OS DRUÍDAS

ORA, ESTA TRADIÇÃO QUE DORMITAVA NO FUNDO DA CONSCIÊNCIA CÉLTICA, DESPERTA, SAI DA SOMBRA DOS SÉCULOS E SE MANIFESTA NO MUNDO SOB O NOME DE ESPIRITISMO. LÉON DENIS

A COINCIDÊNCIA ENTRE O QUE HOJE NOS DIZEM E AS CRENÇAS DAS MAIS REMOTAS ERAS É UM FATO SIGNIFICATIVO DO MAIS ELEVADO ALCANCE. ALLAN KARDEC

APRESENTAÇÃO

Antes de nos referirmos diretamente a este livro, faz-se necessária uma breve retrospectiva, com informações complementares esclarecedoras, a qual abrange também as duas obras anteriores que formam, com esta, uma trilogia. A primeira obra publicada dessa referida tríade, pela Editora CEAC, autora espiritual Liz e psicografta de Mônica Oabus, foi: Grécia - um romance no tempo dos deuses e a segunda: França - um romance no tempo dos cátaros.

Como romances, os enredos da trilogia têm por denominador comum os personagens em vivências surpreendentes, as quais permitem ainda importantes reflexões para os que veem necessidade de melhor se capacitarem para os enfrentamentos dos problemas da existência humana.

Também pela leitura deste conjunto, mais do que obter a satisfação de apreciar boas histórias, adquirimos ao mesmo tempo fundamentos sólidos da Doutrina Espírita, os quais são totalmente fiéis aos que são expostos nas obras básicas da codificação de Kardec. Igualmente por acréscimo, são apresentados períodos da história da humanidade, vistos em perspectiva singular.

Para contextualizar, podemos colher informações na psicograha de Francisco Cândido Xavier, dada pelo seu mentor espiritual Emmanuel, de que em eras remotas, um grupo de espíritos chegado de caminhadas evolutivas em outros orbes, foi escolhido para que, sob a égide de Jesus se ocupasse, na Terra, com o evoluir da humanidade em duração multimilenária.

Podemos ainda destacar que a vinda pela via da reencarnação â crosta planetária desses guias de luz, fez-se necessária desde o raiar dos primeiros clarões consequentes à longa noite dos tempos na escuridão da irracionalidade, que até então portavam os seres vivos no berçário das espécies, que evoluíam biologicamente na Terra.

Posto isto, podemos concluir que essa evolução se fundamenta em exercícios permitidos a esses seres para se qualificarem â promoção do reino animal para o hominal, sendo que após essa fase, com a posse do pensamento contínuo, ganharão mais e mais liberdade nas escolhas do seu caminhar evolutivo. A partir desta promoção à humanidade, com a aquisição progressiva de aprendizado, esses seres podem dispensar gradativamente a tutela natural dos condicionamentos do instinto, a qual é substituída de modo igualmente gradativo pela vontade própria cada vez mais fortalecida.

Pelos missionários espirituais, guias da população humana, emergente sobre a Terra, uma decisão participativa foi tomada, definindo o momento de sua entrada na roupagem física de corpos, com os quais, pelo renascimento, cumpriríam cada qual a sua missão também participativamente definida. Dessa maneira, as encarnações dos seres destinados a evoluir como alunos neste Planeta Azul, escola primária na escala dos mundos, estava já, neste tempo, definida para ser simultânea à vinda dos educadores de luz que ofereceríam seus ensinos teóricos, práticos e exemplos, para alavancar o progresso humano, através de lições dadas aos espíritos aprendizes que evoluiríam neste orbe, e com os quais seriam formados agrupamentos em evolução coletiva, entremeando existências na biologia da carne, com outras em vivências em corpos de matéria sutil no mais além.

Planejada também, como momento maior e descrito no Evangelho, há 2000 anos, a chegada na Terra para se revestir de carne do responsável pelo governo planetário. Essa vinda se deu e teve como objetivo regrar a caminhada, no tempo e no espaço, da sociedade composta pelos seres inteligentes que formam a humanidade, definida como a população dos vivos de cá na matéria densa e também a dos vivos do mais além, sendo esses últimos ligados existencialmente à crosta planetária.

Assim sendo, a marcha evolutiva iniciada pela humanidade criança prossegue no espaço, seguindo uma linha no tempo, passando cada indivíduo por transições de mortes e renascimentos em múltiplos corpos físicos e sutis, e agregando nessas existências saberes à parte imortal do ser que é. Dessa maneira, esta individualidade estará inelutavelmente destinada a chegar a níveis altos de perfeição moral, conduzida pelas experiências existenciais a mais e mais pensar, falar e gir, tendo por base o conteúdo essencial do Evangelho. De tal modo, partindo do espírito menino que foi, ele é levado à aquisição em proporção ao seu progresso intelecto-moral, à escala crescente de paz e felicidade até atingir o mesmo grau evolutivo dos membros das comunidades dos seres iluminados da criação.

Considerada também deve ser a condição de que a missão existencial progressiva de cada individualidade se complementará com exercícios do intelecto, o qual em equilíbrio com o progresso moral alcançado, levará essa referida individualidade espiritual, de forma progressiva, a níveis também altos do saber intelectual, qualificando esse ser, agora angelical, em termos de qualidade unificada de amor e inteligência.

Após esse posicionamento contextual, como também foi feito de maneira semelhante e específica no prefácio da primeira obra da trilogia, destaca-se inserido neste referido planejamento multimilenário, os feitos do que podemos identificar como sendo praticados por uma família de espíritos afins, que com variados níveis de evolução encarnam de tempos em tempos, em locais determinados, estendendo aí raízes que serão parte daquelas que, entre outras, darão seiva ao tronco Espírita/Cristão na árvore das religiões.

Alguns dessa plêiade de espíritos teve a sua saga inicialmente relatada na obra: Grécia - um romance no tempo dos deuses, da autora espiritual Liz e de psicografia de Mônica Dabus, cuja parceria traz a lume esta terceira obra, de ambas.

O primeiro livro tem por cenário a antiga Grécia dos deuses, no alvorecer da cultura ocidental. A ação aí descrita, al como a da obra seguinte: França - um romance no tempo dos cátaros, bem como nesta, sobre os celtas e os druidas, iluminam períodos de espaços históricos com reflexões sobre a saga desses espíritos afins, cujos íntimos são descritos em suas vivências, revelando ainda a contraparte da história descrita sob a visão do plano espiritual e que, como páginas complementares, darão corpo a um texto unificado muito mais explicativo que os fatos ensinados nas aulas de História.

O segundo romance tem por palco o Languedoc, região sul/sudoeste da França, no século XII, cujo enredo descreve acontecimentos importantes da história da Europa. Esses romances contêm personagens que vivem histórias de amor, reveladas e enriquecidas pela descrição da perspectiva singular dos seres do invisível. Nessas páginas também aparecem provocativas e profundas reflexões sobre a influência dos espíritos em nosso cotidiano. Assim sendo, colheremos da leitura desta trilogia compreensão preciosa sobre o agir humano, influenciado pelas entidades espirituais do bem, assim como de outras contrárias à harmonia e à ordem universal.

Especiflcamente nesta obra, Os Druidas - no limiar da Era Cristã, podemos destacar a importância do resgate da sabedoria de uma cultura ancestral, da qual muito se perdeu devido à imposição da cultura do dominador romano, que por estratégia de vencedor, como “é de praxe”, impôs a sua versão dos fatos que, cantada e contada em verso e prosa, se define na memória dos povos, suprimindo registros históricos da cultura do vencido. Dessa maneira, a sabedoria dos druidas, a qual guiava o povo celta, foi retirada das páginas oficiais dos registros históricos e levada ao esquecimento compulsório. O pouco que sobrou de registros e no seu tempo, a inquisição repaginou a historiografia celta com sua visão distorcida e seus registros truncados. Outra causa importante para a pouca existência de registros históricos dos celtas acontece também, por serem as autoridades de maior importância civil e religiosa deles, os druidas, os quais embora com capacidade de expressão em linguagem escrita, tinham por tradição a transmissão oral de seus ensinamentos. Isso provocou mais ainda a aceleração do processo do apagamento da memória dos povos de seus ensinamentos. Porém, felizmente nem tudo se perdeu. Nos registros permanentes das almas que viveram o drama de terem as culturas de seus povos apagadas das mentes encarnadas, permanecem, no entanto, vividas nos registros históricos da realidade espiritual. Para acessá-los de lá, a via mediúnica faz do teclado que digita um instrumento duplamente literal de renascimento dos fatos passados na historiografia dos povos, os quais são aqui apresentados em forma de literatura, pelo texto agradável da mentora espiritual Liz e psicografia de Mônica Dabus.

Renascida assim, esta letra vivificada com enredos, emoções e lições de vida e que mostram a espiritualidade presente no dia a dia dos gregos, cátaros e celtas, e especialmente nestes últimos, o paralelo com o Espiritismo se impõe, evidenciando a precedência dos ensinos dos espíritos codificados por Kardec na vivência celta.

Lemos nesta obra, pela narrativa de Liz, que, desde antes da dominação romana, os celtas aprendiam dos druidas, os quais tinham atribuições de sacerdotes, juizes e mentores em ciência, religião e artesãs, bases de uma religião una com a natureza, que era também “uma filosofia espiritualista nascida da intuição de seus sacerdotes” e que tinha visão monoteísta a qual “exalta a imortalidade, a continuidade da vida em evolução perene e a pluralidade dos mundos habitados”.

Pelas linhas anteriores, podemos então constatar que os ensinamentos dos druidas neste livro, bem como os dos cátaros e até dos filósofos gregos, descritos nas duas obras anteriores, eram realmente uma preparação para a chegada posterior dos ensinamentos do Espiritismo, os quais viriam a lume, em meados do século XIX, e que encontrariam semeados nos refolhos da mente humana, o novo paradigma religioso requerido neste tempo pelo progresso intelectual, alcançado pela humanidade, a qual diante do brado dos iluministas ouvia que não mais seria aceita a fé cega, até então sustentada pelo dogmatismo religioso.

Muitos relatos históricos que temos atualmente sobre a cultura dos celtas a definem como “paga, em conotação pejorativa atribuindo a ela o significado “anticristão”. Este engano, segundo explicações mais convincentes na atualidade, tem a sua origem em documentações obtidas nos registros da Inquisição mediante tortura e assim sendo, com validade contestada. Esta percepção errônea do druidismo torna-se mais ainda inverossímil quando tomamos conhecimento do conteúdo apresentado nesta obra: Os Druidas - no limiar da Era Cristã, a qual demonstra que os ensinamentos desses sacerdotes, juizes e bardos, eram totalmente aderentes aos valores do cristianismo.

Quanto ao paralelo com o Espiritismo, extraímos do texto deste livro, o qual é revestido da historiografia celta, descrições da realidade espiritual que fogem do estereótipo fantasioso de muitas religiões e que, por outro lado, se identificam perfeitamente com as descrições da realidade espiritual apresentadas na doutrina espírita e quando bem interpretadas, do Evangelho de Jesus.

Assim sendo, convido o leitor a entrar por este espaço textual, aberto pela psicografia de Mônica Dabus pelo espírito Liz, e receber as letras deste texto rico em arte, descobertas históricas e saber espiritual.

Carlos Eduardo Noronha Luz - 16/7/2015

CAPÍTULO 1

Em uma cidade espiritual, nas adjacências terrestres, anterior à era cristã, reuniam-se centenas de entidades em admirável recinto. A encantadora noite derramava inspirações divinas. Diáfana luz descia brilhante, vibrante, arrebatadora. Os presentes observavam maravilhados. Interessados na amplitude de novos conceitos, trocavam impressões e discorriam algumas particularidades. Entusiasmados, comentavam a programação futura. Preocupados com a possibilidade de fraquejar ou em cometer as mesmas faltas, e justamente por saber que mergulhariam num novo período de esquecimento transitório, ouviam a palavra dos tutores que, em atitudes carinhosas, transmitiam-lhes segurança e os votos de belas realizações. Melodia suave derramava-se sobre aquelas almas ansiosas pela oportunidade de aprender e servir, dentro da programação elaborada.

Após a bela prece, fez-se ouvir uma voz masculina que se sobrepôs naturalmente às demais. Era um ancião de porte respeitável. De seus olhos calmos irradiavam-se forças animadoras; exibia espesso bigode e cabelos castanhos bem claros. Trajava uma espécie de calça comprida com uma túnica de linho branca até o joelho e uma capa verde-esmeralda, aureolado por leve luminosidade. Estendeu a mão sobre todos e os saudou com expressiva simplicidade:

- Filhos da alma, Deus vos abençoe!

- Dirigimo-nos a vós, que tendes a bênção do retorno à divina escola terrestre. O amparo da Misericórdia Divina se fez presente em todas as etapas da caminhada da humanidade, em busca do seu desenvolvimento espiritual. O momento recomenda prudência. A história dos homens se reproduz, desviam-se sempre, com a mesma ilusão de domínio, de poder e de ouro, objetivando interesses particulares, e nunca o bem-estar da coletividade. Infelizmente, os que têm nas mãos os destinos humanos seguem insaciáveis de ostentação e de sangue. A ignorância invade todos os setores. As religiões petrificaram-se no comércio, esquecendo-se do próximo. Desde remotas épocas, tudo se repete; contudo, a direção da Terra, nas dimensões superiores, tomou a decisão de ouvir o clamor dos sofredores com fome de justiça e sede de amor.

- De tal modo, uma grande corrente espiritual onde vivem e atuam espíritos que têm servido de guias da humanidade, e que jamais cessam de se comunicar com ela, impelindo as almas e as sociedades na estrada evolutiva do progresso, desponta da dimensão invisível com o fim de refrear as paixões humanas.

Estamos no limiar de uma grandiosa bênção divina. Aportará no planeta um emissário do Pai Amado, um espírito da maior pureza e perfeição com relação aos seres que habitam a Tsrra. Reúnem-se nele todos os encantos de luz, pureza e amor para apresentar a água cristalina da Verdade à sedenta humanidade. As luzes do Criador penetrarão pouco a pouco os espíritos. Será recomendado, em nome de Deus, o esquecimento das ofensas, o amor e o perdão. A descida das clari-dades espirituais sobre as sombras do planeta se dará com o objetivo maior de ajudar por amor, de servir em todas as direções sem as exigências naturais do homem comum.

Fez ligeira parada, fitou-os, paternal, e prosseguiu:

- Para tanto, uma corte de espíritos já se encontra nas cercanias da Terra, liderados por expoentes da fraternidade legítima, conscientes de seus deveres diante do Criador. O conhecimento da imortalidade e do Pai comum, acrescido da lei moral e da vida eterna, será levado a todos, espalhando pela família humana um roteiro de progresso e aperfeiçoamento.

Breve pausa. Emocionados, os presentes baixaram os olhos nevoados.

- Irmãos - o ancião imprimiu novo tom -, o trânsito terrestre terá como raiz o tesouro da sabedoria celta, no solo da Irlanda, mais propriamente num pequeno e obscuro território, na província de Leinster, onde há profundo amor e respeito à natureza, aos seres vivos, com concepções extremamente avançadas para a época. É uma ilha verdejante com vastas florestas, lagos aprazíveis, horizontes brumosos, costas abruptas, harmonia dos campos e dos bosques. Ali existe uma cultura bem desenvolvida e uma literatura singular, cantada e declamada pelos bardos - druidas especializados nas artes da música e da poesia. Em todo lugar pairam as vozes misteriosas do espaço, vozes que, no silêncio, inspiram e revelam perenes verdades. Há os gênios das montanhas e das fontes, as almas errantes protetoras dos lugares, os duendes, gnomos, gênios tutelares ou malfeitores. Uma filosoba espiritualista nascida da intuição de seus sacerdotes, dotada de uma visão monoteísta, exalta a imortalidade, a continuidade da vida em evolução perene, a pluralidade dos mundos habitados.

Os presentes ouviam, impressionados.

- Fostes preparados! - prosseguiu o amável expositor -, contudo, ser de Deus e cultivar os carvalhos sagrados, comungar conceitos tão avançados vos impo-rão grandes responsabilidades. Encontrareis sinais da proteção de vossos guias, no culto ardente à natureza. Devereis cultivar o espírito de iniciativa, a energia, a coragem, e sublimar o sentimento do direito, da independência e da liberdade.

Neste momento, abriram-se imagens da natureza, em grande tela, mostrando as belíssimas paisagens irlandesas.

- Filhos! - prosseguiu -, ninguém avançará a mundos felizes antes de obrar pelo melhoramento do próprio mundo. Concluindo, o benfeitor acentuou:

A cultura druida se apresenta como um dos mais altos cumes do pensamento filosófico, mas carece da fé ardente, do pensamento firme, da comunhão intensa e profunda daqueles que conhecem as leis espirituais e os verdadeiros destinos do ser. Essa é a vossa missão.

Gentilmente, o benfeitor espiritual abriu espaço para atender às dúvidas dos ouvintes.

- Fomos informados de que nem sempre estaremos próximos uns dos outros, e que até mesmo, separados, por vezes, em locais distantes - ponderou o primeiro consulente.

- A liberdade pessoal e coletiva será sempre respeitada. Não obstante, para neutralizar a influência de espíritos agressivos e ambiciosos que se contrapõem à Justiça Divina, estaremos sempre a postos, ajudando-os no cultivo da união, da concórdia e no serviço aos irmãos em humanidade, favorecendo-os com o equilíbrio e a serenidade necessários.

- De minha parte, a consciência ainda muito me dói... - disse um tutelado, como se tivesse lançando um golpe de vista ao passado um sofrimento, que mal consigo conter em meu íntimo. Vejo-me em meio a grandes e poderosos, entre tronos e mantos, com a razão subordinada aos instintos. Tenho medo de novos fracassos.

- Com o passar dos séculos, submetidos à lei de causa e efeito, vamos aprendendo a domar os instintos, disciplinando-os pelo conhecimento. A cegueira do espírito é produto da ignorância, meu filho. Não tenhamos medo. Guardemos fidelidade aos nossos compromissos. O solo tem sido preparado para que a proposta do amor se dissemine. Muitos emissários da boa-nova descerão. Confiem todos e façam o melhor, sustentados na luta com a força da fé e o roteiro da razão.

Os presentes baixaram os olhos pensativos. O mentor contemplou-os com amoroso respeito e prosseguiu:

- Falanges de irmãos perversos e transviados transitam pela Terra em cenários de padecimento e horror. Não obstante, o progresso é Lei Divina. Uma nova era terá início na Terra. O código da fraternidade e do amor se derramará e se estenderá. Vigiem e norteiem os passos, dispondo-se no curso das plu-ralidades das existências, à reforma íntima para um futuro melhor. Coragem, filhos, para as lutas do porvir! Confiai e esperai, porque Deus nunca falta com o seu amparo e o seu amor. Esqueceis a vaidade que tem vos anulado o coração, o egoísmo e a ambição que têm vos atormentado o espírito. Alegrai-vos, que o Pai vos auxilie e recompense.

Um sentimento de bom ânimo e coragem tomou a todos.

Imagens se abriram na grande tela: bosques repletos de carvalhos, bétulas, aveleiras, salgueiros, formavam santuários majestosos e sagrados. Horizontes brumosos, brisas, lagos, pântanos, fontes abundantes, costas íngremes, onde a natureza refletia o verde esmaecido nos prados, a exuberância das flores, o bege dos carneiros, homens altos, robustos. As mulheres, altivas, belas de corpo, com a pele alva como o leite e o tom avermelhado nos cabelos claros e soltos das meninas sardentas...

Aos poucos, a assembléia se dissolveu em meio a despedidas e compromissos assumidos. Generosos benfeitores da Vida Maior auxiliariam os personagens envolvidos para um melhor aproveitamento daquela programação na existência terrena.

CAPÍTULO 2

Algum tempo depois...

No horizonte alastravam-se rajadas de vento forte.

A chuva caía abundantemente. Temperaturas baixas cobriam as terras onde vivia Douglas e sua conceituada família irlandesa. O rapaz exibia dotes singulares de beleza física. Alto, cabelos claros, olhos grandes acinzentados, vestia uma blusa com mangas, calça bem justa ao redor do quadril, e um manto de lã - tartãns - tecido de lã branca com pigmentação em cores fortes em xadrez, preso ao ombro com um broche.

A maior parte das grandes transações da ilha era paga com gado, e Douglas era um grande proprietário de rebanho. À sua volta gravitavam companheiros menos ricos. Havia poucos criadores de gado mais habilidosos que ele. Era respeitado pelos habitantes das fazendas espalhadas, que ele chamava de sua tribo. No estágio da cultura pastoril, os chefes eram considerados de descendência divina, e até mesmo filhos dos deuses imortais.

Douglas era o único filho de Brian - um sacerdote druida cujos poucos fios grisalhos destacavam-se da tonsura. A cabeça, levemente raspada da altura das orelhas até o topo, conferia-lhe uma testa alta. Contudo, como já era calvo na frente, a tonsura mal aparecia. A barba, cabelos e bigode brancos destacavam-se em seu rosto estreito e as rugas povoavam-lhe o rosto. Usava uma túnica solta. Seus olhos eram de um tom cinza-azulado, suas mãos esguias, dedos longos. Raramente dispensava a bengala.

Myrna, a esposa de Brian, falecera há anos. O ancião não somente dedicava-se à própria família, como às da redondeza, que encontravam nele arrimo seguro para a solução dos problemas. Praticava a medicina curativa através do magnetismo, da fitoterapia e de intervenções cirúrgicas. Preparava chás e poções, colhia o visco, planta parasita que nascia nos carvalhos, árvore sagrada para os celtas, por meio de uma foice dourada. Para ele, todos os males físicos tinham sua origem na alma. Toda doença física provinha de uma causa espiritual. Brian era um ponto de referência de suma importância entre todas as classes sociais. Os afortunados o amavam pelo seu nobre entendimento das coisas práticas, e os desfavorecidos encontravam em suas demonstrações de carinho a proteção de um benfeitor. Sua propriedade compunha-se de um conjunto de cabanas e armazéns, em um cercado circular na elevação em frente a uma pequena lagoa rodeado por um muro de terra e cerca. Esse assentamento fortificado, o rath, era a versão ampliada de uma fazenda simples - uma casa de moradia, abrigos para animais, chiqueiros, currais para a criação de gado, outras casas de moradias extras e menores, encontradas em todas as regiões mais férteis da ilha. A maioria, e no caso, as casas menores, tinham formas circulares, com fortes paredes de pau-a-pique, que acomodavam o tratador de cavalos e sua família, alguns servos, o bardo. Abaixo havia um pequeno moinho próximo ao riacho e um desembarcadouro no rio completava o assentamento.

Construção de grande porte para a época, o solo concedia a bênção da terra própria ao plantio, jorravam, em abundância, trigo, castanheira, avelã, cevada e outros grãos, garantindo o sustento do lar. Flores como o girassol, a papoula, a verbena e diversas ervas eram cultivadas, um campo belíssimo, para perfumar e com fins terapêuticos.

Os ensinamentos acerca da utilização eram também fornecidos por Marven, amigo íntimo da família, ancião de grandes conhecimentos que ministrava verdadeiras aulas aos interessados, pesquisando e manipulando remédios para os males físicos.

Figura nobre e notável, dotado de mente perspicaz e metódica, era ao mesmo tempo uma alma sensível. Destacava-se por seu magnetismo. Considerava que as forças disseminadas na natureza e as energias ocultas eram realidades incontestáveis.

Solstício de inverno. Alvorada.

O céu era de um pálido e claro azul-celeste. Pelas águas, refletiam-se os raios do sol que rompia, espalhando um tênue brilho dourado ao longo do horizonte. A maior parte da ilha era coberta por densa floresta intercalada com áreas de pântano. Belas cadeias de montanhas espalhavam-se. E, sobre as encostas a céu aberto, das montanhas afloravam rochas. A vegetação florescia em nuances verde-esmeralda. A ilha dividia-se geograficamente em quatro partes, sendo ao norte o território de Ulster, onde havia clãs poderosos que reivindicavam o domínio sobre o sul; a oeste, a província dos lagos e litorais ermos, numa complexa sucessão de lagos; mais ao sul, a província de Munster, e a leste, Leinster, onde se estendiam os ricos pastos e campos e localizavam-se as terras da família de Brian. Os arredores de Dublin, onde a família residia, era uma região fronteiriça, uma terra sem expressões. Os territórios dos chefes poderosos ficavam a norte, sul e a oeste.

As aglomerações urbanas, poderosamente fortificadas, eram chamadas de oppida. Constituíam-se no esforço de tribos célticas para protegerem sua população e riquezas de ataques de inimigos, dissemi-navam-se geralmente em via comercial importante ou na proximidade de jazidas de matéria-prima. Os oppidum, reunindo vilas, dividiam-se em torno de um núcleo central, formando bairros fortificados onde se concentravam atividades artesanais como a fabricação de joias, ferramentas, armas e utensílios. A tribo era a primeira unidade social celta e recebia o nome de tuah, que compreendia um aglomerado de clãs denominado fine, sob o comando de um soberano que governava como um chefe de família. Delegava seus poderes de liderança na guerra a um líder guerreiro eleito ou escolhido pelos druidas.

A terra era propriedade coletiva. O rei podia autorizar os membros da tribo a ocupar uma porção de solo para construir ou cultivar, num contrato chamado cheptel. Cada clã possuía uma hierarquia bem determinada, que ia do agricultor ao druida, sem que houvesse subserviência ou escravidão. Os membros participavam das obrigações e dos lucros. Os bens eram comunitários, não havia moeda e o comércio era feito na base da troca de mercadorias. Os artesãos ocupavam uma posição de destaque. Lavradores, embora numa posição inferior, eram homens livres, não escravos. Por todos os cantos espalhavam-se construções complexas, assentadas por pedras monumentais, que em determinadas ocasiões transformavam-se em santuários.

Na ilha havia três tipos de homens instruídos.

Os mais humildes eram os bardos, contadores de histórias que entretinham a corte nas festas; de outra classe bem mais alta eram os filidh, guardiões das genealogias, criadores de poesias, e, às vezes, até mesmo de profecias; e acima de todos, os druidas, cujo treinamento poderia levar vinte anos. Esses desempenhavam variadas funções, sendo os responsáveis pela manutenção e guarda dos valores da civilização céltica. Eram sacerdotes, com o conhecimento secreo dos encantamentos sagrados, dos números e de como se comunicar com os deuses, ou melhor, com os espíritos; podiam entrar em transe e visitar o outro mundo. Realizavam cultos e cerimônias no solstício de inverno e em outros importantes festivais no ano. Prescreviam o dia em que poderia se semear as safras e abater animais. Poucos reis ousavam qualquer iniciativa sem consultá-los. Eram sábios conselheiros, respeitados juizes e professores.

A família de Douglas muito aprendeu ao lado de Brian. Embora o antigo sistema de escrita celta nunca tenha se tornado largamente utilizado, o mundo da escrita não era desconhecido para alguns habitantes da ilha. Os mercadores de outros locais, como da Britânia e da Gália, que chegavam aos portos, geralmente sabiam ler. Havia muitos bardos e druidas também alfabetizados, inclusive no núcleo de Brian. Todavia, a escrita não foi utilizada nem para registrar a herança sagrada da ilha, pois o conhecimento era secreto.

O grande dom dos sábios, bardos, filidh e druidas era a capacidade da memória. Acreditavam que se guardassem o conhecimento na escrita suas mentes se tornariam fracas.

Crepúsculo. A atmosfera saturava-se de frescas neblinas, quando Douglas atravessou as dependências do quarto. Lavara as mãos em leite de cabra, esfregando-as cuidadosamente na tentativa de amaciá-las. Deixava transparecer nas maneiras polidas sua preocupação.

Brigite, a esposa, era formosa, pele alva, rosto rosado, cabelos castanhos bem claros. Dedicada ao lar, ao marido e a uma filha pequena; com a maternidade revelava-se mais alegre, mais viva, saúde plena. Desde o amanhecer entrara em trabalho de parto. À medida que as horas avançavam, via-se a apreensão acentuando-se em Douglas, e a firmeza da parturiente declinando. Ela gemia de dor e os que a cercavam murmuravam palavras de encorajamento. Os esforços se tornaram mais intensos, até que com um grito, ela empurrou a criança para o mundo.

Brian, o pai de Douglas, encontrava-se sentado na área externa da casa, orando, quando no silêncio e na escuridão surgiu a figura de uma mulher com cabelos longos e soltos.

- Está tudo bem - disse-lhe mansamente -, a menina nasceu saudável! Ela terá o Conhecimento do Carvalho, o saber sobre os mistérios entre o Céu e a Terra. A nossa tarefa é trabalhar em prol da edificação de uma humanidade fraterna e evoluída. Bem cedo deverá iniciar as lutas enriquecidas pelas experiências no imenso campo do coração, onde o amor vence o ódio, a paz vence a guerra, o perdão vence a vingança, e a fraternidade vence o orgulho e o egoísmo. A maior luta é aquela em que a alma é convocada a educar os sentimentos.

A voz e a imagem desapareceram, como dissolvidas em brisas. Ouviam-se agora somente os ecos do vento. Brian, numa reação feliz, pôs-se de pé, apoiando-se num cajado de madeira. Olhou ao redor, como se procurasse os murmúrios que lhe escaparam, sentiu como se ondas se propagassem naquela planície e gritassem boas-vindas, quando fora surpreendido por um choro alto, e só aí se deu conta de que a criança nascera. Como um sonâmbulo que acorda com a vaga lembrança de um sonho, dirigiu-se ligeiro à moradia. Entrou. Empurrou a espessa cortina que pendia sobre o vão da porta, caminhou até o lado da cama, e deslocou o olhar para a neta. Juntou as mãos na frente do rosto e estendeu-as a ela, numa bênção.

Douglas quebrou o silêncio:

- Veja, o senhor tinha razão, meu pai, é uma menina. Uma bela menina! Que destino prediz a ela?

- Ela está bem? - perguntou - É bem formada?

- Sim, é perfeita.

- Mostre-me.

