? - pergunta Moisés, com a voz tranquila.

A confusão de Josué se evapora no ar, substituída por um senso de propósito.

- Durante toda a minha vida - declara Josué para Moisés - eu pertenci ao faraó. Mas jamais serei escravo de outro homem novamente.

- Deus está conosco - assegura-lhe Moisés.

- Então agora certamente o faraó nos libertará, não é? - pergunta Josué, esperan-. aso. - Ele pôde ver com os próprios olhos o que Deus é capaz de fazer.

- Não vai ser tão fácil. - Moisés espera que os israelitas possam manter sua fé ia longo do que, sem dúvida, será uma longa e dura batalha. - Esta é apenas a primeira praga, Josué. Deus enviará dez pragas para que o faraó mude de ideia. Dez. Preparem-se.
3 próximo ataque não tarda a chegar.

O filho do faraó é um dos primeiros a notá-lo no palácio. Ele está brincando no chão do seu quarto com sua carruagem de brinquedo quando uma rã passa r alando na sua frente. Depois outra e mais outra, todas coaxando. Até que uma enxurrada de rãs adentra o palácio. Aterrorizado, o menino sobe em sua cama para fugir da invasão.

Na sala do trono, Moisés está novamente diante de Ramsés, repetindo a ordem de Deus de que seu povo seja libertado. Embora o faraó possa ouvir com clareza os gritos de seu filho em meio ao coaxar das rãs, ele se recusa a voltar atrás.

- Não libertarei meus escravos - diz Ramsés enquanto se levanta e abandona a sala do trono, seguido por cortesãos apreensivos.

Moisés se limita a balançar a cabeça, pois sabe das muitas provações que os egípcios estão prestes a enfrentar. E sabe que, a cada recusa do faraó, outra praga, ainda mais destrutiva que a anterior, será lançada.

Em seguida, todos os rebanhos do Egito morrem: vacas, ovelhas e cabras, a fonte de toda a carne e leite da população. Os egípcios começam a passar fome. Ainda assim, Ramsés não dá o braço a torcer.

Então o povo egípcio é atacado mais uma vez. Terríveis erupções surgem em suas peles, enquanto os israelitas permanecem ilesos. Apesar disso, o egoísta Ramsés se recusa a enxergar a verdade. Uma praga de gafanhotos vem dos céus, consumindo todas as plantações, todos os grãos de trigo, toda e qualquer migalha de comida do reino. Uma sucessão de pragas castiga o Egito e, a cada uma delas, o faraó se mostra mais decidido a não voltar atrás em sua decisão.

Deus finalmente faz ao Egito o mesmo que o antigo faraó havia feito no passado ao povo de Moisés: envia Seu anjo da Morte para matar cada um dos primogênitos do reino. Porém, para garantir que o anjo não visite as famílias hebraicas, Deus explica a Moisés como poupá-las da Sua vingança.
Josué segura um cordeiro no pátio. O animal se debate em seus braços. Depois de um golpe de sua faca, os balidos param. O sangue do cordeiro escorre para dentro de uma tigela. O homem que segura a tigela deixa o pátio e é imediatamente substituído pelo próximo da fila. Este também enche uma tigela e vai embora, sendo substituído pelo homem seguinte. Uma longa fila de homens aguardam sua vez, sabendo que o tempo urge. E caso tenham esquecido esse fato, Josué se encarrega de fazê-los recordar.

- Rápido. Não deixem que derrame! Lembrem-se: usem o sangue para marcar a entrada de suas casas. Pintem as padieiras e as ombreiras das portas.

Moisés lhes disse que, se eles fizerem isso, o anjo da Morte irá passar direto por suas casas, poupando assim seus primogênitos.

Josué trabalha de forma rápida porém metódica, enquanto, por todo o assentamento hebreu, homens usam pincéis grosseiros para espalhar sangue em suas portas. Moisés e Arão vão de casa em casa, certificando-se de que todas as precauções estão sendo devidamente tomadas. Pois, depois de nove pragas, não esta nenhuma dúvida de que Deus fará exatamente conforme o profetizado por Moisés.

- As palavras de Deus são claras: o sangue de um cordeiro primogênito é o sinal escolhido por Ele - explica Moisés a uma família que ainda não havia sido ilertada. - É o sinal de que vocês são os escolhidos. Todas as casas devem ser —arcadas com sangue. Sem exceção!

Moisés olha para o rosto daquelas pessoas, que abraçam forte seus filhos. A fé de todos está sendo testada até o limite.

Até Arão está confuso.

- Nós prometemos que Deus irá libertar o nosso povo. Mas agora Ele está -.•meando a morte. Como pode ser?

Moisés olha para Arão, a tensão de ser líder estampada em seu rosto. Ele é um - imern introvertido, que se sente mais confortável na solidão do que em uma nosição de comando. Mas foi isso que Deus ordenou que fizesse, então Moisés se esforça para ser o líder que o Senhor precisa que ele seja. Não é nada fácil. Mas de escolheu honrar a Deus.

O céu começa a escurecer, assumindo um tom vermelho-sangue.

- Devemos confiar Nele - sussurra Moisés para Arão.
À meia-noite, como Deus havia prometido, o anjo da Morte se aproxima, no intuito de aniquilar todos os primogênitos do sexo masculino do povo egípcio.

vens ou velhos, não faz diferença. Arão, por exemplo, é um primogênito. Ele igora se instala dentro de casa com Moisés, preocupado com a visão agourenta naquele terrível céu vermelho-sangue, orando para que o sangue de cordeiro so-

-re o batente da sua porta seja suficiente para poupar sua vida.

No palácio do faraó, Ramsés não é um primogênito - mas seu filho, sim. O

—enino de 10 anos está parado no seu quarto, seus olhos assombrados erguidos ? ira o céu vermelho. Ele é o herdeiro do trono. O futuro de toda uma dinastia. .As esperanças e os sonhos de Ramsés estão depositados em seus ombros. Mas, no palácio real, ninguém sabe a respeito do sangue de cordeiro. Não estão cientes do sinal que salvará a vida dos hebreus. Assim que a noite cai, o anjo da Morte ;omeça sua viagem pelo reino. Encontra todas as casas israelitas marcadas com o sangue do cordeiro - e passa direto por elas. Contudo, as casas egípcias que não exibem esse sinal recebem, uma a uma, sua trágica visita.

Especialmente o palácio.
Agora o filho de Ramsés dorme, com sua adorada carruagem de brinquedo aninhada no peito. Uma rajada de vento abre as cortinas e uma suave névoa vermelha entra no quarto. Tochas acesas ardem à porta, pois a criança tem medo do escuro. Porém, quando a névoa vermelha surge, as tochas se apagam. O quarto está mergulhado na escuridão e no silêncio, quebrado apenas pelo som da respiração do precioso herdeiro.

A respiração para.

A carruagem de brinquedo cai no chão.

O sangue escorre do nariz e da boca do filho de Ramsés.
A vingança não tarda. O sol da manhã ainda é uma bola vermelha rente ao horizonte quando meia dúzia de soldados, conduzidos por um capitão da guarda imperial, arrancam Arão e Moisés de suas camas. Os soldados não foram treinados para serem delicados e fervem de raiva diante das notícias terríveis que se espalham por todo o reino. Muitas pessoas encontraram seus filhos mais velhos mortos ao acordarem. E, mesmo entre os oficiais do exército, muitas são as baixas - homens adultos executados pelo anjo da Morte.

Todos os primogênitos do Egito estão mortos. Sem exceção. Toda a dor do povo é expressada na brutalidade com que os guardas tratam Moisés e Arão.

- Deixem eles em paz - grita Miriã. - Eles não fizeram nada!

Mas suas palavras não surtem o menor efeito, e logo Arão e Moisés estão sendo conduzidos pelos imponentes portões do palácio. Soldados os empurram em direção ao centro de um salão escuro, cercado de colunas. Eles são forçados a ficar de joelhos e depois pressionam seus rostos ao chão, sabendo que erguer os olhos para o faraó naquele instante seria um erro grave.

Então eles ouvem a voz de Ramsés. O tom de dor é inconfundível.

- Por quê? - grita o soberano. - Por que a escória israelita continua viva... enquanto meu filho está morto?

O capitão da guarda agarra Moisés e Arão pelos cabelos e ergue suas cabeças. Ramsés se aproxima lentamente deles, o corpo flácido e sem vida do filho estendido em seus braços.

- Seu Deus está feliz agora?

Moisés e Arão ficam calados.

- Eu lhe fiz uma pergunta.

Moisés continua em silêncio. A morte de uma criança não lhe traz nenhum prazer. Ele se limita a olhar com tristeza para Ramsés, como se quisesse lembrá--lo de que tudo aquilo poderia ter sido evitado. Se ao menos ele tivesse lhe dado ouvidos.

Ramsés deita seu filho no chão.

- Reúnam seu povo e seus rebanhos e desapareçam! Vão embora do meu reino. E levem o seu maldito Deus consigo!
Moisés e Arão não dizem nada, ansiosos por deixarem a sala do trono o mais rápido possível.

- Louvado seja Deus - sussurra Arão assim que eles finalmente saem dali.

- Sim - responde Moisés. - É exatamente isso que devernos fazer.
H chegada a hora de romper os grilhões e partir para a Terra Prometida. Os

- ?mens, mulheres e crianças hebraicos escravizados são três milhões. O povo egípcio está tão ávido por vê-los partir que lhes dá de bom grado prata, ouro e ceados para incentivá-los a ir embora. Em toda parte, no assentamento israelita, carroças estão sendo carregadas. As pessoas amontoam seus pertences nas costas dos burros.

Em meio às preparações, elas não conseguem deixar de comemorar. Os he-c ceus parecem trazer sorrisos permanentes em seus rostos e entoam espontaneamente canções de alegria. Quando é chegada a hora de partir, Moisés é carregado -: s ombros de homens que antes desconfiavam da sua presença. A promessa -—possível de Moisés está se tornando realidade.

- Ponham-me no chão! - diz Moisés para o grupo de homens que o carregam c : c uma rua abarrotada de gente. Crianças correm e pulam para ver melhor seu □ovo herói.

Arão é um dos homens que carregam Moisés.

- Não, irmão. Não vamos largá-lo ainda. Vamos levá-lo nos braços até a Terra Prometida.

Tudo parece muito simples para os hebreus: eles estão deixando uma terra c ie os manteve prisioneiros por séculos para seguir rumo a seu novo lar, onde raverá leite e mel para todos. Deus havia aparecido para Moisés e lhe mostrado o caminho que deveriam seguir para chegarem à Terra Prometida.

Apenas Moisés, o fiel mais improvável de todos - criado como um egípcio,

- dado por décadas no deserto e que somente bem tarde na vida estabeleceu um -elacionamento com Deus -, consegue perceber a verdadeira importância da sua : mada: os hebreus estão cumprindo a aliança de Abraão com o Senhor.

- Nós vamos viver na Terra Prometida - reflete ele, admirado -, e nossos descendentes serão tão numerosos quanto as estrelas do firmamento.
Enquanto os israelitas viajam para o leste, afastando-se do Egito, Ramsés ques-cc ona sua própria decisão. Ele está parado na sala do trono, onde o corpo de seu dho jaz cerimoniosamente. Incensos queimam em bases rebuscadas. Um lençol de algodão cobre o tronco da criança.

- Meu filho - diz Ramsés, dominado pela dor, pousando a mão com ternura na testa do menino. Não pode deixar de notar que o corpo está frio ao seu toque e que a pele, antes tão bronzeada pelas horas que ele passara brincando sob o sol quente do Egito, agora exibe uma palidez fantasmagórica. - Como meros escravos podem ter feito isso? - balbucia Ramsés, com o coração partido, tornando-se ainda mais amargo e cheio de determinação. Ele toma a mão do filho morto na sua e se agacha junto ao corpo. - Eu lhe prometo, aqui e agora, que irei trazer os israelitas de volta e os farei construir para você a maior sepultura que o mundo já viu. - A carruagem de brinquedo havia sido colocada ao lado do menino, de modo que, quando ele fosse mumificado, o brinquedo o acompanhasse no além. - Também prometo que o corpo de Moisés será enterrado debaixo da fundação de seu túmulo, para ser esmagado por toda a eternidade pelo peso da sua morte.

Ramsés se vira para a esquerda, onde o capitão da guarda vigia o recinto junto à parede.

- Vamos trazê-los de volta - ordena Ramsés. - Eu liderarei as tropas, comandante. Os hebreus querem liberdade? Pois serão livres para fazer a seguinte escolha: rastejar de volta para mim como escravos ou morrer.

O faraó lança um último olhar carinhoso para o filho. Que lindo menino. Seu coração se enche de ira diante daquela vida interrompida.

- Tragam minha carruagem! - ruge ele. - Vamos partir imediatamente.
A fila de hebreus refugiados se estende até o horizonte. O êxodo deles não é nada organizado. O som do balido das ovelhas se mistura a reclamações sobre bolhas nos pés, queimaduras de sol e sede. Moisés lidera a caravana, imerso em pensamentos, como sempre. Miriã, Arão e Josué o seguem de perto.

- Ainda não consigo acreditar que o faraó simplesmente nos deixou partir -reflete Josué em voz alta.

- Mas ele deixou - diz Arão, com orgulho.

- Tem razão: foi a exigência de Deus. Somente um louco tornaria a desafiar Deus depois do que Ele fez.

Moisés não se junta à conversa. Sente-se responsável pela segurança do grupo, e só ficará feliz quando finalmente limpar a poeira do Egito de suas sandálias. Ele conhece Ramsés muito bem e está ciente de que os hebreus nunca estarão completamente a salvo de sua ira enquanto não estiverem além das fronteiras do seu reino.

Quando chega ao topo de uma grande duna, olha para baixo e dá um gemido alto ao ver o mar que se espalha para todas as direções. Não consegue ver o outro lado. E, o mais inquietante, não consegue pensar em nenhuma maneira de atravessá-lo.

Arão é o próximo a vê-lo.

- Irmão, o que faremos agora?
Moisés olha para o mar, incrédulo. Como pode ser? Como Deus pode ao mesmo impo conduzi-los à Terra Prometida e lançar um obstáculo desses à sua frente?

- Ele certamente nos mostrará um caminho - insiste Moisés.

O ancião Ira se aproxima com a mesma expressão apreensiva e desconfiada ce sempre.

- Moisés - diz ele, como se falasse com uma criança. - Por que nos trouxe até aqui? Isto é uma loucura.

- Foi Deus quem nos trouxe até aqui.

- E qual é a sugestão Dele para chegarmos ao outro lado?
Os hebreus chegaram ao Mar Vermelho depois de uma semana de viagem. Para iscarem realmente fora do Egito, e livres do poder do faraó, eles precisam atravessar e chegar à outra margem, que fica a muitos quilômetros dali. Não possuem barcos nem qualquer outro tipo de embarcação. Encontrar madeira para :construí-los em número suficiente para transportar milhões de pessoas é um desafio de logística impensável. Atravessar a nado está fora de questão. Sempre resta a possibilidade de caminhar várias centenas de quilômetros para o norte, mas esse trajeto é montanhoso e a viagem levaria semanas, talvez meses. Crianças pequenas e idosos seriam levados aos seus limites mentais, físicos e emocionais dia após dia. Além disso, bandidos se escondem nas montanhas, e aquela longa caravana seria roubada com facilidade e frequência. Mas, acima de tudo, se o faraó mudasse de ideia e desejasse escravizar novamente os hebreus - um medo que todos tinham em mente -, o caminho para o norte tornaria mais fácil para Ramsés apanhá-los. O que eles não sabem é que isso já está acontecendo. O dilema do povo hebreu se reduz a uma única escolha: confiar em Deus. Não há outra opção. Mas confiar Nele exige coragem. Pois está claro que não existe maneira de atravessar o Mar Vermelho. Se Deus pretende resgatá-los, será preciso um milagre impossível que só Ele é capaz de realizar. Os escravos libertados montam acampamento e esperam por uma atitude do Senhor, adormecendo noite após a noite ao som das ondas do mar.

O perigo se aproxima depressa, vindo do oeste. Os cascos dos cavalos se chocam c ontra o chão do deserto. Cocheiros gritam com suas montarias, estalando seus chicotes para extrair delas mais velocidade. Ramsés é um exímio cocheiro e conduz seu veículo de forma imponente e exemplar. Ele quer seus escravos de volta. Nem Moisés nem seu Deus atravancarão o seu caminho.

As carruagens e as fileiras de soldados que as acompanham de perto levantam uma quantidade considerável de poeira - de tal forma que seu progresso pode ser visto a quilômetros de distância. Um pequeno grupo de hebreus, Josué entre eles, está parado sobre uma duna em frente ao mar, aterrorizado diante da visão do exército do faraó que se aproxima. Quando finalmente assimila a gravidade da situação, Josué sai disparado em busca de Moisés.

- Cavalos! - grita Josué, chegando correndo ao acampamento. - Carruagens!

- O que vamos fazer agora? - atormenta-se o irritadiço Ira, que ainda se ressente da liderança que acredita ter perdido desde a chegada de Moisés.

Josué corre os olhos pela multidão aterrorizada e vê com tristeza os rostos das mulheres e crianças que sem dúvida morrerão em questão de instantes.

- Nós vamos lutar - vocifera ele.

- Contra o faraó? - zomba Ira. - Posso saber como?

- Com nossas próprias mãos, se necessário - responde Josué.

Os hebreus entram em pânico. Começam a juntar suas coisas o mais rápido possível.

Moisés os observa, consternado. De que adianta fazer aquilo se não há para onde ir?

Exasperado, Arão se aproxima de Moisés.

- Estamos perdidos, irmão. O que podemos fazer?

Moisés está profundamente decepcionado com a falta de fé do irmão. Ele olha dentro dos olhos de Arão, então lhe dá as costas e caminha até a beira do mar.

Ira vai atrás dele.

- Foi porque não havia sepulturas no Egito que você nos trouxe aqui para morrer? Porque foi isso que fez.

- Não tenha medo - ordena Moisés.

Ira parece confuso e frustrado enquanto Moisés finca os pés na areia, afundando seu cajado no chão. A espuma das ondas lambe seus pés. Moisés agarra com força seu velho e retorcido cajado de madeira, então fecha os olhos e baixa a cabeça ate apoiá-la no cajado. Sua respiração fica mais pesada. Moisés isola sua mente do caos e do pânico que o cercam. Ele não ouve mais nada. O mundo ao seu redor desacelera.

Ele ora.

- Deus, precisamos do Senhor agora. O Seu povo precisa do Senhor.

Acima e atrás dele, as carruagens do faraó chegam à duna. O rosto de Ramses se ilumina, saboreando antecipadamente a vingança, quando vê a multidão encurralada e aterrorizada mais abaixo.

- Nós os pegamos - diz ele, exultante. - Eles não têm para onde correr. - Ramsés olha de um lado para o outro, em ambas as direções, até onde sua vista alcança. Um cocheiro egípcio aguarda suas ordens para atacar. Seus cavalos batem com as patas no chão, ansiosos.

Lá embaixo, ao pé da duna, seguros de que seu destino está nas mãos do faraó, os hebreus se enchem de pavor.

O faraó diz apenas uma palavra:

- Atacar.
•íoisés continua a orar, seus olhos fechados, o ribombar dos cascos não inter-- i mpendo sua conversa com o Criador. Ele se lembra do momento em que Deus surgiu diante dele e lhe mostrou o caminho específico que deveria seguir para chegar à Terra Prometida. Moisés sabe que fez exatamente o que Deus mandou, ce modo que sua fé de que Ele irá encontrar uma maneira de livrar os hebreus c ? perigo iminente não se abala.

O céu começa a escurecer e um vento forte fustiga sua túnica, fazendo seus cabelos longos se agitarem sobre os ombros.

- Deus, sei que o Senhor tem um plano para nós. E acredito no Seu plano. Acredito também que este não é o fim que o Senhor planejou para nós.

O vendaval levanta nuvens de areia. Tendas são sopradas para longe e crianças choram. Arão reúne Miriã e seus filhos.

Moisés, no entanto, não vê nada disso. Sua fé está depositada em Deus, e ele continua a orar.

- Nós vimos o Senhor lançar o terror sobre os nossos inimigos...

Ira se agacha na areia, balançando para a frente e para trás em desespero.

A longa fileira de carruagens desce a toda velocidade o caminho até a praia.

As mãos de Moisés apertam ainda mais o cajado.

- O Senhor manteve a morte longe de nossas portas...

Josué se mantém firme, fuzilando com um olhar desafiador os egípcios que se -croximam, pronto para lutar.

E então os olhos de Moisés se abrem de repente quando Deus se dirige a ele, espondendo a suas preces.

- Senhor! - exclama Moisés, chocado.

O vento agora tem quase a força de um tufão. Uma nuvem afunilada toca o mar diante de Moisés, atingindo a água e explodindo de volta para cima, em direção ao céu. A onda de choque derruba os hebreus, que engatinham de um lado para o outro no chão, desorientados e momentaneamente surdos.

Somente Moisés permanece de pé, sem soltar seu cajado enquanto ergue o rosto para as alturas.

Diante dele, o mar se levanta em direção ao céu, uma grande muralha de cçua que se estende desde a terra até as nuvens. Por toda a sua volta, os israelitas ccotegem seus olhos dos respingos, perplexos com aquela muralha que se ergue cada vez mais alto à sua frente.

E então as águas se dividem em dois lados, formando um imenso desfiladeiro -. o meio. O fundo do mar fica completamente exposto, com paredões de água se erguendo de ambos os lados. O vento sopra por essa abertura.
Moisés sabe exatamente o que fazer em seguida.

- Sigam-me - grita ele, brandindo seu cajado no ar. - Isto é uma obra de Deus.

Arão se levanta com um salto e organiza os israelitas, apressando-os em direção à passagem que se abriu entre as águas. Eles seguem aos trancos para a entrada, tão ávidos por se verem livres do faraó que muitos deixam todos os seus objetos de valor para trás. Quando chegam à fenda, eles erguem os olhos, maravilhados, para as imensas montanhas d agua. Mais adiante há apenas escuridão, de modo que Josué ordena rapidamente que as pessoas acendam tochas. Moisés lidera o grupo, afundado até o tornozelo em lodo e lama. Gotículas de água do mar caem sobre a sua cabeça. O caminho é nebuloso, barulhento e escuro, mas isso não impede Moisés de seguir em frente.

- Vamos - diz Arão, incentivando os israelitas. - Depressa.

Quando vê que as pessoas estão com medo de dar aquele primeiro passo rumo ao mar dividido, Josué se junta a Arão.

- É seguro. Tenham fé - exclama ele.

- Vocês estão loucos? - esbraveja Ira. - Vamos nos afogar!

- Prefiro me afogar a ser um escravo do faraó - retruca Josué. - Vamos, velho. Venha conosco.
Os hebreus então fogem pelo túnel dagua. Ramsés passa pelos pertences que eles deixaram para trás com sua carruagem, sentindo-se invencível. Mas desacelera à medida que se aproxima do mar. À sua volta, seus homens erguem os olhos, chocados, para a cena aterrorizante. Eles se detêm, com medo de seguir em frente. Mas assim como Moisés havia se mantido firme quando os hebreus demonstraram medo, Ramsés ignora a falta de coragem de seus soldados. Ele reúne forças, pois sabe que seus homens o estão observando e que sua atitude lhes servirá de inspiração.

- Atrás deles - grita o faraó, puxando as rédeas de seu cavalo e parando s medida que seu exército inicia a investida. - Tragam-me Moisés.
Dentro do túnel dagua, Miriã e Arão estão ajudando as famílias com criançaa pequenas.

- Continuem andando, não parem - exclama Arão.

Mais adiante na escuridão, Moisés segue em frente a duras penas. Ele cami-J nha com cautela e cutuca o lodo com o cajado para se certificar de que o terrena é firme. Atrás dele, os israelitas atravessam com igual dificuldade o fundo dal mar: o caminho agora está miraculosamente enxuto, graças a uma trilha de pedras lisas e secas. Eles gritam com seus animais de carga e puxam com força suas carroças para mover as rodas pesadas.

Enquanto isso, na orla, alguns cavalos egípcios empacam logo na entrada do -_nel. Os comandantes ordenam que seus homens desmontem e saquem suas irmãs. Deus não havia secado o caminho diante deles. Eles adentram aos trope-; ?s na grande abertura, seus olhos se ajustando à escuridão enquanto cruzam o lodoçal pedregoso para perseguir os hebreus.

Moisés segue adiante, vencendo o caminho de areia e pedra. Mais à frente, : ?nsegue ver algo novo, que mais lhe parece um milagre: o sol. Ele não passa de ema esfera indistinta, ardendo através de uma cortina de neblina. Mas então, à medida que a névoa começa a se dissipar, ele brilha cada vez mais forte.

Josué abandona o grupo e corre em direção à luz, um largo sorriso se espa-r.ando pelo seu rosto.

- Estamos quase chegando! Rápido! - grita.

Iluminado pelo sol, Josué sai em disparada. Logo é seguido por outros, suas meadas ecoando por toda a extensão do desfiladeiro. O vento continua a uivar. 5 iípingos dagua molham seus rostos. Mas o caminho já não parece tão tur-: dento e, contra todas as probabilidades, parece que os israelitas conseguirão trravessar o Mar Vermelho... a pé.

A luz fica mais intensa à medida que o solo volta a se tornar completamen-; desértico. Sozinhos ou em pares, os israelitas enfim chegam à segurança das ireias. Em seguida, começam a chegar grupos de 10 e 20. Por fim, em grupos de cem e mil. Moisés é o último homem no túnel e caminha em um ritmo lento e .: estante, enquanto a última leva de israelitas alcança a orla. Em seguida, tam->em ele chega à luz do sol e à terra firme. É recebido pela visão de centenas de - ehares de homens, mulheres e crianças em júbilo, maravilhados com a jornada mtástica que acabaram de realizar.

É então que Moisés se vira e torna a ficar de frente para o mar. Ele ergue mais

.a vez o cajado para o céu. Nas profundezas do túnel, vê o exército do faraó se srroximando a toda velocidade.

Lá dentro a escuridão é grande, mas os rostos dos egípcios estão iluminados. Estão, eles são surpreendidos por outra sensação: gotas de chuva. Mas não se trata de chuva. Os egípcios levantam os olhos para o céu bem a tempo de ver as trandes muralhas d'agua desabando em cima deles.

Da orla, os israelitas caem em um silêncio perplexo enquanto observam o mar tespencar do céu e afogar o exército egípcio. Uma forte rajada de vento é soprada te dentro da fissura à medida que ela se fecha, mas então os mares e os céus se calmam. Os hebreus experimentam um momento de triste lucidez ao perceberem quantos homens estão morrendo naquele instante. Mas ele é seguido imediaamente pela alegria natural da liberdade e do fim da escravidão para o seu povo.
- Obrigado, Senhor - grita Josué. - Finalmente somos livres.

Moisés, assimilando tudo aquilo, fala baixinho para as ondas:

- Você não é um deus, faraó. Só existe um Deus, e Ele está aqui conosco. Como se conseguisse ouvir Moisés, o faraó observa a tragédia da marge—

oposta. Ele está cercado pelos pertences dos hebreus e pelos cavalos que havia.— relutado em entrar no túnel - assim como ele próprio relutou, apesar de sua bravata. Não pode dizer nada, pois não há o que dizer. O faraó foi derrotado. Ek solta um logo suspiro de horror e incredulidade.
- Venham - diz Moisés para os israelitas em festa. - Ainda temos um longo caminho pela frente. Precisamos ser fortes.

A fé que eles têm em Deus é grande, e todos seguirão Moisés a qualquer parle que o Senhor mandar.

E assim começam 40 anos de peregrinação para o povo israelita, sempre eaj busca daquela fugaz Terra Prometida que Deus havia garantido que daria i Abraão e seu povo. A travessia do Mar Vermelho e a fuga da escravidão marcara um novo começo.

Deus faz mais do que conduzi-lo pela vastidão do deserto: Ele apresenta a Mõl sés uma série de regras que devem governar suas vidas. A liberdade que o Senhas concedeu aos hebreus é ampliada. Moisés volta sozinho ao Monte Sinai, onde oesi tumava pastorear seu rebanho e onde viu o arbusto em chamas. Ali, recebe os Del Mandamentos, um código moral gravado em pedra. Embora Deus tenha trars-4 mitido centenas de leis que os Seus discípulos devem seguir, essas dez são as mal importantes. Elas são um roteiro para a riqueza, a felicidade e o contentamento I

Moisés desce do Monte Sinai carregando duas tábuas de pedra listando es>e« mandamentos fundamentais e é recebido por Josué. Essas tábuas serão guardaI das dentro da Arca da Aliança - o receptáculo sagrado construído dentro âJ especificações transmitidas por Deus e que os hebreus transportavam como > J posse mais sagrada.

- Deus renovou a promessa que fez a Abraão - diz Moisés, transbordanJ uma fé ainda maior do que antes. - Não devemos adorar a nenhum outro Deus devemos parar de mentir... de roubar... de cometer adultério... de matar ou desonrar o próximo... Se formos fiéis a Deus, Ele manterá Sua promessa.

- O sonho de Abraão. Será este o nosso futuro? - pergunta Josué.

- Agora você é o futuro dos israelitas, Josué. Não olhe para trás. Você dea conquistar a Terra Prometida a Abraão. E a todos os seus descendentes, que serão tão numerosos quanto as estrelas do firmamento.

Enquanto Moisés fala, seu rosto está radiante, pois Deus se revelou pari dfl em toda a Sua glória ao lhe apresentar os Dez Mandamentos. Essa foi a maneira de Deus mostrar que estava satisfeito com Moisés por tudo o que ele havia feito pelo Seu povo.

Deus nunca permitiu que Moisés pusesse os pés na Terra Prometida. Seu bom e fiel servo apenas a viu, em toda a sua glória, do topo do Monte Nebo em seu aniversário de 120 anos. Então Moisés morreu. Deus o enterrou em uma sepultura anônima, enquanto os israelitas seguiam rumo à Terra Prometida, cumprindo assim Sua aliança com Abraão.

Josué, o sucessor escolhido a dedo pelo próprio Moisés, lidera os hebreus agora que eles enfim chegaram à Terra Prometida. Mas esse não é o final de suas atribulações. É apenas o começo.

PARTE TRÊS

DEFENDENDO A NAÇÃO

A gigantesca cidade murada se chama Jericó. A palavra significa “fragrante, perfumado”, o que é adequado, pois o aroma de suas muitas palmeiras e fontes de águas límpidas se espalha pelo deserto em todas as direções como um doce perfume. Jericó é uma cidade milenar, ocupada várias vezes ao longo dos séculos por diferentes culturas. Ela é cercada por muralhas altas e grossas que impediam a entrada de inimigos. Assim que os hebreus chegam à Terra Prometida, e como se aquele cobiçado assentamento os chamasse. Os israelitas passaram os últimos 40 anos, desde que escaparam do faraó, vagando pela aridez do deserto. Traziam consigo a Arca da Aliança - o receptáculo sagrado, construído a partir das especificações transmitidas por Deus, que contém os Dez Mandamentos. A Arca precisa de um lar, e eles também. E estão preparados para lutar por ele.

As grandes muralhas de Jericó se agigantam diante dos hebreus. Já se passa-ram muitos anos desde a morte de Moisés, e o musculoso Josué, com 60 anos de idade, assumiu a liderança do seu povo. Ele envia dois espiões, Nashon e Ram, rara fazer o reconhecimento da cidade. Na calada da noite, eles escalam os muros e testemunham uma cena de caos. Pelo lado de fora, Jericó parece impene-trável. Mas, dentro dela, os moradores temem uma invasão: fazem estoques de igua e comida, sabendo que a fome chegará assim que os hebreus impedirem a entrada e a saída de suprimentos da cidade. Os comandantes militares de Jericó sem dúvida oferecerão resistência, mas não poderão fazer muita coisa se os he-breus sufocarem a vida na cidade, o que significará escassez não só de munição e armamentos, como também de mantimentos.
- Vão para casa - grita um dos líderes militares de Jerico, um homem vigoroso e mulherengo, enquanto atravessa as ruas escuras, iluminadas apenas por tochas. - Tranquem as portas. O inimigo está próximo, mas não vai entrar.

Sem que o comandante saiba, Nashon e Ram já estão no alto das muralhas da cidade. Eles vasculham os parapeitos em busca de pontos fracos e sinais de vulnerabilidade - qualquer coisa que lhes permita derrotar os cananeus de Jericó.

Uma mulher caminha sozinha por uma rua, seu rosto iluminado pelo luar. Raabe carrega um jarro d agua para se preparar para o cerco israelita, e quase cai ao chão quando quatro soldados esbarram nela intencionalmente. Sua beleza é lendária na cidade, assim como sua ocupação - ela vende o próprio corpo em troca de dinheiro. Essa mãe solteira desvirtuada e frágil é imperfeita. Deus a escolheu para garantir que Sua vontade seja feita. Em vez de escolher alguém mais honrado ou virtuoso, Deus provará Sua força através da fraqueza daquela mulher.

Aquela parece ser uma noite qualquer, como tantas outras. Homens devoravam Raabe com os olhos enquanto ela se afastava do poço. Esposas lançavam olhares de desprezo em sua direção, sentindo inveja da sua beleza sensual e raiva do fato de seus maridos preferirem a cama de Raabe às suas.

Agora um pequeno grupo de soldados impede sua passagem, atormentando-a e flertando com ela de forma grosseira. Eles se afastam quando seu comandante. Achish, força Raabe a parar.

- Raabe, minha pequena meretriz - diz ele, como se a lisonjeasse com essas palavras. O comandante aproxima de tal forma seu rosto do dela que Raabe recua ao sentir seu mau hálito. - O que está fazendo na rua? - pergunta de. - Aquele povo do deserto está tão perto que posso jurar que consigo sentir o cheiro deles daqui. Você sabe que não é seguro.

- Estou segura o suficiente - responde ela, embora sua voz esteja trêmula.

- Ninguém está seguro - sibila o comandante.

Incentivados pelo seu líder, os soldados encurralam Raabe. Em vez de brial calhões, agora parecem vorazes. Seus olhos estão famintos e suas mãos parecem prontas para apalpá-la, como já o fizeram tantas outras vezes. Eles, no entaoMfl se submetem ao seu comandante, de modo que é Achish quem agarra Raabey| fazendo com que o jarro dagua caia ruidosamente no chão. Ela tenta se desve-d cilhar, mas ele consegue beijar seu rosto. Somente depois disso Raabe consegui se libertar de suas garras imundas.

O comandante não chegou a ter o que queria, mas ao menos ela não será assediada pelos seus homens.

- Vá para casa - ronrona ele.

A insinuação é clara: Achish está de olho nela. E suas intenções não são raJ um pouco louváveis.
Vão para casa - grita um dos líderes militares de Jerico, um homem vigoroso e mulherengo, enquanto atravessa as ruas escuras, iluminadas apenas por tochas. - Tranquem as portas. O inimigo está próximo, mas não vai entrar.

Sem que o comandante saiba, Nashon e Ram já estão no alto das muralhas da cidade. Eles vasculham os parapeitos em busca de pontos fracos e sinais de vulnerabilidade - qualquer coisa que lhes permita derrotar os cananeus de Jericó.

Uma mulher caminha sozinha por uma rua, seu rosto iluminado pelo luar. Raabe carrega um jarro dagua para se preparar para o cerco israelita, e quase cai ao chão quando quatro soldados esbarram nela intencionalmente. Sua beleza é lendária na cidade, assim como sua ocupação - ela vende o próprio corpo em troca de dinheiro. Essa mãe solteira desvirtuada e frágil é imperfeita. Deus a escolheu para garantir que Sua vontade seja feita. Em vez de escolher alguém mais honrado ou virtuoso, Deus provará Sua força através da fraqueza daquela mulher.

Aquela parece ser uma noite qualquer, como tantas outras. Homens devoravam Raabe com os olhos enquanto ela se afastava do poço. Esposas lançavam olhares de desprezo em sua direção, sentindo inveja da sua beleza sensual e raiva do fato de seus maridos preferirem a cama de Raabe às suas.

Agora um pequeno grupo de soldados impede sua passagem, atormentando-a e flertando com ela de forma grosseira. Eles se afastam quando seu comandante. Achish, força Raabe a parar.

- Raabe, minha pequena meretriz - diz ele, como se a lisonjeasse com essas palavras. O comandante aproxima de tal forma seu rosto do dela que Raabe recua ao sentir seu mau hálito. - O que está fazendo na rua? - pergunta ele. - Aquele povo do deserto está tão perto que posso jurar que consigo sentir a cheiro deles daqui. Você sabe que não é seguro.

- Estou segura o suficiente - responde ela, embora sua voz esteja trêmula.

- Ninguém está seguro - sibila o comandante.

Incentivados pelo seu líder, os soldados encurralam Raabe. Em vez de bi calhões, agora parecem vorazes. Seus olhos estão famintos e suas mãos parei prontas para apalpá-la, como já o fizeram tantas outras vezes. Eles, no entai se submetem ao seu comandante, de modo que é Achish quem agarra Ra; fazendo com que o jarro dagua caia ruidosamente no chão. Ela tenta se desv cilhar, mas ele consegue beijar seu rosto. Somente depois disso Raabe cons se libertar de suas garras imundas.

O comandante não chegou a ter o que queria, mas ao menos ela não será assediada pelos seus homens.

- Vá para casa - ronrona ele.

A insinuação é clara: Achish está de olho nela. E suas intenções não são um pouco louváveis.
Ele vai andando pela rua, pavoneando-se, acompanhado de seus soldados. Afiita, Raabe apanha seu jarro d agua quase pela metade e segue a passos vacilantes noite adentro.
Enquanto isso, Nashon e Ram, os dois espiões israelitas, atiram com cuidado uma quarda pelos enormes muros da cidade abaixo. Jerico está tomada por uma atmosfera frenética, o cheiro de medo pairando no ar. Mas os dois não se preocupam : com isso, movendo-se de forma sorrateira e cautelosa. Nashon empunha um machado de guerra, enquanto Ram carrega um punhal em seu cinto. Ao pé do muro, a escondem a corda e atravessam um pátio amplo. Esta é a primeira vez que estão andando a olhos vistos desde que chegaram à cidade, e ambos temem o perigo. Se forem pegos, serão torturados até dar com a língua nos dentes e, logo em seguida, serão decapitados.

De repente, são surpreendidos por uma senhora. Nashon, o mais destemido -: s dois espiões, mantém a calma e leva um dedo à boca, sinalizando que ela deve se calar. Ele sorri quando a mulher parece assentir, feliz por ter tido a presença de espirito de não entrar em pânico. Mas então ela começa a gritar a plenos pulmões.Nashon e Ram fogem correndo do pátio e entram em um beco. Eles se põem a correr com todas as suas forças, a cada passada tornando-se menos espiões e mais jovens assustados que farão qualquer coisa para sair imediatamente dali.

Eles chegam a uma esquina e fazem uma curva fechada à esquerda, mas deres de apenas três passos deparam com o vulto de um soldado bloqueando seu caminho. Outro soldado sai de um beco. Nashon e Ram se detêm na mesma hora, então se viram para voltar pelo caminho que vieram. Um terceiro soldado aparece na rua, sacando uma espada.

- Irmão - grita Nashon para Ram. - Por Israel!

Isso é tudo o que ele precisa falar. Ram sabe exatamente o que o companheiro está dizendo. Girando o corpo de forma dramática, ele saca o punhal do cinto e se prepara para a luta.

- Tragam reforços - exclama um dos soldados, sabendo que há dezenas de guardas perto o suficiente para ouvir o chamado. - O inimigo entrou na cidade! Expiem o alarme! Eles estão aqui!

Em questão de segundos, soldados enchem as ruas. Achish, o comandante, está entre eles. Um dos soldados toca uma trombeta, sinal de que a batalha é eminente. Nesse instante, Nashon enxerga uma saída. Ele se lança em direção a uma fresta estreita entre duas casas, atravessa um fétido curral de bodes e adentra a escuridão. Ram está logo atrás dele, correndo a toda velocidade. Os espiões seguem rente às paredes das casas, experimentando cada porta no caminho, mas estão todas fechadas a chave. Finalmente, em meio ao breu, Nashon encontra uma porta destrancada. Ele a abre devagar e vê que a pequena casa está vazia. Ele e Ram não perdem tempo e se escondem nas sombras, orando para que os soldados não façam uma busca de casa em casa.

Os soldados de Jerico imaginam, equivocadamente, que há muitos outros membros do exército israelita dentro de suas muralhas e se organizam para a batalha em ritmo frenético.

Assim começa a contagem regressiva para a guerra.
Raabe já havia enchido de volta seu jarro d agua quando ouve o som da trombeta e se apressa em voltar para casa. Ela vive em uma habitação simples, incrustada nos grossos muros da cidade, com janelas que dão para a rua. Sua maior preocupação não é com a própria segurança, mas com a do seu filho. O menino está em casa com os pais dela; se os israelitas realmente forem atacar, ela precisa estar ao seu lado. Mas Raabe se move devagar, sustentando o volumoso jarro d agua na cabeça, e logo fica exausta. Dois dos soldados que a provocaram mais cedo passam correndo por ela, não mais interessados em uma prostituta, agora que suas vidas podem estar em risco.

Ela observa quatro soldados seguirem por um beco, em busca de Nashon e Ram. Apesar do peso do jarro, Raabe se obriga a apertar o passo. Sente um alívio ao se aproximar de casa. Ela pousa o jarro no chão e se recosta contra a madeira da porta fechada. Exaurida e ofegante, seu peito sobe e desce à medida que ela tenta recuperar o fôlego. É impossível saber se viverá até a manhã seguinte ou o que os israelitas farão a ela se Jerico cair. Mas, por ora, sabe que está em segurança.

Raabe pega de volta seu jarro d agua do chão e abre a porta de entrada com um empurrão. A sala está na penumbra, mal iluminada pelo luar que entra pela janela, mas ela não precisa de vela para atravessar os poucos passos entre a porta e a mesa. Assim que larga o jarro, no entanto, seu corpo fica tenso. Ela não percebe nada fora do lugar nem ouve qualquer barulho estranho - apenas sabe que alguma coisa está errada.

- Quem está aí? - fala ela para a escuridão.

De repente, uma faca é pressionada contra o seu pescoço. Raabe tenta gritar, mas a mão de alguém cobre sua boca.

- Sshhh - faz Ram.

Os olhos de Raabe se arregalam de pavor quando ela olha para as sombras e vê o espadaúdo Nashon segurando seu filho e apertando a lâmina reluzente de um machado de guerra contra o pescoço do menino. Sua mãe e seu pai estãc encolhidos de medo em um canto.

- Somos pessoas boas e honestas - diz Nashon para Raabe. - Se nos ajudar prometo que não iremos machucá-lo.
Raabe faz que sim com a cabeça. Ela não tem escolha.

Ram solta Raabe e afasta o punhal de seu pescoço, guardando-o no cinto. No mesmo instante, Nashon larga o garoto e o deixa correr para os braços da mãe. O menino grita de felicidade, mas Raabe se apressa a silenciá-lo.

- Vocês são hebreus? - pergunta ela.

Nashon assente.

- Não é o Deus de vocês que comanda os ventos?

Nashon torna a assentir.

- E divide as águas do mar?

Depois de repetir o mesmo gesto, Nashon fala:

- Nossos pais estavam presentes naquele dia. Deus salvou nosso povo. Somos : s escolhidos Dele.

Agora, Raabe está aterrorizada.

- Todos nós em Jerico já ouvimos essas histórias sobre o seu Deus. Então me diga: como podemos lutar contra um povo cujo Deus é capaz de fazer coisas assim?

- Vocês não podem - diz Nashon.

- Toda a cidade sabe disso, e estamos apavorados. Seu Deus é muito poderoso.

- Sim - fala Nashon. - Confie Nele.

Eles ouvem soldados lá fora, aproximando-se cada vez mais da casa de Raa-?e. É apenas uma questão de tempo até que os espiões israelitas sejam descober-: ?$. Não há escapatória.

- Eu esconderei vocês - diz Raabe.
Nashon e Ram não têm o direito de esperar que Raabe os ajude. Eles entraram egalmente na cidade, invadiram a casa de uma mulher e agora se escondem em meio à palha do seu telhado, sabendo que ela provavelmente será obrigada a mentir por eles. Mas eles lhe ofereceram algo em troca - segurança para ela e sua família e uma chance de confiar no Deus deles, de trilhar o Seu caminho.

Pouco antes de serem escondidos no telhado, de onde podem ver as fogueiras no icampamento dos israelitas nos confins do vale, Nashon e Ram deram a Raabe □m cordão escarlate.

- Amarre este cordão em sua janela. Iremos convencer Josué, nosso líder, a impedir que o exército israelita faça mal a você e a sua família, mas apenas se este ;ordão estiver atado à janela da sua casa.

Lá de cima, eles ouvem os soldados de Jerico baterem à porta de Raabe. En-q aanto ela abre a porta para deixá-los entrar, Nashon e Ram usam sua corda para fiigir, prendendo-a do telhado até o outro lado dos muros da cidade. Os dois homens descem silenciosamente. Assim que seus pés tocam o chão, eles saem em cisparada na direção do acampamento israelita.
Josué - exclama Nashon, ofegante, quando encontra seu líder.

Josué está agachado diante de uma fogueira, respirando o ar parado da noite e se perguntando como Deus fará para colocá-los dentro da cidade. Ele se levanta ao ver Nashon e abraça com força o espião.

- Diga-me - fala Josué -, encontrou alguma maneira de entrarmos? Há algum ponto fraco que possamos aproveitar?

- Os muros são sólidos e grossos, mais impenetráveis do que os de qualquer fortaleza já vista pelo homem - relata Nashon.

Josué fica desapontado, mas se esforça para esconder sua reação. Nashon havia demonstrado grande coragem; desrespeitar tamanha bravura seria um insulto. Mas Josué fica confuso ao ver que Nashon não está nem um pouco perturbado com essa notícia terrível. Na verdade, ele parece até entusiasmado com o que está prestes a dizer.

- Os muros são firmes, Josué - diz Nashon -, mas os corações deles, não. Nós conhecemos uma mulher. Ela acha que Deus já conquistou a cidade e que não há nada que o povo de Jerico possa fazer a respeito. Eles já estão dominados pelo medo por acreditarem que Deus está conosco.

Josué tem vontade de pular de alegria.

- E Ele está! Mas ainda precisamos encontrar uma maneira de penetrar aquela muralha.

Os israelitas haviam passado anos no deserto. Em todo esse tempo, mal tiveram oportunidade de ver uma cidade, quanto mais de invadir uma. Josué não tem nenhum plano de ataque.

Ainda assim, dá um tapinha no ombro de Nashon e se afasta da fogueira. Ele pensa em seu amigo há muito falecido e em suas constantes demonstrações de fé.

- Moisés, velho amigo - pergunta-se Josué em voz alta o que você faria?
Como tinha visto Moisés fazer tantas vezes quando a vida se mostrava difícil. Josué escala uma colina próxima dali para pensar. Exceto pela luz da tocha que ele carrega para iluminar o caminho, a escuridão é total. A lua está cheia e baixa no ar límpido do céu do deserto. Um suave vento sopra. Josué está sozinho e se lembra da maneira como Moisés sempre voltava da montanha com respostas simples para questões complexas. Horas se passam. Está ficando tarde e Josue se sente velho, inseguro. A friagem noturna gela seus ossos. Em um acesso de raiva, ele atira a tocha no chão. Então cai de joelhos e começa a orar. Era isso, ele se lembra bem, que Moisés fazia constantemente: orar. Quando a vida parecia incerta, Moisés orava em busca de orientação. Quando a vida se mostrava espetacular, ele orava em agradecimento. Quando a vida era misteriosa, Moisés orava por sabedoria. A oração era o caminho de Moisés. Josué se sente um pouco tolo pois embora esteja parado ali na escuridão há horas, só agora se lembra de baixar a cabeça e falar com Deus.

- Deus - começa ele. - Eu era um escravo quando o Senhor me mostrou o Seu amor e o Seu poder... O Senhor me deu uma nova vida, uma vida que muito me agrada, apesar das dificuldades cotidianas. O Senhor nos trouxe até aqui, mas uora temos essa poderosa muralha diante de nós. Qual é a Sua vontade? O que

Senhor deseja que façamos?

Do silêncio, vem uma lufada de vento. As chamas da tocha de Josué são sopra-cas para o lado, agitadas pela rajada de ar. Josué já viu muitas coisas na vida - as rragas do Egito, o Mar Vermelho se abrindo, o exército do faraó sendo afogado í os muitos milagres realizados por Deus nos 40 anos em que os hebreus vaga-ram pelo deserto todas aquelas visões grandiosas e surpreendentes. Enquanto rver, Josué jamais se esquecerá da sensação de caminhar entre as torres dagua cepois que o grande mar foi partido em dois.

Mas tampouco esquecerá este momento.

Um guerreiro grande e forte, surgido do nada, aparece diante dele. Com um :apuz cobrindo sua cabeça, ele tem a postura ereta, ombros largos e musculosos : uma enorme espada na mão.

Josué está aterrorizado.

- Quem é você? - pergunta ele com muita cautela.

O guerreiro mantém silêncio.

Josué baixa a cabeça, estupefato. Ele ergue novamente a cabeça devagar e pergunta:

- Você está conosco ou contra nós?

O rosto do guerreiro está envolto pela escuridão, mas seu olhar é firme.

- Estou com Deus - diz ele. Não há qualquer sentimento em sua voz, apenas roder. - Sou o Comandante do Exército do Senhor.

Josué torna a baixar a cabeça. Esta é a resposta às suas preces. Por mais apavorante que o guerreiro seja, Josué sabe que Deus está com ele.

- O que Deus quer de nós?

Josué sente a pressão da lâmina da espada do guerreiro contra a base do seu queixo. Mas, em vez de feri-lo, o guerreiro força a espada para cima, obrigando-o i erguer a cabeça.

- O Senhor partiu as águas para Moisés, mas para você... - O anjo enfia a grande espada bem fundo no chão. Na mesma hora, a terra começa a rachar. A fissura fica cada vez mais larga, espalhando-se ao redor de Josué, mas sem nunca : jcá-lo. - ... ele partirá pedras. Eis o que deve fazer.

Josué escuta com atenção o que anjo tem a lhe dizer.
É dia. O exército israelita se reúne em uma formação bem organizada e segue até Jericó. Mas eles não atacam. Em vez disso, marcham ao redor dos muros da cidade, exatamente como o Comandante do Exército de Deus ordenou a Josué. Eles repetirão esse exercício todos os dias, por seis dias consecutivos.

Josué acompanha seu exército, com as palavras do anjo ecoando em seus ouvidos:

- Marchem ao redor da cidade uma vez por dia, você e todos os seus homens armados. Faça isso por seis dias. Carreguem a Arca da Aliança em volta da cidade. Ela contém os Mandamentos de Deus, o que mostra que o Todo-Poderoso está com vocês.

Josué vê os homens carregando a Arca. Milhares de pés calçando sandálias levantam poeira do chão. Sim, pensa ele, estamos fazendo exatamente o que me foi dito.

Mas Josué também sabe que o melhor está por vir. Pois, no sétimo dia, seus homens não descansarão como Deus fez após criar os céus e a terra. Não, o exército israelita marchará sete vezes ao redor da muralha da cidade. Em seguida, os sacerdotes israelitas soprarão uma trombeta especial feita com o chifre oco de carneiro - o shofar - e então, com um forte grito do exército israelita, os poderosos muros de Jericó irão cair.

Josué sabe que muitos de seus soldados têm dúvidas quanto a esse plano. Parece absurdo, além de definitivamente impossível. Dar voltas em Jericó sob o soi quente do deserto, vestindo armaduras de guerra cobertas de poeira é o cúmulo da desconforto e não é nenhum símbolo de heroísmo. Por toda parte ouvem-se reclamações - e Josué sabe que, se o plano fracassar, sua autoridade será questionada.

Mas ele respeita a ordem do anjo sem temer. Josué tinha visto com os próprios olhos o que acontece quando um homem possui fé suficiente para ouvir a Deus e cumprir Suas ordens. Ele possui essa fé em grande quantidade. Então Josué marcha, sua boca seca por conta do calor, ignorando a sombra fresca da sua tenda que parece chamá-lo, enquanto espera ansiosamente pelo sétimo dia.

Enfim, o sétimo dia chega. Josué nem mesmo espera pela alvorada para cornear as sete voltas ao redor de Jericó. Os israelitas marcham à luz das tochas; a Arca da Aliança é carregada pelos homens mais fortes, pois é consideravelmente pesadíJ Uma grande expectativa paira sobre aquelas pessoas, pois, depois de 40 anos da espera e peregrinação, Deus lhes prometeu fazer daquela terra o seu lar. Os hei breus pensam nos anos que passaram dormindo em tendas e nos filhos nascida! no chão coberto de areia grossa e sufocante do deserto. Eles sonham com tema sólidos sobre as suas cabeças, com lares onde possam criar suas famílias cctd conforto e higiene.

Uma volta. Duas. Jerico não chega a ser uma grande metrópole, mas não dei-ta de ser imensa. Cada volta em torno de seus muros é um pequeno teste de resistência. Quatro. Cinco. Os homens se perguntam se esse plano louco irá fun-::onar. Josué afirma que o plano vem de Deus, e os hebreus acreditam em Sua r davra. Mas e se os muros não caírem? Eles atacarão assim mesmo? Os homens se questionam se este é o dia em que irão morrer - e sentem medo. Pensam em seus entes queridos, imaginando se voltarão a vê-los. À luz de suas tochas, os he-rreus veem os cidadãos aterrorizados de Jerico olharem em sua direção do alto 7 ?s muros. Estão famintos e assustados, mas ainda têm confiança na muralha ; ie os protegeu dos invasores até então e que irá impedir a entrada dos nômades 7; deserto. O exército de Jerico está a postos nas ameias dos muros da cidade empunhando lanças, espadas e machados de guerra.

Seis. Sete. Um comandante hebreu ergue a mão para interromper a marcha.

Os homens sabem o que fazer em seguida. Eles param enquanto sete sacerdotes 7io um passo à frente e levam seus shofars aos lábios. Em seguida, como se fos-sem um só, sopram uma longa nota.

Este é o sinal que Josué e seu exército vinham esperando. Todos os israelitas zritam o mais alto possível. O brado das tropas aumenta à medida que os 40 anos 7; peregrinação pelo deserto jorram de dentro daqueles homens. Josué se une a -es, jogando a cabeça para trás e soltando um urro primitivo, gritando com todo

seu coração enquanto se lembra das palavras do anjo: “A glória virá.”

De repente, os soldados de Jerico são atingidos por uma onda de choque. Seus rostos se distorcem sob o impacto do som vibrante. Eles caem de cima dos muros : aterrissam nas ruas mais abaixo. O barulho transborda pela muralha e invade as -sas de Jericó. Seus cidadãos, aterrorizados, não têm onde se esconder daqueles cecibéis que abalam a terra. Eles correm em círculos, seus ouvidos sangrando. A . dade inteira mergulhada no caos.

O som enche a casa de Raabe, atravessando as paredes de barro e forçando sua amília a se encolher no escuro. Mas, enquanto seus pais se amontoam debaixo Te uma mesa, com medo de ser mover, Raabe percebe que este é o momento que : i vinha esperando.

- Mamãe! - exclama ela. - O cordão!

Mas sua mãe está apavorada demais para sair de debaixo da mesa. Raabe agar-73 o cordão vermelho e corre até a janela. Quando a abre, vê pessoas correndo -eneticamente, sem saber para onde estão indo ou por que estão correndo. Raabe então amarra ali o cordão, conforme as instruções que recebera.

Um relâmpago crepitante cai do céu negro. Uma tempestade violenta começa . se formar nas alturas. Raabe fecha a janela e volta para a escuridão da sua casa, em saber o que acontecerá em seguida.

Um trovão retumbante se ergue do chão do deserto. Ele soa mais alto ainda do que o rugido dos hebreus, que continuam a urrar. A terra começa a tremer. Os tremores são pequenos a princípio, mas ficam mais fortes e vibrantes. Dentro da pequena casa de Raabe, a alvenaria se solta das paredes e pratos caem no chão de terra. Quando seu filho começa a berrar de pavor, Raabe tapa os ouvidos do menino. Lágrimas escorrem pelo rosto da própria Raabe, à medida que novos ruídos de destruição vindos de fora fazem a sala se encher de poeira.

É neste momento que os muros da cidade começam a desmoronar.

O terremoto fica ainda mais violento. Muitos dos cidadãos de Jerico se reúnem

na praça principal em busca de proteção, mas são esmagados pelas pedras dos edifícios que desabam. A muralha está em escombros, e os tremores continuam.

Então, quase tão rapidamente quanto começaram, eles param.

Os relâmpagos já não caem do céu. Os urros dos israelitas cessam.

Josué grita para seu exército. Sem os muros para protegê-los, todos os cida-

dãos de Jerico ouvem suas palavras ecoarem:

- Jerico é nossa! Entrem todos. Vamos oferecer esta cidade ao Senhor.
Josué segue seus dois espiões, Nashon e Ram, pelas muralhas desmoronadas de Jericó. O tempo parece desacelerar enquanto ele examina os escombros daquela que havia sido uma grande cidade. A população e os soldados estão trôpegos* seus ouvidos e narizes sangrando. O exército está impotente e os hebreus » dominam com facilidade. Deus havia ordenado que tudo ali fosse destruído- e é responsabilidade de Josué garantir que assim seja.

Isto é, tudo menos Raabe e sua família. Pois Deus tinha dito que ela devera ser poupada por ter ajudado os israelitas.

À medida que as tropas invasoras arrombam as portas para entrar nas casasa Nashon e Ram vão correndo à moradia de Raabe, em busca do cordão vermelbd revelador. Eles disparam pelas ruas da cidade, saltando por sobre pedras caicad e escombros de edifícios, ignorando gritos dos moribundos. Ao longe, o cordão vermelho balança ao vento e os dois israelitas corpulentos seguem na direção deiel

Eles abrem a porta de Raabe com um chute. Toda a família está ferida e ensan•! guentada por conta da destruição - mas estão vivos.

O tempo urge.

- Nossos homens estão vindo - exclama Nashon, estendendo a mão.

Raabe se encolhe no chão ao ouvir o barulho, sem saber ao certo se deJ

confiar no hebreu ou se deve pedir ajuda a alguém. Ela hesita. Os israelitas são inimigos de seu povo. Confiar em Nashon significará dar as costas para servir à sua terra natal e às pessoas que conhece desde que nasceu.

Nashon percebe seu dilema.

- Você não pode ficar aqui - diz ele com suavidade.

Raabe segura a mão de Nashon. Ele a levanta do chão, puxando-a para junto do seu corpo em um gesto protetor. Esta é uma sensação nova para ela - ser protegida por um homem. Geralmente, eles se aproveitam dela. É então que ela decide abandonar sua herança cananeia e se unir ao povo israelita, para em breve idorar seu Deus e ficar junto deles para o resto de sua vida.

Ram ergue o filho de Raabe nos braços e usa o mesmo tom de urgência para .convencer os pais de Raabe a fugir com eles. Todos saem da casa cambaleantes seguem em direção à praça principal da cidade. A cena é uma visão distorcida de poeira, fumaça e corpos sem vida dos cidadãos de Jerico e soldados israelitas exaustos. Josué se encontra no centro de tudo, os braços estendidos para o céu.

- Deus manteve Sua promessa - balbucia para si mesmo, exultante. - Deus -anteve Sua promessa. - O antigo escravo é agora senhor da Terra Prometida. A rrimeira coisa que lhe vem à cabeça é agradecer, pois sabe que Deus aprecia um ; ?ração grato. - Obrigado - grita Josué para Nashon e Ram, os espiões que primeiro renetraram a muralha daquela cidade. - Obrigado - grita para Raabe, que possi-• ./ou aquela vitória ao esconder os dois israelitas. E por fim: - Senhor! - exclama rara o Criador. Seu coração se enche de gratidão e amor por Deus. - Obrigado!

É então que Josué ouve um cântico grave e retumbante que se espalha por toda idade. As palavras o fazem se lembrar daqueles dias no Egito, que parecem tão : r.gínquos, e do sonho distante de que um dia os escravos israelitas escapariam caquele terrível mundo de trabalho árduo e do sofrimento para construir uma :icão só para si. O cântico diz o seguinte: “Is-ra-el! Is-ra-el!” Ele emana dos aõios de cada soldado israelita parado sobre as ruínas de Jericó. Alguns vibram, utros choram lágrimas de alegria e exaustão. Antes escravos, agora uma nação.

- Quando obedecemos ao Senhor - diz Josué para todos que queiram ouvir -, tudo é possível.

Mas quando Josué morre, essa fé parece morrer com ele. Gerações de israelitas se esquecem de sua aliança com o Senhor, recorrendo a outros deuses na esperança de que eles supram suas necessidades - deuses da chuva e da fertilidade, aeuses dos antigos habitantes da Terra Prometida. Eles acreditavam, erroneamente que essas divindades abençoariam seu novo estilo de vida.

Essa traição faz Deus sofrer. Ele recorda aos israelitas a aliança com Abraão e a Terra Prometida é um presente que deve ser valorizado. Deus utiliza excércitos implacáveis e poderosos para atacar os israelitas, como um pai que deseja disciplinar o filho.

O ciclo se repete por centenas de anos: Israel quebra a aliança; Deus envia exércitos estrangeiros para derrotá-los e subjugá-los; eles aprendem a lição e clamam por ajuda; Deus então faz surgir um redentor ou “juiz” para salvá-los; então, a paz volta ao seu povo, até que uma geração futura volta a esquecê-Lo.

De todos os inimigos estrangeiros que derrotaram os israelitas rebeldes ate este ponto da história, nenhum é mais poderoso do que os filisteus. Eles logo dominam os israelitas e reivindicam a maior parte da Terra Prometida para si. Deus, no entanto, não abandona Seu povo. Ele anseia por renovar Sua aliança com os israelitas e devolver a eles a Terra Prometida.

Novamente, o Senhor faz uma escolha improvável para pôr em prática Seu plano - um jovem chamado Sansão, que tem a força de um leão.
Já se passaram 150 anos desde a morte de Josué. Os filisteus, donos de uma cultura sofisticada, controlam as regiões costeiras da Terra Prometida, e, apesar de sua atitude opressiva, muitos israelitas se sentem atraídos pelo seu modo de vida. Alguns, inclusive, chegaram a parar de adorar o Deus de Abraão, preferindo curvar-se aos deuses filisteus.

Um dia, um anjo do Senhor surge para uma mulher quando ela está tirando água do poço do seu vilarejo. Ela é infértil e, embora todos os dias ore por ue filho, até o momento sua fé ainda não foi recompensada. O anjo, disfarçado, tem o rosto parcialmente ocultado por um capuz.

- Não tenha medo - diz ele. - Embora você seja infértil, Deus lhe dará um filho.

Ela fica sem palavras, e o anjo desaparece subitamente de vista.

Então ele volta a surgir atrás dela, informando-lhe que existem condições para o nascimento da criança: um rígido código de conduta que ela deve seguir durante a gravidez e depois dela.

- Não beba álcool ou coma alimentos impuros. E quando seu filho nascer, nãi deve cortar os cabelos dele. Este será o sinal de que o menino será consagrado a Deus.

Incapaz de responder, ela apenas concorda com a cabeça.

Pouco tempo depois, a criança nasce e recebe o nome de Sansão. Aos 8 anoa de idade, ele sabe de cor a história do anjo. Sua mãe acredita que ele está destira-l do a libertar os israelitas dos filisteus.