A parteira ergueu o bebê, aconchegando-o ao peito, descortinou os panos que a envolviam e a mostrou. Brian dirigiu-se à recém-nascida desdobrando-se em um entendimento, de coração para coração.

- Você não me é estranha, minha pequena - murmurou afetuoso adormeceu para esquecer... Abre os olhos agora num outro corpo. Escuta-me! Bem-vinda de volta aos meus braços! Seu nome será..., Gwen. Que o Senhor da Vida a proteja e a abençoe, hoje e sempre.

A voz dele era baixa e repercutiu de forma profunda.

Foi como se o bebê o ouvisse. Os lábios minúsculos sorriram, saudando o avô como quem encontrara um velho conhecido.

Um largo sorriso de felicidade aflorou nos lábios de Brian.

CAPÍTULO 3

Douglas, solitário, chega à sua moradia.

Onze anos haviam se passado desde o nascimento de Gwen.

No aconchego do lar, almas velhas conhecidas reuniam-se para o serviço em favor da comunidade, na governança e sustentação das idéias de renovação e progresso.

Após o nascimento de Gracie, a primogênita, e de Gwen, Brigite e Douglas acolheram nos braços mais duas filhas: Norah e Ágata. Sentiam-se reconciliados consigo próprios, irradiavam alegria.

Douglas não tinha o hábito de conversar com a esposa. À chegada se entretinha em seus estudos, até tarde, muito tempo além de todos já terem se recolhido. Deleitava-se especialmente com filosofia, astronomia e poesia.

Naquela noite, entregue aos seus estudos, Douglas foi interrompido por Brigite a dizer-lhe de sua preocupação com Gwen, que não estava bem.

Com ansiedade paternal, ele procurou a filha no leito. Desde o nascimento dela se estabelecera entre ambos uma ligação muito forte.

Deparou-se com Brian, cujas vestes alvas flutuavam em torno do corpo cheio, tombando em pregas modestas. Falava em voz alta de fenômenos que estavam ocorrendo. Ressaltava noções precisas sobre a vida e a morte, revelações fornecidas pelos seus antepassados e por espíritos benevolentes, suas palavras confundiam-se com o toque-toque da bengala.

Douglas, aflito, curvou-se sobre a filha, tocando-lhe os cabelos longos e claros que se espalhavam pela brancura de sua face. A voz habitualmente grave e seca tornou-se suave e hesitante.

Beijou-a, ergueu os olhos em direção a Brian:

- Pai, Gwen está pálida... O que houve desta vez?

- Estávamos no bosque, ela me acompanhava ao espaço sagrado, filho. Está aprendendo a usar a mente. Encontrava-se compenetrada. Distraí-me e quando notei, havia desmaiado.

- Mas, meu pai - disse preocupado -, essas ocorrências têm se acentuado.

- Gwen não tem nada, filho. A meu ver, isto é o dom que se manifesta espontâneo, inerente às criaturas. Não é um privilégio exclusivo. E não há fórmulas prontas, embora saibamos que esta faculdade tem se mostrado bem caracterizada em seus efeitos, de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.

- Mas, por que a falta de controle?

- Cada um traz em si o gérmen de atributos para desenvolver a faculdade, mas esses se apresentam em graus diversos, a depender de causas que ninguém pode fazer vir à tona pela vontade. Gwen não tem consciência do que possui; e o que de anormal se passa ao seu redor, não lhe parece de modo algum extraordinário. Não se aflija!

- Quisera eu ter calma, meu pai.

- Despreparada, ela não tem controle sobre tais percepções quando não as quer, nem como concentrar o seu poder, quando o deseja. Mas, este dom não constitui estado patológico, porquanto, não é incompatível com uma saúde perfeita.

- Pois ela tem apenas onze anos! Não deveria somente se divertir, como as demais crianças?

- Filho, em seu nascimento veio a revelação de que ela teria o dom do Voo do Espírito. Lembra-se? Este é o seu mundo real, que devemos respeitar. O que posso afirmar é que cada ser vivo é um transformador da energia própria, associada ao Guivre que representa o poder criador do mundo material e se constitui no fio que liga misteriosamente o mundo humano ao divino, a luz que está na origem da Criação e da matéria viva.

- Todavia - ponderou, após ligeira pausa -, cada criatura, segundo o próprio potencial, aprenderá a desenvolver e aprimorar essa força. Todos os seres, todos os mundos estão banhados por ela. Daí resulta que o nosso pensamento, quando orientado por uma vontade firme, vai impulsionar as almas a distâncias incalculáveis. Uma corrente fluídica se estabelece e permite que espíritos das mais diversas ordens respondam nossos chamados e nos influenciem.

- Ihdo isso me impressiona! E o que Gwen fala nesses transes? Seriam vivências de outros tempos?

- Sem dúvida, Douglas, Gwen tem o corpo de uma menina, mas seu espírito não é novo. Fisicamente carregamos uma herança, e também carregamos outra, espiritual. É de vivências passadas que minha neta se reporta nesses transes.

- Haveria possibilidade dessas histórias serem frutos de sua imaginação?

- A minha experiência permite-me dizer que podem ser provocadas e dirigidas por Mestres do Além, conforme julguem necessário. Mas, pode acontecer, também, de mergulharmos em recordações naturais do pretérito, como acontece frequentemente comigo, e talvez esteja acontecendo com minha neta... Só o tempo dirá!

- Ah, meu pai! Gostaria que tudo isso se fechasse!

- Não se preocupe! Gwen estará bem. Não obstante, minhas quatro netas deverão ser iniciadas nos valores espirituais. Solicite a Marven ensiná-las sobre as leis do Criador. Gwen é filha dele, pelos laços divinos do espírito.

Douglas curvou-se sobre a filha. Brian manteve-se calado. Pouco depois, emocionado, ouviu a neta:

- Papai... Vovô... Estão aí?

- Sim... E você? Como está?

- Estou ótima, papai.

- Você nos assustou... O que houve?

Fui tomada por forte dor de cabeça, creio que desmaiei... Depois, um barulho como se algo estivesse se rasgando em minha mente, sensações, imagens... Tãlvez um sonho...!

- Que sonho?

- Não sei. Logo percebi uma voz, que se transformou na figura de uma mulher. Estendeu-me os braços e sorriu. Por um momento, senti-me transportada a um local diferente, terras de sutil beleza, onde a paisagem se revestia de colorido suave, pessoas que me eram conhecidas... Vi um refúgio sagrado e a celebração de mistérios. Ali, pensadores, poetas e artistas iam colher o ensino oculto, que depois transmitiam à multidão. Acima do reinado de tiranos, um poder supremo dominava aquele lugar. Foi confuso, mas sei que já estive lá...

- Já passou... Está tudo bem agora.

- Não gosto de vê-los preocupados comigo.

- Diga-me, filha, o que quer para tranquilizar-se?

- Eu quero que o senhor me dê a mão, e fique aqui bem perto, perto para sempre! Prometa que jamais me deixará.

Douglas lhe afagou a face com extremado carinho. Gwen sorriu, agarrando com força suas mãos. Lágrimas de emoção inundavam seus olhos.

- Adormeça, estou aqui para protegê-la. Se depender de mim, sempre estarei ao seu lado. É uma promessa!

Gwen adormeceu. Brian revelou, cheio de júbilo, que em dado momento notara a aproximação de figuras espirituais sublimadas que a acariciaram, revitalizando seu organismo.
Na noite seguinte todos já haviam se recolhido, quando Brian foi até o aposento da neta e percebeu que ela não estava no leito. Saiu para o pátio. Sob a luz prateada da lua, passou por árvores ornamentais envolvidas em frutos verdes e dourados. Desviou de pedras colocadas entre os canteiros de flores exóticas e alcançou uma fonte. As árvores farfalhavam sob o vento refrescante. Os troncos das árvores plantadas ao longo da propriedade pareciam espectros acinzentados.

Sabia que Gwen, muitas vezes, ia para o jardim e lá ficava a vagar, pelas alamedas ou sentada nos bancos rústicos, especialmente se havia luar. Logo pôde ver o seu perfil delicado que se acomodara próximo à fonte.

- Gwen, por que está fora de casa a esta hora, já tão tardia?

- Eu estava rezando, vovô.

- A que deus está rezando, minha querida?

- A Oiw, o Criador que está em toda parte, com todos os povos e terras, até as desconhecidas, vovô.

- Oiw é o Tbdo-Poderoso, infinitamente sábio e bom, Criador de todos os seres. Está impregnado em tudo e em todos. Observe que a ilimitada harmonia da natureza é um reflexo Dele, de suas leis perfeitas e imutáveis. Desobedecê-las sempre resulta em sofrimentos para homens e espíritos. Cumpri-las é o caminho do âh

amor e da justiça, minha pequena. Compreendeu?

- Sim, vovô. Entendo que erros e acertos têm consequências nos contínuos renascimentos, não é?

- Sim, Gwen, e entenda, também, que não deveria estar aqui sozinha. Bem sabe que é perigoso, minha filha.

- Eu acordei. Foi como se uma voz me chamasse.

A voz me era familiar. Sabe quando o senhor fornece as poções de ervas para o tratamento de pessoas?

Tãmbém nessas oportunidades ouço vozes falando a respeito do mal que as envolve.

- E o que foi que a voz lhe disse hoje, Gwen?

- Que vai estar sempre por perto, que não há o que temer. Eu acho que ela é uma fada, vovô! Sim! ~

Uma fada boa que aparece para me ajudar. Orientou-me para que eu aproveitasse a escola da natureza, colocasse todo amor no aprendizado, para poder ajudar e suprir as minhas necessidades de conhecimento.

- Esta moça é a sua protetora espiritual, Gwen.

Ela acompanhou o seu nascimento, veio anunciar-me quando você veio à luz, e irá segui-la no curso desta vida. Você teve receio?

- Não, vovô! Claro que não! É uma alma boa.

- Deve saber minha filha, que muito sei a respeito de sua vida e de sua tarefa, que de certo modo, está ligada à minha tarefa. Deve obedecer a certas regras:

trabalhar em favor do próximo, sem exigência alguma; proteger os velhos em decadência; amparar as crianças órfãs; educar seus sentimentos; entregar-se a prece em clima permanente em sua vida; vigiar os pensamentos e a boca; por onde passar dar bons exemplos; amar todos os reinos da natureza, protegê-los e orar por toda a humanidade. Há outras regras menores que serão elucidadas com o tempo. Lembra-se na floresta, quando você perguntou sobre os silfos, os gênios do ar, gnomos, os da terra ou as ondinas, os da água?

- Sim, vovô.

- São seres que atendem à ordem em que se encontram. Espíritos de ordem inferior que percorrem o espaço, levianos, mas benévolos. Da mesma forma, também há a sua fada, ou seja, a protetora espiritual que lhe acompanha com inclinações boas, que lhe transmite bem-estar. O importante é perceber que cada qual se encontra a percorrer o círculo que lhe é próprio.

- Eu entendo, vovô.

- Pois bem, em nossa escala druídica, estes seres, os silfos, gnomos ou ondinas, pertencem ao Círculo de Abred, das Transmigrações, ou seja, das diversas existências corpóreas que as almas percorrem para chegar de Annoufn a Gwynfyd. Annoufn é o Círculo da Necessidade onde o ser começa sob a forma mais simples e Gwynfyd, quando o ser desfruta da plenitude da existência e de todos os seus atributos. Liberto das formas materiais e da morte, ele evolui para a perfeição e atinge o Círculo da Felicidade.

- Recordo dos ensinamentos que o senhor forneceu sobre os Círculos que percorremos, vovô. Mas, o que fazer quando sentimos a aproximação de seres espirituais que não nos transmitem bem-estar?

- É importante perceber, minha filha, que trazemos conosco alguns dons concedidos por Oiw, o senhor supremo, que não devem ser usados para más finalidades. Temos inclinações boas e más, porquanto ainda pertencemos à categoria dos espíritos menos adiantados. Para que prevaleçam as boas, atraindo os bons espíritos, é preciso fazer prevalecer os valores do coração, no terreno dos sentimentos superiores, para atrair a proteção dos bons espíritos. Você sentiu ou viu alguma coisa a mais, que não quer me dizer?

- Não, senhor vovô. Bem, na verdade há algo mais que eu gostaria de contar. Eu passei por aquele estado... Vi um moço com os olhos brilhantes. E uma voz forte e vibrante...

- Sim, você quer dizer, que passou pelo estado de êxtase.

- Vi uma moça com um véu que dançava ao redor do moço. Eu sabia que a moça era eu mesma, eu vi meu próprio rosto. Foi quando o notei, ele estendeu as mãos para tocar as mãos dela, tentou tirar-lhe o véu... Ou seja, estendeu suas mãos para mim. E a imagem sumiu! A cena se dissolveu. Nada mais pude alcançar.

- São sussurros que chegam como o vento, arrebatando a nossa percepção para fora de nós mesmos, filha.

- Depois, vovô, eu vi a moça novamente. Não sei bem explicar... Mas, era eu novamente com aparência mais velha. Ela chorava inconsolavelmente. Ou melhor, eu chorava... Procurei pelo moço e não mais o encontrei. Mas, antes que eu pudesse entender o que se passava, a cena se dissolveu em definitivo.

- O tempo trará os esclarecimentos necessários, minha filha.

- Estou certa disso, vovô. Mas, são tantas as coisas que não sabemos e que não encontramos explicações... E a luz brilhante? E o estrondo que eu vi cair do céu? Que significado tem para o senhor? E, vovô, se o sol pode moldar o verão e o inverno, se a lua pode determinar as altas marés e moldar os calendários, influenciar as plantações; o que fazem as estrelas, com tanto brilho? E o senhor não acha que há uma ligação perfeita entre o céu e a terra? Entre o sol e a lua?

- Muitas coisas ocorrem quando o sol se põe, Gwen. Coisas de Oiw! A consciência de um Ser Supremo que nos ampara em nossas necessidades é inata. Inconscientemente, buscamos essa essência, e todos somos indistintamente ligados a ela.

- Devemos agradecer ao Ser que tudo criou para o nosso bem, não é, vovô? Quando o senhor chegou eu estava rezando para que a cada dia, Ele continue a nos fornecer o alento dos céus, a luz do sol, o brilho da lua, o esplendor do fogo, a agilidade do vento, a profundidade do mar e a estabilidade da terra. Mas, o senhor ainda não respondeu as minhas perguntas, vovô...

- Mas... Nada! Estou atordoado! Já é tarde, e chega de tantas perguntas! E basta também de sonhos, vozes, lua e estrelas...! Sei muito bem que o que lhe falta é sono!

- Está bem, vovô! Eu não tenho sono. Mas não precisa ficar bravo por causa disso.

Venha, Gwen! Se o seu pai acordar... Eu nem sei! Vamos entrar! Vou colocá-la no leito.

- Mas, e se eu estiver sem sono de novo?

- Você vai ficar quietinha, sem pensar em nada, vai se entregar à prece e adormecerá. Estarei ao seu lado, está bem assim?

- Está bem. Obrigada, vovô.

Neblina orvalhada, repleta de ruídos da noite, o perfume de jasmim erguia-se em torno dele e da menina. O ancião silenciou por um longo momento, como se perguntasse coisas a si mesmo, olhou longamente para a neta que estava séria e meditativa.

O xale de lã que a envolvia realçava sua tez.

Respirou fundo, retornaram à casa, em silêncio.

CAPÍTULO 4

Seis anos desdobraram-se.

O serviço humanitário movimentava os adeptos da crença. Sucediam-se palestras e reflexões diárias sobre a vida espiritual. A fé, sustentada pela experiência e pelo conhecimento trazido da Espiritualidade, estimulava-os no processo de renovação moral. Reuniam-se a céu aberto, na floresta, onde os seres superiores os assistiam da dimensão invisível, e se comunicavam, com advertências, ensinamentos e orientações.

Brigite regozijava-se com as filhas. Lindas e saudáveis, as jovens passaram a desenvolver com seriedade as atividades que o núcleo doméstico exercia, cuja regra era aprender a trabalhar com dedicação. Desenvolviam o artesanato. Ali eram feitas túnicas e mantos de um tipo de linho e lã, em manufatura pessoal, para serem usados e comercializados como objetos de troca. Brigite lhes dera as primeiras lições no tear. Trabalhara com elas em uma simples roca e sabia distribuir os bilros - instrumentos de madeira -na confecção. Lições e lições intermináveis.

Enquanto desempenhavam os afazeres diários, e quando não se deixavam envolver pelo próprio burburinho, refletiam sobre seus destinos e memorizavam os ensinamentos da doutrina druídica. Frequentavam as aulas, contudo, o que mais as atraia era a música. Os sentidos espirituais despertavam e agora asjioras de ensino já não as enfadavam.

Quanto às plantações, dedicavam-se com amor. Eram grandes conhecedoras de ervas curativas, desde meninas, tendo sido iniciadas pelo avô que, além de possuir o dom de curar, sabia manipular as misturas certas de plantas e o momento exato da colheita delas.

O inverno rigoroso terminara, e a temperatura já se fazia mais amena. Não havia tempestades e o céu tomado por um vento ligeiro, parecia luminoso.

Gwen, de saúde perfeita, contava agora dezessete anos. Seu rosto era pequeno, delicado, a pele clara e acetinada. Envolvida num vestido azul-escuro, os olhos suaves e claros se destacavam. Emolduravam o conjunto, os cabelos sedosos e loiros escuros que caíam em madeixas pelos ombros. Ansiosa, aguardava suas três irmãs no grande jardim com seus canteiros floridos, onde árvores farfalhavam suavemente.

O destino era a casa de Marven. Fazia seis anos que os estudos haviam iniciado. O professor era uma alma boníssima, dotado de inteligência brilhante, valorizado pelos seus conhecimentos. Os ensinamentos e reflexões diárias sobre a vida espiritual e experiências renovavam-lhes as forças psíquicas. Nos mínimos detalhes resplandeciam as suas atitudes humildes, grandiosas e serenas quando instruía as pupilas sobre noções de dever e responsabilidade. Ele e Douglas eram amigos íntimos, sinceramente afins. O professor afeiçoara-se profundamente às suas pupilas. Desempenhava a sua função pelos arredores, e sua moradia era agora, em definitivo, na propriedade de Brian.

Habitação simples, detinha-se na maior parte de seu tempo em uma sala pequena, onde instalara sua própria farmácia e material de estudos. Uma mesa, seis cadeiras, e uma estante cheia de rolos, que eram livros. Compunha poções e linimentos, e conservava os corpos reduzidos a pó de animais e insetos, bem como estranhas ervas, além de flores secas e substâncias inorgânicas. Às vezes, havia luzes em seus aposentos até altas horas da noite.

Aos poucos conquistou as alunas, mergulhando-as no fascinante mundo do conhecimento, onde encontravam respostas a determinadas experiências que vivenciavam. As aulas sucediam-se como sementes que eram plantadas, floresciam e desabrochavam, mais vivamente.

Gwen permanecia à espera de suas irmãs junto à fonte, próximo à cascata, onde havia uma bacia rústica com água. Sentou-se numa pedra. Suas irmãs chegariam a qualquer momento.

Uma brisa suave e fria rompeu impaciente, sentiu as vibrações espirituais que envolviam a sua mente em ondas irresistíveis. Sob forte emoção, viu a entidade espiritual que a protegia, a estender sobre ela adestra, inundando-a com um jato de luz que parecia vir do alto.

- Observa! - disse-lhe - Abre a tua alma às recordações! Encontrarás a ti mesma nas cenas que verás. Deixa que tua consciência e teu pensamento retrocedam até encontrar o nome Melissa1...1. Personagem do livro: Grécia - um romance no tempo dos deuses. Mônica Dabus pelo espírito Liz - 4a ed. CEAC, Bauru, SP, 2013.

A jovem, ao ver a entidade, sorriu, e quando ia questionar sobre o que estava vendo, ela fê-la calar e observar. Graças a certo processo comum na dimensão espiritual, reconheceu-se novamente em cenas de ou-trora, retornou mentalmente ao pretérito de existência remota, sentiu-se outra personalidade, a qual viveu na antiga Grécia dos deuses. Corinto com seu cortejo impressionante de glórias e misérias! Oráculos! Personalidades conhecidas, uma família, um anfiteatro, um tirano, um palácio que habitou...

Sentia-se como que voltando a passado remoto. Eram imagens reais sob a benevolente injunção de benfeitores espirituais presentes que se interessavam pelo seu destino.

Na acústica da alma, alguém lhe dizia:

- Entregue-se à vibração do pensamento e ao efeito da vontade! Ecos sublimes de vibrações se perpetuam nos refolhos da sensibilidade anímica, sem jamais se extinguirem. Esse tesouro é eterno, poderá levá-lo para onde for, pois anda consigo nas sutilezas da consciência. Confie! É para o seu próprio bem, minha filha.

Gwen baixou a fronte. Percebeu que a sua fada estava ao seu lado, e que parecia ler seus pensamentos e, sem atinar o que ela iria dizer-lhe, ouviu ainda:

- Concentre-se! A vibração se dilata, aperfeiçoa, transcende as possibilidades humanas e apresenta a vida: cenas, fatos, histórias, dramas, realidades pujan-tes e tocantes, cuja intensidade de convicção aterraria a mente precária da criatura terrena, se lhe fosse dado apreciá-la. As potencialidades são as mais evidentes provas da existência e do amor do Criador. Vivemos na atmosfera divina gozando de vibrações expandidas pelo Amor Divino, como partícipes dos dons da própria Divindade, pois que, criados por Ela, somos essência Sua, e divinos também.

- Estou a vê-la... Essa moça... , a moça das cenas que surgem, sou eu...

- Através do próprio trabalho e esforço, adquirimos atributos: consciência, sabedoria, amor, participando cada vez mais da vida, da obra eterna num crescimento gradual de irradiação, potência e felicidade. Como filhos do Criador, cada ser deve trabalhar pela evolução própria e de todos na sucessão das vidas,
esde o ser que iniciou os primeiros passos às alturas divinas, até a posse dos atributos que constituem a perfeição. Confia! Se dispuseres de bastante coragem para enfrentar o desconhecido, visite a tua memória, e demore ali o quanto quiser para o desenvolvimento de tuas faculdades e das qualidades morais. Ela é patrimônio de teu espírito imortal, o teu sagrado oásis, que contribuirá para a felicidade de educar outros, educando-se a si mesma.

A conexão vibratória com a entidade a impressionou, uma vez que se sentiu rodeada por circunstâncias desconhecidas, que na sua ignorância considerava mistério. Observou, então, bem próximo, episódios vividos. Sondou o próprio coração. Seu pensamento reviu um soberano que se apresentava tal à encarnação da desonra dos costumes, das torpes paixões que denigrem o caráter de um homem. Detalhes de seu casamento com ele... Mas, em dado momento, percebe--lhe a voz terna e infantil, cobre de beijos suas mãos e seus cabelos, e sorri aos seus encantos... A seguir, horas dolorosas..., uma sórdida intriga, o ciúme doentio! Uma tragédia! Ela chorava inconsolável a própria desgraça. Soluços doloridos, de alguém que se lamentava amargamente. Fora ele! Sim, o seu esposo provocara a tragédia! Súbito, um abismo rasga-se lhe aos pés, no qual ele se precipita, qual réprobo. E nas trevas desse abismo, o suicídio! E lá, ao longe, em encarnações que se sucederam, ei-lo se arrastar leproso e miserável pelas mesmas ruas da cidade em que resplandecera, cortejado por ações e gozos vis! Ei-lo sofredor, abatido pelos efeitos das próprias causas forjadas na insanidade. Arrepios sutis assomavam, uma vez por outra, pelo seu corpo. Por que aquelas lembranças a impressionavam tanto? Por que a atração e a repulsa simultânea, ante a possibilidade de entender a razão daquelas cenas? Que existiría realmente em torno da memória? Havia somente uma certeza em seu íntimo: as cenas eram de experiências pretéritas. O soberano era um rapaz que conhecera recentemente, e a moça era ela!

- Gwen - a entidade espiritual prosseguiu -, nas suas horas de solidão, quando sua alma sente vontade de confabular com o Criador, nunca pensou em seu passado espiritual? Nunca desejou investigar o que era antes de seu nascimento, de onde veio carregando os patrimônios sublimes da inteligência, os seus sentimentos e aspirações próprias, a dor? Nunca desejou saber por que nos recessos da sua individualidade existe a consciência? Há muito fomos responsáveis por crimes graves contra as leis de fraternidade e do amor ao próximo, e somente nos sentiremos em paz com a própria consciência na realização do trabalho, com a meditação, a prática do bem e o amor ao Senhor Supremo, a fonte eterna da vida. Para seu próprio beneficio, portanto, poderá examinar seu passado espiritual - espalmou enérgica a destra sobre a fronte da protegida e continuou:

- Contempla agora um pouco mais. Quantos a guia-la? Quantos a protegê-la? Que importam tragédias, ruínas, desgostos, humilhações, se os sofrimentos auxiliam as criaturas a afinar-se com as sublimes Concordâncias da Lei? Observa a estrada que o teu espírito percorre, repara que a cada nova escalada deste trajeto, desabrocham nobres qualidades em teu caráter, predispondo-a ao triunfo de um desígnio glorioso.

Súbito, a jovem despertou, convencida de que ouvira palavras de esclarecimento e esperança, porém, ainda não entendera o significado daqueles acontecimentos.

- Que se cumpra, pois, o que se espera que eu faça...! - exclamou, enquanto a entidade espiritual amiga lhe disse:

- Duas trilhas lhe convêm, que na verdade é somente uma: a resignação e o testemunho do elo entre os mundos. A menos que, revoltando-se contra a Lei do Criador, para si mesma acumule dissabores. Absorve nesse manancial sagrado a resignação necessária ao bom êxito da tua própria reabilitação, minha filha.

Ouviu vozes femininas. Eram as irmãs que agora se postavam diante dela. Gwen desconcentrou-se.

Gracie, a primogênita, traje verde, trazia o tom impetuoso dos cabelos ruivos, cacheados e longos, sardas acentuadas espalhadas pelo rosto.

Norah, a terceira filha, trajava um vestido em tom vibrante, cabelos repartidos no centro e puxados para trás, boca fina, pele quase translúcida assemelbando-se a porcelana, sobrancelhas levemente ruivas ordenadas em arco, embora as sardas não estivessem presentes.

Ágata, a caçula, sorriso agradável, era dotada de atraente beleza exótica, uma mistura das características de todas as irmãs, não obstante, um temperamento bem mais passivo. todas elas, felizes e de braços dados, atravessaram o jardim e seguiriam para a casa de Marven.

Residência simples, o professor preparava determinado líquido com cor de ferrugem e cheiro desagradável. Estava em pé, cercado por prateleiras e jarros ao seu redor, quando burburinho súbito emergiu:

- Chegaram! - sussurrou.

Abriu-se a porta, as quatro pupilas silenciaram.

- Vão ficar plantadas aí? Entrem! - exclamou.

As jovens expressavam admiração, e após os cumprimentos habituais, a conversação passou a fluir naturalmente, assim como acontecera no decorrer dos longos seis anos em que aprenderam a olhar com respeito as ponderações do sábio professor.

Marven, em seu manto de linho pálido, estudava-as minuciosamente, e, às vezes, levava-as para a relva e permitia-lhes sentar-se nela, numa almofada para protegê-las da umidade. De outras vezes, deixavam o local, perambulavam, iam até passagens de pedras, todavia sempre encontrando diante delas as respostas que procurava para o desenvolvimento de suas pesquisas e seus estudos:

- São bem jovens ainda para entender - disse-lhes -, mas muitos foram chamados dos cantos mais remotos da Terra, e quando e como são escolhidos, não está em nossas mãos, mas nas mãos do Criador, que espera que cada um cumpra suas tarefas humildemente. A força mental será no futuro uma das maiores de todas as forças, porém, somente será dada aos seres descobri-la e usá-la quando o amor puder dirigi-la para o bem da humanidade. Acima de toda ciência, está a força do amor.

- Senhor Marven, onde será a nossa aula? - indagou Norah.

- Peguem suas almofadas e acompanhem-me.

Marven conduziu-as à área externa, lançou-lhes um rápido olhar, que interpretado, era ordem para que segurassem a língua, fosse a que circunstância fosse:

- Pois bem! Sentem-se. Agora, observem o quão a natureza é bela em sua essência, onde tudo se transforma perenemente. A presença e a inteligência de Oiw se revelam em Sua obra harmoniosa, através de suas combinações e finalidade determinadas. Seu poder, sabedoria e amor são infinitos com três fins principais: diminuir o mal, reforçar o bem e esclarecer toda diferença, concedendo o que há de mais vantajoso, o que há de mais necessário e o que há de mais belo para cada coisa. As três grandezas de Oiw são vida perfeita, ciência perfeita e poder perfeito.

- Senhor Marven - disse Gracie, já o interrompendo -, paramos a última aula, quando ia nos elucidar sobre o acaso... O senhor dizia...

- Eu dizia que o acaso é cego, minha filha, e não poderia produzir os efeitos da inteligência! "Todo efeito inteligente provém de uma causa inteligente.” Esse é o princípio básico de nossa crença druídica.

- E quanto ao círculo de Keugant, o mundo onde Oiw habita? O vovô tentou nos explicar, mas é difícil compreender.

Não estamos aptos a entender o sentido revelador das coisas divinas. Somente o Criador pode atravessar esse Círculo, onde não há nada de animado ou inanimado, exceto Ele. Vocês se recordam quais são as três fases ou Círculos da vida?

- Bem - disse uma delas -, no Annoufn, ou Círculo de Necessidade, o ser começa sob a forma mais simples; no Abred se desenvolve, vida após vida, no seio da humanidade, e adquire a consciência e o livre-arbítrio. Finalmente no Gwynfyd, o Círculo da Vida, ele desfruta da plenitude da existência e de todos os seus atributos, libertado das formas materiais e da morte, ele evolui para a perfeição superior e atinge o Círculo da Felicidade.

- Correto!

- Senhor Marven - perguntou Norah -, então o Círculo de Keugant, a morada de Oiw, é uma esfera inacessível às criaturas?

- Justamente...!

- Mas se as almas se originam nas últimas camadas do Universo, no abismo Annoufn, e depois passam para o Círculo de Migrações Abred, onde seu destino é determinado por uma série de existências, segundo o bom ou mau uso que haja feito de sua liberdade; e por fim, se elevam ao Círculo Gwynfyd, onde cessam as migrações interrompendo a necessidade de morrer; neste ponto então, as almas se juntariam a Deus?

- Não, minha filha. O ser conserva uma individualidade perpétua e a plena consciência de si mesmo, e não é absorvido no seio imutável da Divindade, pelo contrário! Ela está no Círculo do infinito Keugant, que é a sede de Oiw, no qual nenhum ser, por mais perfeito que seja, jamais poderá penetrar.

- E seria então, no Círculo das migrações, que se efetua o aprimoramento do Espírito?

- Sim! Em Abred, através das diversas existências corpóreas temos a mais viva luz a dilatar o entendimento. Permite-nos observar a grandeza do Criador através da conexão de almas em condições de existência mais ou menos infelizes. Neste estágio, as almas têm a liberdade, expiam suas faltas pelo sofrimento e se dispõem pela superação de suas imperfeições a um futuro melhor.

- Então - indagou Gracie -, é certo que não há nenhum Círculo destinado a punições sem fim, de almas criminosas?

- Correto, pois só o bem é eterno, porque é a essência de Oiw, o Criador, e todo mal terá um fim. Tudo o que vive, morre e renasce no ciclo da evolução, como o sol que se ergue e o sol poente é para progredir sempre. As almas passam alternadamente da vida à morte e da morte à vida, dois aspectos de um mesmo fenômeno, uma voltada à estação que se acaba, a outra para a que se inicia; tudo em prol de aperfeiçoar-se continuamente.

- Seria correto, então - disse Gwen -, dizer que a morte é necessária, sendo um beneficio para romper os hábitos contraídos, transportando-nos a novas condições, a fim de elevar-nos?

- Em nosso beneficio temos a morte e a perda temporária da memória quando novamente encarnarmos. Acreditamos que as necessidades de morrer estabelecidas por Oiw seriam: melhorar a condição em Abred, renovar a vida para atingir Keugant e a eternidade; experimentar cada estado dos vivos e da vida com suas leis e provas, iluminar a inteligência através das mais diversas experiências corpóreas. E assim obter uma visão completa de todo Ser, de toda qualidade e essência, pois é pela evolução em "Abred” que se conquista a instrução e se adquire a habilidade dentro de todas as ciências, pois sem elas seria impossível suportar o Círculo de Gwynfyd.

Breve pausa, e então, prosseguiu:

- E quanto ao gênero de existência para os seres temos Annoufn, que é o estado de submissão à fatalidade dentro do abismo; o segundo em Abred, o estado de liberdade moral e livre-arbítrio total dentro da humanidade; e por fim, Gwynfyd, o estado de felicidade suprema e amor perfeito no plano do espírito.

- Isso quer dizer que absolutamente todos os espíritos, mesmo aqueles recalcitrantes no mal, tenderão a aproximar-se de Oiw, o Senhor Supremo?

- Exatamente! É como se uma força irresistível nos atraísse. Uns caminharão mais depressa, outros mais lentamente, mas cada qual chegará a um momento de sua existência que não resistirá ao bem e buscará aproximar-se do Criador, através da mudança de comportamentos e dos resgates.

Então, a duração do sofrimento está atrelada ao tempo necessário para o aperfeiçoamento?

- O estado de sofrimento e felicidade é proporcional ao grau de depuração do espírito. À medida que ele progride e que seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e mudam de natureza.

E assim, a aula corria com novas indagações:

- Mas, por meio de que conduta a alma se eleva nesta vida, e merece após a morte alcançar um modo superior de existência?

- A alma recai na necessidade de transmigração não só por alimentar as más paixões, como também pelo hábito da negligência no cumprimento das ações justas, pela falta de firmeza ao que é prescrito pela consciência, ou seja, pela fraqueza de caráter, pela falta de virtude moral.

- Compreendo, senhor...

- Além disso, há a questão do aperfeiçoamento intelectual que se opera através do esforço pela busca do saber.

- Senhor Marven, as explicações desses princípios dilatam o nosso entendimento. Tbdavia, preciso confessar-lhe algo... As visões de Gwen ressurgiram, senhor.

Neste momento, a jovem mencionada dirigiu à sua irmã um olhar fulminante.

- Gwen, eu jamais vou forçá-la a nada - disse-lhe Marven cauteloso -, quando sentir-se à vontade, fale a respeito. Na obra do Criador há uma força ativa e operante, uma ordem que regula o funcionamento harmônico do Universo, e ainda que haja relativo caos e desordem, tal estado não pode opor-lhe permanente resistência, a fim de que a evolução prossiga na perpétua renovação da vida. No foro íntimo de cada ser, há uma força que o impulsiona para que atualize frequentemente as divinas potencialidades, emancipando-se espiritualmente. Uma construção desmedida e árdua, transcendente e sublime, que merece nosso zelo e esforço frequente.

De tal modo, Marven prosseguia com as elucidações edificantes. Em determinado momento, convidou-as ao encerramento, concluiu:

- Existem forças poderosas que nos libertam, são elas, conhecer e amar. E uma não se confunde com a outra, porque ninguém conhece a Verdade sem amá-la, nem a ama sem conhecê-la.

As quatro pupilas irlandesas guardaram a lição como advertência, não somente para aquele momento, mas para toda aquela vida. Findara a aula.

CAPÍTULO 5

Era uma belíssima manhã.

Marven e suas pupilas haviam se preparado para um operoso trabalho. O acanhado grupo atravessava a floresta com destino a uma aldeia vizinha, cujo verde-esmeralda ostentava-se como roupagem daquelas terras. Árvores retorcidas pelo tempo, paredões de rochas monstruosas e pequenas lagoas alimentadas por tênues riachos. As árvores eram tão velhas, tão altas, que mal se podia ver o céu.

Gwen meditava sobre as sábias palavras que o professor lançara em última aula: conhecer e amar. Daí, dizia para si mesma: sim, mas, ninguém conhece e ama sem perguntar... E prosseguiu com as indagações costumeiras.

A luz do sol entrava pelas folhagens em pequenos raios. Os galhos eram esplêndidos, as raízes se entrelaçavam em harmonia e os troncos pareciam colunas de um templo. Havia uma clareira ao centro do bosque e do vale, cuja imensidão do céu podia ser observada.

Chegaram! Pedras pequenas circundavam uma modesta fogueira que os aldeões haviam preparado. Dirigiram-se para uma das casas redondas e cobertas com colmo, assentadas sobre estacas. Ofereceram-lhes bolos achatados de aveia, assados sobre a pedra do forno. Em seguida, sentaram-se, reservadamente, numa área protegida por uma grande cobertura de madeira, como um pavilhão de sapê, sustentada por duas vigas de madeira. No ar, o silêncio somente quebrado pelos ruídos da natureza. Foi aí que o professor anunciou:

- Minhas pequenas, em seguida será efetuada a assistência física e espiritual. Antes, porém, digam quem iniciará a fala.

- Senhor Marven - respondeu Norah, olhar angustiado -, é Gwen! Ela não quer falar, mas, sei que não devo silenciar, para o bem de minha irmã!

- Não interfira, Norah! - asseverou Gwen.

- O que é, filha? Não confia nela, nem em mim?

Gwen envergonhada baixou a fronte. Norah prosseguiu:

- Estávamos na fonte, senhor, quando ela teve a sensação, viu nas águas reflexos de imagens provocan-do-lhe estranhas percepções... Acredita que refiram-se a outras vidas.

Gwen ouvia a irmã, mal disfarçando sua contrariedade.

- Sei que está aborrecida, mas é para o seu bem. - disse direcionando-lhe o olhar - Gwen esconde as ocorrências de nossos pais. Outro dia, cheguei ao nosso quarto, ela estava esquisita, um tanto rígida. Veio-me a ideia de conversar com ela...

- Ela estava como que em transe?

- Sim. Tentei falar, e ela me respondeu com voz firme, segura. Foi então que começou a narrar episódios, supostamente de uma existência remota. Falava em versos, mas depois parou, informando que posteriormente continuaria.

- E?

- E... Eu fiquei assustada, sem saber o que fazer. Mas, depois a chamei firmemente pelo nome. Ela imediatamente despertou sem conhecimento do que havia ocorrido.

- Bem! - o preceptor prosseguiu -, não é novidade que nossas vidas começaram muito anterior ao instante do nascimento neste mundo. Vivemos em outros corpos, outras partes. O esquecimento obedece às leis superiores que direcionam ao destino, representa uma diminuição do estado vibratório do espírito em contato com a matéria. Um novo corpo é oferecido para que o ser adquira benefícios em sua vida temporária, há uma adaptação em que abandona a bagagem dos seus vícios, dos seus defeitos, das suas lembranças nocivas, das suas instabilidades nos pretéritos tenebrosos. Entretanto, por vezes, o ser experimenta uma sensação indefinível, uma saudade vaga e inexplicável, como se entrasse em conexão com o passado.

- Como se a memória estivesse amortecida..., e em certos momentos, aflorasse... - disse Gwen timidamente.

Saiba que parabém servir a ciência divina como intérprete das dimensões espirituais; muita coragem, paciência e amor ao bem serão necessários! Não julgue que o dom de falar com os mortos seja propriedade humana, que por teus anseios, dirigirá! O dom que possui é energia peculiar do Alto, que o Criador concedeu para ajudar as criaturas a reerguer-se. Servirá a Ele e ao próximo, razão pela qual deve amar e respeitar esse dom. O espírito jamais escapará da inevitável gênese dentro do Círculo de Annoufn, a transmigrar no Círculo em Abred, a transmigrar no Círculo em Gwynfyd e a recordar-se de todas as coisas passadas desde Annoufn.

Neste momento, a jovem como se fosse arrebatada a longínqua impressão do passado, tentou se justificar:

- Eu não estou familiarizada com essas experiências, senhor. Afloram visões que minha própria consciência revela e uma voz que murmura, não ao meu ouvido, mas ao meu coração.

- Com a sensibilidade aumentada, há casos raros em que a consciência se expande no momento preciso; a subconsciência pulsa, momentaneamente, e sob forte emoção, certas lembranças eclodem, muito vivas, de determinados episódios das próprias existências pretéritas. E nessas lembranças, conforme sua natureza, encontra as causas da alegria ou do sofrimento. A consciência sonda os menores sinais de sua memória profunda.

- Ah, senhor! É como se eu viajasse no tempo...! Vejo em especial, nessas viagens, o auxílio de benfeitores espirituais, que acalmam tempestades íntimas. Imagens de cenários se formam diante de meus olhos arrebatados, enquanto a palavra sábia deles derrama-se em meu coração, afável consolo ou sublime esclarecimento, qual advertência paternal. Como se fatos distantes se interligassem, tivessem conexões com o presente. Como se houvesse reencontros, como, por exemplo, identibcar o senhor como uma personalidade já conhecida de remotas existências de convívio, entendimento, ternura e devotamento.

- Mas, é sempre em vigília, minha filha?

- Nem sempre! Às vezes, durante a noite, sob a forma de sonho, o meu corpo espiritual se liberta e eu me deparo com esses episódios...

- Essas ocorrências não são para satisfazer curiosidades, mas para que tome conhecimento das aflições, dos personagens que traz arquivado em sua memória. São abençoadas concessões, verdadeiros favores espirituais daqueles, que sabem quantificar até que ponto nos é benéfico, a fim de que enxerguemos situações, as quais podemos mediante nossas escolhas, empregar em beneficio próprio e geral.

Gwen aceitou as observações do professor, e refeita do abatimento, prosseguiu:

- Eu estou convencida, senhor, de que me recordo de vidas passadas, e sei que vovô experimenta as mesmas experiências. Nós temos até conversado juntos sobre lugares onde já vivemos. Nessas imagens, vi um rapaz que foi apresentado à nossa família recentemente.

Ele tem demonstrado atenções, afeto sincero, tem se insinuado com galanteio, já me falou de amor.

- Eu compreendo. E até sei de quem se trata! O processo evolutivo dos espíritos pressupõe experiências na matéria, objetivando o desenvolvimento do aprendizado das leis divinas. Não deve ser ao acaso que houve essa aproximação. E o que você acha?

- Eu estimo sua amizade, porém, confesso que tenho receio, vejo tal possibilidade com desprezo e até certa repulsa. Tive o desejo imediato de negar-lhe o pedido que fez formalmente, mas me contive.

- E...?

- E..., como eu disse, senhor, nas águas da fonte eu vi representações de uma paisagem como se uma nostalgia me tomasse. Estou bem certa da figura de um soberano, sei que me amou em outras vidas, que fomos ligados pelos laços do matrimônio, mas que algo grave se deu. Senti uma amarga sensação de angústia e tristeza.

- Continue, filha - disse o professor com algum tato, pois cada vez que a interrogava sobre suas relações com tais acontecimentos, a jovem mostrava-se cheia de discrição.

- Foram acontecimentos num fascinante cenário grego. Havia duas cidades representadas: Epidauro e Corinto! E nelas, pessoas conhecidas em épocas remotíssimas, um triste espetáculo marcante num anfiteatro... Uma morte trágica de um rapaz! Senti-me culpada! Logo me identifiquei com um palácio em Corinto, e em especial com o soberano...

- Filha, o verdadeiro sentido da vida não se encontra em nosso limitado mundo material, mas no espírito que lhe dá interpretação. O nosso corpo humano é um Universo em miniatura, Universo este obediente ao comando da alma, desde que aprendamos a decifrá-lo. Estamos submetidos a cotas de evolução, a uma escala de progresso. O Espírito sempre será incitado para um despertar progressivo neste Universo próprio, no qual há segredos que somente dentro de milênios poderá descobrir. É provável que esses episódios sejam, de fato, ressurgimentos do passado histórico e remoto, de outras civilizações até nossos dias. Um dia, compreenderemos o alcance dessas revelações.

- Senhor, eu peço encarecidamente que não comente nada com meus pais. Não devo preocupá-los.

- Será um segredo nosso! Segundo os nossos princípios, somente bem mais tarde, e, sobretudo em estágios superiores de evolução, a alma humana libertando-se do jugo da carne e livre do pesado indu-mento da matéria, que limita as percepções, poderá abranger, sem desfalecimento, o vasto panorama de suas vidas adquiridas em jornadas planetárias. Então, terá maturidade para discernir, por sua razão e por seu saber, o vínculo que religa todas, os resultados colhidos, e integralizar os ensinos que eles comportam.

- E o que o senhor aconselha?

- Bem, saiba que todas as respostas aos enigmas de nossas vidas se encontram dentro de nós, contudo poucos são capazes de buscá-las de uma forma mais consciente. Caso haja o desenvolvimento desta faculdade, uma análise profunda dessas lembranças poderá dar uma ideia do encadeamento de suas existências terrestres. Então, se reconstituirá e nós, chegaremos assim, à coesão de pontos de vista capaz de dar à nossa doutrina, das vidas sucessivas, toda sua autoridade, toda sua magnitude. Para isto, bastará colocar em ação a alavanca da vontade. Seria prudente que, a partir de agora, nos reuníssemos regularmente para experimentações ainda fragmentárias. Você colocar-se-ia à disposição? Confia em mim?

- Plenamente! É como se o senhor fosse um pai milenar de meu atribulado espírito.

- Filha, formamos famílias espirituais, sob a tutela de irmãos maiores. Estamos nos reencontrando, necessitados todos de ajustes e do auxílio daqueles que já trilharam os caminhos com mais sabedoria e amor. O propósito é evoluir, evoluir sempre.

- Sim, eu compreendo, senhor.

- O homem é principalmente espírito, e deve ser tratado em suas disfunções orgânicas como um todo. O Espírito imortal é a chave de todos os enigmas, estudemos a ciência da imortalidade. O espírito, quando encarnado, mergulha no esquecimento em vista de sua ligação com a estrutura redutora que é o corpo físico. Mas há técnicas de reduzir a influência inibidora desse corpo físico sobre a alma, sendo possível acessar os arquivos do ser. Confie, filha!

- Sim, senhor.

- Pois bem, vamos à nossa bênção druídica, antes de iniciar os atendimentos aos nossos irmãos necessitados: Que os ventos soprem, impulsionando-nos avante. Que o sol sempre brilhe como hoje, trazendo luz, esperança e alegria de viver em nossas vidas muitas vezes difíceis. Que as chuvas, tão necessárias, caiam sempre em nossos campos, e até nos encontrarmos de novo, em outra oportunidade, que o Pai de todos os espíritos nos tenha, suaves e seguros, em Sua mão.

Marven encerrou a aula, desdobrou os atendimentos de magnetização física aos necessitados, e retornou certo de que as confissões haviam sido proveitosas para o prosseguimento de seus estudos à luz do espírito de observação, experimentação e análise.

Gwen, por sua vez, buscava enterrar bem fundo, nos recônditos secretos da inconsciência, a figura masculina de olhos verdes e penetrantes do rapaz identificado como o soberano outrora. Experimentava amarga sensação de angústia, sentindo bater em descompassado o coração. Quem a observasse, naqueles dias, não percebería a tempestade que lhe rugia intimamente. À noite, doce amigo espiritual apareceu em seu leito:

- Prossegue, filha... Prossegue... No correr dos tempos, o ser adquire a sabedoria, a ciência e o talento, e, por eles, a ventura, isto é, tudo que leva à grandeza e à beleza da vida, pois não se aprecia realmente, não se gosta, senão do que se adquire por si mesma. Tem a bênção de realizar sua reabilitação sob o patrocínio de consoladoras inspirações divinas. Seja fiel aos princípios da generosa doutrina da verdade, e mais tarde, sentirá a sublimidade do dever bem cumprido, novas auroras hão de renovar sua caminhada ao Criador, unidos todos, pelos laços do amor.

CAPÍTULO 6

Algumas semanas depois, Douglas chefiava a excursão, em companhia dos familiares e de adeptos da doutrina, alguns montados a cavalo, outros em carroças guiadas por animais pequenos, mas robustos.

Compareciam à cerimônia do visco sagrado. Um turbilhão de imagens conturbava a mente de Gwen. Alvoroço incontrolável sacudia seu ser, pois tinha a impressão de reconhecer as expressões afetuosas de Ryan, um rapaz conhecido, integrante do grupo, que com o olhar fixo a seguia por todo o trajeto da longa cavalgada.

Era o sexto dia após a primeira lua do ano novo.

O sol estava para nascer na ilha, que em sua maior parte era coberta por uma densa floresta, entremeada com áreas de pântano. Por toda parte, erguiam-se belas cadeias de montanhas. A terra tinha rios ricos em peixes. Em clareiras na floresta ou sobre as encostas a céu aberto nas montanhas, surgiam afloramentos de rocha acima das entranhas do solo, que continham quartzo.

Em decorrência, em várias partes da ilha onde se achavam esses afloramentos, os rios corriam literalmente com a poeira e os nódulos do ouro reluzente. Com a umidade do vento soprando do mar, somada à corrente do golfo e à luz que incidia na região, a vegetação da ilha era de um extraordinário verde-esmeralda não encontrado em nenhum outro lugar. lálvez tenha sido essa extraordinária combinação de verde e a flui-dez dourada que deu à ilha ocidental sua fama como um local habitado pelos espíritos. O grupo refugiou-se de uma garoa que se iniciara fraca, intensificando-se depois, durante horas. Protegeram-se numa gruta.

Gwen sentou-se ao chão, apoiou a cabeça numa pedra, e deixou-se ali a ficar sondando o pensamento. Nunca experimentara sensação idêntica. Sentiu profundo êxtase diante da natureza e das suas maravilhas. Sem saber como expressar a admiração e reconhecimento dos poderes celestes, viu achegar-se bem próximo, um ancião, cujo semblante lhe era impossível fitar, cujas vibrações de amor já se faziam sentir:

- Filha, quando ainda estava na Espiritualidade, sendo aconselhada, você pôde refletir sobre tudo e planejar vida nova, em renovadoras experiências para resgatar suas faltas. Sob a imperiosa lei da palingene-sia, que não lhe é desconhecida, por ser a base da doutrina druídica, você está aqui se movimentando sob nova roupagem, com o desafio de dominar a si Própria, sujeitando-se às experiências que escolheu. Não lamente o passado, domine o presente e trabalhe como instrumento da Espiritualidade. O serviço da fraternidade não só a fortalecerá como, também, fortalecerá outras almas. Somos seres imortais. Em tempo bem remoto você era Melissa, e Ryan chamava-se Periandro, um soberano rico e belo, mas soturno e rude, cioso de poder e autoridade. Leis tirânicas martirizavam o povo. Periandro casou-se com Melissa, e conheceu um elemento precioso, irresistível, capaz de ajudá-lo a vencer a si próprio, modibcando-lhe o temperamento: o amor, sentimento extraído do coração e não somente dos sentidos. A jovem grega tornou-se a soberana que lhe conquistou o coração e a vontade: afrouxou o rigor de muitas leis e a situação do povo foi suavizada. Tiveram blhos e tudo para viverem felizes, porém, por ciúme causado por intrigas, Periandro provocou um acidente que resultou na morte de Melissa. Em desespero, sentindo-se culpado e arruinado, ele sucumbiu, suicidando-se. Com o suicídio sofreu também suas dolorosas consequências pelos séculos afora. Estagiou muito tempo nas trevas daquela angústia indescritível, preso a um pesadelo que lhe subjugava a vontade. Chegou o dia em que pôde ser socorrido e informado da extensão de seus comprometimentos e do tempo necessário para reabilitar-se, perante o Criador. Ensinaram-lhe certos detalhes dessa Lei, e ele, para desagravar a consciência e reabilitar-se do ato supremo, em existências posteriores, resignou-se a viver sem você. Periandro, então, reencarnou no próprio reino que fora seu, não mais no esplendor de um trono, não mais rodeado por glórias e bajulações, porém, para sofrer o rigor das próprias leis que havia criado para seus antigos súditos. Foi mendigo, escravo, maltrapilho, sem lar, sem família, e sofreu a dolorosa consequência dos desvios percorridos como soberano. Em jornadas reencarnatórias, voltou à Terra inúmeras vezes em existências renovadas, libertando sua consciência da vergonha do suicídio e de outros comprometimentos morais. Nessas existências punitivas, perdeu-a de vista, como espírito. E você, também evoluía, mas afastada dele. E agora, no presente decurso dessa existência, ele está aqui, ao seu lado, com a sombra de uma saudade terna, feliz, arrebatadora. Reuniram-se, com a chance de juntos melhorarem-se na esteira do aprimoramento moral-espiritual.

- E o que esperam de mim?

- Nada acontece à revelia do Criador. Deverão juntos zelar pela Doutrina, servir ao Alto, na pessoa do próximo, encarnado ou desencarnado. A herança espiritual deve ser resguardada. Deverão transmitir o nosso tesouro mais precioso: o conhecimento. O mais difícil não é ensinar, isso qualquer um pode fazer, a dificuldade maior é, pois, exemplificar o ensino.

Gwen, envolvida pelo contato espiritual e pelos pensamentos contraditórios, sufocou as lágrimas. No entanto, confiando na sabedoria dos protetores espirituais, entendeu que essa revelação teria influência poderosa nos acontecimentos que invariavelmente viriam.

Cessada a chuva, a caravana retomou a caminhada. Contornaram um riacho. Era do entendimento do seu povo que passagens secretas sob as águas podiam levar a outro mundo. Era por isso que oferendas aos deuses, como caldeirões cerimoniais, armas ou ornamentos de ouro, eram lançadas no rio. Subiram um cabo completamente isolado, chegando ao destino. A paisagem era das mais belas.

Ao transpor a colina, diante de bosques e pastos esmeralda, os peregrinos foram arrebatados por um sentimento de gratidão a Eriu - a deusa-mãe da terra. Havia um pequeno círculo aterrado ao lado de uma pedra erguida. Essas pedras, solitárias ou em grupos, eram uma característica normal nas paisagens. Em locais não tão longe, havia uma enorme pedra plana pousada sobre as rochas, formando um ângulo inclinado contra o céu. Era o dólmen - Porta Divina -, para os celtas. Simbolicamente, o portal da entrada das almas, que deveria ser transposto por aqueles que partem para a vida verdadeira.

Na cerimônia ha ve ria o corte do visco sagrado, que provinha de um cogumelo, um agárico, planta parasita que crescia em velhos carvalhos e tinha o poder '‘sobrenatural” de curar doenças.

As árvores verdes e copadas espalhavam frescor e sombra pelo caminho, misturando-se o forte e delicioso aroma. Os raios de sol penetravam pelas frestas das folhas do bosque, difundindo-se a sombra e a luz que se derramava sobre a relva. À medida que se aproximava, o grupo deixou os cavalos. Caminhavam agora a pé. A jornada fora longa. As jovens sentiam-se estranhas, ou talvez fosse somente fraqueza, a sensação do jejum, antecedendo a cerimônia. Cantava-se um hino. Os versos harmoniosos falavam de amor à terra e da proteção constante do Criador Supremo e dos espíritos.

Brian ia à frente. Caminhava com um bastão na mão direita, e os familiares o seguiam heimente. Douglas carregava um pequeno cesto de pães logo atrás. Outro homem, já bem enrugado, em movimentos discretos, transportava o vinho, e Marven, o professor, levava um bambu nas mãos. Os pães e a bebida foram depositados sobre o altar formado pelas pedras brutas. Os presentes cantavam, formando um círculo. Brian deu um passo à frente erguendo a mão em louvor. No dólmen, todos os olhos se voltaram a ele, que intuído por forças imponderáveis, pronunciava:

- Oiw, o Supremo Criador, nos fez a todos para que pudéssemos auxiliar na expansão infinita de tudo que existe. Na direção da Terra, trabalham infindáveis legiões de espíritos, até aqueles que se encontram inconscientes do estado em que vivem. Um período de paz virá. Tbdas as nações serão agraciadas. Altas esferas preparam espíritos de escol para encarnar na Terra. Muitos se reunirão para promoverem grande mudança no pensamento da humanidade. Nos templos de mármore, nos jardins suntuosos e nas vivendas romanas, os deuses ruirão e surgirão novas idéias, capazes de criar leis mais justas e mais humanas. O mais Alto prepara caminhos novos para uma grande guinada em nosso mundo. O Eterno, que se faz presente em toda a parte, providenciará para que os povos bebam de sua água abençoada e renovadora.

A um breve sinal, Gwen ingeriu a bebida sagrada. Estranha sensação a tomou, como se o "véu” que encobria a alma humana fosse rompido. Entrou em êxtase, inspirando-se na natureza, e percebeu todo o seu ser entrar em vibração. Foi então que uma voz masculina, vinda do espaço, a inspirou a falar:

- Se o mal parece dominar a Terra, é que ela está um grau inferior na escala dos mundos, habitada por espíritos muito jovens, ainda ignorantes, inclinados às paixões. Por mais que a atmosfera da Terra esteja impregnada de forças negativas, chegará um socorro divino! É chegado o momento em que os habitantes desse planeta em vias de progresso serão mergulhados mais diretamente na luz do foco supremo. Um novo tempo se desenha no firmamento. Falanges estão espalhadas pelas estradas do mundo, com o fim de despertar as consciências, consolar e elevar as almas à fonte maior de todo poder, sabedoria e amor. A atmosfera viciada pelo egoísmo, obscurecida pela maldade, deverá depurar-se. As vozes do céu nos guiarão, a fim de que acordemos para as realidades espirituais. Que o horizonte se ilumine e que os olhos do mundo se abram para a luz da Verdade!

A mensagem deixou fortes impressões nos presentes.

Gwen percebeu que uma chuva de pétalas maravilhosas derramava-se sobre todos, perfumando a atmosfera. As lágrimas turvaram seus olhos, um soluço sufocado na garganta revelou-lhe que fora testemunha de algo nobre, belo, cuja amplitude não podia alcançar.

As atenções voltavam-se ao altar de pedra bruta.

Atendendo às normas do culto, Brian atirou um bastão em chamas sobre os pães. Em seguida, apagou o fogo com vinho e distribuiu os pães aos participantes.

Brian subiu no vestuto carvalho e extraiu o visco sagrado, derramando-o sobre suas vestes suas e dos participantes, entoando cânticos a Deus.

O carvalho era o símbolo do poder divino; o visco representava o potencial curativo e o emblema da imortalidade. Leve brisa balançava os galhos das árvores como um afago do Céu. A cerimônia terminara.

Agradecidos aos poderes espirituais, todos retornaram ao lar com a chama da fé avivada em seus corações.

CAPÍTULO 7

Era Lughnasa, a festa da colheita.

Havería na ilha uma série de festivais.

Os grandes jogos realizavam-se em Carnum. Douglas e o núcleo doméstico, além de alguns

vizinhos, dirigiam-se para lá. O local situava-se a certa distância a oeste de onde corria o curso do rio Liffey. Os homens montavam a cavalo e as jovens utilizavam uma charrete mais sofisticada, um tipo de carruagem - feita de madeira de lei, com acabamentos de vime, movendo-se sobre rodas de bronze branco. Tinha uma alta estrutura arredondada e curvada, os eixos rígidos e retos. As moças envergavam singelos trajes, capas presas aos ombros, diversos adornos e sandálias de couro. Os homens, a maioria, vestiam uma calça justa até os joelhos, com mantos encobrindo parte de suas pernas compridas e nuas. Ao cair da noite improvisaram um acampamento para descanso e alimentação.

Logo na manhã seguinte, nossos personagens seguiam pela trilha, quando Brian aproximou-se de Gwen:

- Minha neta, pelas nossas leis, você é livre para escolher seu esposo, não podemos obrigá-la a casar-se com alguém.

- Sei, vovô. O que o aflige?

- Ryan fez uma proposta de casamento.

A jovem direcionou o olhar ao rapaz que mantinha certa distância. Fazia parte do grupo. Era alto, vistoso, corpo de atleta. Conhecera-o há pouco tempo. Parecia-lhe nunca ter visto nada tão belo. Seus olhos, verdes e penetrantes; sua voz máscula e forte, ao mesmo tempo branda, calou fundo em seu íntimo.