Dez anos se passam. Sansão já é um rapaz, com uma vasta cabeleira onduladi. de cachos grandes e viçosos, exatamente como o anjo havia pedido. Ele é famoso por suas provas de força e pelos músculos que emolduram seu corpo. Há quem de que não há homem mais forte do que ele em Israel. Mas Sansão jamais fez nada paira libertar os israelitas do domínio filisteu. Ele se afastou do Deus de Abraão e :: mou Habor, uma filisteia de uma cidade chamada Timna, como esposa.

A caminho da cerimônia de casamento, Sansão e seus pais chegam aos vinhe-cos nos arredores de Timna. No labirinto de uvas e vinhas, Sansão se perde de -eus pais. Enquanto os procura freneticamente, faz uma curva errada e vai parar -.a cova de um leão. De repente, um filhote salta para cima de Sansão. Neste exato -.omento, o espírito do Senhor dá a Sansão força para se proteger e ele destroça : animal com suas próprias mãos. Depois de se recompor do ataque inesperado, 'insão retoma a busca por seus pais. Quando se vira para ir embora, no entanto, ele ouve o forte zumbido de abelhas dentro da carcaça do leão. Isso lhe dá uma ceia. Ele não contará a ninguém sobre o ataque.

Ao chegar a Timna com os pais, Sansão consegue sentir no ar a tensão causa-da por seu casamento. A cerimônia se dá na praça do vilarejo. De um lado estão sentados seus pais israelitas; do outro, os pais filisteus de Habor. Ela é uma esposa celicada, tão bela e esguia quanto Sansão é forte. Sansão deseja que sua mãe a aceite, mas ela menospreza a escolha do filho. Enquanto a banda toca, Sansão dá cm leve beijo no rosto de Habor e sussurra em seu ouvido:

- Eu vou falar com ela.

Sansão atravessa a praça. Ele é discreto e fala com a mãe em um tom de voz suave:

- Sei que o desejo da senhora era que eu me casasse com uma mulher do nosso povo.

- O desejo não é meu. Essa ordem veio de Deus, então espero que Ele entenda i sua escolha - diz sua mãe, fungando.

- Mas foi Deus quem a enviou para mim. Sei disso no fundo do meu coração. O amor não vem de Deus?

Abimeleque, um guerreiro filisteu, chega à praça. Ele é famoso por desdenhar os israelitas e por gostar de provocar o Deus deles. Seu assistente, um subcoman-dante chamado Ficol, o acompanha.

A mãe de Sansão vê Abimeleque e o aponta para o filho.

- O seu amor nos protegerá daquele homem?

A conversa é interrompida por gritos de “Sansão, Sansão, Sansão”, à medida que os convidados exigem dele uma prova de força. Três israelitas carregam com grande dificuldade um jarro d agua feito de argila. Eles o colocam diante de Sansão, enquanto outros participantes da cerimônia correm até o seu lado e o incentivam a erguê-lo.

O jarro pesa mais de 90 quilos, mas é leve como uma pluma para um homem com os músculos de Sansão. Ele levanta o recipiente sobre a cabeça, depois vira--o para trás de modo que a água caia em sua boca e escorra pelo seu rosto. A praça irrompe em uma salva de palmas. Todos os homens presentes desejam ter a força de Sansão, enquanto várias mulheres se pegam admirando o tamanho dos seus músculos.

Ainda sustentando o jarro sobre a cabeça, Sansão o carrega até Abimeleque que está do outro lado da praça. Sansão coloca o jarro no chão e desafia o filisteu a erguê-lo. Aquele já não é o Sansão gentil que deu um beijo carinhoso em sua esposa instantes antes, tampouco o filho amoroso que quer agradar à mãe. Ele agors se mostra rude e provocador, um israelita insolente que não teme homem algum» determinado a mostrar aos filisteus quem é o mais poderoso de todo o reino.

Abimeleque se sente humilhado. Sabe que não é capaz de levantar o jarro. Sc tentasse, conseguiría apenas parecer um completo idiota. Ele se rende.

Não contente em humilhá-los com sua força, Sansão decide constranger air.-da mais os filisteus com seu intelecto e faz uma pergunta irrespondível.

- Gostaria de lhe propor um enigma - diz Sansão para Abimeleque. - Se me der a resposta durante os sete dias de banquete, eu lhe darei 30 vestes de linho e 30 mudas de roupa. Se não conseguir me dar a resposta, é você quem deve dá-ba a mim.

- Prossiga - retruca Abimeleque.

A voz retumbante de Sansão recita o enigma que havia elaborado na cova do leãaa

- Do que come saiu comida, do que é forte saiu doçura.

O silêncio recai sobre a festa. Ninguém consegue solucionar o enigma. Furioso, Abimeleque se vira e vai embora pisando firme. Mas o filisteu não vai longa Ele e Ficol examinam Sansão de uma distância segura, escondidos nas sombra a poucos metros da praça.

- Quem deu consentimento para esta união, Ficol? Eu certamente não facil Qualquer filisteu seria melhor partido do que aquela aberração.

Eles observam a expressão no rosto do pai de Habor e a maneira como aí idolatra Sansão.

- O pai dela é um fracote - murmura Ficol. - Mas como chegaremos a Saci são? Ele é forte demais.

Abimeleque abre um sorriso.

- Deixe comigo. Não precisaremos chegar a ele - diz Abimeleque, fitando a moça com um olhar firme. - Basta chegarmos a ela.
Depois de três dias de banquete, os filisteus ainda não conseguem solucionar o enigma. Enquanto Sansão descansa em seus aposentos, Ficol confronta Habor exigindo saber a resposta.

- Não sei. Sansão não me contou - responde Habor.

- Convença seu marido a dar a solução do enigma ou queimaremos você e sua família vivos - ameaça Ficol.

Horrorizada, Habor se atira nos braços de Sansão aos prantos.

- Você me odeia. Não me ama de verdade. Propôs um enigma para o meu - ovo, mas não me disse a resposta.

- Não expliquei o enigma nem mesmo para os meus pais - diz Sansão.

No sétimo dia de banquete, enquanto Habor teme pela própria vida, Sansão rede às suas súplicas e lhe revela a solução da charada.

Por amor à própria vida e por lealdade ao seu povo, Habor revela o enigma a -oimeleque e Ficol.

Naquela noite, durante o último banquete da festa de casamento, Abimeleque se aproxima de Sansão e diz:

- O que é mais doce do que o mel? O que é mais forte do que um leão? Sansão percebe na mesma hora que o enigma impossível foi solucionado. Enfurecido e sentindo-se traído, Sansão foge da festa, tramando uma vingança contra Abimeleque e seu povo por ter sido humilhado em seu próprio casamento.
za cova do leão.

Algum tempo depois, durante a época da colheita, Sansão aproveita a oportu-: nade de obter retaliação. Ele incendeia as plantações dos filisteus e observa os

- antes de feixes de trigo, as espigas, os vinhedos e os olivais arderem em chamas.

Temendo a força de Sansão, Abimeleque retoma seu plano original.

- Mesmo que não possa destruir Sansão, ainda me resta sua esposa indefesa -a si mesmo ao ver a destruição.

Um punho esmurra a porta da casa dos pais de Habor. É noite. Sansão não está em casa, então é sua esposa quem abre a porta.

Abimeleque e Ficol entram e correm os olhos pela sala.

- Onde está Sansão? - exige saber Ficol.

- Não sei. Ele não está - responde ela.

Isso é tudo que Abimeleque precisa ouvir.

- Vá em frente - ordena ele a Ficol.

Em instantes, os soldados amarram os pais de Habor, atando-os a uma das igas de sustentação da casa. Ficol fecha os braços em volta de Habor, que se de-: ate e grita enquanto os soldados trazem feno e começam a espalhá-lo pelo chão.

- Você é uma desgraça para o nosso povo - diz Abimeleque para Habor, acariciando seu queixo.

Abimeleque e Ficol vão embora e trancam a porta por fora. Uma tocha é jogada sobre o teto de palha, incendiando-o. Do lado de dentro, Habor implora por misericórdia. Uma multidão se reúne, observando a casa ser consumida pelas chamas e pela fumaça. Enquanto os gritos de Habor desaparecem aos poucos, nenhum dos presentes desafia os soldados para tentar salvar a vida da pobre mulher.
A guerra solitária de Sansão contra os filisteus começa no instante em que ele é informado da atrocidade. Nada é capaz de impedi-lo de se vingar. O primeiro t morrer é um guarda filisteu que vigia um beco perto dali. Sansão simplesmente se aproxima dele, pega sua cabeça com as mãos e quebra o pescoço do homem.

- Isto é pela minha esposa - diz ele.

Incapaz de controlar sua raiva, Sansão dá prosseguimento à sua vingança homicida. Ele invade, sem aviso, o quartel que abriga soldados filisteus, brandindo um porrete de madeira. Imediatamente é atacado por meia dúzia de homens armados, mas os esmaga a tacadas. Depois de atirar soldados da sacada no paço mais abaixo, Sansão vai até o cárcere, onde abre as celas para libertar os prisioneiros israelitas. Como naquele grande dia em que Josué e o exército israe_a| arrasou Jerico, Sansão mata cada filisteu à vista antes de seguir noite adentro. vingança ainda está longe de terminar.
Abimeleque avalia as consequências da fúria de Sansão.

- Um único homem fez tudo isso? - pergunta ele, olhando para as pilhas de cadáveres. Moscas sobrevoam os corpos.

- Foi Sansão - responde Ficol. - O homem que queimou...

- Eu sei quem é ele - interrompe Abimeleque.

Os guardas filisteus que estão por perto sabem que é melhor ficar calados. Eles observam Abimeleque ferver com uma ira silenciosa, esboçando um plano retomar o controle da situação. Nesse meio-tempo, uma multidão de israelitas se reuniu para testemunhar a comoção.

- Onde está ele? - grita Abimeleque para o aglomerado de israelitas paraái diante do quartel. - Onde está Sansão?

A simples presença deles enfurece Abimeleque que, tomado pela raiva, vai em direção a um ancião israelita e fecha as mãos em volta do pescoço do velha.

- Você irá trazer Sansão para mim - diz Abimeleque. - E irá fazê-lo o mais rápido possível. A cada dia que eu não o vir, duas pessoas do seu povo irão morrer. - Ele solta devagar o pescoço do homem. - Fui claro?

Ela tenta recuperar o fôlego, assentindo enquanto dá um rápido passo para trás.

- A começar de agora - acrescenta Abimeleque, estalando os dedos.

Ficol agarra dois israelitas indefesos. Eles não oferecem nenhuma resistência, pois fazê-lo talvez desperte ainda mais a ira dos filisteus. Ficol empurra os israelitas para as mãos dos seus guarda-costas, que cortam a garganta deles.

Se Abimeleque soubesse que a mãe de Sansão estava no meio daquela multidão talvez a vida dos dois homens tivesse sido poupada. Pois ela sabe onde suootrar o filho.

Uma sombra cai na estrada que leva à caverna situada no topo de um penhasco ingreme, distante da cidade. É uma trilha assustadora e precária. A mãe idosa de Sansão faz essa escalada com bravura, acompanhada por Elã e por um pequeno grupo de israelitas. Eles sobem o penhasco, ofegantes por conta do esforço, tomando o cuidado de não olhar para baixo em direção ao vale. Pequenas pedras caem ruidosamente pela encosta acima deles, fazendo-os pressionar seus corpos a contra a face do rochedo para não serem atingidos.

-Finalmente chegam à caverna. Os aldeões entram, um a um, liderados por Elã. A mãe de Sansão é a última a entrar, desconfiada de que sua presença vá irritar o filho.

- Sansão - chama Elã baixinho, sua voz ecoando na escuridão.

Silêncio. Das profundezas da caverna ouve-se o som de água gotejando.

Eles dão um passo à frente.

- Sansão? Você está aí, filho?

Num canto da gruta, eles veem a forma de um homem adormecido. Elã teme uma tragédia aconteça se ele ousar surpreender Sansão, de modo que é sua rãe quem se aproxima para despertar o gigante.

Mas, assim que toca as cobertas, a mãe de Sansão puxa a mão de volta, horrorizada. Aquele não é Sansão. Nem de longe. É apenas uma pilha de roupas e mantas amontoadas no formato de um homem.

- Mãe - diz Sansão, emergindo das sombras atrás dela. Ele se agiganta diante com os israelitas, que se afastam, amedrontados. O profundo sofrimento de Sansão é : a claro em seu rosto vincado e abatido. Ele traz uma expressão selvagem nos vicios e, no interior daquela pequena caverna, ele parece mais imponente do que nunca. Seus cabelos longos e grossos caem sobre seus ombros como uma una de leão, dando-lhe um ar de predador. Ele parece capaz de matar qualquer um nem, mulher e criança do reino para vingar o pavoroso assassinato de sua esposa.

- Viemos aqui para dissuadi-lo - afirma Elã, amedrontado.

- Dissuadir? A mim?

- Você deve parar essa matança, Sansão. Por favor, pelo bem de todos nós. Para cada filisteu que você mata, dois de nós são mortos por eles.

- Estou apenas pagando na mesma moeda.

Elã começa a se irritar.

- Não percebe que agora somos governados pelos filisteus?

- Todos nós - responde Sansão, esforçando-se para não desrespeitar Elã, mas fazendo questão de deixar bem claro que tem um trabalho a concluir - deveoM fazer o que achamos correto.

- Não, Sansão. Devemos fazer o que é correto para nosso povo e para Deus. Não para nós mesmos.

A mãe de Sansão dá um passo à frente e toma a mão do filho. Ela não esqueceu da promessa que o anjo fez tanto tempo atrás. Então confia que EteJ tem um plano que supera a lógica para realizar o impossível e garantir que sua vontade seja feita.

- Você deve se entregar, meu filho - sussurra ela com ternura.

- É isso que Deus quer? - pergunta Sansão, arrasado.

- Às vezes... é preciso confiar Nele. O Senhor nos leva por caminhos que nãa conseguimos enxergar. Ele guiará as suas escolhas. Precisamos confiar.

Sansão ergue os olhos para o céu e o contempla pelo que parece uma esm nidade. Por fim, baixa a cabeça e estende suas mãos vigorosas. Elã assente ; ;aj grande alívio e dois homens se aproximam para atar seus punhos com uma corrida. Sansão olha para a mãe em busca de apoio, mas ela não consegue fitá-lo olhos. Sansão, o homem mais forte do reino, permite que o levem dali, manso como um cordeiro.

Abandonado por seu povo, tachado de assassino pelos invasores de sua naçãaM rendido pela própria mãe, Sansão agora está acorrentado a um muro de pedra praça do mercado. Barracas de comerciantes se estendem ao longo do muro opoafl to, enquanto os balidos de cordeiros e bodes de abate enchem o ar. Seus bracaa vigorosos estão presos, esticados um para cada lado, e as correntes de metal fereJ seus punhos. Os cabelos grossos de Sansão estão desgrenhados e seu corpo onde os guardas o espancaram, sabendo que ele não poderia revidar. Israelita» filisteus se amontoam ao seu redor, encarando-o e zombando de sua impotéroJ Alguns cospem nele. Outros escarnecem dele. Mas sabem muito bem que nãM devem chegar perto demais, pois, mesmo preso por aquelas correntes, a forca Sansão é evidente para todos. Várias pessoas se perguntam se ele conseguira aefl alguma forma romper aqueles grilhões e dar continuidade à sua vingança.

Somente Abimeleque ousa ficar cara a cara com Sansão. Os dois homens estão a centímetros de distância, olhando dentro dos olhos um do outro.

- Eis o seu prêmio - diz Sansão através de seus dentes trincados. Ele se afasta para não cuspir em seu captor, sabendo que não adiantará de nada. Mdhfl esperar, encontrar uma maneira de fugir e lidar com Abimeleque e seus lacaios de forma mais definitiva.

- Tudo o que vejo aqui é um mero assassino - retruca Abimeleque.

Ele soa calmo, presunçoso, enquanto pensa no dia em que rasgará o corpo Sansão em dois e atirará seu cadáver para os cães selvagens. Só então terá a certeza de que Sansão nunca mais voltará a matar um filisteu.

- Foi você quem assassinou minha esposa.

- Ela era uma filisteia, não era do seu povo. Precisávamos ensinar uma lição... uma lição que a sua gente jamais conseguisse esquecer.

- E agora que tem a mim, finalmente deixará meu povo em paz?

Abimeleque ri. É uma risada fria, o som de um homem que se crê onipotente.

- Somente depois de expulsarmos todos vocês de volta para o deserto, de lugar de nunca deveríam ter saído.

Sansão percebe que cometeu um erro. No fim das contas, seu povo não está seguro. Abimeleque meneia a cabeça para Ficol.

- Mate-o.

Os israelitas que observam a cena arquejam de espanto. Eles foram traídos. Na ânsia de salvar a própria pele, condenaram à morte o único homem que poderia saívá-los.

Sansão ouve uma voz.

- Deus? - responde ele, espantando-se ao perceber que Deus havia espera-; para lhe dirigir a palavra somente em seu momento de maior necessidade. Sessão olha para baixo e vê uma queixada de jumento caída no chão do deserto, e esquecida. Invadido por uma força renovada, ele sabe que aquele osso foi xado ali por um motivo. Os soldados estão a poucos passos de distância.

Sessão não olha para eles, para decepção de Abimeleque, que havia esperado muito tempo para ver uma expressão de pavor nos olhos daquele homem tão destemido. Em vez disso, Sansão olha para a mandíbula e fala com Deus. - É mesmo o Senhor?

- Sim, sou Eu.

Sansão ouve a voz de Deus e fica pasmo ao sentir um poder sem igual se espalhando pelos seus músculos. Então rompe as correntes como se não passassem ce gravetos. Ele agarra os elos de aço e os gira em volta da cabeça para forçar os soldados a recuarem. Acreditando que suas espadas afiadas conseguirão salvá-los, filisteus correm para cima dele, mas Sansão os derruba com golpes de corrente.

Em seguida, Sansão apanha a queixada do chão. As correntes ainda pendem

ccs seus punhos por causa das algemas de aço, mas agora ele tem uma arma -um pedaço de osso ressecado pelo sol, uma simples mandíbula de jumento, -ss ele a empunha como se fosse a maior arma já usada pelo homem. É uma nstura de foice, espada, machado de guerra, sabre e clava. Com ela, Sansão golpeia todos os filisteus que são tolos o suficiente para atacá-lo. Um soldado tem a cabeça esmagada. Outro é atirado contra uma barraca. Somente Abimeleque e Ficol permanecem ali, e Sansão pode matá-los com sua nova arma em um piscar de olhos. Mas ele tem um trabalho muito mais importante para fazer, então se limita a fitá-los com um olhar firme, como se lhes dissesse que não os perdoara pela morte de sua esposa, e foge na direção oposta.

Sansão não anda muito. Assim que faz uma curva para entrar em um beco, cai de joelhos. Sem fôlego, junta as mãos e fala com Deus.

- Senhor - pede Sansão -, é este o Seu desejo? Por favor, eu Lhe peço, mostre--me o caminho.

Sansão ouve passos atrás de si. Ele se levanta de um salto, o osso de jumento em punho, esperando ver mais um soldado. Mas trata-se de uma mulher, uma mulher muito bonita. Ela é tão deslumbrante que Sansão se esquece de sua ira. Tudo o que consegue fazer é fitar seus olhos negros. A mulher carrega um jarro d agua, que então larga no chão. Olhando de forma sedutora dentro dos olhos de Sansão, ela retira o xale que lhe cobre a cabeça e se agacha para servir-lhe um copo dagua.

De repente, Sansão percebe quanto está sedento. As horas que passara acorrentado à praça do mercado o haviam desidratado. Ele sente sua língua pastosa. seus lábios secos e partidos. Bebe a água com sofreguidão, sem nunca desviar os olhos da mulher à sua frente. Ela é claramente uma filisteia, e Sansão se lembra da advertência de sua mãe de que ele deveria encontrar uma mulher de sua própria tribo.

Sansão engole o restante da água e seca os lábios com as costas da mão. Percebe que a mulher admira seu forte peito nu, o olhar dela se detendo nos seus ombros bem definidos.

- Quem é você? - diz ele com firmeza.

- Dalila - responde ela, acanhada. - Meu nome é Dalila.

Abimeleque logo é informado sobre Dalila. O comandante filisteu havia se retirado do vilarejo israelita e voltado para um quartel em sua cidade natal. A vitóna de Sansão contra o exército filisteu parece ter sido abençoada. Abimeleque busca sua própria bênção junto à divindade pagã chamada Dagon, oferecendo um animal em holocausto na calada da noite. A pequena câmara está esfumaçada quando Ficol chega trazendo novidades.

- Temos notícias de Sansão - informa Ficol, com voz firme. - Ele tem uma nova mulher. Uma filisteia.

- Outra de nossas mulheres? Qual o nome dela?

- Dalila - responde Ficol.

Abimeleque sorri com malícia, pois acredita estar novamente prestes a ganhar vantagem contra Sansão.

- Eu a conheço. Traga-a até aqui. Preciso falar com ela.

Dalila é levada até Abimeleque. Ele se encontra em um balcão quando ela chega, de modo que Dalila não o vê ao entrar em seus aposentos. Abimeleque baixa os olhos em sua direção, enfurecido que um israelita tenha tido a ousadia de tocar em um exemplar tão espetacular do povo filisteu. A beleza da mulher e tamanha que ele estremece por alguns instantes antes de recuperar a compostura. Abimeleque imagina momentos de prazer e êxtase junto dela, anseios da carne que precisa afastar da mente se quiser vencer aquela guerra.

- Dalila - fala da forma mais imponente possível. Mas sua voz vacila, denunciando a sua fraqueza. - Obrigado por ter vindo - acrescenta ele, com um pouco mais de confiança.

Abimeleque desce do balcão por uma escada nos fundos. Seus olhos percorrem cada centímetro do corpo de Dalila ao aparecer atrás dela.

- Encantadora, como sempre - diz ele baixinho.

Dalila se vira para trás.

- O que você quer?

- Por ora - ronrona ele -, apenas ter uma pequena conversa. - O ronronar se torna um rosnado à medida que sua voz fica mais fria. - Gostaria de falar sobre Sansão. Uma escolha interessante da sua parte, você não acha? Ele não é um de nós. O que a faz pensar que o seu lugar é ao lado dele?

- O que você quer saber? - responde Dalila, na defensiva.

Abimeleque estende a mão e toca de leve seu queixo.

- Que tom de voz é este? Não me diga que se importa com Sansão.

O silêncio dela é revelador.

- Suponho que ele esteja apaixonado por você, correto? - pergunta Abimeleque.

- Por que você mesmo não pergunta a ele? - rebate Dalila, nem um pouco intimidada pelo comandante filisteu.

Abimeleque se aproxima dela, chegando tão perto que Dalila consegue sentir seu hálito contra o rosto. Então, agarra-lhe o braço de modo que ela não possa recuar.

- Sansão massacrou centenas de seus conterrâneos - diz ele, perdendo o controle de sua raiva. Gotas de cuspe sujam o rosto liso e impecável de Dalila. - Por acaso se esqueceu disso?

- E quantos você massacrou, Abimeleque?

- Não confunda justiça com assassinato.

- Você acha mesmo que é melhor do que ele? - pergunta ela. - Mas Sansão mudou. Desde que me conheceu, ele é outro homem.

Abimeleque ri com amargura.

Você acredita mesmo nisso? A verdade é que ele continuará matando até encontrarmos uma maneira de detê-lo... de uma vez por todas.

As palavras são como punhais para Dalila. Abimeleque percebe o impacto causado por elas e decide soltar a moça.

- Você sabe o que aconteceu com a primeira mulher dele? - pergunta. - Ela morreu... como direi... jovem. Você quer morrer jovem, Dalila?

Ele torna a pegar seu queixo, mas ela afasta o rosto. Abimeleque o agarra novamente com brutalidade, virando-o de volta para si.

- De onde vem a força dele, Dalila? Qual é o segredo?

- Eu não sei - responde ela, resignada. - Ele não me diz.

- Descubra.

A essa altura, Dalila já está apavorada, presa entre a ira dos dois homens mais poderosos da região.

- Você já viu do que ele é capaz. Não sei se conseguirei - diz ela.

Abimeleque gesticula para Ficol, que arrasta um grande baú de madeira.

- Talvez isso possa lhe ajudar - diz-lhe Abimeleque.

Ficol abre a tampa. Dalila, que nunca havia tido muito dinheiro na vida, fica pasma ao ver milhares de reluzentes moedas de prata, novas em folha, cintilarem diante de seus olhos. Ela olha para o baú, perplexa. É uma verdadeira fortuna, uma quantidade inimaginável de dinheiro.

- Gosto de chamar isso de “compensação de risco” - fala Abimeleque, recuperando seu charme.

Dalila estende a mão para as moedas e apanha um punhado delas. São tão boas de pegar... tão sólidas.

Em poucos instantes, Abimeleque percebe que ela já tomou sua decisão.

- É tudo seu - diz ele, observando a prata brilhar nos olhos da mulher.

Dalila, no entanto, está desconfiada. Ela se agacha para apanhar as moedas de prata e guardá-las na barra do vestido.

Mas Abimeleque rapidamente agarra-lhe o punho e o aperta com tanta força que as moedas escapam das mãos de Dalila e caem de volta no baú. Ele então fecha a tampa com um baque.

- Em breve, minha cara. Em breve. Mas não agora. Somente quando conhecermos o segredo dele. Nesse dia, tudo isso será seu. Mas diga-me: você conseguirá descobrir o segredo dele?

Dalila respira fundo e assente com a cabeça.

É tarde da noite. Sansão puxa o corpo de Dalila para junto do seu, beijando-lhe os lábios com ternura. Este é o momento que Dalila vinha temendo, pois sabe que qualquer hesitação em seu beijo pode denunciá-la. Ela envolve Sansão com os braços e o beija como se fosse a última vez. Sansão não suspeita de nada; ele a ergue nos braços para carregá-la até a cama. Dalila respira intensamente ao pé do seu ouvido, antecipando os momentos de paixão que estão por vir.

- Por que você é tão especial? - pergunta ela, sedutora. - O que o torna tão diferente?

Sansão a coloca na cama sem responder. Ele se deita ao seu lado e os dois se abraçam.

- Você parece invencível - diz ela com uma voz inocente. - Será que alguém seria capaz de derrotá-lo?

Confuso, Sansão se vira para encará-la.

- O que quer dizer com isso?

- Só estou curiosa. Parece haver um segredo por trás da sua força. Se vamos mesmo ficar juntos, não deveria haver segredos entre nós.

Ele olha fundo nos olhos de Dalila em busca de suas intenções, mas não vê nada de ardiloso. Ela corre as mãos pelos longos cabelos negros de Sansão enquanto as dele acariciam a pele macia das suas costas.

- Deus está comigo, Dalila - responde Sansão enfim. - Ele me dá força.

- Mas como? Como Ele lhe dá força?

Sansão, na verdade, se sente aliviado por abrir seu coração. As palavras saem mcontidas de sua boca, e ele confessa tudo para sua amada.

- Minha mãe era infértil. Deus lhe deu um filho... eu. Mas há algumas coisas que não devo fazer.

- Como o quê? - pergunta ela, beijando-lhe de leve o pescoço.

- Meus cabelos. Eu nunca os cortei. Sou proibido de fazê-lo. É um sinal da minha devoção. Se os cortar, Deus me privará da minha força. Serei tão fraco quanto...

- Quanto Abimeleque? - sussurra Dalila.

Sansão não pode deixar de sorrir, embora a menção desse nome o perturbe. Os amantes ficam calados por alguns instantes.

- Você não acredita em mim, não é? - pergunta Sansão.

Dalila quase consegue sentir a prata em suas mãos. Seu peso, seu brilho, seu poder.

- Acredito, Sansão - responde ela, beijando-o com uma ousadia que ele jamais havia experimentado antes. - Acredito plenamente.
Sansão dorme. É o sono profundo dos que têm paz de espírito, e, pela primeira vez em meses, nada parece preocupá-lo. Seu coração está repleto da alegria trazida pelo amor físico e emocional. Seu corpo, sólido como uma montanha, tenso de raiva e ódio desde a morte de sua esposa, finalmente relaxa. Ele respira fundo, com serenidade, imerso nos sonhos mais encantadores que já teve na vida.

Sansão se mexe, mas não acorda quando Dalila corta a primeira mecha dos seus cabelos. Ela toma cuidado, começando pela extremidade mais distante da cabeça. Mas seus cabelos são tão longos que quase não faz diferença. Ela então torna a cortá-lo. Mais uma vez. E outra. Logo, não resta fio algum. Sansão, no entanto, continua a dormir. No instante em que o último cacho cai no chão, os soldados filisteus entram correndo no quarto de Dalila.

- Levem-no! - ordena Abimeleque.

Na mesma hora, Sansão se levanta da cama. Em questão de instantes, está de pé e pronto para lutar. Ele leva uma das mãos à cabeça e então se dá conta. Olha para a cama e vê uma pilha de fios negros. Olha para Dalila, que se vira para o outro lado, evitando seu olhar, e sente um aperto no coração. Os soldados filisteus o dominam com facilidade. Sansão resiste, mas está sem forças. Pela primeira vez na vida, ele se sente fraco e amedrontado.

- O que você fez? - grita ele para Dalila.

Abimeleque esvazia o baú de moedas de prata sobre a cama, onde elas se misturam com os cachos de cabelo como joias exóticas.

Sansão encara Dalila com um olhar furioso. Mal consegue acreditar que foi traído daquela forma e amaldiçoa sua própria tolice.

Dalila fica calada.

- Ela é linda, não? - zomba Abimeleque.

Sansão se debate, mas não consegue se libertar.

- Pois bem, meu amigo - continua Abimeleque. - Olhe com atenção. Com muita atenção.

Sansão não quer olhar para a mulher que o traiu. Ainda consegue sentir as mãos dela em sua pele. Ainda consegue sentir seu hálito quente e lembrar-se de suas palavras de amor. Sente o coração partido quando enfim olha para aquela que o enfeitiçou.

- Agora grave essa imagem em sua mente - diz Abimeleque. - Pois é a última coisa que irá ver. - Ele se inclina para a frente, suas duas mãos estendidas para o rosto de Sansão, que acredita que seu inimigo vai estrangulá-lo até a morte. Mas, em vez disso, Abimeleque enfia os polegares em seus olhos.

Em questão de instantes, Sansão está cego.
Matar Sansão teria sido um gesto de benevolência. Mas Abimeleque não é um homem misericordioso. Ele ordena que o israelita seja acorrentado novamente - desta vez em uma prisão. Meses se passam sem que Abimeleque se permita pensar no seu rival.

Nesse meio-tempo, os cabelos de Sansão voltam a crescer. Ele está sozinho, seus olhos são cobertos de ataduras sujas de sangue. A escuridão é seu mundo.

Mas é nessa escuridão que ele finalmente começa a ver que seu destino se cumprirá. Ele pressiona a testa contra a pedra fria de uma cela no quartel. Atrás dele, a porta da cela range ao ser aberta.

- Quem está aí? - pergunta, angustiado.

Ninguém diz nada, mas a resposta não tarda a chegar. Dois soldados filisteus o espancam com punhos e porretes. A chuva de golpes contra seu corpo o faz urrar de dor, as correntes chacoalhando ruidosamente à medida que ele balança os braços numa tentativa inútil de se proteger. Privado de sua força e da visão, não há nada que Sansão possa fazer.

Somente quando Sansão se deixa cair para a frente, incapaz de suportar o peso do seu próprio corpo, é que os soldados o libertam das correntes. Mas continuam a chutá-lo e a esmurrá-lo enquanto abrem os grilhões em volta dos seus punhos e tornozelos.

Eles o arrastam para fora da cela, a pele de seus joelhos e pés raspando contra o chão, rumo ao templo do deus Dagon, adorado pelos filisteus. O recinto está abarrotado de centenas de pessoas. Fumaça de incenso preenche o ar e os olhos de todos estão lacrimosos e injetados. Porcos estão sendo assados. Cálices de vinho são enchidos repetidas vezes. É permitida a entrada de cães nessa grande reunião pagã, e seus latidos e uivos ecoam nos altos pilares de pedra que sustentam o teto.

- Sansão, Sansão, Sansão - entoam os presentes, que cospem no israelita enquanto seu corpo é arrastado pelo meio da multidão. Até mesmo crianças têm permissão para insultá-lo.

Quando os soldados filisteus o soltam, ele se coloca de pé, confuso. Sansão ouve as zombarias, mas não consegue ver quem o ataca com pragas e xingamentos. Sente a presença de Dalila no templo e se vira na direção dela.

Ela não o insulta ou sente prazer diante da sua agonia. Mas está lá, e ele sabe disso.

Sansão cambaleia, prestes a desmaiar novamente.

- Estou fraco - exclama ele. - Deixem que me apoie em alguma coisa.

Os guardas levam Sansão até os pilares centrais da construção. Ao longe, Abimeleque observa com cautela. Sansão pode estar cego, mas é um adversário formidável.

- Eu deveria tê-lo matado quando tive oportunidade - murmura Abimeleque para si mesmo.

Ficol entreouve as palavras do seu superior.

- Não precisará esperar muito - diz ele.

Abimeleque concorda com a cabeça, suspirando de alívio. Sim, Sansão estará morto antes do amanhecer. Ele toma um gole generoso de vinho e se aproxima de Sansão nesses que são os últimos momentos da vida do israelita.

Enquanto isso, Sansão se comporta de forma estranha. Ele parece acariciar o pilar em que está apoiado. Chega inclusive a falar com a pedra.

- Senhor Deus - sussurra ele se eu sou Seu, lembre-se de mim e me dê forças novamente para que eu possa me vingar.

Abimeleque ouve a prece de Sansão e se aproxima dele.

- Já se esqueceu, Sansão? Os seus cabelos foram cortados. Você quebrou o pacto que fez com seu Deus e agora Ele o abandonou.

- Não foi Deus quem arrancou meus olhos - retruca Sansão. - Foi você. Mas fico feliz que tenha feito isso. A escuridão me ajudou a pensar.

Abimeleque nunca tinha ouvido tamanha tolice.

- O seu Deus o deserdou e levou sua força embora - zomba ele.

Uma expressão de total serenidade atravessa o rosto de Sansão.

- Não. Você está enganado. Eu consigo vê-Lo com mais clareza do que nunca.

- Ah, é? E o que Ele está dizendo agora?

Sansão se apoia contra o pilar, empurrando-o com toda a força. Ele fecha os olhos e faz uma última prece a Deus.

- Senhor, lembre-se de mim. Por favor, Deus, me dê forças. Apenas desta vez. Permita que eu me vingue dos filisteus por terem me privado dos meus olhos.

Abimeleque balança a cabeça enquanto observa Sansão orar.

- Acabou, Sansão. Eu venci. Não consegue ver isso?

Mas então Abimeleque sente uma pontada de dor quando algo duro bate em sua mão. Ele olha para baixo e vê finas lascas de pedra. Ele nota que uma nuvem de pó parece descer do teto. Incrédulo, lança seu olhar de volta para Sansão, que está com o corpo inteiro flexionado, inclinado contra o pilar como um andarilho tentando atravessar o deserto em meio a um vendaval. O esforço faz os músculos das costas e dos ombros de Sansão ondularem; suas pernas, que empurram a pedra com uma força descomunal, estão flexionadas e retesadas.

O medo toma conta de Abimeleque. Isso não pode estar acontecendo. Os cabelos dele foram cortados. A força de Sansão deveria ter desaparecido. Então Abimeleque percebe a verdade: embora os cabelos de Sansão tivessem crescido de volta, eles nunca tinham sido a verdadeira fonte da sua força. Ela, na verdade, vem de Deus. Aqueles cachos compridos eram apenas um lembrete do seu pacto com Ele.

A força vem de Deus. O Deus dos israelitas. E sempre foi assim.

Gritos ecoam pelo templo. Guardas filisteus se atiram sobre Sansão, desesperados para afastá-lo do pilar, mas ele os esmaga como se fossem mosquitos. O teto começa a ceder e pedaços inteiros dele caem das alturas, esmagando dezenas de filisteus de uma só vez. Dalila está entre eles. Seu corpo destroçado jaz em meio aos escombros. Os ossos do seu rosto estão destruídos. As curvas que haviam seduzido Sansão no passado foram reduzidas a uma vaga lembrança. Nem toda a prata do mundo poderia comprar sua vida de volta.

Sansão termina o que começou. O pilar desaba por completo e ele finalmente pode parar de empurrá-lo. Sansão se empertiga e sorri, quase invisível em meio ao pó e aos escombros. À sua volta, o templo está ruindo, e ele sabe que é chegada a hora.

- Senhor - diz ele, rendendo-se. - Eu sou Seu. Deixe-me morrer com os íilisteus. Deus atende à sua prece. O templo é destruído por inteiro.
Mas a vitória de Sansão é passageira. Os íilisteus continuam a travar guerra contra o povo israelita. Em meio a esse caos, o Deus de Abraão, pela primeira vez na história, envia um homem santo, um profeta. Deus revelará o futuro dos israelitas a esse homem, chamado Samuel. Ele não só livrará os israelitas dos íilisteus, como também se tornará seu maior líder espiritual desde Moisés.
Há muitos anos que Deus não fala ao Seu povo. Então, como das outras vezes, Ele escolhe uma mulher justa e infértil, chamada Ana, como instrumento. Quando o Senhor atende à sua prece por um filho, Ana o chama de Samuel, que significa “Aquele que ouve Deus”.

Um dia, aos 50 anos de idade, Samuel está em um local de sacrifício no topo do monte Mispá, cercado de sacerdotes e anciãos. Seus cabelos são longos e sua barba está ficando grisalha. O dia tinha sido desastroso para os israelitas, pois soldados íilisteus haviam massacrado famílias inteiras nas encostas daquela montanha rochosa. Nesse mesmo instante, enquanto Samuel se encontra no topo da montanha, uma nova batalha é travada mais abaixo. As fortificações israelitas são insuficientes e, embora seu exército se esforce ao máximo para expulsar os íilisteus, as chances de conseguirem resistir por mais uma hora são pequenas. Cabe a Samuel salvar seu povo, pois ele é um homem de fé. Ele escolhe convocar Deus à batalha.

- Precisamos fazer um sacrifício - diz Samuel para os homens ali reunidos. - Onde os guerreiros fracassaram, Deus triunfará. - Samuel coloca um punhado de ramos secos em cima de uma pedra grande, acrescentando em seguida pedaços maiores de lenha. - Senhor - exclama ele -, ouça-me neste momento de necessidade.

Fineias, um dos anciãos, observa Samuel orar. Ao mesmo tempo, analisa a batalha. O que vê não é animador.

- Samuel, rápido. Eles estão derrotando nossas tropas!

Enquanto o fogo fica mais intenso e as chamas parecem lamber a bainha da túnica de Samuel, o som de gritos e de desespero se faz ouvir. A que distância eles estão das linhas de combate? Oitocentos metros? Quatrocentos? Ora, um filisteu veloz poderia atravessar essa distância em poucos minutos e matar Samuel, assim como todos os outros homens reunidos naquele local. Ficar simplesmente parado ali, orando, seria uma grande tolice.

pode parar de empurrá-lo. Sansão se empertiga e sorri, quase invisível em meio ao pó e aos escombros. À sua volta, o templo está ruindo, e ele sabe que é chegada a hora.

- Senhor - diz ele, rendendo-se. - Eu sou Seu. Deixe-me morrer com os íilisteus. Deus atende à sua prece. O templo é destruído por inteiro.
Mas a vitória de Sansão é passageira. Os íilisteus continuam a travar guerra contra o povo israelita. Em meio a esse caos, o Deus de Abraão, pela primeira vez na história, envia um homem santo, um profeta. Deus revelará o futuro dos israelitas a esse homem, chamado Samuel. Ele não só livrará os israelitas dos íilisteus, como também se tornará seu maior líder espiritual desde Moisés.
Há muitos anos que Deus não fala ao Seu povo. Então, como das outras vezes, Ele escolhe uma mulher justa e infértil, chamada Ana, como instrumento. Quando o Senhor atende à sua prece por um filho, Ana o chama de Samuel, que significa “Aquele que ouve Deus”.

Um dia, aos 50 anos de idade, Samuel está em um local de sacrifício no topo do monte Mispá, cercado de sacerdotes e anciãos. Seus cabelos são longos e sua barba está ficando grisalha. O dia tinha sido desastroso para os israelitas, pois soldados íilisteus haviam massacrado famílias inteiras nas encostas daquela montanha rochosa. Nesse mesmo instante, enquanto Samuel se encontra no topo da montanha, uma nova batalha é travada mais abaixo. As fortificações israelitas são insuficientes e, embora seu exército se esforce ao máximo para expulsar os íilisteus, as chances de conseguirem resistir por mais uma hora são pequenas. Cabe a Samuel salvar seu povo, pois ele é um homem de fé. Ele escolhe convocar Deus à batalha.

- Precisamos fazer um sacrifício - diz Samuel para os homens ali reunidos. - Onde os guerreiros fracassaram, Deus triunfará. - Samuel coloca um punhado de ramos secos em cima de uma pedra grande, acrescentando em seguida pedaços maiores de lenha. - Senhor - exclama ele -, ouça-me neste momento de necessidade.

Fineias, um dos anciãos, observa Samuel orar. Ao mesmo tempo, analisa a batalha. O que vê não é animador.

- Samuel, rápido. Eles estão derrotando nossas tropas!

Enquanto o fogo fica mais intenso e as chamas parecem lamber a bainha da túnica de Samuel, o som de gritos e de desespero se faz ouvir. A que distância eles estão das linhas de combate? Oitocentos metros? Quatrocentos? Ora, um filisteu veloz poderia atravessar essa distância em poucos minutos e matar Samuel, assim como todos os outros homens reunidos naquele local. Ficar simplesmente parado ali, orando, seria uma grande tolice.

Fineias fala em nome do grupo.

- Nós lhe somos gratos, profeta. Você nos trouxe grandes vitórias.

- Deus nos trouxe grandes vitórias - corrige Samuel.

- Mas quem falará com o Senhor quando você não estiver mais entre nós?

Samuel gesticula para Joel e Abias.

- Meus filhos.

Fineias tem grande respeito por Samuel e precisa de muita coragem para dizer suas próximas palavras.

- Mas, Samuel, seu filhos são corruptos.

Samuel raramente se enfurece, tampouco costuma ser rude. Mas agora se levanta, agigantando-se diante de Fineias, o rosto lívido de raiva.

- O quê? Eu criei meus filhos para confiar em Deus e obedecer a Suas leis. Tudo o que fiz por vocês foi porque eu segui o caminho apontado pelo Senhor.

- Eles aceitam suborno, Samuel. Todos sabem disso. Eles sujam a sua boa reputação.

Samuel olha para os filhos, horrorizado. Eles não conseguem retribuir o olhar. O silêncio é ensurdecedor e dura uma eternidade.

- Assim, depois que você se for e os filisteus voltarem, se nós pedirmos a seus filhos que falem com Deus... Ele irá responder?

Samuel fecha os olhos, arrasado.

- Diga-me: o que o nosso povo quer? O que irá convencê-los de que Deus ouvirá suas preces?

Fineias fala apenas duas palavras, mas elas mudarão a história do povo israelita para sempre.

- Um rei.

Samuel fica atônito.

- Um rei? Esta é uma ideia muito perigosa. Deus é nosso rei.

- Por que deveriamos ser diferentes das outras nações? - exige saber Fineias.

- Mas olhe o que os reis de outras nações fizeram aos seus povos. Reis se tornam tiranos. Eles escravizam seus próprios súditos - protesta Samuel.

- Mas nunca na história do mundo um rei foi ungido por um profeta de Deus. Esse rei será diferente.

Todos os anciãos concordam com a cabeça. Samuel ainda não consegue ver sabedoria na ideia. Seus filhos, os dois homens que haviam tornado aquela reunião necessária, olham para o chão, cientes de que sua opinião não importa. Com ou sem rei, a vergonha que sentem irá acompanhá-los pelo resto da vida.

- Deus nos prometeu esta terra - argumenta Samuel. - Não é justo que um de nós se torne rei.

- Como podemos saber disso, Samuel? - retruca Fineias. - Você perguntou Samuel está sozinho no deserto, no topo de uma colina. Seus pensamentos estão concentrados em Deus. A aliança entre eles havia moldado o povo israelita desde a morte de Sansão. Nos muitos sonhos e nas conversas em que Deus lhe havia revelado Seus planos, nunca houvera menção a um rei terreno. De modo que a ideia apresentada pelos anciãos - por maior que seja seu mérito - é alarmante. Será ela uma ideia de Deus, ou dos homens? Samuel precisa saber a resposta.

- Eu lhes dei tudo - explica ele para Deus. - Mas se o Senhor disser que devo lhes dar um rei, é claro que é isso que farei. Mas o que devo fazer?

O Senhor diz a Samuel que eles não o estão rejeitando quando pedem por um rei, mas sim rejeitando o próprio Deus. Ele diz a Samuel para alertar as pessoas que um rei terreno será corrupto e que elas se arrependerão amargamente quando forem submetidas ao sofrimento que ele lhes causará. Contudo, apesar dos alertas de Deus e de Samuel, o povo exige um soberano, de modo que o Senhor decide atender às suas preces.

Deus deposita uma imagem na mente de Samuel. É a de um homem tão alto que nenhum outro nem sequer chega aos seus ombros. Ele é habilidoso com a espada e desenvolto no campo de batalha. Seu nome é Saul.

Samuel abaixa a cabeça. Então uma ideia lhe ocorre. Ele ergue os olhos para o céu que escurece.

- Ele será rei e eu ainda serei o Seu profeta, ó Senhor. Poderei orientar o Seu rei.

Samuel sai em busca de Saul para nomeá-lo primeiro rei de Israel. Encontra-o

algumas semanas depois, em um vilarejo. Diante de uma centena de pessoas que entoam louvores ao seu nome, Saul é proclamado soberano de Israel. Samuel unge Saul e o Espírito Santo se apossa do novo rei.

Mas o novo rei de Israel não governa sozinho. Ele está sujeito ao profeta. Assim sendo, enquanto Saul se encontra ajoelhado diante de Samuel, que derrama óleo de oliva sobre sua testa para ungi-lo rei, todos sabem que os dois formam uma equipe: Saul é o rei e Samuel é o seu vidente, o homem para o qual Deus revela o futuro.

- Que eu, como profeta de Deus, o ajude em tudo o que puder - diz Samuel para Saul.

O novo rei se levanta. A multidão que cerca a pequena tribuna em que eles se encontram entoa seu nome. A cerimônia é breve e nenhuma coroa é depositada sobre a cabeça de Saul. Mas, ainda assim, ele é rei, governante de toda a região. Sua primeira e mais importante missão é recuperar a Terra Prometida, declarando guerra aos filisteus e a qualquer outra nação que pretenda tomá-la para si.

Saul, no entanto, é rebelde. Ele terá dificuldade em permitir que Samuel desempenhe seu papel de profeta. Enquanto os dois homens se olham nos olhos instantes depois da breve cerimônia, fica claro que a aliança entre eles nem sempre será fácil.

Saul não tarda a conduzir os israelitas à guerra. Ele é um bom líder e vence muitas batalhas. Na manhã anterior a um ataque, Saul e sua pequena tropa de soldados acabam de subir uma colina que dá vista para o acampamento dos amalequitas. Saul está sem fôlego depois da rápida subida, mas sua mente continua aguçada enquanto analisa o inimigo. Samuel lhe dissera para aguardar sete dias, quando ele chegaria para fazer o sacrifício para Deus. O sétimo dia se aproxima. Saul está cada vez mais impaciente.

Ele vê apenas uma sentinela amalequita. É hora de atacar.

- Os homens estão preparados? - pergunta o rei com a voz controlada para um oficial ao seu lado.

- Sim - é a resposta.

- E Samuel? - pergunta Saul. - Algum sinal dele? Precisamos fazer o sacrifício antes de atacar.

O oficial respira fundo e balança a cabeça.

Eles não receberam nenhum sinal, nenhuma mensagem, absolutamente nada que revele a Saul o paradeiro ou os planos de Samuel. Este é o primeiro teste da afiança conturbada entre os dois. Saul se sente abandonado. Não podem mais esperar. Seus homens estão ficando impacientes. Saul começa a se sentir inseguro. É preciso fazer um sacrifício antes da batalha. Em sua ansiedade e presunção, Saul, acreditando que Samuel não virá, assume seu lugar como sacerdote e corta o pescoço do cordeiro.

Está feito. Saul segura a faca suja de sangue e o animal sem vida enquanto um soldado sustenta uma tigela debaixo do pescoço do cordeiro para apanhar o sangue. De repente, ouve-se uma voz enfurecida gritar para Saul:

- Que Deus o perdoe! - exclama Samuel. - Que Deus o perdoe!

Saul ergue os olhos e vê Samuel subindo a colina em sua direção, abrindo caminho por uma multidão de soldados irrequietos.

- Onde você estava? - rebate o rei, nervoso. - Há sete dias que estamos esperando. Meus homens já começaram a desertar.

Samuel fica calado. Ele arranca a faca da mão de Saul e apanha também o cordeiro.

- Concentre-se em ser um líder militar - ordena ele. - E deixe o trabalho de sacerdote para mim. Deus não aceitará seu sacrifício.

- Não tenho tempo para discutir, Samuel. Temos uma batalha para vencer. .Alguns de nós não voltarão para casa.

- Lembre-se, as ordens de Deus são para matar tudo e todos nesta batalha que você está prestes a travar. Não poupe ninguém e não tome nada que seja do inimigo.

Saul se limita a encarar Samuel, então ordena que seus homens se reúnam.

O ataque transcorre conforme o planejado. Saul lidera pessoalmente a investida, observando com orgulho seus homens invadirem sem alarde o acampamento inimigo. Após uma semana de espera, a batalha dura apenas dez minutos. Seus soldados aprisionam um homem coberto de cicatrizes e o levam em uma pequena jaula de madeira.

Saul havia conquistado sua primeira vitória desde que se tornara rei.

- Deus está comigo - grita ele, jogando os braços para o céu. - Deus está comigo.

Os homens louvam Saul enquanto arrebanham as cabras e o gado capturados do inimigo. Os israelitas haviam comido pouco ao longo das últimas semanas, e a perspectiva de uma refeição faz maravilhas pelo moral do grupo.

Samuel observa a cena do topo de um monte próximo dali. Ele testemunhou a batalha e ouviu os gritos de alegria de Saul.

- O Senhor está mesmo com ele, Deus? - pergunta Samuel. - De verdade?
O prisioneiro e os espólios são o problema. O rei Agague, soberano dos amale-quitas, está vivo. Assim como os melhores rebanhos de vacas e cabras do inimigo. No entanto, Samuel tinha dito a Saul que Deus lhe dera ordens claras para destruir tudo o que houvesse no vilarejo. Agora, enquanto as fogueiras noturnas ardem no acampamento e os soldados israelitas relaxam após uma refeição constituída de gado recém-abatido, Samuel confronta Saul diante do seu exército.

- Você tinha apenas uma missão. Uma ordem simples de Deus. Qual era ela?

- Eu fiz o que Deus mandou - responde Saul, fervendo de raiva.

- Então por que estou ouvindo cabras balirem? E quem é esse rei pagão aos seus pés?

- Ele será executado em breve.

Lançando um olhar furioso para Saul, Samuel caminha até a jaula de Agague e puxa com força a corda em volta do pescoço do rei amalequita. Agague rasteja como um cão, para então soltar um rosnado desafiador. Mas é Samuel, e não Saul, quem silencia esse rugido. O profeta, que normalmente é um homem pacífico, enterra uma faca no pescoço de Agague. A morte é instantânea, e o corpo cai aos pés de Samuel. Ele agacha e puxa a faca de volta, limpando-a na túnica do rei inimigo.

- Quando a ordem de Deus for matar, mate - diz Samuel.

Chocado, Saul tenta se impor. Já não está mais disposto a tolerar o egoísmo e os ataques de fúria de Samuel.

- Samuel, você é nosso profeta, mas eu sou o seu rei.

- O que o Senhor dá, Ele pode tomar de volta - rebate Samuel.

Saul se sente confiante.

- Essas são palavras de Deus? Ou suas?

- Seus descendentes poderíam reinar por milhares de anos, mas, por conta da maneira como agiu hoje, Deus o abandonou.

Saul agarra Samuel para sacudi-lo, mas seus homens estão olhando. É melhor manter a dignidade do que perder o controle.

- Mais palavras divinas? - pergunta Saul por entre os dentes cerrados.

Samuel lhe dá as costas, fazendo com que o tecido da sua túnica se rasgue nas

mãos fechadas de Saul. Mas, em vez de se indignar, Samuel aproveita a oportunidade para defender seu argumento.

- Assim como você rasgou minha túnica, Deus o privou do seu poder. O Senhor quer um homem que O tenha em seu coração.

Saul vai embora a passos firmes, resmungando sobre a arrogância de Samuel. Matá-lo seria fácil demais, ainda que isso fosse enfurecer Deus. O profeta, no en-:anto, havia plantado as sementes da dúvida na mente de Saul, uma sensação que o guerreiro, sempre confiante, jamais conhecera. Agora ele só deseja ficar sozinho.

- Tragam-me vinho! - ordena Saul enquanto abre com um puxão a aba de entrada da sua tenda. Saul senta-se ali e bebe, fitando com um olhar intenso o pedaço de tecido em sua mão. - Talvez eu tenha me precipitado - diz ele, balançando a cabeça. - Talvez deva pedir perdão a Samuel.

Saul chama seu servo.

- Traga-me Samuel - ordena.

- Ele foi embora, Majestade - responde o servo.

Saul sai da tenda como um furacão, gritando por Samuel. O profeta, no entanto, havia partido... em busca de um novo rei.

Esse rei será Davi.

PARTE QUATRO

UM HOMEM EM SINTONIA COM DEUS

Davi tem apenas 16 anos quando Samuel o sagra sucessor de Saul ao trono de Israel. Mil anos depois, seu descendente direto, Jesus de Nazaré, também seria proclamado Rei dos Judeus.

Embora Davi esteja destinado a assumir o trono, por ora Saul continua sendo rei. Saul desconhece o paradeiro de Samuel, assim como suas ações ou o direito de Davi ao trono. É o final de mais uma batalha em meio ao imenso e árido deserto da Terra Prometida. Novamente, o exército de Saul vence, pois seu domínio da arte da guerra é inigualável. Embora em menor número, ele continua a derrotar os filisteus, os inimigos mais temidos de sua nação.

Sujos de sangue, Saul e seu filho Jônatas caminham devagar por entre as tropas. Ainda adolescente, Jônatas parabeniza os homens; Saul permanece calado. Apesar da vitória, ele se sente abatido, devastado. Guerreiro onipotente, Saul torna-se um mau líder assim que o confronto termina. E, em algum momento, até mesmo a mais épica das batalhas precisa chegar ao fim.

- Saul, Saul, Saul - entoam seus homens. Eles suportariam qualquer provação, enfrentariam qualquer inimigo pelo seu rei. - Saul matou milhares, Saul matou milhares - clamam as tropas, o ribombar de suas vozes se espalhando por toda parte.

Mas, na cabeça do soberano, todo esse louvor soa abafado e distorcido. Ele não encontra paz na vitória e se sente esmagado pelo fardo da liderança. Apesar de suas conquistas, continua angustiado devido ao seu confronto com Samuel. E a mesma pergunta infernal insiste em lhe voltar à mente: Será que Deus virou as costas para mim?

- Pai? - diz Jônatas, exultante -, hoje é o nosso dia. Os filisteus foram derrotados.

Dos três filhos de Saul, Jônatas é o mais puro de coração. Sente orgulho das

conquistas e da coragem do pai. Outros homens se deleitariam com o louvor de um jovem tão formidável, mas Saul se limita a despachar o filho com um gesto e volta sozinho para a sua tenda. Os gritos de seus homens tornam-se um bur-burinho distante à medida que ele desaparece no interior da tenda em busca de um momento de paz.

O servo de Saul conhece muito bem seu mau gênio e aguarda o rei com uma taça de seu vinho preferido. Saul, no entanto, dá um tapa violento na taça.

- Eu pedi vinho, por acaso? - rosna ele.

O líquido vermelho mancha as paredes de lona e o tecido claro das almofadas que cobrem o chão. Enquanto o servo se apressa a limpar a bagunça, Saul se inclina sobre uma bacia de água para lavar o sangue da batalha de suas mãos e do rosto.

- Qual é o problema, pai? - pergunta Jônatas.

Saul o ignora e começa a jogar água na face, tentando abafar o som da voz do filho.

- Fale comigo - insiste Jônatas.

- Não é nada - diz Saul com rispidez.

- Hoje tivemos uma grande vitória. Por que isso nunca é suficiente?

Saul manda o filho e o servo embora com um gesto irritado.

- Preciso descansar. Só isso. Dormir um pouco. Agora me deixem sozinho.

O servo sabe que deve sair o mais rápido possível se quiser manter sua cabeça sobre o pescoço. Mas Jônatas não tem medo do pai. Ele fica onde está, na esperança de que Saul explique o motivo da sua raiva. Mas é como se ele não estivesse ali. Saul se deita sobre sua almofada preferida e cai num sono profundo em poucos segundos.

Mas o sono de Saul não é sereno. Nunca é. Há anos que Samuel foi embora, e o profeta já está morto. Mas o medo que Saul sente de ter desobedecido a Deus o atormenta toda vez que ele fecha os olhos. Em seus sonhos, revive a batalha com os amalequitas, travada tempos atrás. A lembrança de ter ignorado a orientação de Samuel o faz estremecer. Sua impaciência - a insistência em não esperar os sete dias e fazer ele próprio o sacrifício antes de Samuel chegar - o assombra. Ele era tão jovem, tão imaturo, tão ansioso por vencer sua primeira batalha!

E quando a venceu, o que fez? Tornou a desobedecer a Deus. Sim, ele matou grande parte dos amalequitas: soldados, bebês, crianças, mulheres e o gado de qualidade inferior. Mas Deus havia ordenado que tudo o que vivesse na fortaleza amalequita fosse morto. Tudo. No entanto, Saul não fez isso. As melhores vacas, ovelhas e cabras foram poupadas. Além disso, Agague, o maldito rei que Saul deveria ter executado, continuou vivo até Samuel enterrar uma faca em seu pescoço.

Noite após noite, Saul sonha que faria tudo diferente se tivesse chance. Teria esperado os sete dias e aguardaria que Samuel fizesse o sacrifício e lhe transmitisse as palavras do Senhor. Saul não teria simplesmente se lançado com insolência ao campo de batalha; em vez disso, teria brandido sua grande espada como um anjo vingador, abatendo cada amalequita vivo e destruindo todas as suas posses.

Já sozinho em sua tenda, Saul grita durante o sono:

- Não... não... Senhor, por favor, eu Lhe imploro: perdoe o Seu servo.

Mas ele sabe que o que está feito, está feito. Saul foi perdoado, mas ainda precisa arcar com as consequências da sua desobediência.
Saul veste com entusiasmo sua armadura de guerra com a ajuda de um escudeiro. Seu exército está acampado no vale de Elá, já em formação de batalha para enfrentar mais uma força filisteia que conta com grande superioridade numérica. Colinas verdejantes cercam o vale. Em qualquer outro dia, esta bela e pacífica paisagem seria o lugar ideal para se sentar e refletir serenamente sobre a glória de Deus. Os filisteus estão posicionados em uma das encostas que dão para o vale; os israelitas estão na outra. O vale em si é uma terra de ninguém que logo se tornará o campo de batalha. Qualquer homem tolo o suficiente para baixar a guarda logo verá seu corpo ser atravessado pela ponta cruel de uma lança.

Saul não poderia estar mais contente. A simples ideia do combate faz a adrenalina correr por suas veias. Seus espiões trouxeram notícias sobre as defesas filisteias, e agora a brilhante mente militar de Saul planeja a disposição de suas tropas e a melhor tática para iludir os filisteus e atraí-los para um massacre.
Saul mal dá atenção ao rapaz que o ajuda a vestir a armadura. Seu nome é Davi. Ele é um jovem pastor que foi até à linha de frente para trazer suprimentos aos seus irmãos mais velhos, que são soldados. Estes apenas riram dele e o mandaram embora. Mas Davi ficou, insistindo em auxiliá-los no que fosse possível. Agora ele ajuda a apertar as fivelas que prendem a armadura de Saul no lugar.

Mas o rapaz guarda um segredo que não ousa compartilhar com o rei.

De repente, Jônatas entra sem fôlego nos aposentos de Saul.

- Pai, o senhor precisa vir agora mesmo!

Saul se desvencilha do jovem Davi e sai correndo da tenda, resmungando.

- O que pode ser tão urgente?

Davi segue o rei enquanto ele abre caminho pelas tropas até uma escarpa ampla que dá vista para o vale. Ah, veem um homem de quase 2,75 metros, parado sozinho em frente ao exército de Saul. O gigante usa uma armadura completa e empunha uma espada que combina com seu corpo imenso. Todo o exército filisteu está posicionado atrás dele.

- Israelitas - grita o gigante. - Eu sou Golias. Trago uma proposta para vocês!

Saul lança um olhar firme colina abaixo, sem saber o que ouvirá em seguida.

- Enviem um de seus homens para lutar comigo. Somente um. Se ele vencer, nós seremos seus escravos. Mas se eu vencer, vocês serão nossos.

Como não recebe resposta alguma de Saul ou de qualquer outro israelita, Go-lias continua a provocá-los.

- Ora - zomba ele -, sem dúvida pelo menos um de vocês deve ter coragem suficiente para me enfrentar.

Uma onda de gargalhadas se espalha pelo exército filisteu diante da insinuação de covardia dos israelitas. Eles batem com os punhos de suas espadas contra os escudos para demonstrar apoio ao gigante. O som alto e retumbante sobe pela encosta até Saul e seu exército. Esse simples gesto desafiador traz medo aos rostos dos israelitas, e nenhum homem se dispõe a aceitar a oferta de Golias e enfrentá-lo.

- Alguém precisa lutar com ele - exclama Jônatas, o único homem no exército de Saul disposto a ir à batalha. Ele faz menção de sacar sua espada.

- Não - diz Saul com calma. Anos de experiência como estrategista lhe ensinaram que é uma tolice deixar o ego de um homem atraí-lo até uma armadilha. Abaixo dele, os soldados continuam a bater em seus escudos até Golias erguer o braço para pedir silêncio.

- Achei que fossem o “povo de Deus” - ruge ele. - Mesmo assim, nenhum de vocês tem fé suficiente para me enfrentar?

Os israelitas baixam a cabeça, envergonhados. Ninguém se considera capaz de derrotar o gigante. Ninguém quer fracassar e trazer vergonha para Deus e Israel. O silêncio é ensurdecedor.

- Eu o enfrentarei! - A voz tranquila e determinada de um jovem atravessa o rale, em resposta ao desafio de Golias. Todos os que o ouvem estão certos de que se trata de um guerreiro experiente. Mas é Davi, que não passa de um pastor, a

cupação mais humilde de toda a nação. Ele tem 17 anos, é um exímio harpista e serve de escudeiro para Saul. Contudo, jamais pisou em um campo de batalha.

Saul lhe oferece um sorriso condescendente.

- A recompensa seria generosa, mas você não é um soldado. É um pastor.

- Sim - responde Davi, capturando o olhar de Saul antes que o rei pudesse desviá-lo. - Eu protegi minhas ovelhas dos lobos. Assim como as protegi, Deus me protegerá.

Isso não basta para convencer Saul, embora Golias tenha elevado o tom de suas provocações a ponto de não estar mais insultando apenas os israelitas, mas a Deus também.

- Onde está sua fé? - zomba o gigante. - Onde está o seu Deus?

Os israelitas continuam acovardados. Mas a fé de Davi é profunda, e o escárnio nas palavras de Golias transforma sua raiva em uma ira virtuosa.