- Sinto uma forte atração em sua direção, e ao mesmo tempo, receio. As águas me disseram, conheço-o de antigas eras, vovô.

- Não posso interferir, a escolha será sua, Gwen.

Havia algo curioso. O homem que se casasse na

ilha, teria que pagar o preço da noiva, do qual o pai recebia parte. As noivas não deveríam surpreender-se, pois essa era a tradição. Ainda assim havia certo desconforto. Uma, duas, três ou "n” cabeças de gado! Parecia mais uma transação pecuária.

O grande festival de Lughnasa celebrava o amadurecimento dos frutos da terra. Era nessa comemoração, da primeira colheita do ano, que os casamentos eram contratados.

O protetor era Lugh, deus do Sol, o brilhante, o mestre de todas as artes e ofícios, o bravo guerreiro, o senhor das curas.

O festival durava uma semana. Chefes, guerreiros, bardos, druidas, atletas das tribos da ilha inteira compareciam.

Pitorescos grupos movimentavam-se naquele cenário a céu aberto. Era um belíssimo gramado, como se fosse um tapete verde idealizado pela natureza, que se estendia em longa distância plana, exceto por alguns montes de terra onde os chefes ancestrais foram sepultados.

Havia larga pista de corridas, rodeada por áreas reservadas para refeições, feiras de animais, comércio de roupas, currais para os cavalos. As pessoas acampavam em torno, em tendas ou cabanas provisórias, clãs inteiros reuniam-se.

Homens e mulheres transitavam pelo festival com capotes verdes, azuis ou vermelhos. Alguns homens usavam seus torques dourados, os cabelos esvoaçantes ou endurecidos com argila. Havia aqueles que se preparavam para as corridas de carros, que os romanos denominavam bigas. Eram resistentes e leves, com duas rodas e um único varal entre elas. Se a corrida de cavalos era o esporte dos guerreiros, a condução de bigas representava a mais importante das artes de guerra.

Os clãs continuavam chegando de todas as partes. Fogueiras espalhavam-se rodeadas pelos bardos que contavam histórias. Por todo o acampamento haviam malabaristas e acrobatas. Mesclando-se ao cheiro da carne assada, bolos de mel e cevada, pães, e a fumaça que flutuava levemente no cenário. Nas corridas, era costume os homens montarem quase nus, usavam uma tanga, desprezavam a proteção peitoral, assim como se despiam para as batalhas. Normalmente tatuados, músculos salientes, cabelos presos; por vezes, preferiam vestir curtas capas que esvoaçavam atrás deles em suas bigas.

Nas cerimônias, os druidas faziam ao deus Lugb as oferendas da colheita. As mulheres dançavam. Muitas seriam entregues ali, em negociações, talvez a estranhos que se interessassem por elas.

Era noite. Quando o sol declinou no horizonte e as primeiras sombras invadiram o cenário, Gwen estava próxima de sua tenda. Ryan aproximou-se. Seus olhos permaneceram fixos nela. Um rosto inteligente, talvez meditativo, cuja expressão sugeria que seus pensamentos jaziam distantes das atividades em que estava envolvido. A jovem acendeu um sorriso cordial:

- Eu a vi, hoje, depois da exibição das bigas.

- Ah, sim... - disse ela.

- Tomei a liberdade, conversei com seu pai, contudo não desejo pressioná-la. Anseio expor a seus familiares a minha profunda afeição. Amo-a desde a primeira vez em que a vi.

Ela, ruborizada, sentia que aquelas palavras eram sinceras. Desejava também expressar seus sentimentos nobres, a emoção, mas conteve-se. Detalhes singulares marcavam a estranha sensação existente entre eles. Ela fitava-o tristemente, como se envolta em incontida apreensão.

Vejo-a reticente... Por que? Alguém disputa comigo o seu coração?

- Não, Ryan. Não é nada disso! Creio na sinceridade de seu sentimento e palavras, mas sinto-me constrangida por desagradáveis sensações... Ah! Deixe para lá... Não sei o que estou dizendo!

- Eu preciso entender o que se passa e quais são os seus reais sentimentos, Gwen.

A jovem evidenciou grande embaraço, e por ver-se constrangida, após ouvir as ponderações sensíveis do rapaz, sentiu-se dominada por forte emoção e disse-lhe:

- Pois bem, Ryan, conversaremos em nosso retorno a Dublin. E saiba, tenho pensado em você.

- Se me der uma chance, eu prometo que a farei feliz, pois eu serei o mais feliz dos homens.

Fitaram-se por instantes e o moço, ao ler temor nos imensos olhos claros, precipitou-se, envolvendo-a em singelo abraço.

- Jamais a magoarei. É a criatura mais linda que já vi! Aceite o meu pedido e a farei feliz.

Vozes chamaram-na. Eram suas irmãs. Sorrindo, a moça despediu-se rapidamente, prosseguiu em direção a elas, voltando-se muitas vezes para olhar Ryan, encontrando-o sempre a fitá-la.

A semana correu ligeira.

A viagem de retorno transcorreu calma.

Manhã encantadora repleta de alegria e paz.

O dia estava fresco, mas agradável, e o céu de um tom esmaecido mantinha-se iluminado por um sol brilhante, que faiscava sobre as folhas das esplendorosas árvores, reproduzindo reflexos dourados.

No interior da casa, uma lareira, em cima da mesa pratos de barro e madeira limpos e empilhados, além de outros pertences domésticos como tigelas, um tipo de moedor de grãos e canecas. Imensa cesta de pães e outra de frutas disputavam o centro da mesa.

No fundo da moradia, assentadas em bancos de pedras, acomodavam-se as quatro irmãs. Entretidas, buscavam as velhas impressões da meninice. Comentavam sobre as brincadeiras infantis que se estendiam alegremente por entre as parreiras e o campo de papoulas, quando percorriam descalças as pastagens orvalhadas em busca dos bois que mugiam ao longe. Discorriam sobre as imensas árvores tratadas amorosamente, trazendo a impressão de que sons musicais saíam delas, e das flores que se postavam em abundância naquela bendita oficina da natureza, onde tudo expressava harmonia.

Era ali que Brian tentava entretê-las com sábios ensinamentos, fazendo-as observar o laboratório eficaz que a mãe natureza lhes oferecia na cura das enfermidades, e divertiam-se em nomear os carneiros, as ovelhas gordas e mansas que elas tosquiavam.

Gwen, sentada no banco de pedra, trançava os próprios cabelos; não saberia o porquê da angústia que dominava seu peito. Percebeu uma figura espiritual conhecida ao seu lado:

- Gwen, o seu avô passará pela Porta Divina, fará a transição dos mundos. Eu vim buscá-lo!

A voz silenciou. A jovem olhou em volta, procurando inutilmente quem pronunciara tais palavras. Súbito levantou-se e os olhos reluziram alarmados. Quis responder, perguntar, mas sumiu-lhe a voz, e a visão obscureceu seu raciocínio.

Quando deu por si, havia percorrido o pátio, estava diante da fonte. Sentiu forte angústia, viu imagens nas águas da bacia, experimentou dolorosa sensação de amargura. Orou renovando as forças. Abriu-se a visão ao entendimento. Conectou-se com a realidade maior. Uma voz passou a comandar, insuflando-lhe ânimo e coragem, como se vibrações do plano invisível a preparassem para a prova que estava por vir. Sentindo tal efeito, notou a presença de suas irmãs, agora ao seu lado, preocupadas. Foi Gracie quem a amparou:

- O que houve? Você está esquisita.

- Tive uma visão. Uma notícia triste. Vovô fará a passagem - disse, em lágrimas.

- Não é justo! Tem certeza? Há visões que se manifestam distorcidas.

- Meu maior desejo é que seja isso.

Ágata correu em direção à moradia e chamou Douglas, que se apresentou ligeiro:

- Gwen, você está bem, minha filha?

- É vovô, papai! Minha fada veio buscá-lo.

- Venham, meninas! Seu avô sentiu-se indisposto, deitou-se, deseja falar-lhes. Acompanhem-me.

E as quatro, desalentadas, enfrentariam assim uma grande dor: a passagem para o Além daquele que era o porto seguro da família. Leve chuva se derramava. Um cheiro bom de floresta regada e terra umedecida com o perfume de algumas flores oferecia aos corações das jovens algum consolo, ante os desígnios divinos. Cabisbaixas, entraram na moradia. Logo estavam reunidas em torno do ancião, além de Brigite, Douglas e Marven:

- Tenho em você um grande amigo, nobre Marven!

- Temos em você o nosso protetor, Brian.

Um pouco afastados, postavam-se, envoltos em tênue neblina luminosa, amigos do outro plano, que sorriam para eles. Presenciavam o acontecimento, olhos molhados, sorridentes e felizes, rememorando o dia em que, com os veementes votos de realizações, Brian reencarnou disposto a vencer os desafios da jornada, a serviço de Deus. Semblante visivelmente cansado, túnica alva, cabelos compridos e brancos, quebrou o silêncio:

- Filhos, uma nova experiência na carne representa sempre um desafio. Creio ter cumprido meu dever de repassar a vocês o entendimento das verdades eternas. Notem que a morte tem três finalidades: permitir ao homem evoluir dentro do Círculo de Abred; renovar as energias em Gwynfyd e habilitar-se a novas experiências em vidas sucessivas, buscando conhecer e observar as leis da Vida.

Reunindo suas últimas energias, o ancião Brian completou:

- É chegada a hora, meus filhos! Deixarei a temporária existência corpórea e retornarei ao mundo dos espíritos. Tenho a minha consciência em paz, muita paz...! A morte não me assusta. É nossa porta de retorno à vida verdadeira.

Emocionados e em respeitoso silêncio, os presentes acompanhavam suas últimas palavras.

- Gwen, possuímos faculdades espirituais suscetíveis de desenvolvimento. E ninguém compreenderá o próprio caminho sem trabalho árduo por realizar um ideal de virtude. Guarde e conserve o seu dom, como algo que deve ser cultivado com todo amor e zelo.

- Vovô, um espírito feminino que vela por nós, e nos ama, está presente. Há também uma senhora com um adereço, igual àquele que o senhor ofereceu em meu nascimento. Ela é linda, tem olhos acinzentados, um sorriso suave, penso que seja vovó...

- A sua avó muito tem nos auxiliado com seu amor e ternura. Trazemos valores imortais em crescimento. Somos candidatos à consciência pura, e somente assim, irradiaremos o bem-estar e o contentamento. Fora de nós há um mundo imenso comandado pelo Criador, e igualmente em nós, há um pequeno mundo, requerendo cuidados e esforço em favor de nosso progresso, minha querida.

Em uníssono, as jovens murmuraram:

- Amamos o senhor, vovô.

- Sim, filhas, eu também as amo de todo o coração.

A noite desceu, a lua cheia estava bem alta no céu

e os braços escuros das árvores não interrompiam seus raios que iluminavam a todos. Brandas emanações de paz envolviam o ambiente, sintonizado com esferas superiores, Brian despedia-se:

- Oremos gratos pela divina oportunidade da Vida. Que o Criador nos envolva em Suas bênçãos, e conceda-nos a oportunidade de servir com acerto.

Brian, lúcido e tranquilo, percebia a presença da Espiritualidade amiga. Em lágrimas, entregue à muda oração, cerrou os olhos e iniciou o retorno. Nem tudo no cenário conseguiu alcançar, porquanto ainda estava ligado ao corpo físico pelo cordão de prata.

Gwen conservou-se por instantes com os olhos cerrados, em profunda concentração. Observou luzes que se movimentavam formando um sublime cenário.

Não via mais perfeitamente a fisionomia do avô amado, por estar circundado de uma policromia indescritível. Uma multidão de seres diáfanos, entoando um hino de profunda significação espiritual, acolhia o desencarnante que, sereno, rendia homenagem àquele instrumento de carne pelos muitos anos de serviços.

Muitos outros espíritos estavam presentes para recebê-lo, dentre eles, centenas de beneficiários de suas ações e ensinamentos. Vinham abraçá-lo e beijar-lhe as mãos.

Instrutores da dimensão espiritual completavam o desligamento. Vibrações de alegria ecoavam no recinto, por regressar à dimensão espiritual um companheiro envolto em luz, por ter cumprido sua missão, como se comprometera antes do reencarne.

Brian estava livre e com a consciência imperturbável. Colhia em espírito o que plantara na carne. O cântico que pairava no cenário, em ressonâncias maravilhosas, transmitia às almas dos que ali ficaram um indivisível bem-estar. Era a faixa vibratória dele mesmo, onda transmissora do pensamento, capaz dos mais belos efeitos psíquicos.

Gwen percebeu um vaivém de indefiníveis modulações, como se o Céu viesse aos meandros do inferno e depois subisse levando o avô até a beleza celestial de plagas inalcançáveis.

Sua alma, porém, em vez de arrebatar-se diante de tamanha grandeza, como que se recolhera a si mesma, imaginando a distância infinita que a separava das esferas fulgurantes.

CAPÍTULO 8

Os primeiros dias após a morte de Brian não foram fáceis. Não obstante, o núcleo logo reassumiu as tarefas, conforme o benfeitor amado lhes ensinara.

No serviço abençoado, embora com a ausência sempre sentida, retomaram o clima de alegria e serenidade.

Ryan passara o dia em ansiosa expectativa. Chegando à casa de Douglas, foi recebido com alegria:

- Caro rapaz, seja bem-vindo!

- É um prazer revê-lo, senhor! Aqui estou na qualidade de pretendente de sua filha, a quem eu amo e com quem pretendo casar-me.

- Em breve falaremos, meu filho.

O céu apresentava-se bem claro, as estrelas incendiavam a escuridão, a planície em volta estava oberta por uma fina camada de bruma. Um vento :emo misturava-se ao cheiro da relva. A boa música e os belos poemas eram ali consagrados, graças ao encantamento produzido na sensibilidade dos convidados,
pelos acordes mágicos da harpa e de um tipo de gaita que podiam ser ouvidos à distância. Mesas e cavaletes espalhavam-se. Thmava-se o vinho, espalhava-se o pão, frutas frescas estavam acomodadas em cestos, o cheiro de carne assada misturava-se no ar.

Entre os mais maduros, a conversação girava em torno de Marven: seu conhecimento sobre astros, as investigações sobre a imortalidade da alma, a comunicação dos espíritos com os homens, a cura dos enfermos pelos processos espirituais e magnéticos, as faculdades sucessivas da alma, a necessidade de aquisição de virtudes... Tüdo ele expunha com graça cativante. Todos ouviam, encantados. Douglas permanecia firme na mesma roda, afinados os dois no desenrolar dos temas transcendentes.

As canções sublimavam a festividade. Rapazes entretinham-se em amistosa conversa com as filhas de Douglas.

Alan, belo moço de nobres qualidades, mantinha os olhos fixos em Gracie, a quem amava.

Em outro ponto, Sales, cabelos arruivados, pele branca, testa alta, demonstrava afeição por Norah.

Sérgio, um jovem também já conhecido da família, degustava uma fruta e conversava com Ágata.

Conversavam, dançavam, tocavam, riam.

Foi então que Ryan dirigiu-se a Gwen. A jovem trajava singelas e encantadoras vestes, cabelos fartos soltos caindo pelos ombros. Fortes impressões o dominavam quando lhe fixou o olhar. Sorriu, emocionado com a indescritível satisfação interior, originária de sentimentos afetivos.

Timidamente, a jovem, assim contemplada, baixou os olhos, não sem antes retribuir o sorriso. Porém, faces enrubescidas, uma angústia indefinível ofuscou por instantes seu coração, perturbando-lhe o raciocínio quando viu o pretendente aproximar-se, a dizer-lhe:

- Gwen, ocioso é dizer de minha infinita afeição. Faz pouco tempo que nos conhecemos, mas o suficien-te para reconhecer que a você meu coração pertence e nele ocupa lugar insubstituível. Jamais mulher alguma despertou em mim um sentimento como esse. Amo-a! E desejo ver realizada a nossa aliança perene.

Ela sorriu, ruborizada e confusa. A voz apaixonada e dominadora do rapaz penetrava-lhe no íntimo. Sentia um poderoso magnetismo que a levava em sua direção, queria dizer-lhe de suas impressões íntimas, mas sentia-se receosa:

- Saiba que lhe quero muito bem, Ryan. Trata-se de um sentimento nobre e elevado. Quanto à união, tenho receio. Eu nunca quis me casar... E no mais, entendo que essa hipótese poderia me levar parabém longe daqui. Sou diferente das demais jovens. Tenho compromissos com este lugar!

- Não precisamos partir. Sei que perdeu o seu avô recentemente e que deseja manter-se próxima de sua família. Tãlvez o momento não seja propício, porém, Insisto, estou apaixonado. Alguém disputa comigo um lugar em seu coração? Seus pais a destinam a outro pretendente? Há alguma negociação em curso?

Absolutamente não! Não se trata disso, Ryan.

A jovem abaixou a cabeça, evidenciando embaraço por se ver constrangida a abordar tão delicado assunto e sem saber se ele compreenderia os fenômenos que se desenrolavam em sua vida.

Sentindo que ele lhe acariciava as mãos, esquivou-se.

- O que a aflige?

- Sinto que somos velhos conhecidos do tempo. A sua presença me desperta na alma lembranças vagas de um passado longínquo... Percebo uma história com um final trágico e triste, ao qual me acena com inevitáveis dores.

- É possível. A minha impressão é de que a conheço há milênios. Gosto de estar perto de você. Quando a vi, senti que a amava terna e profundamente. Esse amor tem raízes que não consigo descrever. E tenho uma forte e inexplicável sensação de que já a fiz sofrer...

- Ryan, sente-se aqui. - disse-lhe a jovem, dirigindo-se a um banco rústico - Você crê em sonhos, adivinhos, videntes? Acredita que vivemos muitas vidas, que existimos em outras partes, que é possível já haver repudiado alguém que futuramente poderemos amar?

- Ora essa! Certamente...! Por que essas perguntas agora?

- Eu tenho sonhos... Presságios... Vejo coisas.

- Muito bem, mas se não me explicar não poderei compreender a razão dessa agonia.

- Meu espírito emancipa-se de meu corpo e percorre outros ambientes. São dons naturais que se desenvolvem e fazem parte de meu cotidiano. No leito, frequentemente, sinto-me deslocar, suavemente, para determinada região espiritual, que me é familiar. Surge ao meu lado uma moça, uma entidade espiritual que me acompanha desde o meu nascimento.

- O que tem a ver conosco? O meu desejo, Gwen, é estar ao seu lado, aconteça o que acontecer.

A jovem o observava, atenta, procurando perceber :omo estava recebendo suas revelações.

Ryan parecia ser bem diferente dos outros rapazes, como se fosse cúmplice daquilo que ela sentia. I vendo-o tão compreensivo, sentiu necessidade de abrir as comportas da alma. Nem ela saberia dizer o norquê, mas contou-lhe o que a afligia:

- Conforme eu disse, há ocorrências que decorrem de meu próprio espírito, e outras que emanam de outras personalidades que já não pertencem a este mundo. É como se houvesse uma existência dupla, duas realidades distintas, mas que interagem. Eu respeito as ocorrências, mas não posso explicá-las. Sou mtermediária dos espíritos. Por essa razão, entre ou-rras, tenho receio de envolver pessoas em minha vida.

- Gwen, insisto que desde a primeira vez que nos '.rimos, eu sonho em me casar com você. Não posso maginar que tenha dúvidas inspiradas em outras vidas e em informações espirituais.

O jovem sentia que, em sua alma ardente, se oncentravam os anseios de sua vida. Forte emoção me tomara o íntimo.

Nem todos os circunstantes se rejubilavam com o romance iniciante. Ali perto, sem ser vista, recostada em uma árvore, Sheila, moça formosa e esguia, cabelos claros, nariz fino, pele alva e acetinada como as pétalas de uma camélia, observa o diálogo do casal. A muito custo escondia o desagrado. Denotando preocupação inabitual, aproximou-se com um sorriso sem graça, e muito vermelha, enlaçou os braços de Ryan, dando guarida a largos sentimentos de ciúme e despeito:

- Ora, ora! O que tanto conversam? Estava à sua espera, Ryan! Apresentei-o a você, Gwen, mas não poderia esperar que lhe roubasse toda a atenção!

- Estava mesmo de saída, Sheila. Assim sendo, peço-lhes licença, pois, com certeza mamãe está necessitando de meus préstimos - esclareceu a jovem, revelando o propósito de modificar o rumo da conversa.

- Por favor, fique, Gwen - disse o rapaz apaixonado -, gostaria de conduzi-la à dança.

- Mas, há pouco me rejeitou, Ryan! - exclamou Sheila alegando que estava cansado...

O rapaz fez um gesto de enfado.

A reação de Sheila foi assustadora. A expressão de seu rosto transformou-se, seus olhos pareciam saltar. As veias altas pareciam explodir. A jovem olhava para ambos como se tivesse sido fulminada por um raio.

Gwen abaixou a cabeça.

Sheila replicou:

- E você? Eu soube que Kevin aguarda com ansiedade o momento propício para aproximar-se, a fim de cultivarem as tradições familiares. Houve, ao que parece, uma grande paixão entre ambos, de pouca duração. Foram discutidas as bases do contrato de aliança. É o par eleito por sua família? Kevin é um belo rapaz! Você sabia, Ryan?

Emocionada, com o coração palpitante de odiosa ansiedade, Sheila esperava o efeito de sua temerária intriga.

- Não me interessam suas observações, Sheila -disse Ryan em tom de desprezo, pretendendo eliminar aquela interferência indébita.

Desconcertada, Sheila, que há muito admirava o moço como alguém que satisfaria seus sonhos de mulher, retomou a palavra, dando conta de sua inquietação feminina:

- Estou esperando! Não vai me convidar à dança . Ryan?

- Não desejo ser indelicado - respondeu o rapaz, cue jamais se manifestara no sentido de dar esperança aos projetos de ventura de Sheila - mas, nunca experimentei no coração o que sinto agora por Gwen. Minha alma está cheia de sonhos e esperanças. Amo-a! O meu desejo é realizar os esponsais, o mais breve possível, não vejo a hora de edificar um lar, depois os filhos...

Desagradavelmente surpreendida, Sheila es-forçou-se para dominar as primeiras expressões de assombro.

Gwen, extremamente sem graça, absteve-se de Sheila insistiu:

- Ora, Ryan, acalme-se, está se precipitando. Conheceu-a faz tão pouco tempo e não creio que ela o faria feliz!

Seu coração fechara-se, imenso ciúme dominou-a, sentiu-se traída. Não suportaria aquele ultraje. Lutaria sim, por Ryan, que já era seu desde a infância! Em desespero, recordava os momentos íntimos que tivera com ele. Direcionou olhar fulminante àquela que agora considerava sua adversária perigosa.

- Sinto prazer na companhia de Ryan, soube há pouco das cogitações de seu íntimo, mas não há motivos para se aborrecer, Sheila. Quanto a Kevin, está equivocada! É um grande amigo de infância, e não temos compromisso familiar estabelecido.

- E quanto a mim, Gwen? Está desconsiderando os meus mais sinceros e íntimos propósitos? - insistiu Ryan.

Sheila mordeu os lábios, notou que ambos haviam demonstrado recíproco interesse. Estava alucinada, fora de si, e o olhar ardente e apaixonado fora substituído por uma expressão de ódio, causando receio a Gwen, que se encolhera. Entendeu que desde aquele instante fora condenada à aversão cruel de Sheila, convertendo-se em animosidade instantânea e grave.

- Perdoe-me, Ryan, creio que não é o melhor momento. Conversaremos a sós, posteriormente -disse-lhe Gwen.

Douglas, que os observava de longe, aproximou-se. Não ignorava o que se passava. Teve a percepção instantânea que deveria tirar a filha dali.

- Vamos dar uma volta, Gwen, preciso mostrar-lhe algo.

Ryan deixou transparecer intensos sinais de irritação.

- Está louca, Sheila! - exclamou Ryan enérgico -, julga então, que eu me casaria em desacordo com o meu coração? Estou apaixonado! Não percebeu? Quanto a nós, distraímo-nos, e foi só, nada mais! Afaste-se de vez. Deixe-me em paz!

- Tem em mim um passatempo, não é, Ryan? - interrogou revelando cólera profunda -, pois, mais alguns dias, se Gwen aceitá-lo e ceder aos seus galan-teios, você perderá o interesse, eu bem sei! Não poderia imaginar que ela...

- Não acuse Gwen, não sabe o que diz! Não conhece meus sentimentos! Eu a amo, e nem mesmo sei se sou correspondido. Afaste-se de mim e principalmente dela, Sheila. É um aviso!

A jovem compreendeu que toda discussão e argumentação naquele momento lhe desfavoreceríam as intenções e propósitos mais ardentes.

- Ryan, acalme-se - disse a jovem em tom mais aelicado na voz -, não se indisponha comigo.

Indisfarçável angústia sobrepôs-se ao rancor. Sentindo-se profundamente ameaçada em seus sonhos de felicidade, retirou-se, prometendo a si mesma que não desistiría.

A sós, Ryan deixou-se invadir por reflexões.

Gwen lhe tocara o coração como nenhuma outra mulher. Sentia ainda o seu perfume, guardava suas palavras. Estava convicto de que ela fora igualmente sensível ao seu sentimento. De olhos perdidos no horizonte, o rapaz sentiu-se mal, arrepios gelados percorreram o seu corpo, e uma imensa dor de cabeça o acometeu. Estava alarmado, sem condições de raciocinar, somente a certeza de manter-se afastado de Sheila, cuja presença em seu caminho tornara-se indesejável.

Olhou-a afastar-se. Ele nunca tivera a intenção de deixar as coisas irem tão longe... Uma noite de inverno, pele nua enrolada em peles, o sangue aquecido pelo vinho, uma espécie de loucura o dominou quando viu Sheila nua, esperando-o. Pela manhã, acordou arrependido e jurou que aquilo nunca mais aconteceria. Manteve sua palavra. Mas, sabia que precisava tomar cuidado com Sheila.

Douglas caminhava de braços dados com a filha:

- Gwen, Ryan dirige-se a você com a delicadeza de alguém que a ama. O que devo fazer? Você já se decidiu?

- Não sei, pai, se ele convivería bem com os dons.

- Pois, minha filha. Eu sei que há algo mais. Observo-a inquieta como se à procura de algo que não sei bem o que... O que há por trás disso tudo? O que a atormenta de fato?

- Sinto-me segura aqui, em nossa ilha. Penso que não conseguiría viver distante do senhor, meu pai.

- Eu jamais permitiría isso!

- Sabendo que o senhor não me quer longe, fico mais tranquila.

- Desejaria ficar atrelada a um velho como eu, pelo resto da vida? Deve-se casar, ter um lar, filhos, netos...

- Sei que pelas leis da ilha sou livre para escolher um marido, também sinto que há uma sinalização que me leva a ele. Sabe, meu pai, creio que esse núcleo do qual fazemos parte vem transpondo patamares evolutivos desde cenários mais remotos. Somos um imenso núcleo de almas afins, alguns ligados pelos laços consanguíneos, outros atrelados a circunstâncias religiosas ou políticas. No fundo, eu preciso entender se há uma razão para isso tudo. Que caminho seguir...

- Ah, Gwen! Não gosto dessas visões, minha filha.

- Eu sei, papai, eu sei...

Douglas envolvendo a filha num olhar carinhoso, deixou-a solitária no jardim, caminhou vagarosamente à procura dos convidados.

Ryan esperava a oportunidade de vê-la, a sós, com o ensejo de retê-la em seus braços e afagá-la como a um bem supremo que o Céu lhe houvesse concedido.

Foi ao seu encontro. O corpo delgado escondia-se agora sob um manto de lã. Havia em sua face um rubor constante percebido por Ryan que, dominado pelas impressões, encheu-se de coragem, aproximou-se, insistiu:

- Gwen, não desejo pressioná-la, mas aguardo sua resposta.

A jovem, emocionada, não conseguiu responder uma só palavra. Olhou profundamente em seus olhos, tomou-lhe uma das mãos, e com reconhecimento e fervor, beijou-a com humildade, pondo-se a derramar algumas lágrimas. O rapaz abraçou-a.

Sheila observava a cena a certa distância. Sentiu a dor atroz do ciúme, a revolta do amor-próprio atingido. Percebeu que se a adversária concordasse, a união se realizaria dentre em pouco. Era preciso evitar a qualquer preço aquele enlace. Não se conformava com a ideia de perder Ryan.

Queria Ryan como amante ou esposo, não importava, considerou aflita.

O rapaz radiante, esperançoso de que fora bem--sucedido, pegou um instrumento musical, divertindo-se com os amigos.

Todo o resto da noite ele se surpreendia observando cada gesto da mulher amada. E ela sentia o olhar dele cravado nela, mas também o olhar furioso de Sheila.

CAPÍTULO 9

Céu límpido ao anoitecer na pequena localidade. Nuvens aqui e ali, brincavam ao vento.

Somente na madrugada, Gwen pudera conciliar o sono. Sono agitado por visões assombrosas, carregadas de avisos proféticos.

Foi despertada por uma faixa de claridade. Flores azuis brincavam no recinto. Quis levantar-se, contudo, algo invisível a impedia. Era Brian que vinha visitá-la. Estendeu a destra sobre ela. De sua mão, esplendia-se um feixe de luz de intensa claridade.

A presença da Espiritualidade amiga reanimou-a, sentiu uma emoção indefinível. Algo se realizaria em seu beneficio!

Adormeceu novamente e viu-se afastada dos liames carnais, conduzida a uma localidade desconhecida:

- Louvado seja o Criador, minha neta!

- Ah, meu avô, meu avozinho! - murmurou em lágrimas diante da visão mais esperada de sua vida -Que saudade! Que bênção! Eu não mereço tamanha alegria!

- Estarei sempre a seu lado, minha pequena. Ouça-me! Você corre grande risco de cair numa cilada que poderá desviá-la de seu destino. Ore! Ore muito por Sheila e por uma entidade feminina perversa que divide a casa mental com ela. Pobres almas em desequilíbrio. Há muito vêm espreitando seus passos... Houve da parte de ambas intrigas perpetradas com consequências funestas contra você, em anterior existência! Ambas estão reunidas novamente com os mesmos propósitos, exigindo testemunhos de vigilância e ponderação. Nos episódios que se desenrolarão a seguir, existem fatos inevitáveis, todavia aparecerão também acidentes ou detalhes que poderão ser evitados, se tiver boa vontade e humildade suficientes. Tenha cuidado! Muito cuidado, minha filha. Ore pelas duas!

Inquieta, a jovem, após ouvir o avô, deixou-se cair em profundo cismar, como que evocando remi-niscências de outras passagens terrenas.

- Filha - prosseguiu o avô -, o conhecimento nos chega à medida que nossa capacidade de entender vai-se espraiando, com possibilidade de suportar sem prejuízo de ordem intelectual, moral e espiritual. As imagens que ressurgem em sua mente são de um cenário grego, onde Ryan foi um soberano e casou-se com você, na época, Melissa. Ele a amava terna e profundamente. Mas, havia no reino uma moça belíssima, da confiança do núcleo, que a caluniou cruelmente. Houve uma sórdida intriga! O soberano ficou transtornado. Em consequência, um acidente trágico, e a esposa morreu. Ryan era o soberano e Sheila a jovem que destilou calúnias a seu respeito, culminando em sua morte.

- Sim, vovô...

- Ryan, na época Periandro, suicidou-se! Pelas bênçãos da reencarnação, ele já passou por algumas experiências, das quais a última foi a mais branda. Ainda resta algo de seu carma que está dentro de sua consciência. Apesar de tudo, na época, Periandro usou sua influência e inteligência para alicerçar um grande progresso em favor da coletividade. De agora em diante, terá a possibilidade de entrar na faixa de servir por amor, onde melhor se adaptar. Para tanto, houve um planejamento na Espiritualidade, antes de seu reencarne, o de unirem-se pelos laços do matrimônio.

- Eu sinto como se estivesse diante de renovada oportunidade de limpar a mente e o coração de meus próprios erros, vovô.

- Há o livre-arbítrio. Entretanto, não somos como pássaros presos a uma gaiola ou animais enjaulados. Quando passamos a conhecer de forma mais lúcida nossos deveres perante o Criador, essa liberdade tende a aumentar. Ao perceber a harmonia da vida, aceitando o que ela nos propõe, tudo em nós também se harmoniza. Um dia, todos estaremos aptos a realizar o que o Criador espera de nós.

A voz silenciou. Grande emoção sacudiu-lhe a alma. O amado avô estava por perto. Via-se o que ele já realizara pela força do amor. Tão pouco tempo se passara de seu desencarne e já se apresentava aos olhos do mundo. Não havia perdido tempo, tinha o preparo espiritual como verdadeiro instrumento do amor puro. O benfeitor afetuoso prosseguiu reforçando a orientação:

- As grandes coisas se fortificam no recolhimento e no silêncio. O Pai de todos os espíritos necessita de nossos préstimos juntos daqueles que são mais vulneráveis. Revivemos em novos corpos, a fim de adquirir forças, conhecimentos, méritos, e nos elevarmos. Os diversos mundos são escolas para as almas e, depois das lutas, dos tormentos, dos reveses de existências árduas, depois de provações e dores, virão séculos de beleza e prosperidade. Em seguida, missões benditas, tarefas de auxiliar almas adormecidas. O círculo da vida se alarga em todos os sentidos. De todos os pontos do Espaço, partem vozes que nos chamam. Vozes que nos dizem para que elevemo-nos pelo trabalho, façamos o bem e cumpramos o nosso dever.

Gwen chorava, emocionada. A voz tão amada retornava do Além no silêncio solene daquela noite inesquecível. O benfeitor deteve-se um pouco mais e pelos fios condutores do afeto legítimo, concluiu:

- Filha, as imagens que viu permitem entrever as maravilhas do infinito. Você e Ryan deverão reajustar-se agora. Se outrora ele foi cruel, constrangendo-a a aflições, incompatíveis com o que você desejava, em pretérito mais remoto ainda, ele foi vítima de seus caprichos e desregramentos, que lhe deformaram a maneira de ser. E a fim de que ambos se refaçam perante a própria consciência, quitando-se com a Lei Divina, suas almas foram aproximadas para expiarem suas faltas e despojarem-se das próprias sombras, em favor de um futuro melhor.

Sentindo-se confortada, Gwen ainda ouviu:

- O dilúvio divino se derrama a todos, mas cada um recebe os sublimes orvalhos e assimila como pode. Coloque todo o amor em suas tarefas de aprendizado e volte vitoriosa para meus braços. Este sonho é uma advertência dos céus, a indicar a decisão precisa que deverá aproveitar. Todavia, a escolha será sua. Que o seu coração e seus olhos a guiem. Seja feliz, minha pequena. Seja muito feliz! Assim, também eu serei.

Brian silenciou. Em prantos, ela quis agradecer, abraçar o avô, porém percebeu que ele a acomodava ao leito, como fazia com ela quando criança.

Ao despertar, sentiu-se renovada, retendo nas lembranças o semblante terno de seu avô, suas vestes e a infalível bengala. Sorriu, satisfeita. Recordou-se de Ryan. Há muito tempo não conhecia alguém tão agradável e simpático quanto ele. Um sentimento de afeto, carinho e amor brotava em seu coração ao pensar nele. Estaria apaixonada? Analisava suas emoções, reconhecia que a presença do rapaz a enchera de novas esperanças. Não saberia explicar o que sentia, todavia, ele despertara nela o que havia de melhor.

Com o decorrer do dia, as impressões aquietaram-se, no entanto, em primeira oportunidade, salientou:

Papai, desejo me casar com Ryan e tudo eu farei para fazê-lo feliz. Vejo algo de providencial nessa união.

- Filha, eu fico feliz por sua decisão.

Via-se ali, espíritos de ambas as dimensões, unidos por vínculos espirituais indestrutíveis, em que as forças e as qualidades morais seriam postas à prova, alguns lutando por expurgar a culpa da própria consciência, outros inspirados no sublime sentimento do amor, auxiliando a redenção de entes queridos.

No dia imediato, Douglas visitou a família de Ryan no intuito de acertar a união. Frequentemente, os dois jovens se avistavam, tornando-se constantes as visitas dele ao lar dela, estreitando os elos afetivos que desde o primeiro dia haviam conectado seus corações.

Nessas visitas, ou nos longos passeios que faziam acompanhados, o rapaz deixava-se reconhecer pela elegância das maneiras e a distinção no trato. Rapidamente entrosou-se com Douglas e Marven, trocavam impressões, manifestando afinidades sobre os princípios da doutrina druídica.

Sua preocupação maior era mostrar-se afável, atencioso para com a jovem por quem se apaixonara. Em todas as ocasiões a presenteava com uma braçada de flores, elegendo uma em especial que colocava em seus cabelos. Embalado pelo arrebatamento de amar e ser amado, mostrava-se feliz e a cortejava quase diariamente.

Passaram-se alguns meses, durante os quais se estreitaram as relações entre as duas famílias. Ryan parecia surgir para uma nova vida, demonstrando acentuado interesse em ações laboriosas em torno dos familiares da noiva. Douglas animava-o nos excelentes propósitos a que, voluntariamente, ele se impusera, ora aconselhando-o amenamente ou advertindo-o com um exemplo generoso.

Ultimavam-se, assim, os preparativos da união. O mesmo não acontecia, porém, com Gracie que se sentia angustiada e um tanto confusa.

Em copioso pranto, a filha abordou Douglas:

- Ah, Gracie... Gracie! O que há?

- É meu dever atender as ordens do senhor, mas tenho o direito de escolher com quem eu vou casar, papai.

- Não está pronta para fazer bom uso de sua liberdade. Tenho sérias preocupações acerca de seu futuro, minha filha.

- Nunca! Não aceito sua decisão!

- Que modos são esses?

- Eu estou apaixonada por outro homem. Trata-se de Ernesto, do território de Laois. Não desejo me casar com Alan!

Douglas, preocupado, compreendia agora as inquietações demonstradas nos últimos tempos. Alan, rapaz de nobres qualidades já havia se declarado a Gracie. O acordo do enlace matrimonial fora feito.

- Você é uma criança ainda! Como casá-la com esse moço, por quem se diz apaixonada, cuja reputação não é boa?! Alan será o seu esposo! Proíbo-a, portanto, de se encontrar com outro!

- Papai, engana-se o senhor se pensa que eu vou me entregar ao primeiro homem que decidiu escolher para meu marido, pois já hz minha escolha!

- Gracie, não me desafie!

- Meu coração não tem preço, o senhor não vai me negociar.

- Deveria procurar saber melhor quem é esse Ernesto!

- Não amo Alan, papai. Jamais o amarei, embora o considere.

- Pois irá se casar com Alan, e ponto final.

- Ora, papai... O senhor está destruindo a minha vida!

- Pelas leis da ilha, você poderá fazer a escolha, contudo deverei aprovar! Guarde bem isso, Gracie!

A jovem, que conhecia a rigidez do caráter paterno, sentiu-se aniquilada. Na verdade, nem mesmo sabia ao certo o que desejava. Confusa, ouviu-o dizer:

- Deixe-me só! Retire-se!

Cabisbaixa, a jovem deixou a sala. Não obstante a resistência encontrada e as ameaças do pai, Gracie encontrou-se com Ernesto, às ocultas, ah mesmo pelos arredores da moradia doméstica.

Depois, durante o resto do dia sentia-se ainda envolvida por seus braços, a pressão de seus lábios, o peito dele junto ao dela, perturbando-lhe os sentidos e os pensamentos.

Dias depois, Gracie recebeu um novo recado de Ernesto: que comparecesse ao local de sempre. Desejava ir vê-lo, embora sentisse apreensão, pressentindo algo ruim. Não obstante, sentia-se confusa, e pressionada pela família para casar-se com Alan.

Precisava despedir-se do rapaz enamorado, era necessário colocar um fim na situação antes que seu pai descobrisse. A jovem tinha frequentes crises nervosas desde a infância, estados aflitivos a assediavam por aqueles dias, no entanto, logo pela manhã conseguiu que os pais autorizassem que ela e as irmãs fossem ao mercado livre no povoado. Era temerário o que ia fazer, receava ser surpreendida, porém, com o pensamento fixo conduziu a carroça acompanhada das três irmãs.

Na praça do vilarejo, pequena feira agitava os habitantes. Bancas rústicas espalhavam-se com diversos produtos expostos. Havia barracas com animais, vestimentas, frutas secas, castanhas, carnes, pães e peixes, dentre outros. Reunindo-se, os moradores aproveitavam para conversar, trocar idéias. Enquanto suas irmãs entretinham-se na praça, Gracie justificou que tinha algo importante a fazer, alegando que não se demoraria.

Embaraçada, aflita com a situação que criara, iria dirigir-se a Ernesto, disposta a confessar que a família desejava casá-la com Alan, eliminando nele qualquer esperança ao matrimônio entre ambos.

E ali estava, no cenário de sua ventura e sua desgraça.

Logo à chegada, local ermo, escuro, assombroso, viu-se enlaçada por fortes mãos. Era ele. Suas carícias eram rápidas e assustadiças, não permitindo fruir o encantamento antigo. Gracie sentia-se culpada, debu-lhava-se em prantos.

- Ah, Gracie! Que bom vê-la! Esperei ansioso por esse encontro. Por que as lágrimas?

- Ernesto! Apresento-me aqui para colocar um fim nessa situação. Tfenho sido imprudente, sinto-me desequilibrada. Tive crises de nervos. Meu pai é contrário à nossa união e isso me constrange. Insiste que eu me case com Alan. Este é o nosso último encontro.

- Não vou renunciar a você. Sua união com aquele tolo é um absurdo! - disse-lhe colérico.

- Não me espere mais, Ernesto. Hoje será a última vez. Respeite-me, por favor, eu realmente não estou bem.

- Está me rejeitando, depois de tantas provas de amor que me deu? Não é fácil para um homem ouvir o que está dizendo! Não me abandone! Se me ama, lutaremos e fugiremos juntos.

- Estou indecisa com relação ao meu próprio coração. Gosto de você, um sentimento capaz de todos os sacrifícios, embora sinta certo temor ao seu lado.

Houve outras mulheres, seduziu-as, abandonando-as depois... Ao mesmo tempo, sinto-me segura ao lado de Alan, uma admiração terna, não sei se conseguiria viver sem ele. Desculpe-me, estou sendo sincera. Devo regressar agora!

A discussão acendeu-se. Ernesto, já a certa altura, manifestando pensamentos irônicos e inconformados, foi dominado por violenta irritação, decidido às maiores inconsequências, a fim de prender Gracie a si. O rapaz perdia-se em ânsias insensatas. Como que pressionado por uma atuação obsessora, enlaçou-a em seus braços vigorosos:

- Gracie, você não compreende como eu esperei por este momento!

- Não, Ernesto! Não! Afaste-se de mim! Devo ir agora!

- Eu a amo, estou louco, sou o mais desesperado dos homens! Fique comigo. Deixe-me abraçá-la, nem que seja pela última vez!

E a beijou com ardor, em pleno delírio. Gracie pôs-se a chorar, aflita e apavorada com a própria reação. Seu coração palpitava, descompassado. O receio crescia a todo instante. A atitude dele havia se alterado a olhos vistos e ela não compreendia o porquê de tão grande mudança.

- Eu devo ir agora. Deixe-me ir, imploro-lhe, por favor.

Ernesto insistia para que Gracie atendesse aos apelos caprichosos, cedesse aos seus carinhos.

- Não tem compaixão de mim, Gracie?

- Para que insistirmos em algo que não terá futuro? Tãlvez, o meu pai tenha razão, o nosso amor não seja verdadeiro, algo passageiro...

- Passageiro? Despreza-me agora? Ama o eleito pela sua família, é isso? Deseja casar-se com ele, então? Deveria ter pensado nisso antes de me enfeitiçar! Não pertencerá a outro!

- Acalme-se, Ernesto. Quero evitar que as coisas se compliquem ainda mais. Devo ir agora!

- Está louca porventura, menina caprichosa? Como ousa tratar-me dessa forma? Você será minha! Como poderei viver sem seus carinhos? Deixe-me beijá-la, prometo que depois a deixarei ir.

E o rapaz ensandecido não a soltava. Ou por ter premeditado o fato, ou porque se irritasse com as colocações de Gracie, o certo é que passou a utilizar uma força maior para prendê-la junto de si, procurava-lhe a face, os lábios, todo o seu corpo que tentava se des-vencilhar de seus braços. A luta que Gracie travou foi penosa, sentindo a situação que se enredara. Em desespero, suplicava piedade, debatia-se em lágrimas, e arrependera-se de estar ali fazendo parte daquele drama.

Até que sucumbiu. Entregou-se!

Depois, aos prantos, recompôs-se. Desnorteada, retornou à praça onde se encontravam suas irmãs, que a esperavam aflitas. Nada relatou do ocorrido. Ainda assim, perceberam que algo de estranho havia acontecido.

Alguns dias transcorreram.

Gracie isolou-se, em profundo abatimento. Recusava o alimento, enfraquecera assustadoramente. Olheiras contrastavam com a pele alva, revoltara-se com a família, com Ernesto, consigo mesma.

Parecia querer vingar-se das pessoas que a cercavam. Ifentava esquecer o infeliz episódio, removê-lo de sua mente, a fim de adquirir paz. As irmãs, afetuosas, insistiam para que ela lhes confidenciasse o que estava acontecendo. Em vão!

Certa noite, Gracie deixara-se vencer pela tensão nervosa, debulhava-se em lágrimas, dominada por pensamentos sinistros que a atormentavam.

- Eu não vou aguentar - reagia - vou dar um fim à minha vida..., a minha irremediável vida. É o que devo fazer!

A via de assédio da dimensão invisível era a sua própria inferioridade moral. Os espíritos mal-intencionados que tinham por objetivo levá-la à queda, encontraram-na vulnerável, dominada pela culpa que a fragilizava.

A Espiritualidade superior agia. Ações vindas do Além tentavam incutir idéias positivas de sua crença na bondade do Criador, no cultivo a fé. Em raros momentos, sentia-se um pouco mais fortalecida, e então, raciocinava com sensatez e pensamentos bons surgiam:

- Preciso recuperar-me. O que passou, passou... Por que deixar-me levar por pensamentos tão sombrios? Eu bem sei que a vida não termina no túmulo!

O episódio impunha-lhe muitos cuidados. Se em alguns momentos reagia, logo em seguida, aderia às sugestões deletérias de entidades infelizes.

E por mais que chegassem iniciativas do Alto para fazê-la acordar do torpor, o secreto desejo de aniquilar a sua vida avolumava-se. Entre uma recaída e outra, ideia fixa solidificou-se: tomaria uma solução de erva venenosa.

Brian, desgostoso por ver a neta tão distanciada da educação moral e religiosa que transmitira, tentava socorrê-la pelos condutos do pensamento:

- Gracie, por ventura esqueceu-se de tudo o que lhe ensinei? Por que buscar o desvario? O suicídio é um crime! É a suprema afronta a Deus! Afaste esses pensamentos! Converse com suas irmãs!

Gracie não assimilava suas recomendações.

- Oh! Minha Gracie, amada neta - prosseguia o avô você já foi por esse caminho, outrora. Tente lembrar do que o suicídio acarreta. O passado de erros é um eterno convite a novas quedas. Reaja! O seu corpo espiritual traz impressões, causando doenças nervosas que a medicina não cura. O que poderá curá-la é a sua predisposição em transformar-se!

Vendo que ela não se sensibilizava, Brian direcionou a atenção para as outras netas, que se encontravam adormecidas. E Gracie, deixando-se dominar pela força irresistível de seus próprios pensamentos, aliados a influências nocivas de outros, procurava agora o tal recipiente:

Beber a erva! - exclamava -, afastar as vozes que me subjugam! Desparecer! Sim! É isso!

E tomou. Conseguiu ainda dar alguns passos, cambaleando, de volta à cama. Sobrevieram-lbe dificuldades em respirar, dores na garganta e no estômago, pupilas dilatadas, boca cerrada, o pulso acelerado e a pele fria como a morte.

Brian esforçava-se por acordar as outras netas, entidades amigas faziam sua ronda, dispersando entidades indesejadas, de forma que pudessem socorrer Gracie. Desdobravam-se em operações magnéticas em seu beneficio.

Finalmente, conseguiu acessar Gwen:

- Vamos, filha, desperte; rápido, chame as suas irmãs! É grave! Gracie ingeriu erva venenosa. Devem imediatamente recorrer à poção para lavagem estomacal e, na sequência, administrar outra que a neutralize, visando ao reequilíbrio orgânico. Você sabe como fazer, mas tem que ser rápida! Vá...!

Gwen escutou o chamado, como se chacoalhada fosse. Pulou da cama assustada, ouviu os gemidos de Gracie, que confessou a ação, suplicando por socorro.

Rápido, chamou as irmãs. Na posse de um preparado que havia no armário de medicações caseiras, fizeram-na expelir o que pôde, e intuídas, seguiram à risca as instruções espirituais que o avô fornecera.

A enferma passou muito mal. Embora o organismo estivesse desequilibrado, as providências socorristas inspiradas por Brian tiveram êxito.

Os dias a seguir constituíram dolorosa surpresa para a família, aturdidos com o inesperado acontecimento. Em casa, nunca os moradores haviam vivido momentos tão conturbados.

A trama articulada na sombra por espíritos mal-intencionados, que tinham por meta desequilibrar a família, não alcançou seu objetivo, embora os transtornos produzidos.

CAPÍTULO 10

Cautelosa, mas convencida de que seria urgente e indispensável o que fazia, Gwen abeirou-se do leito de Gracie, que permanecia arredia e desencantada, e falou de mansinho:

- Gracie, o que houve de fato com você?

- Uma voz me chama insistentemente! E apesar de todos os esforços, eu não consigo resistir e sigo para ela.

- Que vozes são essas que a levam ao desatino? Por que segui-las, se a arrastam para a infelicidade? Pois não sabe que os espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra, antepassados, familiares, amigos, adversários, com todos os vícios e caprichos? Não vê que essa voz não deseja o seu bem? Não percebe que as consequências poderíam ter sido terríveis, deixando-se levar por um momento de fraqueza?

- Sinto-me dominada por uma terrível ideia, uma irresistível vontade de entregar-me e me destruir.

Ah, Gracie! Gracie... O pior já passou! Mas, lembre-se de que se o seu empenho for maior, poderá resistir a esses chamados. Agora, esclareça-me sobre o seu proceder nesses últimos tempos. Confessa-me se ama Alan. Desejo tão somente ajudá-la.

- Deixe-me em paz! - afirmou com um riso nervoso e atemorizado. Detesto quando se intromete em minha vida.

- Gracie, se não o ama, confessa-me francamente. Falarei com papai sobre o rompimento.

Indignada, a irmã riu ironicamente e abaixou a cabeça, desviando o olhar.

Gwen notou que um contorno sombrio se destacara nela. Afigurava-se um espírito masculino, barbas e cabelos arrepiados. Bradou feroz. Punhos erguidos, avançou em sua direção e soltou excêntrica gargalhada, que mais se semelhava a um urro.

- Confia em mim - prosseguiu Gwen -, sua irmã. Olhe em meus olhos! Eu a amo. Tem se lembrado de orar?

- Perdoe-me... Estou sem controle de minha vida, das palavras que saem de minha boca. Hoje estou pior que ontem. Estou farta desta maldita voz! Ela me persegue!

- Acalme-se. Feche os olhos e abra seu coração - disse-lhe Gwen espalmando suas mãos sobre sua irmã, a orar:

- Criador de infinita bondade, a imensidão de Túa misericórdia acorda-nos sempre o espírito. Não conhecemos os dias escuros do passado impenitente que nos atormenta, não recordamos o dever do trabalho redentor, mas, levanta, por piedade, a minha irmã para que cumpra suas provações. Sei que nunca te esqueces de nós. Por isso, rogamos para que esse nosso irmão, associado mentalmente a Gracie, seja amparado. Não sabemos o que deseja e talvez sua cólera seja justa, mas rogamos de todo o coração que ele nos perdoe.

Gwen silenciou e uma luz difusa se derramou em torno daquelas duas almas atormentadas, que pareciam fundidas num só corpo, tão intensa a ligação entre ambas, promovendo uma trégua à vítima.

O réprobo, ao mudar seu padrão vibratório para melhor, ante a bênção da oração, desligou-se automaticamente de sua presa.

Gracie, aliviada, decidiu relatar à sua irmã o que se passava. Confessou-lhe o quanto entendeu conveniente:

- Estou farta dessa voz - disse Gracie farta da atração que sinto por Ernesto. Ele exerce sobre mim um fascínio irresistível. Não tenho forças para fugir de sua presença e repelir seus galanteios.

Gwen insistiu:

- É só isso? Conte-me o que realmente houve.

- Tive alguns encontros, as vozes me encaminharam até ele! Falavam dele! Arrastavam-me aos braços dele! Minha pele ardia e meu corpo queimava de paixão por ele. Vivo no inferno! Não conservo esperanças de me libertar, quisera viver em paz novamente.

- Acalme-se. Nem tudo está perdido. Houve a intercessão de vovô para neutralizar essas influências.

Entretanto, deve fechar os ouvidos às vozes que a desequilibram e manter vigília.

- Houve algo de que me envergonho. Por um momento, eu o desejei, fui leviana. Depois quis afas-tar-me... No entanto, ele ficou desvairado e me possuiu à força. Foi horrível, mas confesso que há momentos em que me sinto satisfeita por vê-lo sofrer, por vibrar de paixão e ansiedade. Acho graça quando suplica por meu amor.

- Mas, minha irmã! Considera divertido vê-lo sofrer por você? Não percebe que há algo muito grave nessas vozes que a levam a cometer atos infelizes? Fique atenta, seja forte e procure resistir a esses apelos!

- Não sei o que acontece. Uma força estranha arrasta-me para ele... Toma vulto, e quando vejo estamos trocando carícias ardentes. Você entende?

- Ao menos você o ama, Gracie?

- Não! Não o amo! No fundo, eu penso em Alan, desejo casar-me com ele, porém, quando me dou conta, estou nos braços de Ernesto. E quando o deixo sinto revolta, tenho raiva, nojo de mim mesma! Fico apavorada pelo meu mau proceder. Mas aí há outro encontro e mais outro... Sou impelida ao erro por uma força que me domina e absorve, tolhendo-me a vontade. Prometa que nada falará com papai.

- Confie em mim! Alan é a pessoa ideal. Falarei com papai, anunciaremos o casamento para o mais breve possível. Quem sabe poderiamos nos casar no mesmo dia? E até que se realize o casamento, ficará em lugar seguro, estarei ao seu lado, para que resista a essa perigosa fascinação que Ernesto exerce sobre você.

- Eu agradeço, preciso de ajuda, mas seja discreta.

Momentos depois, Gwen convidou Douglas para

um passeio no campo. Desejava pô-lo a par da situação, em parte. Alan era um desses temperamentos dóceis, dedicado às causas nobres, tinha respeito à religião e era portador de uma sensibilidade toda especial, incapaz de uma ação menos digna. Era, portanto, o marido ideal para Gracie.

Uma vez a sós, a jovem iniciou a conversa:

- Papai, precisamos conversar sobre Gracie.

- Sua irmã me preocupa demais, tira-me a paciência!

- As coisas entrarão nos eixos! Ela está enfrentando um momento penoso, sob uma influência espiritual perversa, a mesma que a atingiu na infância, que muitas vezes tentou levá-la ao desânimo, ao desejo de sucumbir... E, talvez esse seja o momento propício para que se realize o enlace com Alan, papai.

- Mas, ela se recusa!

- Gracie está confusa, mas confessou-me que o ama. Ele, por sua vez, vem insistindo para que se unam o mais breve possível.

Desta forma, a conversa fluiu e Gwen expôs a sua intenção de se ausentar alguns dias com a irmã, preparando-a para o compromisso. Douglas aceitou.

Os dias seguintes decorreram nas mesmas expectativas. Gracie, após a confissão, havia melhorado um tanto, ensejando bendita oportunidade de recomeço.

Com a aprovação dos familiares, ela e Gwen au-sentaram-se por duas semanas, em visita a familiares próximos na região.

A Espiritualidade amiga atuava ainda em outro campo: nossa irmã Sheila. A paixão por alguém já comprometido não pode ser evitada, mas não lhe dar curso é decisão que o bom senso recomenda e o retc proceder exige. Sheila, porém, não pensava assim. Espírito imaturo, inconsequente, induzida pela ação de obsessores que se afinavam com ela, engajava-se em nova trama cruel contra a vida de Gwen.

Gwen observava as advertências de Brian e os benfeitores espirituais mantinham-se em vigília, buscando isolá-la do nefasto assédio, tanto da ação da encarnada quanto dos desencarnados.

Sheila concluiu seu plano, inspirada pelos obsessores, e já providenciava meios para sua concretização, comprometendo a programação concebida pela Espiritualidade.

O amor de Deus, que tudo pode desanuviar, ofertava novas oportunidades de progresso moral a nossa infeliz personagem.

Sheila, à maneira de uma enferma que recebe remédio providencial, adoeceu gravemente. Experimentou enigmática enfermidade no círculo doméstico gerando agoniada expectativa, sem que lhe fosse facultado qualquer recurso de locomoção e comunicação.

De nada mais cogitava além da sua felicidade destruída, de sua paixão rejeitada, de seu amor-próprio ferido, dos seus sonhos duramente despedaçados.

Os dias intermináveis no leito lhe foram profundamente benéficos. Por vezes, ela como que pressentia as sombras mal-intencionadas que a seduziam, sussurrando aos seus ouvidos sugestões sinistras:

"A intriga é a arma mais poderosa! Levante-se. Sheila, prossiga com o seu plano, coloque-o em prática."

Entretanto, amparada pelos benfeitores da dimensão invisível, passou a reagir contra as sugestões maléficas, e sem forças para levantar-se do leito, conteve-se.
Duas semanas transcorreram.

Sheila permanecia presa ao leito.

Gracie e Gwen já haviam retornado ao lar.

Ambas, juntamente com Norah, assumiríam a responsabilidade de uma vida em comum com seus parceiros, selando o pacto de uma ligação perene na alegria e na dor. As bênçãos se dariam no dia seguinte.

Nas horas de sono, emancipados em espírito, alguns membros da família foram abordados por Brian, que se fazia presente na moradia. A prece abria-lhes as portas para o mundo espiritual.

Irradiações luminosas lhe emolduravam a face. Insuflando-lhes ânimo e alegria, o ancião esboçou um sorriso terno e falou com doçura aos entes amados:

- Meus filhos! Devo preveni-los de um fato que terá importância crucial em suas vidas. Gracie outrora cometeu um delito perante a Lei Divina: suicidou-se. Porém, a redenção dos filhos de Deus é inevitável, não importa quanto tempo demore no círculo das reen-carnações. A confiança inabalável nessa realidade é um tesouro precioso que devemos fixar em nosso íntimo. Para tanto, além dos familiares, ela encontrou Alan, que lhe foi uma alma sumamente cara, em passadas encarnações. Fiquem atentos às circunstâncias! Cuidado! Muito cuidado com ciladas arquitetadas por mentes enfermiças.

Junto ao leito da jovem, Brian aplicou-lhe fluidos benéficos e retemperadores, após o que recomendou:

- Observem, com atenção, as emanações que se desprendem de Gracie. Tem acumulado correntes de energia pesada por conta de pensamentos inferiores, além das vibrações de irmãos desencarnados perversos, cujos objetivos maléficos encontraram guarida em sua mente, conturbando-a. Houve o afastamento de alguns com benéficos resultados, porém, é preciso redobrar as atenções, pois ela ainda corre perigo. Deverá firmar-se no pensamento reto e engajar-se assiduamente em serviços em beneficio do próximo.