- Eu vou matá-lo - afirma Davi, furioso. - Garanto que vou matá-lo.

A última afronta de Golias é a gota d'agua.

- Não acredito que seu Deus esteja mesmo do seu lado. Ele não é tão forte . janto os nossos deuses. - O gigante abre um largo sorriso para os filisteus, que voltam a bater contra os seus escudos.

- O que receberá o homem que matar este filisteu e extirpar essa desonra de Israel? - pergunta Davi aos soldados ao seu redor. - Quem é este filisteu não circuncidado para desafiar o exército do Deus vivo?

Mas os soldados o ignoram. Então Davi leva a questão a Saul.

- Não permita que ninguém perca a coragem por conta deste filisteu - pede ele. - Seu servo irá enfrentá-lo.

- Você não passa de um garoto - responde Saul.

- Um garoto que vem protegendo as ovelhas de leões e ursos há anos - argumenta Davi. - Este filisteu é como mais um deles, pois desafiou o exército de Deus.

Ele escolhe colocar sua proteção nas mãos do Senhor.

Davi se agacha aos pés de Saul. Apanha uma pedra e se põe a analisá-la. Depois outra. E mais outra. Repete o processo até ter selecionado cinco pedras per-feitamente equilibradas.

- O Senhor é meu pastor - diz ele para si mesmo, afastando qualquer medo que possa ter sobre o que acontecerá em seguida. - O Senhor é meu pastor.

Sem esperar pela permissão de Saul, ele recolhe suas pedras e atravessa as fileiras de soldados israelitas, chegando, a cada passo, mais perto do fim do vale. Davi é apenas um adolescente, mas Saul está impressionado. Ele se apressa para despir sua armadura de guerra e ordena que ela seja levada até o rapaz. A armadura, o entanto, é grande demais para o pastor. Davi a retira e segue rumo à batalha empunhando apenas uma atiradeira.

- Vá - diz-lhe Saul após um instante de silêncio. - E que o Senhor esteja com você!

Davi emerge da primeira fileira de soldados israelitas e se coloca diante de Golias, um homem adulto e guerreiro experiente quase um metro mais alto do que ele. Davi intensifica suas preces silenciosas à medida que a realidade do que fez - e do que está prestes a fazer - ameaça subjugá-lo.

- Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte, nada temerei. Pois o Senhor está comigo. O Seu bastão e o Seu cajado me consolam. O Senhor ungiu minha testa. Meu cálice transborda. Sem dúvida, bondade e misericórdia me acompanharão todos os dias de minha vida.

Golias ergue a mão para silenciar os soldados filisteus, que ainda batem contra seus escudos, à medida que Davi finca os pés no chão e o encara. O pastor sente seu coração bater forte contra o peito. Golias solta uma gargalhada colossal.

- Esse é o campeão de Israel? - urra o gigante, achando graça.

Davi fica calado. Ele enfia a mão em seu alforje, sem desviar os olhos de Golias, manuseando suas cinco preciosas pedras.

- Não me faça perder tempo, garoto - grita Golias. - Você é jovem demais para morrer.

- É você quem vai morrer - sentencia Davi. - A espada e a lança são as armas que usa contra mim, mas eu o derrotarei com o nome do Senhor Todo--Poderoso, que você afrontou.

Golias ajeita sua armadura com um suspiro.

- Muito bem. Prepare-se para virar comida de abutre.

O gigante saca sua espada e avança, seus passos largos vencendo rapidamente a distância que os separa.

Davi mantém a calma. Ele retira uma pedra do alforje no seu cinto e a coloca na tira de couro da funda.

- Pois o Senhor está comigo - ora ele. - Seu bastão e Seu cajado me consolam.

Golias ri ao ver Davi girar a atiradeira de um lado para outro acima da própria cabeça. Saul e Jônatas observam a cena de cima da colina sem nenhuma esperança, desejando terem tido coragem suficiente para enfrentar o gigante e pensando no futuro de escravidão que os aguarda.

A funda de Davi gira cada vez mais rápido sobre sua cabeça, o couro e a pedra zunindo cada vez mais alto. Golias corta o ar ameaçadoramente com sua espada, sem desacelerar o passo à medida que se aproxima de Davi. Alguns israelitas desviam o olhar, preferindo não ver o jovem ser massacrado. Mas os filisteus mantêm seus olhos fixos. Eles continuam a fazer barulho com os escudos e esperam pelo momento em que atacarão o acampamento israelita. Por mais que Golias ivesse mencionado a escravidão como um resultado possível daquela batalha, os hhsteus não estão dispostos a levar escravos para casa. Escravos podem escapar, para então voltar em busca de vingança. O melhor seria matar todos os israelitas agora mesmo... até o último deles.

O gigante se vira para trás e abre mais um sorriso sarcástico para as fileiras de soldados filisteus. Mas o jovem Davi não descola os olhos de Golias nem por um instante.

Enquanto a cabeça de Golias está ligeiramente virada, Davi lança a pedra de sua atiradeira. A pedra achatada e lisa o atinge em cheio na têmpora. Então cai, inofensiva, no chão.

Golias não entende o que aconteceu. Seus olhos estão arregalados de espanto. Ele fica totalmente imóvel.

O jovem Davi não recarrega sua atiradeira. Continua apenas parado onde está. Com a funda vazia pendendo do lado do seu corpo, ele espera. E espera.

Então Golias cai, como Davi tinha certeza de que aconteceria. Uma nuvem de poeira sobe da terra, que parece estremecer quando o corpo maciço do gigante colide contra o campo de batalha.

O exército israelita ruge, enquanto os filisteus observam a cena, horrorizados.

Davi se aproxima devagar de Golias, que respira com dificuldade. Usando as duas mãos, o pastor pega a pesada espada do gigante e a ergue bem acima da cabeça. Então, com um golpe poderoso, decepa a enorme cabeça, separando-a do corpo. É um momento brutal, mas ele não afasta o olhar. Depois de terminado, Davi ergue os olhos para o céu, ajoelhando-se para agradecer a Deus. Davi então levanta a cabeça decepada de Golias pelos cabelos, um sinal para o exército israelita avançar e massacrar os filisteus.

Sem esperar um segundo sinal de seu rei, eles seguem em disparada até a planície, passando por Davi e se lançando adiante com espadas em punho e lanças erguidas para exterminar os filisteus.

Davi joga a cabeça de Golias no chão e se apruma. Ele está suado e sem fôlego, mas tem um ar triunfante. Abre um sorriso quando Saul se aproxima e coloca a mão em seu ombro.

- Você é um lobo em pele de cordeiro, Davi. Salvou o meu reino. - Saul entrega a Davi uma espada mais condizente com sua estatura. - Venha. Temos um inimigo para derrotar.
Os filisteus são os primeiros dos muitos inimigos que Davi irá combater para Saul. Com o passar dos anos, Davi derrota todos os oponentes de Israel, sempre lutando ao lado do homem que chama de seu rei. Os filisteus são expulsos da Terra Prometida e Davi faz uma amizade profunda com Saul e Jônatas.

O exército israelita passa a crer que Davi é invencível, e ele se torna um grande ídolo para o seu povo - um herói.

O que ele não conta a Saul, nem mesmo a Jônatas, é que antes de tudo isso começar, numa época em que ele era apenas o mais jovem de muitos irmãos, o profeta Samuel o havia ungido pessoalmente o futuro Rei dos Judeus. Ele ainda consegue sentir o óleo de oliva sedoso escorrer pela sua testa e ouvir as palavras de Samuel, proclamando que um dia ele reinaria sobre Israel.

Este é o segredo de Davi. E, assim como todos os segredos, é apenas uma questão de tempo até que ele seja revelado.

Já é dia quando Saul, Jônatas, Davi e seu compatriota mais próximo, um mercenário hitita chamado Urias, atravessam em suas carruagens o grande arco que marca a entrada da fortaleza de Saul. O vitorioso exército israelita os acompanha. Eles são aclamados por mulheres, idosos e crianças, que saem de suas casas para receber as tropas que retornam da guerra. As mulheres gritam, suas exclamações agudas abafando todos os outros sons. Isto é, até um cântico surgir em meio à multidão:

- Saul, Saul, Saul!

- Está ouvindo, pai? - diz Jônatas, sorridente.

- Estou - responde Saul, radiante.

- Saul matou milhares! - ruge a multidão.

Saul, relaxado, acena para as pessoas. Ele se deleita com todo aquele louvor.

Enquanto os gritos continuam, Saul e Jônatas conduzem Davi e suas tropas para o interior da fortaleza. Eles seguem a pé até uma praça. Pétalas perfumadas caem ao seu redor. Mas, de repente, uma nova voz se ergue da multidão.

- Davi! - grita uma mulher. - Olhem! É Davi!

- Davi matou dezenas de milhares! - grita um homem.

Então, todos começam a entoar a nova frase.

- Davi matou dezenas de milhares! Davi matou dezenas de milhares!

O sorriso de Saul desaparece, substituído por uma carranca sombria e furiosa. Jônatas, como sempre, esforça-se ao máximo para apaziguar o pai.

- Davi merece ser louvado, pai. Ele nos serviu bem.

- O que mais Davi merece? - responde Saul com amargura. - Logo estarão dizendo que ele merece minha coroa.
- Davi! Davi! Davi!

Os gritos de louvor continuam noite adentro, dando a Saul a maior dor de cabeça de sua vida. Ele se recosta nas almofadas da sala do seu palácio. O som da multidão entra pelas janelas abertas. Do outro lado do recinto, Jônatas está recostado em uma segunda pilha de almofadas, assim como Davi e Mical - a bela e jovem filha de Saul.

Mical não consegue afastar os olhos de Davi. Ele é tudo o que uma princesa coderia querer de um homem: forte, bonito, sensível e intuitivamente sábio.

Jônatas olha com alegria para o seu melhor amigo enquanto trocam lembranças sobre os momentos passados no campo de batalha.

- Você derrubou dois filisteus com um só golpe! - diz Jônatas, admirado.

Saul observa Davi com atenção. Ele o fuzila com o olhar do outro lado da

sala, ruminando hipóteses paranóicas em sua mente, perguntando-se se Jônatas e Davi estão rindo dele. Então o rei se inclina para a frente, tentando ouvir melhor a conversa dos dois jovens.

- Davi - grita ele alguns instantes depois. - Davi!

Davi para de falar. Jônatas e ele trocam olhares confusos.

- Venha cá! - exige Saul.

Davi se levanta e vai até Saul. Ele faz uma mesura. Jônatas e Mical, que conhecem o gênio do pai, olham apreensivos um para o outro.

- Então - diz Saul para Davi, com um leve sorriso no rosto. - Você é nosso campeão novamente. Matou milhares...

- Dezenas de milhares - corrige Jônatas.

- Obrigado, Jônatas. Dezenas de milhares. Nosso povo lhe é profundamente grato, Davi. - As palavras de Saul mascaram a hostilidade escrita em letras garrafais no seu rosto. Enquanto Davi mostra modéstia, a ira do rei fica cada vez mais intensa.

- O Senhor nos abençoou - diz Davi.

- Eu lhe ofereço minha filha, Mical - fala Saul de repente.

- Como? - responde Davi, atônito.

- Gostaria de recompensá-lo. Quero que faça parte da minha família. Então ofereço-lhe a mão da minha filha em casamento.

Mical ruboriza a olhos vistos.

- Quem sou eu, e quem é minha família, para ter a honra de ser o genro do rei? -diz Davi enquanto faz uma longa mesura, sem desviar os olhos de Saul.

Jônatas atravessa o pátio a passos largos e abraça Davi.

- Agora somos irmãos. Este é um grande dia.

Saul, no entanto, ergue a mão no ar.

- Em troca...

Um silêncio cai sobre o recinto.

- Pela mão da minha amada filha Mical, você deve exterminar cem filisteus... e trazer para mim seus prepúcios.

Davi aperta os olhos. Seus instintos estavam corretos.

- Eles devem ser mortos pelas suas próprias mãos, é claro - acrescenta Saul.

Jônatas sai em defesa de Davi.

- Pai! Ele já se arriscou o suficiente. Não se lembra de Golias? Não se lembra de quantas vezes ele lutou bravamente ao seu lado?

Você me surpreende, Jônatas - fala Saul devagar. - Imaginava que fosse concordar que sua irmã vale cem filisteus... ou talvez dezenas de milhares, como me corrigiu agora há pouco.

O silêncio volta a tomar conta da sala. Já não se ouve nem mais a gritaria do lado de fora. Davi cerra e descerra os punhos, olhando dentro dos olhos de Saul. Mical, arrasada, lamenta a oportunidade perdida, pois sabe que matar cem filisteus com as próprias mãos é uma tarefa quase impossível.

- Mas e se ele não voltar? - implora ela ao pai. - E se Davi não voltar vivo?

- Ah, eu voltarei - garante Davi. - Se Deus quiser.

Ele está sorrindo. É chegada a hora. Seu segredo enfim pode ser revelado. Mas, primeiro, Davi tem um trabalho a fazer.
Davi acorda cedo na manhã seguinte. Reúne um pequeno grupo de homens, seus cavalos carregados de armas e comida. Os guerreiros selecionados por Davi são a elite do exército israelita. São todos voluntários, devidamente informados da exigência de Saul de que cem filisteus sejam mortos e alertados de que talvez não retornem para casa. Além disso, Davi prometera a cada um dos homens que, mesmo que algum deles recusasse a missão, sua reputação continuaria imaculada. Mas nenhum dos soldados diz não. Na verdade, estão de tal forma ansiosos por acompanhar Davi que começam seus preparativos imediatamente. Já haviam lutado ao seu lado antes, e sua lealdade àquele homem corajoso não tem limites. Entre eles, Urias é o que mais se destaca. Nenhum soldado demonstra maior bravura e lealdade no campo de batalha. Davi colocaria sua própria vida nas mãos dele, e a amizade entre os dois é profunda.

O elemento surpresa será o principal aliado de Davi. Então, em vez de fazer suas tropas contornarem as montanhas por um caminho sinuoso, ele planeja escalá-las e descer até o outro lado. A trilha é pedregosa e repleta de despenha-deiros, mas haverá menos chances de que espiões os vejam e alertem o inimigo da sua chegada.

Davi lidera o grupo. Um simples aceno de sua cabeça sinaliza que é hora de partir. Ninguém vem dar adeus aos soldados. Como é o hábito dos guerreiros desde o início dos tempos, cada homem havia se despedido discretamente de seus entes queridos. Agora, todos se concentram na missão que têm pela frente. Os guerreiros se apressam em dispor seus cavalos em uma fila única e seguem trotando em direção às montanhas.

No último minuto, logo antes de o grupo desaparecer de vista, Davi se volta para o palácio e dá um último adeus para o seu rei. Saul o observa da janela, como Davi não duvidaria que ele faria. Após um instante de hesitação, Saul retribui o aceno.

ônatas se junta ao pai no topo do palácio.

- Ele cobiça a nossa coroa - afirma Saul, paranoico.

- Davi é leal, pai. Garanto que sim. Leal a nós dois.

- Você é o herdeiro do meu reino, meu primogênito, o homem que governará na próxima geração. Foi por isso que atribuí essa missão a Davi.

Jônatas arqueja de espanto ao perceber o que o pai fez.

- O senhor não quer que ele retorne. Quer vê-lo morto.

Saul nutre um amor profundo pelo filho, mas, em sua opinião, o jovem sempre foi dramático demais. Mais de um vez, Saul se pegou desejando que Jônatas tivesse os nervos de aço e a mente aguçada de Davi.

- Você o ama - diz Saul para o filho como sem dúvida Abel amava Caim.

Ele é o soberano. Sua palavra é a lei. O que está feito, está feito. Saul retorna ao palácio em busca de sua cortesã favorita.

Jônatas leva a cabeça às mãos, consternado pela perspectiva de jamais voltar a ver seu amigo. Sua amizade com Davi é tão forte que suas almas são como uma só.
Mas Jônatas, como seu pai, subestima Davi. Em questão de semanas, ele e Urias estão conduzindo seu exército de volta à praça principal da cidade. Multidões se reúnem para testemunhar seu retorno, enquanto Mical, aos prantos e extasiada, abre caminho pelo aglomerado de pessoas, jogando-se nos braços de Davi.

Davi desmonta de seu cavalo e a abraça, sem nunca largar o saco de aniagem que segura com força em uma das mãos. Mical é sua recompensa por ter realizado uma tarefa impossível ordenada pelo rei. Porém, para reclamá-la para si, ele deve concluir a missão.

Seguido pelos seus homens, Davi adentra, triunfante, a sala do trono de Saul. Ele ainda traz o saco na mão, enquanto seus homens carregam as espadas e armaduras tomadas dos filisteus. Por fim, faz uma mesura diante de um Saul muito insatisfeito.

- Meu rei - fala Davi. - Trago-lhe algumas lembranças.

Quando Saul ordenou que Davi matasse cem filisteus, o combinado foi que este lhe trouxesse provas. Agora, o rei olha de seu trono para o saco na mão de Davi, cujo fundo está claramente encharcado de sangue.

- O que é isto? - pergunta Saul, curioso.

Davi não consegue conter um sorriso ao estender o saco ensanguentado para o seu rei. Espera Saul olhar dentro dele antes de anunciar seu conteúdo para o pequeno grupo reunido na sala do trono.

- Neste saco, o senhor encontrará lembranças cortadas de cada um dos homens que matei.

Quando se dá conta do que tem à sua frente, Saul recua diante da visão e do cheiro.

- Há cem aí dentro?

- Duzentos - responde Davi, com voz tranquila. - Deus estava comigo.

Davi toma a mão de Mical e se vira para ir embora. Furioso, Saul sabe que foi

derrotado. Dominado pela vaidade e pela ira, ele salta para a frente e arranca uma lança das mãos de um dos seus guardas. Com a força de um homem que atirou armas desse tipo por mais de 30 anos, ele a arremessa na direção da cabeça de Davi.

Mical grita quando vê que a lança erra por pouco a cabeça de Davi e se enterra no batente de madeira da porta.

Ninguém sabe o que dizer. Todos olham para Saul, que permanece empertigado e altivo - mas agora parece menor do que poucos instantes antes. Ele oscila um pouco. Seu rosto está pálido e inexpressivo. Não só a graça de Deus o havia abandonado, como um espírito diabólico começara a atormentá-lo e os poderes da escuridão agora influenciavam seu comportamento.

Davi é o próximo a agir. Todos os guardas do palácio se posicionam para uma espécie de ataque, sabendo que sua prioridade é proteger Saul. Davi, no entanto, se limita a arrancar a lança da madeira da porta e olhar bem no fundo dos olhos escuros de Saul. Ele larga a lança no chão. Em seguida, vai embora de mãos dadas com Mical.

Com o tempo, Davi vai tendo mais certeza de que não deve permanecer no palácio; então decide abandonar sua noiva. Embora fique desapontada, Mical entende. Ela deve lealdade ao futuro marido. Assim, sempre que os soldados chegam para capturá-lo por ordens do rei, Mical mente para eles, dizendo que Davi está doente.

Com Saul cada vez mais paranoico, os soldados não têm dificuldade em perceber que isso não passa de uma mentira tola. Contudo, as palavras de Mical os detêm por tempo suficiente para Davi fugir rumo ao deserto, mesmo sabendo que Saul não medirá esforços para ir no seu encalço e matá-lo. O segredo foi revelado: Saul acredita que ele e Davi estão em conflito pelo trono de Israel.

Davi está em fuga. Aonde quer que vá, Saul está a um passo de alcançá-lo. O homem que foi ungido rei para liderar os israelitas contra os filisteus agora só pensa em caçar Davi e todos os que sejam leais a ele. Saul e seus homens cruzam a Terra Prometida de uma ponta a outra, atravessando seus vastos desertos e vales, deixando um rastro cruel de violência e caos. Em um determinado templo, descobrem que um sacerdote deu abrigo a Davi. Rejeitando os argumentos de que a casa de Deus é um santuário, Saul ordena que o sacerdote e todos os seus acólitos sejam Mais um motivo para o Senhor recompensá-lo! Você se tornará rei!

Davi balança a cabeça.

- Você é o meu rei. E foi ungido pelo Senhor.

Saul ri. É uma risada grave e sinistra. O medo deixa sua boca seca e faz sua voz falhar.

- Quando for rei, promete não matar meus descendentes e apagar meu nome?

- Não farei isso, Majestade. Eu juro.

Saul reflete sobre as palavras de Davi. Depois embainha sua espada e fita os olhos do seu rival com um olhar frio, estendendo a mão para ele.

- Então venha... Vamos para casa... juntos.

Davi está desconfiado. Ele continua a encarar Saul, enquanto seus homens seguram suas espadas com mais força. Demonstrando serenidade e força, se aproxima do rei, balança a cabeça, faz uma mesura e então lhe dá as costas para se juntar aos seus soldados.

Saul, parecendo humilhado e envelhecido, se vira para voltar sozinho ao seu acampamento.

Uma hora antes, havia implorando a Deus para que Ele lhe dirigisse a palavra. Agora, percebe que o Senhor lhe enviou uma mensagem muito clara, embora muito diferente da que Saul esperava ouvir.

A dignidade da monarquia agora pertence a Davi. Ele é o homem que será rei. É apenas uma questão de tempo.
Naquela noite, Saul se encontra sozinho em sua tenda no acampamento. Ele usa seu punhal para cortar a carne de uma perna de cordeiro, deixando o sangue do animal pingar na mesa. Ouve o som de cascos de cavalos lá fora, anunciando a chegada de um mensageiro. Jônatas entra na tenda, sem fôlego.

- Pai! - exclama.

- O que foi, filho? - resmunga Saul.

- O exército filisteu está no vale vizinho. Perto do monte Gilboa.

Pela primeira na sua vida, a guerra não desperta o menor interesse em Saul.

- Jônatas - diz ele com brandura. - Davi está perto.

- Esqueça Davi! O senhor precisa proteger o seu reino. É o seu dever!

Saul está aflito. Já não há sinal de sua lendária coragem. Sabe que deve vociferar ordens para que os israelitas se prepararem para a batalha, mas sente uma estranha insegurança.

- Partiremos ao raiar do dia - balbucia ele, titubeante. - Ao raiar do dia. Diga aos homens. Agora deixe-me a sós, filho. Preciso buscar orientação.

Depois que Jônatas vai embora, Saul vaga sozinho pela noite escura. Procura pela fogueira acesa que tem visto ao longe durante as últimas noites, pois sabe que pertence ao acampamento de uma mulher que fala com os mortos. Ela não e israelita ou pagã; não possui deus algum. Este é mais um exemplo da falta de confiança de Saul no Senhor.

Saul está confuso, atormentado. Seria uma presa fácil se fosse atacado durante o trajeto, pois não carrega espada e é incapaz de se defender. Finalmente vê as chamas e ouve o chacoalhar de conchas e ossos que pendem dos galhos de uma árvore e oalançam ao vento. Saul cobre a parte de baixo do rosto com um lenço para que a vidente não reconheça sua verdadeira identidade. Mas quando se aproxima do fogo, percebe que não faz diferença. A velha está em transe e se balança para a frente e para trás, clamando que o mundo dos espíritos ouça seus apelos... e os responda.

Saul faz um pedido simples.

- Invoque o espírito de Samuel, o profeta morto.

Ela não faz contato visual com Saul. Em vez disso, a vidente se dirige às chamas.

- Nós solicitamos... ó mortos... uma audiência com o profeta Samuel.

Samuel surge para Saul, sentado em uma pedra bem ao seu lado.

- Por quê? Por que você me despertou? Por que perturba meu espírito?

- Perdão - balbucia Saul, atônito. - Eu só o chamei porque... porque, quando falo com Deus, Ele não responde.

Samuel parece espantado.

- Deus? É mesmo? - Um sorriso atravessa seu rosto barbudo. - Você desobedeceu ao Senhor - lembra ele.

- Eu tentei obedecer - responde Saul. - De verdade.

- Ele arrancou seu reino das suas mãos e o entregou a Davi. - Samuel encara firme o homem a quem, no passado, ungiu rei. - Olhe para mim, Saul.

Saul não quer olhar para ele. Não sabe se Samuel é real ou um fantasma. Olhar nos olhos do profeta morto é como fitar um abismo profundo que Saul nunca viu antes. Mas ele olha mesmo assim.

- Esta será a sua última batalha - proclama Samuel com uma voz controlada.

- Não. Por favor. Não.

- Logo você me fará companhia na terra fria, Saul... assim como seu filho.

- Leve a mim - implora Saul. - Mas poupe Jônatas.

Samuel, no entanto, já desapareceu. O único som que Saul ouve é o chacoalhar dos ossos e das conchas se chocando ao vento.
Nenhum pai deveria viver mais do que seus filhos. A morte de um filho é a maior dor que alguém pode sofrer. Assim, quando a profecia de Samuel se concretiza e os filisteus atingem Jônatas com uma flecha na encosta do monte Gilboa, o rei não consegue suportar a desgraça que ele próprio trouxe para si. Sua espiral descendente rumo ao desespero está completa.

Saul desafivela sua armadura do peito e se ajoelha ao lado do filho. Lágrimas escorrem pelo seu rosto. Ele apoia o cabo da sua espada no chão, encostando a ponta dela contra o peito. Então Saul se deixa cair sobre a lâmina. Ele grita de agonia, mas sua morte não é rápida. Quando o inimigo se aproxima, ele implora que um guerreiro amalequita lhe dê o golpe de misericórdia. Em vez disso, o amalequita rouba sua coroa, sobe num cavalo e vai embora. O guerreiro deixa Saul morrer devagar, dando-lhe tempo de sobra para pensar em tudo o que fez e lamentar tudo o que perdeu.
Davi e seus homens aguardam notícias do combate. Saul não lhes pedira ajuda no confronto com os amalequitas por medo de que Davi o ofuscasse no campo de batalha. Davi ouve o som de cascos de cavalo e o galope de um cavaleiro solitário. Ele sai da caverna e saca sua espada para desafiar o mensageiro, sem saber se é um israelita ou um filisteu.

É o amalequita que roubara a coroa de Saul. Ele a segura em uma das mãos.

- Uma vitória esmagadora - fala o mensageiro amalequita, ofegante por conta da cavalgada longa e dura.

Davi sorri de alívio até ouvir a segunda metade da notícia.

- Para os filisteus.

- E o rei? - perguntou Davi. - O que aconteceu com ele?

- Está morto. - Então o cavaleiro estende a coroa para Davi, que reluta em aceitá-la.

- E o herdeiro dele, Jônatas?

O mensageiro sorri enquanto balança a cabeça.

- Morto também.

- Como Saul morreu? - pergunta Davi, passando os dedos pela coroa.

O amalequita mente e conta a Davi o que acredita que ele gostaria de ouvir:

- Ele caiu sobre a própria espada e, como o inimigo se aproximava, me pediu que acabasse logo com o seu sofrimento. Então eu o matei e trouxe a coroa para você.

Atônito, Davi respira fundo e responde:

- Você matou o ungido de Deus.

No mesmo instante, ele ordena que o amalequita seja executado.

Quando seus homens puxam o mensageiro do cavalo, Davi desvia os olhos.

A notícia o deixa verdadeiramente arrasado. O que mais o entristece é a morte de Jônatas, a quem ele amava como um irmão. Davi deixa seu olhar se perder ao longe. Urias, seu tenente e amigo de confiança, vem em sua direção. Davi pousa a mão no ombro dele.

- Pelo menos podemos voltar para casa.

- Você não entende, não é mesmo? - pergunta Urias.

Davi fica confuso. Não sabe o que responder.

- Este é apenas o começo, Davi. A nossa hora chegou.

Nesse momento, os demais homens saem da caverna e se aproximam de Davi, percebendo que estão diante do novo soberano de Israel.

- O povo espera que você os defenda agora - diz Urias ao seu amigo. - Eles desejarão que você volte a unir os israelitas.

Davi encara Urias, assimilando a mensagem. Ele não está acostumado a receber sermões, de modo que, a princípio, não dá ouvidos ao que o hitita diz. Mas então se sente invadido pelas palavras, impregnado e revitalizado por elas. Davi agarra o braço de Urias com força e o abraça.

- Obrigado, meu caro amigo. Você tem razão. Se Deus abriu o caminho, nós devemos ser fortes.

Então, ele olha para os seus homens e sabe exatamente o que fazer em seguida.

- Vamos começar - declara.

Urias se liberta do abraço de Davi. Olha nos olhos dele como seu igual pela última vez, então se ajoelha devagar.

- Sim, meu rei. Vamos começar.

Os outros homens seguem o exemplo de Urias, até Davi ser o único ainda de pé.

- Rei Davi! - bradam eles.
Com o tempo, todas as tribos de Israel estão sob o domínio de Davi. À medida que o seu reino e o seu poder se expandem, ele decide que precisa de uma capital que sirva de base para o seu reinado e de um lar apropriado para a Arca da Aliança.

A cidade que elege para tanto fica a apenas oito quilômetros de Belém, a terra natal de Davi. É uma escolha sábia, pois está situada na junção das rotas comerciais ao norte e ao sul, protegida de ambos os lados por vales profundos e alimentada por um fluxo constante de água doce. Abraão havia visitado a região certa vez, durante seus anos de peregrinação, quando a cidade ainda se chamava Salem. Agora ela é governada pelos jebusitas, que trocaram o nome da cidade para Jebus.

Davi planeja conquistá-la e lhe dar um novo nome: Cidade de Davi. Mais tarde, ela voltará a ser chamada pelo seu nome anterior: Jerusalém. É um nome de louvor a Deus, pois significa “Deus é paz”.

No sonho de Davi, ele vê que Israel finalmente conhecerá paz durante seu reinado. Um dia, no entanto, essa paz acabará.

A fortaleza milenar já se encontra ocupada. E murada. Se Davi pretende que Tebus seja sua, precisará tomá-la à força. O rei de Israel tem um plano para penetrar aqueles muros gigantescos e bem protegidos.

É noite. Davi comprime seu corpo musculoso para entrar num cano de esgoto. Ele chega a um túnel mais largo e acende uma tocha. Em seguida, seu exército segue atrás dele. O som de água gotejante ecoa ao longo de todo o corredor de pedra úmido. Eles caminham em um rio de água negra e fria que lhes bate nos tornozelos.

Os homens se esgueiram devagar pelo esgoto. Não falam, comunicando-se apenas por sinais. O túnel logo desemboca em uma câmara mais ampla e profunda, cheia d agua. O caminho está bloqueado por barras de aço que descem do teto até as profundezas do recinto.

Urias olha para Davi e ergue uma sobrancelha. E agora?

Davi simplesmente lhe entrega sua tocha e mergulha na água imunda. Um minuto se passa. E mais outro. Os homens ficam à espera, ansiosos, seus olhos baixados para o lodaçal em cujo fundo talvez se encontre o final da grade de aço. Parece uma eternidade.

De repente, Davi emerge do outro lado da grade.

- Venham.

Urias hesita. Nunca foi um bom nadador, nem mesmo na mais cristalina das águas. Assim, mergulhar naquela imundície não lhe parece uma ideia nem um pouco atraente. Quando olha para os outros homens, percebe que eles compartilham de seus medos.

- Deixem as tochas - ordena Davi. Com essas três palavras simples e um tom de voz firme, ele lembra a seus homens que não é um mero soldado. Ele é o rei. E deve ser obedecido. Urias larga sua tocha e mergulha. Logo em seguida, ouve-se o leve barulho dos demais homens entrando na água.

Uma passagem interliga o esgoto à cisterna da cidade, que está cheia de água potável. Davi e seus soldados entram aliviados na água fresca e límpida, ansiosos por se limpar. Atravessam a nado a cisterna até que notam uma fina nesga de luz brilhando na superfície da água.

- Um poço - diz Urias com um sorriso.

Davi se limita a concordar com a cabeça, vasculhando com o olhar as paredes de pedra em busca do único elemento fundamental de qualquer poço: uma corda. Por fim, consegue encontrá-la e nada até ela.

Dez minutos depois, Davi e seus homens já subiram pela corda e saíram do poço. Eles se esgueiram rapidamente pela escuridão da meia-noite. A cidade está adormecida. Quando dois soldados jebusitas passam andando em sua ronda noturna, Davi e Urias atacam, cortando o pescoço deles em silêncio e arrastando seus corpos até um beco. Em seguida, seguem com cautela até os portões principais da cidade a fim de abri-los para o ataque principal.

Somente quando seus homens estão devidamente posicionados é que Davi profere seu grito de guerra:

- Israel!

O rugido da sua voz se espalha noite adentro. Davi e seus homens subjugam : s guardas que protegem a entrada da cidade, baixando as grandes alavancas que ibrem as grades. Em um momento de distração, Urias é atacado por um guarda cbusita. Davi, no entanto, salva a vida do amigo ao atravessar o corpo do inimigo com sua espada.

Ao amanhecer, está terminado. Os portões de Jebus continuam abertos, mas ande antes havia escuridão agora há luz do sol. Onde antes havia soldados em . ? mbate agora há uma multidão de israelitas felizes aclamando Davi e a conquista de Jebus, que será rebatizada de Cidade de Davi e, posteriormente, de Jerusalém.

Deus é louvado em um desfile que serpenteia pela multidão. Sacerdotes ves-mdo éfodes multicoloridos lideram a procissão. Uma arca de madeira folheada a : aro é carregada pela cidade sobre longas hastes de madeira. As pessoas baixam • cabeça ao vê-la passar, pois se trata do símbolo mais poderoso do elo entre Deus e o povo de Israel. É a Arca da Aliança, que contém os Dez Mandamentos.

Crianças israelitas passam correndo alegremente ao lado do desfile, sem se dar ;: nta da grandiosidade da ocasião. Davi dança com um fervor místico à frente da procissão, chegando até a convidar as crianças a se juntarem a ele. Assim que elas ;: meçam a dançar, convida também homens e mulheres. É um golpe de mestre de Davi como rei, combinar a alegria da sua vitória com a chegada da Arca da Aliança Ele está consolidando aquela cidade como o centro do poder religioso e político âe Israel. É como se, naquele instante, nada pudesse dar errado.

Mas ele é humano. E onde há humanidade, há pecado. Então, mesmo em seu

: mento de maior triunfo, a tentação perturba o juízo de Davi. O que sente é er-

:o, e ele sabe disso. Sabe que Deus o abençoou generosamente e que o pecado e passa agora pela sua cabeça é o mesmo que dar as costas a Ele.

Mas não consegue evitar. A mulher à sua frente é tão linda! É encantadora, ca fibra de seu corpo a deseja. Ela é sensual, voluptuosa, deslumbrante e ma-

lhosa. E intocável... por ser a esposa de Urias.

- Você se importa? - grita Davi para Urias acima da algazarra da multidão, pcndendo a mão para Bate-Seba. Davi não consegue afastar Bate-Seba de seus pensamentos nem por um minuto.

Urias faz que não com a cabeça.

- Eu me importo - diz Bate-Seba, sorrindo.

Davi toma sua mão assim mesmo e rodopia o corpo dela, puxando-a para ti dança.

Urias apenas observa. Não consegue acreditar nos próprios olhos. Como Davi de estar dançando tão colado à sua esposa? Ele fica contidamente incomoda-10 ver o quanto Davi parece estar gostando daquilo.

o enquanto transforma Jerusalém no próspero eixo central do poder israelita. Como rei, parece mais do que justo que ele possua tudo o que deseja - e, no momento, o que deseja é Bate-Seba.

Davi está no terraço do seu palácio, inspecionando um modelo do templo que pretende construir. A vista é linda. O dia está claro. Lá de cima, pode observar os quintais e jardins das muitas casas ao redor.

De repente, seu olhar é distraído por outra visão deslumbrante. Lá embaixo duas servas seguram um lençol para ocultar a patroa, que se banha no quintal de sua casa. Mas o lençol só a protege pelas laterais. Ninguém jamais imaginaria que o rei em pessoa assistiría à cena das alturas, observando o corpo nu de Bate-Seba enquanto ela se ensaboa e passa óleos na pele.

É somente um banho. Um ritual simples que Bate-Seba gosta de fazer diariamente. Ela está apenas se lavando. Davi, no entanto, considera aquela visão o ápice da beleza e da sensualidade. Ele fica enlouquecido de desejo. O banho vespertino que transcorre diante dos seus olhos o deixa incapaz de ter qualquer pensamento coerente. Davi, um homem em sintonia com Deus, está nas garras de uma poderosíssima tentação - e se afastando cada vez mais do Senhor.

Um homem pigarreia atrás dele.

- Vossa Majestade?

Pego de surpresa, Davi é arrancado do transe. Ao se virar, depara com o profeta Natã, que atravessa o terraço a passos incertos, curioso para saber que visão teria inspirado o rei daquela forma.

- Ah, profeta! - fala Davi com entusiasmo. - Veja! O meu templo... para a Arca.

- Não entendo, Majestade. O senhor me convocou aqui para falar sobre um templo?

Davi o chama com um gesto e aponta para a pequena maquete do seu glorioso templo. Ele é magnífico, com pilares gigantescos e muros tão sólidos quanto os de uma fortaleza.

- O mundo nunca viu coisa parecida, profeta. Deus ficará satisfeito.

Mas se Natã está impressionado, não deixa transparecer. Pelo contrário, fica impassível. Por fim, fala em um tom de voz solene:

- O Senhor veio a mim na noite passada.

- Diga-me: Ele está satisfeito com nosso trabalho?

- O Senhor me disse o seguinte: a Casa de Davi governará Israel para todo o sempre.

- Somos abençoados - diz Davi, exultante, transbordando de alegria. Como se quisesse enfatizar a intensidade de sua bênção, ele se aproxima outra vez do muro, olha para fora e torna a admirar Bate-Seba.

- O seu filho será rei - diz Natã, mas Davi não está ouvindo. - O seu filho -repete ele mais alto, para garantir que Davi o escute - construirá o templo Davi se vira para o profeta, atônito.

- O meu templo?

- O templo de Deus - corrige Natã.

- Sim, sim - fala Davi, esquecendo-se de Bate-Seba por alguns instantes. - O templo de Deus. - Ele desejava construir um monumento grandioso para garantir que Israel jamais se esquecesse de seus feitos. Mas Deus não lhe concederá essa satisfação. Em vez disso, seu filho é que será lembrado.

No entanto, a ideia de ter um filho transforma a decepção de Davi em gratidão. Que maravilha. Eu terei um filho... e ele será rei. E o filho dele o sucederá. E assim por diante. Para todo o sempre.

- Obrigado, Natã - diz Davi, dispensando o profeta.

Natã vai embora. Davi desce até um piso inferior para admirar Bate-Seba mais de perto. Mesmo daquela altura, é possível ver a pele molhada dela cinti-lando sob a luz do sol.

Davi é atormentado pelos pensamentos gerados por aquela visão. Sente-se extremamente irracional, capaz de cometer quase qualquer pecado para satisfazer os desejos que fervilham em seu corpo.

Ele tenta afastar os olhos. Mas não consegue.
É primavera, época do ano em que todos os reis e guerreiros deveríam estar longe de seus reinos, travando guerras. Davi, no entanto, escolhe permanecer no palácio em vez de lutar. Quando questionado, explica que assuntos de Estado exigem sua atenção imediata. É claro que ele sabe que tais assuntos poderíam muito bem ser resolvidos do quartel-general de um campo de batalha. O que ele quer, na verdade, é que os outros homens estejam longe - especialmente Urias -, para que possa estar sozinho com Bate-Seba.

Numa noite de calor, ele a convoca para comparecer a seu quarto. A escolha do local não poderia deixar suas intenções mais claras. O servo de Davi a conduz até os seus aposentos. Ninguém jamais recusaria um pedido do rei, mas Bate-Seba é uma convidada relutante. Seus olhos parecem desconfiados e seus movimentos estão tensos. Nunca havia sentido medo na presença do rei, pois seu marido sempre estivera ao seu lado. Mas, sendo mulher, ela é abençoada pela intuição e pelo instinto aguçado que resultam de uma vida inteira sendo olhada com desejo pelos homens. Sabe que Davi a deseja. Percebe a maneira como o olhar dele percorre as curvas do seu corpo, detendo-se um pouco mais do que devia em seus cabelos e olhos. Sente-se lisonjeada pelo fato de o rei achá-la atraente, mas ela ama demais Urias - está muito afeiçoada aos olhares de ternura e às carícias dele - para sequer pensar no rei Davi de outra forma.

Enquanto entra nos aposentos do rei e o servo se prepara para anunciá-la, Bate-Seba já sabe que irá rejeitá-lo. Sua dúvida é se deve ou não contar ao marido sobre as intenções de Davi. Urias ficaria arrasado ao saber que seu bom amigo havia tramado um golpe tão desleal.

- Vossa Majestade - anuncia o servo -, aqui está ela, conforme ordenado.

Davi se reclina na cama, um cálice de vinho na mão. Veste suas melhores roupas de dormir e tem os pés descalços.

- Ah, Bate-Seba - diz ele, exultante, dispensando o servo.

- Vossa Majestade - responde ela, com a voz inexpressiva, desconfiada.

- Pode me chamar de Davi.

- O senhor me chamou para dar notícias de meu marido?

O rei sorri e se move para um dos lados da cama, abrindo espaço para Bate--Seba se sentar, caso deseje fazê-lo.

- Não. Não é nada disso. Seu marido está em segurança, disso eu tenho certeza. Embora não possa deixar de ressaltar que ele está muito, muito longe.

- E o senhor, Majestade, se me permite a ousadia: por que não está combatendo o inimigo também?

- Não há necessidade, Bate-Seba. Tenho homens muito competentes para fazê-lo no meu lugar. Homens como Urias.

Davi está de pé agora, andando em direção a Bate-Seba. Ela continua imóvel, sabendo muito bem o que está prestes a acontecer. Davi começa a rodeá-la, como um lobo avaliando sua presa.

- Sou fiel ao meu marido - diz Bate-Seba com firmeza. Mas, no seu íntimo, ela estremece. Quanto mais Davi se aproxima, mais ela se lembra de que ele é o homem mais poderoso e reverenciado de Israel.

- E quanto ao seu rei? - pergunta ele, parando para fitá-la nos olhos. - Você também é fiel a mim?

Ele desliza uma das mãos pela nuca de Bate-Seba e puxa o rosto dela para junto do seu. Como ela não oferece resistência, Davi beija-lhe o pescoço com ternura. E, depois, seus lábios.

É só então que Bate-Seba se afasta.

- Isto é errado - sussurra ela.

- Ninguém precisa saber - diz Davi, abraçando-a mais forte enquanto beija a pele macia entre o pescoço e os ombros de Bate-Seba. Ele se obriga a não pensar em Deus, ou que está violando dois dos Dez Mandamentos: cobiçar a mulher do próximo e cometer adultério. Tudo o que Davi quer é Bate-Seba.

Ela não é capaz de resistir ao seu rei. Davi não tarda a possuí-la.

Depois a manda de volta para casa.

Para cada pecado há uma consequência - uma punição, uma lição a ser aprendida ou uma lenta espiral descendente rumo à desgraça pessoal.

Davi, no entanto, sofre esses três castigos. Um mês depois de se deitar com a bela Bate-Seba, ela o confronta com a notícia perturbadora de que está grávida de um filho dele.

- Tem certeza? - pergunta Davi, digerindo a notícia enquanto olha pela janela. Os olhos de Bate-Seba estão marejados. Ela assente.

- E há quanto tempo seu marido está ausente?

- Ele não é o pai - diz ela com firmeza.

Mas Davi não se dá por satisfeito. Ele precisa acobertar seu pecado. Então, depois de despachar Bate-Seba, imediatamente chama Urias de volta da frente de batalha. Dias depois, seu amigo de longa data está diante dele no palácio. O rosto do guerreiro hitita está coberto de cicatrizes e sujeira.

- Urias, meu amigo - fala Davi com ternura, puxando-o para um abraço. -Seja bem-vindo.

- O senhor mandou me buscar, Majestade - diz Urias, a voz tensa. Ele está irritado por Davi tê-lo afastado de seus homens e ansioso para voltar à linha de frente.

- Como está indo a guerra?

- Bem. Muito bem.

Um silêncio desconfortável se instala entre os dois.

- E seu comandante, Joabe? Tudo bem com ele?

- Sim, tudo - responde Urias.

- E os soldados? - pergunta Davi, ficando sem assunto.

- São bons guerreiros.

- Bem, volte aqui amanhã pela manhã para me dar um relatório completo.

Davi faz um gesto com a mão, indicando que Urias deve ir embora.

- Não estarei aqui pela manhã - diz Urias.

- Mas é claro que estará. Eu lhe dei permissão para isso. Você, sem dúvida, quer estar com sua esposa.

O rosto de Urias se retesa. Ele está perdendo a paciência. Já é fim de tarde. Se quiser chegar em segurança ao acampamento israelita antes do anoitecer, precisa partir imediatamente.

- Não posso ficar com minha mulher - diz o hitita para Davi.

- É claro que pode!

- Enquanto meus homens estão acampados a céu aberto? Enquanto eles se preparam para enfrentar o inimigo? Sabendo disso, como poderia ir para casa passar a noite com minha esposa?

Davi abre um sorriso cúmplice, como se os dois tivessem armado aquilo juntos.

- Cá entre nós, quem saberá?

- Eu saberei, Majestade.

Davi pede vinho, na esperança de que, ao embebedar o amigo, consiga dis-suadi-lo. Mas Urias não dá o braço a torcer, insistindo que deve voltar imediatamente à frente de batalha.

- Entregue isto para Joabe - fala Davi, dando uma carta selada para Urias. - Certifique-se de que ele a abra imediatamente.
Urias retorna ao acampamento israelita e leva a fatídica carta diretamente para Joabe, que vê o selo do rei no pergaminho e se afasta para lê-la sozinho. “Joabe”, escrevera Davi, “coloque Urias na linha de frente, onde a guerra é mais violenta. Então recue e deixe-o ali para que ele seja atacado e morto.”

Essa é a sentença de morte de Urias.

Assim que acaba de ler a carta, Joabe olha dentro dos olhos de Urias. Quer revelar a verdade para ele, mas foi treinado para cumprir ordens sem questioná-las, de modo que se ajoelha e joga o pergaminho em uma fogueira.

- Urias - diz ele. - Trago notícias para você. É uma missão... Uma missão muito arriscada.

Urias é massacrado no campo de batalha. A única pessoa que se beneficia do seu assassinato é Davi. Bate-Seba, devastada pela morte do marido, não sabe nada sobre o plano, então busca consolo no fato de Urias ter morrido como herói. Ela fica de luto pelo tempo apropriado, como qualquer viúva que se preze, e quando Davi a toma como esposa, o gesto é visto por todos como um ato de generosidade de sua parte - o rei leal que se casa com a esposa grávida de seu amigo morto em combate para protegê-la do destino de criar uma criança sem pai. Algum tempo depois, a Rainha de Israel, como Bate-Seba passa a ser conhecida, dá à luz um filho.

Davi, Rei de Israel, um homem em sintonia com Deus, cometera o crime perfeito.

Mas Deus sabe, e Ele fala ao Seu profeta, Natã, que logo vai ao palácio de Davi confrontar o rei. É noite. O ar cheira a sálvia, junípero e madeira queimando. Davi está sentado no pátio, bebericando um cálice de vinho, entregue aos prazeres proporcionados pela sua condição de rei - e pelo fato de todos os seus sonhos terem se realizado. O vulto de Natã é iluminado por trás por uma grande tocha, que projeta sua sombra ao longo do piso de azulejos.

- Havia dois homens em uma determinada cidade - começa ele para Davi. -Um rico, o outro, pobre. O rico tinha uma quantidade muito grande de ovelhas. O pobre tinha apenas uma. Ele havia criado o animal, que crescera junto dele e dos seus filhos. A ovelha comia da sua comida, bebia do seu cálice e até dormia em seus braços como se fosse sua filha. Um belo dia, um viajante chega à casa do homem rico. Porém, em vez de usar um dos animais do seu rebanho para preparar uma refeição, o homem rico rouba a única ovelha do homem pobre e a abate para servi-la ao seu hóspede.

Davi fica enfurecido com a história.

- Capturem este homem! Em nome do Deus vivo, o homem que fez isso merece morrer.

- Você é este homem! Acha que pode simplesmente varrer o que fez para debaixo do tapete? - sussurra Natã para Davi, furioso. - Você tomou tudo de Urias, o seu pobre e leal servo. Ele merecia o seu respeito.

- Mas eu o respeitei - sussurra Davi de volta, temendo que Bate-Seba possa ouvi-lo. Ela está perto dali, amamentando seu filho em um banco de madeira debaixo de uma grande tamareira.

Natã aponta a cabeça para Bate-Seba.

- Ah, tem certeza? Você lhe tomou a esposa. E depois... a vida.

Davi fica ensandecido.

- Profeta! - grita ele, brandindo um dedo para Natã.

Mas Natã está fazendo o trabalho de Deus. Ele não teme nenhum mortal. O bebê começa a chorar enquanto Natã se aproxima do rei e o condena em um tom de voz alto e enfático:

- Você acha que Deus não vê tudo? O Senhor falou comigo. E eu lhe digo o seguinte: em breve Ele trará a ruína para a sua casa.

- Mas eu sou o escolhido Dele - retruca Davi, atônito.

- Sim. Você não irá morrer. Mas desrespeitou o Senhor, e haverá consequências.

- Eu pequei - lamenta-se Davi, finalmente percebendo o que fez. - Sim, eu pequei.

O filho de Davi continua a chorar.

Davi, rei de Israel, se ajoelha na tenda do tabernáculo, a Arca da Aliança disposta à sua frente. Este não é o Davi arrogante de poucas semanas atrás, que acreditava que sua condição de escolhido de alguma forma o eximiria do julgamento de Deus. Ele está jejuando há sete dias. Agora veste uma túnica de aniagem - o tecido áspero e grosseiro arranha sua pele e não possui nenhuma das cores vivas ou o corte preciso das túnicas reais. São as roupas de um escravo, o tipo de veste usada pelos seus ancestrais durante os anos em que viveram no Egito. E, como um escravo que implora a seu mestre que lhe poupe a vida, Davi está prostrado rente ao chão.

- Qualquer coisa - suplica ele. - Farei qualquer coisa que o Senhor ordenar. Mas, por favor, poupe meu filho.

Davi repete a mesma prece há sete dias. A falta de comida e sua concentração no Senhor dão ao seu rosto a expressão delirante de um homem que perdeu seu caminho.

É então que ouve Bate-Seba gritar.

Davi se obriga a se levantar e sai às pressas, andando de costas de modo a se manter de frente para a Arca. Ele atravessa correndo o palácio, buscando alguém que possa lhe dizer o que aconteceu. Por fim, encontra um servo, mas ele não é capaz de falar.

Davi continua correndo até ouvir o barulho suave de pés se arrastando que vem do final de um longo corredor. É Bate-Seba, tão fraca e abatida que mal consegue andar. Em seus braços, embrulhado numa manta, ela carrega seu filho morto. Os olhos de Bate-Seba estão vermelhos de tanto chorar.

Davi cai ao chão e urra de agonia.

- Primeiro meu marido, agora meu filho - diz Bate-Seba. - Somos amaldiçoados.

- Não! Eu fui ungido - balbucia Davi. - Deus me abençoou.

Natã fala em seguida, agigantando-se diante de Davi.

- Mas você abusou do seu poder e se transformou num tirano. Um rei nunca está acima de seu Deus.

Davi pestaneja para conter as lágrimas.

- Você deveria reinar em nome Dele, não para si próprio - prossegue Natã.

- Estamos arruinados - lamenta Bate-Seba. - O povo verá que Deus nos abandonou.

Natã fica calado. Davi se limita a encará-lo, esperando por uma resposta.

- Profeta? - pergunta enfim.

- Deus o ama, Davi. Por mais que você seja fraco. Você admitiu seus pecados e pediu perdão. Também assentou a nação de Deus nesta terra. Ele não tirará isso de você - garante Natã. E então, voltando-se para Bate-Seba: - E ele lhe dará outro filho.
O nome desse filho é Salomão. Ele constrói um templo grandioso em Jerusalém, conforme Natã profetizara. Muito depois da morte de Davi e Bate-Seba, esse templo serve de abrigo permanente para a Arca da Aliança.

Salomão conquista a reputação de homem mais sábio do mundo. Seu reinado é uma época de prosperidade e paz para Israel. Mas, assim como Davi, Salomão não é capaz de seguir a lei de Deus. Ele é um homem que se corrompe facilmente por suas paixões. Após sua morte, o poder continua a perverter os reis de Israel. Manter o reino de Deus sobre a terra se torna cada vez mais difícil, à medida que novos inimigos poderosos surgem para ameaçar o domínio dos israelitas sobre a Terra Prometida. Uma guerra civil irá dividir a nação em duas. Profetas alertarão sobre a destruição iminente se os reis e os povos não se voltarem novamente para Deus. Conflitos se arrastarão por séculos a fio. O Reino do Norte será destruído pelo exército assírio. O Reino do Sul será escravizado.

Um novo profeta chamado Daniel falará na forma de imagens, relatando um sonho no qual Deus promete salvar novamente os israelitas enviando-lhes um novo rei.

- Diante de mim estava aquele que era como um filho do homem, descendo das nuvens do céu. A ele foi concedida a autoridade, a glória e a soberania. Todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoravam.

Daniel está deslumbrado ao falar essas palavras, dominado pela glória e beleza do sonho que Deus lhe revelou. Mas não sabe quando o homem virá. Tampouco sabe que esse rei será um descendente direto de Davi, ou que ele se chamará Jesus.

PARTE CINCO

SOBREVIVÊNCIA

Jerusalém, 587 a.C. Desde a morte do rei Salomão, mais de três séculos atrás, as superpotências ao redor da Terra Prometida vêm sufocando Israel. A Assíria já conquistou a região norte. Zedequias ocupa o trono em Jerusalém como rei de Israel, mas é um reles vassalo do império babilônico, que conquistara outra grande parte da Terra Prometida. Em troca do privilégio de governar seu próprio povo, Zedequias paga um tributo anual ao rei da Babilônia, Nabucodonosor.

Ou pelo menos era isso que deveria fazer. O rei Zedequias passara a acreditar que os babilônios não representavam mais uma ameaça. Há anos que não paga o tributo, além de ter sido convencido a se aliar aos egípcios, que prometeram defendê-lo caso os babilônios decidam atacar Israel algum dia.

Muitos em Israel não demonstram respeito algum pelo Deus de Abraão. Eles ignoram o Senhor ao buscar orientação divina. Deuses pagãos e adoração de ídolos substituíram as orações. Em vez de simplesmente oferecer a Deus vacas ou cordeiros em sacrifício para expiar seus pecados, os israelitas agora oferecem seus próprios filhos em altares pagãos fora da cidade de Jerusalém. O mesmo povo que foi salvo diversas vezes por grandes homens, como Abraão, Moisés e Sansão, está tão perdido e arrogante quanto na época em que Deus enviou um dilúvio para exterminá-lo da face da Terra. Mil e quinhentos anos depois da liança de Deus com Abraão, mil anos desde que Moisés libertou os israelitas do Egito, e quatrocentos anos desde o reinado de Davi, eles continuam infiéis.

Mas Deus não está ausente, nem mesmo calado. Ele se manifesta por meio de um pequeno exército de profetas e assegura aos israelitas que tem planos para eles - planos que lhes darão esperança e um futuro. Os profetas falam sobre o dia em que Deus enviará outro grande rei à Terra.

Os israelitas, no entanto, ignoram essas boas-novas, geralmente tratando os profetas como loucos, pois estão mais preocupados com o presente do que com o futuro. O rei Zedequias é cruel e fraco; seu reinado é marcado pelo medo e pela opressão. Os líderes religiosos de Jerusalém perverteram o povo, transformando a adoração em um comércio e enriquecendo à custa dos fiéis.

Mas o tempo passou e agora Jerusalém está sob ataque. Exércitos do Oriente chegam e cercam a Cidade de Davi, assim como este a havia tomado no passado dos jebusitas.

Baruque, filho de Nerias, um escriba encarregado dos registros da corte, testemunha essa derrocada rumo ao caos. Baruque trabalha para o rei Zedequias, mas é um homem de Deus. Ele é um dos poucos em Jerusalém que não virou as costas para o Deus de Abraão. E é o único em toda a corte que admira Jeremias, um homem austero e de uma franqueza ríspida que é detestado por todos. Há quarenta anos que Jeremias vem pregando a mesma mensagem para uma sucessão de reis. Poucos, no entanto, tiveram a coragem de lhe dar ouvidos.

Jeremias é um profeta - um dos maiores de todos os tempos.

Ser um profeta não é um trabalho lucrativo. As chances de constituir família são mínimas. Ele se torna alvo de insultos, escárnio e zombarias constantes. Pode, inclusive, ser morto. Contudo, é dever do profeta compartilhar com os demais a palavra de Deus. Esta é uma tarefa árdua, pois a maioria dos israelitas não possui o menor interesse em ouvir o que Deus tem a dizer.

A admiração de Baruque por Jeremias é um segredo, assim como sua fé em Deus. O escriba perdería seu emprego se o rei soubesse que ele acredita que Jeremias diz a verdade. Portanto, fica calado, buscando consolo e inspiração nas palavras do profeta, um lembrete de que deve manter seu foco em Deus e na promessa Dele para Abraão de que abençoaria seus descendentes. Baruque muitas vezes pede que o Senhor lhe dê forças para revelar sua fé.

Mas Deus não parece ouvi-lo. Então o escriba mantém seu segredo, enquanto Jeremias arrisca sua vida pelo Senhor.

Então, uma noite, Deus responde às suas preces. Baruque está tentando se concentrar em seu trabalho. Há pergaminhos estendidos na mesa à sua frente, esperando pelas palavras que logo serão escritas neles. O escriba está distraído, e por um bom motivo. Bem em frente às muralhas da cidade que abriga seu escritório entulhado, ele ouve os sons de um sacrifício religioso. A essa altura, já está habituado a esse tipo de algazarra: uma mãe desesperada, o choro de um bebê prestes a ser executado, os cânticos dos sacerdotes, o rufar grave e monótono dos tambores, os gritos da multidão sedenta de sangue.

Baruque sente o cheiro dos incensos e da fumaça das fogueiras sacrificiais. Levanta-se para esticar as pernas. As longas horas escrevendo deixam seus ombros tensos e sua cabeça um pouco entorpecida. Alguns minutos de caminhada fazem seu sangue circular novamente e o ajudam a organizar os pensamentos. Assim que Baruque se põe de pé para clarear a mente, começa a andar de um lado para outro, ansioso. Fecha os olhos com força e inicia uma prece frustrada. Às vezes, ele compreende Deus, ou pelo menos acredita que sim. Mas, em momentos como este, a ausência Dele não faz sentido. Onde está o Seu poder? Onde está Seu amor duradouro?

- Deus - sussurra Baruque sei que o Senhor tudo vê. Não só nossas atitudes, como nossos corações. Sei que profanamos o Seu nome, o Seu amor e as Suas leis. É isso que fazemos. E, para isso, não há justificativa. Mas eu imploro, por favor, nos ajude. Ajude aqueles que mantêm sua fé.

Baruque abre os olhos e espia o sacrifício pela janela. Fica surpreso ao ver que o rei Zedequias o notou e olha com uma expressão intrigada em sua direção. No mesmo instante, Baruque volta a se sentar à sua mesa e desenrola um novo pergaminho. Ele é um homem medroso, que tem pavor do mundo além dos seus papéis e da sua função de escriba.

De repente, a voz alta e irritada de Jeremias se ergue em meio ao tumulto.

- Sacrilégio - grita o homem. - Bando de infiéis! Já se esqueceram do Senhor seu Deus?

Como todos os oficiais da corte estão presentes, Baruque torna a se levantar para ver o velho Jeremias atravessar sem medo a multidão para impedir a execução do recém-nascido, cujo corpo está deitado sobre o altar na encosta da colina. Baruque deseja ter a coragem e a ousadia de Jeremias. O profeta parece disposto a arriscar a própria pele em nome de Deus.

- Vocês oferecem vida humana a um ídolo sem vida - ralha Jeremias. O velho profeta é barbado, veste roupas esfarrapadas e está sempre carrancudo. Apesar de toda a sua fé na glória de Deus, Baruque não se lembra de ter visto Jeremias sorrir uma única vez que fosse. - Vocês dão as costas para Aquele que lhes dá a vida -prossegue Jeremias. - Arrependam-se. Voltem para Deus.

Os guardas do palácio o atiram no chão e começam a golpeá-lo com punhos e porretes, enquanto a multidão os incentiva aos gritos. Apesar de toda sua crença e virtude, Jeremias é um homem sem poder. Quase todos em Jerusalém temem o rei Zedequias mais do que a Deus. Assim, os bons homens - como Baruque - nada fazem. Então, o mal triunfa. A batalha pela alma de Israel está sendo perdida. As chances de os israelitas se livrarem do julgamento divino são cada vez menores. Eles se esqueceram de Noé e do dilúvio. Esqueceram-se do que foi feito de Sodoma. E, certamente, se esqueceram dos muitos anos de escravidão sofridos pelo seu próprio povo.

Mas as palavras de Jeremias ameaçam os detentores do poder, que temem que o povo de Jerusalém comece a dar ouvidos ao profeta. Então, naquela noite, muito depois de as fogueiras sacrificiais terem se apagado, e enquanto Jeremias, acorrentado a um tronco, tenta dormir mesmo que de pé, os sacerdotes e oficiais da corte ordenam que seus escritos sejam confiscados. Esta não é a primeira vez que Jeremias enfurece o rei.

- Retorne, Israel descrente - lê um dos sacerdotes em um tom de voz que zomba dos escritos de Jeremias. - Não olharei com raiva para o seu povo. Admita sua culpa...

- Que culpa? - grita Zedequias, pegando seu cálice de vinho. - Raiva de quê?

- De que o senhor tenha se rebelado contra Deus e desobedecido Sua voz - explica o sacerdote. - Ele está dizendo que Deus nos deixará viver em paz se modificarmos nossa conduta.

- Como?

- Não derramando sangue inocente nem adorando outros deuses.

Nunca ocorreu a Zedequias dar ouvidos às palavras do profeta. Como rei, ele acredita que seu poder é supremo. A ideia de que se ele seguir as instruções de Jeremias os israelitas serão poupados de um destino cruel nunca lhe passou pela cabeça.

- Não quero mais ouvir falar nesse lunático - diz Zedequias. Com um gesto de mão, ele descarta o assunto de uma vez por todas. Os sacerdotes sabem o que fazer em seguida e põem-se a queimar imediatamente os escritos de Jeremias.

Fumaça se espalha pelo pátio do palácio. Aquele já foi o lar de grandes reis, como Salomão e Davi, de modo que é apropriado que um verdadeiro homem de Deus esteja ali. Mas ele não está em uma posição de poder. Jeremias está encurvado, sua cabeça e seus punhos estão presos ao tronco de madeira. Ele é um idoso e deveria ser respeitado. Mas um fluxo constante de pessoas passa por ele enquanto o sol nasce sobre Jerusalém. Elas poderíam simplesmente ignorá-lo ao seguir em direção ao poço para apanhar a água da manhã. Ou poderíam encontrar um trajeto alternativo até o mercado para comprar o pão do dia. Em vez disso, transformam a humilhação de Jeremias em diversão. Ele não tem como se defender dos insultos. Sua barba está suja de saliva e vômito. Mas ele está resignado. Este é o seu destino. Sabe que foi escolhido por Deus para ser um profeta.

- Por que o caminho dos ímpios prospera? - pergunta Jeremias a Deus, na esperança de que a conversa o ajude a suportar aquela humilhação. - Por que os infiéis vivem em paz, enquanto os fiéis são caçados como cães?