Afastada do corpo, Gracie abriu os olhos, embora permanecesse inconsciente. Amparada por benfeitores espirituais que lhe sensibilizaram a visão pôde ver o avô, que lhe falou com ternura:

- Filha amada, esteja em paz. 'Tüdo lhe será zoncedido se souber focar com clareza e constância os valores do bem. Procure repelir os pensamentos negativos a fim de vencer, esqueça imagens perturbadoras do passado que se materializam agora e a perseguem. A arte de eliminá-las está em cultivar os bons pensamentos. Procure descobrir o lado bom das situações e siga avante! A mente positiva irradia amor, zonfiança, paz, saúde, tolerância, caridade e abundân-zia. Muitos daqueles que nos atormentam atualmente foram impelidos ao abismo por nós, ontem. Persevere, minha filha! Persista até o fim! É no empenho diário que chegamos ao aperfeiçoamento e à vitória.

Após breve pausa concluiu:

- Cuidado! Domine os maus impulsos, construindo um destino feliz! Esta é a sua lição de casa! Seja forte, insista, lute e vencerá!

Na manhã seguinte, Gracie despertou emocionada, retendo na memória o semblante de seu avô e suas recomendações. Empolgou-se pelo desejo sincero de zasar-se com Alan, por quem nutria sincera afeição.

Os amigos espirituais rejubilavam-se. Tudo estava ocorrendo em conformidade com o esperado, às • ésperas do casamento.

Chegara o grande dia!

Logo pela manhã ultimavam-se os preparativos para a realização dos enlaces conjuntos.

Gracie, Gwen e Norah levantaram-se cedo, familiares e algumas amigas íntimas vieram, auxiliando nos preparativos.

Gracie, à hora certa, banhou-se, vestiu o traje apropriado, arrumou os cabelos com uma trança única caída pelas costas e um fio dourado acomodado em torno da cabeça. Estava belíssima!

Sucedeu o inesperado. Sem que percebessem, uma trama se desenrolava pelos arredores da propriedade.

Gwen e Ágata receberam um mensageiro.

O recado falava de algo grave, muito grave!

Saíram as duas, apressadamente, com o consentimento de Douglas, para entregar um preparado à base de ervas, pois se tratava da vida de uma criança que adoecera seriamente. Era caso de vida ou morte!

Gracie, simultaneamente recebeu uma mensagem. Tratava-se de Ernesto que a esperava num local bem próximo, sob a ameaça de que se não comparecesse, impediría o casamento, iria à moradia revelar toda a verdade a Douglas.

Chantageada, assustou-se! Não sabia como agir Temeu pelos acontecimentos. Seria preciso, portanto, atender a Ernesto.

Suplicaria para que a deixasse em paz e retornaria logo. Seu coração batia descompassado. Ao defrontar-se com ele, que surgia em sua montaria, nervoso e inquieto, súbito desespero acometeu-a:

- Infame! Criminoso cruel! Não contente em ter-me desgraçado, tenta me enlouquecer, expondo-me à vergonha diante de minha família! Deixe-me em paz, Ernesto!

Enlouquecido de paixão, ele afirmou, resoluto:

- É tarde para arrependimentos! Será minha prisioneira, já que não deseja ser minha esposa. E eu serei seu senhor! Deveria ter meditado antes de aceitar o convite. Eu serei um homem hei, o mais devotado. Nenhum mal lhe sucederá! Será minha..., somente minha!

A esta altura, Ágata e Gwen, aliviadas, retornavam à moradia, o chamado fora alarme falso, estava tudo bem com a criança.

Ao longe avistaram a cena. Não havia dúvida, o cavaleiro que tentava enlaçar Gracie era Ernesto. Correram em sua direção.

O rapaz escorregou um pouco pela sela e a agarrou. Assustada, Gracie pôs-se a gritar, em vão. Túdo foi tão rápido que elas nada puderam fazer.

Com Gracie presa em seus braços, o rapaz afastou-se a galope.

Exausta, a debater-se inutilmente, Gracie desmaiou.

Quando acordou, estava acomodada em uma esteira coberta por uma manta de carneiro. Abriu os olhos e no primeiro momento não se lembrou do acontecido. Relanceou o olhar:

- Ernesto? O que houve?

- Eu a raptei para não se casar.

Suplico, leve-me de volta! Que dirão meus pais? E o meu casamento?!

- Impossível! Somos só nós dois agora. Tenha calma. Precisa alimentar-se.

- Eu exijo! Leve-me para casa!

- Acalme-se. Viajamos muitas horas. Durma agora.

Não obstante colérica, reconheceu que estava exausta e faminta. Alimentou-se, o vinho esquentou-a, deitou-se e adormeceu.

Na moradia, os familiares permaneceram desolados.

De pronto, dispensaram os convidados e suspenderam os enlaces, cobravam-se mutuamente por terem permitido os acontecimentos.

Um pouco afastada dos demais, Brigite chorava abraçada às filhas, quando o chefe da família comunicou que colocaria tropas ao encalço da filha. Feições carregadas, era um pai desesperado. Sentindo-se impotente, esbravejava. Não sabiam se Gracie fora vítima ou cúmplice do plano de fuga. Túdo conspirava contra ela!

Em seguida, homens sob as suas ordens arrumaram seus pertences, prepararam as armas, afiaram as lâminas com o objetivo de trazê-la de volta, e sob o seu comando, partiram. No meio da mata o grupo cavalgou, os homens se espalharam acostumados com a floresta. Dias de buscas infindáveis. Em vão!

Extenuados de fadiga, das noites de vigília, cujos sofrimentos, muitas vezes lhes pareceram sem fim, sem suprimentos para continuar, retornaram. Até então, nenhum vestígio, nenhuma notícia do paradeiro do casal Brigite, arrasada, sofria amargamente sem saber se a filha fugira por vontade própria ou se fora raptada. O esposo, de regresso, informou-lhes que as buscas haviam sido infrutíferas, nenhuma notícia havia que lhes oroporcionassem a mais ligeira sombra de esperança.

Ágata viu a noite passar sem conciliar o sono. Zntão, pensou no avô, sentiu paz no coração. Brian Apresentou-se. Ligavam-se por tênues fios de manifestação do afeto:

- Filha, peça ao seu pai que desista das buscas. Gracie deve arcar com os atos, ter responsabilidade sobre as escolhas. Caberá assimilar as lições que os fatos oferecem e se libertar da faixa vibratória em que se envolveu voluntariamente, nesta vida e em vida nregressa. As idéias dela estão em desarmonia, embora seja uma alma sem maldade.

- Gracie foi irresponsável. Papai não aprova o que ela fez.

- Ágata, não julgue sua irmã, transmita o recado ao seu pai.

- Sim, vovô...

- A cada opção, ainda que em desvio, colheremos novos aprendizados e lições. Transmita o recado.
Naquela mesma madrugada, Brian arrebatou Gwen, atingindo estâncias espirituais favoráveis, na tentativa de fazê-la entender algo importante.

- Filha, uma nuvem negra se aproxima. Um conflito de grandes proporções se desenha no cenário. O nosso povo sofrerá a opressão dos conquistadores romanos: tudo em prol da posse e o do poder! Aspiram a destruir nossa crença, sem nenhum respeito às nossas origens. Cultivemos a oração, mentalizemos a paz, a fim de que a desordem não se instale, nem percamos nossas milenárias conquistas em face do assédio espiritual inferior.

- Vovô, o que exatamente o senhor está tentando me dizer?

- Gwen, além da ação dos invasores encarnados que visam a apoderar-se de tudo para construir uma potência mundial, falanges de irmãos desencarnados ,infelizes, acostumados à balbúrdia, à desordem da dimensão espiritual inferior, querem aproveitar-se do momento para a degradação, para a desmoralização. Pela própria condição inferior, uns tramam contra os outros, e acabarão por se destruírem mutuamente. Desde longa data vem se travando uma guerra terrível entre espíritos do mal, visando a um domínio precário. Cada nação tem aqueles que ignoram as leis espirituais e têm sede de domínio, sem cogitar de princípios mínimos de fraternidade.

Após breve pausa, prosseguiu:

- Astuciosos agrupamentos das sombras espreitam a hora certa de agir. Vão semear insultos, destilar vinganças, turbilhões de idéias nas mentes dos nossos irmãos de crença. Pretendem trabalhar em silêncio e semear discórdia internamente entre os nossos, principalmente na linha de comando, o que, segundo eles, é o melhor caminho. Por isso, minha filha, rogamos a todos a oração em favor da paz e da união.

Gwen, assustada, permanecia em silêncio, enquanto Brian completava:

- Filha, o preceito druídico emana diretamente de focos superiores capazes de espalhar o conhecimento, cultivar as virtudes, ampliar o anseio de direito, de independência e de liberdade. Mas, ainda assim, falta ao nosso povo algo essencial: o sentimento de fraternidade que sustenta a união. As dissensões e as rivalidades de alguns chefes poderão comprometer a programação original. Se as tribos gaulesas, porém, conseguirem se unir por laços federativos, poderão formar uma poderosa nação.

- Diga-me então, o que fazer, vovô?

- Há um líder guerreiro, um nobre chefe arveno, educado por bardos, sustentado pelo poderio dos drui-das. Um gaulês jovem, muito jovem! Não demorará muito, e esse líder agirá com exemplos sublimes de sacrifício e abnegação. Ele é um enviado, filha. Tem sido inspirado, convocará as tribos celtas para uma união. Reencarnou com a missão de unir as várias tribos da Gália, crê no futuro e na grandeza de sua pátria, e por essa causa lutará, sofrerá e poderá dar a própria vida. Oremos juntos, e façamos a nossa parte, evocando forças vivas da bondade e oferecendo apoio aos nossos líderes, que têm a incumbência de zelar pelo equilíbrio e pela orientação política, econômica e social de nosso movimento, a fim de que os acontecimentos se desdobrem sem desvirtuar o planejamento original

- E como colaborar efetivamente, vovô?

- Dê o seu testemunho. As vozes que se derramam devem se alastrar. Transmita que o mais importante é a união, que orem e vigiem! Muitos deverãc ouvir o chamamento. Que se unam em defesa de nossas terras e de nossa cultura.

Concluindo, Brian acentuou:

- Filha, a Espiritualidade Superior apressa o socorro ao nosso povo. O amor cobrirá a vasta família que formamos, onde todos são irmãos, onde não deve haver escravos, nem senhores. A vida terrena é edu-candário de regeneração, onde os deuses de pedra se extinguirão, e em lugar deles, surgirá a fraternidade que reinará soberba. Haverá salvação para os homens e não virá à maneira dos césares, nem dos faraós; vira muito mais à maneira dos sábios da Grécia! Que a Criador a abençoe.
No dia seguinte, Ágata e Gwen narraram ao par os detalhes sobre a dupla visita espiritual de Brian Quanto a Gracie, Douglas já desiludido, interrompeu as buscas e comunicou que, a partir daquele dia, ela morrera para ele e para todos daquela casa. Os familiares acataram a decisão, certos de que, com o tempo, a sua disposição íntima mudaria. Era dar tempo ao tempo!

Quanto à informação espiritual sobre a existência de um jovem enviado, com a missão de unir as tribos célticas, e que a vitória dependería dessa união, Douglas a transmitiría na próxima assembléia tribal, a breve tempo.

CAPÍTULO 11

Oportuno, caro leitor, observar que em todos os tempos houve o intercâmbio entre os dois planos da vida, com a atuação dos Emissários Maiores em preparar os caminhos dos homens.

Os dois mundos, o visível e o invisível, sempre se conectaram, e nessa época de fé ardente e pensamento concentrado nos santuários da natureza, a comunhão era mais fácil, mais clara e profunda.

A humanidade estava às vésperas do advento da boa nova. Os luminosos dias da presença do Mestre se dariam em breve. Já naqueles tempos recuados em que se desenrola nossa narrativa, o anúncio dos profetas de que viria o Messias como o salvador do mundo, despertou nas forças do mal o temor de perderem sua influência.

Sob a pressão das sombras, a atmosfera espiritual nos campos terrenos tornava-se irrespirável e uma sensação de angústia dominava os povos. Espesso véu formado pelas tenebrosas manifestações do mal impedia a visão da luz que jorraria do Alto.

Contribuindo para esse panorama espiritual desolador, os ambiciosos romanos invadiram a Gália, e após terem ocupado Lyon, avançaram até Paris.

Os gauleses reagiam com energia, porém não tinham uma unidade, estavam divididos e não ofereciam mais do que precárias resistências locais. Sua coragem, marcada pela imprudência, e seu despreparo para a arte da guerra os colocavam em total desvantagem.

Combatiam em desordem, nus até a cintura, com armas mal preparadas, contra adversários cobertos de ferro, astuciosos e desleais, fortemente disciplinados e armados. Desconsideravam um comando único, atacavam em hordas, onde cada guerreiro tratava de vencer por si só, tornando-se todos presas fáceis das organizadas e eficientes tropas romanas.

E Roma, a gloriosa Roma, dos bravos soldados das vitórias, das belezas e riquezas imensuráveis impunha-se facilmente pela força das armas.

Era mais um território anexado, somado a outros, a atender suas ambições de domínio e poder objetivando sempre interesses particulares, jamais c bem-estar da sociedade.

Os romanos cobiçavam as cidades ricas, exploravam as dissensões e rivalidades das tribos célticas deslocando-se por quase todo o território, impondc obediência a Roma.

Júlio César, o grande líder militar e político romano, materialista e cético, somente acreditava na fortuna. Tudo nele era astúcia e cálculo, uma sede intensa de poder o devorava. Não se pode negar a sua genialidade militar e política, no entanto, marcada por vícios vergonhosos.

Foram essas suas motivações quando dirigiu sua atenção para a Gália, cobiçando as cidades ricas, apossando-se de preciosidades, do ouro gaulês.

Seus exércitos eram ardilosos e traiçoeiros, fortemente disciplinados e bem treinados. Os legionários, divididos em grupos, auxiliados por uma cavalaria audaz, realizavam maravilhas nos campos de batalha, com a capacidade de enfrentar contingentes de forças muito superiores às suas, graças à coesão e às táticas geniais de luta que exercitavam.

A história dos homens já se encontrava repleta desses acontecimentos desde épocas remotas. A contaminação do orgulho e do egoísmo convertia-se num instrumento de ruína e perdição, de tirania e crueldade.

Os mandatários terrenos, como sempre, pretendiam dominar o mundo e escravizar os homens, esquecendo-se de que acima do poder temporal existe um poder eterno, pois a desordem não pode ultrapassar certos limites da Lei que regula o funcionamento harmônico do Universo. Acima dos homens e dos povos, das leis e das instituições humanas, está a vontade de Deus.

Os tempos eram chegados.

Fechar-se-ia um ciclo para abrir-se outro.

Fazia-se, pois, necessário que interviesse a força do amor.

A construção de uma nova era, a da redenção da Terra, já havia sido arquitetada para que os seres despertassem a um novo entendimento e pudessem compreender a mensagem do Cristo, que descería ao planeta para iluminar os corações.

Em todos os recantos da Terra, falanges de espíritos convertidos ao bem se ofereciam para duras batalhas: usando a vestimenta da carne, dariam testemunhos de fé e boa vontade.

Foi assim que no ano de 53 a.C. surgiu um líder gaulês, Vercingétorix, educado pelos druidas, rapaz jovem, de nobres qualidades, que decidiu consagrar-se à salvação de sua nação.

Alto e viril, instruído e amado pelos bardos, tornou-se um deles, com vocação para o comando.

Exprimia-se em versos e empregava em seus discursos atitudes prodigiosas de fé na potência invisível que governa os mundos, sustentado por sua crença na vida futura.

Tinha por regra de conduta o dever; por ideal a grandeza e a liberdade de seu país.

Uma assembléia solene, cujos chefes gauleses foram convocados, teve lugar na floresta sagrada dos Carnutos. Ali, sob as bandeiras das tribos, reuniram-se a ordem dos druidas e os adeptos da crença. Fizeram o juramento de se unirem contra a política de dominação militar dos romanos e proclamaram Vercingétorix o chefe supremo, que tentou introduzir mais ordem e método na organização militar e nos movimentos da armada gaulesa.

Coração nobre, idealizava despertar a pátria para a fraternidade, com uma grande Gália livre e federada. Atribuía ao mundo invisível alguns conhecimentos. Dizia que tinha ao seu redor agentes que o colocavam em relação com o Céu, ao contrário das mentes petrificadas, adormecidas nas falsas concepções da fiterra.

Enviou mensagens aos principais povos célticos, convidando-os a se rebelarem com ordem e a se colocarem sob sua autoridade.

Seus delegados foram eficientes em conquistar a aliança de inúmeras tribos, bem como dos povos que viviam às margens do oceano, na Gália.

Recrutou e organizou soldados, estimulou o patriotismo, disciplinou a fabricação de armas e zelou pela formação da cavalaria.

A partir daí, a armada gaulesa se fortificou.

Enquanto os senhores de Roma desfrutavam os benefícios da riqueza, estendiam-se a miséria e a ignorância do povo.

Onde se registrou tanto horror e ao mesmo tempo tanta beleza? Que força funesta imiscuiu-se nessa sociedade, antes sublimada em sua essência, consumindo-lhe as expectativas mais dignas, pervertendo-lhe os sentimentos mais nobres?

Mesclando-se o bem e o mal, a cultura e a ignorância, as virtudes e os vícios, a luz e as trevas, era uma história manchada de sangue.

Os césares autodenominando-se deuses, em sua maioria foram homens trágicos, reagiam ferozes contra qualquer tentativa de mudança. Legiões de irmãos desencarnados, ignorantes, imantados às sensações inferiores, transitavam por seus santuários, promovendo arruaças, em banhos de sangue.

Roma deixou-se prender por legiões de espíritos agressivos e ambiciosos, assumindo assim, as mais pesadas responsabilidades e os mais penosos débitos, numa época em que o Evangelho chegaria como a mensagem divina do amor.

Novos horizontes abrir-se-iam ao entendimento das criaturas na Terra. Devotados espíritos renasceríam nas sombras da matéria densa, entregar-se-iam ao sacrifício por amor a Deus e à Verdade, a fim de colaborar com o Messias, que estava chegando.

Tal era o contexto histórico na época.

Douglas e seus homens participaram da assembléia tribal, onde contribuíram com as decisões tomadas e muitos foram convocados aos campos de batalha para defender o seu povo.

As tribos da região e das vizinhanças atenderam ao chamado de Vercingétorix. Jovens guerreiros cheios de fé partiram para se juntar a armada gaulesa. Chefes de quase toda a Gália se reuniram, formaram um conselho geral para discutir estratégias e engrossar as tropas gaulesas.

Infelizmente, se por um lado, havia entre eles espíritos nobres, homens devotados pelo bem da Gália, empenhados para que as raízes celtas sobrevivessem, se na Espiritualidade igualmente havia a movimentação de vasta legião da luz, por outro lado, falanges de espíritos ambiciosos, extensos exércitos de adversários da luz movimentavam-se para desviar os mais frágeis.

Muitos deixaram envolver-se por idéias trevosas do mundo inferior, favorecendo os desígnios dos opositores.

Foi assim que Vercingétorix foi traído e entregue aos romanos.

No momento em que Júlio César entrou na Gália, graças à ação dos druidas, preparava-se a resistência. Entretanto, com a queda de Vercingétorix, no ano de 52 a.C., toda a Gália acabou rendendo-se aos invasores.

CAPÍTULO 12

Os anos correram, marcados por muitos acontecimentos.

O dia ia pela metade, estava quente e o vilarejo particularmente ruidoso e agitado pelo retorno de muitos homens dos campos de batalha.

Roma vencera.

Vercingétorix caíra.

As dissensões e rivalidades entre os próprios chefes tribais comprometeram tudo. Muitas baixas ocorreram, dentre elas jovens guerreiros ligados ao núcleo doméstico.
Por todo esse tempo, não houve notícia de Gracie. Distante da família, ela recebeu a notícia de que

Ernesto, ausente há muito, morrera nos campos de batalha.

Ela sentiu-se frágil e insegura. Estava só no mundo! Pensou em retornar ao lar, contudo temia a reação dos familiares, principalmente do pai.

Talvez devesse tomar outro rumo, começar nova vida!

Após dias de hesitação, resolveu regressar. Durante a viagem, angústias nublavam-lhe o ânimo. Seguia silenciosa e aturdida sobre o dorso de um cavalo, de trecho em trecho, lentamente ia vencendo o trajeto. Às vezes, encontrava pessoas generosas que a ajudavam e até permitiam que dormisse em um abrigo, num celeiro ou num estábulo. De outras vezes, passava horas sem alimentar-se. Seu estado de fraqueza era grande. Não notava a presença de Brian, sempre ao seu lado, conduzindo-a de volta ao lar.

Desnorteada, com a cabeça fervilhando, sentia-se mal, arrepios gelados percorriam seu corpo e uma intensa dor de cabeça a acometia. Não atinava também a presença de Ernesto, que não sabia o que havia lhe acontecido e nem a razão de sua mulher, a traidora, estar regressando ao antigo lar. Por que o deixara? Traiçoeira! Infiel!

Dias e noites se passavam. Gracie não era mais sombra do que fora. Encontrava-se agora pelas redondezas, sem coragem de se aproximar da propriedade paterna. Tomava banho nos riachos, dormia ao relento. Estava exausta e faminta. Os pés em chagas.

Seu estado de fraqueza era tão grande que caiu desacordada. Um vizinho, amigo da família, inspirado por Brian, a recolheu. O benevolente homem solicitou a presença de Brigite, que o atendeu com solicitude:

- Gracie está em minha casa, e não se encontra nada bem. Ernesto morreu. Vejo-a nervosa e agitada, por vezes caindo em abstrações e melancolia profunda.

- Gracie fugiu de casa - queixou-se Douglas com expressão ruidosa, aproximando-se -, e não tenho interesse em saber notícias dela.

- Certamente, senhor - disse Brigite dirigindo o olhar ao visitante -, nossa filha deve ter passado por muitas privações e a acolheremos em vosso lar. Somos gratos, muito gratos por tê-la socorrido. Quanto a você, Douglas, não se trata de castigá-la, mas de zelar pela sua saúde. É nossa filha!

- Gracie foi leviana e ingrata!

- Ela errou, sim. Não ignoro que agiu de forma desacertada, mas é nossa filha! Devemos ouvi-la, e você bem sabe, que desde pequena ela sempre requereu cuidados especiais de nossa parte.

Douglas não se sensibilizou, recusando-se a receber a filha para tristeza de Brigite.

Nessa mesma noite, Brian, em espírito, procurou Gwen durante as horas de sono.

- Filha, Gracie traz um desajuste vibratório que favorece fixações perturbadoras. Há densos fluídos provindos de espíritos mal-intencionados que pretendem desestabilizá-la. E há a seu lado Ernesto, recém-desencarnado, a agravar seus males. Peça ao seu pai que não se recuse a ampará-la.

Logo na manhã seguinte, Gwen convidou o pai para breve passeio:

- Papai, estive com vovô. Deixou-lhe um recado. Que perdoe Gracie.

- Recuso-me...!

- Ouça-me: Fui conduzida a uma paragem bem diferente. Vegetação estranha, superfície estarrecedo-ra, havia um agrupamento de criaturas raivosas. Ouvi gritos, blasfêmias, soluços e lágrimas. Ernesto estava lá! Era ele! Eu tenho certeza, papai. E alucinado gritava o nome de Gracie, sem cessar...

- Como assim?

- Ele a chamava insistentemente. Ernesto está ao lado de minha irmã, querendo levá-la com ele.

- Levá-la à morte?

- Foi o que entendi. É possível que esse passeio com vovô tenha sido um alerta. Devemos ampará-la, para que não venhamos a nos arrepender. Gracie é uma alma frágil. Traz inclinações negativas. Melhor tê-la ao nosso lado!

Douglas estendeu o olhar à filha, de cuja ternura sempre recebera os mais doces carinhos, e acenou positivamente. Cederia ao apelo de seu pai.

Já no recinto doméstico, ele comunicou à esposa que iria buscar a filha.

Saborosos quitutes foram preparados para festejar o retorno da filha querida, cuja ausência a todos inundava de saudades e inquietações.

Logo à chegada, abatida, Gracie expôs os fatos aos familiares, relatando os pormenores de sua desventura desde o início, quando fora raptada por Ernesto.

Algumas semanas correram, e a situação doméstica tornou-se penosa. O seu estado de saúde foi se agravando consideravelmente. Suas faculdades mentais estavam muito fracas. Indisposta sempre, não mais se levantava, impondo às irmãs vigílias incessantes.

Dormia pouquíssimo, tinha pesadelos, acordando aos prantos, alimentava-se com extrema dificuldade. Perdia-se em ânsias insensatas, pressionada por uma atuação obsessora. Dominando-a lá estava Ernesto, obcecado por levá-la com ele. Frequentemente, ao entardecer, começavam os tremores; o corpo se dobrava, a cabeça tocava os pés... Triste figura.

Em tarde silenciosa e calma, Gwen encontrava-se no santuário de pedras, quando Brian apresentou-se com o semblante sereno de sempre:

- Filha, Gracie se acha sob a influência perigosa de Ernesto. Temos tentado atuar junto dele, mas nem ao menos percebe nossa presença. Teimoso e com tendências menos dignas, ele poderá resistir por muito tempo. Na medida do possível, tentem evocá-lo, moralizem-no com habilidade, que nós auxiliaremos vocês.

- Pobre criatura! Pobre Gracie! Quanto sofrimento, vovô!

- Sim! Permanece na mesma atmosfera sombria a que se habituou. São regiões que se avizinham à Terra, de atmosfera pestilenta que reflete o sentimento dos que lá vivem. Ernesto, atormentado, vive apegado às lembranças de seus vícios e desatinos, envolvido por paixões e futilidades terrestres.

- Mas o que fazer? Oriente-nos.

- Gracie deve perdoá-lo, pelo bem dela mesma. Ao se libertar, futuramente poderá nos ajudar a assistir essa alma flagelada. Ele terá que aceitar que se desprendeu do corpo material, deixando-a em paz. Quanto a vocês, se tiverem fé e amor no coração, poderão saírem-se vitoriosos. Orem! Estarei a postos, minha filha.

A imagem foi se desfazendo e se esvaneceu no espaço.

Ao anoitecer, a família reuniu-se para o culto doméstico seguindo as instruções de Brian. Gracie estendida no leito, retorcia-se. Sentia-se doente, abatida. Voz melancólica. Tentativas de deixar o leito, ensaios inúteis! Era como se alguém a estivesse acorrentado à cama. Em seu íntimo, tentava coordenar as idéias. Em vão! Sentia-se morrer. Enquanto se debulhava em lágrimas, a sinistra ideia da morte voltou a envolver seus pensamentos já atormentados.

Não era preferível morrer? - ideia que tomava vulto em sua mente inquieta.

Gwen notou a presença de Ernesto.

A princípio, viu-o de modo indefinido. Aos poucos pôde reconhecê-lo. Alertada, a família uniu-se em oração, em torno do leito, tentando conversar mentalmente com ele. Presente também estava o professor Marven.

Súbito, Ernesto manifestou-se por intermédio de Gwen. Violento, injuriou os presentes. Amparado por entidades protetoras, Douglas tentou o diálogo:

- O que deseja de minha filha, Ernesto?

Ele riu de forma debochada e, voltando-se para a enferma, passou a torturá-la mais duramente. Os familiares assustados viram a cena corriqueira repetir-se, porém, desta vez, a crise se deu de forma mais violenta e duradoura do que nos dias precedentes. Brigite desesperou-se, inconformada pelo penoso estado em que via a filha.

Brian, por intermédio de Gwen, recomendou que não o evocassem mais durante as crises de Gracie. Contudo que realizassem as reuniões todos os dias, associando-se em prece aos amigos espirituais, unindo esforços para libertá-la.

O núcleo doméstico procedeu seguindo as orientações do benfeitor espiritual familiar. Não obstante, tudo a atormentava e transformara o seu coração em fonte de pranto inestancável. Tremia, chorava, se retorcia, aniquilava-se no leito. Aturdida, reconhecia-se singularmente influenciada, incapaz de resistir à pressão da entidade que se instalara.

As palestras, as preces e reflexões diárias sobre a vida espiritual renovavam as forças psíquicas dos familiares que diariamente vibravam por Ernesto. Mas ele se detinha em reminiscências de situações tormentosas, na ideia de resgatar a amada e mantê-la ao seu lado. E ela, por sua vez, perdendo o poder de resistência, entregava-se aos pesadelos que a atormentavam.

Brian mantinha-se em vigília, aconchegando-a como fazia outrora. De mansinho, vibrava em pensamento:

- Dorme, Gracie, dorme, minha pequena. Estou aqui, ao seu lado. Dorme...

Era o que a acalmava, proporcionando-lhe algumas horas de repouso.

Numa das reuniões de ajuda a Gracie, Ernesto parecia mais calmo, manifestando-se por intermédio de Gwen.

- Ernesto, meu filho, meu irmão! - disse Douglas -, por piedade, perdoe-me se o ofendi. Contempla o meu coração de pai, que ficou despedaçado pelas mais duras provas, meu nome desonrado. Se, porém sentir que tal acervo de sofrimentos não bastará para me desculpar aos seus olhos, de qualquer dúvida que ainda conserve quanto à minha conduta, faça que sobre mim pesem as maiores e mais ardentes represálias, mas livre a minha filha. A tudo, eu me curvarei resignado, na esperança de um dia merecer a sua complacência, mas perdoe Gracie se ela lhe fez algum mal. Modere os seus ataques ou ela não aguentará! Eu imploro...

- Devo dizer - prosseguiu Ermesto -, que estou disposto a mudar, não por vocês, mas por uma figura radiosa que tem aparecido durante os momentos de combate; estando aí agora, de novo, junto a vocês...

Sabe quem é?

- Não, só sei que é iluminada e eu me envergonho em sua presença.

- Com certeza ela não deseja que se envergonhe, meu filho. Continue vindo até nós, continuaremos as orações noturnas em seu beneficio.