Finalmente, Jeremias acaba perdendo as forças. Ele já não tem energia para transmitir a mensagem de Deus. Seus ferimentos lhe causam uma agonia constante, que piora dia após dia. Já perdeu a conta de quantas vezes sua cabeça foi empurrada contra o chão e chutada. Ele é um exército de um homem só, lutando contra um rei fraco e um povo rebelde. Está sozinho. Sempre sozinho. Mas o hábito de falar com Deus o acompanhou por toda a vida. Quando Jeremias se cansa de lutar, o Senhor é seu refúgio e seu conforto. É Ele quem lhe traz consolo. As palavras de Deus são uma lamparina aos seus pés nos momentos de escuridão, indicando-lhe o caminho a seguir. Jeremias fala com Deus, ainda que apenas por puro hábito.

- Eles jamais ouvirão - balbucia Jeremias. - Se não posso abrir seus corações com a verdade e ajudá-los a se lembrar da compaixão do Senhor, o que resta?

Deus ouve todas as suas preces. Ele as atende de várias formas. Jeremias está no fundo do poço, e seus clamores serão respondidos por seu único amigo em toda a Terra: Baruque. O escriba vai correndo até o tronco, onde suborna o soldado que monta guarda ali para que este abra os grilhões que prendem o profeta. O soldado fica chocado ao ver um oficial da corte à sua frente, usando as vestes de cores vivas que revelam sua posição. Ele aceita o dinheiro e faz vista grossa.

- Por que está fazendo isso? - pergunta Jeremias, enquanto Baruque o arrasta para longe. - Se for descoberto, perderá tudo.

Normalmente, Baruque jamais correria um risco tão grande, mas Deus o impulsionou a agir, dando-lhe a coragem para ajudar Jeremias. Então, quando vem ao auxílio do profeta, Baruque diz as palavras que o Senhor depositou com todo cuidado em sua boca:

- Já não posso ficar calado. Eu o vi antes. Escutei suas palavras. E sempre soube que Deus está do seu lado.

Baruque leva Jeremias até um pequeno aposento do Templo. Busca um pano e um balde d'agua e começa a limpar a sujeira do rosto do idoso. O escriba recua, horrorizado, quando começa a enxaguar o sangue nas costas do profeta. Depois de tantas chicotadas e golpes, elas estão em carne viva, entrecruzadas por cicatrizes tão grossas quanto cordas.

Jeremias afasta o corpo. Baruque está prestes a pedir desculpas, pensando que as cicatrizes talvez sejam um segredo e que, de alguma forma, teria constrangido seu novo amigo. Mas o profeta leva as mãos à cabeça e se arrasta com dificuldade. Instintivamente, Baruque faz menção de ajudar, mas Jeremias descarta a ajuda com um gesto e se apoia em um pilar próximo. Seu corpo inteiro está em convulsão, e seus pensamentos já não se encontram no presente.

Baruque recua, sem saber ao certo o que está acontecendo. Então Jeremias começa a recitar as palavras de Deus, como se estivesse em transe.

- Eles construíram ídolos deploráveis... profanaram a Minha casa.

O escriba fica chocado ao perceber que não é Jeremias quem está falando. O que Baruque ouve são as palavras do próprio Deus, no exato momento em que elas são proferidas, saídas da boca do profeta. Ele sai correndo em busca de um pergaminho para anotá-las.

- Preparem-se. Farei uma desgraça vir do Norte. Farei vir uma terrível destruição.

Baruque escreve furiosamente.

- Eu oferecerei seus filhos à fome, ao fio da espada - diz Jeremias. - Entregarei toda a sua nação ao Meu servo... o rei da Babilônia. Farei com que até os animais selvagens se sujeitem a ele.

Baruque e Jeremias não sabem, mas essa profecia da ira de Deus já é realidade. A traição de Zedequias contra Nabucodonosor, rei da Babilônia, está prestes a ser punida.

- Eu devastarei as cidades de Judá de modo que nenhum homem possa nelas viver - fala Deus através de Jeremias. - Transformarei Jerusalém em uma pilha de escombros, em um antro de chacais. Obrigarei seus habitantes a comerem a carne de seus filhos e filhas.

Com as mãos trêmulas e o coração a lhe esmurrar o peito, Baruque anota cada palavra. Mais tarde, o escriba dá um jeito de fazer os pergaminhos chegarem às mãos do rei e dos seus sacerdotes.

A profecia de Jeremias se concretiza. O gigantesco e aterrorizante exército babilônio está acampado diante das muralhas de Jerusalém. É tarde demais para os israelitas se arrependerem, e mais tarde ainda para dar ouvidos aos alertas de Deus. Os babilônios e o rei Nabucodonosor sitiaram a cidade, e o povo de Jerusalém agora ouve as trombetas de guerra, as ordens vociferadas pelos comandantes e os gritos dos espiões capturados, que são submetidos a toda sorte de torturas. Sentem o cheiro de comida sendo preparada nas fogueiras.

Em um último gesto de desespero, o rei Zedequias se volta para o Deus dos seus ancestrais. Ele implora ao Senhor que se lembre dele e o mantenha em segurança. Zedequias promete, do fundo do coração, que jamais voltará a adorar falsos ídolos e que Jerusalém será novamente uma cidade que venera o único Deus verdadeiro.

Deus não atende às preces de Zedequias. Quando o rei sobe até o aposento mais alto do seu palácio para olhar ao longe, vê o exército babilônio se preparando para tomar Jerusalém. A cada dia eles ficam mais numerosos, e a cada dia o ataque que irá destruir seu reino se torna mais iminente.

Um dos sacerdotes vai até o rei. O sacerdote havia notado que a caligrafia de Jeremias é idêntica à de Baruque. O escriba é imediatamente trazido diante do rei, mas não é encarcerado nem sequer sofre ameaças de perder o emprego.

Em vez disso, sua liberdade é garantida sob a condição de encontrar Jeremias e levá-lo à presença de Zedequias.

Baruque tem pavor do rei. Mas conhece o poder de Deus e teme pela vida de Jeremias. Em seu tom de voz mais humilde e contrito ele diz a Zedequias que não irá trair Jeremias e revelar seu paradeiro.

- Não pretendo fazer mal a ele - garante Zedequias, fingindo sinceridade. - Quero apenas lhe pedir que fale com Deus em meu nome e em nome de meu reino.

Desconfiado, Baruque promete retornar com Jeremias.

Ele encontra seu amigo imperturbável, como sempre. Jeremias está decidido a levar uma nova mensagem a Zedequias, de forma que o rei jamais esquecerá. O profeta encontra um jugo de madeira, do tipo que é usado para atrelar bois à carroça. Com a ajuda de Baruque, ele apoia a peça sobre os ombros estreitos e segue com dificuldade em direção ao palácio. Quando chega ao seu destino, Jeremias é recebido por um silêncio aflito. É uma cena grotesca, e o profeta parece prestes a desabar sob o peso do jugo. Mas uma chama inegável brilha em seus olhos. No entanto, não há sinal de medo ou fraqueza na postura do profeta quando ele para diante do rei.

- O que significa isto? - rosna Zedequias, indignado ao ver que Jeremias se recusa a rastejar diante do rei.

- Este é você. É assim que ficará sob o jugo dos babilônios.

- Eu jamais sucumbirei à Babilônia - responde Zedequias. - Eu o chamei aqui para falar com Deus em meu nome e em nome do meu reino.

Jeremias prossegue como se não tivesse ouvido o rei.

- Se for sábio, ouvirá a mensagem que lhe trago.

- E que mensagem é essa?

- Baixe a cabeça e submeta-se. Renda-se aos babilônios se quiser viver.

Um dos oficiais da corte de Zedequias salta sobre Jeremias, atirando o jugo no chão.

- Verme - fala o oficial com o mais completo desprezo. - Como ousa dizer ao seu rei que baixe a cabeça?

Jeremias se mantém firme. Seu rosto fica vermelho de raiva enquanto ele se prepara para enfrentar o agressor.

- Não - responde Jeremias. - Como você ousa questionar as palavras de Deus, o seu Senhor?

- Você escreveu que, se nos arrependéssemos, tudo ficaria bem. Que Deus estaria conosco - diz um dos sumos sacerdotes, na esperança de que isso lhe renda pontos com Zedequias.

Jeremias encara o sacerdote com uma expressão de pena. Ele sabe que o orgulho do rei já garantiu a queda de Israel. Agora, a Terra Prometida será de Nabucodonosor. Seu povo será dispersado e escravizado. Seu Templo será destruído.

Essa é a profecia de Deus - esse é o Seu desejo. Por mais que os oficiais e sacerdotes da corte protestem, eles não conseguirão impedir que isso aconteça.

- Olhem para além das muralhas. É tarde demais - diz Jeremias.

- Levem-no para as masmorras do palácio - sibila Zedequias.

Vários meses se passam. Os soldados babilônios continuam acampados diante de Jerusalém. As muralhas têm mais de seis metros de grossura e são quase impenetráveis. Dentro da cidade, o povo de Jerusalém está encurralado e faminto, privado de comida e de grande parte do fornecimento de água pela presença do exército babilônio do lado de fora. É chegada a hora de Nabucodonosor tomar a cidade. Fogueiras são apagadas enquanto seus homens vestem suas armaduras e afiam suas facas. Armas de cerco - imensas torres equipadas com rodas que permitem aos soldados lançarem uma chuva de flechas sobre o alvo do ataque - logo são posicionadas. Aos portões de Jerusalém, a primeira onda de soldados projeta um aríete contra a grossa entrada de madeira.

O exército de Zedequias tenta defender os portões, mas seus soldados estão desorganizados e fracos de fome, de modo que não conseguem resistir aos babilônios. Há anos que os israelitas não travam batalha alguma. A disposição das tropas é caótica e deplorável. O exército babilônio, por outro lado, vem treinando e combatendo de forma ininterrupta. Sua formação é impecável e sua disciplina, exemplar.

A patética resistência de Zedequias passa quase despercebida. Seu exército é esmagado com facilidade. A única dúvida que resta é quanto sofrimento o rei Nabucodonosor irá impingir a Jerusalém e quem entre os israelitas conseguirá encontrar uma forma de escapar do massacre. O pânico é generalizado. As chamas de telhados incendiados se erguem no céu noturno. As pessoas correm desesperadas, sem ter para onde fugir.

Dentro do palácio, o caos também impera. Zedequias fugiu, escapando pelo portão entre os dois muros próximos do seu jardim. Sua esposa e seus filhos, seus ministros, seus sacerdotes e seu exército o acompanham. O destino do grupo é o vale do Jordão, conhecido como Arabá.

As masmorras do palácio foram esvaziadas, com exceção de um prisioneiro: Jeremias.

Baruque atravessa o palácio vazio. Os muros estão iluminados pelas chamas que incendeiam a cidade. O estalar de suas sandálias ecoa contra o chão de pedra.

Baruque liberta Jeremias e conduz o profeta para fora do palácio. Eles correm até o Templo, projetado tantos anos atrás por Davi, um recinto cavernoso, geralmente um refúgio de calma e tranquilidade. Ele é o lar espiritual do vínculo de Deus com os israelitas, e é lá que se encontra a Arca da Aliança. O Templo, no entanto, está prestes a ser consumido pelas chamas. Os poucos fiéis que resam na cidade estão ali dentro, trabalhando freneticamente para salvar pergaminhos e artefatos religiosos de valor inestimável. Os israelitas escondem a Arca da Aliança para evitar que ela seja levada para a Babilônia. Depois daquele dia, ela nunca mais foi encontrada.

Baruque e Jeremias fogem do Templo, na esperança de encontrar uma maneira de escapar da cidade. Eles lançam um último olhar para o majestoso edifício, cujo telhado está tomado pelas chamas. A fumaça sobe ao céu. Uma multidão enche as ruas aos gritos. Uma saraivada de flechas lançadas por arqueiros babilônios cai ao chão, matando pessoas a esmo. Os corpos não são enterrados, e abutres virão pela manhã para limpar seus ossos.

Este é o fim da Terra Prometida.

Exatamente conforme profetizado por Jeremias.

O rei Zedequias não teve sucesso algum em sua fuga. Ele e seu exército foram alcançados pelos babilônios no caminho para Arabá. Os dois lados se encontraram nos arredores de Jerico, a cidade em volta da qual os israelitas haviam marchado até suas muralhas caírem. Já é dia e eles se veem à beira de uma estrada diante da cidade de Rebla. Estão acorrentados, cercados por soldados babilônios. O rei Nabucodonosor se aproxima deles, vestindo sua armadura de guerra. Não há muito o que dizer: Zedequias não só havia sido um súdito desobediente, como agravara a situação ao forçar os babilônios a sitiarem Jerusalém por tanto tempo. Se ao menos Zedequias tivesse dado ouvidos ao alerta de Jeremias... Curvar-se diante de Nabucodonosor não teria sido agradável, mas seria muito melhor do que o que está prestes a acontecer.

Zedequias ouve sua sentença e urra de agonia. Seus filhos são trazidos diante dele. O rei israelita tem apenas 32 anos, pois assumira o trono muito jovem. Seus filhos ainda são crianças. São o seu maior tesouro. Zedequias adora o som de suas risadas, sua beleza, seu atletismo e sua inteligência. Adora sentir os braços deles ao seu redor e notar o orgulho com que eles o olham.

Ao comando de Nabucodonosor, soldados babilônios dão um passo à frente e cortam a garganta deles, uma a uma. Zedequias tenta desviar o olhar, mas os soldados agarram sua cabeça e o obrigam a assistir à cena.

A morte de seus filhos é a última coisa que o rei Zedequias irá ver. Depois da execução, Nabucodonosor enfia os polegares bem fundo nas órbitas de seus olhos, cegando-o para sempre. Zedequias é então aferrado a correntes de bronze e forçado a marchar pelo longo e penoso caminho até a Babilônia, onde será escravo pelo resto da vida.

A elite de Jerusalém acompanha Zedequias nesta longa marcha rumo à servidão. Agora, eles também são escravos dos babilônios. Contudo, Nabucodonosor não leva todos os israelitas à Babilônia. Ele quer a nata da sociedade judaica: apenas aqueles que sejam cultos e dominem suas respectivas profissões são escolhidos. Entre estes, há um grupo de jovens amigos chamados Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Dentro deles reside a esperança de que o povo de Jerusalém um dia possa reencontrar Deus e retornar à Terra Prometida.

Mas, primeiro, eles precisam encontrar uns aos outros, pois se separaram em meio ao grande tropel de refugiados, animais de carga, carroças e soldados.

- Ó, Deus, dê-me forças - ora Daniel. - Proteja-me e seja meu guia, e um dia, não importa quantos anos demore, por favor, perdoe nossos pecados e permita que nosso povo retorne à Terra Prometida.

Um soldado babilônio saca sua espada para que os israelitas nem sequer pensem em fugir de volta para Jerusalém, ansioso por ter a oportunidade de usá-la. Desse dia em diante, cada movimento deles será vigiado dessa forma. A punição será rápida e certeira. A morte sempre será uma opção.

Bem-vindo de volta à escravidão, Israel.

Catorze gerações de israelitas se sucedem desde Abraão até seu descendente Davi. Mais 14 se sucedem desde Davi até a grande deportação para a Babilônia. E outras 14 gerações se sucederão até o nascimento de Jesus, descendente direto de Davi e Abraão, com quem Deus fez Sua aliança. Jesus será enviado para renovar esse elo com o povo de Deus, que precisa desesperadamente ser refeito. Porém, isso ainda tardará a acontecer. Agora, enquanto uma longa fileira de israelitas maltrapilhos e desesperados olha pela primeira vez para as águas do rio Eufrates, na Babilônia, a aliança com o Senhor parece algo muito distante. Após uma marcha de 800 quilômetros, eles finalmente chegam ao exílio. O leito vasto e reluzente do rio brilha como aço sob o sol. Ninguém sabe se um dia voltará a ver sua adorada Jerusalém.

Os soldados fazem os prisioneiros atravessarem o rio por um vau. Muitos dos israelitas não conseguem entender por que estão ali. Essas pessoas veem seu exílio da Terra Prometida em termos meramente políticos, como se fosse natural que um grande exército conquistasse o mais fraco e que o povo da nação derrotada devesse sofrer as consequências disso.

Os crentes em Deus, no entanto, sabem muito bem o que está acontecendo. Enquanto os outros lamentam o destino que lhes foi reservado, os fiéis os lembram de que os israelitas viraram as costas para o Senhor e serviram a deuses pagãos na Terra Prometida. No entanto, até os fiéis às vezes se perguntam se Deus não os teria abandonado para sempre.

Daniel, um jovem de 20 anos alegre e sagaz, que é parente distante do rei Zedequias, ora ao colocar os pés nas águas frescas do Eufrates para atravessá-lo junto com os demais israelitas.

- Deus, como encontraremos o caminho de volta para casa? - Apesar das transgressões de Zedequias, Daniel sempre havia adorado o Deus de Abraão. Entrando um pouco mais no rio, ele sente o toque da água aliviar seus pés doloridos e lavar a poeira que cobre suas pernas nuas. - Deus - implora Daniel por favor, volte para nós.

De repente, Daniel pisa em falso. Ele afunda e é arrastado pelas águas. Seu corpo é atirado de um lado para o outro pela correnteza e seu estômago se enche de água. Daniel não sabe nadar - nunca precisara aprender, vivendo na região seca da Terra Prometida. Assim, suas tentativas de ficar de pé, ou ao menos manter a cabeça à tona, são inúteis. Ele fica submerso por alguns segundos, que lhe parecem uma eternidade. Por mais abatido e exausto que tivesse se sentido na longa jornada de Jerusalém até o exílio, esses sentimentos nem se comparam ao terror que experimenta naquele instante.

Então Daniel sente os braços fraternos de Hananias, Misael e Azarias o agarrarem, puxando seu corpo da correnteza. Eles o ajudam a se levantar. Os quatro amigos - tossindo, engasgados e tremendo - se abraçam.

Por mais aflitos e aterrorizados que estejam, eles ainda encontram uma maneira de rir da situação. O alívio trazido pelas risadas os faz lembrar que Deus está do lado deles, zelando por eles, mantendo-os seguros e protegendo seus corações, mentes e corpos da dura realidade de sua nova vida em uma terra pagã.

Eles fazem um pacto nas águas do Eufrates enquanto Daniel tenta recuperar o fôlego: nada jamais irá separá-los. Se Daniel, Hananias, Misael e Azarias pretendem continuar vivos, a amizade e a compaixão que possuem deverá ser mais importante do que nunca. Eles não têm Jerusalém, mas têm uns aos outros. E têm também a promessa de Deus para os que acreditam Nele, o que lhes permitirá suportar provações inimagináveis. Daniel e seus amigos ficam abraçados por alguns instantes. Então, com frio e encharcados, porém felizes por terem se encontrado, eles continuam a marcha para atravessar o leito.

Enquanto isso, o rei Nabucodonosor não está nem um pouco ansioso por atravessar o Eufrates, dormir em sua própria cama ou deliciar-se com os prazeres do seu harém, pois os confortos do seu lar já não o atraem. O rei da Babilônia passara dois longos anos no campo de batalha esperando pela queda de Jerusalém, e o fato de tomar a cidade e queimá-la até restarem apenas escombros só serviu para aumentar ainda mais seu apetite.

Nabucodonosor não está conduzindo seu exército de volta para a Babilônia, mas sim para o oeste. Seu destino é o Egito, a nação inconquistável, situada em pleno deserto e governada pelos faraós há mais de dois mil anos. Mas ele a conquista. E, ainda assim, Nabucodonosor quer mais. Com uma furia implacável, pós devastar a terra dos faraós, ele retorna e se apodera do mundo civilizado. Nação após nação, todas caem aos seus pés. Seu poder é incomparável. Milhares de pessoas que sequer falam a língua de Nabucodonosor o chamam de “Senhor” e “Majestade”. Seus novos súditos não são apenas os judeus, mas todas as tribos e nações desde o rio Tigre até o rio Nilo; desde o deserto da Arábia até as grandes montanhas que marcam a entrada da região que um dia será chamada de Europa. As nações que não se submetem ao seu domínio são exterminadas. Suas mulheres são estupradas. Suas crianças, escravizadas ou simplesmente abandonadas para morrerem de fome.

Os anos passam. O rei Nabucodonosor volta à Babilônia para gozar da riqueza e dos espólios de seu vasto reino. Aos poucos, e com relutância, seus súditos se habituam ao soberano e a seus costumes. Gerações de crianças vêm ao mundo e chegam à idade adulta sem nunca saber a diferença entre o estilo de vida de Nabucodonosor e o dos seus ancestrais. Involuntariamente, os israelitas também passam a adorar os ídolos pagãos do seu rei, esquecendo-se do Deus de Abraão. Os poucos que se lembram da Sua existência se sentem abandonados por Ele. Muitos nem mesmo sabem quem é esse Deus.

No entanto, um israelita - Daniel - foi abençoado de forma estranha e poderosa durante o período de exílio. Agora um homem feito, adaptado aos costumes do reino, ascendeu ao posto de conselheiro-chefe de Nabucodonosor. Ele possui os dons divinos da interpretação dos sonhos e da vidência, e escolheu honrar essa bênção não profanando seu corpo com a comida e a bebida servidas na corte. Seus três bons amigos haviam reforçado os laços de amizade com ele ao longo dos anos passados longe de Jerusalém, também seguindo a mesma dieta.

Mas este dom vem acompanhado de certo perigo. Pois logo que Nabucodonosor descobre a habilidade especial de Daniel para ouvir Deus, o rei lhe pergunta sobre o significado de um sonho que nenhum sábio conseguiu desvendar.

Numa bela manhã, antes de o calor do deserto arruinar o clima, Daniel está ao lado de Nabucodonosor, que se encontra sentado em seu trono no pavilhão externo do palácio. Milhares de babilônios e judeus estão sendo conduzidos para fora da cidade em direção a uma ampla planície desértica. Daniel observa os sumos sacerdotes e soldados babilônios se reunirem ali. Percussionistas e músicos preparam uma apresentação. Trombeteiros levam seus instrumentos aos lábios e aguardam o sinal para tocar uma nota alta e triunfal.

O motivo de toda essa exuberante comoção é uma estátua gigante. Ela tem 27 metros de altura e 2,7 metros de largura. A ideia de construí-la tinha vindo ao rei em um sonho, e ele decidiu testar os poderes de vidência dos seus principais astrólogos e magos ao pedir-lhes que lhe explicassem o seu significado.

Caso falhassem, a punição seria a morte. Nenhum deles tinha a menor ideia do que significava o sonho de Nabucodonosor. Daniel, no entanto, tinha sido abençoado por Deus com a habilidade de interpretá-lo. O rei havia sonhado com uma estátua gigante, cuja cabeça era feita de ouro, o peito e os braços eram feitos de prata, o ventre e os quadris, de bronze, as pernas, de ferro, e os pés eram em parte ferro e em parte barro. Daniel explicou que as diferentes partes da estátua significavam os vários reinos que viriam substituir a Babilônia. Daniel também descreveu uma grande pedra que cairia sobre a estátua e a destruiria, o que significava que o Reino de Deus seria o último império restante. Isso demonstrava a fragilidade do poder do rei e a onipresença do único e verdadeiro Deus. Construir tal estátua seria um convite à ira do Senhor.

Nabucodonosor ficara intrigado com este Deus de Daniel, mas isso não o impediu de levar adiante a construção da estátua. Ele escolheu interpretar a mensagem como um sinal de que devia agir com mais ousadia. Assim sendo, ordenou não só que a estátua fosse erguida, como que ela fosse feita inteiramente de ouro.

Agora Nabucodonosor ergue o braço - é o sinal aguardado pelos trombetei-ros. Uma só nota paira por sobre os milhares ali reunidos. No mesmo instante, todos se calam e se ajoelham em sinal de devoção. Estão prestando homenagem à estátua e, consequentemente, a Nabucodonosor. Todos se lançam ao chão: sumos sacerdotes, soldados, judeus, babilônios. Todos.

Os piores medos de Daniel se concretizam quando seus amigos Hananias, Misael e Azarias não se curvam. São os únicos a permanecer de pé, recusando-se a venerar qualquer outro Deus que não seja o deles.

- Com todo o nosso coração, nós seguimos o Senhor - ora Azarias em voz alta para o Deus de Abraão.

Os trombeteiros baixam seus instrumentos. A planície cai em silêncio, com exceção dos gritos dos sumos sacerdotes, que exigem que os três judeus se ajoelhem.

- Nós buscamos a presença do Senhor - as palavras saem da boca de Misael.

A essa altura, os guardas já estão atravessando a multidão, ansiosos para dar

uma surra nos escravos estrangeiros. Mas os três permanecem de pé. Daniel observa a cena ao longe com uma expressão sombria no rosto, pois sabe o destino que aguarda seus amigos. Ao mesmo tempo, no entanto, sente-se orgulhoso de que eles se recusem a adorar falsos ídolos.

- Oh, meus caros amigos. Agora a fé de vocês será testada - diz ele para si mesmo.

Nabucodonosor está fervendo de raiva. O homem que no passado havia cegado o rei Zedequias grita para Daniel:

- Quem são aqueles homens? O que há de errado com eles?

- Meu Senhor, eles são guiados apenas por Deus. Não se curvarão para ninguém além Dele - explica Daniel.

Enquanto Daniel fala, os guardas capturam seus amigos. Daniel segue o rei de perto enquanto Nabucodonosor se levanta às pressas do seu trono e sai de debaixo da sombra do pavilhão. A multidão recua quando o rei segue a passos firmes em direção aos transgressores. Daniel vem correndo atrás dele. Mais adiante, vê as mãos de seus amigos serem atadas.

- Eles o servirão com lealdade por toda a vida, assim como eu - garante Daniel a Nabucodonosor, buscando palavras tranquilizadoras que possam aplacar a ira do rei. - Mas...

- Mas o quê? - retruca Nabucodonosor.

- Por favor, tente entender, Vossa Majestade - prossegue Daniel. - Apenas Deus pode ser louvado.

Um sumo sacerdote havia se juntado a eles. Ele sabe que Daniel ganhara prestígio ao interpretar o sonho do rei e está decidido a reafirmar sua própria autoridade.

- Isto é alguma tolice em que vocês, estrangeiros, acreditam? Que o seu Deus é mais poderoso do que nosso glorioso rei? - pergunta o sacerdote.

Daniel fica calado. Não é hora de discutir.

É Nabucodonosor quem quebra o silêncio.

- Seus amigos irão se curvar... ou eu os obrigarei a fazê-lo.

Porém, mesmo quando os guardas tentam forçar os três israelitas a se ajoelharem, eles não dizem uma só palavra de louvor ao rei. Parecem não ter medo, o que desencadeia a lendária fúria de Nabucodonosor.

- Vossa Majestade, nós não precisamos nos defender diante do senhor - diz um deles. - Se formos atirados numa fornalha em chamas, o Deus a quem servimos nos protegerá do fogo; Ele nos guardará de sua punição. Porém, mesmo que Ele não nos proteja, queremos que saiba, Vossa Majestade, que não serviremos aos seus deuses ou adoraremos a imagem de ouro que o senhor construiu.

- O que fazemos com algo que se recusa a vergar? - grita Nabucodonosor, girando o corpo de raiva. - Nós atiramos no fogo!

As palavras ferem o coração de Daniel como um punhal. Nabucodonosor olha diretamente para ele enquanto se dirige aos seus guardas:

- Queimem-nos.

Imediatamente, um soldado começa a cobri-los de óleo. Um segundo soldado vem correndo em direção aos prisioneiros, carregando uma tocha. Nabucodonosor agarra seu braço, pegando a tocha de sua mão. Com um rápido movimento, ele a atira contra os três israelitas.

No mesmo instante, eles são engolidos pelas chamas.

Nabucodonosor sorri de satisfação e se volta para os sacerdotes, para que eles possam compartilhar da sua alegria. Enquanto isso, Daniel ora com todo o fervor e toda a fé de que é capaz:

- O Senhor ouve meu pranto. O Senhor ouve meus gritos por misericórdia. O Senhor aceita minhas preces.

Quanto mais Daniel ora, mais sua voz fica firme e determinada. Ele já não teme pelos seus amigos, pois sabe que Deus está próximo. Em meio às chamas e à fumaça ondulante, ele enxerga o vulto de uma quarta figura protegendo Hana-nias, Misael e Azarias. A silhueta flamejante abençoa os três homens.

- O Senhor ouve meu pranto. O Senhor ouve meus gritos por misericórdia. O Senhor aceita minhas preces - fala Daniel baixinho.

Mas não é só Daniel que consegue ver essa aparição. O rosto de Nabuco-donosor fica lívido quando ele nota a presença misteriosa. Seus sacerdotes balbuciam encantamentos, invocando a proteção de seus próprios deuses. Esses homens passaram toda a vida afirmando serem religiosos, mas, até agora, nunca tinham visto ou sentido de fato a presença de Deus.

- O Senhor ouve meu pranto. O Senhor ouve meus gritos por misericórdia. O Senhor aceita minhas preces - continua Daniel.

As chamas se apagam. Os três vultos ajoelhados de Hananias, Misael e Azarias estão cercados de fumaça. Quando ela se dissipa, os três homens se levantam. Estão ilesos e nem mesmo cheiram a fumaça. Com lágrimas nos olhos, Daniel agradece humildemente a Deus.

Enquanto os sacerdotes se viram para fugir, desesperados para escapar da ira que aquele Deus possa querer lançar contra eles, Nabucodonosor cai de joelhos. Ele agarra a perna de Daniel em um gesto de súplica. Contudo, parece haver algo a mais em seu gesto - algo pelo qual Daniel vinha orando havia muitos, muitos anos.

Este algo é fé. Nabucodonosor está profundamente impressionado com o poder de Deus.

No auge da insensatez do rei, Deus havia se revelado. Seu poder estava ali, diante dos olhos de todos. Orientado por Daniel, Nabucodonosor logo permite que os judeus cativos adorem o seu Deus em paz.
O tempo passa. O grande rei da Babilônia está enlouquecendo; guardas o protegem 24 horas por dia. Seus súditos estão proibidos de vê-lo em seu palácio, pois Nabucodonosor se comporta como um cão raivoso. Qualquer discussão racional sobre libertar os israelitas está fora de questão. Contudo, embora rasteje de quatro pelo chão, com os cabelos desgrenhados e os movimentos restritos aos limites do aposento que ocupa, ele ainda é o rei.

Os mais de 20 anos que Daniel passara como escravo de Nabucodonosor haviam aprofundado o relacionamento dos dois. Daniel já não é apenas um servo, tampouco um simples oficial respeitado da corte. Ele é indispensável ao rei, desempenhando uma série de funções burocráticas e cerimoniais que garantem o bom funcionamento do império babilônio. Mesmo das profundezas da sua oucura, Nabucodonosor ainda sente grande admiração pela fé e pela eficiência daquele estrangeiro.

Assim, se existe alguém que pode convencer Nabucodonosor a libertar os israelitas, esse alguém é Daniel. Mas agora, naturalmente, ele é insubstituível.

A tarde vai pela metade quando a masmorra de Nabucodonosor é destrancada. Uma porta pesada se abre. Daniel, agora com quarenta e poucos anos, entra. Enquanto dois sacerdotes observam do lado de fora, ele carrega sem medo um cálice dourado de água até a jaula do rei no centro do recinto escuro.

De repente, uma cabeça se projeta em uma estreita nesga de luz. O rei devora um bocado de comida de um prato no chão e logo recua de volta para as sombras. Tudo o que Daniel consegue ver de Nabucodonosor é um emaranhado de cabelos e barba sujos e um par de olhos sombrios, malignos, que o encaram firme.

- Eis o maior rei e o homem mais miserável desta Terra de Deus - sussurra Daniel. - Veja até onde seu orgulho o levou. Meu povo está tão acorrentado à Babilônia quanto o senhor a esta jaula.

Daniel diz esta última frase com grande pesar. Isso não é de seu feitio, pois é conhecido por seu coração alegre. Ao ouvir suas próprias palavras, pede perdão a Deus por sua ingratidão. Daniel baixa os olhos para o seu senhor e mestre terreno. Então pousa com cuidado o cálice dourado no chão. Os sacerdotes continuam a observá-lo, sem saberem ao certo o que Daniel pretende com aquilo.

- Shh - faz Daniel em tom tranquilizador. - Venha. Está tudo bem.

Nabucodonosor se aproxima de quatro e bebe a água como um cachorro.

Com brandura, Daniel informa ao rei sobre as novas profecias referentes ao destino dos israelitas e dos babilônios.

- Sinto lhe informar, senhor - fala Daniel, certificando-se de que os sacerdotes não possam ouvi-lo -, mas Ele se compadecerá dos israelitas. Deus diz que Jerusalém deve ser reconstruída e que as grandes fundações do Templo devem ser novamente assentadas.

As palavras não significam nada para Nabucodonosor. Ele já perdeu por completo a sanidade.

A profecia se concretiza, mas não de imediato. Vinte e três anos após a morte de Nabucodonosor, durante os quais quatro reis fracos e corruptos assumem o poder, um novo rei chega à Babilônia. Ele vem montado em um magnífico cavalo branco e lidera um exército de dezenas de milhares de soldados. Este homem vem do Oriente e usa uma pesada coroa de ouro, para que todos reconheçam sua majestade. Há três anos que este rei de toda a Pérsia vem ampliando seus domínios. Ele conquistou tudo em seu caminho, e seu próximo alvo é a Babilônia. Este seria o maior prêmio de todos: sua porta de entrada para o Ocidente e para o Sul, que abriga as riquezas do Egito e de Israel.

No alto de uma torre no centro da cidade, com um grupo de ministros da corte, Daniel observa o exército se aproximar. Seus amigos da vida inteira, Hananias, Misael e Azarias, estão junto dele. Todos já têm por volta de 60 anos, tendo passado a maior parte de suas vidas naquela terra estrangeira. Mas não a chamam de lar. Jamais chamarão. Não temem o novo rei - em vez disso, lhe dão as boas-vindas. Para eles, trata-se de um libertador. Daniel havia se informado sobre o novo soberano e sabe que os povos de cada território conquistado pelos persas permaneceram livres para viver e adorar de acordo com suas próprias tradições. Daniel sorri e diz:

- Ele trará a liberdade para nós, os exilados.
Os sumos sacerdotes haviam instaurado o caos na cidade. Proibiram orações. Chegam, inclusive, a assassinar o último rei da Babilônia como símbolo de sua lealdade ao rei persa que estava prestes a chegar. Daniel e seus amigos descem da torre e seguem em direção à praça principal da cidade a tempo de ver o rei pender da forca, com o pescoço quebrado. Suas pernas estão atadas na altura dos tornozelos, os braços, atrás das costas. Nenhum capuz cobre seu rosto, de modo que ele fita seus antigos súditos com olhos sem vida. Os sacerdotes sorriem com malícia, recusando-se a deixar que os soldados babilônios cortem a corda para soltá-lo antes que o novo rei veja o que eles fizeram. Sua esperança é cair nas graças do novo soberano ao permitir que ele conquiste a Babilônia sem encontrar resistência. Enquanto Daniel e seus amigos observam a cena, os sumos sacerdotes ordenam que os guardas retirem as gigantescas vigas de madeira que protegem os portões maciços e impenetráveis da cidade. Com o coração pesado, os soldados obedecem e assistem, passivos, ao exército persa chegar. Sabem que em breve serão massacrados pelos homens do novo rei e entregues aos abutres.

O persa chega à praça da cidade e avalia sua mais recente conquista. Não é recebido por nenhum rei; ninguém vem lhe entregar formalmente o controle da cidade. Os sumos sacerdotes, apesar de toda sua astúcia, têm medo de confrontá--lo. Os soldados babilônios estão prostrados no chão, na esperança de que esse gesto de subserviência consiga salvar suas vidas.

Daniel, Hananias, Misael e Azarias caminham até o centro da praça, passando pelos soldados, cortesãos e aristocratas persas em suas montarias. No mesmo instante, os sacerdotes criam coragem e se adiantam, pois não querem que Daniel se dirija ao novo rei antes deles. Daniel pode insistir que o governante persa os condene à morte. Em pânico, os sacerdotes saem correndo para lhe dar as boas-vindas, entoando hinos pomposos em sua homenagem.

Como conselheiro real, somente Daniel possui o direito de negociar com um rei. Enquanto abre caminho pela praça, ele sabe que deve pedir ao novo soberano que liberte os israelitas da escravidão, cumprindo assim o papel específico dos persas na profecia de Deus.

Porém, antes que Daniel consiga chegar até ele, uma dupla de sacerdotes corpulentos agarra seus braços e o puxa para o lado.

- Preciso falar com o rei - protesta Daniel. - Ele está à minha espera.

- Claro - diz um dos sacerdotes -, mas, como pode ver, o rei está ocupado. Já providenciamos uma audiência particular. Tenha a gentileza de nos acompanhar.

Daniel observa, impotente, o novo rei ser escoltado dali. Então é conduzido até o palácio e deixado sozinho, perguntando-se o que os sacerdotes estariam tramando.

Doze longas horas depois, ao cair da noite, Daniel descobre. Ele está na nova sala do trono do rei persa, rodeado de sacerdotes. Eles apontam, zombam, gritam e lançam acusações e insultos contra o israelita.

Daniel olha de um para outro sem dizer nada, mas assimilando cada calúnia. O novo rei, que adquiriu uma vasta sabedoria em seus muitos anos de conquistas, sabe que não deve interromper cerimônias religiosas. Ouve em silêncio, analisando Daniel e os sacerdotes.

Um deles se aproxima de Daniel. Lança-lhe um olhar dos pés à cabeça, como se examinasse um animal em um zoológico. O sacerdote funga e recua, enojado.

- Feiticeiro - diz ele em tom de acusação. - Você invoca demônios. Nem tente negar.

Isso desperta o interesse do persa.

- Explique-se - ordena ele do trono.

- Ele envenenou a mente do nosso antigo soberano, o grande rei Nabucodo-nosor - sibila o sacerdote. - Transformou-o em um animal selvagem!

Daniel permanece impassível. Sua fé faz com que ele não tema homem algum. Parece quase entediado. Essas acusações não são nenhuma novidade.

- E ele não está sozinho - exclama outro sacerdote. - Certa vez, seus três amigos desafiaram a morte com a ajuda de um demônio de fogo.

- E ele profetizou a desgraça trazida pelos governantes babilônios - disse um terceiro. - Chegou até a dizer ao nosso rei que ele “foi pesado na balança e achado em falta. Seu reino será dividido...”.

Daniel aproveita a oportunidade e completa:

- "... e entregue aos persas.” - Ele se volta para o rei. - Eu profetizei que a Babilônia lhe seria entregue, Majestade. Foi a vontade de Deus.

Os sacerdotes se recusam a ser contrariados.

- Mas quem garante que você não tornará a invocar este deus demoníaco para fazer o mesmo outra vez?

- Deus é justo. - Os olhos de Daniel são como duas pedras de gelo quando ele responde ao sacerdote. - Os virtuosos não têm nada a temer.

O sacerdote fica furioso. Ele é um homem de muitos deuses.

- Não reconhecemos esse deus - rebate, ignorando Daniel para se dirigir diretamente ao rei.

O grande erro de Daniel é discutir com aqueles homens em vez de apelar para a razão de um governante sábio.

O sacerdote prossegue:

- Quem garante que também não será a vontade do deus dele que tenhamos um novo rei, e depois outro, e depois outro? Digo com toda a certeza que este homem é um feiticeiro e indigno de confiança. É por isso que proibimos qualquer tipo de oração, uma lei que acreditamos que o senhor, com sua sabedoria, desejará manter.

O rei olha para Daniel. Esta é sua chance de convencê-lo de que precisa libertar os israelitas.

- O senhor me permite que eu lhe ofereça mais uma das profecias de Deus? -pergunta Daniel com humildade.

Ele é interrompido novamente por um dos sacerdotes.

- Não, seu demônio. Chega de suas palavras ardilosas.

O rei persa, no entanto, ergue uma das mãos para pedir silêncio. Ele assente, dando permissão a Daniel.

O israelita se aproxima do trono.

- Vossa Majestade, a profecia diz o seguinte: “Há um rei cuja mão direita eu tomo na minha, para subjugar as nações em seu caminho e despir outros reis de suas armaduras, para abrir as portas à sua frente, de modo que elas não tornem a se fechar.” - Com estas palavras, Daniel faz uma mesura.

- Ora, é óbvio que ele iria dizer isso! - exclama um sacerdote.

O novo rei analisa o olhar de Daniel com atenção, em busca de sinais de má-fé ou fingimento. Os olhos de Daniel permanecem firmes e, enquanto responde à acusação do sacerdote, o rei se vê intrigado por aquele israelita e sua capacidade de manter a calma e a compostura diante de tamanha hostilidade.

- Sim - responde o rei. - É o que qualquer homem diria, quer fosse verdade ou não.

O novo rei está dividido: havia herdado um clero poderoso, cuja cooperação será essencial para a estabilidade do seu governo. Mas, por outro lado, os sacerdotes claramente temem o Deus de Daniel. Ele deve escolher com sabedoria. Será que também devo temer o Deus de Daniel?, pergunta-se o rei. Ou será que esses judeus e o Deus deles não valem tanto esforço? Sua política de conciliação, que funcionou tão bem durante outras inúmeras conquistas, de repente lhe parece precária.

Então tudo para de repente quando Daniel começa a se comportar de maneira estranha. Ele está imóvel, de olhos fechados. O rei percebe que ele balbucia, mas não sabe dizer se Daniel está orando para o seu Deus ou invocando um demônio. Uma coisa é certa: Daniel não está demonstrando respeito por seu novo soberano.

O persa se agita como um leão despertando do seu sono para caçar. Ele se põe de pé e ruge sua reposta, abalando todos os presentes e interrompendo de forma abruta os murmúrios de Daniel.

- Eu sou o rei do mundo. Um grande rei. Um governante poderoso. Sou o soberano da Babilônia. Rei de todos os judeus em minha nação. E meu veredicto é o seguinte: de hoje em diante, os judeus devem renunciar aos seus costumes e rituais.

Com estas palavras, ele vai embora da sala do trono, deixando para trás um Daniel aturdido e um bando de sacerdotes satisfeitos e orgulhosos de si mesmos. Eles olham com arrogância para Daniel, que se sente derrotado e traído.

As profecias de Isaías se mostraram falsas. Os sonhos que Daniel acalentava há tanto tempo estão arruinados - e não só os seus, mas os de todo o povo judeu. Por mais de quarenta anos, o povo escolhido se agarrara àquele fiapo de esperança em seu exílio. Os ombros de Daniel se curvam à medida que ele deixa a sala do trono, com o coração devastado. Encontra um canto isolado no corredor e pressiona a cabeça contra a parede de pedra fria, tentando desesperadamente encontrar sentido no que acaba de acontecer. Reage àquele fracasso da única maneira que conhece: orando.

- Oh, querido Deus. Eu decepcionei Israel. Decepcionei o Senhor. Estamos mais distantes do que nunca da liberdade. Como não pude prever isso? Por que não falei mais?

Mas orações foram proibidas no reino do governante persa. Enquanto Daniel ora no corredor, os sumos sacerdotes passam por ele e se apressam para registrar seu delito. A pena para quem descumpre ordens diretas do rei é a condenação imediata à morte, e é óbvio que Daniel está descumprindo ordens. O rei será informado desse ato de insubordinação.
Daniel é capturado e atirado nas masmorras. Os guardas, que normalmente ostentam o mais completo destemor, parecem aflitos e amedrontados ao abrir a porta da cela, empurrá-lo para dentro dela e trancá-la logo em seguida. A coragem deles só retorna depois que Daniel está atrás das grades e não oferece perigo. Ao contrário dos sacerdotes, os guardas não se regozijam, limitando-se a desviar o olhar de Daniel com uma expressão triste nos rostos. Depois de o verem por tantos anos na corte, os guardas o conhecem bem. Ninguém jamais viu Daniel falar com rispidez, humilhar subordinados ou espalhar boatos. Sua capacidade de manter o equilíbrio sob pressão é lendária. Aconteça o que acontecer, Daniel é sempre humilde e otimista. Os guardas nunca veem outros membros da corte agirem dessa forma. Pelo contrário, a arrogância e a dissimulação dos demais muitas vezes fazem com que eles se sintam inferiorizados. Prender Daniel nas masmorras é uma das ordens mais duras que eles já haviam precisado cumprir.

Daniel está intrigado. Por que foi apenas jogado na prisão? Ele é capaz de suportar a solidão de uma cela. Talvez o rei mude de ideia sobre sua sentença de morte. Tudo é possível em Deus. Ele se vira para examinar seu novo lar. A única luz entra pelo pequeno espaço entre as barras da porta de madeira pesada. Daniel aperta os olhos para a escuridão. A cela é enorme. Na extremidade oposta, ele consegue divisar vultos adormecidos dos outros prisioneiros. Os homens parecem excepcionalmente grandes, e, quando Daniel dá um passo na direção deles, percebe que exalam um odor peculiar. Aqueles homens são quase animais selvagens.

Daniel se aproxima com cautela, tomando cuidado para não assustá-los. Mas, de repente, se dá conta de que seus companheiros não são homens. Aquilo não é uma cela. Um fluxo de adrenalina corre pelas suas veias e seu coração se encolhe de medo quando os vultos se revelam. Horrorizado, Daniel percebe que foi atirado na cova dos leões. O novo rei persa não só o havia condenado à morte; estava colocando um ponto final em qualquer conversa sobre o Deus de Abraão ao fazer com que o seu corpo fosse estraçalhado.

Daniel está prestes a se tornar um exemplo do que acontece no reino do novo soberano quando um homem ora. Ele será comido vivo. Sua carne será arrancada dos ossos enquanto seus gritos por ajuda ecoam pelos corredores. Crianças ouvirão histórias sobre esse dia para se lembrarem de que o persa é seu único rei.

Quando um dos leões enfim se mexe, Daniel fica totalmente imóvel. É um macho, seu rosto envolvido por uma juba indomável. O corpo do animal tem no mínimo 2,5 metros de comprimento, suas patas tão grandes quanto a cabeça de Daniel. Ele se levanta e anda lentamente em sua direção, as almofadas macias das magníficas patas não fazem o menor ruído contra o chão de pedra. Ele ruge - é o som da própria morte. Um instinto primitivo no cérebro de Daniel o instiga a dar meia-volta e correr. Mas ele não o obedece; fazer isso seria loucura. Uma lágrima se forma no canto do seu olho enquanto o leão se aproxima. Daniel deita no chão e enrola seu corpo em posição fetal, encolhendo-se o máximo possível. A umidade da cela em seu rosto lhe traz algum alívio enquanto ele aguarda a morte iminente. A essa altura, os outros leões também já acordaram. Daniel não faz ideia de quantos são. Poderíam ser três. Ou o dobro, talvez. Eles rugem e bufam ao se reunirem. Daniel aperta os olhos com força, sabendo que não há a menor chance de lutar contra aquelas feras.

Mas então ele se lembra de uma maneira.

- Senhor, ouça-me. Não fazemos preces ao Senhor por sermos justos, mas por conta da Sua grande misericórdia. - Ao orar, Daniel é invadido por uma sensação de tranquilidade. Ele percebe que Deus está lhe trazendo essa paz enquanto aguarda a morte. Então, prossegue: - Obrigado, Deus. Obrigado pela minha vida e pelas muitas alegrias que tive. Obrigado pelo Seu amor. E obrigado, mesmo agora, pelo que está prestes a acontecer. Pois sei que esta é Sua vontade e que um bem maior virá da minha morte.

Daniel se enrosca ainda mais. Os leões agora estão bem em cima dele. Daniel sabe como uma presa deve se sentir nas grandes planícies do deserto quando um predador se agiganta diante dela, preparando-se para um banquete. Seu desamparo é total. As lágrimas correm livremente pelo seu rosto, empoçando-se no chão. Daniel pensa em todas as pessoas que ama e que jamais tornará a ver. Pensa na exuberância do nascer do sol e no magnífico espetáculo das estrelas brilhando no céu noturno. Todas essas maravilhas da vida estão prestes a lhe ser tiradas neste momento de agonia e terror.

- Suas palavras são ouvidas - diz uma voz.

Lenta e cautelosamente, Daniel ergue a cabeça. As lágrimas escorrem pela sua face.

Um anjo está parado diante dele.

- Você é inocente aos olhos do Senhor - diz o anjo.

Nesse instante, todo o temor de Daniel desaparece. Suas lágrimas secam. Seu otimismo retorna. Ele desenrasca seu corpo e se levanta. Daniel fica parado diante dos leões, sem medo algum. O que tiver que ser, será. Os leões foram criados por Deus, assim como os homens. E Deus tem domínio sobre todas as Suas criaturas.

Daniel está pronto para o que der e vier.

Daniel e seu Deus assombram os sonhos do rei persa. Ele acorda em pânico, enxergando a verdade pela primeira vez, e sai às pressas da cama. Veste uma túnica e atravessa correndo o palácio em direção às masmorras. Está desesperado para salvar Daniel, sabendo que, se não o fizer, a ira de Deus irá se abater sobre o seu reino.

Mas o rei ainda não conhece o palácio. Ele corre por corredores iluminados por tochas, errando diversas vezes o caminho enquanto tenta encontrar a cova dos leões.

- O seu Deus é real - grita ele enquanto corre. - Ele irá salvá-lo.

Um longo corredor finalmente o conduz até as escadas que descem rumo às masmorras.

- Abram a porta - berra o novo rei na calada da noite. - Abram a porta!

Desnorteados, os guardas não sabem o que lhes causa mais medo: a ideia de abrir novamente as grades ou aquele estranho espetáculo, o rei persa correndo no meio da noite, determinado a salvar a vida de Daniel.

- Por favor - implora ele, orando sem pudor ao Deus de Daniel -, que assim seja, Senhor.

A porta de madeira é escancarada. O rei entra no recinto. Os guardas sacam suas espadas e fazem menção de acompanhá-lo, mas ele os dispensa com um gesto. Um deles lhe oferece uma tocha, que ele aceita. As chamas iluminam o corpo de um animal adormecido. Revelam também Daniel, igualmente adormecido, sua cabeça pousada de forma bastante confortável no peito do leão.

O persa observa a cena, incrédulo. Daniel está totalmente ileso. O rei aponta a tocha na direção de cada um dos leões - todos estão dormindo. Pasmo, ele se lembra das palavras que Daniel lhe dissera, citando o profeta Isaías: “Há um rei cuja mão direita eu tomo na minha, para subjugar as nações em seu caminho e despir outros reis de suas armaduras, para abrir as portas à sua frente, de modo que elas não tornem a se fechar.”

Daniel se levanta. O rei larga a tocha e o abraça. Então, os dois homens se ajoelham e começam a orar.

Os anos de exílio do povo israelita chegaram ao fim. O persa declara que os judeus estão livres para voltar a Jerusalém levando os tesouros saqueados de seu Templo para que ele possa ser reconstruído.
Quarenta mil israelitas logo começam a marchar em direção ao oeste, de volta à Terra Prometida. Enquanto a fileira de exilados segue rumo ao sol de fim de tarde, Daniel não se junta a eles. Aquela é a sua vida e seu lar agora. Ele e Azarias observam o povo judeu partir com os tesouros do Templo. Azarias suspira, satisfeito, mas Daniel está tenso. Percebendo a aflição de seu amigo, Azarias se volta para ele.

- Qual o problema? - pergunta.

Quando começa a explicar, Daniel sente que uma nova profecia lhe está sendo revelada: os israelitas têm enormes provações pela frente. Eles irão dar as costas para Deus novamente e ainda serão conquistados e escravizados por outras nações.

Daniel tem uma visão de uma grande besta - medonha, terrível e poderosíssima, com dentes de aço, que devorará toda a Terra. Mas tem também outra visão, do filho do homem, que virá para salvar o mundo, que receberá a glória, a autoridade e a soberania. Povos, nações e homens de todas as línguas o adorarão. Ele será chamado de Príncipe da Paz, Santo dos Santos, Senhor Deus Todo--Poderoso. Descendente direto de Davi, este homem, como seu ancestral, será chamado de Rei dos Judeus. Ele, no entanto, governará um reino muito diferente.

PARTE SEIS

ESPERANÇA

Prometida, mas são governados por um fantoche romano chamado Herodes. Este Rei dos Judeus vem de uma família convertida à fé judaica. Ele foi casado dez vezes, assassinou uma de suas esposas e em breve matará dois de seus filhos. Sofre de crises de paranóia, está há quarenta anos no poder e deve sua posição a ninguém menos que Júlio César. Os judeus vivem oprimidos, numa atmosfera constante de medo e tensão. No entanto, eles têm permissão para praticar sua religião sem temer serem perseguidos.

Os judeus aprenderam a ter paciência durante seus longos anos sob o jugo dos egípcios, babilônios, persas, gregos e, agora, romanos. De modo que pagam as abusivas taxas exigidas por Roma, sabendo que os soldados se darão por satisfeitos e os deixarão em paz. Eles aguardam, na esperança de que o Messias venha salvá-los. Anseiam pelo fim da pobreza e das mortes sem sentido pelas mãos de seus opressores.

A revolução começa de forma discreta, sem aviso, no pequeno vilarejo de Nazaré. José, um carpinteiro, está sentado em uma pequena sinagoga enquanto um ancião lê trechos da Torá, o livro sagrado dos israelitas. José é descendente direto do rei Davi, e sua vida gira em torno das Escrituras, do trabalho e da família. Geralmente dedica seu tempo na sinagoga a preces silenciosas e à meditação, assim como os homens ao seu redor, que vieram adorar a Deus e se perdem em sua comunhão com Ele.

Hoje, José também está perdido... mas de amor.

Uma treliça separa os homens das mulheres. José havia se sentado de propósito bem ao lado da divisória, para poder lançar olhares furtivos para sua futura esposa. O nome dela é Maria, a mulher mais linda que ele já viu na vida.

- Maria, minha noiva - sussurra José para si mesmo, tomando o cuidado de não murmurar as palavras alto o suficiente para os outros ouvirem. Elas causariam confusão na sinagoga. - Você tem os olhos mais bonitos do mundo. E o sorriso mais doce.

Maria, que é pura de coração e ora pelo fim da maldade e do pecado, assim como pela restauração da linhagem real de Davi, captura o olhar de José. Ela ruboriza e vira a cabeça para o outro lado. Então olha novamente para ele e seus olhares se cruzam outra vez. Ambos sentem que possuem uma ligação profunda.

Maria é a primeira a desviar os olhos. José se obriga a prestar atenção nas palavras do ancião, mas isso lhe parece quase impossível. Ele anseia loucamente pela maravilhosa vida que construirá com Maria assim que se tornarem marido e mulher. José não é um homem de grande visão; mesmo que fosse, ainda não poderia imaginar quanto suas vidas em breve se tornariam extraordinárias. Ele precisará de cada gota de sua fé em Deus para compreender o que está prestes a acontecer.
A poeira sopra pelas ruas. Ouve-se o som de pés marchando e o retinir de metal contra metal. Uma tropa de soldados segue pela estrada, com suas espadas, armaduras e escudos reluzindo sob o sol quente da Judeia. Eles vieram coletar os tributos para Roma e logo irão de casa em casa, saindo com fardos de tecido, artigos de couro, sacas de frutas e grãos frescos e até animais de pequeno porte.

É um dia como outro qualquer, e Maria está no meio de seu caminho quando um anjo do Senhor surge diante dela.

- Maria - diz ele com brandura -, eu sou Gabriel. Não tenha medo. O Senhor está com você, que foi abençoada por Ele. Logo você dará à luz um filho e o chamará de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

- Como pode ser? - pergunta ela. - Ainda sou virgem.

- O Espírito Santo virá sobre você. E o poder do Altíssimo a cobrirá com Sua sombra.

Maria pressiona as mãos contra o próprio ventre, como se já conseguisse sentir uma energia ali dentro.

- Sou uma serva do Senhor. Que aconteça comigo conforme suas palavras -diz ela a Gabriel.

Depois que o anjo desaparece, ela corre as pontas do dedos pelo seu abdome.

- Jesus - sussurra. - Eu o chamarei de Jesus.
Maria esconde sua gravidez pelo máximo de tempo possível, sem saber como ex-plicá-la a José. Durante os primeiros meses, ela vai morar na região montanhosa da Judeia com sua prima Isabel, que também está grávida e será mãe de João Batista. Quando retorna, José percebe que ela carrega um filho, pois isso já está óbvio.

- Conte-me o que aconteceu, Maria. Por favor.

- Aqui, não - diz ela com lágrimas nos olhos.

- Onde, então?

Os dois são proibidos de ficar sozinhos antes do casamento, mas Maria não tem escolha. Ela leva José até o curral de ovelhas de seu pai e fecha a porta. Levantando a túnica o mínimo possível, ela revela seu ventre intumescido e confirma as suspeitas de José. Ele aperta os olhos com força.

- Maria? Quem fez isso com você? O que você fez? - Ele está furioso, se sente traído, confuso, tolo.

- José, deixe-me explicar. - Maria se esforça para manter o controle. Nunca tinha visto José daquela forma. Normalmente, ele é sereno e forte; agora, está à beira das lágrimas. Ela pega suas mãos calejadas. Está perdidamente apaixonada por aquele homem, de modo que sofre ao ver seu coração partido daquele jeito. Maria o obriga a olhar dentro dos seus olhos. O futuro dos dois depende das palavras que está prestes a dizer... assim como o futuro de toda a humanidade. - José - sussurra ela. - Não estive com ninguém. Eu juro. Sou virgem. Isto é obra de Deus. Um anjo do Senhor surgiu para mim e me disse que eu ficaria grávida. Esta criança será o Messias.

José se limita a encará-la, horrorizado.

- Estou falando a verdade.

José se afasta e começa a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado.

Maria torna a estender a mão para ele.

- Meu amor, por favor, acredite em mim. Estou dizendo a verdade.

- Eu quero acreditar - diz ele baixinho. - Mas Deus não enviaria o Messias para pessoas como nós. - Ele abre a porta e sai do curral, sem olhar para trás. É só então que aquele homem grande como uma montanha se permite chorar.
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Esse nome signifi o Messias como un libertará da opressãi em mente. Ele contii Jesus. E salvará não í
José tem uma casa para construir nas fronteiras da cidade. Mas isso pode esperar. Ele vaga sozinho pelas ruas de Nazaré, falando consigo mesmo:

- O que vamos dizer? O que contaremos aos pais dela? Está claro que devo rejeitá-la. Não tenho escolha. - Mas a dor que acompanha a simples ideia de uma vida sem Maria logo se instala em seu peito. O sofrimento é insustentável, quase o impede de respirar. A dura verdade é que, se José abandonar Maria, tanto ela quanto a criança se tornarão párias. Serão obrigadas a viver nas ruas, como mendigos entregues à própria sorte. - Deus, venha em meu auxílio - ora José. - Ajude-me a encontrar uma maneira de fazer a coisa certa.

José se recosta em um muro, imerso em pensamentos. As pessoas olham para ele, intrigadas. Ele não se importa. José deixa sua cabeça cair e seus ombros se encurvarem. Põe-se a orar de olhos fechados e entra em um estado onírico.

- José - diz uma voz. O anjo Gabriel surge, imponente, diante dele, o capuz de sua túnica caído em volta do rosto suave e delicado. Os olhos parecem fitar diretamente a alma de José. Gabriel pega as mãos dele nas suas. - Tome Maria como sua esposa - ordena. - Ela está dizendo a verdade. Maria é pura. A criança que ela carrega vem de Deus.

Estupefato, José admira a beleza divina do anjo. O fardo que pesava sobre seu coração desaparece. Ele seca uma lágrima de alegria. Em seguida, já não consegue mais ver Gabriel. José desperta do seu sonho e sai correndo em direção à casa de Maria para lhe dizer que acredita nela. Eles estarão sozinhos contra o resto do mundo. É assim que vai ser. O bebê deles se chamará Jesus.

Esse nome significa “Deus liberta” ou “Deus salva”. Muitos em Israel imaginam o Messias como um rei conquistador, nos moldes de Davi, um salvador que os libertará da opressão romana. Deus, no entanto, tem algo muito mais grandioso em mente. Ele continuará sendo Deus, mas também se tornará humano através de Jesus. E salvará não apenas Israel, mas o mundo inteiro.

De tempos em tempos, os romanos exigem que seja realizado um censo. Inde-pendentemente de onde vivam no momento, os cidadãos devem voltar à cidade de origem de sua família para serem contados. Agora casados e felizes, José e Maria amarram seus pertences no lombo de um jumento e partem para Belém, cidade natal do rei Davi. O sol ainda não nasceu, e o ar está frio. A gravidez de Maria está avançada demais para que ela viaje os 130 quilômetros a pé, então José a ajuda a montar no jumento. Normalmente, é uma viagem que dura quatro dias, mas, por conta da ameaça de ladrões no trajeto, José planeja seguir uma rota mais lenta e segura que acrescentará mais três dias à jornada. Ele se inclina para beijar a barriga de Maria, agarra as rédeas do animal e os conduz rumo à estrada poeirenta à beira da cidade.

Assim que atravessam uma pequena colina e deixam Nazaré para trás, eles deparam com uma visão tão extraordinária que os olhos de José se arregalam. É a estrela mais brilhante que ele já viu na vida, reluzindo límpida e baixa no céu. Seu brilho é como uma lamparina que ilumina o caminho. José aperta a mão de Maria. Este é um sinal de que Deus está com eles.
Maria e José não são os únicos a admirar a estrela. Nos arredores da distante Babilônia, um príncipe sábio e astrólogo chamado Baltazar lança seu olhar para a incrível luz celestial que paira sobre Jerusalém. Ele possui uma riqueza inco-mensurável; suas vestes são feitas da mais fina seda. Os soldados à sua volta estão ali para protegê-lo dos bandidos em sua longa jornada. Baltazar vem seguindo a estrela desde a Pérsia, atravessando montanhas em seu camelo até chegar à Babilônia. Eles viajam à noite e dormem durante o dia, para seguir a estrela com mais facilidade.

Baltazar é um homem erudito, que estudou as profecias de muitas crenças e acredita que aquela estrela é um sinal de Deus. A visão incomum logo entedia seus acompanhantes, que a consideram um simples fenômeno cósmico. Baltazar a analisa detidamente todas as noites, certo de que duas grandes forças estão se unindo diante dos seus olhos: em primeiro lugar, o poder de Deus sobre os céus; em segundo, as palavras dos profetas Dele, que são igualmente poderosas.

- Uma estrela virá de Jacó - diz Baltazar, recitando o relato de Moisés no Livro dos Números. - E um cetro se erguerá de Israel.

Baltazar não tem dúvidas de que aquela estrela anuncia a chegada de um grande líder. Sente-se abençoado por estar vivo para testemunhar uma ocasião tão importante.

- Talvez seja mesmo verdade. Talvez os profetas de Israel tivessem razão - diz o sábio, estupefato.

Ele reúne seus homens às pressas, monta em seu camelo e segue noite adentro. Seu destino é Jerusalém. Ele está ansioso para dar a Boa-nova.
Baltazar, no entanto, está trazendo a Boa-nova para o único homem em Israel que não quer ouvi-la: o rei Herodes. O homem que governa Israel em nome dos romanos, dominando seus compatriotas judeus com mão de ferro, se agarra ao poder com um desespero paranoico. Até os menores rumores sobre tentativas de tomar seu trono são imediatamente combatidos. Toda e qualquer dissidência é esmagada. Todos os dissidentes são mortos.

Ele agora vaga pelo seu palácio, caminhando por um corredor de mármore e ouro ornado com suntuosas tapeçarias. Herodes usa sandálias de veludo e arrasta os pés pelo chão. Cada passo lhe causa uma dor extrema. Ele respira com dificuldade e sua careca brilha de suor.

O capitão da guarda de Herodes o segue de perto, tomando cuidado para se manter atrás do rei, que se move devagar. Andar ao seu lado poderia ser visto como uma tentativa de se colocar em posição de igualdade, o que enfurecería Herodes e talvez arruinasse a carreira do capitão.

- Você me traz notícias? - pergunta Herodes, precisando recuperar o fôlego entre cada palavra.

- Mais problemas por parte dos fanáticos tementes a Deus, infelizmente -responde o capitão.

- Certo - diz Herodes, proferindo uma sentença de morte: - Se eles amam tanto assim o seu Deus, envie-os para junto Dele.
Maria e José estão cientes da crueldade de Herodes - e do fato de que sua viagem a Belém os deixará a apenas oito quilômetros do palácio real. A noite está prestes a cair. José monta acampamento na encosta árida de uma colina, embora ainda haja luz do dia suficiente para viajar mais alguns quilômetros.

Ainda posso continuar - insiste Maria, com o rosto vincado de cansaço e desconforto depois de mais um dia montada no jumento.

José sorri e acrescenta mais lenha à fogueira que está preparando.

- Você precisa repousar. Também estou cansado, assim como o jumento. Vamos parar aqui.

Um jovem se aproxima, carregando um feixe de lenha. Entrega a madeira a José em silêncio, que aceita a oferta enquanto o pai do rapaz pastoreia um rebanho de ovelhas ao longe. José acena com a cabeça para agradecer ao pastor, e o jovem se afasta correndo.

A jornada deles foi repleta de gentilezas como essa. Tanto Maria quanto José estão começando a compreender as implicações do fato de que, em breve, ela será mãe do Messias e será considerada abençoada por gerações e gerações.

Ela se encolhe diante do fogo enquanto um vendaval castiga a encosta da colina. José se senta ao seu lado, cobrindo-a com uma manta grossa. Ela adormece, e a grande estrela torna a surgir no céu noturno. José passará a noite quase inteira acordado, certificando-se de que o fogo continue forte e mantenha sua amada e o filho que ela carrega em seu ventre aquecidos.
Herodes olha para a noite que começa a cair. Ele vê aquela estrela incomum brilhar ao leste, mas não lhe dá importância até que Baltazar, vestido de forma suntuosa, é escoltado até a câmara real.

- Então, o que o traz aqui, ó príncipe? - pergunta o rei, sua voz ecoando dos pilares de mármore.

- Gostaria apenas de saber se há algum pronunciamento oficial sobre esses sinais - pergunta Baltazar, tentando soar o mais respeitoso possível. Ele sabe que Herodes tem a reputação de ser extremamente perverso.

Herodes encara seu convidado tentando decidir qual a melhor maneira de lidar com ele.

- Que sinais? - pergunta.

- A estrela. A nova estrela que surgiu a leste. Eu tenho acompanhado sua evolução. A estrela é sinal de que um grande homem está por vir.

Herodes lança um olhar fulminante para ele. Sem querer despertar a famosa ira do governante, Baltazar na mesma hora pede que seus homens estendam seus elaborados mapas astrais no chão de mármore. Então, se põe a explicar como foi conduzido pela estrela até Jerusalém.

Mas Herodes não lhe dá ouvidos e se limita a encarar firme Baltazar.

- Todas as semanas - diz o rei, por fim - alguém afirma ser o escolhido. Mas geralmente essas pessoas não passam de loucos, tão fáceis de ignorar quanto de silenciar. Está me dizendo que devo levar a sério seus mapas e sua crença em um escolhido?

- Sim, Vossa Majestade, e muito - insiste Baltazar, tornando a gesticular para que seus homens se aproximem. Desta vez, eles carregam presentes em seus braços. - Trazemos para este escolhido presentes dignos de um rei.

Isso chama a atenção do governante.

- Um rei?

- Sim, Vossa Majestade. Este homem se tornará o Rei dos Judeus.

Um silêncio desconfortável cai sobre o recinto, a ponto de ser possível ouvir o rastejar de uma cobra. Baltazar percebe que acabou de falar algo que não devia.

Herodes ergue as sobrancelhas.

- Ah, sim? - diz ele, seus lábios frisados.

- Sim, Vossa Majestade. Isto é obra de Deus. Foi profetizado. Os céus anunciam a chegada Dele.

Herodes abre um sorriso caloroso, fingindo uma religiosidade que não possui.

- Um anúncio dos céus? É mesmo? Se é assim, devemos providenciar imediatamente uma homenagem.

Herodes convoca o capitão da guarda e sussurra em seu ouvido.

- Traga-me os sacerdotes e escribas. Preciso falar com eles. - Então ele dispensa Baltazar com um gesto, caminha até um terraço e lança seu olhar sobre Jerusalém. Ali, em meio à escuridão e à desordem, a estrela brilha.

Herodes pragueja.

- Eu sou e sempre serei o Rei dos Judeus - promete a si mesmo. - E não abdicarei do meu trono.
José acorda Maria de seu sono profundo ainda no meio da noite e carrega o jumento. Ele anda depressa, conduzindo o animal encosta abaixo.

Pouco depois, Maria solta um gemido.

- Está quase na hora, José - diz ela.

- Estamos chegando a Belém. Vou me apressar - responde ele, apertando o passo.

Maria está em agonia, abraçando o próprio ventre e tentando não gritar de dor. Para sua surpresa, as ruas de Belém estão abarrotadas de gente, todas procurando um lugar para dormir. Todos haviam viajado até lá para o censo. O jovem casal olha à sua volta, perplexo diante da quantidade de pessoas.

- São milhares e milhares - exclama José. - Por que eles obrigam todos a se registrarem ao mesmo tempo? - Ele puxa o animal, levando-o até debaixo de uma série de arcos, onde uma multidão já está reunida. Os dedos rígidos e gelados de Maria tremem ao se fechar em volta do braço dele.

- José?

Ele fica calado.

- José!

Há desespero na voz dela. O bebê está nascendo.

- Eu vou encontrar um lugar - responde José.

Ele deixa Maria e o jumento ali e sai correndo, em busca de algum local aquecido e reservado em que ela possa dar à luz o bebê.

Mas não existe nada parecido em Belém naquela noite. José recebe uma recusa atrás da outra. Os donos das hospedarias são gentis, porém firmes: não há abrigo em Belém para Maria e José.
Os pastores tomam conta de seus rebanhos, esperando pelo momento em que as nuvens se abrirão para revelar a estrela brilhante que eles se habituaram a ver todas as noites.

E lá está ela.

As ovelhas se acalmam e os pastores, tremendo por conta da umidade noturna, se recostam para admirar a estrela, perguntando-se o que ela poderia significar.

Herodes também está analisando a estrela, embora não com a mesma sensação de paz dos pastores. Graças ao alerta de Baltazar, ele agora exige ver tudo o que foi escrito sobre o tal Rei dos Judeus que fora profetizado. Meia dúzia de sacerdotes e escribas folheia alucinadamente páginas e mais páginas de textos sagrados na biblioteca do Templo enquanto Herodes anda de um lado para o outro. Seu rosto coberto de pústulas está vermelho de raiva.

- Onde está? - grita ele sem parar. - Onde está?

Aflitos, os escribas trazem pilhas de pergaminhos das prateleiras, o suor escorrendo de seus rostos.

- Aqui! - grita um sacerdote com empolgação. - No Livro de Miqueias.

- Leia - ordena Herodes.

- “Ele alimentará seu rebanho com a força de Deus, e eles viverão em segurança.”

- Isso é tudo? - pergunta Herodes, intrigado.

Outro sacerdote encontra uma referência diferente nas Escrituras.

- Não, Vossa Majestade. Tem mais. Veja esta passagem de Isaías: “E então o próprio Deus dará um sinal. A virgem conceberá e dará à luz um filho, que irá chamar de Emanuel.”

Um sacerdote mais velho, perdendo de repente o medo de falar, acrescenta mais uma frase: “E ele será chamado de Maravilhoso Conselheiro, Deus Todo-- Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz.”

Quando termina de ler, o sacerdote ergue os olhos para Herodes, que o encara firme.

- Sou eu quem trago a paz - rosna o soberano. - Vocês acham que uma criança poderia fazer isso?

Silêncio.

Então, o sacerdote mais velho pigarreia.

- Está escrito - diz ele, solenemente.

Herodes parte para cima do homem, agarrando-o pela túnica.

- Ah, está? É mesmo? Bem, e por acaso está escrito onde este príncipe poderoso, a resposta para todos os nossos problemas, irá nascer?

O sacerdote mais velho continua imperturbável.

- Em Belém. Será em Belém. Segundo Miqueias: “Belém... de você virá um governante que será o pastor do meu povo, Israel...”

O capitão da guarda se aproxima e arrasta o sacerdote dali. O velho, no entanto, se recusa a ser silenciado. Mesmo enquanto é expulso da biblioteca do Templo, prestes a enfrentar a morte, ele continua a recitar a profecia:

- “Israel estará abandonado até o momento em que aquela que sofre as dores do parto der à luz. E o restante dos seus irmãos retornará para se juntar aos israelitas. Ele se erguerá e conduzirá seu rebanho com a força do Senhor.”

O sacerdote então conclui:

- “E sua grandeza chegará aos confins da Terra.”

De repente, o J obvio que Herodl

- O senhor te| dos Magos.

Maria entra em trabalho de parto. Tudo o que lhe importa é trazer seu filho em segurança para o mundo. José ainda não encontrou um lugar para ela dar à luz. Um cidadão de Belém se apieda do jovem casal e os conduz até uma pequena caverna usada como celeiro, que cheira a excrementos de animais e grãos. Ovelhas e vacas se amontoam no pequeno espaço. José e Maria entram ali às pressas.

O bebê está nascendo.

Herodes deixa a biblioteca do Templo e volta ao palácio. As palavras dos sacerdotes ecoam em seus ouvidos enquanto ele atravessa o pátio. Como se a visita de Baltazar tivesse desencadeado uma longa série de más notícias, Herodes fica chocado ao ver outro grupo chegar ao palácio para prestar seus respeitos. Dois soberanos núbios, vestindo túnicas e coroas ornamentadas, apontam para a estrela.

- Mais deles - balbucia Herodes. - O que está havendo? O mundo inteiro está sabendo disso? Essas pessoas vêm ao meu país, ao meu palácio, e me perguntam sobre o rei que está vindo tomar o meu lugar.

A mente de Herodes, no entanto, é ardilosa. Quando se aproxima dos Magos, seu tom de voz e a expressão em seu rosto já estão bem diferentes.

- Meus senhores - diz ele com doçura. - Sejam bem-vindos. Tenho uma notícia extraordinária para lhes dar: o rei menino que estão procurando nascerá na cidade de Belém. - Ele abre um largo sorriso. - Quando o encontrarem, por favor, venham me dizer onde ele está para que eu possa ir pessoalmente prestar minha homenagem. Mais do que qualquer outro, é minha obrigação fazê-lo.

De repente, o rei tosse com força. Sangue sai da sua boca. Seu rosto fica lívido. É óbvio que Herodes está muito doente. Uma infecção devasta seu corpo.

- O senhor tem certeza de que pode viajar nessas condições? - pergunta um dos Magos.

- Sim - responde Herodes com gravidade, limpando a boca com as costas da mão. - É claro que posso.

José ergue o pequeno recém-nascido em direção à luz. Um sorriso maravilhado se espalha pelo seu rosto, pois ele nunca havia sentido tamanha alegria. Ele entrega a criança a Maria. Quando segura seu filho, o menino Jesus, o rosto dela, antes cansado e abatido, fica radiante de alegria.

Uma multidão começa a se reunir. A estrela havia conduzido muitas pessoas àquele local. A mesma intervenção celestial que levou Maria e José a Belém também havia espalhado a notícia para aqueles que mais precisam ouvi-la: moradores da região e das cidades vizinhas, pastores e pessoas comuns. São essas pessoas que Jesus veio salvar e, para elas, estar presentes naquele pequeno celeiro naquela noite fria é um momento único, o maior desde o início dos tempos. Elas estão testemunhando a aurora de uma nova era - o surgimento de uma nova aliança entre Deus e a humanidade.

Entre o palácio de Herodes e Belém, o príncipe Baltazar, montado em um camelo adornado, cumprimenta os sábios núbios e passa a seguir lado a lado com eles. O grupo cavalga seus camelos com elegância, extasiado diante da perspectiva de conhecer este novo grande salvador. Nenhum deles compreende em sua totalidade quem é Jesus e o que ele representa, mas, naquela noite, no coração de cada um deles, Belém parece ser o centro do Universo.

Na caverna, a multidão oferece preces e pequenos presentes para a criança. Alguns se curvam, outros choram de alegria. Um jovem pastor - o mesmo que oferecera a José um feixe de lenha poucas horas atrás - dá um passo à frente para lhe entregar algo muito mais precioso: um cordeiro.

José fica agradecido, mas a verdade é que mal dá atenção ao presente. Ele sorri para Maria. Ela está tão fascinada pelo filho que não consegue parar de olhar para Jesus. Nunca viu algo tão precioso ou capaz de encher seu coração de amor com tal intensidade.

Um reflexo brilha perto da gruta e chama a atenção de José. O sorriso dele desaparece. O aglomerado de camponeses, crianças e pastores se separa enquanto uma comitiva real abre passagem de forma silenciosa e eficiente. A multidão recua, os olhos baixados em sinal de deferência.

José fica receoso. A última coisa que quer é ter problemas.

Baltazar dá um passo à frente. Ele veste suas roupas mais requintadas e usa uma coroa de ouro. Contudo, não se comporta de forma majestosa.

- É com humildade que me apresento - balbucia ele, ajoelhando-se. Ele traz presentes para o recém-nascido. Baltazar olha para Maria e lhe diz: - Minha senhora, creio que seu filho seja o escolhido para governar o seu povo. - José percebe que deveria se curvar diante de Baltazar, mas, antes que possa fazê-lo, o príncipe se prostra no chão. - Qual é o nome dele? - pergunta a Maria.

Maria beija a testa da criança com carinho.

- Jesus - diz ela a Baltazar, surpresa ao ver que os núbios também vieram para ver a criança. - O nome dele é Jesus. - Todos aqueles reis magníficos se prostram no chão sujo diante do recém-nascido.

A multidão começa a se dispersar, sumindo na escuridão da noite. Os Magos não retornam para contar a Herodes o que viram, ou que encontraram Jesus, pois são informados em um sonho das más intenções do soberano. Eles voltam a suas respectivas nações por uma rota diferente.

Exaustos, Maria e José ficam sozinhos pela primeira vez desde o nascimento de Jesus. Os animais estão adormecidos em seus estábulos, e logo os pais de primeira viagem também caem em um sono profundo. O bebê está embrulhado e pousado sobre uma manjedoura, que por sua vez descansa sobre um monte de feno. José está deitado no chão ao lado dela, seus músculos doloridos por conta dos longos dias de viagem. É bom descansar um pouco, e melhor ainda saber que seu filho veio ao mundo em segurança. Pela manhã, poderão se apresentar para o censo. Em breve voltarão para seu lar em Nazaré, onde o trabalho de José como carpinteiro o aguarda.

Durante alguns dias eles ficam na gruta, recobrando as forças. Então, certa noite, José tem um sonho: ouve uma criança gritando e Maria chamando seu nome. Olha para baixo e percebe que seus pés estão encharcados. Mas não de água. Sangue se espalha pelas ruas. Logo, o sangue corre torrencialmente pela cidade, como uma inundação. José luta para se manter de pé. O grito que era de uma só criança se torna o lamento de centenas delas. José vê os soldados de Herodes. Ele chama por Jesus. Ele não pode ser levado.

José acorda em pânico. O sonho lhe pareceu tão real que ele fica pasmo ao encontrar Maria e Jesus adormecidos, na mais completa paz. José, no entanto, sabe que as aparências enganam. Ele é um homem diferente desde que foi visitado pelo anjo Gabriel. Passara a ter uma crença muito mais profunda nas palavras dos profetas depois que se tornou importante no cumprimento da profecia. Ele sabe que Deus fala aos profetas de várias maneiras, inclusive através de sonhos.

Tem absoluta certeza de que o Senhor lhe trouxe aquela visão e sabe o que deve fazer em seguida.

Ele se levanta e junta os seus pertences. Quando termina de arrumar tudo para a viagem, acorda Maria do sono de que ela tanto necessita. José não percebe quanto parece estar em pânico, ou a maneira estranha como se comporta. Maria olha para ele, sem fazer ideia do que terá acontecido ao seu marido, sempre tão calmo e sereno.

José não tem tempo de explicar.

- Precisamos sair imediatamente daqui. Apenas confie em mim, Maria.

Ela puxa Jesus para si, abraçando-o com força, então assente para José e sai correndo da gruta.

As mesmas pessoas que haviam visitado Jesus em seu nascimento vêm ao auxílio de Maria e José. O fato de eles estarem partindo de Belém não passa despercebido e, mesmo na calada da noite, estranhos vêm lhes trazer comida para a viagem. Esses mesmos estranhos oram por eles, fazendo questão de olhar pela última vez aquele bebê tão especial antes que ele desapareça.

Logo, Maria e José chegam aos limites da cidade. Perigo e incerteza os aguardam pelo caminho. Eles se viram para lançar um último olhar para Belém. Aquela pequena cidade sempre terá um lugar especial em seus corações, por mais que tenham passado apenas alguns dias ali.

Olhando para o leste, Maria e José veem a grande estrela brilhar no céu como uma bússola. Poucos instantes depois, já não conseguem ver Belém, o que é uma boa coisa - eles fugiram bem a tempo.
Aurora. Os soldados de Herodes chegam à cidade. O capitão da guarda, um homem que nunca se cansa de executar as barbaridades ordenadas pelo seu soberano, lidera o ataque. Equipes de soldados se separam e vasculham as ruas da cidade.

Como não obteve dos Magos a exata localização de Jesus, nem sequer uma descrição de seus pais, Herodes envia seu exército a Belém para exterminar todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de idade. Ele acredita que somente assim poderá garantir que o bebê correto seja assassinado.

Casas são invadidas. Soldados arrancam crianças dos braços de suas mães. A matança é desumana. Os soldados de Herodes ceifam os bebês sem titubear. Ninguém conta quantos inocentes são massacrados durante o expurgo, mas a única criança que Herodes quer ver morta já havia escapado.
José executa um plano audacioso para salvar Jesus: ele irá atravessar um vasto deserto para levar sua família ao Egito. José sabe que é uma estratégia arriscada; nada lhe garante que o faraó será mais bondoso do que Herodes. Mas os romanos também haviam ocupado aquela região, sendo que um grande número de judeus que comungam da mesma fé voltaram para lá, tornando-a a segunda maior comunidade judaica fora de Israel. Ele está refazendo os passos de Moisés na direção oposta: partindo da Terra Prometida e cruzando o grande deserto pelo qual Moisés vagou durante 40 anos para finalmente chegar ao Egito.

José, no entanto, pretende voltar para casa algum dia. Ele ama Nazaré e é lá que gostaria de criar Jesus. Mas sua jovem família só poderá retornar depois que Herodes estiver morto ou não for mais rei - o que acontecer primeiro.

Eles se estabelecem no Egito e aguardam. José ora por notícias de que pode voltar para casa em segurança. Não precisará esperar muito.

Herodes levara uma vida de devassidão e agora paga o preço por isso. Seu rosto está inchado e coberto de feridas purulentas; suas juntas estão inflamadas e seu fígado não funciona bem, tornando difícil para ele comer ou beber sem sentir desconforto; a má circulação causou inchaços e gangrenas nas extremidades de suas pernas, praticamente o impossibilitando de andar. Sua mente também fraqueja. Ele fica deitado na cama, esperando pela morte. Perto dele há uma mesa repleta de pilões, almofarizes, ervas e cabeças de cobras. O médico de Herodes o faz beber de um jarro contendo uma poção destinada a aliviar suas dores. O rei deixa sua cabeça cair para um lado. Em poucos instantes, estará prestando explicações diante de Deus.
Décadas de ressentimento contra Herodes por conta da maneira como tratava os sacerdotes, da sua subserviência a Roma, dos impostos excessivos e da brutalidade dispensada aos seus súditos logo vêm à tona. Uma ira coletiva toma conta de Jerusalém. Suas estátuas são derrubadas. Suas imagens são vandalizadas. O reino de Herodes é dividido entre seus três filhos, que não conseguem controlar a nação com a mão de ferro do pai. A anarquia se instaura. Três mil peregrinos que tentam impedir que um templo sagrado seja saqueado são assassinados pelas autoridades. Esses acontecimentos geram protestos e revoltas, o que faz com que Roma envie suas próprias tropas para restabelecer a ordem.

Os romanos possuem uma tradição de permitir que os povos sob o seu domínio sigam suas próprias religiões, mas insubordinação política é algo que não toleram. A pena para os dissidentes é a crucificação. Um homem é atado a um poste alto com uma trave horizontal. Seus braços são estendidos ao longo da trave e amarrados ali. Seus pés são pregados à tora vertical. Em alguns casos, pregos também são fincados nas mãos do condenado, para tornar a punição mais dolorosa.

Quando Roma finalmente consegue sufocar os distúrbios trazidos pela morte de Herodes, mais de dois mil judeus já foram crucificados. Os vultos de seus orpos pairam sobre as colinas ao redor da cidade como um alerta para qualquer um que possa estar cogitando se rebelar. A paciência de Roma com os filhos de Herodes está prestes a se esgotar - eles precisam assumir o controle de Jerusalém.

- Oh, meu Deus! O que eles fizeram? - fala baixinho Maria. Ela está mais afli-:a do que nunca. Lança um olhar para trás, em direção ao Egito, imaginando se não seria melhor voltar e esperar mais alguns anos antes de retornar à sua cidade catai. Maria puxa o jovem Jesus para perto de si e tenta cobrir-lhe os olhos com seu xale. Eles seguem em frente.

- Devemos confiar em Deus - diz Maria com um suspiro. - Ele depositou sua confiança em nós.

Enquanto segue montado no jumento com sua mãe, Jesus fica fascinado ao ver todos aqueles corpos pendurados nas cruzes. A jornada que tem pela frente não lhe causa medo algum. É dominado por um sentimento de compaixão e serenidade. José, por sua vez, não está tão tranquilo. Ele instiga o jumento, lançando um olhar sombrio por todo o caminho.

A família retorna para Nazaré, a pacata cidade na região periférica de Israel ; onhecida como Galileia. Os pais sabem que Jesus foi escolhido por Deus para cazer algo especial. Seu prodigioso conhecimento das Escrituras às vezes pode ser _m pouco perturbador, por ser de tal forma complexo e abrangente para alguém .ão jovem, mas, fora isso, ele se comporta como um menino comum. Cumpre suas .òrigações em casa. Ajuda o pai no trabalho. Ama os animais. Passa uma parte do dia com Maria, sua mãe adorada, que carregou em seu ventre o Filho de Deus e sabe que sua vida será extraordinária. Às vezes, ele é uma criança tão normal cue é difícil para Maria e José se lembrarem de que um anjo certa vez lhes disse que de é o profetizado Rei dos Judeus.

Quando Jesus completa 12 anos, José decide que é chegada a hora de aprofundar a educação de seu filho. Assim como no passado havia colocado Maria em cima de um jumento para a longa viagem até Belém, ele agora faz o mesmo com Jesus e a esposa para uma jornada igualmente árdua com destino a Jerusalém. Mesmo -.o auge da opressão e do desespero trazidos pelos romanos, a fé em Deus cresce a cada dia em Israel. O povo ainda encontra tempo para exaltar a grandeza do Senhor. Agora, mais do que nunca, precisam de rituais e cerimônias de adoração para aliviar o fardo sobre seus ombros.

É por isso que José leva sua família a Jerusalém. Eles viajam até o grande Templo para a cerimônia da Páscoa. É o maior festival do ano na Judeia, e milhares de peregrinos que compartilham da mesma fé vão até a cidade todos os anos para celebrá-lo.

O rosto de Maria se abre em um largo sorriso enquanto eles atravessam a grande e milenar cidade, antigo lar de heróis do seu povo, como Davi, Salomão e Daniel. As ruas estreitas e as grandes praças estão cheias de gente, e tanto ela quanto José se deixam levar pela euforia.

E assim é durante toda a Páscoa: uma alegria atrás da outra. É o momento mais feliz deles como família. Porém, assim que o feriado acaba e eles se preparam para voltar para casa, algo terrível acontece: Jesus desaparece.

- Não consigo vê-lo - exclama Maria. Em um instante eles estão arrumando suas coisas para ir embora; no instante seguinte, Jesus não está mais ali.

- Eu também não! - diz José, vasculhando freneticamente a multidão em busca de algum sinal de Jesus.

Seu filho havia sumido; poderia estar em qualquer lugar. Maria e José têm motivos reais para se preocupar, afinal, apenas uma dúzia de anos atrás Jesus estava sendo caçado pelos soldados de Herodes.

Maria observa o rosto de cada criança que vê. Há tantas delas! Nenhuma é Jesus.

- Por favor, Deus - ora ela -, por favor. Dê-me um sinal. Cuide do meu filho. Diga a ele que eu estou aqui, que irei encontrá-lo.

Maria vê um grupo de rapazes carregando pombas e ovelhas até um local em que animais estão sendo vendidos.

- Animais - grita Maria para José. - Ele adora animais!

Eles seguem os meninos e logo estão dentro do Templo. Maria imagina ter visto Jesus e corre até um rapazinho que segura uma pomba, mas, quando o vira, descobre que não é o seu filho. A criança se assusta e larga a ave. Ela sai voando em direção ao centro do grande Templo. Os olhos de Maria seguem o trajeto da pomba. A ave delicada aterrissa perto de um círculo de pessoas, que ouvem atentas um sermão. São tantos os ouvintes que Maria e José não conseguem ver quem fala.

- Alguém está pregando - diz José para a esposa. - Jesus iria gostar de ouvir as palavras de um professor sábio e culto.

Maria e José correm até a beira do círculo no momento em que um velho sacerdote questiona o pregador encoberto pela multidão.

- O que Deus fala sobre a justiça? - pergunta o sacerdote.

Eles ouvem uma voz muito familiar dar a resposta e começam a abrir caminho até o centro da aglomeração.

- Está escrito em Isaías - diz a voz jovial do pregador - que um rei e seus líderes devem governar com justiça. Eles devem ser um abrigo em meio ao vendaval. um córrego no deserto e uma rocha que oferece sombra do calor do sol.

Maria e José abrem caminho até o centro do círculo. Quando lá chegam, ficam petrificados. Parado bem no meio de todos está Jesus. Não parece notar a presença dos pais enquanto continua seu sermão.

- Então todos os que tiverem olhos irão abri-los e ver, e todos os que tiverem ouvidos escutarão - diz o filho de Maria e José.

- Jesus - fala Maria, irritada, pois, mesmo sabendo que seu filho não é uma criança comum, ele quase a matou de susto.

Jesus se vira e abre um sorriso tranquilizador para a mãe. Ele fala a palavra Mãe de forma quase imperceptível. E quando olha dentro dos olhos dele, Maria vê uma profundidade que nunca havia notado antes. Aqueles não são os olhos de uma criança. São os olhos de alguém que testemunhou o início dos tempos e de tudo que transcorreu desde então. Diante dessa visão, Maria é invadida por uma sensação de humildade.

Mas ela também é a mãe de Jesus. E, aliviada por encontrá-lo, sua raiva desaparece.

- Onde você estava? Não conseguíamos encontrá-lo em nenhuma parte. Tem noção de como ficamos preocupados? Estávamos procurando por você como dois loucos!

- Por que estavam procurando por mim? - responde ele com tranquilidade. - Não sabiam que eu só podia estar na casa do meu Pai?

Maria torna a fitar os olhos de Jesus. Ela hesita por alguns instantes, sem saber como reagir. Então toma as mãos dele e as beija, em um gesto instintivo de devoção. Em seguida, corre os olhos pelos rostos dos presentes e percebe que a sabedoria e a maturidade do seu filho também tocaram seus corações. Oh, meu filho, você já não é uma criança. Como posso levá-lo daqui? Este é o seu lugar. Essas pessoas precisam de você, pensa Maria. Mas não diz nada. Em vez disso, beija o rosto de Jesus e se afasta para que ele possa terminar de transmitir sua mensagem. José está ao lado dela, maravilhado com o filho.

O velho sacerdote toma isso como um sinal de que deve dar prosseguimento às suas perguntas.

- Então, como saberemos que a justiça está por vir?

- Malaquias - responde Jesus. - Eu enviarei o profeta Elias antes do grande e temível dia da chegada do Senhor.

O velho sacerdote fica impressionado com a resposta sucinta e imediata. Admirado, olha primeiro para Jesus e depois para José.

- Você é professor? - pergunta o sacerdote.

José não pode deixar de sorrir.

- Não, senhor. Sou carpinteiro.

Após o episódio no Templo, Jesus volta para o sossegado vilarejo de Nazaré com seus pais. Algum tempo depois, José morre. Ao longo dos quase 20 anos seguintes, Jesus irá evoluir física, emocional e espiritualmente.

A voz de Jesus é única. Mas, para cumprir o seu destino, essa voz deve alcançar mais pessoas do que um pequeno círculo de fiéis no Templo. Ela deve ser ouvida por toda a nação de Israel e além, espalhando-se por todo o mundo. Foi por isso que Deus enviou alguém para preparar o caminho, para começar a abrir o coração e a mente das pessoas. Esse homem é forte de espírito, extremamente determinado e puro. Foi um pregador durante toda a vida. Suas roupas são feitas de pelo de camelo e ele se alimenta de gafanhotos e mel silvestre. Esse novo profeta rejeita a corrupção das vilas e cidades, preferindo a pureza das regiões selvagens. Vive de acordo com o que prega, de forma simples e rígida. Exige de suas legiões cada vez maiores de seguidores que eles mudem de vida, se arrependam de seus pecados e sigam o caminho do Senhor com profundo comprometimento. Seu objetivo é acender uma nova chama nos corações de milhares de judeus.

O nome do profeta é João. Ele é chamado de João Batista por batizar os seguidores de Deus submergindo-os por completo em um rio - o rio Jordão é o seu preferido -, purificando-os simbolicamente de seus pecados.

João está sozinho em um deserto próximo a Jericó. Ele tem um aspecto selvagem, com uma barba grossa e cabeleira desgrenhada. É corpulento e diz sempre a verdade.

Um grupo de jovens se aproxima do profeta, que está de mau humor e finge ignorá-los. Um deles vem correndo para ser o primeiro a enchê-lo de perguntas.

- Por favor, nos ensine - implora o jovem. Ele traz uma expressão sincera no rosto e seus olhos brilham de fervor. - Sabemos que fala sobre o Messias e o reino de Deus, e sobre como é importante nos arrependermos.

- Então se arrependam - responde João com impaciência.

O jovem e seus amigos parecem confusos. João percebe que eles não têm intenção de se arrepender de nada e nem de se voltar para Deus. O profeta não pretende passar o dia fazendo sermões.

- Venham - diz ele com rispidez, começando a se afastar. - Vocês já vieram até aqui. Estão prontos para ir até o fim?

Sem saber o que responder, eles não têm escolha senão segui-lo.

- O reino de Deus é perto? - pergunta o jovem, titubeante, autoproclaman-do-se porta-voz do grupo.

- Mais perto do que você imagina - responde João.

- Então é verdade? Você é o Messias, enviado de volta à Terra por Deus?

- Não, eu não sou o Messias. Lembre-se das palavras de Isaías - responde João, ficando cada vez mais irritado. - Eu sou a voz no deserto. Irei preparar o caminho para o Senhor - fala ele por sobre o ombro. - E a glória do Senhor será revelada, e toda a humanidade irá vê-la.

oão os conduz até o rio Jordão. As águas brilham sob a luz do sol quando o profeta chega à sua margem.

- Vamos entrar aqui. Este é o fim da jornada... e o começo dela.

Mas eles não entendem.

- Do que está falando? Viemos até aqui para tomar um banho de rio?

- Vocês precisam ser purificados de seus pecados para se preparar para o reino de Deus.

- Mas já estamos preparados.

João se inclina e escolhe um pedra grande e lisa do lamaçal que se estende ao longo da margem. Ele a ergue com raiva, segurando-a perto do rosto do jovem.

- Não, não estão. Acham que o simples fato de serem filhos de Abraão é suficiente? Deus pode tornar esta pedra uma filha de Abraão, se Ele assim quiser. - João joga a pedra no rio. Somente então diminui o tom de voz, pois, no fim das contas, não está com raiva daqueles jovens, está apenas decepcionado. Quer desesperadamente que eles não só conheçam Deus, mas que entendam de verdade o que significa segui-Lo. - Para serem dignos da libertação de Deus, vocês devem se arrepender de seus pecados e se entregar por completo a Ele.

O jovem fecha os olhos devagar e relaxa o corpo, entrando na água e deixando João submergi-lo no rio Jordão.

- Eu, João, o batizo para o seu arrependimento... - é tudo o que ele ouve antes de a água invadir seus ouvidos e sua cabeça afundar no rio. Porém, embora não possa escutar o restante da prece, algo dentro dele muda de repente. O rapaz já não se sente o mesmo. Também percebe uma mudança em seu coração, como se agora houvesse uma relação direta entre ele e Deus. João o traz de volta à tona. A expressão no rosto do novo fiel diz tudo: ele havia se entregado a Deus. Sem receber nenhuma ordem, o jovem volta depressa à margem do rio e puxa seus amigos um por um em direção às águas. João batiza todos eles.
João batiza pessoas em um raio de vários quilômetros, ajudando-as a purificar seu coração em uma alegre preparação para a vinda do Messias, trazendo-as de volta para Deus. Porém, muitos não vêm apenas para serem batizados - eles acreditam que o próprio João é o Messias.

- Outro está por vir, mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar - é o que João diz sempre que questionado. - Ele é o Messias. Acreditem, vocês saberão quando o virem.

Mas é João quem o vê primeiro. Jesus surge do meio da multidão, pronto para iniciar o trabalho para o qual veio ao mundo. João fica pasmo quando o vê. Sua vida inteira havia sido uma preparação para esse momento.

Todos os que estão reunidos na margem do rio notam a expressão nos olhos de João. Eles se voltam para Jesus, perguntando-se o que o torna tão especial.

- Certamente sou eu quem devo ser batizado por você - diz João com humildade. - E, ainda assim, você vem a mim?

Jesus toma a mão de João com ternura e a pousa no topo da sua própria cabeça.

- Por ora, permita que assim seja, João. Convém que façamos isso, para que toda a justiça seja cumprida.

João assente, compreendendo as palavras de Jesus. Diante dos olhos de todas as pessoas reunidas na margem, João Batista o submerge nas águas frias do rio Jordão. E, no mesmo instante, o fardo do ministério de João fica mais leve. Ele já não é um profeta que prevê a chegada do Messias em um futuro distante.

O Messias está aqui. Agora. A cabeça e o corpo de Jesus são submergidos em um batismo desnecessário, pois ele não tem pecado. O ritual, no entanto, transmite a mensagem simbólica de que um tempo de renovação para toda a humanidade começou. Ele está prestes a iniciar a maior missão da história humana. Toda a imperfeição e a dor do mundo serão depositadas sobre ele. A humanidade receberá a salvação de Deus.

Quando Jesus emerge da água, os céus se abrem. O Espírito de Deus desce das alturas e uma voz celestial fala:

- Este é meu filho amado, de quem me agrado.
Primeiro, Jesus passou pelo batismo. Agora, vive a solidão contemplativa do deserto, onde deve travar a batalha mais dura de sua vida. Ele viaja sozinho até os confins de uma região desolada e árida. Durante quarenta dias, jejua, medita e ora, a mente concentrada apenas na vontade de Deus.

Gaviões voam em círculos acima da sua cabeça. O sol castiga Jesus, queimando sua pele e rachando-lhe os lábios. Ele caminha pela encosta pedregosa da colina, sabendo que está iniciando seu ministério numa época em que o poder inabalável do Império Romano está pronto para esmagar toda e qualquer oposição, e em que a existência de um homem pode ser aniquilada com um simples estalar de dedos.

Contudo, o poder de todas as legiões e imperadores do mundo não é nada se comparado ao verdadeiro inimigo que ameaça as emoções e a mente humana. Antes que Jesus possa assumir a liderança espiritual de toda a humanidade, ele deve confrontar e derrotar este oponente - Satã.

Jesus cambaleia, prestes a desfalecer devido ao jejum. Com o rosto inchado, está a ponto de enlouquecer de sede. Consumido pela fome, seus músculos e seu estômago se atrofiam em busca de nutrição, e seu corpo começa a devorar a si mesmo. Faz quarenta dias e quarenta noites que Jesus chegou àquela região desolada - seu deserto pessoal. Um dia para cada um dos quarenta anos que Moisés vagou em seu próprio deserto, em busca da Terra Prometida.

Uma cobra passa rastejando por ele, sua língua vibrando no ar seco. Jesus recua. A serpente é grande e poderosa, pronta para lhe dar o bote. Jesus se agacha com cautela e apanha uma pedra grande. Ele a agarra firme com as mãos. Quando se levanta, uma sombra surge diante dele.

- Se você é o Filho de Deus - diz Satã, das sombras -, transforme as pedras em pão.

- Nem só de pão vive o homem - responde Jesus, com a voz calma. - Mas também de cada palavra que vem da boca de Deus.

Enojado, Satã lhe dá as costas e desaparece.

Jesus chega a uma paisagem onírica onde tudo e nada é real. Ele sonha que está em cima do telhado do grande Templo em Jerusalém. Logo, a sombra de Satã volta a surgir ao seu lado.

- Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui de cima para que os anjos possam salvá-lo.

- Não ponha o Senhor seu Deus à prova - alerta Jesus.

Jesus se afasta da beirada. Uma telha se solta e cai no pátio de pedra mais abaixo, espatifando-se em vários pedaços.

Então ele acorda do sonho e se vê no topo de um desfiladeiro. Muito abaixo dali, o deserto se estende a perder de vista, como se não tivesse fim. A sombra está ao seu lado.

- Eu lhe darei todo o mundo - promete Satã -, se você se curvar diante de mim e me adorar. - A sombra estende a mão para que Jesus a beije.

Jesus a afasta.

- Para longe de mim, Satã. Está escrito: “Adore o Senhor seu Deus e sirva somente a Ele.” - O Espírito do Senhor havia se apossado de Jesus. Em um gesto de desafio, ele dá as costas a Satã.

Fortalecido e determinado, ele deixa o deserto com a cabeça erguida, imbuído do poder do Espírito Santo para dar início à sua missão. Uma cobra venenosa rasteja de volta para um buraco no chão.
Água fresca é retirada de um poço profundo e cristalino. É a coisa mais deliciosa que Jesus já provou na vida. Ele bebe aos poucos, deixando seu corpo se acostumar novamente com o líquido. O vento sopra, varrendo poeira pelas ruas enquanto ele se afasta do poço. José já faleceu há muitos anos, e Jesus sabe que sua mãe espera ansiosamente pelo retorno do filho. Contudo, quando ele olta a Nazaré pela primeira vez em meses, visitar Maria não é a primeira coisa que faz. Em vez disso, segue em direção à sinagoga.

Ele logo está diante da congregação lendo trechos da Torá.

- O Espírito do Senhor está sobre mim - começa Jesus.

A sinagoga é pequena e está abarrotada de pessoas que o encaram atentas. Ele avista Maria entrando por uma porta dos fundos e percebe um sorriso de orgulho surgindo em seu rosto quando ela o vê.

É normal que membros da congregação leiam sermões em voz alta aos sábados, e as palavras do profeta Isaías são uma escolha comum, mas a confiança e o conhecimento que Jesus exibe deixam claro que ele não é um simples membro da congregação, ou mesmo apenas um mero estudioso das Escrituras. Ele é um mestre. O maior de todos. Fala as palavras de um antigo profeta como se as tivesse escrito com seu próprio punho.

- Ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Todos os que tiverem olhos irão abri-los e ver, e todos os que tiverem ouvidos escutarão. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e o ano da graça do Senhor. - Jesus enrola o pergaminho de volta. Ele o agarra firme em sua mão direita enquanto lança seu olhar sobre a sinagoga. - Hoje - anuncia ele - esta escritura se cumpre em mim.

Todos arquejam de espanto em uníssono. O comportamento de Jesus é totalmente inusitado. Suas palavras são uma blasfêmia.

O sorriso de Maria é substituído por uma expressão preocupada e aflita. Um arrepio de medo atravessa seu coração, por ter certeza do que acontecerá em seguida. O tempo passa mais devagar enquanto o peso das palavras de seu filho se abate sobre a congregação.

Então, a sinagoga explode.

- Quem você pensa que é? - grita um dos homens presentes.

- Como ousa aparecer aqui alegando ser o Messias? - vocifera outro.

Maria tenta abrir caminho pela multidão, na esperança de conseguir proteger

seu filho. Mas a congregação é tomada pela fúria. Um turbilhão de pessoas sai da sinagoga em direção à rua, perseguindo Jesus no intuito de puni-lo por suas palavras. Ela fica apavorada. Seu filho, no entanto, consegue fugir. Nem Maria nem a congregação conseguem encontrá-lo. Aliviada, Maria sente seus joelhos fraquejarem e se deixa cair no chão. Ao menos por enquanto, Jesus está seguro.

- Não pare, meu filho - sussurra ela, sabendo que Jesus de alguma forma ouvirá suas palavras.

Maria tem bons motivos para temer. Ela sabe, assim como Jesus, que eles vivem em um mundo em que qualquer tentativa de desafiar o status quo é combatida com violência implacável.

João Batista, que sempre teve muito prazer em zombar das autoridades, está prestes a aprender essa lição na própria pele. 0 sol se esconde atrás das colinas, deixando as margens do rio Jordão mergulhadas nas sombras. A água se agita enquanto João batiza um novo fiel. Nenhum dos dois homens sabe que esta será a última pessoa que ele batizará em nome de Deus. O momento é sagrado e pacífico. Homens e mulheres em fila aguardam sua vez. As palavras de João, de que Israel deveria se arrepender e obedecer às leis de Deus, haviam se espalhado por toda parte. As pessoas não só abraçam seus ensinamentos como também anseiam por mais lições espirituais. E este é um anseio que ele fica mais do que feliz em satisfazer. Soldados a cavalo se aproximam. Assim que os vê, João sabe por que estão ali. Ele havia confrontado publicamente Herodes Antipas, o filho do grande e temido rei. João repreendera o jovem Herodes por ter se casado com a esposa do irmão, violando a lei de Deus. Agora, os soldados de Antipas estão vindo aplicar sua lei. João ajuda o novo fiel a escapar antes de ele próprio ser cercado por soldados, que brandem porretes e tentam agarrá-lo. João, no entanto, tem a presença de espírito de mergulhar no rio, mas logo é apanhado e surrado pelos guardas. Consegue fugir novamente, forçando os homens de Antipas a chamar reforços. Por fim, capturam João, acorrentando-o e forçando-o a andar até a estrada. Ele se vira e olha com carinho para o rio em que mudou tantas vidas e então o deixa para trás para sempre. Jesus será informado da captura de João, que é talvez um alerta para ele próprio. Mas ninguém jamais tornará a ver o profeta. A luz do crepúsculo é clara e dourada, as águas do Jordão seguem seu rumo sem nenhum esforço. João está algemado e logo será levado a Herodes para pagar pelo crime de dizer a verdade.

Em águas bem mais turbulentas que as do rio Jordão, três pescadores - Pedro, Tiago e João - chegam ao final de uma longa noite tentando encher suas redes. Elas estão vazias. Os homens conduzem seus barcos de volta à margem, com as marcas da exaustão estampadas no rosto. Eles não se importam com profetas ou reis, com Roma ou com a truculência dos soldados de Herodes Antipas. Vivem na Galileia, na mesma região que Jesus, em uma pacata e remota vila de pescadores chamada Cafarnaum. Sua rotinaé simples e previsível: pescar a noite inteira, remendar redes durante o dia, dormir e então pescar um pouco mais. São felizes, apesar de noites como aquela, em que as redes retornam sem um só peixe depois de horas de trabalho árduo. Enquanto os pescadores conduzem seus barcos em direção à areia da praia, notam que um vulto se aproxima. A aparição incendiária de Jesus na sinagoga de Nazaré é sinal de que ele precisa pregar para pessoas que nunca o viram.

- Por favor.

Então, Pedro navega até águas mais profundas.

- Bem-aventurados os que têm fome de justiça - diz Jesus. - Pois eles serão saciados.

- Quem é você? - exige saber Pedro. - Por que está aqui?

- Peçam e lhes será dado; busquem e encontrarão.

O que se segue é uma pescaria como nenhuma outra na vida de Pedro. Milhares de peixes enchem suas redes. Seus ombros ficam doloridos por conta do esforço de puxá-las para dentro do barco. Embora as redes já comecem a rasgar, Pedro continua a lançá-las repetidas vezes. Elas sempre voltam cheias. Pedro é obrigado a pedir ajuda, e logo outros barcos chegam do litoral.

- Está vendo? - diz André ao chegar. - Eu não disse?

Pedro fica calado. Ele se limita a olhar para Jesus e deseja saber mais sobre aquele indivíduo peculiar. Ao fim do dia, cansado demais para conduzir seu barco de volta à praia, Pedro cai sobre a pilha de peixes que enche o porão de carga.

- Como fez isso? - pergunta Pedro. Ele sente uma lágrima se formar no canto do seu olho. Algo dentro dele lhe diz que sua vida acabara de mudar.

Jesus não responde, ciente de que aquele pescador rude acabara de se tornar seu primeiro discípulo. É o começo de um novo mundo para ambos.

- Mestre, eu sou um pecador - diz Pedro para Jesus. - Sou um mero pescador que nada busca.

- Então me acompanhe - diz Jesus, enfim. - E não tenha medo. Siga-me e eu farei de você um pescador de homens.

- Mas o que vamos fazer? - pergunta Pedro.

- Vamos mudar o mundo - responde Jesus.

PARTE SETE

MISSÃO

O mercado está abarrotado de gente. O sol do meio-dia é inclemente e moscas pousam nas carnes frescas penduradas na barraca do açougueiro. Na barraca seguinte, a mulher de um pescador tenta, em vão, manter na sombra os peixes apanhados na noite anterior, orando em silêncio para que alguém os compre antes que estraguem. Vegetais, mel e tâmaras também estão à venda. O padeiro é o comerciante mais atarefado de todos, com filas de pessoas à sua frente para comprar o pão de cada dia, um lembrete simbólico do ensinamento de Deus sobre o futuro. Seria tolice comprar o “pão do mês”, pois ele estragaria. Assim, é preciso comprá-lo diariamente, vivendo o momento, sem se preocupar com um futuro que não podem controlar. Isso dá ao povo de Israel uma importante sensação de paz naquela era de suplício para sua nação.

Um exército estrangeiro ainda controla o país. O povo sofre com os impostos e os excessos dos governantes romanos. As pessoas sentem como se toda sua energia fosse sugada. Jamais se sentiram tão esgotados e abatidos. Aquele mercado simples, repleto de amigos, vizinhos e comida para seu sustento, lhes oferece alguns instantes de paz.

Para uma mulher na multidão, contudo, não há paz. Ela perdeu a sanidade e é atormentada por vozes. Seu rosto está sujo e contorcido de agonia, e ela transpira profusamente. Comporta-se como um cão raivoso, com olhos alucinados e dentes trincados. Ninguém faz contato visual com ela ou se oferece para ajudá-la.

Um grupo de soldados romanos chega ao mercado e na mesma hora começa a importunar a mulher. Eles roubam frutas de um vendedor, que não pode fazer nada para detê-los, formam um círculo ao redor da louca e jogam as frutas em cima dela. A brincadeira fica mais divertida quando a mulher se balança de um lado para o outro para evitar ser atingida.

- Saiam daqui! - grita ela para os romanos. - Parem, me deixem em paz!

Depois de algum tempo, os romanos se entediam e vão embora. Mas outro

homem se aproxima da mulher, oferecendo-lhe ajuda. É Pedro, o recém-ungido pescador de homens.

- Saiam do meu caminho! - grita ela, ziguezagueando pelo aglomerado de pessoas.

Quando Pedro estende a mão para ajudá-la, ela cospe em seu rosto e se embrenha na multidão.

- Deixe-a! - grita alguém para ele. - Ela está possuída por demônios. Você não pode ajudá-la.

Pedro não desiste e continua seguindo de perto a mulher. Ela chega a um espaço aberto, apanha um vaso de uma barraca e o atira contra Pedro. Quando se vira para voltar a correr, depara com Jesus.

- O que você quer? - grita ela, sem medo. Seus olhos estão turvos de confusão e ódio.

Como Jesus fica calado, ela marcha em sua direção, ergue o vaso quebrado sobre a cabeça e fita com uma expressão desafiadora os olhos dele, que estão impregnados de profunda sabedoria e paz.

- Saia desta mulher! - ordena Jesus ao demônio.

Uma energia violenta é expelida de dentro da mulher. O rosto dela fica petrificado, seu corpo relaxa e ela cai ao chão. Então se põe a soluçar, seus ombros e dorso sacudindo à medida que os demônios a abandonam, um a um. Os tremores diminuem. A mulher torna a erguer os olhos para Jesus e se vê transformada pelo espírito divino que emana dele. Tenta falar, mas está perplexa demais para produzir qualquer som.

Jesus pousa a mão com ternura sobre a testa dela.

- Eu irei fortalecê-la e ajudá-la - diz ele.

Ela sorri. Sua mente está lúcida, como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo.

- Qual é o seu nome? - pergunta Jesus.

- Maria. Maria Madalena.

- Venha comigo, Maria.

Pedro observa Jesus se aproximar dele. O pescador balança a cabeça, admirado. Sabe que a mulher acaba de aprender o que ele e os outros discípulos de Jesus já sabem: Jesus personifica a promessa de salvação de Deus. Mas o mundo ainda está por descobrir quem aquele homem extraordinário e carismático é de verdade.

Pedro analisa os rostos das outras pessoas na multidão. Elas parecem impressionadas com a mudança imediata sofrida pela louca Maria. Ouve o burburinho que se espalha entre elas: “É ele...” “É aquele pregador...” “É o profeta...”

Outros se mostram cínicos. Já viram tudo aquilo antes. Suspeitam daquele pacato carpinteiro. Não acreditam que ele seja um profeta.

Os soldados romanos avaliam Jesus, tentando determinar se ele é uma ameaça. Se for o caso, devem neutralizá-lo imediatamente.

Mas Jesus não lhes dá motivo para isso. Todos os seus gestos são de paz.

- Amem uns aos outros - diz ele aos seus seguidores. - Se amarem uns aos outros, todos saberão que vocês são meus discípulos.
Notícias sobre os milagres de Jesus - como alguns chamam seus poderes de cura - se espalham rapidamente pela Galileia. Onde quer que ele vá, multidões se reúnem à sua volta, lutando por uma melhor posição na maré humana que o engole no instante em que ele chega a cada cidade.

O fenômeno cresce a cada quilômetro, a cada novo vilarejo. Os discípulos se esforçam ao máximo para proteger Jesus, mas as pessoas estão ansiosas por fitar seus olhos poderosos ou simplesmente tocar a bainha de sua túnica.

- Misericórdia. Misericórdia, Senhor, tenha misericórdia - balbucia Pedro sem parar diante daquela crescente adulação. - De onde vem toda essa gente? Há tanta fome. Tanta carência.

Para um homem prático como Pedro, a decisão de seguir Jesus traz testes e desafios que ele jamais poderia imaginar - como quando ele tenta afastar Jesus da multidão ao conduzi-lo até uma pequena casa vazia para ter alguns momentos de paz. Assim que entram ali, Pedro ouve um barulho vindo do teto e vê quatro jovens carregando o pai paralisado até o topo do telhado.

Pedro sai da casa para expulsá-los, mas os homens fingem não ouvi-lo. Com as próprias mãos, abrem um buraco no telhado. A luz do dia invade o recinto. Do batente da porta, Jesus começa a falar para o aglomerado de seguidores reunidos do lado de fora:

- Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei repouso. Tomem para si meu jugo e aprendam comigo - continua ele, enquanto Pedro tenta inutilmente evitar que os homens invadam a casa. Mas é tarde demais. Um dos jovens já está no meio da sala, com o pai nos braços. Mesmo que Pedro tivesse o poder de reverter aquela situação, não havia mais como voltar atrás.

- Pois eu sou dócil e humilde de coração - prossegue Jesus -, e vocês encontrarão descanso para suas almas.

E somente então Jesus percebe o tumulto atrás dele. Ele se vira e nota o homem paralisado estirado no chão, cercado pelos seus quatro filhos e por Pedro.

Jesus caminha até o homem. Pedro se afasta para abrir-lhe espaço. O homem não consegue andar, mas pode mover os braços. Ele ergue os dedos para tocar Jesus.

Mas Jesus não estende os braços para o homem. Em vez disso, afasta a mão dele devagar. Desesperado para tocá-lo, o homem se estica cada vez mais para a frente, e quanto mais ele se estica, mais Jesus recua.

A expressão no rosto de Jesus é de calma absoluta. Ele vê o esforço nos olhos do homem e incentiva em silêncio sua luta. Por fim, Jesus toca os dedos do homem paralisado com os seus.

- Seus pecados estão perdoados - diz ele.

Maria Madalena, que o acompanha ao lado de seus discípulos, sabe por experiência própria o que ele é capaz de fazer. Ela achava que já havia visto tudo, mas fica boquiaberta diante daquela cena.

O homem então percebe que já não está mais deitado. Está sentado com as costas perfeitamente eretas. Jesus fica calado. O homem cria coragem e tenta se levantar. Todos no vilarejo sabem que isso é impossível; há anos que ele é totalmente incapacitado - seus filhos precisam cuidar dele 24 horas por dia. Com o olhar fixo em Jesus, o homem se levanta.

As pessoas mais próximas da porta recuam de espanto. As que estão mais afastadas tentam ver o que aconteceu. Muitos esticam os pescoços para enxergar melhor. Alguns fecham os olhos e começam a orar.

O ex-paralítico está tomado pela euforia. Ele salta e pula como uma criança, maravilhado. Esses movimentos simples logo se tornam uma dança improvisada, e seus filhos se juntam a ele. Os discípulos também se põem a dançar. Alguém começa a bater palmas dentro da pequena casa e logo a multidão lá fora faz o mesmo. Homens iniciam uma cantoria enquanto todos se balançam ao ritmo daquele milagre improvável. Eles sabem que isto é prova da verdadeira conexão de Jesus com o poder de Deus.

O homem curado está exausto. Ele para de dançar e se aproxima de Jesus, que pousa a mão sobre a sua testa.

- Vá para casa agora, meu amigo - diz Jesus. - Seus pecados estão perdoados.

Estas não são as palavras que o homem esperava ouvir. Ele arrasta os pés e

olha para o chão. Seus amigos param de dançar, os sorrisos desaparecem de seus rostos. Logo, a multidão se cala. O que Jesus disse pode ser considerado uma blasfêmia. Somente Deus pode perdoar os pecados. Ignorar isso seria o mesmo que agir contra a autoridade de Deus.

No meio da multidão, os religiosos chamados de fariseus acreditam que as palavras de Jesus são mais significativas do que o fato de ele expulsar demônios das pessoas ou curar doentes. Estudiosos aplicados da lei de Deus, eles fazem distinção entre os poderes que Deus atribui aos homens e aqueles que somente Ele próprio possui. Os fariseus ouvem cada pregador em Israel, prestando grande atenção a suas palavras para determinar se são verdadeiras ou blasfemas. Nenhum deles se iguala a Jesus. As afirmações que faz e a autoridade com que fala são insuperáveis. As massas nunca haviam seguido alguém tão depressa e com tanto entusiasmo. Jesus sabe o que se passa no coração dos fariseus.

Um deles se pronuncia.

- Você não pode fazer isso.

- Isso o quê? - pergunta Jesus.

- Perdoar.

Jesus olha para ele. Então, olha para o homem que acabara de curar.

Pedro se aproxima e sussurra para Jesus:

- Essas pessoas não entendem o que você acabou de fazer?

Jesus encara Pedro com um olhar sereno. Para que o mundo compreenda sua missão, primeiro Jesus precisa fazer com que aqueles mais próximos dele a compreendam.

- O que é mais fácil dizer: “Seus pecados estão perdoados” ou “Levante-se da sua cama e ande”? - diz ele, fazendo uma pergunta retórica.

O líder dos fariseus, um homem chamado Simão, balança a cabeça com indignação e se retira dali, seguido por seus homens. Ele sabe que Jesus se tornou alguém que deve ser observado de perto.

- Venham - diz Jesus para seus discípulos. Ele os conduz pela porta rumo à aglomeração de pessoas, na direção oposta aos fariseus. - Nosso trabalho aqui está terminado. Temos um longo caminho pela frente. É melhor irmos ndando. - Então ele se vira e começa a se afastar do vilarejo, deixando seus habitantes sem saber ao certo o que acabaram de testemunhar.

Os discípulos de Jesus haviam escolhido se tornar irmãos e irmãs em Cristo. Embora ainda não percebam, isso os coloca na vanguarda de uma revolução - uma revolução religiosa que não está presente nos textos antigos ou na história oral judaica. Em vez disso, é uma nova promessa que liga a vontade de Deus à vida cotidiana das pessoas. Esse é um conceito difícil de entender, mas, para que um dia possam assumir a liderança, os discípulos precisam ser treinados.

Jesus faz questão de ensinar seus seguidores durante suas caminhadas de cidade em cidade. Suas palavras simples e poéticas são ditas de forma casual e delicada. Jesus prefere explicar conceitos difíceis pouco a pouco, sem nunca impô-los, tendo a paciência de deixar as pessoas assimilarem as palavras até que as entendam por completo.

Jesus não prega apenas para seus discípulos: ele prega em estradas de chão, em plantações e vilarejos, para camponeses, pescadores e toda sorte de viajantes. Essa classe trabalhadora de Israel forma a espinha dorsal do seu ministério em expansão. Ele para, com frequência, na encosta de uma colina ou à beira de um rio, para falar àqueles que se reúnem para ouvi-lo. Seu objetivo é libertar aquele povo oprimido, que tanto sofre sob o peso dos impostos abusivos de Roma. Mas Jesus não pretende formar um exército para salvar os israelitas dos romanos. Ele quer libertá-los de algo muito pior: do pecado.

Muitos, no entanto, não o compreendem. Quando Jesus diz: “Bem-aventurados os que têm fome de justiça, pois eles serão saciados”, alguns entendem que este é um grito de guerra contra Roma.

Mas, então, ele diz coisas como: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados de Filhos de Deus.” Enquanto muitos na multidão interpretam estas palavras como as de um político radical, diversos outros começam a entender a mensagem de amor de Jesus.

Certa noite, ele está parado na encosta de uma colina enquanto o sol se põe. Havia escolhido esse momento porque sua platéia de camponeses, pastores, todos os trabalhadores e suas famílias, não pode se dar o luxo de abandonar seus respectivos ofícios durante o horário de expediente. Eles estão diante de Jesus, ao final de mais um logo dia, com as mãos e os braços doloridos por conta do trabalho árduo, dispostos a ouvir o que ele tem a dizer. Sentem a paz invadir seus corpos, mentes e corações, tocados pela presença amorosa dele.

O sol de fim de tarde é laranja-escuro e a platéia fica em silêncio enquanto Jesus lhes conta sobre o seu Pai. Ele ensina às pessoas a orar e até mesmo as orienta sobre quais palavras devem dizer:

Pai Nosso que estais no céu - começa Jesus -, santificado seja o Vosso nome.

Jesus os incentiva a refletir a fundo sobre o significado dessa nova oração. Ela

começa louvando o nome de Deus. Em seguida, roga que Ele lhes dê o pão de cada dia e sacie sua fome. Então torna-se um pedido de perdão, pois o pecado os impedirá de entrar no paraíso.

- Perdoai nossas ofensas - diz Jesus -, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido.

Ele prossegue, e todos os presentes o acompanham com atenção, memorizando as palavras para poder dizê-las quando forem fazer suas próprias orações.

- Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Aí está. Esta é a nova maneira de orar: louvar a Deus. Contar que Ele irá prover as suas necessidades cotidianas. Pedir perdão. Perdoar o próximo. Rogar a Deus que afaste as atribulações e a dor trazidas pelo pecado.

As pessoas sabem que podem orar dessa forma. Mas tudo parece tão... fácil. Onde estão os sacrifícios de animais? Onde está a necessidade do Templo grandioso, já que eles agora podem fazer suas orações em qualquer lugar, a qualquer hora?

O sol está quase posto quando Jesus termina. Seus ouvintes se aproximam para tocá-lo. Suas almas foram renovadas por aquela nova mentalidade em relação às orações e a Deus. Eles se sentem fortalecidos, encorajados e confortados. Voltam para suas casas cheios de esperanças, devido à garantia de Jesus de que Deus havia reservado um lugar no céu para cada um deles. Aquela vida de trabalho duro, luta e opressão romana acabará um dia, mas a paz e o amor que os aguarda no paraíso será para sempre. Para o povo da Galileia, as palavras de Jesus soam como um renascimento espiritual.

Para os fariseus, elas soam perigosas.
Já é dia em uma pequena cidade da Galileia. Centenas de israelitas aguardam em fila a audiência obrigatória com o coletor de impostos para pagar seus tributos. O som de moedas sendo largadas nas mesas de contagem é ouvido de longe.

A primeira parcela dessas taxas vai para Roma. Isso é decretado por lei. Deixar de pagá-las pode resultar em prisão ou morte. Há tempos, no entanto, que Roma vem tendo problemas para coletar os impostos, de modo que delegaram o serviço para um grupo de coletores autônomos. Esses homens são todos judeus, como aqueles que estão na fila para pagar. Assim, o que estão fazendo é extorquir seu próprio povo. Adicionar ainda mais taxas ao fardo que os oprimidos israelitas já carregam nos ombros não é apenas oneroso, é uma traição. A aliança de Deus com Abraão não existe entre aqueles homens cruéis e as pessoas que eles exploram. Os coletores de impostos merecem total desprezo.

Jesus e seus discípulos passam pelas filas de indivíduos taciturnos que esperam para pagar seus tributos.

- Colaboradores e traidores. Tomando dinheiro de seu próprio povo. São todos pecadores - balbucia Pedro. Criticar os coletores de impostos é o mesmo que criticar Roma. Essa imprudência poderia lhe custar a vida.

Os discípulos ficam pasmos ao ver Jesus analisando com atenção um dos coletores de impostos, que conta as moedas devagar e evita fitar diretamente suas vítimas, com olhos cheios de tristeza. O nome desse homem, conforme logo descobrirão os discípulos, é Levi. Embora pareça dócil e até solidário com seus irmãos judeus, ele não deixa de ser um coletor de impostos.

- O que está vendo, Senhor? - pergunta o discípulo chamado João, mas não João Batista, que continua nas profundezas das terríveis prisões de Herodes Antipas.

Jesus não responde. Então João tenta enxergar Levi através dos olhos de Jesus. O que vê é um homem imerso em pecado que busca uma saída, mas não acredita na existência de tal caminho. Jesus o encara de forma tão intensa e direta que Levi ergue a cabeça para olhar na direção daquela poderosa energia. Seus olhos se cruzam no exato momento em que o Filho de Deus lhe dá a seguinte ordem:

- Siga-me.

Em um piscar de olhos, Levi compreende a convocação.

“Siga-me” tem o mesmo sentido de “Acredite em mim”. Livre de qualquer pecado, dúvida, aflição e descrença. Aconteça o que acontecer em minha vida, tenho liberdade de escolha. No instante em que Levi deposita sua fé em Jesus e começa a segui-lo, seus pecados são perdoados e ele está livre. Levi se levanta e se afasta da mesa, deixando pilhas de moedas não contadas para trás. O retinir das moedas dos outros coletores de impostos segue inalterado até eles notarem o que Levi fez. Aturdidos, eles interrompem seu trabalho e observam, boquiabertos, a estupidez de Levi, que está abandonado uma vida de riqueza e tranquilidade... para quê? Para seguir um revolucionário?