E como uma criança, em voz baixa, o espírito sofredor confessou:

- Pois bem, pois bem... A prece! Senti o amor, a comoção, o desespero familiar. E, já saturado pelo meu próprio desespero, foi aqui que vi, pela primeira vez, destacar-se da escuridão em que eu me encontro essa figura terna e doce, trazendo-me uma palavra de coragem e reconforto.

Após o transe, indivisível emoção envolveu Gwen, pousando nos familiares os olhos marejados de lágrimas, e com um reconfortante sorriso informou:

- Ernesto melhorou sensivelmente. Vovô está aqui conosco. Está feliz, noticiando que essa obsessão chegou ao fim. Ressalta que nos resta continuar agindo sobre Gracie. Não há mais perigo, contudo, o nosso trabalho não está acabado.

- Ernesto reconheceu que a vingança é a pior tortura para quem a exerce. Pede humildemente que Gracie o perdoe dos desatinos. Está se despedindo, seguirá agora com outros espíritos amigos que o aguardam, mas deseja ele mesmo dizer-lhes algo.

Gwen se preparou para que ele pudesse se acomodar à sua sensibilidade psíquica. E assim foi feito!

Obrigado, só tenho a agradecer-lhes - disse em tom humilde ainda há poucos dias sentia o prazer do revide. Atolei-me na crueldade. Não poderia supor a realidade! Levaram-me a ver o meu passado e só vi crimes, atos libidinosos dos quais eu me envergonho. Longe de evitar o mal, eu me associei a bandos em regiões tenebrosas. Orem por eles, espíritos tão miseráveis quanto eu, que me perseguem, pois agora escapo de suas mãos, graças a uma deusa que lançou o olhar sobre mim e com suavidade me ofereceu ajuda. Caí de joelhos... Senti-me enternecido... Quase não pude acreditar! Recebi amor daquelas mãos, e agora compreendo o valor do arrependimento, tal a felicidade que experimentei com o perdão. Foi como se uma pequena chama acendesse em meu coração.

- Filho - disse Douglas -, uma pequena chama que aquece é melhor que um grande incêndio que queima. Só o tempo dará conta de decifrar nossas histórias. Perdoe-me também se um dia não o recebi bem em minha casa, se não o aceitei. Tenha fé, e siga em paz para as perspectivas luminosas do futuro.
Em poucos dias Gracie não mais teve crises, apenas algum mal-estar. Ernesto a libertara, não agindo mais sobre ela. Alguns dias depois, Brian aproximou-se de Gwen noticiando que Ernesto estava bem, recomendando-lhe bom ânimo, a conservação da fortaleza mental, e, sobretudo, falou-lhe de maneira significativa:

- Filha, a luta faz parte de nosso aprendizado, tanto no plano físico quanto no psíquico. Graças ao esforço, o ser aumenta as suas resistências e reforça as suas defesas, cria novas aptidões e adestra as suas capacidades, elege os valores e assimila os resultados de suas experiências. É chegado o momento em que você e suas irmãs terão rumos diversos, cada qual seguirá o próprio caminho, a fim de movimentarem-se no esforço digno dos sagrados objetivos da vida.

Após breve pausa prosseguiu:

- Achamo-nos num mundo envolvido em trevas, e o mundo novo a ser construído pela edificação moral requer espíritos decididos a executar planos de ação alicerçados pela Espiritualidade. O serviço é uma das maiores bênçãos que o Criador nos legou. Em suas dádivas de realização para o bem, o ignorante aprende, o enfermo se cura, o triste se alegra, o criminoso se regenera. Nas responsabilidades individuais haverá desafios que exigirão de cada uma a firmeza para que as forças do mal não encontrem espaço também em vocês. Cada setor de atividade, cada paragem, representa um campo vasto de serviço junto de irmãos necessitados.

- Sim, vovô. Mas, o que o senhor quis dizer quanto a cada qual seguirá um caminho?

- Em breve, entenderá o recado. Norah seguirá por uma trilha... Ágata por outra... Cada qual terá o Livre-arbítrio em seu favor. Quanto a você, não deixe de semear a doutrina aqui em sua ilha, semente essa que caindo em terra fecunda, há de frutificar. E olhe por Gracie. Proteja-a! Resguarde-a!

Por disposições maravilhosas do Espírito, as palavras do avô vibraram na intimidade de Gwen que transmitiu o recado espiritual ao núcleo, ainda que sem entendê-lo inteiramente.

Uma semana sucedeu-se, após as notícias espirituais.

Realizou-se um conselho no povoado para tratar de assuntos urgentes. Iferras vizinhas estavam sendo ameaçadas, invadidas, e muitos foram convocados para contribuir.

Douglas conversou com Sales, o genro, e Norah, a filha, que acompanharam com atenção os argumentos, em respeitoso silêncio, na tentativa de fazê-los assumir o compromisso de transferir-se para outra região. Hesitaram de início, todavia acabaram aceitando a necessidade de partirem de imediato.

Sucederam-se os dias e com eles, as providências. Além do casal, alguns vizinhos e amigos preparavam-se também para partir. A conversação entre os familiares desdobrava-se em torno das realizações futuras. E no curso de poucas semanas todas as deliberações estavam ajustadas.

No dia aprazado, o casal despediu-se com palavras reconfortantes, deixando-os na consoladora certeza de que lhes seria possível fazer algo útil ao povoado necessitado.

A chegada de nossos personagens em Meath ocorreu sem maiores incidentes. Sales conduziu a pequena caravana com segurança. Thdo se desenvolveu dentro das providências e decisões traçadas. Velhas habitações ofereceram-lhes, efetivamente, refúgio seguro. A maioria mantinha-se em expectação aflitiva, considerando que haviam deixado a paisagem que os viram nascer, contudo cada qual trabalhava por demonstrar ânimo e coragem.

Fortemente impressionados com os quadros do infortúnio e da velada pobreza, entenderam a advertência da Espiritualidade. A adaptação da pequena comunidade não apresentou dificuldades apreciáveis. As portas amigas se lhes abriram com facilidade surpreendente, cooperavam com as mínimas dificuldades, proporcionando-lhes recursos justos.

Iniciaram as primeiras culturas. Ao fim de pouco tempo, no vilarejo, o serviço estava implantado. Sales e Norah não cabiam em si de satisfeitos, e apesar das saudades do lar paterno, faziam o possível para reproduzir e conservar as pequenas coisas da antiga propriedade rural de onde vieram.

Movimentavam iniciativas, não apenas no interior doméstico, mas igualmente na divisão das pastagens, na localização das lavouras, nos aviários, estábulos e currais. Cheios de energia, os jovens imigrantes operavam uma apropriada revolução agrária, de forma que orientavam os antigos colonos na transformação benéfica dos patrimônios da natureza.

Em conjunto, iniciou-se a construção das casas próprias e novo ciclo de vida. Norah principiou o serviço que tão bem aprendera com o seu avô, distribuindo consolo e esperança entre as almas entristecidas pelo sofrimento. Viam-na assim, visitando as aldeias próximas e lugarejos mais pobres à procura de enfermos do corpo e do espírito, a fim de lhes suavizar as amarguras com as ervas curativas e as solicitude s da Espiritualidade superior.

Rodeavam-na os pobres, os idosos, as crianças, humildes mulheres, objetivando aprender hábitos simples, como por exemplo, a higiene do corpo. Então, transmitia-lhes o ensinamento druídico, apresentando--lhes um mundo novo a conquistar. A par disso, eis que se formou uma grande família entre os moradores de Meath. Produziram, além do necessário para o próprio equilíbrio, colheitas abundantes que explodiam no seio da terra cultivada, como se o Criador quisesse premiá-los pela dedicação ao trabalho e ao bem que estendiam aos que nada tinham, pois ainda, além de se abastecerem, estendiam recursos a regiões vizinhas.

CAPÍTULO 13

Era no início de maio o Bealtaine, festival da fertilidade, em que os druidas realizavam a grande assembléia.

Douglas, sua família e alguns amigos seguiram viagem para Uismech, perto de Rathconrath, no condado de Westmeath, onde se realizava a comemoração.

Norah e Sales, que agora residiam nas imediações, foram ao encontro dos familiares.

Nesse centro cósmico os druidas faziam seus conclaves.

Grandes fogueiras marcavam o tempo de purificação e transição, anunciando a estação, na esperança de uma boa colheita no final do ano, acompanhadas com rituais para proteger as pessoas de qualquer dano por espíritos maus.

De todos os festivais do ano celta, o Samhain e o Bealtaine eram especiais. No Samhain o inverno começava e no Bealtaine começava o verão. No transCurso deles, segundo os preceitos celtas, os espíritos saíam para perambular, os mortos se misturavam com os vivos.

Por toda a paisagem estendiam-se pequenos grupos, cavalos, rebanhos, carroças, pessoas... Festa marcada por alegria, danças, banquete e principalmente as fogueiras acesas nos topos dos montes.

O calor era intenso. Para que se alcançasse uma boa colheita, as pessoas queimavam oferendas com a intenção de que o poder do fogo fosse passado ao rebanho, e pulavam as fogueiras para que se beneficiassem daquela energia poderosa. Havia uma vasta fila de gado. Os bois tinham sido mantidos no curral durante a noite e agora iam sendo conduzidos em direção às fogueiras. Em vez de trazer rebanhos inteiros, normalmente o fazendeiro trazia o seu melhor animal como representante dos demais para receber a purificação.

Na ocasião dos rituais sagrados, os druidas vestiam capas de penas, pois a plumagem de aves era o traje mais exuberante da natureza, sugerindo que o homem poderia voar. Enquanto o animal era conduzido pelo meio das fogueiras purificadoras, eles os molhavam com água em sagradas cerimônias que deveríam garantir a saúde do importantíssimo rebanho do próximo ano.

A festa oficial começara no final da tarde estendendo-se à noite. Havia um amplo salão improvisado para o banquete regado a hidromel e cerveja clara, marcado pelo aroma das frutas e das carnes assadas. Espalhavam-se mesas de cavaletes e bancos para centenas de pessoas. Gaitistas de foles, harpistas, dançarinas e bardos mostravam sua arte. Os grandes chefes e druidas, mantenedores da lei, e os guerreiros mais nobres, estavam presentes.

No momento, Norah auxiliava o esposo e o pai.

Gracie, Gwen e Ágata, que se aproximavam, sentiram sobre elas o olhar de alguns homens desconhecidos. Foram abordadas em especial por um rapaz de pele amorenada pelo sol, de aspecto solene, demonstrando ser o chefe do grupo:

- Peço licença para aproximar-me. Surpreende-me ver tão belas jovens desacompanhadas!

- Ora, senhor! Por que a surpresa se nós somos parte da festa de Bealtaine? - respondeu Gwen, buscando desviar-se do rapaz.

Ele as examinou atentamente. Seu nome era Afonso, um jovem alto e forte, pertencente à rica e conceituada família romana. Era famoso por suas conquistas amorosas e temido por seu caráter leviano e inconsequente.

Fixou o olhar em Ágata. Fora informado de que no núcleo havia sensitivos que desenvolviam trabalhos de cura gratuitos, prática condenada pela medicina oficial, mais preocupada com o dinheiro do que com os doentes. Aproximou-se:

- Vocês são as filhas de Douglas, de Dublin?

- Sim!

- Sou Afonso, filho de Cícero, de Roma. Desejo uma audiência com o seu pai. Recebemos queixas de médicos. A família e adeptos estão sendo acusados de praticarem a magia e feitiçaria.

- Isto é mentira! - respondeu Gwen - Provavelmente quem falou a respeito não sabe o que diz!

- Deveria tomar cuidado com suas palavras, senhorita ou senhora... É bem atrevida... Aliás, como devo chamá-la?

- Senhora Gwen, casada com Ryan, de Dublin, que neste momento toma providências para a celebração. Mas, deixe-me entender: vieram até nosso pacato modc de vida, por que estão preocupados com o testemunho de médicos? Ora, senhor... É bem difícil de acreditar! Não nos subestime, seja direto, senhor. Qual o seu real interesse? Nossas riquezas? Nossas terras? Nosso povo?

- Uma queixa em particular aconteceu sobre um rico comerciante romano que sofria de uma doença incurável. Os médicos não haviam dado três meses de vida. Seu nome é Caio.

- Ah, sim! Houve em nossa moradia a visita de um senhor romano com esse nome. Seu estado era deplorável, sabíamos que nada poderiamos fazer. Demos uma poção somente para aliviar-lhe a dor. Fizemos orações. Ele regressou às terras de origem. Isso faz alguns meses, já deve estar morto o pobre...

- Pois, contrariando a opinião de todos os médicos, ele não morreu! Graças ao tratamento recebido em suas terras, recuperou-se, está vivo e com saúde.

- Por certo, os médicos erraram, e nós também erramos ao avaliá-lo. Tálvez fossem só feridas superficiais, não houvesse nada grave e se restabeleceu. Foi só! A doença dele era incurável, a cura se deu por efeito de alguma magia.

- Isso é conversa desses médicos que buscam a cura das doenças sem procurar conhecer suas causas e significado. São ressentidos com a nossa cultura, senhor.

- E por que meio estas curas se operam?

- Através de leis naturais.

- A senhora citou causas... E o que seria?

- A moléstia do corpo tem sua causa no espírito.

- Já ouvi coisas sem sentido, mas essa foi a pior.

- É certo que a saúde, tanto física como mental, depende de uma comunhão com a natureza e sóbrios hábitos de vida. Empregamos remédios naturais visando ao reequilíbrio e à harmonização da energia do corpo físico. Utilizamo-nos de plantas como macieiras, verbenas, e principalmente o visco - sagrado para nós e também denominado "o ramo dourado”. Aprendemos que a moléstia provém de nossos vícios morais. O desequilíbrio antes de se estabelecer em nosso corpo material atinge a essência espiritual.

- Segundo as denúncias sobre magia, julgamos que tais procedimentos ocasionam verdadeira ameaça à ordem pública e ao poder constituído. Por que não dizem a verdade? O que usam, de fato, para realizarem as curas? Que tipo de sortilégio?

- Buscamos extrair do vegetal a essência para ministrar ao enfermo, com o fim de adicionar forças positivas ao corpo físico. Além do fogo, água, terra e ar, nós conhecemos o quinto elemento, o Guivre que é potencial oculto de todas as forças da natureza, que emana da luz divina. É a energia vital que desperta e regenera, é o veículo de interação entre o Criador e a Criação.

- Os testemunhos foram fiéis. O seu núcleo utiliza-se de magia! Disseram que veem nas águas das fontes as respostas das perguntas que lhe fazem.

- Pois saiba, senhor, que não respondemos a perguntas que visam à cobiça, à busca de tesouros, às especulações aventureiras ou à realização de um desígnio mau. Se nos ocupássemos desses fins, Oiw nos retiraria a visão!

- Pois bem, houve um relato a respeito de uma jovem romana que foi raptada. Os familiares foram até vocês, que não os conheciam nem de vista, nem de nome. Narraram que vocês viram na fonte que a jovem estava viva, descreveram a situação, sem, contudo precisar a localização. Entretanto, indicaram o caminho em que ela se encontrava. Eles acharam-na! O que me diz? O que há de misterioso nessa fonte? Vai negar que a fonte aponta caminhos? E cura, enfermos?

- Infelizmente, nossa fama se espalhou à revelia de nossos desejos, por meio das curas, indevidamente consideradas como magia. É preciso saber que esses dons são naturais e constituem sublime oportunidade de trabalho em prol de semelhantes, sempre e unicamente orientado para o bem. Quanto à fonte, ela não deixa de ser um meio de fixar as nossas atenções; não são os nossos olhos físicos que veem, são os olhos da alma.

- Os nossos sacerdotes, os conselheiros espirituais de nossas tribunas, têm nos falado a respeito de acontecimentos futuros. O que vocês preveem para Roma?

- Não há meio certo de conhecer o futuro que é oculto ao homem. Mas, qualquer um pode perceber que deveriam afastar os propósitos religiosos dos conchavos políticos, cujas ações têm consistido em enriquecer a grandeza material e a pobreza espiritual.

- Então nos afrontam! E recusam-se a nos orientar? É isso?

- Estamos sendo procurados por poderosos que estão vendo, em nós, meios que lhes permitiría consolidar ambições e satisfazer paixões, procurando-nos com sombrias intenções. Saiba, porém, que nos recusamos a negociar os dons, ainda que nosso núcleo esteja sendo ameaçado. Não somos livres para utilizá-los à vontade.

- Não lhe interessa ao menos ouvir a nossa proposta?

- Jamais prostituiremos a nossa crença, que é o que temos de mais sagrado.

- Devo crer, de fato, que as imagens não estão na fonte? Que seria inútil nos apossar daquele pedaço de terra?

- Deve crer que as imagens se formam na visão de nossa alma, a fonte oferece para nós o reflexo dessas imagens. Por vezes, elas se fixam em nossa mente, embora estejamos com os olhos fechados. Aquilo que parece sobrenatural é parte de leis naturais desconhecidas. Quanto à fonte, a sua virtude é oferecer água cristalina ao asseio de todos, principalmente às crianças que lavam seus rostos e mãos, evitando doenças. Portanto, não adiantaria erigir um templo naquele lugar. Mas, há algo que pressinto, e devo lhe dizer... O senhor deseja escutar?

- Pois, não estou aqui? Fale!

- Uma preciosa chance se dará em sua vida. Siga o seu coração.

- Não a entendo. Fala em códigos. Seja clara!

- O destino está cheio de enigmas misteriosos, senhor. Dê-nos licença, agora. Douglas, nosso pai, está à nossa espera.

Afonso pousou os olhos em Ágata. Estranha sensação voltou a envolvê-lo, surpreendeu-se. A jovem timidamente baixou os olhos, e saiu em disparada, deixando-os. Estava a mercê de leves reminiscências extraídas dos arquivos de um passado distante. As outras duas irmãs despediram-se rapidamente, em parte aliviadas por se livrarem daqueles homens estranhos, ainda que não alcançassem Ágata.

Afonso não permaneceu nos rituais. Acomodou-se num acampamento próximo, sem conseguir esquecer a imagem da jovem irlandesa.

Seguiram-se os dias, e com eles o fim do festiva'.

Tódos haviam retornado às suas moradias. Afonso e seus homens instalaram-se em Dublin.

Dias depois, Sheila retornava à sua casa, olhos enevoados pelo pranto e pela chuva.

Reprimia com dificuldade o ciúme e a revolta que torturavam seu coração. O homem a quem se entregara com paixão virara-lhe as costas covardemente. Casara com outra! Coração inquieto, hostilizada por Ryan em suas pretensões, insatisfeita, não se conformava por ninguém compreender suas amarguras, que não eram secretas.

Seus pais, espíritos eminentemente conciliadores, tentavam fazê-la enxergar a necessidade de retificar suas inclinações afetuosas, superando a mágoa que lhe empolgava a alma caprichosa. Em vão! E as trevas agiam.

Sheila, casualmente, foi apresentada a Afonso, que desde o primeiro contato, demonstrou interesse em se aproximar do núcleo de Douglas.

Ele e seus comandados hospedaram-se em uma taverna próxima ao vilarejo. A primeira impressão a respeito de Sheila foi de uma moça fina e delicada, além de muito bela, cordata e gentil. Especialmente por aqueles dias, seus pais estavam ausentes, em viagem.

Percebendo o interesse de Afonso pela família de Douglas, Sheila procurou tirar proveito. No dia imediato, enviou-lhe um mensageiro, oferecendo-lhe ajuda para um contato. Desfrutava a simpatia da família e poderia aproximá-lo. Estaria à sua espera em sua casa para tratarem do assunto.

Animado, à hora aprazada o rapaz dirigiu-se a moradia atendendo-lhe a gentil solicitação. A casa estava toda fechada. O visitante bateu na porta. Ela abriu, o rapaz entrou e analisou a sala, admirado com o bom gosto da decoração.

- Devo confessar que não esperava o convite. Além de encantadora, a senhorita é muito educada.

Sheila deu um sorriso malicioso e foi apanhar duas taças de vinho, servindo o visitante e postando-se ao seu lado. Ele, então, comentou com a anfitriã de seu interesse em se aproximar do núcleo para tirar suas próprias conclusões sobre as curas. Afinal, fora para isso que viera! Não queria admitir nem para si mesmo, que se sentia tocado por algo diferente, desde que vira Ágata. Algo mais, além da beleza e graça, do rosto exótico, da boca vermelha como romãs, o atraía, não se dando conta da profunda impressão causada nele.

Sheila pensava diferente. O rapaz era atraente e de posses. Poderia conquistá-lo.

- Não me parece que você é o tipo de homem que se preocupa com curas...

- Devo confessar que fiquei impressionado com as histórias que me contaram, além de uma jovem que conheci: Ágata é o seu nome!

Sheila deu um sorriso contrariado. Tinha em mente algo especial. Mostrava-se sedutora, prestativa, interessada. Voltou para ele, os olhos brilhantes. O rapaz, agora sentiu estranha sensação. Nem percebia que sombras haviam se colado a ele, inspirando-lhe pensamentos lascivos. Foi sendo invadido por um desejo incontrolável e, em poucos instantes, já estava excitado aos extremos. Sentindo a proximidade do corpo dela, soltou a taça sobre a mesa.

- Senhorita Sheila... Creio que devo ir!

- Sheila... Para você, sou apenas Sheila.

Afonso não resistiu. Dominado pelo desejo,

tomou-a nos braços, beijou-a ardentemente. Ela correspondeu-lhe aos beijos, fazendo-lhe carícias nunca antes conhecidas. Em poucos minutos estavam no quarto. Entregaram-se loucamente, e Afonso, homem experiente, chegou a se assustar com algumas práticas adotadas pela bela moça. Perplexo, encantou-se! Aquela mulher não tinha pudor algum, e apesar do receio que lhe causava, dava-lhe também imenso prazer. O visitante somente deixou a casa após muitas horas. Depois que ele se foi, ela desatou a rir, pois o rapaz não oferecera resistência alguma. Fora mais fácil do que imaginara! Naquela noite, tentara ganhar a confiança para só então dar andamento ao seu plano. Ela detestava as filhas de Douglas, especialmente Gwen, que lhe arrebatara o sonho de juventude. Agora seria a sua vez! Jamais deixaria um rapaz como aquele aproximar-se delas! E poderia fazer dele um instrumento para sua vingança.

Na noite seguinte Afonso recebe outro convite. E comparece. Logo à chegada, Sheila pegou as canecas de vinho:

- Muito bom esse vinho... Mas, serei direto! Disse-me que te ria facilidade de me aproximar do núcleo...

- Não foi para falar de vinho ou de sua missão que o convidei para vir aqui. Pensei que tivéssemos dispensado as formalidades - disse-lhe sedutora -, já não somos íntimos, meu querido?

Sheila, espere, vamos conversar...

Sem que ele tivesse tempo de terminar a frase, ela se levantou de onde estava e se abaixou provocativamente bem perto dele. Súbito, Afonso começou a sentir que o seu desejo por ela o dominava e sorriu sem jeito.

- Por que não vamos para o meu quarto - disse-lhe insinuante -, e eu explico a você como farei para aproximá-lo do núcleo.

- Sheila, eu preciso retornar a Roma - disse-lhe tentando resistir -, todavia não antes de conhecer esta família. Vamos ao que interessa! O que tem em mente?

Sem lhe dar tempo de prosseguir, Sheila com suavidade o beijou. Ele, sem mais resistir, foi se levantando vagarosamente e a abraçou apertando seu corpo ao dela, que correspondia! Caminharam até o quarto de Sheila, cumprindo o que ela planejara. Quanto mais cedo ele se prendesse a ela melhor seria! - pensou Sheila. Assim, dando continuidade ao seu plano, os encontros entre os dois foram ficando mais frequentes.

Por aqueles dias, Afonso arriscou uma aproximação do núcleo de Douglas, que se negou a recebê-lo.

Gwen informara ao pai que ela e suas irmãs haviam sido abordadas no festival de Bealtaine pelo mesmo rapaz romano, com acusações de feitiçaria e dizendo-se interessado na posse das terras em função da fonte. Disse-lhe também que teve um pressentimento, e que Ágata estava esquisita desde o episódio.

Afonso sentia atração por Sheila, mas desde que conhecera Ágata, fixara o pensamento nela.

Douglas decidiu que o melhor seria recebê-lo. Logo ao chegar, o visitante deparou-se com Ágata. Era a primeira vez que os dois ficavam tão próximos. Empolgou-se. Jamais vira mulher tão bela, cabelos brilhantes, sedosos como cetim e louros avermelhados como os trigais maduros, olhos claros, pele aveludada, lábios delicados, face rosada. Parecia uma deusa!

De imediato, não teve dúvida e propôs um acordo com o anfitrião. Desejava casar-se com Ágata, levá--la com ele. Desistiría de invadir a região, que preservara até então dos confrontos, se sua proposta fosse aceita. Esquecería a fonte!

Douglas quis revidar, proclamar que semelhante proposta o ofendia, entretanto dissimulou a cólera e calou-se, pois o assunto pedia cautela. O jugo romano acentuava-se, estendendo-se por todas as regiões. Pediu tempo para pensar.

Na tarde do dia seguinte, enquanto as filhas realizavam suas tarefas rotineiras, Douglas foi abordado por Ágata.

- Eu ouvi tudo, meu pai! - exclamou em lágrimas.

- Tudo o quê?

- As negociações sobre o meu futuro!

- Por que esse pranto? Deve saber que a decisão será sua e de ninguém mais! Tenha calma, minha filha.

- E por que o senhor não recusou de pronto? Esse consórcio seria um absurdo! - disse a jovem exaltada, que ao mesmo tempo recordava as orientações espirituais do avô sobre cada uma seguir o próprio caminho.

Sem mais, pediu licença ao pai e retirou-se. Com as idéias em torvelinho, atravessou o jardim, e seguiu às pressas, margeando o rio. As lágrimas molhavam seu rosto, ao passo que imensa revolta agitava-lhe os sentimentos. Casar-se com um romano!

No entanto... como poderia dizer ao pai que ao ficar à frente dele, sentira o coração aos saltos! O seu olhar continuava atordoando-lhe a mente. Sentia o calor de sua presença. A emoção daquele momento ficaria para sempre gravada em seu íntimo.

Jamais pensaria em ligar-se a um romano, porém e se em represaria o povoado fosse dominado?

A ideia era tão dolorosa que ela mal conseguia suportá-la! Caminhava sem rumo, pensamento confuso e agitado! Em dado momento, sentou-se com as costas apoiadas em enorme pedra.

- Que faço?... Que faço?... - questionava-se, angustiada.

- Desanuvia a mente, minha filha! - ouviu nitidamente o avô a confortá-la.

- Ah, vovô... Vovô...! Como o senhor nos faz falta! O que devo fazer? O coração diz que devo aceitar, mas a razão o repele!

- A escolha será sua! Mas, acredite, a decisão jorrará de sua própria consciência, considerando que optou por esse caminho há muito tempo, ainda antes de seu nascimento. Os romanos não são maus, como julga! Apenas ignorantes, almas infantis, necessitadas de educação e amor, minha filha. Hão de evoluir, como todos nós. Deverão aprender que no amor é que se encontra a sabedoria da vida. Você poderá elucidá-los sobre a grandeza do Criador, sobre os ensinamentos de nossa Doutrina.

- Sinto-me confusa até certo ponto, mas, por outro lado, é como se o conhecesse há muito.

- Uma vez renascidos, a memória sobre fatos acertados na Espiritualidade é bloqueada. Ninguém lhe trará a resposta que procura, pois ela está em seu íntimo. Busque-a!

A jovem sentiu como se a voz de Brian lhe falasse no fundo de sua alma. Diante de suas manifestações carinhosas, pareceu renovar o coração, expulsando para longe a insegurança. Enxugou as lágrimas e regressou serena à casa, guardando as últimas palavras do avô:

- Filha, seja qual for a sua decisão, eu não a abandonarei!

As angústias se desfizeram. Além de suas emoções íntimas, não desejava trazer qualquer prejuízo ao seu povo. Não tinha o direito de expor ao perigo a vida de tanta gente!

Sobretudo, algo maior emergira do fundo de sua alma, leve impressão de experiências entre ela e o pretendente, em outros tempos. Assim sentia.

Afonso descendia de família nobre, homem dotado de força corporal e de personalidade forte, todavia de caráter um tanto libertino.

Era dissimulado, mas, encantara-se com a jovem irlandesa! Contrariando, pois, os desejos seus e dos familiares em contrair matrimônio com rica patrícia romana, deixou que o coração falasse mais alto e com o consentimento de Ágata e de seu pai, a cerimônia matrimonial aconteceu em poucos dias.

Em pouquíssimo tempo todas as deliberações foram assentadas. E viu-se a jovem trajada com simplicidade, delicada, voz suave, bem distante dos costumes e da aparência de patrícias romanas, a caminho da cidade imperial, ao lado de seu esposo, pronta a cumprir seu destino.

CAPÍTULO 14

Após longa e exaustiva viagem, Ágata e Afonso chegaram a Roma. Ele montava um garanhão da Idu-meia, dominando-o com maestria. Cavalgava à frente, impoluto, guardando a aparência de um deus.

Muito antes de entrarem na cidade pela Porta Asi-naria, já podiam observar a brancura, o bronze e o ouro, nas famosas sete colinas, sob o céu de azul-turquesa.

Lá estava a poderosa cidade imperial, imensa, esplendorosa, habitada não só por romanos, mas por homens de muitas nações e diversas línguas. Cidade majestosa, senhora do mundo, porém violenta e libertina.

Nuvens de andorinhas voejavam sobre a cidade. Barulhentas confundiam-se com o burburinho sustentado por germanos, árabes, gauleses, bretões, egípcios e núbios, um turbilhão de etnias, de línguas e costumes, artes e filosobas, a par de intermináveis intrigas e conspirações.

O sol brilhava nas colunas resplandecentes e dourava os templos brilhantes. Toda a riqueza do mundo concentrava-se ali.