Os discípulos estão em polvorosa. Pedro lança um olhar furioso para Jesus, pois o novo discípulo é a forma de vida mais desprezível aos olhos do povo de Israel.

- Você não gosta que eu fale com coletores de impostos e pecadores - diz Jesus para Pedro. - Mas busque dentro do seu coração e ouça o que tenho a dizer: os sãos não precisam de médico, mas, sim, os que estão doentes. Não vim até aqui para convocar os justos. Estou aqui pelos pecadores.

Pedro não sabe o que responder. Seu nome significa “pedra”, “rocha”, e nada seria mais adequado. Ninguém é mais firme e duro do que ele. Suas mãos são calejadas e seus modos nem sempre são delicados. Seguir Jesus é uma aposta arriscada, pois não pode ganhar dinheiro quando não está no mar pescando. Levi também se torna um discípulo e seguidor, e desse momento em diante passa a se namar Mateus. Seja como for, Pedro é fiel a Jesus e o segue até a próxima cidade em sua jornada.

Jesus se agacha na praça da cidade, desenhando no chão de terra com o dedo. Ele não está desenhando uma imagem, mas uma série de letras. Não está sozinho; o ambiente também não é tranquilo. Logo atrás dele, uma multidão se reúne para assistir a um apedrejamento. Uma mulher é forçada a ficar parada diante de um muro alto, virada para a multidão. Entre a mulher e o aglomerado de pessoas há uma pilha de pedras grandes e lisas. Em breve, cada um dos homens do grupo deverá erguer uma pedra e jogá-la com força contra o seu rosto. Eles continuarão a atacá-la até ela perder a consciência e jogarão pedras até ela morrer - ou a pilha acabar, o que vier primeiro. A morte sempre chega antes de as pedras terminarem.

Os fariseus têm visto a popularidade de Jesus crescer e observado, consternados, seus próprios seguidores passarem para o lado dele. Eles acreditam que Jesus é um blasfemo e vêm buscando maneiras de evitar que toda a população comece a segui-lo.

Durante um de seus sermões, Jesus falou claramente para o seu público res-peitar a lei romana, sabendo que, se seus novos seguidores a ignorassem, haveria uma onda de punições contra eles. Em Israel, a lei romana e a lei religiosa se confundem. Se os fariseus conseguirem flagrar Jesus quebrando a segunda, poderão ievá-lo a julgamento num tribunal religioso. Os fariseus ainda acreditam que, se for provado que Jesus é um radical ou um revolucionário cujos ensinamentos possam incitar uma rebelião contra Roma, ele também poderá ser julgado em um tribunal civil. Mas não há nenhuma prova de que ele tenha cometido um crime ou violado a Lei de Moisés. Assim, o último recurso deles é fazer um teste.

A jovem diante do muro foi acusada de adultério. Ela é uma pária da sociedade. Absolutamente nenhum homem ou mulher sairá em sua defesa. Sua culpa é aceita por todos. Seu destino está selado.

Os homens na multidão agarram firme suas pedras, loucos para atirá-las. Os discípulos de Jesus e Maria Madalena se mantêm afastados. Maria segura a filha pequena da mulher condenada. Os fariseus conduzem a cerimônia, ansiosos por colocar seu plano em prática.

Jesus, enquanto isso, escreve na terra.

Simão, o fariseu, para diante da multidão. Ele faz um espetáculo, defendendo seus argumentos de forma ostensiva. Então, quando fala, não se dirige à mulher aterrorizada atrás dele. Em vez disso, está concentrado em Jesus, que continua a arrastar seu indicador na terra.

- Mestre - diz ele para Jesus -, esta mulher foi flagrada cometendo adultério. Pela Lei, Moisés ordena que a apedrejemos. Agora, o que você diz? - Ele está usando a pergunta como uma armadilha, em busca de alguma justificativa para acusá-lo.

Jesus ignora Simão.

Os discípulos imploram a Jesus:

- Por favor, diga algo para ajudá-la.

Para espanto de todos os presentes, Jesus se abaixa e escolhe uma boa pedra da pilha. O rosto de Maria Madalena assume uma expressão de total perplexidade, enquanto um leve arquejo de espanto se espalha entre as pessoas ali reunidas. Jesus então se junta aos fariseus, cada qual com uma pedra na mão, de frente para a mulher condenada.

É então que os fariseus e cada um daqueles homens veem as palavras que Jesus havia escrito:

NÃO JULGUEM, PARA QUE NÃO SEJAM JULGADOS.

Enquanto eles olham para as palavras, assimilando-as em seus corações, Jesus anda de um lado para o outro diante da fileira de apedrejadores. Ele ergue sua pedra no ar para que todos a vejam, analisando as que os demais trazem em suas mãos.

- Aquele entre vocês que não tiver pecado, que atire a primeira pedra. - Enquanto oferece sua pedra a cada um dos homens, ele os desafia com o olhar, sabendo com absoluta certeza que todos ali já haviam pecado.

Nem mesmo os fariseus conseguem olhar Jesus nos olhos.

Jesus caminha até a mulher. Ele está de costas para os apedrejadores, o que i deixa vulnerável a qualquer ataque. Uma só pedra atirada com raiva poderia da: fim à sua vida.

- Eles jogaram algo em você? - pergunta Jesus, com a voz repleta de miseri córdia e graça.

Atrás de si, ele ouve o baque de pedras caindo ao chão. Mas elas estão send< largadas, não atiradas. Todos os homens dão meia-volta em silêncio e seguen para suas casas, enquanto seus próprios pecados - roubo, adultério e muito outros - pesam em suas próprias consciências.

- Vá - diz Jesus à mulher. - Vá e não torne a pecar.

Não é necessário falar duas vezes. Imediatamente, a mulher apanha seu beb nos braços de Maria e se afasta correndo dali.

Simão, o fariseu, olha com raiva para Jesus. Mas não há pedra alguma em sua mã<

- O que desejo é misericórdia - explica Jesus para ele com as mãos erguí das -, não sacrifício.

Mas Simão não se dá por vencido. Jesus havia salvado uma pecadora, mas s chances de resolver suas diferenças com os fariseus diminuem a cada vez que e salva um pecador. Contudo, Jesus sem dúvida sairá perdendo. Os fariseus são pt liticamente influentes e poderosos. Um dia montarão uma armadilha para Jesi da qual ele não conseguirá escapar.

Os fariseus agora se concentram em atrair Jesus para um debate sobre as Escrituras - uma emboscada teológica. Mas há duas coisas que eles não percebem: sua armadilha é uma faca de dois gumes, e Jesus conhece as Escrituras melhor do que ninguém. Os fariseus então começam a segui-lo, observando cada passo seu. Em seguida, o convidam para fazer uma refeição em sua companhia, sob o pretexto de poderem conversar e se conhecer melhor.

Jesus e seus discípulos jantam com os fariseus em um pequeno cômodo na casa de Simão. Jesus se senta diante da porta, ouvindo o anfitrião expor suas mais recentes teorias religiosas. Um pequeno grupo de fariseus está sentado do autro lado da mesa. Seus rostos estão compenetrados, demonstrando o respeito que sentem por Simão.

Maria Madalena entra discretamente no recinto, esforçando-se ao máximo rara não atrapalhar a reunião. A última coisa que gostaria de fazer é interromper timão ou chamar a atenção para si. Mas é exatamente isso que faz, pois Maria não está sozinha. Ela traz consigo uma jovem pecadora. A mulher carrega um requeno jarro de pedra. O jarro contém um presente para Jesus, de modo que seus olhos o procuram na penumbra da sala.

Quando Simão vê a mulher que acompanha Maria, vocifera:

- Você não tem o que fazer aqui! Vá oferecer seu corpo em outra parte!

Humilhada, a mulher se vira em direção à porta. Quer desesperadamente sair

dali. Sua vergonha é total. Mas, antes que ela possa ir embora, Jesus estende a mão e toca-lhe de leve o braço. Ela se detém.

- Por favor - diz Jesus. - Faça o que veio fazer aqui.

As palavras de Jesus lhe dão coragem para suportar a agonia daquela vergonha pública. Não precisa de muito tempo para fazer o que planeja. Assim que nver terminado, sairá dali o mais rápido possível. Ajoelhando-se diante de Jesus, retira as sandálias dele. Uma lágrima cai sobre os pés nus e sujos. Ela solta os rngos cabelos negros e os usa para limpar a lágrima. Então, com as mãos trêmu-las, apanha o pequeno jarro e retira a tampa, libertando o agradável e delicado aroma. A mulher derrama algumas gotas do precioso líquido nos pés de Jesus, esfregando-os com as mãos nuas.

Simão mal consegue acreditar nos próprios olhos. Seu primeiro impulso é expulsar aqueles hereges da sua casa, mas então percebe que aquele é o momento rerfeito para repreender Jesus por sua afronta.

- Dizem que você é um profeta - zomba Simão. - Seus amigos o tratam como tal. Bem, deixe-me lhe dizer o seguinte: se fosse um verdadeiro profeta, jamais teixaria uma mulher como essa tocá-lo.

Jesus não responde. Sente-se comovido pela gentileza e humildade da mulher í sabe que aquele momento é muito importante para ela.

Simão continua:

Olhe para ela. É uma pecadora!

Jesus pousa a mão com ternura sobre a cabeça da mulher.

- Sejam quais forem os pecados que cometeu, ela está perdoada.

Simão se levanta e aponta para Jesus.

- Esta é a minha casa. Fui claro? E, na minha casa, o que importa é a lei de Deus. Somos fiéis a ela.

Jesus sorri para Simão e torna a olhar para a mulher.

- Obrigado - diz enquanto ela pega o jarro e vai embora. A mulher está alegre e em paz, mas igualmente ansiosa por fugir de Simão e de suas críticas raivosas.

- Maldito seja todo aquele que não respeita a lei - fala Simão com arrogância. - A isso todos deveríam dizer “amém”.
O incenso produz uma fina espiral de fumaça, espalhando devagar seu aroma adocicado pela penumbra do interior da sinagoga. Todos na congregação baixam a cabeça em sinal de respeitosa adoração enquanto Simão prega diante deles. A Torá está aberta à sua frente.

Simão se sente em paz em sua sinagoga. Aquele não é apenas o local de reunião em que ele pode pregar para a comunidade, mas também um lar espiritual. Um lugar em que pode conduzir seus seguidores a respeitarem a lei com devoção - um presente de Deus. Essa tranquilidade é interrompida quando Jesus e seus discípulos atravessam a porta do Templo. Simão continua a pregar, mas acompanha com atenção cada movimento de Jesus pela congregação. O carpinteiro barbado se aproxima de um homem cuja mão está atrofiada e se inclina para falar ao seu ouvido.

Pedro, sempre pragmático, resmunga para si mesmo, pois sabe o que está por vir:

- Ele certamente não ousaria. Não aqui. Não hoje.

É sábado, um dia reservado por Deus para o descanso e a reflexão espiritual. Nenhum trabalho ou qualquer tipo de esforço pode ser feito nesse dia sagrado. Pedro olha para Simão, o fariseu, que está encarando Jesus. A sinagoga está em silêncio. O sermão foi interrompido. Agora todos os olhos estão voltados para Jesus e para o homem da mão deformada.

- Hoje é sábado - diz Jesus para ninguém em especial, embora suas palavras sejam claramente direcionadas a Simão e aos fariseus. - Digam-me: é permitido pela lei fazer o bem ou o mal no dia de hoje? Salvar uma vida ou matar?

O rosto de Simão está vermelho. Ele lança um olhar fulminante para Jesus.

- Nenhuma das duas coisas - responde Simão em voz baixa.

Jesus pede que o homem se levante. Lentamente, ele obedece. Parece inseguro e constrangido.

A maioria de vocês possui ovelhas - diz Jesus para a congregação. - Se, em seu caminho até aqui, vissem uma ovelha caída em uma vala, não a tirariam de la para salvá-la?

Então ele exibe a mão do homem.

- Quer dizer que este homem vale menos do que uma ovelha?

Todos os presentes se espantam, pois a mão do homem já não é uma garra atrofiada: está totalmente curada. Tendo concluído seu trabalho, Jesus se vira em direção à porta.

- Como ousa?! - ruge Simão, agarrando a própria túnica com as duas mãos e rasgando-a diante de toda a congregação. Os fariseus próximos dele fazem o mesmo, deixando claro que consideraram aquele ato impuro e anseiam pelo perdão de Deus.

Jesus não vê nada disso. Só quem vê é Pedro, que percebe que foi deixado para trás e sai correndo para alcançar seu mestre.

Pouco depois, enfurecido pelo comportamento de Jesus, Simão corre até a rua e agarra a mão do homem curado. Ele lhe dá um puxão, obrigando-o a parar, e ergue sua mão recuperada no ar. Outros fariseus se juntam ao seu redor. Logo, o homem é arrastado pelas ruas como um troféu. Ele é a prova inegável de que Jesus havia violado as Escrituras.

Ou coisa pior.

Jesus e seus discípulos apenas observam, afastados.

- Esta cura é uma obra do demônio - grita Simão.

As pessoas ao redor estão assombradas. Elas conhecem aquele homem desde sempre. Como é possível que sua mão esteja curada? Isso é motivo de admiração, não de vergonha.

Simão ignora os olhares e defende seu argumento. Conhece seu público.

- Ele nunca estudou a lei, mas não vê problemas em violá-la - acrescenta o filisteu.

Por mais maravilhados que estejam com a cura, os fiéis ali reunidos agora parecem chocados.

Simão prossegue.

- Ele recruta coletores de impostos e mulheres pecadoras. Desrespeita as leis de Deus, assim como a sinagoga Dele... a sua sinagoga.

A multidão fica irrequieta e revoltada. A situação começa a ficar perigosa. Jesus está impassível, mais calmo do que nunca.

- Ame seus inimigos - diz ele para Pedro, alertando-o. - Ame aqueles que o perseguem.

- Precisamos aturar isso? - pergunta Pedro, incrédulo.

Jesus, os discípulos e Maria Madalena abrem caminho com dificuldade pela multidão. A essa altura, as ruas da cidade estão em alvoroço. Soldados romanos e embrenham no tumulto, agarrando fariseus e arrastando-os de volta para a sinagoga. Os romanos ficam satisfeitos em punir os desordeiros, distribuindo socos e porretadas. Jesus vai para um lado, conduzindo seus seguidores rumo à segurança, os fariseus vão para o outro. Nas ruas, a situação se agrava, tornando-se um confronto sangrento entre os judeus oprimidos e os legionários romanos. Mais tarde, à medida que as tensões aumentarem, os fariseus tentarão encontrar uma maneira de assassinar Jesus.
Jesus não tem nenhuma intenção de travar uma batalha pelo poder religioso. Mas, à medida que seu ministério cresce, ele se vê envolvido em uma complexa trama de movimentos políticos e religiosos. Deus, Roma e religião estão interligados por toda a nação de Israel, e duas facções rivais lutam pelo poder. Aceitando apenas a palavra escrita de Moisés como lei e rejeitando todas as revelações subsequentes, os saduceus veem a si mesmos como os Antigos Fiéis. Os fariseus acreditam ainda na ressurreição dos mortos, assim como em uma vida após a morte de recompensa celestial ou danação eterna, tomando a tradição mosaica e o restante da Torá como seu texto oficial. Politicamente, os saduceus possuem maior poder e influência. Eles representam a aristocracia sacerdotal e o sistema de poder de Israel. Suas obrigações religiosas estão concentradas no Templo. Os fariseus representam o homem comum. Os saduceus veem a adoração no Templo como o foco principal da lei.

As figuras religiosas de maior poder em Israel compõem o Sinédrio. Este conselho é a suprema corte para todas as disputas legais dos judeus, chegando a ter o poder de emitir sentenças de morte. Apesar do poder do Sinédrio, ele continua sob o domínio de Roma. É comandado por um sumo sacerdote nomeado pelos romanos, que podem afastá-lo do cargo a qualquer momento. Caifás, o sumo sacerdote, é um homem de meia-idade que está na desconfortável posição de ter que conciliar as exigências materiais dos mestres romanos com as exigências espirituais do povo judeu.

No momento, Caifás enfrenta um dilema ainda mais grave. Pendões militares exibindo a águia romana foram pendurados no grande Templo. O gesto desafia, de forma insolente e pública, a proibição de Deus quanto ao uso de imagens de idolatria na área do Templo. Todos os judeus sabem que isso é uma invasão de seu espaço sagrado.

O que Caifás pode fazer quanto a isso? Se ele se opuser aos romanos, perdera seu poder. Se ficar calado, seu próprio povo o verá como um fantoche e um testa de ferro - um homem que finge ter poder, mas não possui autoridade alguma. Ele sabe que deve oferecer resistência, mas só pode recorrer a um homem: Pôn-cio Pilatos.

Desde a divisão de Israel após a morte de Herodes, o Grande, governadores romanos dominam a província da Judeia. Em Roma, a Judeia é vista como um mero cemitério de ambições. Quatro governantes já passaram por ali em vinte anos. Pilatos é a mais recente tentativa de controlar aquele rincão turbulento. Sentindo a necessidade de deixar clara sua autoridade, Pilatos moveu um novo esquadrão de tropas para Jerusalém. Como é de praxe no Império Romano, a chegada de um novo grupo de soldados significa também que o estandarte da unidade em ques-ão será trazido ao local. Daí os pendões com a imagem da águia.

Caifás tem medo de Pilatos, e por um bom motivo: o novo governante é famoso por sua intransigência. Ele não vê o menor problema em oprimir o povo jdeu, pois acredita que às vezes é preciso aplicar todo o poder de Roma para manter a paz.

Porém, quanto mais Caifás adia seu confronto com Pilatos, mais a situação se agrava. A notícia da profanação do Templo se espalha como um incêndio por soda a Judeia. Logo, milhares de pessoas estão reunidas na praça principal de Cesareia, onde vive Pilatos, para protestar.

Cesareia fica a 80 quilômetros de Jerusalém, em uma planície costeira acariciada pela brisa fresca do Mediterrâneo. É o eixo central do governo romano na hideia, construído por Herodes, o Grande, mas agora lar de Pôncio Pilatos. Ele pode viver em qualquer parte de Israel, mas prefere a tranquilidade e o cheiro do mar às aglomerações e ao ritmo alucinado de Jerusalém.

Pilatos olha para a turba do alto da sua mansão de mármore. Seu peito musculoso está nu e coberto de suor. Por também ser um soldado romano, Pilatos conhece o valor do bom condicionamento físico, de modo que passara a última nora treinando com espadas de madeira. Embora menores do que as espadas de combate, são tão pesadas quanto elas, e Pilatos consegue sentir seus braços e ombros cansados por conta do esforço.

Um assistente entrega uma túnica a Pilatos. Lá fora, os rugidos e protestos da multidão são ensurdecedores, como se eles tivessem o privilégio de dizer e fazer o que quisessem sem nenhuma punição. Talvez não saibam que o Império Romano opera através de uma mistura de interesse próprio e força esmagadora. Pilatos precisa pôr um fim àquilo. Ele veste a túnica e vai em direção à janela para que a multidão possa vê-lo. No mesmo instante, o barulho cessa. Pilatos se volta para o seu assistente.

- Mande os homens isolarem a praça. Imediatamente.

- Sim, senhor - diz o assistente, que sai correndo para transmitir a ordem.

A multidão ergue os olhos para o governador, esperando que ele se pronuncie. Mas Pilatos fica calado, preferindo observar as fileiras de soldados se reunirem nas ruas a poucos metros da praça. Um segundo grupo de soldados abre caminho até a dianteira da multidão, separando os líderes do protesto dos demais.

Somente então Pilatos fala:

- Vão para casa. Em nome do imperador, eu ordeno que retornem para os seus lares. Se partirem agora, nenhum mal será feito a vocês.

A multidão fica imóvel.

À frente dela, seus líderes se ajoelham.

O oficial que comanda os soldados ergue os olhos para Pilatos em busca de orientação. Pilatos responde com um simples meneio de cabeça.

O oficial saca sua espada, sendo imitado no mesmo instante pelos seus homens.

Os líderes do protesto, ainda ajoelhados, afastam a túnica dos ombros para expor seus pescoços. Estão dispostos a ser decapitados.

A intimidação romana se baseia no medo. Os soldados estão claramente incomodados em executar aqueles manifestantes. Se Pilatos matar aquelas pessoas, Roma será informada do episódio. Isso manchará sua reputação, pois ele foi enviado até lá para governar os judeus, não para massacrá-los.

Ele se afasta da janela sabendo que, desta vez, tinha sido derrotado. Pilatos sente o gosto amargo da humilhação. Seu desejo é se embrenhar na multidão e cravar sua espada no corpo de cada um daqueles homens. Ou, melhor ainda, ordenar que todos sejam crucificados. É assim que os romanos lidam com desordeiros: eles os pregam a uma cruz. Quem sabe da próxima vez? Pilatos se retira para a privacidade dos seus aposentos e ordena que todos os pendões sejam retirados do templo.
Bem longe dali, a quilômetros de distância de Cesareia e do Mediterrâneo, Jesus e seus discípulos se banham após a refeição da tarde. Eles relaxam à beira de um córrego, aproveitando o calor do sol em seus rostos e o roçar da grama verde contra seus pés descalços. É um dia maravilhoso e, apesar da escassez material e da possibilidade de outro confronto com os fariseus quando chegarem à próxima cidade, eles se deliciam com esses simples prazeres.

Pedro nota que um jovem se aproxima do grupo. Ele carrega uma oferenda de frutas. As roupas do rapaz deixam claro que ele vem da cidade - são coloridas e novas demais, sem o desgaste trazido por longos dias nos campos ou em um barco de pesca.

Porém, eles não têm motivo para duvidar de sua sinceridade, de modo que Mateus aceita de bom grado as frutas e leva o jovem até Jesus.

- Gostaria de aprender com você e de segui-lo, com a sua permissão. E servi-lo em tudo o que puder - diz o rapaz.

Jesus já havia colocado sua bolsa nos ombros e começado a caminhar. Mas convida o jovem a acompanhá-lo.

Pedro o encara com desconfiança.

- Passamos por toda sorte de provações para nos tornar discípulos - murmura para Mateus. - E este sujeito simplesmente aparece sabe-se lá de onde e se junta a nós?

Jesus então chama Mateus, o antigo coletor de impostos e contador profissional, para caminhar ao lado deles. Após trocarem algumas palavras, Jesus pede a Mateus que entregue a bolsa de dinheiro para o estranho e torna o recém--chegado o novo tesoureiro do grupo.

Pedro fica indignado. Seu instinto lhe diz para se basear na lógica, não na fé. Mas o que Jesus fez é claramente um gesto de fé impulsivo e espontâneo.

- Como se chama esse homem? - pergunta Pedro a André.

- Judas - responde André. - Judas Iscariotes.
Já está anoitecendo quando Jesus e seus discípulos sobem uma longa colina que os conduz até a próxima cidade. Crianças vêm correndo recebê-los, mas, fora isso, parece que aquela vai ser uma noite comum. Eles encontrarão um lugar para comer e dormir. Jesus talvez faça um sermão. Sentem-se felizes por estarem prestes a dormir sob um teto, depois de tantas noites passadas ao relento.

Mas, quando Jesus lidera o grupo para além do topo da colina, os discípulos ficam chocados com o que veem. Milhares de pessoas se reúnem no vale lá embaixo. Elas estão às margens de um mar prateado, aguardando ansiosamente pelas palavras de Jesus.

Assim que a multidão o vê, dispara encosta acima. Todos querem garantir um lugar na frente para quando Jesus começar a pregar.

- Veja só quanta gente - fala Pedro, estupefato.

- Sim - responde Jesus. - Como iremos alimentar todos eles?

- Como iremos fazer o quê?

- Alimentá-los. Está tarde. Não vejo nenhuma fogueira. Eles devem estar famintos - diz Jesus.

Judas, tentando mostrar seu pragmatismo, sacode a bolsa de dinheiro. As moedas retinem lá dentro.

- Precisaríamos de bem mais do que isso - diz ele para Jesus.

Pedro fulmina Judas com o olhar.

- Desçam - pede Jesus. - E tragam toda a comida que conseguirem.

Eles não trazem quase nada de volta: apenas cinco pães e dois peixes. Isso não é suficiente para alimentar sequer os discípulos, quanto mais cerca de cinco mil pessoas. A multidão já tinha consumido tudo o que havia em seus cestos horas atrás, enquanto esperava por Jesus.

Mas ele não parece se incomodar com isso.

- Obrigado, Pai - ora ele diante da pouca comida que seus discípulos haviam reunido. - Obrigado por este alimento que nos trouxe.

De repente, quando os discípulos começam a distribuir a parca comida, os cestos vazios transbordam de pães e peixes - de tal forma que cada uma das pessoas ali reunidas pôde comer duas, três vezes.

Pedro é novamente invadido por uma sensação de humildade diante da grandeza de Jesus. Enquanto observa as pessoas comerem, lembra-se do seu próprio e milagroso primeiro encontro com ele e de como em instantes seu barco começou a oscilar sob o peso de tantos peixes.

Jesus se aproxima de Pedro e olha dentro dos seus olhos. O olhar de Jesus está repleto de ternura, mais um lembrete de que Pedro deve abrir mão de seu pragmatismo e depositar toda a sua confiança em Deus.

A multidão logo exige mais comida, clamando pela proclamação de Jesus como Rei dos Judeus. Mas ele dispersa o povo, sabendo que aquele milagre será suficiente para fortalecer a fé de todos por um bom tempo.

Pela manhã, quando é chegada a hora de atravessar o mar rumo ao seu próximo destino, não há sinal de Jesus. Ele havia ordenado que seus discípulos seguissem por conta própria, pois pretendia ir sozinho às montanhas para orar. Liderado por Pedro, o grupo sobe na embarcação e começa a longa travessia daquele vasto mar. O pequeno barco está abarrotado de discípulos e dos pequenos sacos contendo seus pertences. Pedro é um homem do mar, então é ele quem assume o controle do leme. Seus olhos observam, aflitos, o céu que escurece, pois ele reconhece uma tempestade quando a vê se aproximar. O vento sopra forte e frio. Ondas se chocam contra o casco, fazendo a pequena embarcação jogar violentamente.

- Onde está você? - balbucia Pedro enquanto a água do mar espirra em seu rosto. Seus olhos percorrem o horizonte, as sobrancelhas franzidas em uma carranca. O clima está cada vez pior. As rajadas de vento se transformam em uma borrasca, tornando quase impossível para Pedro olhar para a frente em meio ao vendaval. Ele havia baixado as velas para evitar que a embarcação emborcasse, mas isso também significava que o barco não podia ser direcionado. Os discípulos então passam a remar alucinadamente enquanto Pedro segura firme o timão, mas todo esse trabalho é inútil: o pequeno barco balança sem rumo sobre o mar furioso, tão perdido quanto um pecador que não conhece Deus.

- Oh, misericórdia - geme Pedro. - Por que partimos sem Jesus? Ele saberia o que fazer.

Um relâmpago lampeja no céu. Ele enxerga um vulto solitário ao longe. Talvez estejamos mais perto do que eu imaginava, reflete Pedro, fitando a escuridão. Outro relâmpago. Novamente, Pedro vê um homem parado muito mais próximo desta vez. Ele aperta os olhos para enxergar melhor e sente o vento castigar seu rosto. Se o homem estiver de pé em um cais, Pedro deve tomar cuidado, ou o barco pode acabar sendo destroçado pelas rochas.

Um novo relâmpago é seguido imediatamente por outro. Pedro é cegado pelo clarão, mas se obriga a procurar aquele homem misterioso. Então, ele leva um susto. É Jesus. Está certo disso. Ele tenta se levantar, mas é como ficar de pé nas costas de uma mula aos coices. Os outros discípulos também tentam se levantar para ver Jesus.

- Sentem-se - ordena Pedro.

Seus olhos vasculham a escuridão em busca de Jesus.

- Mestre! - exclama ele, mas suas palavras são quase engolidas pelo vento. - Fale comigo!

E, no momento seguinte, consegue vê-lo com clareza pairando sobre as ondas. Pedro sabe que aquilo não é uma alucinação. Que outro homem poderia :azer algo assim? Será Jesus um simples homem? Pedro pensa em todas as vezes em que ele fez menção ao seu “Pai”, como se Deus fosse de fato seu progenitor. Talvez seja mesmo verdade. Seria possível? No fundo do coração, Pedro encontra uma nova semente de fé. Ele tenta abrir sua mente para acreditar que Jesus é exatamente quem diz ser: o Filho de Deus. Não apenas um pregador carismático. Não apenas um profeta. Mas o único e verdadeiro Filho de Deus.

- É um fantasma - grita aterrorizado Tomé, um dos discípulos.

Pedro acalma sua mente atribulada.

- Senhor - grita ele se é mesmo você, diga-me para atravessar as águas e ir ao seu encontro.

- Venha a mim, Pedro.

Pedro agarra as amuradas do barco com as duas mãos e se levanta, saltando pela lateral da embarcação. Não é engolido pelas ondas; tampouco se afoga. Ele está de pé. Um sorriso de pavor atravessa o rosto de Pedro diante do absurdo de toda aquela situação. Ele ri, uma gargalhada ressonante em meio à violenta tempestade, e caminha com confiança em direção a Jesus, encarando seu mestre com um olhar firme. Seu coração se enche de uma fé renovada, e Pedro sabe que jamais tornará a ver Jesus da mesma forma. O Filho de Deus, pensa ele. Estou olhando nos olhos do homem que é o verdadeiro Filho de Deus.

De repente, sua mente lógica lhe diz que é impossível andar sobre as águas. Quando baixa os olhos em direção às profundezas do mar, a única coisa que lhe havia permitido seguir Jesus durante todo aquele tempo - sua fé - desaparece de repente. Pedro começa a afundar. Puxado para baixo pelo peso das suas roupas, ele mergulha cada vez mais fundo. Mantém a boca fechada, com medo de sentir a água invadir seus pulmões, mas seu peito parece que vai explodir devido à falta de ar. Então, Pedro sente Jesus puxar sua mão, erguendo-o das águas. No instante seguinte, já está deitado no convés. Pedro abre os olhos e vê Jesus parado sobre ele, com o olhar cheio de ternura.

- Pedro - diz. - Oh, homem de pouca fé. Por que duvidou?

Pedro é um homem transformado e quer desesperadamente que Jesus saiba disso.

- Tenho fé em você, meu Senhor.

Jesus acalma a tempestade. Ele ordena que os ventos cessem e diz para as ondas: “Parem de se agitar.” Ao seu comando, o vendaval arrefece e tudo volta a ficar em paz. Os discípulos olham para ele com a mesma reverência exibida por Pedro.

- Você é o verdadeiro Filho de Deus - dizem, curvando-se em um gesto de adoração.
A visão de Jesus surgindo em meio à tempestade e caminhando sobre as águas fica gravada em suas mentes. Assim que chegam ao litoral, os discípulos se sentam à encosta de uma colina, observando o sol nascer sobre o Mar da Galileia. e não conseguem parar de falar sobre as histórias que testemunharam. Jesus se separa deles novamente, orando sozinho não muito longe dali, pois ainda pode ser visto do acampamento. De sua posição elevada, eles conseguem enxergar toda a extensão do mar, antes tão tempestuoso e agora calmo como um poço. A fogueira é pequena, pois há pouca madeira por aqueles lados. Como Pedro ainda está encharcado, mantém-se o mais perto possível do fogo para se secar. João se senta ao lado dele.

- Eu decepcionei Jesus - diz Pedro, visivelmente transtornado. - Decepcionei todos vocês. Sinto muito.

- Não, foi apenas um momento... Um momento para o qual jamais poderiamos estar preparados.

- Você acha que foi um teste?

- Acho que isso é uma jornada, Pedro. Não é possível chegar ao nosso destino com um único passo.

- E onde fica esse “destino”? - diz Pedro, com um sorriso triste.

É uma pergunta retórica, pois ambos sabem que Pedro se refere à Terra Prometida. João lança um olhar para onde Jesus está orando. A Terra Prometida dele é de outro tipo, não pertence a este mundo. Em seu íntimo, João fica impressionado com o enorme poder de concentração de seu mestre.

Jesus abre os olhos e fita João. É como se estivesse vendo as profundezas da sua alma. Neste momento, João é reconfortado. Ele sabe que Jesus é o verdadeiro Rei dos Judeus, enviado por Deus para salvar Israel, mas não dos romanos.
Rios de sangue correm pelas sarjetas de Jerusalém. O sumo sacerdote Caifá-supervisiona a limpeza daquela maré vermelha. Seu rosto é uma máscara de afli ção e seu coração está cheio de pesar. Pilatos havia se vingado dos judeus pelo protesto em Cesareia. Quando um novo aqueduto precisou ser financiado, o governante confiscou os fundos do Templo. O povo de Jerusalém se rebelou e, desta vez, Pilatos não deu a outra face. Centenas de judeus foram executados. Caifás está de mãos atadas, incapaz de impedir a opressão romana.

Em seu suntuoso palácio em Cesareia, Pilatos saboreia o seu triunfo. Os pisos de mármore reluzem enquanto o sol do Mediterrâneo entra pelas grandes janelas. Herodes havia construído aquele palácio, mas, para Pilatos, é como se ele tivesse sido projetado com suas próprias necessidades pessoais em mente: estava longe dos fanáticos de Jerusalém, próximo de um porto a partir do qual poderia zarpar para Roma e, acima de tudo, era um bastião de civilidade naquela região infame. Há dias em que ele consegue até fingir que está de volta a Roma.

Quando um escriba lhe traz uma pilha de documentos oficiais, Pilatos se senta à mesa e se congratula pela excelente maneira como havia lidado com a última rebelião dos judeus. Ele sabe que seu comportamento será analisado com atenção em Roma e está certo de que possui motivos de sobra para justificar sua resposta brutal. Em seu relatório oficial, dirá ao imperador Tibério que sua política de tolerância zero para com os desordeiros da Judeia está dando resultado. Pilatos pressiona seu anel de sinete com força contra uma poça de cera, selando o relatório. Se é uma rebelião que os judeus querem, opressão é o que vão conseguir.

Neste momento de crise, fica óbvio para muitos judeus que eles não podem depositar sua fé em Caifás e no Sinédrio, nos fariseus ou em qualquer outro representante da hierarquia religiosa judaica. Todos os olhares estão voltados para Jesus. Alguns dizem que ele tem poder sobre a vida. Havia devolvido a visão aos cegos, curado inválidos, expulsado demônios e ressuscitado mortos.

Caifás não pode dizer o mesmo. Tampouco os fariseus. Mas Jesus logo é testado quando ele e seus discípulos atravessam um vilarejo, divertindo-se com as brincadeiras das crianças e com a atmosfera festiva do dia. Um mensageiro vem correndo com um pedido desesperado. Ele diz a Jesus que seu amigo Lázaro, que vive em uma cidade vizinha, está muito doente. Maria, a mulher que ungiu os pés de Jesus na casa de Simão, e sua irmã Marta já haviam abandonado todas as esperanças, até que souberam que ele estava por perto. Elas veem isso como um sinal de Deus. Sabem que Jesus pode salvar seu irmão e pedem que ele as ajude nesse momento de necessidade.

Jesus conhece bem o irmão de Maria. Contudo, não faz nada. Lázaro vive em uma região da Judeia cujos habitantes haviam tentado apedrejar Jesus e seus discípulos. Se voltassem lá, estariam arriscando suas vidas. Os discípulos supõem que Jesus esteja ciente desse risco, embora não seja do seu feitio recuar diante de um desafio.

- Não vamos visitar Lázaro? - perguntam eles.

A doença dele não resultará em morte - explica Jesus. - Ela é para a glória de Deus, para que o Seu filho seja glorificado por ela.

Dois dias se passam. Por fim, Jesus diz aos seus discípulos:

- Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas eu irei até lá para acordá-lo.

Os discípulos não entendem bem o que ele quer dizer.

- Mas, Senhor, se ele dormir, irá melhorar - falam eles.

- Lázaro está morto - diz Jesus sem rodeios, vendo-se obrigado a ser mais claro. - E, pelo bem de vocês, fico feliz que eu não tenha estado lá, para que possam crer. Vamos até ele.

- Sim, vamos até ele para morrermos também - diz Tomé, taciturno, lembran-do-se de quando os habitantes da Judeia haviam tentado apedrejá-los.
Alguns dias depois, Jesus e seus discípulos fazem a curta caminhada até o vilarejo de Lázaro. Quando lá chegam, encontram todos consumidos pela dor.

- Está aqui só para dizer que veio? - grita Maria para ele, em prantos. - Você poderia tê-lo salvado.

Jesus fica calado enquanto segue em direção à casa de Lázaro.

- Nós acreditamos em suas palavras! Confiamos em você! - soluça Maria.

- Você tem o poder da cura. Poderia ter salvado meu irmão. Por que não veio? Por quê? Diga-me.

Marta, desolada, se limita a gemer quando vê Jesus.

Uma multidão enlutada e raivosa logo cerca Jesus e seus discípulos. O clima é hostil.

- Tolo - diz uma voz não identificada em meio à turba. - Se é tão poderoso, deveria ter salvado Lázaro da morte.

Os discípulos ficam tensos diante dessas palavras.

- Eu sou a ressurreição e a vida - diz Jesus para Marta e Maria. - Aquele que acreditar em mim, ainda que morra, viverá. E aquele que vive e acredita em mim viverá eternamente. Você acredita nisso?

- Sim, Senhor, acredito que seja Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo.

- Maria chora enquanto diz estas palavras, o que deixa Jesus profundamente comovido.

- Onde vocês o sepultaram? - pergunta Jesus.

A essa altura, já faz quatro dias que Lázaro está morto.

Elas levam Jesus até a tumba do irmão.

- Removam a pedra - ordena Jesus ao chegar lá.

- O corpo já estará cheirando muito mal para chegarmos perto dele - protesta Maria, pois todos sabem muito bem que, depois de três dias, os corpos começam a se decompor e a exalar um terrível mau cheiro.

Mas os discípulos e os homens do vilarejo obedecem à ordem de Jesus e afastam a pedra que cobre a entrada da tumba. A notícia de que Jesus está diante da sepultura se espalha por todo o vilarejo, de modo que há centenas de curiosos reunidos ali.

- Lázaro - chama Jesus.

Pedro não consegue suportar a tensão e se afasta de Jesus. Para ocultar seu desconforto, ele apanha distraidamente uma folha de grama e se põe a girá-la nas mãos. Desta vez Jesus foi longe demais, pensa Pedro. O homem está morto há quatro dias.

Jesus grita com audácia:

- Saia daí!

As irmãs de Lázaro estão em prantos, esgotadas pela falsa esperança e pelos dias de luto que se seguiram. De repente, ouve-se um suspiro coletivo de espanto. As pessoas se prostram em um gesto de adoração ao ver Lázaro surgir à sua frente, envolvido em faixas mortuárias. Sua cabeça está descoberta e ele aperta os olhos ao sair em direção à luz do sol. Ele está vivo.

Jesus torna a falar, mas com uma voz tão alta e imponente que pode ser ouvida a cem metros de distância.

- Aquele que acreditar em mim jamais morrerá. Jamais!

Marta desfalece, chocada com a cena. Sua irmã, Maria, treme. João ri, incrédulo. Lágrimas escorrem pelas faces de Pedro.

- É verdade - diz ele para Jesus. - Você é mesmo o Messias.

Jesus dá meia-volta e atravessa a multidão. Mãos se estendem para tocá-lo e vozes o chamam de “Senhor” e “Rei”.

Pedro corre atrás de Jesus. João o acompanha.

- Senhor! - chama Pedro.

- Há quanto tempo caminhamos pregando minha mensagem? - pergunta Jesus.

- Três anos, Senhor.

- Não acha que é hora, Pedro, de finalmente irmos ao lugar que necessita ouvir minha mensagem mais do que qualquer outro?

Pedro fica boquiaberto. Ele sabe que Jesus se refere a um lugar onde os romanos e os sumos sacerdotes judeus detêm o poder. Eles estão se encaminhando diretamente para o perigo.

Jesus sorri e olha para Pedro, como se lesse seus pensamentos.

- Sim, é isso mesmo - diz Jesus. - Estamos indo para Jerusalém.

PARTE OITO

TRAIÇÃO

Ea semana anterior à Páscoa, aquele dia sagrado que marca o momento na história judaica em que seu povo foi poupado da morte e libertado da escravidão no Egito. Ironicamente, enquanto celebram sua libertação desses opressores do passado, eles sofrem sob o jugo de novos mestres pagãos - os romanos. Esta é uma história que não parece ter fim.

Nesse exato momento, enquanto Israel se prepara para celebrar essa ocasião tão importante e sagrada, um grupo muito seleto de peregrinos segue rumo a Jerusalém. Jesus vai à frente de uma fila única, conduzindo seus discípulos e Maria Madalena.

Eles não estão sozinhos na estrada poeirenta que leva à cidade. Milhares de pessoas também estão chegando, vindo do campo e do deserto. Homens empurrando carrinhos de mão, crianças nos ombros dos pais, mulheres conduzindo os jumentos de suas famílias, idosos andando lentamente. De tempos em tempos, a multidão se separa para dar passagem aos soldados romanos, sabendo que obstruir o caminho deles pode resultar em algum repentino ato de truculência.

A carroça de uma das famílias está com a roda quebrada, de modo que o veículo bloqueia a estrada. A mulher agarra seus filhos pequenos enquanto o marido corre desesperadamente para afastar a carroça do caminho antes que ela impeça a passagem dos romanos. A coluna de legionários, no entanto, é forçada a parar. Seu comandante, um homem implacável chamado Antônio, assume o controle da situação.

- Joguem esta carroça na sarjeta - vocifera ele.

Tudo o que a família possui está naquele veículo, mas os romanos obedecem às ordens e o empurram para dentro de uma vala. A mulher chora baixinho. As crianças gritam quando veem seus pertences se espalharem pela encosta. O casal percebe que a carroça caiu em cima de sua filha mais nova, que foi esmagada pelo peso. Devastados, os pais embalam a menina morta em seus braços, e os legionários seguem seu caminho sem se dar conta do ocorrido.

Os peregrinos sabem que aquele não é um grupo comum de soldados. Ha muitos deles, seus escudos e armaduras são polidos com esmero e eles marcham com uma precisão e um vigor que normalmente não se veem nas tropas de Jerusalém. Eles observam Antônio conduzir seu cavalo até uma figura majestosa que cavalga um garanhão negro mais à frente. É Pôncio Pilatos. A impressionante comitiva é composta de soldados escolhidos a dedo pelo próprio governante.

trabalho deles é protegê-lo e servi-lo. Não medirão esforços para garantir a segurança de seu chefe.

- Qual o motivo do atraso desta vez? - pergunta Pilatos a Antônio, com impaciência.

- Uma carroça quebrada, senhor. Nós a empurramos para fora da estrada.

- Este povo imundo e seu maldito festival - diz Pilatos. - Todo ano é a mesma coisa. Se Roma permitisse, eu proibiria esta porcaria.

Pilatos está voltando a Jerusalém para assumir pessoalmente o controle da cidade. Como governador da remota província romana, é seu dever manter a ordem durante aquele período potencialmente explosivo.

- Ainda falta muito? - pergunta Cláudia, esposa de Pilatos. Ela viaja sozinha em uma carruagem puxada por cavalos, abanando-se para se refrescar do calor do meio-dia.

- Chegaremos em breve - responde Pilatos. A carruagem sacoleja e segue em frente quando a comitiva retoma viagem.

Cláudia espia por entre as cortinas. Tudo o que consegue ver são cavalos e escudos polidos. Suspira e se recosta de volta, odiando cada minuto daquela viagem a Jerusalém. Ah, e pensar que ela poderia estar em Cesareia, relaxando em sua poltrona favorita. Ela ouve lamentos e vê um homem embalando nos braços a filha morta e coberta de sangue. Cláudia, que acredita em presságios, se encolhe de pavor diante da cena. É claramente um mau augúrio que eles comecem sua temporada em Jerusalém assassinando uma criança inocente.

- Nada de bom pode vir disso - balbucia ela, tentando afastar a imagem da sua cabeça.
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Para Jesus, no entanto, a semana começa de forma empolgante. Há anos que os habitantes de Jerusalém ouvem falar nele, e agora celebram sua chegada triunfal à cidade. Jesus chega montado em um jumento, o que é muito incomum para um homem habituado a caminhar por toda parte, mas essa é a maneira tradicional de um rei visitar seus súditos quando vem em paz. Centenas de pessoas o rodeiam, atirando ramos de palmeiras no chão para cobrir a estrada. Elas cantam “Hosana”, que significa “salve-nos”, pois, mais do que um mestre espiritual, aquelas pessoas esperam que Jesus seja o novo Rei dos Judeus. Acreditam que ele veio para salvá-las dos romanos. O clamor é ensurdecedor, e Jesus agradece a todos com sorrisos e acenos. Os discípulos caminham ao seu lado, um tanto deslumbrados com todo aquele entusiasmo. Aquela era a recompensa por três anos dormindo no chão e percorrendo remotas vilas de pescadores. Esta noite, eles poderão dormir em uma cama confortável, comer uma refeição quente e tomar banho. Os discípulos ficam admirados com as boas-vindas. O primeiro grande teste de popularidade de Jesus desde que ele deixou a Galileia é mais bem-sucedido do que eles jamais poderiam imaginar.

- Vejam só quanta gente - diz Maria Madalena, admirada.

- Nunca, nem em meus sonhos mais loucos, eu esperaria ver algo parecido -concorda João.

Tomé não consegue acreditar nos próprios olhos, e até Pedro, o mais cético de todos os homens, fica perplexo.

- Isto é... incrível - balbucia ele.

É também audacioso. Jesus escolheu chegar a Jerusalém montado em um jumento porque as Escrituras predizem que o Rei dos Judeus entrará na cidade como um homem humilde em uma montaria como aquela. A multidão logo percebe o simbolismo, pois conhece muito bem as Escrituras.

- Está escrito! - exclamam as pessoas em meio a suas hosanas, batendo palmas, cantando e brandindo ramos de palmeiras como sinal de lealdade. Seus rostos estão iluminados de esperança, imaginando o dia em que se livrarão do jugo romano. Aquele é o Escolhido, o homem que trará uma nova era de paz, livre de pobreza e sofrimento.

Pedro assume o papel de escudo humano à medida que a multidão vai ficando cada vez mais fanática. Ele teme que alguém acabe sendo pisoteado pelos cascos do jumento.

- Hosana! Hosana!

- Salve-nos! Salve-nos.

Está escrito.

- Hosana!
- Um jumento? - pergunta Caifás, líder do Sinédrio, furioso quando um servo lhe diz qual foi o meio de transporte escolhido por Jesus.

Os anciãos do Templo estão ao seu lado, balançando a cabeça. A chegada de Jesus representa uma afronta direta às autoridades judaicas. Afirmações de que ele é o Messias haviam deixado o Sinédrio, os saduceus e os fariseus indignados e em polvorosa. Apenas eles podem ungir o novo Messias, e está claro que aquele carpinteiro de Nazaré não é ele.

- “Eis que o seu rei vem a você” - diz Caifás, citando com sarcasmo as Escrituras. - “Justo e vitorioso, humilde e montado em um jumento.”

Os anciãos ficam calados.

- E para onde ele está indo? - pergunta Caifás ao servo.

O servo baixa a cabeça. O que está prestes a dizer não é bem o que Caifás e os anciãos querem ouvir.

- Para o Templo - diz ele.

O Templo?

Um dos anciãos, um homem chamado Nicodemos, cita outro versículo:

- “Para conduzir seu povo à vitória e expulsar os opressores.”

- O povo - pergunta Caifás ao servo. - Como ele está reagindo?

O nome do servo é Malco. Ele esperava conseguir impressionar o Sinédrio ao vir correndo lhes revelar o paradeiro de Jesus. Contudo, parece que cada palavra que sai da sua boca é apenas mais uma variação da mesma má notícia. Então, ele fica calado.

Caifás sabe exatamente o que isso significa. Ele anda de um lado para o outro, agitado.

- E os romanos? - pergunta, aflito. - Eles já tomaram alguma providência em relação a esse homem?

Malco balança a cabeça.

- Ainda não - diz Caifás, preocupado. O massacre contra o seu povo está muito fresco em sua memória. - Não queremos que Pilatos se sinta ameaçado ou intervenha nesta questão, especialmente durante a Páscoa. Se tivermos uma nova onda de execuções, não há como prever que tipo de anarquia isso poderia causar.

Nicodemos concorda.

- Da última vez que Pilatos se sentiu ameaçado, centenas de judeus foram mortos pelos romanos - diz ele, fazendo referência ao fato que todos os presentes conhecem muito bem.

Caifás meneia a cabeça para Nicodemos.

- Vá com Malco. Se o homem entrar no Templo, observe-o. Quero ser informado de cada passo que ele der.
Jesus conduz seu jumento em direção ao Templo. Pedro, João e os outros discípulos apertam o passo para acompanhá-lo. A multidão continua a cantar enquanto abre caminho para Jesus. Os discípulos ficam tensos, pois percebem que as pessoas esperam que Jesus faça coisas extraordinárias. Desta vez, não querem milagres, mas a completa revitalização de Israel.

- Está escrito - bradam vozes da multidão. - “Ele será chamado de Maravilhoso Conselheiro, Deus Todo-Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz.”

Jesus normalmente se esquivaria de tamanha consagração. Mas, em vez disso, para espanto dos discípulos, ele está seguindo diretamente para o coração da identidade nacional de seu próprio povo - o Templo de Jerusalém. Isso só pode significar uma coisa: a situação está a ponto de explodir. Aflito, João corre os olhos pela multidão e percebe pela primeira vez que suas ações estão sendo monitoradas. Ele nota os olhares firmes de espiões e mensageiros, cujos rostos são desprovidos da alegria compartilhada por tantos outros ali presentes. Os olhos de Pedro saltam de um rosto para outro. Ele vê Nicodemos em suas vestes sacerdotais avaliando estrategicamente o progresso do grupo. Então, quando olha para uma ruela, Pedro sente um aperto no coração ao ver que soldados romanos os seguem a pé.

Um brutamontes irrompe freneticamente da multidão. Seu nome é Barrabás. Ele salta bem na frente de Jesus, gritando a palavra “Messias”. Seu tom de voz não é de reverência, mas de ameaça, o que força Pedro a agir depressa para proteger Jesus. Ele agarra a túnica de Barrabás, puxando-a para trás e revelando o cabo de um longo punhal.

Mas Barrabás é forte demais até para o vigoroso Pedro. Ele se desvencilha do discípulo e se aproxima de Jesus.

- Se é o Messias, então prove enfrentando a escória romana. - Todos os judeus desejam a libertação do domínio romano, mas anarquistas como Barrabás acreditam que Deus quer que eles usem de violência para alcançar esse objetivo. - Liberte-nos - diz ele, desafiando Jesus, enquanto Pedro tenta intervir novamente.

Pedro, João e Tomé se unem para formar um escudo humano.

- Nós viemos em paz - diz Pedro.

Barrabás encara Jesus, que fixa seus olhos serenos nos dele. Então o brutamontes para de falar, como se tivesse sido hipnotizado. Ele baixa o olhar e volta para a multidão. Não compreende o que aconteceu, mas sente o poder tranquilo de Jesus.

Por fim, Jesus chega ao seu destino. Ele desce do jumento e começa a subir as escadas em direção aos portões externos do Templo. Nem mesmo seus discípulos sabem o que ele fará em seguida.
Os romanos observam cada movimento dele. Um passo em falso sem dúvida seria fatal para aquele tal de Jesus. Tinham visto Barrabás, um revolucionário conhecido, se aproximar dele. Sempre preparados para sufocar qualquer sinal de dissidência política, os romanos se perguntam se Jesus não faria parte de uma conspiração. Contudo, não há romanos dentro do complexo do Templo quando Jesus ali chega. O grande palácio de adoração está repleto de oficiais e cambistas. O clima é tenso, em total contraste com a maneira como Jesus fora recebido há pouco. Os discípulos temem que as coisas possam fugir ao controle. Devem manter a calma, sem perturbar ninguém ou incitar qualquer tipo de problema.

Jesus chega ao pátio externo do grande complexo do Templo de Jerusalém - o Pátio dos Gentios, como é conhecido. Caminha à frente dos seus discípulos com passos firmes e olhar determinado.

- E agora? - pergunta Pedro.

- Não sei - responde João.

Judas está apreensivo.

- Não estou gostando nada disso - sussurra ele. Seu entusiasmo como discípulo tem diminuído ultimamente e ele não está tão disposto quanto os demais a sacrificar sua vida por Jesus.

- Mantenham-se unidos e tudo ficará bem - acrescenta Maria Madalena, com voz firme.

Ao redor deles, o grande pátio está tomado pela atividade humana. Cordeiros, pombas e bodes estão à venda, acrescentando seus sons e cheiros à cacofonia da multidão. Ouve-se o retinir familiar de moedas sendo contadas e trocadas de mãos. O auge da Páscoa é o ritual de sacrifício animal. Peregrinos pobres de toda Israel vêm até Jerusalém para comprar animais. Mas suas moedas trazem imagens de imperadores romanos ou deuses gregos, imagens consideradas idólatras pelos sacerdotes. Mas os peregrinos precisam trocar todo o seu dinheiro pela moeda corrente no Templo. Parte da taxa de câmbio vai para as autoridades, parte é convertida em impostos para os romanos, enquanto o restante é embolsado por agiotas corruptos, que exploram os peregrinos ao cobrar mais do que a lei permite para trocar o dinheiro.

Os discípulos se mantêm perto de Jesus quando ele para de andar e analisa o que está ocorrendo ao seu redor. Seu rosto e seus olhos são o retrato da tristeza. Ele vê mais do que animais e cambistas: um velho sendo enxotado por um agiota irritado; uma família pobre tentando comprar um cordeiro, mas cujas economias permitem comprar apenas pombas; uma frágil senhora sendo empurrada; uma garotinha perdida em prantos. O tumulto impossibilita qualquer um de se dedicar às orações. Jesus se enche de indignação. Ele se aproxima calmamente da barraca em que os agiotas fazem seus negócios. Eles empilham moedas sobre as mesas e conversam alegremente entre si. Jesus agarra uma das mesas com as duas mãos e a vira de cabeça para baixo. Vai até a próxima e faz o mesmo. Todos no Templo se viram ao ouvir o som das moedas se espalhando pelo chão. Na mesma hora, as pessoas saem correndo para catar o dinheiro.

- O que está fazendo? - grita um cambista.

- Mestre! - implora Judas, apanhando algumas das moedas em suas mãos. - Não!

Mas Jesus ainda não terminou. Ninguém pode impedi-lo. Ele vai até a mesa seguinte e vira outra mesa, que se choca contra uma gaiola e liberta um bando de pombas.

Judas vê um grupo de soldados romanos se enfileirando como uma tropa de choque diante da entrada do Templo.

- Jesus! Por favor! - insiste Judas. Ele não tem estômago para o tipo de revolução que Jesus está conduzindo. Quer estar em segurança, protegido. Teme ser jogado na prisão junto com Jesus e seus seguidores. Ao contrário dos outros discípulos, ele é um homem instruído, habituado aos costumes da cidade grande. - Se ao menos pudesse ouvir o que eu digo - lamenta Judas.

Mas Jesus não lhe dá ouvidos. Não dá ouvidos a ninguém. Outra mesa é virada.

- Por quê? - pergunta um vendedor, inconsolável ao ver todo o seu lucro espalhado pelo chão. - Por que fez isso?

- Não está escrito?

- Ora, do que você está falando?

- Não está escrito? - repete Jesus, desta vez em uma voz retumbante que ecoa por todo o Templo. No mesmo instante, o pátio cai em silêncio. - Minha casa... Minha casa deve ser chamada de casa de oração - prossegue Jesus. - Mas vocês a transformaram em um covil de ladrões.

Pedro e João contêm os mercadores furiosos que tentam atacar Jesus, que já terminou o que veio fazer ali e se afasta do pátio. Em seu rastro, ele deixa mesas viradas, comerciantes enraivecidos e o mais completo caos.

Nicodemos, o ancião do Sinédrio, dá um passo à frente. Judas fica tão impressionado com suas vestes suntuosas que quase tropeça em sua pressa de se curvar diante dele.

- Quem é você para nos dizer isto? Como ousa? Somos nós que interpretamos a lei de Deus... não você - diz ele a Jesus.

- Vocês mais parecem serpentes, e não professores da lei - responde Jesus com irritação.

Nicodemos não poderia estar mais chocado.

- Espere um instante. Você não pode falar assim! Nós respeitamos a lei. Servimos a Deus.

- Não - retruca Jesus. - Vocês fazem orações pomposas. Caminham com arrogância pelo Templo, impressionados com sua própria devoção. Mas não passam de hipócritas.

Nicodemos está pasmo. Isso não é jeito de falar com um homem como ele.

Jesus estende a mão e pega o tecido refinado da túnica de Nicodemos, esfregando os fios delicados entre os dedos.

- É muito mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico entrar no Reino de Deus - diz Jesus, soltando a túnica.

Todos no Templo ouviram as palavras de Jesus. Os peregrinos judeus que tinham viajado de tão longe até ali para a festa da Páscoa são inspirados por aquela postura tão corajosa contra os ricos e poderosos da elite religiosa que oprimem seu próprio povo tanto quanto os romanos. A única diferença é que eles usam ameaças e a lei de Deus para controlar o povo, em vez de força bruta.

Nicodemos olha ao redor com apreensão. Sente-se encurralado. A multidão está claramente apoiando Jesus. Do outro lado do recinto, os soldados romanos se preparam para agir caso a situação fuja ao controle. Uma intervenção desse ipo desacreditaria ainda mais os anciãos do Templo e o Sinédrio, de modo que Nicodemos fica calado enquanto Jesus se afasta. Haverá outras chances de lidar com ele.

O ancião percebe que um de seus discípulos, Judas, parece mais impressionado com o Templo do que com Jesus. Ele fita o homem com calma e recebe de volta um olhar de deferência.

- Messias! - entoa espontaneamente a multidão, enquanto Jesus deixa o Templo. - Messias!

Jesus não demonstra medo ao passar pela fileira de soldados romanos diante da entrada, com seus escudos a postos para qualquer sinal de tumulto.

As atitudes de Jesus no Templo haviam confirmado o que Caifás mais temia. Ele e alguns anciãos tinham assistido aos acontecimentos de uma sacada bem acima do Pátio dos Gentios. A cantoria da multidão continua a ecoar pelo amplo recinto bem depois de Jesus ter ido embora. Aquelas pessoas estão alucinadas por conta de sua visita, o que deixa os anciãos muito aflitos.

- Isto é um absurdo - exclama Caifás, furioso. Ele é um homem que exibe um comportamento estoico, preferindo dar a impressão de ser impassível e comedido haja o que houver. Por esse motivo, vê-lo transtornado desse jeito é extremamente preocupante para os seus colegas.

Ofegante, Nicodemos sobe as escadas e se junta a eles.

- Você não ajudou muito - diz Caifás.

- Ele é esperto - rebate Nicodemos. - O povo o adora. Esse homem tem algo de incomum, o que torna fácil para as pessoas se identificarem com ele.

- Não há absolutamente nada de incomum nele - explode Caifás. - Exceto seu talento para criar confusão.

Caifás se vira para observar novamente a cena, bem a tempo de ver um dos discípulos de Jesus se aproximar de Malco. Os dois trocam algumas palavras. A princípio, Caifás teme que o diálogo seja hostil, mas o que o discípulo diz a Malco parece surpreendê-lo. Os dois claramente chegam a um acordo e então se separam. Enquanto o discípulo sai correndo para alcançar seu mestre, Malco olha para Caifás lá em cima, na sacada. A expressão em seu rosto diz tudo o que o sumo sacerdote precisa saber. Judas trairá Jesus.

Caifás se volta para os anciãos.

- Acho que acabamos de descobrir uma maneira de lidar com esse tal Jesus.

Enquanto deixa o Templo, Jesus é seguido por seus discípulos, um grupo de novos e entusiasmados seguidores e alguns anciãos judeus que querem saber mais sobre seus ensinamentos. Malco os acompanha de longe, servindo de espião para Caifás.

Jesus conduz esta improvável procissão pelas escadarias do Templo; então, para de repente, vira para trás e encara seus seguidores.

Malco se esforça ao máximo para dar a impressão de que está ali por acaso, mas, a essa altura, seu objetivo é muito claro.

Jesus não lhe dá atenção. Em vez disso, ele se dirige aos seus discípulos como se não houvesse mais ninguém ali.

- Estão vendo este grande edifício? - diz Jesus. - Pois ele será reduzido a escombros.

Pedro e João trocam olhares. Jesus disse mesmo o que eles ouviram? Ele está ameaçando destruir o Templo?

Um ancião judeu o questiona:

- Quem é você para dizer uma coisa dessas?

Jesus continua:

- Destruam este Templo e eu o reerguerei em três dias.

- Mas ele levou 46 anos para ser construído - argumenta o ancião, chocado.

- Como isso seria possível?

Jesus não responde. Apenas se vira de repente e segue em frente, deixando seus discípulos intrigados.

- Do que ele está falando? - pergunta Tomé, que sempre desconfia de tudo.

- Destruir o Templo? Não entendo.

João possui uma visão e perspicácia ímpares entre os discípulos.

- Jesus está dizendo que não precisamos de um templo de pedra para prestarmos adoração. É através dele que iremos chegar a Deus.

- Sério? - questiona Tomé, novamente demonstrando sua incrível habilidade de duvidar de tudo.

Em seguida, João e Tomé se apressam para alcançar Jesus.
A residência de Pôncio Pilatos em Jerusalém é muito mais suntuosa do que sua casa em Cesareia, o que é bom, pois ele quase nünca se sente confortável em pôr os pés na rua quando está em Jerusalém. A cidade é totalmente judia, ao contrário de Cesareia, com sua arquitetura e população romanas. Ele se sente um estrangeiro em Jerusalém, vivendo em um pequeno mundo com um conjunto de leis e costumes diferente dos seus.

Enquanto Pilatos e Cláudia almoçam na varanda, Antônio, seu principal comandante militar, chega e os saúda. As notícias sobre o confronto de Jesus com os cambistas se espalha por Jerusalém em questão de minutos, mas é somente agora que Pilatos irá ouvir seu nome pela primeira vez.

Estamos almoçando - censura Pilatos, com rispidez.

- Lamento incomodá-lo, senhor. Mas um judeu vem causando problemas no Templo.

- É para isso que você veio interromper minha refeição?

- Senhor, ele atacou os cambistas e disse que irá destruir o Templo.

Pilatos solta uma gargalhada. É a primeira vez que Antônio vê Pilatos rir, e a visão lhe causa desconforto.

- Ele tem uma quantidade bem grande de seguidores - apressa-se a acrescentar Antônio.

O sorriso de Pilatos desaparece.

- Qual é o nome dele? - pergunta o governador.

- O povo o chama de Jesus de Nazaré.

Isso chama a atenção de Cláudia.

- Meus servos costumam falar sobre ele - intervém a esposa de Pilatos.

Pilatos lança um olhar intrigado para ela, depois volta a encarar Antônio. Ele já se decidiu.

- Este homem é problema de Caifás, não meu. Mas fique de olho nas pessoas que o seguem. Se elas fugirem ao controle, eu fecharei o Templo. Com ou sem festival. E estou falando sério.
Caifás e os sumos sacerdotes estão reunidos, discutindo a situação com Nicode-mos, seu servo Malco e um grupo seleto de anciãos.

- O que ele disse? - pergunta Caifás, incrédulo.

Malco é o primeiro a responder:

- Que iria destruir o Templo.

- Estou chocado. Se ele diz que é um homem de Deus, como pretende destruir a Casa do Senhor?

Caifás fica em silêncio, suportando as ondas de choque que castigam seu corpo. Aquilo é muito mais grave do que imaginava. Por fim, ele se pronuncia.

- Devemos agir rápido. Muito rápido. Mas com cautela. Não podemos detê-lo em público. Se fizermos isso, seus seguidores se rebelarão e Pôncio Pilatos irá retaliar. - Caifás faz uma pausa, elaborando um novo plano. - Devemos prendê-lo na calada da noite. Antes da Páscoa. Malco, como se chama aquele amigo dele, o que veio falar com você?

- Judas?

- Isso, Judas. Traga-o aqui. Mas seja discreto.

Malco assente e se retira às pressas.

Jesus e seus discípulos acampam na encosta do Monte das Oliveiras, cercados de peregrinos que viajaram até Jerusalém para o Dia Santo. Fumaça sobe das inúmeras fogueiras em direção ao céu noturno, e fileiras e mais fileiras de tendas se espalham pela encosta. Jesus bebe água de um córrego, enquanto Pedro tenta em vão reunir os discípulos para um debate.

- Alguém viu Judas? - pergunta Pedro.

Todos negam. Jesus olha para Pedro, mas não tem nenhuma resposta a lhe dar.

- Judas - chama Pedro, ao ver uma sombra perto das oliveiras -, é você?

Um homem encapuzado se aproxima da luz da fogueira. Um manto discreto

cobre suas vestes sacerdotais. Quando tira o capuz, Nicodemos revela seu rosto. Ele é membro do Sinédrio e fariseu, mas foi até ali sob a proteção da noite para ver com os próprios olhos quem é Jesus.

- O que está fazendo aqui? - pergunta Tomé.

- Acho que está perdido, senhor - acrescenta João.

Um homem tão proeminente quanto Nicodemos jamais se misturaria àquelas pessoas comuns.

Nicodemos parece tenso, então Jesus dá um passo à frente.

- Seja bem-vindo - diz ele de forma calorosa.

O ancião está claramente perturbado. Remói pensamentos e discursos preparados com antecedência, sem saber como explicar sua presença. A hospitalidade de Jesus o desarma e ele se junta aos homens diante do fogo.

- Dizem que você é capaz de realizar milagres. Que viu o Reino de Deus -começa Nicodemos.

- Você também pode ver o Reino de Deus - diz Jesus. - Mas, para tanto, precisa renascer.

- Renascer? O que quer dizer com isso? Como é possível? É óbvio que não podemos entrar no ventre de nossa mãe uma segunda vez.

- Você precisa renascer... mas não da carne, e sim da água e do espírito. Aquilo que nasce da carne é carne; e aquilo que nasce do espírito é espírito.

Uma brisa repentina sopra os cabelos de Jesus e chacoalha os ramos das árvores. Nicodemos ergue os olhos. Quando torna a baixá-los, vê que Jesus o encara firme.

- O vento sopra para onde quer - diz ele a Nicodemos. - Ouvimos o som dele, mas não sabemos de onde vem ou para onde vai. O mesmo acontece quando somos invadidos pelo espírito. Acredite em mim, Nicodemos, e terá a vida eterna.

- Acreditar em você?

- Pois Deus amou tanto o mundo que deu Seu filho único para que todos os que Nele crerem tenham a vida eterna.

Nicodemos está divido. Será que aquele homem é o Messias? Ou apenas mais um falso messias, um louco que afirma ser Deus?

Jesus sabe o que está passando pela cabeça do ancião.

odos os que praticam o mal odeiam a luz, pois temem que seus atos sejam por ela revelados. Mas os que praticam a verdade vêm ao encontro da luz.

Nicodemos se sente invadido por uma grande paz. Um luar intenso brilha no céu e uma brisa sopra suavemente.
Judas se esgueira pelas sombras, com a cabeça e o rosto cobertos por um capuz. Ele está a caminho de uma reunião com Caifás. Sabe que não pode ser visto, pois isso seria desastroso. Quando chega à entrada do palácio, Judas retira o capuz para que os guardas do Templo o deixem entrar. O discípulo é conduzido até os aposentos particulares do sumo sacerdote, onde se sente imediatamente desconfortável.

- É inegável que ele possui seguidores - começa a falar Caifás. - Especialmente entre os elementos menos instruídos da nossa sociedade. Mas você me intriga. Não parece ser um deles. Por que segue este homem?

- Não posso explicar Jesus para o senhor. Ele tem poder. É difícil colocar em palavras.

- Poder de promover agitação? Ou de criar problemas, talvez?

Judas parece constrangido.

- Ele diz coisas... coisas que outras pessoas não ousam sequer pensar, quanto mais dizer.

- Como destruir o Templo, por exemplo? - provoca Caifás.

Judas está extremamente aflito.

- Bem, imagino que se, e apenas se, ele fosse o Filho de Deus, então poderia realmente destruir o Templo. Mas por que faria isso? O verdadeiro Messias não deveria buscar unificar Israel, em vez de dividi-la?

- Não acha que seria melhor eu e ele termos uma conversa para resolver este assunto?

- Jesus não virá até aqui.

- Judas, duvido que seu amigo saiba até onde isso pode chegar. Se os romanos intervierem, o massacre será inimaginável. Eles já fizeram isso antes e podem voltar a fazê-lo. Será o fim do nosso Templo e possivelmente da nossa própria fé. É isso que você quer?

Judas fica calado enquanto o sumo sacerdote argumenta:

- Sua ajuda é muito importante. Só um amigo como você poderia trazê-lo até aqui. Discretamente, é claro.

Então Caifás olha dentro dos olhos de Judas e dá seu golpe final.

- Ajude-me, Judas. Ajude seu amigo. Salve-o de si mesmo antes que seja tarde demais.

- E se eu fizer o que me pede? O que ganharei com isso?

Ao ouvir estas palavras, qualquer dúvida que Caifás ainda pudesse ter de que Judas estava pensando em trair Jesus é dissipada. O sumo sacerdote estende a mão para uma mesa, em cima da qual há uma pequena bolsa. Caifás a apanha, erguendo-a no ar.

Judas engole em seco. Este é um momento de escolha.

- Eu aceito - diz o discípulo. Judas agarra a bolsa e as moedas de prata reti-

nem dentro dela.
Jesus volta ao Templo no dia seguinte, onde realiza milagres e faz sermões para o povo. A multidão em Jerusalém se torna cada vez maior. As pessoas se sentem libertadas e fortalecidas pela sua mensagem, usando a palavra Messias de forma quase casual, como se fosse do conhecimento de todos que Jesus é o Senhor. O crescimento do apoio popular a Jesus, especialmente durante a Páscoa, enche os sumos sacerdotes e os guardas do Templo de pavor. É preciso impedir uma rebelião a qualquer custo. Eles sabem qual seria a reação de Pilatos, pois um desdobramento desses seria visto como uma revolução. As autoridades religiosas, no entanto, não podem parar Jesus. Aquele homem é idolatrado, carismático e autêntico demais para que possam agir contra ele.

O mesmo não pode ser dito sobre Pôncio Pilatos. Ele nunca tinha visto nada parecido com o fervor das multidões reunidas no Templo e não tem dúvidas de que a situação está prestes a degringolar em uma rebelião maciça contra Roma. Assim, convoca o sumo sacerdote Caifás ao seu palácio e coloca tudo em pratos limpos:

- Dê um fim a esses distúrbios, ou o Templo será fechado. Não haverá Páscoa. - A ira contida nas palavras de Pilatos são um lembrete de que ele não é um governador qualquer. Ele é um soldado, um homem de ação que não vê o menor problema em derramar sangue. Seu desprezo pelos judeus é absoluto, de modo que ordenar o massacre e a crucificação dos acusados de dissidência será uma decisão fácil para ele. Pilatos é a lei em Israel. Caifás e os sacerdotes devem seus poderes a ele, e a ninguém mais.

Caifás fala diretamente aos sacerdotes, abordando sem rodeios o assunto que povoa a mente de todos eles.

- Não podemos mais esperar. É quase Páscoa. Precisamos capturar este desordeiro, este falso messias, ainda esta noite.

- E como sabemos que ele é um falso messias? - pergunta Nicodemos.

Um silêncio sepulcral cai sobre o recinto.

Caifás resiste ao impulso de repreender Nicodemos na frente de todos os demais.

- Ele cumpriu todos os sinais de um verdadeiro messias, conforme consta em nossas leis? - pergunta o sumo sacerdote com frieza.

Nicodemos se cala. É inútil discutir com Caifás.

E então, Nicodemos? - insiste Caifás. - Ele os cumpriu ou não?

Nicodemos permanece em silêncio. Há muitas coisas que deseja falar, vários

pontos que gostaria de debater, mas não diante das autoridades do Templo.

- Ele deve ser julgado de acordo com as nossas leis - ordena Caifás. - Ou eliminamos este homem, ou os romanos chegarão para destruir tudo o que trabalhamos nossas vidas inteiras para colocar de pé.

Nicodemos não consegue acreditar no que acaba de ouvir.

- Eliminar este homem? Está falando em executar Jesus?

- O que é a vida de um camponês delirante quando a sobrevivência do nosso povo está em risco? - pergunta Caifás enquanto se vira para sair, deixando Nicodemos perplexo e sozinho no imenso salão.

Do outro lado de Jerusalém, as ruas estão tranquilas e o ar da noite é fresco. Pedro e Judas se aproximam de uma pequena casa e batem à porta.

- Por que ele nos chamou aqui? - pergunta Judas.

- Jesus quer que jantemos com ele - explica Pedro.

- Uma refeição juntos? Antes da Páscoa? Que estranho.

A porta é aberta. Quem os recebe é Maria Madalena. Ela os convida a entrar, recebendo-os calorosamente.

- Estão todos lá em cima - diz, indicando o caminho com um gesto. Maria permanece no andar de baixo enquanto os discípulos sobem as escadas e entram em uma pequena sala. Uma simples mesa longa e baixa ocupa todo o espaço. Há lugar para cada um dos 12 discípulos se sentarem.

- Mestre - pergunta Judas a Jesus, que parece carregar um grande peso na mente. - Por que nos convidou a cear com você esta noite?

Jesus o encara firme e em seguida corre os olhos pelos outros discípulos presentes, mas não responde.

O grupo ora junto, pedindo a Deus que abençoe sua refeição e a união entre eles. O pão ázimo sobre a mesa está quente, pois acabara de sair do forno, e seu aroma fresco enche o recinto. Após a oração, os discípulos relaxam, recostando-se e partindo pedaços de pão. Mas, antes que possam comer, Jesus os surpreende com uma notícia arrasadora.

- Esta será nossa última refeição juntos - diz ele com tranquilidade.

Todos olham para Jesus, com pedaços de pão entre os dedos.

- E quanto à Páscoa? - pergunta Judas, um tanto rápido demais.

- Estarei morto antes da Páscoa - responde Jesus.

- O que quer dizer com isso? - questiona Pedro.

Jesus não responde, mas João se inclina para a frente e sussurra no ouvido de Pedro.

- Lembra-se daquela conversa quando estávamos a caminho de Jerusalém, quando ele profetizou que seria traído, capturado e condenado à morte?

João não precisa dizer mais nada. Pedro se lembra. A perspectiva o enche de pavor. Pedro havia abandonado tudo para seguir Jesus e tinha sido tão leal a ele quanto era humanamente possível. A ideia de que seu Mestre possa morrer parte seu coração.

- Não se preocupem - ordena Jesus. - Confiem em Deus. E confiem em mim. Vocês já conhecem o caminho que conduz ao lugar para onde vou.

Tomé está à beira das lágrimas.

- Mas não sabemos para onde está indo. Como podemos conhecer o caminho?

- Mas, Tomé, eu sou o caminho. Sou o caminho, a verdade e a vida.

Nem todos os discípulos são homens instruídos. Como Pedro, muitos deles são trabalhadores braçais, que estudaram apenas o suficiente para aprender o básico. Sendo assim, têm dificuldade em entender este conceito.

Então Jesus complica ainda mais as coisas. Ele parte um pedaço de pão e o entrega para João.

- Comam, este é o meu corpo - diz ele para todos.

Lágrimas escorrem pelas faces de João, mas ele compreende. Abre a boca e Jesus deposita um pedaço de pão em sua língua.

Em seguida, Jesus ergue um cálice de vinho.

- Este é o meu sangue. Ele será derramado para que seus pecados sejam perdoados.

Pão e vinho são passados de mão em mão pela sala.

- Lembrem-se de mim ao fazer isto. Em breve irei para junto do meu Pai, mas, quando comerem do meu pão e beberem de meu cálice, estarão proclamando minha Glória, e eu estarei sempre com vocês.

Judas parte um pedaço de pão. Pensamentos sobre as trinta moedas de prata que recebeu rodopiam em sua cabeça. Sente-se dividido quando ouve Jesus dizer que seus discípulos deveríam “amar uns aos outros, como eu os amei”. Mas ele volta à realidade quando Jesus compartilha uma nova informação:

- Mas agora devo lhes dizer - fala ele, enquanto seus discípulos lhe dedicam toda a atenção - que um de vocês me trairá.

O vinho é passado para Judas. Ele se esforça para manter a compostura, seus olhos agora fixos em Jesus.

- Quem? - pergunta João. - Qual de nós faria uma coisa dessas?

Jesus parte um pedaço de pão e o passa adiante.

- Aquele que comer deste pão irá me trair.

Todos os discípulos observam, petrificados, o pedaço de pão ser passado para Judas.

- Não sou eu - protesta Judas, segurando o pão, mas recusando-se a comê-lo.

- Eu seria incapaz de traí-lo, Senhor. Jesus não desvia os olhos de Judas. Por fim, encarando-o de volta com um olhar firme, o discípulo aceita o pedaço de pão. Ele o come e estremece. Os outros discípulos o encaram com uma expressão de puro horror.
- Seja rápido - ordena Jesus, dirigindo-se a Judas. Aterrorizado, o discípulo se levanta e corre em direção à porta. Pedro vai atrás
dele, indignado, sem saber ao certo se deve espancar Judas até deixar sua vida por um fio ou simplesmente segui-lo para se certificar de que não leve a cabo sua traição. Mas Jesus chama Pedro de volta.

- Pedro, deixe-o. Todos aqui me abandonarão. Até mesmo você. - Nunca, Senhor. Sou leal. Jamais irei traí-lo. - Pedro - diz Jesus -, antes que o galo cante ao raiar do dia, você terá me negado três vezes.
Antes que Pedro possa protestar, Jesus se levanta. - Venham. Vamos todos sair daqui.
Caifás está parado em seu palácio, com a cabeça erguida, na companhia de Ni-codemos. O sumo sacerdote transmite serenidade, enquanto Nicodemos se en-
contra profundamente apreensivo por conta do que está prestes a acontecer. A lei determina que qualquer homem deve ser julgado à luz do dia, mas está claro que Caifás quer condenar Jesus ainda naquela noite.

- Judas irá trazê-lo para nós antes do amanhecer - diz Caifás. - Mas isso é contra a lei - insiste Nicodemos. - Os julgamentos devem ser realizados à luz do dia!
- E a sua lei permite rebeliões? Convida os romanos a derramar sangue judeu? Você estava lá. Ouviu o que Pilatos disse. É então que Judas chega correndo. - Onde está ele? - pergunta o sumo sacerdote.

- Não sei - diz Judas. Quando Caifás o encara com um olhar fulminante, ele admite: - Mas sei para onde está indo.
Caifás aponta para Malco. - Leve meu servo até ele. Enquanto Malco conduz Judas para fora, Nicodemos confronta Caifás. - Por que ele viria para cá? - Ah, ele virá, Nicodemos. Seja como for, ele estará diante de mim esta noite e responderá por suas mentiras e seus atos de rebelião.

A luz de uma tocha tremula no rosto de Judas enquanto Malco e dez homens armados com porretes e espadas andam junto dele. Judas está afundado naquilo até o pescoço, porém, mesmo que ainda tenha dúvidas, é tarde demais para voltar atrás. O discípulo rebelado não tem escolha senão conduzi-los até Jesus. Ele está a caminho de Getsêmani.

- Para onde estamos indo? - pergunta Malco.

- Para o jardim - responde Judas, taciturno.

O jardim do Getsêmani está deserto, com exceção de Jesus e seus discípulos. Jesus sabe que o momento de abandoná-los, e de abandonar este mundo, se aproxima. Ele havia passado a última hora orando com fervor, porém, se os discípulos estão preocupados com o seu Mestre, eles têm uma maneira estranha de demonstrá-lo - estão todos enrascados no chão, adormecidos.

- O espírito é voluntarioso, mas a carne é fraca. Acordem - ordena Jesus depois de observá-los por alguns instantes. Ele precisa que seus discípulos testemunhem o que acontecerá em seguida. - Mantenham-se despertos. A hora está chegando.

Pedro havia enfiado um longo punhal em seu cinto. Ele torna a conferi-lo, planejando secretamente usá-lo se alguém atacar Jesus.

Jesus os deixa ali, voltando a subir devagar a colina para ficar sozinho com seu Pai. Ele sabe que Judas está prestes a chegar, liderando um grupo de homens que o levarão à força daquele jardim. Jesus precisa de coragem para suportar o que está por vir. Quando chega ao topo da colina do Monte das Oliveiras, ele imediatamente se põe de joelhos e começa a orar. Pressionando a testa contra o chão, junta suas mãos e faz a seguinte prece:

- Pai, se o Senhor assim desejar, afaste de mim este cálice. Que a Sua vontade seja feita, não a minha.

Ele é assaltado pela dúvida, porque é ao mesmo tempo humano e divino. Suor pinga da sua testa como grandes gotas de sangue, empoçando-se na terra. Ele é dilacerado pelo medo humano dos espancamentos e da imensa dor que irá sofrer. Jesus morrerá como homem e, após três dias, seu corpo - o Templo - será ressuscitado, para que toda a humanidade possa ser salva do castigo da morte. O Jesus divino sabe disso, mas o Jesus humano sente medo. Esses três dias parecem muito distantes. O Jesus terreno implora a Deus para ser poupado do sofrimento e da morte, o que é uma forma de tentação, semelhante àquela que Satã havia apresentado a ele no deserto três anos antes. Na verdade, Satã está à espreita no jardim neste momento, observando Jesus se agarrar à esperança de que sua vida seja poupada.

Jesus ouve o som da turba que se aproxima. As tochas iluminam o pé de uma olina, e suas vozes exaltadas cortam a noite. Sua cabeça permanece baixa, enquanto ele roga por forças para realizar o plano de seu Pai. O suor continua a lhe pingar da testa. Agora que a vontade de Deus está confirmada, ele é invadido pela determinação. Não pela paz, pois o que está prestes a suportar não lhe traz serenidade alguma, mas apenas determinação.

- A Sua vontade, Pai, é a minha.

Jesus se levanta e fica parado, sozinho, no pomar de oliveiras. De repente, seus discípulos chegam ao topo da colina e o cercam para protegê-lo. Tochas brilham na escuridão, marchando na direção de Jesus.

- É chegada a hora - diz Jesus para todos e para ninguém.

Judas se aproxima de Jesus e lhe dá um beijo no rosto.

Jesus não sente raiva ou desprezo, mas diz ao discípulo:

- Judas, você trai o filho do homem com um beijo? - Jesus entende que o papel de Judas é necessário para que o plano de Deus se concretize.

Furioso, Pedro saca seu punhal e corre em direção a Judas, que tenta escapar. Pedro o ataca, mas não consegue acertá-lo. Malco chega com os guardas do Templo e Pedro desfere outro golpe com seu punhal, arrancando a orelha do servo de Caifás.

- Fuja, Jesus - grita Pedro. - Fuja enquanto pode.

Malco se contorce, agonizante, enquanto o sangue escorre pelo lado do seu rosto. Sua orelha decepada cai ao chão, enquanto um círculo de tochas cerca Jesus e seus discípulos. Com tranquilidade, Jesus apanha de volta a orelha de Malco e estende a mão para a sua cabeça sanguinolenta. Malco se encolhe, acreditando que Jesus pretende atacá-lo. Mas é pego de surpresa quando Jesus ignora sua postura defensiva e toca de leve seu ferimento. Quando Jesus afasta a mão, Malco fica confuso ao notar que os poucos momentos de dor indescritível que acabara de sentir são como um sonho passageiro. Sua orelha está curada.

- Levem-no daqui! - exclama um guarda, enquanto Malco permanece atônito, tateando a própria orelha.

- Jesus - lamenta Pedro.

- Esta é a vontade de meu Pai, Pedro. É assim que deve acontecer.

Horrorizado, Pedro observa Jesus ser empurrado para a frente e agarrado por

dois homens fortes. Cercado por mais meia dúzia de guardas, ele é encapuzado e arrastado dali.

Os discípulos fogem noite adentro, apavorados, sabendo que suas vidas estão em risco. Somente Pedro ignora os apelos de João para que o acompanhe. Em vez de fugir, ele segue sorrateiramente a fileira de tochas pela colina abaixo, ansioso por saber para onde Jesus está sendo levado.

Como se estivesse em transe, Judas se põe a segui-lo pelo longo caminho que se estende para além das oliveiras.

PARTE NOVE

LIBERTAÇÃO

A noite vai pela metade em Jerusalém. Jesus foi espancado. Seu nariz está alquebrado, o sangue escorrendo pelo seu rosto. Seu corpo está ferido. Suas mãos estão atadas e presas por um grilhão. Os guardas do Templo puxam Jesus por uma corda até Caifás, o sumo sacerdote.

- Cubram-no! - exclama Malco. Uma manta pesada é jogada sobre ele para que os peregrinos que o apoiam não o reconheçam. - Digam a Caifás que capturamos Jesus - vocifera o servo enquanto o levam ao sumo sacerdote.

Judas segue a procissão até a casa de Caifás. Mas Malco segura com firmeza o ombro dele e o empurra porta afora.

- Você, não - diz o servo com olhar de desdém. - Não precisamos mais de você.

Judas vai embora, embrenhando-se na noite, sentindo um vazio imenso no coração.

A porta da casa se fecha. Caifás espera lá dentro. Os guardas do Templo conduzem Jesus até o centro do recinto. Malco retira a manta que cobre Jesus e recua em direção às sombras. Jesus e Caifás se preparam para o conflito iminente, embora nenhum dos homens diga nada. O contraste entre os dois é total. Jesus está ferido e sujo de sangue, suas mãos estão atadas e suas roupas simples, porém elegantes, estão imundas e rasgadas. Caifás veste uma túnica sofisticada e colorida; seu corpo está limpo. O sumo sacerdote olha dentro dos olhos de Jesus e fica petrificado por um instante. Aquele olhar irá assombrá-lo pelo resto dos seus dias. Caifás se empertiga, numa tentativa de reconquistar a autoridade perdida, e Jesus fica sozinho ali, sem um único amigo ao seu lado, mas inacreditavelmente no comando da situação enquanto aguarda o inevitável.

Nicodemos e os demais anciãos chegam ao recinto. Por ter sido espancado de forma tão brutal, Jesus tem o rosto terrivelmente desfigurado. Nicodemos e alguns dos recém-chegados se espantam diante daquela cena pavorosa.

- Você deve interromper isso agora mesmo - diz Nicodemos para Caifás. - É ilegal. Nossas leis determinam que julgamentos como este sejam realizados em um tribunal, à luz do dia, e em público.

- Estou fazendo o que é necessário - rebate o sumo sacerdote.

- Por que a pressa?

Caifás olha nos olhos de Nicodemos. Sua ira é um misto de inveja e ansiedade.

- Você ouviu o que Pilatos disse - rosna ele. - Ele fechará o Templo se houver mais problemas. Precisamos nos livrar deste homem. Ou Deus irá punir todos nós.

Mas e se ele for mesmo quem diz ser? - pergunta Nicodemos. - E se eíefor o Messias?

- Cabe a nós decidir isto!

- Cabe a Deus decidir isto - retruca Nicodemos.

- Deus nos orientará - responde Caifás.

- Mas como? - questiona Nicodemos. - Pois Deus ordena que obedeçamos às Suas leis.

- Deixe-me lembrá-lo do que diz a lei - diz Caifás, como se desse um sermão em Nicodemos, enquanto os dois homens caminham juntos pelo recinto. - Ela diz que qualquer um que desacatar um juiz ou um sumo sacerdote deverá ser condenado à morte. Qualquer um... - Eles param de andar.

Os dois homens avaliam um ao outro; então prosseguem em silêncio até a sala do tribunal.

A atmosfera ali é de hostilidade. No aposento em que Caifás normalmente passa seu tempo sozinho, espairecendo ao final do dia, os anciãos que compõem o Sinédrio estão reunidos para o julgamento de Jesus. As decisões destes homens são incontestáveis. O sol está prestes a nascer.

- Irmãos - começa a falar Caifás -, obrigado por terem vindo até aqui a esta hora. Vocês sabem que eu não lhes pediria isso se o assunto não fosse da maior gravidade. - Em seguida, com um gesto de mão, exclama com falsa reverência: - Eis o primeiro e único Jesus de Nazaré.

Jesus permanece calado e de olhos baixados.

- Jesus de Nazaré - entoa Caifás, com o tom de voz solene -, você é acusado de blasfêmia. Agora, vamos ouvir nossas testemunhas. - Caifás chama a primeira testemunha.

- Foi no Templo - diz o homem, dando um passo à frente, claramente intimidado. - Foi lá que ele curou uma mulher inválida.

Nicodemos não suporta olhar para Jesus. Está claro que tudo aquilo não passa de uma armadilha. Uma segunda testemunha é convocada a se pronunciar.

- Ele disse que iria destruir o Templo!

- Eu também o ouvi dizer isso - atalha um dos anciãos.

Caifás aponta seu dedo para Jesus.

- Você pretendia destruir o Templo! Como ousa? Isto é uma rebelião contra o Senhor nosso Deus. Diga-me, qual é a sua resposta a essas acusações?

Jesus fica calado. Nicodemos o encara, incitando-o a se defender. Mas Jesus permanece impassível. Sua decisão já foi tomada. Ele reúne forças para o suplício que está por vir.

- As evidências apresentadas pelas testemunhas são claras e inequívocas. Meus irmãos, nós já vimos falsos profetas no passado e tornaremos a vê-los no futuro. Mas jamais haverá outro tão falso quanto este!

Um burburinho de aprovação se espalha pelo recinto.

Uma nova voz se pronuncia, vinda de um ancião.

- Um profeta nos traz novas palavras de Deus. Não é mesmo?

Nicodemos fica perplexo. Finalmente alguém concorda com ele.

- Se sufocarmos todas as vozes, como reconheceremos um profeta quando o ouvirmos? - prossegue o ancião.

Caifás fica embaraçado. Ele decide se esquivar da pergunta.

- Tem razão, José de Arimateia. Como saberemos? Eu lhe digo: devemos ouvir e julgar. Então convido este homem, este “profeta”, a falar. - Ele se vira para Jesus. - Você é Cristo, o Filho de Deus?

A cabeça de Jesus está baixada. Ele mantém silêncio. Sangue pinga de suas feridas.

- Não tem nada a dizer? - pergunta Caifás.

Jesus levanta a cabeça devagar. Seu corpo se enrijece. Ele se empertiga. Por fim, olha bem dentro dos olhos de Caifás.

- Vocês verão o filho do homem sentado à direita de Deus e vindo sobre as nuvens do céu.

- Impostor! - grita Caifás, rasgando sua túnica para pedir perdão a Deus por ter ouvido tais palavras. - Blasfemo! Devemos votar agora mesmo! - Caifás fica tão enfurecido que perde totalmente a razão.

Jesus sabe qual será o seu veredicto e a sua sentença antes mesmo de a votação ser feita.

José de Arimateia e Nicodemos balançam a cabeça diante daquele embuste, mas sentem-se incapazes de evitá-lo.

- A sentença é a morte - exclama Caifás.

- Isso está errado - grita José. - O veredicto apresentado é uma vergonha para este conselho.

Caifás o ignora.

Os seguidores de Jesus haviam se reunido no Templo. Normalmente, este seria o local para onde o acusado seria levado - e exatamente por isso Caifás ordenou que Jesus fosse levado à sua casa. Os discípulos Maria Madalena e João abrem caminho pelo aglomerado de tendas e peregrinos adormecidos. Eles são encarados pelos guardas do Templo, que os reconhecem por conta de suas várias aparições junto de Jesus.

Maria Madalena vê Maria, mãe de Jesus, vagando pela multidão. Sua expressão é de profunda angústia. Os discípulos vão correndo ao seu encontro.

- Maria! João! Onde está meu filho?

- Jesus foi preso, mas não sabemos para onde eles o levaram - responde Maria Madalena.

Preso? - responde Maria. - À noite?

Desde o dia em que o anjo Gabriel lhe disse que ela daria à luz o Messias, Maria sabia que este momento chegaria.

João corre os olhos pela multidão.

- Ele não está aqui. Deve ter sido levado para algum local secreto, para que não haja nenhum protesto.

O sol se ergue devagar e vermelho sobre o Templo.
As portas do palácio de Caifás são abertas. Pedro está parado diante delas quando Jesus é arrastado para fora. Durante toda a noite, ele havia colocado sua própria vida em risco ao aguardar por notícias de Jesus, na esperança de que pudesse ajudar de alguma forma.

Muitos outros seguidores tinham ido até lá, pois a notícia da captura de Jesus havia se espalhado rapidamente e surgiram rumores de que ele poderia estar no palácio. A multidão fica desconsolada ao ver seu corpo castigado daquela forma, o rosto coberto de sangue seco e hematomas em volta dos olhos.

Então Malco lê o seguinte comunicado ao povo:

- Saibam todos que Jesus de Nazaré foi julgado pela suprema corte dos anciãos do Templo. Ele foi considerado culpado de blasfêmia e de ameaçar destruir o Templo. Sua sentença é a morte.

A multidão fica horrorizada. Judas, que havia passado a noite inteira ali fora, atira o saco de moedas de prata contra Malco.

- Pegue seu dinheiro de volta! - grita ele, transtornado. Não pretendia que nada daquilo acontecesse. As moedas retinem no chão de paralelepípedos, espa-lhando-se aos pés de Malco.

Um guarda corpulento se aproxima de Pedro.

- Você não me é estranho.

Pedro não se assusta tão fácil.

- Não sei do que está falando.

- Você o conhece - diz o guarda, agarrando Pedro. - Já vi você chamando-o de mestre.

- Não - diz Pedro. - Eu não tenho nada a ver com ele.

- Este homem é um deles - grita uma mulher, apontando para Pedro.

Ele se vira para confrontá-la.

- Acredite, eu não o conheço.

Pedro vê Jesus sendo arrastado para longe e se sente frustrado por não poder ajudar aquele homem que significa tanto para ele. Quando ouve o cantar de um galo, Pedro se lembra das palavras de Jesus dizendo-lhe que, antes do amanhecer, ele teria negado conhecer seu querido amigo e mestre. O homem rude e duro soluça de agonia. Reunindo toda a sua coragem, decide ir atrás de Jesus. Pedro deseja se aproximar dele e pedir perdão - ainda que morra tentando libertá-lo da sua escolta. Mas não é possível. Os guardas do Templo já haviam levado Jesus embora.

- Onde está meu filho? - pergunta Maria. Ela está parada diante de Pedro. A multidão havia se dispersado e ela encontra o pescador em prantos, deitado sozinho na sarjeta.

- Eles o condenaram.

Maria solta um arquejo de horror.

- Seu filho foi levado embora. Não sei para onde, mas ele não está mais aqui. -Pedro se levanta devagar, amparado por João. A humilhação está estampada em seu rosto. João percebe, mas nada diz ao amigo.

- Eu disse a eles que não o conhecia - murmura Pedro, inconsolável. Ele se afasta e desaparece rua afora.

Maria lentamente se deixa cair no chão. Seu coração de mãe percebe com clareza que o raiar do dia traz poucas esperanças. Os discípulos estão desamparados e impotentes contra a autoridade do sumo sacerdote.

Mas Caifás enfrenta sérios problemas. Ele sabe que não pode executar Jesus, pois, se a suprema corte judaica conduzir uma execução pública desse gênero, os seguidores do homem ficarão enfurecidos e criarão exatamente o tipo de revolta que ele quer evitar. Mas os romanos podem fazer tudo.

- Preciso falar com Pôncio Pilatos - diz Caifás para Malco, enquanto termina de colocar suas suntuosas vestes de Páscoa.
Pilatos está diante de um lavatório em sua residência. Quando termina de enxaguar o rosto, um servo lhe entrega uma toalha.

- Onde está minha esposa? - pergunta Pilatos. - Já amanheceu. Ela já deve estar acordada a esta hora.

Neste exato momento, a serva da esposa de Pilatos surge diante da porta.

- Senhor, por favor, venha rápido.

Pilatos a acompanha imediatamente. Atravessam às pressas um corredor até o quarto de Cláudia, que está deitada na cama, encharcada de suor e ofegante. Ele se senta ao seu lado para confortá-la.

- Eu vi um homem - diz Cláudia. - Em um sonho.

Os sonhos são levados muito a sério pelos romanos, que os consideram previsões do futuro. Eles jamais devem ser ignorados.

- Conte-me a respeito - pede Pilatos.

- Eu vi um homem sendo espancado e morto. Ele era inocente. Um homem santo - diz ela, acrescentando em seguida: - Um homem bom.

Pilatos lança um olhar para a serva.

- Ajude sua patroa a se recompor.

Cláudia resiste.

- Meu amado, dê atenção a este sonho. Acredito que seja um alerta.

- E por quê?

- Porque, em meu sonho, é você quem mata esse homem.

O vento matinal faz os ramos de uma gigantesca e antiga oliveira oscilarem à medida que Jerusalém dá as boas-vindas a um novo dia. Seus galhos grossos e retorcidos se erguem até as alturas. Judas Iscariotes escolhe um dos galhos, ansioso para terminar logo com aquilo. Conseguiu arranjar o cabresto de um cavalo. Não vai servir tão bem em volta do pescoço quanto o laço de uma forca, e talvez ele se debata por mais tempo antes de perder a consciência do que se usasse uma corda, mas cada minuto de dor será merecido. Será que Deus terá misericórdia de sua alma? É o que se pergpnta.

Judas passa o cabresto em volta do pescoço. O couro áspero arranha sua pele. Ele prende a outra extremidade do arreio em volta do galho grosso, puxando-o para se certificar de que está bem firme. Ele lança um último olhar para Jerusalém. Então salta.

Nicodemos sai do Templo, atordoado pela hipocrisia e pela arrogância que acabara de testemunhar. Ainda é cedo e os peregrinos acampados cozinham suas refeições matinais, apressando-se para preparar o banquete da Páscoa.

- O senhor sabe onde está Jesus! - exclama uma voz.

Nicodemos dá meia-volta ao ouvi-la. Isso é muito incomum. Normalmente, um cidadão de Jerusalém jamais questionaria um ancião do Templo. Nicodemos não reconhece a voz de João, o discípulo, de modo que continua andando.

- Espere - grita João. - Por favor, nós conhecemos o senhor. O senhor veio vê-lo. Conversou com ele. Eu estava lá.

Nicodemos olha para o discípulo.

- Ele foi levado embora.

- Para onde? Por favor, me diga.

- Em breve ele estará nas mãos dos romanos.

- Romanos? - pergunta João, confuso. - Ele nunca falou nada contra Roma.

- Caifás irá entregá-lo aos romanos - explica Nicodemos com o coração pesado. - E não há nada que possamos fazer para trazê-lo de volta.

Enquanto João assimila as implicações daquilo, Nicodemos segue seu caminho. Pois o que ele disse é a mais pura verdade: assim que um homem é entregue aos romanos, as chances de ele ser libertado ou escapar de uma execução são quase nulas.
Pilatos está cuidando de assuntos de Estado na residência oficial do governador romano quando Caifás é anunciado. O sumo sacerdote está preparado. Ele sabe que suas próximas palavras devem ser ditas da forma mais precisa possível.

- Governador, precisamos da sua ajuda - diz Caifás. - Prendemos um criminoso perigoso e o condenamos à morte.

- E daí? Quando será a execução?

Caifás se aproxima um pouco mais, separando as mãos como se quisesse se justificar.

- Nós, membros do Sinédrio, não podemos fazer isso. Estamos na Páscoa, entende? É contra a nossa lei. - Enquanto fala, Caifás curva sua cabeça com deferência. Pilatos o encara com um olhar de desdém.

- Então execute-o depois da Páscoa - diz Pilatos. - Qual o problema de deixar o homem vivo por mais alguns dias?

- Em circunstâncias normais, eu concordaria com o senhor. Mas este homem é uma ameaça iminente. E não só para nós, como também para Roma. Ele afirma ser o nosso rei e está usando essa mentira para instigar o meu povo a se rebelar. Este homem podería muito bem trazer a ruína para Jerusalém.

Pilatos olha para Caifás. Ele se pergunta como uma criatura tão presunçosa poderia ter chegado ao topo da hierarquia religiosa judaica. A paciência de Pilatos com aquele homem está no limite.

- Defendo a punição imediata de qualquer criminoso - rosna ele -, mas somente quando eles violam a lei. Preciso de provas de que este homem fez isso... 1 ou Roma ficará contrariada.

- Ele violou a lei, governador. Isso eu lhe garanto - responde Caifás.

- É melhor que tenha razão - diz Pilatos, fulminando Caifás com um olhar j mortífero. - Se estiver me fazendo perder tempo, irá pagar caro por isso. - Ele se j volta para seus guardas. - Mostrem-me esse prisioneiro.

Um capuz roto e manchado de sangue cobre a cabeça de Jesus, que está prostrado 1 no cárcere localizado no interior da residência de Pilatos. Aquele já havia sido o lar 1 de Herodes, o Grande, que jogara seus próprios filhos naquelas mesmas celas. Por i decisão de seu pai, o destino deles fora a morte. O mesmo destino se abateu sobre j João Batista. Agora, Pilatos irá decidir se Jesus deve enfrentar punição semelhante.

O governador romano entra na cela. Um guarda retira o capuz de Jesus. O Messias ergue lentamente os olhos para fixá-los em Pilatos, que fica tão perturbado quanto Caifás ficara anteriormente diante daquele olhar.

- E então - começa a falar Pilatos após uma longa pausa. - Você é o Rei dos Judeus?

Jesus fica calado.

- Dizem que você insiste nisso.

- É isso que o senhor pensa ou está apenas repetindo o que outros lhe disseram a meu respeito? - responde Jesus com tranquilidade, pois não teme homem algum.

Pilatos recua um passo e desvia o olhar por alguns instantes.

- O seu próprio povo diz isso - responde o governante, recuperando a compostura. - Então, diga-me: você é um rei?

- Meu reino não pertence a este mundo - responde Jesus. - Se fosse o caso, meus súditos se oporiam à minha prisão.

- Então você é um rei.

- O senhor está certo quando diz que sou um rei. Nasci e vim a este mundo para dar testemunho da verdade; todos os que são pela verdade ouvem minha voz.

- Verdade? O que é a verdade? - exige saber Pilatos.

Jesus fica calado. Ele sorri e ergue os olhos para a fina nesga de luz que entra na cela escura. O sol banha o seu rosto. Furioso, o governador sente vontade de estapear aquele prisioneiro insolente - mas, de repente, algo o detém. Ele fita Jesus pelo que parece uma eternidade. Há algo de incomum naquele homem.

Quando Pilatos retorna ao seu escritório, Cláudia está lá para recebê-lo.

- E então? - pergunta ela.

- Eles querem que eu o crucifique - responde Pilatos.

- Você não pode fazer isso. Eu imploro.

- Por quê? Ele é apenas um judeu. Dizem que quer iniciar uma revolução.

- Ouça o que eu digo, meu amor, este é o homem do meu sonho. O homem que eu vi você matar. Por favor, não faça isso. O sangue dele estará em suas mãos.

- E se eu não fizer? Como irei explicar uma rebelião para Roma? Caifás certamente testemunhará que o culpado fui eu. Se houver uma insurreição, César colocará a culpa em mim. Ele já me alertou uma vez. Não tornará a fazê-lo. Será o meu fim... o nosso fim.

Pilatos caminha até a janela. Os apelos de sua esposa somam-se às pressões do seu cargo, algo que ele nunca sentira antes. Ele vê os peregrinos nas ruas lá embaixo carregando os animais que compraram para serem sacrificados. Pilatos começa a desejar ter ficado em Cesareia, ainda que apenas para estar longe daquele maldito Caifás e suas manobras políticas. Mas, se tivesse feito isso, aquele tal de Jesus poderia muito bem ter iniciado uma rebelião e, quando Pilatos retaliasse com violência, Jerusalém talvez acabasse em chamas. Já havia acontecido antes e podería acontecer de novo. Não... Pilatos está feliz por estar em Jerusalém, determinado a sobreviver aos próximos dias. Mas sua esposa tem razão: ele não quer o sangue de Jesus em suas mãos.

Cláudia pousa a mão em seu ombro, mas permanece calada, pois sabe que seu marido geralmente precisa se concentrar antes de tomar uma atitude.

- Traga-me Caifás - diz Pilatos alguns instantes depois. - Eu tenho um plano.
Pilatos recebe Caifás e os anciãos com um desprezo incontido.

- Estive com Jesus e cheguei à conclusão de que ele é culpado apenas por ser mentalmente perturbado. Isso não é crime em Roma.

- Ele desobedeceu à lei - protesta Caifás.

- A sua lei - retruca Pilatos, mantendo a calma. - Não a de César. - O governador encara firme Caifás. - Dê uma lição neste homem. Aplique 39 chibatadas nele e expulse-o da cidade. Esta é a minha sentença.

- Isso é tudo? Governador, não posso ser responsabilizado pelo que o nosso povo pode vir a fazer se o senhor libertar um homem que violou nossas leis sagradas. Especialmente no dia de hoje, quando os olhos estão voltados para Deus.

- O povo? - responde Pilatos com sarcasmo. Ele sabe o que fazer em seguida, embora Caifás tente assumir o controle da situação. - Segundo a lei de César, eu posso libertar um prisioneiro durante a Páscoa. Deixarei “o povo” decidir qual dos meus detentos deve ser crucificado e qual deve ser libertado.

Caifás sabe que está sendo enganado. Atônito, ele sequer consegue falar.

- Tragam o prisioneiro - ordena Pilatos.

A essa altura, uma multidão está reunida diante dos portões da residência do governador, espiando o pátio vazio através das enormes grades de ferro. A notícia de que Jesus será açoitado já havia chegado até eles. Muitos querem testemunhar a barbaridade pública e se divertir com os procedimentos carnavalescos que acompanham um bom açoitamento.

Jesus é arrastado até o pátio por dois soldados romanos. Seu rosto está sujo de sangue seco, seus olhos estão tão inchados que ele nem consegue abri-los.

Maria, sua mãe, arqueja de horror. A túnica de Jesus é rasgada nas costas, expondo sua carne. Os soldados apanham seus açoites. Uma só chibatada daquelas já era um exercício de agonia, capaz de deixar um homem marcado pelo resto da vida.

- Eles vão matá-lo - sussurra Maria para Maria Madalena, com o coração apertado de dor.

João olha para as mulheres com um ar protetor. Os dois soldados se posicionam, um de cada lado de Jesus, prontos para açoitá-lo, revezando-se no trabalho. Um terceiro soldado chega ao pátio trazendo um ábaco para contabilizar os golpes e comunicar a Roma que todos os 39 foram aplicados.

Jesus lança um olhar em direção à sua mãe. A angústia dela é imensa, mas quando os olhos de seu filho se cruzam com os seus, ela sente que há um vínculo poderoso entre os dois. É como se ele quisesse tranquilizá-la, lembrando-lhe de que é assim que deve ser.

O açoitamento começa. Jesus não grita, enquanto a multidão se espanta diante da brutalidade do espetáculo. A punição excruciante e o suplício que Jesus está prestes a suportar já haviam sido previstos. Isaías, o profeta, escrevera certa vez que um salvador viria para ser “traspassado por conta de nossas transgressões. Esmagado por conta de nossas iniquidades. E, pelo seu flagelo, seremos curados”.

De uma janela que dá vista para o pátio, Pilatos e Cláudia observam o terrível procedimento. Ela se encolhe a cada chibatada, mas Pilatos já viu muitos açoi-tamentos.

- É como se ele soubesse que isso tinha de acontecer - diz Pilatos, assombrado.

Uma última conta do ábaco desliza da esquerda para a direita. Agora, as 39

chibatadas estão devidamente registradas.

Jesus se agarra ao poste, sua vida por um fio, mas ainda respirando. Quando suas mãos são desamarradas, em vez de cair ao chão, ele se mantém de pé - castigado, mas não vencido.

Então é levado de volta às masmorras. Os guardas, famosos por sua impiedade - sobretudo em relação aos judeus haviam se mantido ocupados durante o açoitamento. Jesus é motivo de piada entre eles, que mal podem esperar para tirar vantagem do fato de ele se autoproclamar rei. Um guarda teve a ideia de usar ramos espinhosos para trançar uma coroa, com espinhos longos despontando de todos os ângulos. Ele a coloca na cabeça de Jesus, empurrando para baixo com força e arrancando sangue à medida que suas pontas afiadas se enterram na carne.

- Rei dos Judeus! - exclama o soldado, que, após uma longa mesura diante de Jesus, faz uma dancinha irônica.

Um dos soldados que espancara Jesus limpa o sangue das mãos e joga o pano vermelho sobre os ombros do nazareno como se fosse um manto de arminho. Todos os carcereiros acham isso hilariante.

Pilatos ordena que os portões do palácio sejam abertos. A multidão entra em enxurrada, sem ter certeza do que vai acontecer. Todos sabem que Pilatos tem permissão para libertar um homem escolhido por eles antes da Páscoa, um dos muitos eventos típicos desse período. Estão curiosos para descobrir quem será libertado. Jesus, sem dúvida, está fora de cogitação. Ele foi punido e a essa altura já deve estar livre. É assim que funciona a lei. Portanto, terão que aguardar pacientemente por suas opções.

Pilatos havia se esquivado com maestria da exigência de Caifás de crucificar Jesus, deixando o veredicto final a cargo da multidão de peregrinos.

O sumo sacerdote, no entanto, não se dá por vencido. Ele busca se certificar de que os peregrinos admitidos na praça votem contra Jesus. Os judeus do povo não têm chance de opinar sobre a questão. Malco, o servo de Caifás, e os guardas do Templo estão diante dos portões, impedindo a entrada de qualquer um que apoie o homem de Nazaré. Tumultos começam a surgir quando muitos dos que vieram até ali extravasam sua frustração por não poderem entrar. Eles soltam gritos de protesto, que são completamente ignorados pelos soldados romanos que protegem o palácio.

Maria, João e Maria Madalena estão do lado de fora. Só lhes resta observar, incrédulos, enquanto um bando de simpatizantes do sumo sacerdote se prepara para selar o destino de Jesus.

Pôncio Pilatos aparece em uma janela acima do pátio e a multidão cai em silêncio para ouvir o que ele tem a dizer.

Um assassino careca é conduzido até o pátio, seguido por Jesus, que usa a coroa de espinhos.

- Eu lhes dou a seguinte escolha - diz Pilatos. - Vocês podem optar entre Barrabás, um assassino, ou este homem... um pregador que afirma ser o seu rei.

As palavras arrancam risadas e zombarias da multidão. Caifás, agora ao lado de Pilatos, diz:

- O único rei que temos é César.

Guardas do Templo caminham por entre a multidão, sussurrando instruções para as pessoas, que meneiam afirmativamente a cabeça em resposta.

- Crucifiquem-no! - gritam espontaneamente alguns dos presentes, que haviam estado calados até então.

Maria, mãe de Jesus, fica horrorizada. Ela leva as mãos ao rosto, cobrindo a boca de pavor.

Quando vê a expressão no rosto de Caifás, Pilatos sabe que já têm sua resposta.

- Decidam! - grita ele para a multidão.

- Barrabás - exclama o povo de volta. - Liberte Barrabás.

Do lado de fora dos portões, Maria, João e Maria Madalena protestam em defesa de Jesus, assim como muitos outros ao seu redor. Mas suas vozes não podem ser ouvidas em meio aos gritos de “Barrabás, Barrabás, Barrabás” que vêm do pátio.

Pilatos está atônito. Ele olha para Caifás, e então torna a fitar a multidão.

- Vocês estão escolhendo um assassino - diz Pilatos enquanto balança a cabeça. - Libertem-no - ordena para seus guardas.

Perplexos, os soldados abrem com relutância as algemas de Barrabás. A multidão vibra; os olhos do assassino brilham de alegria.

- E este infeliz - grita Pilatos para a multidão. - O que devo fazer com ele?

- Crucifique-o! Crucifique-o!

O clamor que vem do lado de fora é: “Liberte-o!”

Pilatos silencia a multidão.

- Como podem condenar este homem e poupar um assassino?

- Crucifique-o! Crucifique-o! Crucifique-o!

- Muito bem - diz ele por fim. - Crucifiquem-no.

Pilatos se encaminha até uma bacia d agua próxima e lava as mãos. É um gesto calculado, que reproduz um costume dos hebreus e gregos para demonstrar que a pessoa se isenta de qualquer responsabilidade.

- O sangue deste homem não está em minhas mãos - diz ele, na esperança de se livrar da culpa.

Pilatos sabe que Jesus é inocente e que pode evitar sua morte. Ele tem o poder e deveria simplesmente dispersar aquela multidão. Mas, em vez de lutar pela verdade, ele está seguindo o caminho mais fácil da conveniência política. Aquele é um período perigoso em Jerusalém, que abriga mais de um milhão de judeus e menos de mil soldados romanos. Pilatos não pode se arriscar a uma rebelião daquele tipo, pois ela chegaria aos ouvidos de Roma e de César.

Pilatos seca as mãos. Aquela crucificação já não é mais problema dele.
Faz seis dias que Jesus recebeu as boas-vindas ao chegar em Jerusalém. Agora, está prestes a ser crucificado em uma colina afastada da cidade, pois a lei judaica não permite execuções dentro dos seus muros. Dois criminosos também serão crucificados no mesmo horário.

A crucificação, que consiste em pregar um homem a uma cruz de madeira, é o método padrão de pena capital para os romanos. É um castigo desumano. O condenado pode levar dias para morrer, pendurado sozinho na cruz até sua vida se esvair. Além dessa morte atroz, Jesus ainda precisa suportar o tormento de arrastar sua cruz pelas ruas de Jerusalém. Ele manqueja, seguido de perto por um guarda montado a cavalo pronto para açoitá-lo se ele cair ou largar a cruz. Muitos daqueles que não tiveram a chance de votar por sua vida o acompanham de longe, forçados a recuar por uma falange de soldados romanos que se certificam de que ninguém o ajude a escapar.

Jesus está em agonia enquanto segue a duras penas em direção à sua morte. O peso da cruz verga seu corpo, enquanto a coroa de espinhos lhe inflige uma nova explosão de dor a cada vez que a cruz se choca contra ela. As muitas surras que levou nas horas que se seguiram à sua captura tornam quase impossível respirar, pois seus carcereiros o chutaram e esmurraram repetidas vezes nas costelas.

Ainda assim, ele vê tudo. Tanto os rostos compassivos quanto os nem tão ompassivos assim na multidão. Também vê Maria, sua mãe. Ele tropeça e sente o estalar de um açoite romano contra seu corpo quando cai no chão. Estende o braço para se endireitar, espalmando a mão contra um muro de pedra e deixando uma impressão em sangue. Enquanto Jesus segue em frente para continuar sua impiedosa marcha, uma mulher pousa sua própria mão contra a marca deixada por ele. Ela chora, pois sabe quem Jesus é de verdade.

O chão é de paralelepípedos, de modo que a cruz segue aos solavancos pelo caminho. A distância entre o palácio de Pilatos e o Gólgota, onde Jesus irá morrer, é de cerca de 500 metros.

Jesus sabe que não conseguirá chegar. Ele cospe um bocado de sangue e cai de joelhos. Larga a cruz e se encolhe no chão. Em um piscar de olhos os soldados romanos estão sobre ele, desferindo uma saraivada de chutes e socos contra o seu corpo indefeso. Maria corre em direção ao filho para socorrê-lo, mas um guarda romano a agarra com violência, atirando-a para trás.

- Por favor - diz João, arriscando a própria vida ao sair do meio da multidão. - Esta é a mãe dele!

Lágrimas escorrem pela face de Maria. O guarda se aproxima de João com uma carranca ameaçadora, mas o discípulo não se deixa intimidar.

- Tenha misericórdia. Por favor!

Maria não consegue se conter. Ela se lança para a frente e cai de joelhos ao lado do filho. Envolve-o em seus braços, e este será o último abraço dos dois. Os olhos de Jesus estão fechados e ele mal consegue reagir.

- Meu filho - soluça Maria.

Jesus se obriga a abrir os olhos.

- Não tenha medo - diz ele para a mãe. - O Senhor está com você. - Jesus repete as exatas palavras que Gabriel lhe dissera quando ela ainda era uma jovem virgem e recebeu a visita do anjo. Suas palavras lhe dão forças e sua expressão de ternura a enche de coragem. Ela tenta ajudá-lo com a cruz. Se pudesse, a carregaria em seu lugar, mas sabe que é para fazer isso que ele veio ao mundo.

Então, de repente, Maria é afastada do filho. Os soldados açoitam seu corpo caído, mas é óbvio que ele é incapaz de continuar carregando a cruz. Um homem, Simão de Cirene, é escolhido por conta de sua força e suas costas largas e obrigado a carregar a cruz para Jesus. Os dois homens cruzam olhares, então suas mãos se unem para erguer a madeira pesada. Juntos, eles dividem o fardo. Passo a passo, ambos vencem a longa caminhada até o local da crucificação.
- Coloque estas palavras -

JESUS DE NAZARÉ: REI ompassivos assim na multidão. Também vê Maria, sua mãe. Ele tropeça e sente o estalar de um açoite romano contra seu corpo quando cai no chão. Estende o braço para se endireitar, espalmando a mão contra um muro de pedra e deixando uma impressão em sangue. Enquanto Jesus segue em frente para continuar sua impiedosa marcha, uma mulher pousa sua própria mão contra a marca deixada por ele. Ela chora, pois sabe quem Jesus é de verdade.

O chão é de paralelepípedos, de modo que a cruz segue aos solavancos pelo caminho. A distância entre o palácio de Pilatos e o Gólgota, onde Jesus irá morrer, é de cerca de 500 metros.

Jesus sabe que não conseguirá chegar. Ele cospe um bocado de sangue e cai de joelhos. Larga a cruz e se encolhe no chão. Em um piscar de olhos os soldados romanos estão sobre ele, desferindo uma saraivada de chutes e socos contra o seu corpo indefeso. Maria corre em direção ao filho para socorrê-lo, mas um guarda romano a agarra com violência, atirando-a para trás.

- Por favor - diz João, arriscando a própria vida ao sair do meio da multidão. - Esta é a mãe dele!

Lágrimas escorrem pela face de Maria. O guarda se aproxima de João com uma carranca ameaçadora, mas o discípulo não se deixa intimidar.

- Tenha misericórdia. Por favor!

Maria não consegue se conter. Ela se lança para a frente e cai de joelhos ao lado do filho. Envolve-o em seus braços, e este será o último abraço dos dois. Os olhos de Jesus estão fechados e ele mal consegue reagir.

- Meu filho - soluça Maria.

Jesus se obriga a abrir os olhos.

- Não tenha medo - diz ele para a mãe. - O Senhor está com você. - Jesus repete as exatas palavras que Gabriel lhe dissera quando ela ainda era uma jovem virgem e recebeu a visita do anjo. Suas palavras lhe dão forças e sua expressão de ternura a enche de coragem. Ela tenta ajudá-lo com a cruz. Se pudesse, a carregaria em seu lugar, mas sabe que é para fazer isso que ele veio ao mundo.

Então, de repente, Maria é afastada do filho. Os soldados açoitam seu corpo caído, mas é óbvio que ele é incapaz de continuar carregando a cruz. Um homem, Simão de Cirene, é escolhido por conta de sua força e suas costas largas e obrigado a carregar a cruz para Jesus. Os dois homens cruzam olhares, então suas mãos se unem para erguer a madeira pesada. Juntos, eles dividem o fardo. Passo a passo, ambos vencem a longa caminhada até o local da crucificação.

De volta ao seu palácio, Pôncio Pilatos continua a travar sua batalha com Caifás.

A lei romana determina que cada condenado tenha uma placa afixada a sua cruz para indicar o seu crime.

Pilatos dita a mensagem da cruz de Jesus.

Coloque estas palavras em aramaico, latim e grego - diz ele para um escriba. - JESUS DE NAZARÉ: REI DOS JUDEUS.

- Ele nunca foi nosso rei! - exclama Caifás, que está diante da janela observando a jornada de Jesus em direção ao Gólgota. - Ora, o que deve constar é que ele afirma ser o Rei dos Judeus.

- Ele é o rei - corrige-o Pilatos. - A frase será exatamente como eu ordenei. -Ele lança um olhar pelo recinto, desafiando Caifás a contradizê-lo. Mas o sumo sacerdote fica calado.
A multidão se dispersa à medida que Jesus deixa os muros da cidade para trás. Maria, João e Maria Madalena seguem pela estrada que serpenteia colina acima. Estão ligeiramente fora do campo de visão de Jesus, mas sempre presentes. A colina é conhecida como Gólgota, ou “Lugar da Caveira”, pois acredita-se que o esqueleto de Adão esteja enterrado ali.

Uma sufocante nuvem de poeira paira no ar, e Jesus mal consegue respirar. Ele tropeça e é imediatamente açoitado. Levanta-se e tropeça mais uma vez, sentindo no mesmo instante o açoite queimar sua carne.

- Meu Senhor! - exclama uma mulher, lançando-se em direção à estrada. Apesar do risco de ser punida pelos guardas, ela usa um pano para limpar com ternura o rosto de Jesus. Porém, quando insiste que ele beba de um pequeno copo de água, o guarda o arranca de suas mãos, atirando-o no chão.

Jesus e Simão de Cirene finalmente chegam ao local da crucificação. Simão larga a cruz pesada e se apressa a sair dali. Jesus, já incapaz de se manter de pé, cai em meio à poeira do chão. Os guardas romanos estão tomando as providências necessárias: desenrolam as cordas e usam as pás para cavar buracos no chão, usados com frequência para crucificações.

- Deixem-me vê-lo - balbucia Maria, sua mãe, tentando livrar-se dos braços de um guarda romano que a impede de se aproximar de Jesus.

Maria Madalena cai de joelhos e começa a orar. A mãe de Jesus se mantém de pé, determinada a manter uma vigília por seu filho. João fica ao seu lado, pronto para ampará-la caso ela desfaleça por não suportar a tensão.

Jesus é deitado sobre a cruz. Os guardas estendem seus braços e martelam pregos em suas mãos. Seus pés também são pregados à cruz, um sobre o outro. O som de seus ossos se partindo ecoa pelo ar, enquanto Jesus geme a cada nova explosão de dor. Apesar de tudo o que havia sofrido naquele dia, o momento mais doloroso é quando os pregos são enterrados em seus pés.

A placa solicitada por Pilatos é fincada na cruz, logo acima da sua cabeça: JESUS DE NAZARÉ: REI DOS JUDEUS.

Cordas são amarradas à cruz para erguê-la; uma ponta é presa à madeira e outra a um cavalo, que a puxará até que ela esteja na vertical. Ao estalar de um chicote, os cavalos começam a se mover. Jesus já não consegue enxergar o céu. Agora vê toda Jerusalém ao longe e sua mãe amorosa velando por ele ao pé da cruz.

Ele mal consegue respirar. Com os braços esticados, é quase impossível sorver o ar. Jesus sabe que irá sufocar. Não são os pregos que acabariam por matá-lo, mas o enfraquecimento gradativo do corpo até ser impossível para os pulmões se expandirem.

A cruz está de pé. Jesus pende dela. O trabalho do carrasco está feito. Os soldados que o crucificaram dividem as roupas dele entre si, tirando-as à sorte.

Enquanto isso, aqueles que testemunharam a crucificação dão um passo à frente. Maria, mãe de Jesus, chora, tomada pela agonia.

- Veio para salvar os outros, mas não consegue sequer salvar a si mesmo -zomba um fariseu.

Jesus ouve tudo. Ele geme e então fala para Deus:

- Perdoe-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem.

Dois criminosos haviam sido crucificados um de cada lado de Jesus. O primeiro o provoca:

- Você não é o Messias? Por que não salva a todos nós?

O segundo criminoso responde:

- Nossa punição é justa. Mas este homem não fez nada de errado. - Ele se vira para Jesus e fala com brandura: - Lembre-se de mim, Messias, quando chegar ao seu reino.

Jesus se volta para ele e diz:

- Eu lhe garanto que hoje você estará comigo no Paraíso.

Os romanos podem ter terminado seu trabalho, mas não irão para casa antes que os três crucificados estejam mortos. Agora, é apenas uma questão de tempo.

Maria, João e Maria Madalena estão parados ao pé da cruz de Jesus. Ele não se mexe e parece estar morto. A tarde já vai pela metade. A Páscoa está prestes a começar. Os soldados romanos sabem que até lá o corpo deve ser retirado da cruz. Estão cogitando quebrar-lhe as pernas para que ele morra mais rápido, mas não precisarão fazer isso.

- Meu Deus! - grita Jesus de repente. - Meu Deus! Por que me abandonaste? - Este é o primeiro verso do Salmo 22, o lamento do rei Davi em prol dos judeus e um pedido de ajuda. Jesus baixa os olhos para Maria. - Mãe, este é seu filho - diz ele, referindo-se a João, que está parado ao seu lado. - João - acrescenta ele -, esta é a sua mãe.

Maria se mantém firme, lágrimas silenciosas escorrendo pelo seu rosto. João a envolve com um braço protetor.

Jesus desvia o olhar, consumido pela dor em seu corpo mortal. Ele olha para céu e um vento forte começa a soprar. O estrondo de uma trovoada se espalha por toda a região.

- Tenho sede - diz Jesus.

Em resposta, um soldado molha uma esponja, espetando-a em uma lança e levando-a até os seus lábios.
Sentado sozinho na sala em que havia feito sua última ceia com Jesus menos de 24 horas antes, Pedro ouve o trovão. Seus olhos estão vermelhos por conta do cansaço e das lágrimas, pois ele não consegue se perdoar por ter negado Jesus. O som do trovão o apavora e ele não sabe para onde correr.

Pilatos também o escuta de seu palácio, enquanto aguarda o sol se pôr. Cláudia também ouve e está certa de que se trata de um sinal de que seu marido agiu errado ao matar Jesus. Fica furiosa com ele.

- Eu lhe disse para não matá-lo - sibila ao som da trovoada.

- Não é exatamente o primeiro judeu que nós matamos - responde Pilatos. Ele está deitado de bruços em uma bancada, com o tronco nu e uma toalha em volta da cintura enquanto um servo esfrega óleo em suas costas.

- Ele era diferente - rebate Cláudia. - Eu lhe disse isso.

- Confie em mim - diz Pilatos, encerrando a conversa -, daqui a uma semana ninguém se lembrará dele.

Entorpecido pela dor e quase perdendo a consciência, Jesus ouve o trovão. Nuvens negras tomam o céu e ele sabe que é hora de abandonar este mundo.

- Está consumado - diz Jesus em voz alta. - Pai, eu entrego meu espírito em Suas mãos.

Um raio cai do céu. Este feixe de energia explode sobre Jerusalém. No Templo, a grande cortina é rasgada em duas e a multidão em pânico foge às pressas, deixando para trás os animais que haviam comprado com tanta dificuldade para o sacrifício.

Maria, mãe de Jesus, sabe que este é o sinal de que seu filho morreu. Ela o encara com total serenidade. Toda a dor que vinha sentindo desapareceu, substituída pela paz de saber que o sofrimento de seu filho estava acabado.

Aterrorizados, os guardas romanos acreditam que o trovão seja um presságio, de modo que se apressam a quebrar as pernas dos crucificados para que possam remover seus corpos antes da Páscoa. Apanham bastões de metal e começam a brandi-los com força contra os dois criminosos que ladeiam Jesus. Só então notam que o nazareno já está morto. Por via das dúvidas, o comandante romano perfura um dos lados do seu corpo com uma lança.

- Ele está morto - confirma o comandante, puxando a lança de volta. Ele olha para Maria. Então volta a fitar Jesus e diz: - Este homem certamente era o Filho de Deus.
Normalmente, os corpos dos crucificados são deixados para apodrecer ao re-lento ou jogados em covas rasas. Mas Nicodemos e José de Arimateia haviam obtido uma permissão especial de Pilatos para retirar o corpo da cruz e lhe dar um enterro digno. As sepulturas nas colinas ao redor de Jerusalém em geral são reservadas para os cidadãos mais ricos; contudo, José havia providenciado uma tumba suntuosa e recém-lavrada para ser o local de descanso do Messias. As sepulturas costumam conter os corpos de vários membros de uma mesma família, mas o corpo de Jesus será o primeiro e único a ser depositado ali.

Os dois ilustres anciãos, Maria, João e Maria Madalena recuperam o corpo mutilado do Messias, iniciando os preparativos para o seu enterro e, embora ainda não saibam disso, para sua posterior ressurreição. Sua mãe usa uma esponja para lavar delicadamente o seu corpo, limpando a sujeira e o sangue coagulado enquanto a outra Maria rasga tiras de linho. Nicodemos ora por ele durante todo o tempo. Então o processo de envolver seu corpo em linho tem início. É um procedimento longo e emocionante, que marca o começo oficial do luto judaico.

Jesus é levado para dentro de uma caverna. Seu corpo, embrulhado em linho com esmero, é deixado sozinho sobre uma pedra talhada. Nicodemos e José de Arimateia ordenam que servos fortes arrastem uma grande pedra e bloqueiem a entrada da caverna para que o corpo não seja profanado. Já é noite, de modo que o cortejo fúnebre acende tochas para enxergar o caminho de volta. Quando o grupo começa a partir, é surpreendido por uma dupla de soldados romanos se aproximando para montar guarda no local. Pilatos teme que, se o corpo de Jesus desaparecer, uma rebelião se espalhe por Jerusalém. É melhor se certificar de que ele permaneça dentro da tumba.
Por toda Jerusalém, o povo está comemorando a Páscoa. Mas, na pequena sala em que Jesus e seus discípulos fizeram sua última ceia, a atmosfera é soturna. Quando chegaram a Jerusalém seis dias antes, eles esperavam testemunhar o advento do Reino de Deus. Agora, tudo em que acreditam foi destruído. Já não lhes resta esperança. Eles perderam tudo. Fazem uma pequena refeição juntos, em silêncio, seguros de que, em questão de instantes, Caifás ou Pilatos enviarão soldados para prendê-los.

a manhã do terceiro dia após a morte de Jesus, Maria Madalena decide visitar o seu túmulo. Ela sente muita saudade de seu mestre, e até mesmo a ideia de se sentar diante do seu local de descanso lhe serve de consolo. Ela sobe uma pequena colina e sabe que, mesmo em meio àquela neblina matinal, conseguirá ver o jazigo. Assim que chega ao cume, começa a procurar a tumba e vê que a entrada da caverna está aberta. A pedra foi empurrada para o lado. Será que alguém havia roubado o corpo de Jesus? Temerosa, Maria se aproxima da caverna, mas não ousa entrar.

Talvez os ladrões de sepulturas ainda estejam lá dentro, preparados para es-pancá-la caso ela os interrompa. É então que um vulto distante e irreconhecível, parado sobre as colinas, chama sua atenção.

- Mestre? - pergunta Maria, apavorada. Por um instante, imagina ter visto Jesus vivo. Mas não consegue saber ao certo. Logo em seguida, o vulto some de vista. O fato, no entanto, é que a tumba foi aberta e o corpo está desaparecido.

Onde está Jesus?

PARTE DEZ

NOVO MUNDO

Maria Madalena chora diante da entrada da gruta. Ainda aos soluços, respira fundo e vence seus medos, dando um passo para dentro. A escuridão é total, mas seus olhos logo se habituam a ela. Maria vê a pedra em que o corpo de Jesus estava estendido. As tiras de linho que antes o envolviam se encontram empilhadas no chão. Ela sente o aroma do perfume que havia sido passado no cadáver para atenuar o cheiro de decomposição.

- Por que está chorando? - diz uma voz masculina à entrada da tumba.

- Quem você está procurando?

Maria não consegue ver quem está falando. Embora amedrontada, ela reúne coragem para responder da escuridão.

- Se você o levou, me diga onde ele está.

- Maria.

É a voz calma e sábia que ela conhece tão bem. O coração de Maria dá um salto em seu peito quando ela se dá conta de quem está falando.

- Jesus! - Seus olhos se enchem de lágrimas de alegria e espanto quando ela sai em direção à luz do sol.

- Vá contar aos nossos irmãos que estou aqui.

Maria lança um olhar perplexo para Jesus. Ela pode ver as marcas, em suas mãos e em seus pés, onde os pregos lhe perfuraram a carne. Há uma aura em torno de Jesus, algo muito mais celestial do que qualquer coisa que ela tenha presenciado em todos aqueles dias que haviam passado juntos. É como se estivesse olhando para os dois lados do mesmo ser: Deus e homem. Então ele desaparece. Maria, transbordando de alegria, volta correndo a Jerusalém para contar aos discípulos as boas-novas.
Desde a crucificação que os discípulos temem que as autoridades religiosas e os líderes romanos estejam trabalhando juntos para eliminar qualquer vestígio da sua fé - o que significa exterminar também os seguidores de Jesus. Eles estão escondidos, aguardando, temerosos, o dia em que serão descobertos.

Pedro olha por uma janela. Ele é uma mera sombra do homem que costumava ser, e ninguém sequer o confundiría com o pescador rude que Jesus havia recrutado três anos antes.

Sem bater na porta, Maria Madalena irrompe na casa, delirante, gritando a plenos pulmões:

- Eu o vi! Eu o vi!

- Feche a porta! - exclama João.

Maria a fecha com um baque.

- A tumba está aberta - diz ela, ofegante. - Jesus desapareceu.

- Isso é impossível - responde Pedro, com irritação. - Jesus está morto.

- Precisam acreditar em mim. Eu o vi!

- Você deve ter ido à tumba errada - balbucia Tomé.

- Vocês acham que eu não reconhecería Jesus? Acham que estou louca?

- Os últimos dias têm sido difíceis, Maria. Para todos nós.

Isso a deixa furiosa. Ela agarra com força o punho de Pedro e o puxa em direção à porta.

- Venha comigo. Agora.

Pedro olha para João. Depois fita os outros discípulos. Seria arriscado se todos saíssem ao mesmo tempo, mas apenas dois deles talvez fosse mais seguro.

Pedro assente com a cabeça. Maria conduz João e Pedro rumo à luz do dia.
Eles ficam olhando, chocados e incrédulos, para a tumba vazia. Titubeantes, os discípulos espiam o interior da caverna a alguns metros de distância. Não conseguem ver pegadas ou qualquer sinal de que ladrões de sepulturas tenham estado ali, mas sabem que esta é a resposta mais óbvia.

Ladrões - diz Pedro.

- Exatamente: ladrões de sepulturas - acrescenta João.

Pedro se aproxima da entrada. De repente, um círculo de luz branca brilha no interior da caverna. Pedro segue em direção à luz e vê a silhueta inconfundível de Jesus.

- Meu Senhor - sussurra ele. Pedro estende a mão e toca seu Mestre. Então, Jesus desaparece.

Atônito, Pedro sai da caverna. Maria nota a expressão em seu rosto.

- Agora acredita em mim? - pergunta ela.

Pedro entrega a João uma tira de linho que estava ao lado da pedra onde ficava o corpo.

- Mas ele se foi - diz João com perplexidade.

- Não, meu irmão - assegura-lhe Pedro, reconquistando de repente sua velha confiança. - Pelo contrário. Ele voltou!

Exultante, Pedro se afasta dali e sai correndo colina abaixo. No caminho, compra um filão de pão de um comerciante.

- O que houve? - pergunta Mateus quando os três voltam ao seu esconderijo.

- Um cálice - pede Pedro. - Preciso de um cálice.

Pedro dá um pedaço de pão ázimo para João, que o coloca devagar na boca.

- O seu corpo - lembra-lhe Pedro. Um cálice é trazido e entregue para João. Pedro o enche de vinho. - E o seu sangue - diz o discípulo.

Pedro, subitamente transformado na rocha de fé que Jesus sempre soube que ele poderia ser, olha de discípulo em discípulo.

- Acreditem nele. Ele está aqui. Nesta sala. Agora mesmo.

João bebe um generoso gole do cálice enquanto Pedro continua falando.

- Lembrem-se do que ele nos disse: “Eu sou o caminho, a verdade...”

O próprio Jesus conclui a frase:

- ... e a vida.

Pedro se vira para trás. Jesus está diante da porta. Os discípulos ficam boquiabertos quando ele entra na sala.

- Que a paz esteja com vocês - diz Jesus, o Messias renascido.

- Não é possível - fala Tomé. - Não pode ser você, Jesus, que está aqui diante de nós. Isso é tudo uma fantasia, uma aparição causada pela dor do luto pelo homem que tanto amávamos.

Jesus se aproxima de Tomé e apanha sua mão.

- Tomé - diz-lhe Jesus. - Pare de duvidar e acredite. - Ele coloca os dedos do discípulo nas feridas em suas mãos e depois no ferimento aberto na lateral do seu corpo. Quando baixa os olhos, Tomé vê com clareza as marcas terríveis nos pés de Jesus, onde os pregos atravessaram carne e osso, fincando-se na madeira da cruz.

Tomé não sabe como reagir. Ele havia viajado por toda parte com seu mestre; conhece a voz e a aparência dele tão bem quanto as suas próprias. Mas o que Jesus está pedindo é impossível. Tomé é um homem pragmático, comprometido com a verdade que não pode ser contestada por emoções ou artifícios. Mas o que lhe é pedido é que ele acredite estar tocando Jesus, como se este estivesse tão vivo quanto da última vez em que cearam juntos no andar de cima daquela casa. Parece impossível. Mas é real. Aquele é Jesus, não um sonho ou uma visão. Depois de tocar suas feridas e ouvir sua voz, Tomé, estupefato, olha nos olhos dele.

- Meu Senhor e meu Deus - balbucia, as lágrimas enchendo seus olhos. - É mesmo você.

Jesus fita seu discípulo com compaixão.

- Você acreditou porque pôde me ver. Mas bem-aventurados os que não viram, e ainda assim creram.

A fé invade todo o ser de Tomé à medida que ele aceita, pouco a pouco, o que significa acreditar que tudo é possível em Deus. Esta é a fé em Jesus que transformará vidas. Não ver, e ainda assim crer.

Jesus logo transmite uma notícia triste aos seus discípulos: ele não veio para ficar. Seu trabalho na Terra está concluído. Ele havia morrido na cruz como um sacrifício pelos pecados de toda a humanidade. Ao longo de toda a história, cordeiros vinham sendo abatidos pelo mesmo motivo. Jesus fora o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Havia derrotado a morte.

Ele surge diante de seus discípulos uma última vez antes de ascender aos céus. Pedro pescara a noite inteira e apanhara mais de 150 peixes. Os outros discípulos haviam passado a noite no litoral. Enquanto Pedro puxava as redes do mar, Jesus convidou a todos para tomar café da manhã junto dele. Quando terminaram a pequena refeição composta de pão e peixe, Jesus lhes falou sobre o futuro. Ele perguntou duas vezes a Pedro:

- Você me ama?

Ambas as vezes Pedro respondeu que sim, surpreso com a pergunta. E, nas duas ocasiões, Jesus o instruiu a alimentar seus cordeiros e tomar conta de suas ovelhas. Mas, quando Jesus lhe perguntou a mesma coisa uma terceira vez, Pedro ficou tocado. Ele sabia que havia negado Jesus três vezes, de modo que aquelas respostas eram sua chance de redenção.

- Senhor - fala Pedro com um suspiro -, você conhece todas as coisas. Sabe do meu amor por você.

- Alimente meu rebanho - diz Jesus a ele uma terceira vez. - Siga-me!

Jesus se despede de seus discípulos quarenta dias depois de voltar à Terra.

Durante três anos ele os havia treinado, preparando-os para liderar outras pessoas a seguir seus passos e adorar a Deus.

- O Espírito Santo descerá sobre vocês e lhes dará poder - diz ele. - Meu corpo só pode estar em um lugar, mas meu espírito pode acompanhar vocês onde quer que estejam. Viajem pelo mundo e espalhem o evangelho por toda a criação.

Os discípulos ouvem com atenção, sabendo que esta é a última vez que verão Jesus. Ele não está dizendo que o Espírito Santo descerá sobre eles agora, então sabem que devem esperar por este momento. Jesus para diante deles e lhes transmite paz. Tudo o que ele disse que ocorrería se concretizou, e está claro que o poder de Deus vai muito além do que eles ousavam imaginar. Eles não têm nada a temer - nem mesmo a morte. Esta é uma maneira apropriada de dizer adeus. Pedro é ungido o novo líder dos discípulos na ausência do Mestre.

- Que a paz esteja com vocês - diz Jesus.

As palavras ecoam na mente e no coração dos discípulos. A paz trazida por elas pulsa em suas veias e os enche de energia e de uma determinação serena -esta é a paz que lhes dará forças para fazer o trabalho de Deus.

Então Jesus ascende aos céus.

Os discípulos sofrem por sua perda, pois Jesus não está mais fisicamente ao lado deles. Os olhos de Pedro se enchem de lágrimas. Ele inclina a cabeça para cima, apertando os olhos em direção ao sol, tentando conter o choro. Quando sua respiração volta ao normal, ele se empertiga, dirigindo-se aos discípulos. Pedro sabe que Jesus sempre estará com eles e com toda a humanidade. Havia aceitado a ordem de segui-lo, fosse qual fosse o preço a pagar. Agora é chegada a hora de se lançar ao mundo e mostrar a todos a grandeza de Deus.

- Sejam fortes, meus irmãos - diz Pedro, com voz firme e corajosa. - Temos um trabalho a fazer.

Este momento em que Jesus se despede dos discípulos - que a partir de agora são chamados também de “apóstolos” - será para sempre conhecido como a Ascensão. Dez dias após esse acontecimento, milhares de peregrinos tornam a encher Jerusalém para o festival conhecido como Pentecostes. Trata-se de uma cerimônia de agradecimento, quando o povo judeu se lembra da abundância da colheita e das origens das leis transmitidas a Moisés.

Para Caifás, isso significa uma volta ao normal após os distúrbios da Páscoa. Dos degraus do Templo, ele observa com prazer a vida cotidiana se desenrolar ao seu redor: peregrinos conversando nas ruas, caminhando com feixes de trigo, cestos de pão e trouxas de frutas e azeitonas. Esses são os frutos da colheita -frutos que logo serão entregues ao seu Templo. E, consequentemente, ao próprio Caifás.

Soldados romanos podem ser vistos à beira da multidão, mas já não há sinal

da revolta e da desordem que marcaram a Páscoa.

- O povo está pacífico - relata Malco. - Os romanos estão apenas montando guarda.

- Como deve ser - diz ele. Então, depois de uma pausa: - Algum sinal dos seguidores de Jesus?

- Nenhum. Suponho que eles tenham fugido de volta para a Galileia.

- Ah, você supõe? É mesmo? Certifique-se de que os guardas do Templo estejam alertas. Se eles voltarem, vocês terão que lidar com eles. Não posso pedir ajuda aos romanos uma segunda vez.

Mas os discípulos de Jesus não estão na Galileia. Eles estão reunidos em Jerusalém, misturando-se sem nenhuma dificuldade à multidão de peregrinos. Jesus lhes prometera que o Espírito Santo descería sobre eles, embora não saibam ao certo o que isso significa. Então, eles permanecem em seu esconderijo e aguardam. Tomé anda de um lado para o outro, balbuciando em voz alta, sem perceber que Pedro busca um momento de silêncio com Deus.

- Que forma esse espírito irá assumir? - pergunta ele sem parar. - O que é o Espírito Santo e quando ele virá?

Pedro abre os olhos, irritado.

- Jesus disse que tudo o que precisamos fazer é pedir. Eu venho pedindo todos os dias. Na verdade, estou fazendo isto agora mesmo. O Espírito Santo virá quando chegar a hora.

Maria Madalena entra na discussão.

- Tomé - diz ela, com toda a calma. - Moisés esperou por quarenta anos para receber os mandamentos. Nosso povo vagou por quarenta anos no deserto, esperando. Então tenha paciência. Se Jesus prometeu que o Espírito Santo virá... ele virá.

João, Tiago, Mateus e Estevão entram no recinto.

- Há romanos por toda parte - diz João.

Eles se sentam e olham para Pedro, que percebe a apreensão em seus rostos.

- Sei que é perigoso todos nós estarmos aqui ao mesmo tempo, mas Jesus disse que quando dois ou três nos reunirmos em seu nome ele estará conosco. - Ele vê que suas palavras não estão surtindo muito efeito. - Venham, vamos orar. - Pedro fecha os olhos. Ele estende os braços e toma as mãos dos discípulos sentados imediatamente ao seu lado. - Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome...

João e os demais repetem as palavras e todos dão as mãos.

- Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu.

Tomé não consegue evitar. Em meio à oração, ele teme pela sua segurança e abre os olhos para espiar a rua em busca de algum sinal de soldados romanos. Não vendo nada, volta a orar.

- O pão nosso de cada dia nos dai hoje...

As lamparinas que iluminam o local bruxuleiam e então se apagam enquanto a oração prossegue. De repente, eles estão mergulhados na escuridão. O som do vento forte que começa a soprar lá fora chega aos seus ouvidos. Persianas se abrem com violência. Assustados, mas sem se deixarem abater, os discípulos continuam a orar. Línguas de fogo invadem o recinto e pousam sobre cada um dos apóstolos. Eles são invadidos pelo Espírito Santo. Logo, cada um deles está orando em uma língua diferente, embora não fossem capazes de entendê-las até pouco tempo antes. É assim que são preparados para viajar por todas as nações do mundo e pregar a Palavra de Deus.

Então suas orações e as palavras em língua estrangeira se espalham miracu-losamente pela cidade. As pessoas conseguem ouvir os apóstolos, embora não possam vê-los. Nos últimos dias de Jesus, ele prometera derramar seu espírito sobre todas as pessoas do mundo, e agora é isso que está ocorrendo. As orações dos discípulos são ouvidas e compreendidas por todos os que foram até ali para o festival - chegando tanto aos israelitas quanto aos estrangeiros e aproximando essas pessoas da Palavra de Deus.

O vento sopra por toda Jerusalém. Até mesmo um soldado romano compreende a simples frase que agora ecoa nos ouvidos de cada homem, mulher e criança na cidade: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”

Caifás para e ergue os olhos, então se envolve em seu manto e entra no Templo.
Enquanto os discípulos continuam a fazer sua improvável prece, ouvem uma comoção vinda das ruas logo abaixo do local em que estão reunidos. Uma multidão se reúne, mas eles não sabem ao certo o que está atraindo as pessoas até ali.

- Vamos ser descobertos - lamenta Tomé, em pânico.

- Não. Isto é bom - diz Maria Madalena. - As pessoas devem estar sentindo a presença do mesmo espírito que nós. Elas estão sendo atraídas pelo Espírito Santo.

Pedro se levanta.

- Devemos falar com elas e informá-las de que se trata de um sinal de Deus.

Fortalecidos e revigorados, os discípulos descem as escadas e abrem a porta.

Eles correm os olhos pela multidão em busca de romanos, fariseus ou guardas do Templo.

- Povo de Israel - diz Pedro, com um equilíbrio e uma autoridade que surpreendem a todos. Pedro havia sido radicalmente modificado pela graça salvadora de Deus.

Deus prometeu ao rei Davi que um de seus descendentes ocuparia o seu trono. Um homem cuja carne não seria corrompida. Agora, Deus trouxe Jesus à vida. Jesus de Nazaré é o Messias. Ele é o Cristo. Juntem-se a nós!

- Juntem-se a nós! - repete João.

A multidão vibra, demonstrando sua aprovação e entoando: “Jesus é o Senhor.” Eles clamam pela bênção de Pedro, estendendo as mãos para tocá-lo. Mas aquela comoção não passa despercebida. Em questão de instantes, um centurião romano surge à beira da multidão.

- Estamos nos arriscando - sussurra João.

- Jesus arriscou sua vida todos os dias - retruca Pedro.

Mais romanos chegam. A multidão se fecha ao redor dos apóstolos. A situação fica ainda mais tensa.

- Não podemos espalhar a Palavra se estivermos mortos - lembra João ao seu companheiro.

Ele tem razão, e Pedro sabe disso. Meneando a cabeça, ele conduz os apóstolos por uma ruela estreita, afastando-os dali.
É manhã em Jerusalém, e um dos muitos pedintes da cidade começa seu dia. As pernas do homem não conseguem suportar seu peso, de modo que ele usa os braços para se arrastar até o seu ponto habitual. Os nós de seus dedos são cale-jados e sua pele imunda depois de anos executando o mesmo ritual - arrastar-se até ali e ficar sentado no chão, com o corpo constantemente exposto à sujeira e poluição do dia a dia de uma cidade agitada.

Um estranho larga uma moeda em sua mão. O pedinte agradece com um gesto de cabeça, mas sem fazer contato visual.

Pedro chega perto dele. O mendigo não o conhece e estende a mão, a palma virada para cima. O apóstolo para e se agacha. O pedinte o encara com uma expressão curiosa, como se um grande mal fosse se abater sobre ele. Pedro vinha sendo seguido ao longe por uma pequena multidão de novos fiéis, que então se aproximam, ansiosos por ver se o apóstolo fará o que esperam que ele faça. Pedro e o mendigo cruzam olhares.

- Não tenho prata ou ouro - diz Pedro. - Mas darei a você o que possuo. - O apóstolo ergue sua própria mão espalmada em direção ao céu. - Em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e salvador, quero que você se levante. - Pedro pousa sua mão direita sobre a do mendigo. Ele o puxa para cima com cuidado, soltando-o logo em seguida. O pedinte se levanta por conta própria.

- É um milagre - exclama uma voz na multidão.

Pedro responde virando-se para encarar aqueles novos fiéis.

- Por que a surpresa? Acham que ele foi curado pelo meu poder? Ou pelo poder de meus colegas apóstolos? Não. É graças ao poder de Jesus que este homem agora anda. Jesus é o Messias!

O mendigo tem um sorriso atordoado, enquanto caminha de um lado para outro pela primeira vez na vida.

- Jesus fez isto! - entoa a multidão. - Jesus fez isto!

Não muito longe dali, no interior do grande Templo, o sumo sacerdote Caifás ouve aquela algazarra.

- O que está acontecendo? - pergunta ele a Malco. Como sempre, seu servo está a poucos metros de distância dele. Malco, no entanto, não tem chance de responder, pois um Caifás irado já havia decifrado os sons por conta própria. - Por que eles estão entoando o nome daquele desgraçado? Por quê?

Malco fica calado enquanto Caifás tem um ataque de fúria.

- Os romanos virão para cima de nós a qualquer momento. Eu ordenei que você se livrasse dessa corja antes que isso pudesse acontecer. Agora é tarde demais, e eu serei forçado a resolver este assunto outra vez. Traga-me os líderes do grupo!

Menos de uma hora depois, os guardas do Templo já haviam capturado e espancado Pedro e João. Eles os arrastam até os aposentos de Caifás, atirando-os no chão. O mendigo curado, agora claramente em pânico, também é puxado pelo braço até lá.

- Levantem-se - diz Caifás com rispidez, entrando no recinto. Ele acabara de receber a notícia de que mais de cinco mil pessoas haviam se tornado seguidoras de Jesus desde que ficaram sabendo que o mendigo fora curado. É um número descomunal. Isso precisa parar.

João e Pedro se erguem com dificuldade. Eles encaram Caifás com uma expressão desafiadora.

- Digam-me - exige o sumo sacerdote -, o que os faz pensar que é aceitável pregar em nome daquele criminoso que foi executado?

- Jesus vive - diz Pedro.

- Impossível.

- Este homem voltou a andar graças ao poder de Jesus Cristo - lembra-lhe o apóstolo, apontando para o mendigo.

Malco sussurra para Caifás:

- Há anos que vejo este homem na rua. Ele era aleijado de nascença. É verdade.

Caifás fica em silêncio pelo que parece uma eternidade, sem nunca desviar os olhos de Pedro e João. Finalmente, ele se pronuncia:

- De hoje em diante, eu os proibo de falar sobre o seu suposto Messias.

- Julgue você mesmo se é preferível aos olhos de Deus obedecer às suas ordens ou às Dele - retruca Pedro.

- Eu tenho uma obrigação para com nosso Templo, nossa nação e nosso Deus! - responde Caifás, indignado. - E repito: vocês estão proibidos de falar sobre este Messias!

- Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos - diz João.

- Então serão espancados - ameaça Caifás. - Ou permanecem calados, ou sofrerão o mesmo destino que Jesus.

- Devemos obediência a Deus, não aos homens - falam os discípulos, quase em uníssono.

Caifás pode tentar impor o código de silêncio que quiser, mas pressente que não tem poder para impedir aquele movimento. O número de pessoas que está voltando seus corações para Jesus é algo sem precedentes. Caifás não pode parar aqueles cinco mil, porém irá calar os apóstolos, um por um. Mas não agora. Com relutância, Caifás liberta Pedro e João. Ele tornará a vê-los em breve.

Peregrinos se aglomeram em uma rua para ouvir um jovem discípulo chamado Estevão pregar sobre Jesus. Apesar das ameaças de Caifás, os seguidores de Jesus se recusam a ficar calados.

- Seja batizado em nome de Jesus Cristo para receber o perdão pelos seus pecados - insiste Estevão. - Ele foi crucificado, mas ressuscitou.

A platéia sorve cada palavra, encantada com tudo o que ele tem a dizer.

- Impossível - exclama Saulo.

Saulo é um homem severo, um intelectual e fariseu que fala muitas línguas. Seu pai também é fariseu e sua mãe, romana. Estevão seria um tolo se travasse um debate com ele em público. Saulo está preocupado com esta “nova” maneira de encarar o Deus de Abraão. Ao contrário de Caifás, cujo principal medo é o poder que vem da liderança religiosa, a fé de Saulo na lei e na tradição judaicas é tão fervorosa que ele considera qualquer um que se desvie delas um traidor. E, embora seja judeu, Saulo é um cidadão romano, o que lhe garante privilégios especiais em todo o império. A sua crença é inabalável.

Estevão tem Jesus ao seu lado, de modo que afasta seus próprios medos e desfere um ataque.

- Por que resiste a Jesus? Ele é o seu salvador, o caminho para a vida eterna.

- Jesus está morto - grita Saulo de volta, tentando fazer a multidão apoiá-lo. - E logo você irá pelo mesmo caminho, blasfemador. - Saulo abre caminho pela aglomeração e fica cara a cara com Estevão.

O apóstolo não sente medo.

- Não. Jesus está vivo. Eles o mataram. Mas ele derrotou a morte. Ele é o nosso verdadeiro Messias!

- O que você sabe sobre os profetas? O seu Jesus se coloca acima da lei, e nenhum homem está acima da lei.

- Eu sei que as Escrituras prometem a chegada do Messias e de Jesus - retruca Estevão.

- É mesmo? - interrompe-o Saulo, saboreando aquele momento. - Se conhece as Escrituras, então conhece o Deuteronômio: “Porque ele tentou desviá-lo do Senhor seu Deus, sua mão deve se voltar primeiro contra ele.” - Saulo se vira para a platéia, onde três homens já haviam despido suas túnicas e apanhado pedras do chão, que agora atiravam contra Estevão. - “E você deve apedrejá-lo até a morte” - continua a recitar, enquanto as demais pessoas ali reunidas se convertem em carrascos e passam elas também a atirar pedras.

À beira da morte, Estevão fala:

- Senhor, perdoe-os por este pecado.

Saulo se afasta e apanha sua túnica enquanto eles continuam a apedrejar Estevão, o primeiro mártir cristão.
Caifás ordena que Saulo seja trazido à sua presença para ser questionado. Ele está preocupado com a rebelião que poderia ter estourado se Saulo, em sua devoção, tivesse deixado a situação fugir ao controle. Por outro lado, o sumo sacerdote também admira o entusiasmo daquele homem em cortar pela raiz aquilo que considera uma nova estirpe de hereges, e Caifás lhe diz isso. Quando Saulo lhe pede dinheiro e cartas de apresentação para poder continuar seu trabalho, é com prazer que Caifás concede ambas as coisas.

Logo, graças à bênção de Caifás e aos amplos recursos por ele oferecidos, Saulo sai no encalço de qualquer vestígio dos seguidores de Jesus, agindo com brutalidade. Portas são arrombadas. Homens e mulheres são arrastados para as ruas pelo exército de Saulo, composto de guardas do Templo escolhidos a dedo. A mensagem que está espalhando pela cidade é muito clara: venerar Jesus não é mais seguro para ninguém.

- Onde estão os outros? - grita Saulo para um homem que é acusado de ser um fiel.

É meio-dia no centro de Jerusalém. O homem desafortunado vinha recuando de Saulo e seus capangas, mas teve o azar de tropeçar em um cocho. Ele fica sentado ali, indefeso e incapaz de se levantar quando Saulo dá um passo à frente para prendê-lo ao chão.

- De repente, ninguém fala mais em Jesus - diz Saulo. - Mas não acho que as pessoas tenham simplesmente se esquecido dele. Acho que estão escondidas. E acho que você sabe onde elas estão.

Saulo empurra o homem para trás, derrubando-o dentro do cocho. Em seguida, o afunda na água com as mãos. Ele se debate, mas Saulo o mantém submerso até sua vida estar por um fio. E só então o traz de volta à tona.

aulo segue para o norte, rumo à civilizada e bela cidade de Damasco. Apesar dos perigos de se acreditar em Jesus, pequenos grupos de seguidores vinham crescendo lentamente no seio das comunidades judaicas. Um homem chamado Ananias é um líder dentro deste movimento secreto e está fazendo a partilha do pão em um jardim murado nos arredores da cidade quando ouve um barulho atrás de si.

- Seja bem-vindo, amigo - diz ele. Um reduzido grupo de cristãos está prestes a fazer sua refeição e pouco antes começara a orar em agradecimento por aquele pequeno banquete. - Gostaria de juntar-se a nós?

- Acredite, eu não sou seu amigo - responde Saulo. - Prendam esses homens!

Os homens de Saulo invadem o jardim. Alguns dos cristãos conseguem escapar, mas a maioria é capturada e espancada. Ananias é surrado e arrastado dali para ser interrogado mais tarde. Contudo, um de seus captores se distrai e ele aproveita a chance para se desvencilhar e fugir. Os homens de Saulo perseguem Ananias e os demais fugitivos.

- Diga aos seus amigos - rosna Saulo para um homem estendido no chão -que eu encontrarei todos os seguidores de Jesus. Não importa onde estejam ou para onde fujam, eu os encontrarei. Pois Deus está do meu lado. O Senhor me conduzirá até eles, como me conduziu até aqui no dia de hoje. - Saulo então monta em seu cavalo para seguir para Damasco. Ele acredita que sua perseguição é justa, pois sabe que está salvando aquelas almas infelizes do julgamento de Deus. É uma longa cavalgada, e Saulo passa horas pensando em como irá localizar os seguidores de Jesus dentro da cidade.

De repente, o cavalo de Saulo se agita de um lado para o outro sem motivo. Parado no meio da estrada diante dele está Jesus, mas Saulo não sabe que é ele. Uma luz forte brilha ao redor do Messias.

- Quem é você? - exige saber Saulo, esforçando-se para controlar o animal, que empina e o joga na estrada poeirenta.

Jesus se agacha diante de Saulo, que está estirado no chão.

- Por que você me persegue? - pergunta Jesus.

Saulo não consegue perceber quem é aquele homem.

- Quem é você? - pergunta. Saulo tenta rolar para longe de Jesus, mas depara novamente com ele. Rola para o outro lado, mas, para onde quer que se vire, Jesus aparece.

- Por quê? - torna a perguntar Jesus.

- Exijo que me diga quem é!

- Eu sou Jesus, aquele que você persegue.

Uma luz ofuscante atinge os olhos de Saulo.

- Não! - insiste ele. - Não. - Ele ergue a mão para proteger os olhos da luz forte, mas é envolvido por ela, que se apaga em seguida.

Os homens de Saulo o tinham visto cair ao chão, de modo que vêm correndo ajudá-lo. Eles o encontram abatido e derrotado, o oposto do líder ameaçador que conhecem tão bem. E logo descobrem, assim que ele se coloca de pé, cambaleando e tateando ao redor, que a luz o havia cegado.
As notícias sobre as perseguições de Saulo haviam se espalhado. Até mesmo em Damasco, que os seguidores de Jesus antes consideravam um local seguro, os fiéis começam a se esconder. Entre eles está Ananias, cujo grupo tinha sido emboscado há pouco pelo exército de Saulo. As ruas de Damasco costumavam lhe trazer conforto. Mas, agora, enquanto carrega sua esteira de dormir por uma rua vazia, Ananias lança olhares apreensivos para as sombras, sem saber quando o próximo ataque pode acontecer.

- Ananias - chama alguém.

Ele se vira em direção à voz, tremendo de medo, mas seu corpo inteiro relaxa quando ele vê o Messias parado ao lado da estrada. As perfurações estão óbvias em suas mãos e seus pés, deixando evidente quem está diante dos seus olhos.

- Senhor? - fala ele, caindo de joelhos.

- Por favor, levante-se - diz-lhe Jesus.

Ananias, trêmulo de alegria, se coloca de pé. Seus temores desaparecem de repente, sua fé tornando-se um poço profundo que jamais secará.

Jesus anda em sua direção, pousando a mão com ternura em seu ombro.

- Você deve ir até uma rua chamada Direita. Chegando lá, pergunte por um homem chamado Saulo de Tarso.

- Senhor - diz Ananias, hesitante. - Saulo nos espancou e nos prendeu. Nossos seguidores estão sendo perseguidos por esse homem. - Em seu coração, Ananias sabe que Jesus já está ciente desses fatos, mas lhe parece importante repeti-los.

- Vá! - ordena Jesus com um sorriso, sua voz suave e tranquilizadora. - Eu escolhí este homem improvável para proclamar meu nome ao mundo. Aos gentios, seus reis e a todos os filhos de Israel.

Ananias está incrédulo. Jesus deve estar enganado. O simples fato de falar o nome de Saulo em voz alta o enche de pavor. Aquele homem irá deixar de persegui-los para espalhar a Palavra de Deus por todas as nações?

Jesus desaparece tão rápido e misteriosamente quanto surgiu, deixando Ananias sozinho para refletir e reunir sua coragem.

Ananias segue as ordens de Jesus. Ao encontrar Saulo, fica pasmo ao descobrir que ele está cego e desamparado. Em vez de levá-lo de volta a Jerusalém, seus homens o haviam deixado em Damasco, na esperança de que alguns dias de descanso fossem ajudá-lo a recuperar a visão. Ananias o encontra sozinho em um quarto de pensão, enroscado em um canto e adormecido. O estalajadeiro abre a porta e se retira às pressas, deixando Ananias a sós com seu perseguidor.

É uma visão lastimável. Saulo não havia tocado a refeição da noite anterior, pois derrubara a tigela ao tatear na escuridão. A comida está espalhada pelo chão, e Saulo havia rolado sobre ela enquanto dormia.

Ananias sente o ódio ferver dentro dele. Seus punhos cerram. Ele baixa os olhos para Saulo e fica chocado ao comparar a triste visão diante de si com o perseguidor cruel que o confrontara no jardim pouco tempo atrás. Ananias se lembra dos gritos de seus amigos e irmãos de fé sendo chutados e espancados. Não havia contado a nenhum deles que Saulo está ali. Apesar da grande fé que têm, ali estava toda a oportunidade que poderiam querer de se vingar do seu sofrimento. Essa é uma vingança que Ananias também gostaria de exercer.

Saulo acorda sobressaltado.

- Quem está aí?

- Você é Saulo? - pergunta Ananias, com a garganta seca e as palavras calculadas. Ele apanha um jarro dãgua. Ele é de argila e pesado. Esmagá-lo na cabeça de Saulo seria uma maneira muito fácil de matar aquele desgraçado.

- Quem é você? - pergunta Saulo. - Fale!

- Sou um daqueles que você anseia massacrar.

Saulo fica de joelhos.

- Perdoe-me. Por favor, perdoe-me.

Ananias larga o jarro.

Saulo estende o braço, tateando em busca da mão de Ananias. Seu corpo está em convulsão, tamanho o seu remorso.

- Por favor, perdoe-me! Eu pequei contra você. Pequei contra Deus. Minha alma está em chamas! Ajude-me! Sa've-me!

Ananias pousa as mãos no rosto de Saulo. Ele se encolhe como se tivesse levado uma ferroada, tentando afastar as mãos de Ananias.

Então se detém. Pois o toque daquelas mãos havia devolvido a visão a Saulo. Ele pestaneja para afastar as lágrimas à medida que a luz do sol banha o quarto. Uma sucessão de rostos lampeja diante dos seus olhos. São imagens dos homens e das mulheres que havia perseguido. Ele se arrepende de toda a dor que infligira, mas esse sofrimento é substituído pelo perdão restaurador de Deus. Ao perceber isso, Saulo cai em prantos.

- Shhh - diz-lhe Ananias. - Eu fui enviado por Deus. Para você.

Saulo ergue os olhos para a voz que lhe oferece tamanho consolo. Reconhece o rosto do homem que está à sua frente.

- Eu o conheço - diz ele.

Ananias faz que sim com a cabeça.

- Não me abandone - implora Saulo. Ele se agarra, desesperado, à túnica de Ananias.

Ananias torna a apanhar o jarro d agua e então derrama seu conteúdo sobre a cabeça de Saulo.

- Eu o batizo, Paulo de Tarso, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Saulo é uma nova pessoa. Até seu nome é modificado. Desse dia em diante,

Saulo não mais existe. O homem chamado Paulo, o apóstolo que se lançará sem medo ao mundo para compartilhar a Boa-nova sobre Jesus assume o seu lugar. A água corre pela cabeça de Paulo, entrando-lhe pelos olhos e pela boca. Ele tosse, se engasga e luta para respirar.

Ananias prossegue:

- Pois ele foi escolhido para mudar o mundo em seu nome.

Lentamente, Paulo leva as mãos ao rosto. Havia sido invadido por uma grande calma.

- Por que eu?

Ananias encolhe os ombros.

Paulo se levanta.

- Por favor, perdoe-me pelo que fiz a você.

- Você já foi perdoado.
Caifás está parado dentro do Templo, no pátio destinado aos sacrifícios. Os demais membros do Sinédrio haviam acabado de trazer ao sumo sacerdote notícias ultrajantes.

- Saulo fez o quê?

- Ele se uniu aos seguidores de Jesus - informa-lhe seu servo Malco. - Chegou inclusive a mudar o próprio nome. Eles agora o chamam de Paulo.

Caifás encara Malco, que fica calado.

Malco está novamente determinado a assumir o papel de braço direito do sumo sacerdote.

- Eu o encontrarei para o senhor - diz ele, ansioso por se afastar do Templo e receber poder de autonomia. - Irei reunir os homens.

Os olhos de Caifás brilham de esperança. Ele se aproxima de Malco, como se pretendesse encarregá-lo daquela missão, conforme já havia feito em tantas outras ocasiões. Mas não desta vez.

- E depois... ? - pergunta Caifás. - O que vai acontecer quando você se juntar eles? Terei que enviar alguém atrás de você? E então mais alguém atrás dessa terceira pessoa? - Caifás ergue os olhos para o céu e suspira. - Deixem-nos em paz - fala Caifás em voz baixa, repetindo as palavras de Gamaliel, líder do Siné-drio: - Se isto for obra dos homens, não terá sucesso. Se for obra de Deus, não poderemos impedi-lo.

Caifás sobe a enorme escadaria do Templo. Ele entra e fecha a porta atrás de si. A vida costumava ser tão simples ali, tão ordeira. Era um mundo que ele controlava. Mas agora tudo está mudando. Caifás se isola desse novo mundo e de todas as suas novas atribulações. Ele jamais voltará a ser o mesmo.
Mas Caifás não é a única ameaça que os seguidores de Jesus precisam enfrentar. Os romanos e Herodes Agripa estão esmagando todos os que desafiam o status quo. O irmão mais velho do discípulo João, Tiago - que também é um discípulo -, é capturado e condenado à morte por Herodes. Sua decapitação pretende ser um alerta para todos os que seguem Jesus. E, nesse sentido, é bem-sucedida.

Os apóstolos se reúnem em segredo para repensar sua estratégia. Juntamente com Maria Madalena, eles se encontram na pequena sala no andar de cima da mesma casa que tantas vezes abrigou suas reuniões. Mas este não é um momento de paz ou mesmo de união. Os discípulos estão engajados em um debate acalorado sobre o seu futuro. Apavorado, Tomé não consegue suportar o conflito e está prestes a ir embora poucos momentos depois de chegar. João, por outro lado, está particularmente indignado, ansioso para ir à batalha.

- Está ficando muito perigoso - diz Tomé. - Se ficarmos em Jerusalém, iremos morrer. Todos nós. Assim como eles mataram Tiago.

- Não temo a morte - fala João em tom desafiador.

- Nenhum de nós teme - remenda Pedro, assumindo o papel de pacificador. - Mas este não é o momento. Não poderemos espalhar a Palavra se estivermos mortos.

Os discípulos param de discutir. Pedro havia conquistado a atenção deles.

Ele respira fundo e começa a se explicar.

- Jesus disse: “Preguem para toda a criação.” Nosso trabalho é espalhar a Palavra.

- Achei que nós já estávamos fazendo isso - retruca Tomé.

- E estamos - lembra-lhe Pedro. - Mas agora precisamos nos lançar ao mundo e não nos limitarmos apenas a Jerusalém.

- Para onde iremos? - pergunta Maria.

- Para onde o espírito nos conduzir - responde Pedro.

- Sinto que sou chamado a viajar rumo ao norte... talvez a Éfeso - fala João. Quando se lembra do sacrifício do irmão, seus olhos se enchem de lágrimas. Ele sabe que uma morte semelhante pode estar à sua espera assim que ele se lançar sozinho ao mundo.

Os discípulos se levantam. Eles tomam as mãos uns dos outros e oram. Este será seu último momento como um grupo. Depois de tantos anos e de tantas experiências revolucionárias, o trabalho deles agora será solitário e perigoso, sem o conforto e o apoio daquela irmandade.

João, que possui o dom da visão, lhes oferece uma perspectiva.

- Nós nos reencontraremos - diz ele a todos. - Seja na Terra ou no Céu.

Um a um, os discípulos se despedem, derramando muitas lágrimas e dividindo várias memórias ainda nítidas em suas mentes. Nunca haviam se considerado apenas amigos, mas sim companheiros de vida que se uniram e abriram mão de tudo em nome de Jesus. A união entre eles é profunda, o que torna aquela despedida ainda mais difícil.

Eles saem em direção à rua e se separam.

Suas viagens os levarão para muito longe. O Império Romano é vasto. A perseguição não tarda a chegar para aqueles que tentam trazer mudanças, mas a missão dos discípulos é modificar as bases religiosas daquela cultura, fiel por fiel e alma por alma.

Pedro restringe suas viagens às comunidades judaicas no interior e ao redor da nação de Israel. É um trabalho exaustivo e ele nunca havia se sentido tão sozinho. Mas não deixa de ser um consolo permanecer tão próximo da sua Galileia natal. Embora tivesse sido convocado a liderar os discípulos, Pedro é um homem muito simples. Ele não fala as línguas cosmopolitas, como latim ou grego. Há uma simplicidade inerente em pregar em vilarejos remotos e pequenas comunidades rurais.

Ele tem pouco dinheiro para comida; seu estômago protesta quando ele entra cambaleante em seu quarto escuro e se deita na cama.

- Pedro - diz uma voz.

Ele reconhecería aquela voz em qualquer parte do mundo. Quando se vira, Pedro depara com Jesus.

- Você já fez tanto - diz a voz.

Os olhos de Pedro se arregalam de espanto. Ele vê Jesus parado à sua frente, com as feridas ainda indicando os locais em que suas mãos e seus pés foram perfurados.

- Estou orgulhoso de você, meu pescador de homens - acrescenta Jesus.

- Meu Senhor - diz Pedro, sentando-se com as costas eretas na cama.

Jesus sorri.

- Sinto falta do nosso trabalho na Galileia, Senhor. Se me pedisse, eu voltaria no mesmo instante para o seu lado.

- Não, Pedro, esse tempo já passou. O que preciso lhe pedir vai muito além disso.

Pedro sabe o que Jesus está prestes a lhe dizer. O sentimento vinha rondando seu coração há tempos, mas ele ainda não havia tido coragem de admitir esta dura verdade.

- Você precisa seguir em frente - diz-lhe Jesus.

Pedro fica calado. Ele sente medo. Muito medo.

Jesus prossegue:

- Você tem fome e ainda assim tem medo de viajar a Cesareia em busca de comida.

- É uma cidade romana - justifica Pedro. - A comida e as pessoas serão impuras ali.

- E não há almas em Cesareia que mereçam ser salvas?

- Mas a pureza nos mantém perto de Deus.

- Pedro, você não poderia estar mais perto Dele. Estou sempre ao seu lado. E sou eu quem purifico todas as coisas.

Pedro está confuso. Durante todo aquele tempo vinha pensando que apenas os judeus poderíam ser conduzidos à fé em Jesus. É um conceito radical acreditar que qualquer pessoa, seja qual for sua fé ou nacionalidade, também possa receber a bênção de Deus.

Alguém bate forte à porta. Pedro se vira na direção dela, alarmado.

- O que devo fazer, Senhor?

- Atenda, Pedro. Vá com eles. A porta está aberta para todos.

O pescador de homens se levanta para atender à porta. Cada passo é dado com agonia, pois ele sabe o que o aguarda assim que abri-la. Mas Pedro abre a porta. Três soldados romanos estão parados ali. Ele recua por instinto, embora seja impossível se esconder de Roma.

- Você é Pedro? - pergunta o soldado do meio, que é o mais alto do grupo.

Pedro se vira para olhar de volta para Jesus, porém o Messias não está mais ali.

- Sim, sou eu - fala Pedro com um nó na garganta.

- Deve vir conosco - diz o soldado com rispidez. - O centurião Cornélio está à sua espera.

Sabendo que é inútil resistir, Pedro apanha sua sacola e seu cajado. Então sai com os romanos para encontrar o centurião Cornélio. Ele sabe que não deve questionar os planos de Deus para a sua vida. Mas, neste momento, Pedro apenas deseja que as coisas sejam um pouco mais fáceis.
Os romanos dominam a nação de Israel desde que Pedro consegue se lembrar. Haviam-na conquistado antes de ele nascer - e o mais provável é que ela continue em suas mãos bem depois da morte do apóstolo. Os líderes romanos transmitem uma sensação constante de medo e controle. A imposição da vontade romana sobre o povo israelita é sufocante e opressiva. A sua lei é aplicada àqueles que desobedecem ao império.

Pedro reflete sobre tudo isso enquanto é conduzido até o pátio da mansão de Cornélio, que fica de frente para o mar. Pedro não está habituado àquele tipo de visão - ele está cercado de mais opulência e riqueza do que um pescador jamais poderia imaginar. Até mesmo os escravos estão mais bem-vestidos do que Pedro, e os soldados reunidos ao seu redor parecem ainda mais bem-educados e refinados.

- Senhor, por que estou aqui? - ora Pedro.

No centro do pátio, cercada de servos, encontra-se uma família romana. Pais e filhos vestem togas de um branco imaculado. O centurião Cornélio usa reluzentes colares de ouro. Ele é um homem imponente, que ascendeu à sua posição tanto através da política quanto do campo de batalha. Cornélio se levanta para andar até Pedro. Enquanto faz isso, cada soldado e servo no pátio se curva até o chão, apoiando-se em um dos joelhos.

Pedro continua de pé. Os soldados, ajoelhados, levam suas mãos às espadas, preparados para dar um salto à frente e matar Pedro ao menor sinal de Cornélio. Mas o centurião não estala os dedos ou faz nenhum gesto parecido. Em vez disso, caminha em direção a Pedro, avaliando-o com o olhar. Cornélio é mais alto do que o apóstolo, talvez mais espadaúdo. Seria fácil para ele infligir um castigo físico àquele agitador de multidões. Ele, no entanto, se põe de joelhos, prostrando-se aos pés de Pedro, para grande constrangimento do discípulo. Os pés de Pedro estão imundos e cobertos de poeira por conta de seu longo dia na estrada, mas o centurião os beija assim mesmo.

- Um anjo do Senhor veio a mim e me disse para encontrá-lo - explica Cornélio. - E ouvir o que tem a dizer. Por favor, salve-me. - Cornélio ergue os olhos para o apóstolo, que retribui o olhar.

- Por favor, levante-se - diz-lhe Pedro. - Sou um homem, assim como você.

Cornélio está relutante.

- As palavras do anjo foram poderosas e muito claras.

- Não posso salvá-lo - fala Pedro -, mas Jesus, sim. Se acreditar nele, seus pecados serão perdoados. - Pedro toma Cornélio pela mão e o coloca de pé. Então, conduz o romano até um lago no centro do pátio. O apóstolo sabe muito bem que deve aproveitar aquele momento, pois é uma chance oferecida por Deus de trazer o primeiro romano para o lado de Jesus.

Ele e Cornélio entram no lago.

- A mensagem de Jesus para todas as pessoas de toda parte é que qualquer um que se arrependa de seus pecados e acredite nele pode ser perdoado - diz o apóstolo a Cornélio e a todos que possam ouvir. Suas palavras ecoam pelo pátio.

O romano assente e Pedro o mergulha na água, batizando-o.

- Eu, Pedro, o batizo, Cornélio, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Uma salva de palmas irrompe no pátio. Cornélio, com sua toga branca agora

encharcada, acena para sua família.

- Venham comigo, todos vocês. Venham receber o Espírito Santo - diz ele, eufórico.

Um a um, eles entram no lago. Assim, as palavras que Deus havia falado a Abraão tempos atrás continuam a se tornar realidade: “Eu lhe darei descendentes tão numerosos quanto as estrelas do firmamento.”
É desse modo que o evangelho, como são conhecidas as palavras de Jesus, chega ao mundo romano. Pedro trabalha de forma incansável, assim como todos os outros discípulos. Um homem, no entanto, faz mais do que qualquer outro para levar a Palavra ao império - o mesmo que antes havia se esforçado como ninguém para esmagar os discípulos de Jesus: Paulo. Seu passado como perseguidor de cristãos não é facilmente esquecido. Sempre que encontra outros fiéis, ele ouve as mesmas acusações. Assassino. Opressor. Descrente. Muitos duvidam quando ele afirma ter mudado - e com razão, pois as lembranças de entes queridos que desapareceram ou foram massacrados diante de seus próprios filhos continuam frescas demais em suas mentes. Paulo, no entanto, repete sua história sem descanso, sabendo que o amor de Deus flui através dele e é capaz de mudar corações.

- Eu mudei - diz ele incontáveis vezes. - Estava cego, mas agora vejo.

Em uma pequena igreja, uma mulher dá um passo à frente e cospe em seu rosto.

- Mentiroso - grita ela.

Paulo não limpa o cuspe.

- Por favor - diz o apóstolo para ela e para todos os presentes no pequeno recinto. - Ouçam antes de julgar.

O Templo cai em silêncio, mas a raiva daquelas pessoas produz seu próprio som, que ecoa em seus ouvidos e pesa em seus corações. Os homens batem com os pés no chão, impacientes, lutando contra a vontade de matar aquele mentiroso. Paulo prossegue, temeroso porém imperturbável, sabendo que não tem escolha senão dizer o seguinte:

- Eu fiz o que fiz porque estava seguro de que tinha razão. Estava certo de que conhecia a vontade de Deus. Tão certo quanto vocês se sentem agora.

Ele corre os olhos ao redor, sabendo que ganhou algum tempo.

- Mas então Jesus veio a mim. Não com revolta ou julgamentos, mas com amor. Com o seu amor.

Olhos se enchem de lágrimas. Cabeças assentem. Sim, eles haviam sentido o mesmo.

Sem amor, não somos nada - diz Paulo. - O amor é paciente. O amor é bom. Não sente inveja. Não se envaidece. Não é orgulhoso.

Ouvem-se alguns murmúrios de desagrado. O que aquele homem sabe sobre o amor?

Mas Paulo continua:

- Ele não guarda rancor. Alegra-se com a verdade, em tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Quando todo o resto desaparece, ainda resta a fé, a esperança e o amor. O maior de todos estes, no entanto, é o amor.

Um a um, os membros da congregação se levantam de seus assentos e caminham até Paulo. No começo, é difícil tocar aquele homem cujos punhos tantas vezes haviam causado dor. Mas logo o abraçam, aceitando-o e aos seus ensinamentos.

Um certo homem mantém distância. É um homem instruído, que está claramente perturbado pelas palavras de Paulo e quer ter um debate intelectual quanto ao significado delas.

Por fim, Paulo se dirige a ele.

- Você não acredita no amor de Deus? - pergunta o apóstolo.

- Sim, acredito - diz o homem, que se chama Lucas. - Mas sou grego. Um gentio. Sei que existem leis e rituais que devo seguir para me tornar judeu.

O rosto de Paulo assume uma expressão grave. Ele balança a cabeça.

- Não. Não. Você não precisa se tornar judeu para conhecer o amor de Deus. Ele está ao alcance de todos.

- Mas e quanto às leis? - lembra-lhe Lucas.

- Se apenas obedecer às leis fosse suficiente para ser salvo, Jesus teria morrido em vão. Mas Jesus morreu para livrá-lo do pecado. Para livrar todos nós do pecado.

Paulo volta a se dirigir a toda a congregação.

- Não há mais judeus ou gregos, homens ou mulheres, escravos ou homens livres. Somos todos irmãos em Jesus Cristo.

Essas são palavras revolucionárias, e a congregação grita um “Amém” sincero em resposta.

- Junte-se a nós - diz Paulo para Lucas. - Que Deus esteja com você.
Paulo é um radical e um revolucionário, que prega o evangelho da cristandade com um fervor que coloca sua vida em risco e faz com que ele seja preso de tempos em tempos. Esta nova fé se espalha pelo Império Romano, graças também à abnegação e à dedicação incansável de Pedro.

Mas, novamente, é Pedro quem Deus convoca para realizar algumas de Suas tarefas mais difíceis. Pedro aceita a missão árdua de viajar ao centro do império para mudar corações e mentes. Pedro, o pescador de homens iletrado e ignorante, está a caminho de Roma. Como Daniel entrando na cova dos leões. Qualquer homem sensato diria que o destino de Pedro é a morte certa. Mas, enquanto se aproxima de Roma, Pedro lembra a si mesmo da história de Deus e de todos nós. As palavras e as histórias lhe dão forças e servem como um lembrete do seu propósito.

- No começo, Deus abraçou Abraão. Dele, veio uma família que se tornou as 12 tribos, que, por sua vez, se tornaram um povo e uma nação. Agora, através de Jesus Cristo, devemos abraçar todo o mundo.

Revigorado, Pedro chega a Roma. A cidade é exótica e estimulante - aromas e especiarias de todo o mundo pairam ao longo de suas ruas sinuosas. Ele assimila o ambiente ao seu redor, pensando a princípio que suas roupas simples e sua aparência estrangeira fossem denunciar sua condição de forasteiro. Mas então percebe que, como eixo central do império, Roma abriga homens de toda parte do mundo. Todos os dialetos e formas de vestir podem ser ouvidos e vistos à sua volta. Pedro pode ser um forasteiro, mas não está sozinho.

Sentindo-se fortalecido, Pedro se aproxima de uma fila de escravos algemados. Eles estão recostados contra uma colunata, esperando ser mandados a alguma parte para fazer um trabalho qualquer. O apóstolo lhes oferece água do seu odre.

- Por favor - diz ele a um dos homens acorrentados -, beba um pouco dagua.

O escravo lança um olhar agradecido para o apóstolo e toma um gole generoso.

- Trago uma boa notícia - diz-lhe Pedro. - Uma notícia que irá aliviar seu sofrimento. É sobre um grande professor chamado Jesus.

Correntes retinem à medida que os escravos se reúnem em volta de Pedro. Eles se aproximam por causa da água que o apóstolo oferece, mas também por causa da mensagem de esperança que ele traz.

- Jesus disse que quem tiver sede deve vir a ele e beber do poço da salvação.

Atitudes como essa não passam despercebidas por muito tempo. Logo, soldados romanos passam a observar de perto os passos de Pedro. Nero, o imperador, havia acusado os seguidores de Jesus de iniciar um incêndio que queimou grande parte de Roma. É uma época perigosa. As perseguições haviam retornado com força total. Contudo, o discípulo que antes conhecera o medo e a falta de fé não para de pregar.

- Os romanos crucificaram Jesus. Mas ele renasceu dos mortos e, em seu infinito amor, entregou aos seus seguidores as chaves do Reino dos Céus. Acreditem nele, e os portões se abrirão para vocês.

Um a um, os escravos caem de joelhos, aceitando Jesus.

No entanto, em uma súbita explosão de violência, Pedro é atacado por soldados romanos e jogado no chão. Eles desferem dezenas de golpes em suas costas cabeça. O mercador de escravos se une aos soldados, pois não quer que sua preciosa mercadoria seja corrompida por idéias e emoções. O fim não tarda a chegar para Pedro. Ele é preso e então julgado em um tribunal romano, que o considera culpado de incitar uma rebelião. Os romanos o condenam à morte na cruz. Quando já havia sido espancado e carregava sua cruz até a colina onde seria crucificado, Pedro protesta:

- Não sou digno de morrer da mesma forma que Jesus - diz Pedro, esforçando-se para se fazer entender na língua romana. - Então, por favor, crucifiquem-me de cabeça para baixo.

É com muito prazer que os romanos atendem ao seu pedido.

Para onde quer que os discípulos viajem, eles pagam este derradeiro preço. Pedro é crucificado em Roma. Mateus é martirizado na Etiópia. Tomé é assassinado na índia. E João também se torna vítima dos romanos, mas, no fim das contas, consegue sobreviver. Do grupo original de homens que saíram da Galileia com Jesus, todos são executados como evangelistas. E todos os discípulos tornaram a ver o rosto de seu mestre quando chegaram diante dele no paraíso.

Lucas, o novo seguidor que Paulo recrutara, como Mateus e Marcos antes dele, se dedica com fervor a colocar no papel a história de Jesus para que ela seja transmitida por gerações. Ele está sentado sozinho em um quarto numa casa em Roma quando ouve o exército se aproximar. Lucas sabe o que isso significa, então sai correndo até o quarto em que Paulo está orando.

- Paulo - diz Lucas em tom de alerta. - Eles estão vindo buscá-lo.

Há anos que Paulo vinha esperando por esse momento. Apesar das muitas vezes em que foi aprisionado, algo lhe diz que esta será a última.

- Leve isto com você - fala ele. - Essas palavras e cartas devem sobreviver. - Paulo entrega a Lucas os pergaminhos que estão em cima da mesa.

Paulo se levanta, tão temeroso e desafiador quanto nos dias em que perseguia cristãos. Ouvem-se passos subindo as escadas.

- Vá - ordena ele. - Saia daqui. Você precisa continuar vivo para dar prosseguimento ao nosso trabalho.

Lucas titubeia, mas então obedece e foge pela varanda.

Paulo está sozinho. Ele havia pregado a Palavra de Deus por quase três décadas. Tinha sido uma vida dura, repleta de privações e sofrimento. Contudo, em meio a todo o caos e matança que marcaram a expansão da igreja cristã, Paulo sabe que a Palavra sobreviverá a ele. A Palavra é amor.

- Eu travei o bom combate - lembra o apóstolo a si mesmo enquanto se senta de volta para aguardar seu destino. - Cheguei ao final da corrida. Mantive a fé. -Ele suspira. Sua hora chegou. Escuta os soldados terminarem de subir as escadas e se vira para encará-los quando eles invadem o quarto.

Paulo será decapitado na Prisão Mamertina.

Os pergaminhos foram salvos por Lucas e compõem grande parte do Novo Testamento.

João é o último discípulo que resta; aquele que possui o dom da intuição é um milagre vivo. Ele se recusara a aceitar o imperador romano como seu deus e, de alguma forma, sobrevivera a todas as tentativas de assassinato. Vive seus últimos dias em uma pequena caverna numa ilha próxima à costa da Ásia Menor. É um lar humilde, porém suficiente para ele. Os romanos poderíam tê-lo matado de várias formas diferentes, mas, em vez disso, exilaram João para a ilha remota de Patmos. Seu rosto é curtido pelo vento e pelo sol, seus lábios estão rachados por conta do calor e da sede. Os romanos imaginam que aquele isolamento seja uma sentença de morte, que irão forçá-lo a trabalhar até morrer, como haviam feito com tantos outros nas minas romanas que existem na ilha. Mas João sabe pescar. Ele vive do mar, certo de que a obra de sua vida havia garantido descendentes tão numerosos quanto as estrelas do firmamento. Os romanos podem tê-lo enviado para longe, mas não podem apagar sua memória - assim como não podem apagar o próprio cristianismo. Ou seu dom da intuição.

Em seu momento de maior desamparo - e há muitos assim naqueles últimos dias -, João tem uma revelação de esperança. Ele volta seu olhar para o passado, recordando tudo o que havia acontecido ao longo dos anos, desde que conhecera Jesus. Ouve a voz do Messias como uma lembrança cada vez mais nítida. Sua visão se transfere do passado para o presente, e então para o futuro - um futuro infinitamente mais grandioso do que qualquer coisa que tenha existido antes. Jesus está diante dele.

- E sou o Alfa e o Ômega - diz Jesus, surgindo para João na pequena caverna. Um peixe está sobre a brasa, esperando para ser virado. - O primeiro e o último, o começo e o fim.

O rosto de João se transforma, assumindo uma expressão de alegria.

- Senhor, me perdoe. Eu estava esperando a morte, mas era você.

Jesus sorri e chama João, conduzindo-o para fora da caverna.

- Não haverá mais morte, luto, pranto ou dor - diz-lhe Jesus. - Eu renovarei tudo. - Ele oferece a João um copo d agua, que o discípulo leva devagar aos seus lábios ressecados. - Àquele que tiver sede, eu darei água do rio da vida. Veja, eu voltarei em breve. Pois sou a luz do mundo.

Extasiado, João compreende plenamente o que Jesus lhe diz.

- Bem-aventurados os que leem as palavras do livro. E ouvem as palavras nele escritas. Que a graça do Senhor esteja com todo o povo de Deus.

- Amém - sussurra João.

João olha dentro dos olhos de Jesus, olhos que viram o início dos tempos. Eles viram Adão e Eva; viram Noé, Abraão e Davi. Veem também o futuro, bilhões de seguidores de Jesus - tão numerosos quanto as estrelas do firmamento - repetindo as palavras que João acabara de sussurrar.

- Amém.

F I M