A estrada pavimentada de pedra mantinha-se apinhada de cavalos, bigas, carretas, carroças carregadas de grande diversidade de mercadorias e produtos. Um aqueduto corria paralelamente, campos de flores ondulavam as margens. A estrada turbulenta fazia passagem pelas vilas brancas, instaladas em jardins, pastagens cheias de gado, grupos de escravos erguendo novas paredes ou consertando as antigas.

A cidade estava em festa. O povo homenageava Cibele e seu templo transbordava de gente. Os romanos sempre festivos, constantemente celebravam os deuses nativos ou estrangeiros.

Thdo era justificativa para um feriado, para sacrifícios, para celebrações nos circos, nos teatros e nos inumeráveis banhos públicos.

Templos evidenciavam-se por toda parte, com suas portas de bronze. Colunas altas destacavam-se. Dois circos estavam anunciando corridas de bigas e combates entre gladiadores. Escravos fluíam, anunciavam as atrações, destacando que algumas das melhores e mais lascivas peças gregas seriam representadas em certos teatros.

Multidões dirigiam-se aos locais dessas festividades. A poeira amarelada espessava-se, derramando-se como névoa reluzente sobre os transeuntes.

Quanto mais se aproximavam da moradia doméstica, mais a curiosidade crescia em Ágata. A jovem irlandesa despertara no esposo uma infinidade de sentimentos, que nem ele mesmo conseguia definir. Sentia uma grande vontade de protegê-la, estar com ela para sempre, beijá-la, abraçá-la fortemente.

Afonso e sua escolta começaram a subir, faltava pouquíssimo tempo para chegarem ao palacete. Durante o trajeto os portões das vilas iam ficando para trás, repletos de jardins, arcos brancos, pórticos apinhados de estátuas de deuses e heróis montados. Nunca em todo canto do mundo a divindade fora tão majestosa e arrogantemente exposta.

A cidade era vazia de fé - considerou Ágata, intimamente, com tristeza.

Avistou o Tibre, verde e denso, as pontes entalhadas, e os edifícios que vinham até as margens, e os telhados alvos e rosados que cintilavam impetuosamente ao sol.

Adiante, uma cúpula dourada cintilava entre platibandas pontudas, como luzes menores. A recém-casada estava atônita. Em suas terras, na ilha esmeralda, o sol no horizonte incendiava a paragem verde com seus carvalhos, as aveleiras, os freixos, reinando a natureza, a serenidade. Eis que ali, o tumulto de pessoas, o alvoroço incontrolável de multidões! Que importava aquela cidade de mármore, reluzente, com tanta riqueza? Seria melhor uma cidade humilde, com justiça, que palácios de mármore sem virtudes!

Sentindo-se amedrontada, percebeu a presença de Brian, lembrando-a de que onde estivesse deveria cumprir seu destino, fazendo o melhor e confiando no Criador. Seria instrumento de equilíbrio e paz com o apoio dos benfeitores espirituais, em favor daquele núcleo.

Reanimada, a jovem aquietou-se novamente, agora mais confiante.

O grupo penetrou a suntuosa construção, em área nobre, dotada de todo conforto. A família de Afonso desfrutava de riqueza, cercada por privilégios e escravos. A jovem irlandesa jamais vira um local semelhante, e nunca imaginara tamanho esplendor.

Não sabia como cumprimentar os sogros, que de início a examinavam com curiosidade. Logo em seguida, acolheram-na carinhosos, endereçando ao casal votos de felicidade e paz. Passaram do vestíbulo ao imenso salão. Pisos de mármore incrustados com pedras de tonalidades azuis e vermelhas eram deslumbrantes. Colunas por toda parte, feitas de pedra ônix, mármore claro, metal dourado ou alabastro. Pedestais sustentavam estátuas de deuses e deusas, espalhados. As paredes brilhavam com mosaicos coloridos que esboçavam as histórias e glórias dos deuses, sutilmente trabalhadas.

Divãs e cadeiras apoiavam-se às paredes, peças feitas em marfim e ébano, adornadas com ouro, almofadas de seda em distintas cores e desenhos. Elegantes mesas de mármore mantinham lâmpadas de ouro e prata, ainda apagadas, e pequenos vasos cheios de flores, além de inestimáveis objetos de arte e bandejas expostas com figos, uvas e azeitonas.

Tetos admiráveis de mármore estendiam-se sobre as colunas, alguns deles pintados em relevos de delicado desenho que eram folhas de ouro.

E por toda parte, vasos importados da Pérsia e índia, altos, com galhos de flores, reluzindo em cores sutis. Fontes perfumadas embalsamavam o ar um tanto pesado.

Alba, a mãe de Afonso, carregava as características típicas de uma matrona romana. Rosto rosado e redondo, tinha certa beleza.

Cícero, seu esposo, era um homem lúcido e honesto, sobrepondo-se à decadência moral da cidade. Lamentava as desordens de Roma, os ociosos, os fracos, os inúteis, os irresponsáveis, que cultuavam os imperadores como deuses, ansiosos por receber benefícios. Tinha hábitos saudáveis, não era dado aos excessos à mesa, nem às orgias que caracterizavam os senhores do poder. Considerava que o lugar de um homem de bem era no lar e que o trabalho honesto era uma bênção, algo que, infelizmente, não ocorria com Afonso, acostumado à vida desregrada.

Os primeiros dias não foram fáceis.

Ágata esforçava-se, porém sentia-se deslocada e solitária, sem que ela mesma pudesse explicar o motivo das angústias que lhe assaltavam o coração.

Os costumes e valores eram muito diferentes.

Surpreendeu-se desagradavelmente com a atmosfera pesada cercando os familiares. Não se identificara. Pesava-lhe a participação nos rituais evocando os deuses do lar, realizados frequentemente.

Sentia-se constrangida em comparecer a cerimônias percebendo que os participantes não estavam imbuídos de verdadeiro sentimento de religiosidade, situando-as como meras práticas exteriores determinadas pelos costumes.

Contudo, o que lhe causou maior estranheza foi a presença de alguém já conhecida na intimidade do palacete: Sheila!

Afonso deixara-se arrastar por uma ardilosa armadilha. Encantada por despertar o interesse de alguém tão rico e poderoso, Sheila viu nele a oportunidade de vingar-se das filhas de Douglas.

Porém, logo se empolgou pela oportunidade de ascender socialmente, fugindo à simplicidade da vida irlandesa. Não tardou em chantagear Afonso. Tfemendo que Ágata descobrisse seu envolvimento, ele negociou a situação com a amante. Sheila prometeu que silenciaria se ele lhe permitisse viver em seu palácio, em Roma.

Temendo perder Ágata, jovem de rígidos valores morais, Afonso concordou. Ela logo se transferiu para Roma, na condição de dama de companhia, instalando-se na rica moradia, antes da chegada do casal. Daí a penosa surpresa de Ágata, constrangida a conviver com Sheila.

Sob o véu da invisibilidade, malfeitores desencarnados teciam uma teia ardilosa envolvendo os personagens do drama que se desenhava.

Em contraponto, como sempre acontece, benfeitores espirituais buscavam neutralizar sua ação sinistra, ficando ao livre-arbítrio de cada um a influência a que se submetería.

Tão logo tomou conhecimento da presença de Sheila, Ágata questionou o esposo:

- Deveria ter me consultado, Afonso. Tenho motivos para não simpatizar com essa moça. Ela tentou usar de meios inescrupulosos para afastar minha irmã de meu cunhado. Você não a conhece! Sheila é mau-caráter!

Afonso, em situação difícil, tendo em vista seu comprometimento com Sheila, tentou acalmar a esposa. Esperando que Ágata não concordasse, disse-lhe:

- Se desejar, eu a mando de volta para Dublin imediatamente! Depende de sua decisão, mas tenho pena. Ela veio para Roma cheia de esperanças de uma vida melhor.

- Essa moça é desequilibrada. Por lá, causou malefícios a muita gente...

Ágata tinha muito a dizer, mas silenciou. Seu nobre coração falou mais alto.

- Bem, talvez possamos ajudá-la, quem sabe modificar suas disposições... Teria aqui uma chance de uma nova vida...

Afonso sensibilizou-se:

- Admiro o seu coração, Ágata.

- Não sei se estou tomando a decisão correta... Vamos tentar.

Ágata estava longe de imaginar as maquinações sombrias da adversária que lhes presenciava o consórcio entre sorrisos indefiníveis e complacentes, plenos de hipocrisia.

Aproximou-se de Ágata com habilidade surpreendente. Procurou tranquilizar os pais de Afonso, com acolhimento carinhoso que dispensava à jovem nora.

No seu entendimento, tudo corria como fora previsto, não fora a indiferença de Afonso, que, não esquecia a esposa um minuto sequer, afastando-se da amante. Estava encantado! Em seu coração, um sentimento novo surgia doce e terno, envolvendo-o. A esposa, com sua generosidade, fizera com que restaurasse a fé nas pessoas. Um hausto de amor e gratidão tomou conta de sua alma!

Em compensação, Sheila não suportava a superioridade moral da rival. Inquieta, perturbada, alterava-se por pouca coisa, perdendo noites de sono, em companhia de pessoas menos dignas, enveredando por caminhos de difícil volta.

Preparava-se para um encontro. Que trajes a fariam mais sedutora? As mãos, graças aos unguentos e cremes, achavam-se macias. Os longos cabelos haviam sido tratados com máscaras de beleza a base de ervas e óleos naturais e brilhavam em ondas sedosas, sempre a esperá-lo nas horas noturnas. Dias correram sem que ele comparecesse.

Discretamente, tentou obter alguma informação com serviçais, e tudo o que ficou sabendo foi que ele estava apaixonado pela esposa! Melhor aguardar...!

Após penosos dias de espera, Sheila aproximou-se de meios escusos que já se utilizara anteriormente. Resolvida, procuraria o serviço de uma senhora con-sulente que cobrava altos preços, compactuando com interesses e paixões escusas, atendo-se tão somente aos pagamentos que acompanhavam tais transações.

Com a justificativa de atender a necessidades administrativas do palacete, saiu à procura daquela que poderia ajudá-la.

Sheila penetrou numa viela achando uma casa simples que fora previamente recomendada. Bateu na porta, sendo convidada por uma senhora alta e magra, de aspecto forte e saudável, a entrar numa saleta iluminada por uma candeia.

Não obstante a fraca iluminação, pôde contemplar algumas prateleiras onde se alinhavam inúmeros frascos, lacrados e etiquetados. Viam-se poções, unguentos, líquidos feitos de plantas e raízes, além de pergaminhos que ocupavam bancadas. Havia um leve odor de incenso no ar, quando a senhora quebrou o silêncio:

- Senhorita, a quem pretende destinar o encantamento? Com tamanha exuberância, tantos homens se colocariam a seus pés, enlouquecidos! Por que escolheu logo um que a despreza?

- Como ousa? A senhora tem ou não o que procuro?

- Saiba que não há como me ocultar seus objetivos. Sei o que a move, além de almejar privilégios e riqueza! Se deseja ajuda, terá que confiar!

- Pois bem, poderei me abrir.

- Vejo que a encomenda destina-se a um homem.

- Ele me usou e agora rejeita-me! Confessa-se apaixonado pela esposa. Indiferente, humilha-me! Não obstante, há de ser meu!

- O seu caso é delicado, menina! Além de seu alvo ser comprometido, ele ama a esposa e é indiferente aos seus encantos! Se tanta beleza não o conquistou, será difícil o efeito de um encantamento. O melhor será afastar-se dele, procurar outro! É o meu conselho.

- Pagarei o quanto for!

- Penso que deveria pensar bem, menina. Tál-vez tenha outra opção, alguém que pudesse amá-la, e fazê-la realmente feliz.

- Diz isso porque ainda não experimentou a dor da rejeição! Desejo a ajuda dos seus amigos! Os das trevas!

- No mundo das trevas ninguém é amigo de ninguém. Nada do que possa ter passado pode se comparar as torturas que os espíritos inferiores são capazes de infligir. O que há nas trevas são interesses, troca de favores! São espíritos que se unem por afinidade de propósitos, jamais pelo sentimento de amizade. Desvie--se desse caminho. Abra os olhos enquanto é tempo!

- Mas eu vim até a senhora para buscar essa solução!

- No momento em que parar de satisfazer aos amigos das trevas, eles se voltarão contra você. Esse caminho é muito perigoso.

- As palavras da senhora não me impressionam. Se não me atender, procurarei outra que se dobre ao ouro. Não vim aqui em busca de conselhos moralizadores. Tem ou não algo que possa me ajudar? Já disse, posso pagar muito bem!

- Parece que sabe o quer. Depois não me culpe! Nem diga que não a avisei...

Sheila ouviu algumas recomendações, foi convidada a sentar-se à frente da consulente, numa pequena mesa. A senhora concentrou-se. Uma voz diversa, bem mais rouca, grave, talvez masculina, surgiu da senhora:

- Com tanta formosura e habilidade, por que não escolhe outro partido? Não percebe que aquilo a que veio requisitar, somente camuflaria o que ele realmente almeja?

- Talvez eu tenha sido enganada e a senhora não seja tão poderosa como me disseram. Se não deseja o caso... Retiro-me! É ou não boa negociadora do Além?

- O livre-arbítrio, minha jovem. Não se pode privar alguém de forma definitiva. Poderia se utilizar de certos artifícios provisoriamente, mas depois... E, segundo o que relatou, esse homem ama a esposa, assim como o outro que a rejeitou. O melhor seria esquecer os dois! Entretanto, estou aqui para ajudá-la, sua causa me agrada, pois também conheci o sofrimento do amor não correspondido ao trajar as vestes carnais.

- Pois bem, por um momento pensei que se recusaria. Vamos então objetivamente ao que interessa!

- Minha serva, a intermediária que comando, macerará as folhas, as raízes e as pétalas apropriadas, fará as misturas nas doses certas, e lhe entregará o elixir. Haverá um período, mas depois não nos responsabilizamos pelos resultados. Nem eu, nem ela! Você entendeu?

Sheila deu um sorriso malicioso, ainda ouviu:

- E a esposa? Que planos são esses que passam por sua imaginação? Veneno? Planeja eliminar a vida de alguém...! Algumas gotas e tudo resolvido! É isso que tem em mente?

Sheila fitou a vidente com assombro, e ouviu farta gargalhada, quando indagou assustada:

- Como pode saber o que se passa em minha mente?

- Ela, a serva, através de quem eu atuo, até podería saber, pois não é difícil ler mentes alheias. Contudo, do invisível tudo é mais fácil. E devo alertá-la: jamais edificará um amor sobre a desgraça alheia. Viverá atormentada entre altos e baixos. A decisão é sua!

Sheila, impressionada com os fenômenos espirituais presenciados, teve receio. Então, recordou-se de seus interesses. E as tratativas se estenderam. A perspectiva da vasta soma em joias oferecida fascinava a médium. Satisfeita, Sheila retornou ao palácio. Garantiria sua felicidade! Custasse o que fosse!

Na mesma noite, ao adormecer, estranhas figuras e lugares povoaram mais intensamente os seus sonhos. As considerações finais da consulente fixaram-se em sua mente.

- Quer livrar-se dela, de fato? Então, não suje as próprias mãos. Há meios mais sutis e inteligentes! Escolha alguém, seduza-o com sua beleza. E à noite, uma gota que seja do elixir, o terá apaixonado aos seus pés! Será seu cúmplice! Consiga o aliado! Aí, o veneno agirá pelas mãos deste, que será um servo seu, realizando todo o serviço. Ficará livre de qualquer culpa!

Sheila em sua estonteante beleza, astuta, guardou o seu segredo. Os dias se tornavam longos, angustiosos, e num misto de horror e fascinação íntima, passou a frequentar a moradia da médium, em confabulações reservadas, onde segredos e ressentimentos eram revelados, e paixões expostas.

CAPÍTULO 15

A enorme cidade surpreendia a jovem esposa irlandesa.

Constatou com desagrado os depravados costumes e a permissividade, que medravam no seio das tradicionais famílias romanas e da plebe.

Roma fervilhava ao influxo do dinheiro, poder e sexo. Por toda a parte buscava-se o prazer inconsequente, em festas marcadas pela devassidão. Espíritos ignorantes quanto à destinação verdadeira do ser, envolviam-se em ilusões.

Ágata sentia-se acuada em meio a uma sociedade em que os vícios eram exaltados. Aos poucos, não obstante a timidez, foi mostrando o seu talento, declamava poesias, aproximava-se, conquistando as pessoas que a rodeavam.

Afonso tinha suas atividades, costumava passar os dias fora de casa atendendo aos dispositivos de serviço junto ao pai. Acostumado a envolver-se com mulheres lindas, fúteis e vazias, achava-se fascinado pela presença da esposa. Ansiava pelas palavras ternas, pela voz suave, pelos toques de suas mãos, pelas vestes brancas que flutuavam em torno do seu corpo no leito. Sem perceber, afastava-se da licenciosa vida pregressa.

Ágata, por sua vez, passava muito tempo sozinha no luxuoso palacete, cercada por inúmeros servos. A jovem indagava-se intimamente sobre a maneira de levar a efeito o compromisso de disseminar a doutrina druídica, assumido com o avô.

As desigualdades floresciam por toda a parte. Joias, pedrarias, mármores, recepções onde o vinho e iguarias coexistiam com a miséria da população, expressa em enfermidades, fome, sede, abandono social...

O orgulho, a vaidade e o egoísmo corroíam as entranhas do povo romano. Escravos morriam açoitados, o povo sofria com pesadíssimos impostos. A plebe, como a denominavam, vivia sem direitos e opções. Alguns poucos patrícios constrangiam-se com os tristes acontecimentos, buscando minorar a situação, atuando à surdina para não serem vítimas do escárnio dos demais e até de represálias.

Ágata, sensibilizada, percebeu que Cícero, seu sogro, engrossava as fileiras dos poucos que reconheciam os servos fiéis. A cidade resplandecia em bajulações de políticos que apresentavam vantagens, atos de traições, assassinatos, corrupção, a terrível ociosidade favorecendo loucuras e moléstias pelos remotos recantos do Império.

Havia também bons artesãos, trabalhadores e construtores, que o governo sugava sob a forma de taxas destinadas ao esquema mantido pelo Estado. Por toda a parte, a ignorância da realidade do espírito; somente reinava o apego excessivo à matéria e ao egoísmo.

Que fazer? Como começar? Questionava-se Ágata. Era visível a mudança de Afonso, todavia jamais permitiría que ela falasse a respeito de seus princípios, pois o núcleo era extremamente ligado às tradições e avesso às mudanças.

Para não tumultuar a paz doméstica e não magoar a família do esposo silenciava, temporariamente, embora em sua íntimo o apelo do avô estivesse sempre presente.

Sheila, por sua vez, excedia-se a pretexto de ser útil. Supunha que com suas artimanhas revertería a situação, atraindo novamente Afonso. Esforço inútil que apenas o incomodava. Se inicialmente havia lhe acenado com vantagens materiais, com promessa de vida requintada, agora sentia que era preciso livrar-se dela. Passou a rejeitá-la, ainda mais.

Sheila revoltava-se. Isto não ficaria assim! Foi aí que as idéias criminosas passaram a insinuar-se. Perdia-se em indagações. Como uma mulher sofisticada como ela, de grande poder de sedução, de formas exuberantes, que encantavam os homens, fora repudiada por Ryan, e agora por Afonso!

Nesse estado emocional negativo instituía zonas mórbidas em seu campo mental, facultando o acesso de obsessores. Dominada por sentimentos de ciúme e revolta, habituou-se a frequentar o casebre da profissional do Além, pagando muito bem pela concretização de seus desejos.

A teia crescia! Enlaçavam-se e constrangiam-se mentes mal-intencionadas, desvairadas, jungidas pelos interesses da dimensão material e espiritual, estreitando laços, e multiplicando idéias, em favor de planos abomináveis.

Ágata, sempre que possível, conduzia os assuntos segundo à sua doutrina, cujo principal foco abrangia a potencialidade de cada um, em processo de evolução. Por vezes, percebendo certas atitudes de Sheila, que aparentemente se mostrava indefesa, insistia em lhe falar sobre o escudo que a prece proporciona, porém longe ela estava de enxergar a oportunidade sagrada de redenção que lhe fora oferecida no palacete.

Afonso, embora seus pensamentos e modos próprios de uma cultura materialista, renovava-se de forma surpreendente. As palavras da esposa vibravam em sua alma, trazendo-lhe a impressão de que algo novo e intenso florescia sob inspiração do imenso amor que lhe nutria.

Gradativamente Ágata, admirada e respeitada, foi se inteirando das carências dos servos, melhorando sua condição.

Atraídos por seu espírito fraterno, necessitados começaram a buscá-la, e ela lhes concedia o pão material e espiritual. Tbdo sem alarde, sutilmente, respeitando a crença dos familiares, mas tentando repassar o que aprendera em ações amorosas.

Nos horários de folga, os servos faziam fila para conversar com ela. Afonso sabia onde encontrá-la. Apenas recomendava-lhe comedimento. Perseverantemente, Ágata visitava os servos do palácio, difundindo novos valores espirituais de permeio com alimentos e remédios à base de ervas. E tal quais sementes, caíam em diferentes solos. Muitas almas sufocavam-nas, entretanto, em solos férteis, brotavam, frutificavam e se espalhavam.

As expressões de Afonso tornavam-se mais brandas, sua voz suavizava-se quando ao lado da esposa. Não desejava mais outras mulheres, embora continuasse assediado por elas, devido à sua beleza, inteligência, educação, e principalmente pelo poder sedutor que exercitava antes de casar-se com Ágata. Com uma mente mais disciplinada sentia-se mais calmo, decisões mais brandas, questionando valores negativos que antes lhe pareciam inquestionáveis.
Anoitecia em Roma. Em meio aos depravados e corruptos hábitos da sociedade romana, as festas rareavam no palacete doméstico. Nessa noite, porém, seria comemorado o aniversário de Cícero.

Sheila havia assimilado as orientações da agente do Além. Buscaria envolver Emílio - um belo oficial da guarda, amigo e confidente de Afonso. Fora o escolhido para a sedução em seu leito e por fim, provar as gotas do elixir. Sugestões lhe chegavam do invisível insistentemente:

- Você é belíssima! Dissimule! Esse aí é presa fácil! Encante-o com sua ousadia e beleza! Seja hábil! Não vacile e tudo alcançará!

Assim, assimilava as sugestões espirituais negativas, vendo a oportunidade adequada para vingar-se com o intuito de ocupar o lugar de Ágata. No salão principal, dava o primeiro passo rumo às sórdidas maquinações. Ocultou-se a uma grande pilastra e, com o auxílio de uma serva de sua confiança, atraiu Emílio às dependências da criadagem. Este, empolgado pela perspectiva de uma aventura, abandonou seu posto de segurança para seguir até o aposento, onde Sheila o o esperava delicada e frágil, em atitude de volúpia e paixão. E facilmente, o rapaz entregou-se aos seus encantamentos femininos:

- Ah, Sheila, Sheila...! Túdo eu farei para satisfazê-la!

- Sei que tem um coração compreensivo - disse a jovem dissimulada -, não sou exatamente como você pensa, e desejo respeito, Emílio.

Ele a fitou emocionado, cada vez mais envolvido pelo seu romantismo e pelas palavras doces que dizia. Sheila contou-lhe longa história arquitetada por sua mente enfermiça. O ouvinte, estava disposto a abrir mão de tudo só para ficar com ela! Fora usada, espezinhada! Alguém precisava protegê-la!

- Sei que não tenho o direito de lhe pedir certas coisas - prosseguiu Sheila -, todavia gostaria de tê-lo como meu aliado.

O drama que me relatou é doloroso, merece reparação. Vou apurar essa história. O senhor Afonso e a senhora Ágata hão de pagar! Não se descarta uma dama dessa forma! Pagarão por toda a humilhação! Conte comigo.

- Nem sei como poderei retribuir esse favor e a confiança. De hoje em diante, seremos amigos íntimos, as portas de meu aposento estarão abertas.

- Exija de mim tudo o que quiser, menos algo que me obrigue a separar-me de você, a mulher que eu idolatro, por que não saberia viver sem sua presença. Renunciaria a tudo, família, filhos, poderiamos viver como camponeses numa choupana, alimentando-nos daquilo que eu mesmo cultivasse com meus braços, desde que ao seu lado!

- Não será preciso tanto sacrifício, meu amor. Siga minhas instruções e ficaremos juntos pelo resto de nossas vidas.

- Você gosta de mim, não é, Sheila?

Ela levantou-se e acercou-se dele, segurando novamente sua mão e levando-a aos lábios. Emílio sentia que o corpo todo tremia e foi acometido de um desejo louco de arrebatá-la novamente em seus braços e beijá-la. E assim procedeu, enquanto escutava:

- É claro! Você é um rapaz inteligente, forte, sensível e corajoso. Lembre-se, pela nossa amizade terá que prometer que vai manter-me informada de absolutamente tudo!

Tfido ocorreu como Sheila planejara! Ele se apaixonou! Seria seu informante e a manteria a par de tudo o que acontecesse pelos corredores do palácio, por onde transitavam os moradores. E naquela memorável noite tornaram-se amantes.

Ágata, por sua vez, cultivava a absoluta fidelidade às suas tradições. Impossível retratar fielmente as angústias que enublavam o coração da jovem irlandesa agora em seu papel de romana.

Resguardada pelo esposo e pelos familiares, passou a disseminar os seus valores, organizando pequenos pacotes com sementes de árvores, flores e ervas no intuito de cultivar as lembranças de sua terra natal. Em uma sala reservada, instalou sua própria farmácia onde manipulava poções, ervas e flores secas acomodadas em prateleiras, jarros, recipientes, reproduzindc tal recanto, como na moradia irlandesa.

Atendia aos filhos de soldados e escravos em suas necessidades, com afeto e reconhecimento. Alguns porém, a viam como presença ameaçadora.
Em uma manhã ensolarada e fresca, Afonsc contemplou, feliz, a esposa que se aproximava. Ágara usava um vestido em suaves tons, refletindo a cor de seus olhos claros, entre vibrações fraternais do ambiente doméstico. Vinha anunciar algo bom que os faria ainda mais felizes.

No salão de jantar viam-se ladrilhos coloridos que se estendiam ao longe e um tapete persa que adornava o piso. Cícero sentara-se na extremidade da mesa, e Afonso ao lado de Alba. Foram servidos pães, queijos, um prato de carneiro e o vinho. A família alimentava-se com prazer.

Ágata encabulada quebrou o silêncio:

- Tenho algo a contar-lhes. Estou esperando um filho! E pressinto: trata-se de um menino.

Os olhos de Afonso faiscaram de alegria. Levantou-se, aproximou-se da esposa a sorrir e abraçou-a comovido.

- Precisamos celebrar! Eu sou o mais feliz dos homens!

A alguns metros de distância, no entanto, alguém, visivelmente contrariada observava a euforia familiar.

Sheila quase se desesperou, não se furtando ao ciúme violento que a torturava.
Naquela noite, na Irlanda, Gwen teve um pesadelo que se repetiu na noite seguinte.

Mau presságio. Chorou copiosamente. Coração acelerado, as extremidades frias, sentia-se mal, tentando decifrar as tristes cenas, os sombrios rostos, gente com maus propósitos... E bem ao fundo, a imagem de Ágata.

Findo o dia, recolheu-se mais cedo.

Pensou em seu avô, pedindo sua ajuda. Ele não tardou em vir, atraído por seus pensamentos, pronto a orientá-la.

Acompanhando Brian, sentiu-se percorrendo um palácio. Notou muitas figuras que pareciam serem desencarnadas, dentre elas, um homem, que avançou para ela, a dizer-lhe, após sinistra gargalhada:

- Há muito estamos espreitando os seus passos. Nem pense em socorrê-los! Fique longe dessa gente! Só assim o meu bando a deixará em paz! Meus comparsas, aplaudindo meus propósitos, irão, sem piedade, esmagar esse ninho de víboras que precisa extinguir-se! Não interfira ou prepare-se para ataques violentos! Eles serão reduzidos a pó! Não somente eles, mas todos os que estiverem obstruindo nosso caminho!

Gwen, assustada, retornou ao corpo físico, com a voz de Brian a sobrepor-se àquelas ameaças:

- Filha! Quando o perispírito estiver no comando, mais ou menos livre do corpo físico, se pensar firmemente em um lugar, já se achará a caminho dele.

- Vovô, uma espécie de loucura me dominou. Vi um palácio... Ágata está bem?

- O núcleo de Ágata possui inimigos intransigentes, adversários nascidos de erros do pretérito... Os pensamentos e ações de alguns moradores são por eles conhecidos e apreciados, e por vezes, aproveitados para fins maléficos, que infelizmente alimentam-se contra eles. Não percebem que percorrem um círculo vicioso! Agem como feras emboscadas, espreitando o momento propício de atacar. Dentre todos os encarnados, é por Afonso que sentem o rancor maior. Além dele. Sheila, que se encontra lá! Em torno deles é iminente o cumprimento de um grande resgate, a expiação de erros perpetrados em anterior existência. Nada vou ocultar-lhe, pois a Espiritualidade amiga necessita da ação de encarnados amigos.

- Ágata corre perigo? - perguntou Gwen assustada.

- Sim, filha! Precisamos limpar a atmosfera, e talvez consigamos, desviá-la de acontecimentos danosos, promovidos por seres cruéis. Pela misericórdia divina que me foi permitido avisá-la do perigo que sua irmã corre, e aconselhar que partam imediatamente para Roma.

Gwen, após ouvir o avô, deixou-se cair em profunda cisma, evocando as advertências recebidas. Logo pela manhã comentou as recomendações de Brian com Douglas, buscando definir o que fariam.

À noite, Brian retornou o contato com Gwen. Após aplicar-lhe passes, disse-lhe:

- Vim buscá-la para um passeio espiritual. Desta vez, será de maneira consciente. Feche os olhos, relaxe e pense firmemente em Ágata. Não deverá dispersar a atenção. A sua alma se desdobrará do seu corpo temporariamente. Ao nosso lado, há instrutores especializados, conhecedores do processo que nos garantem o serviço. Vamos, filha! Vamos...! Ágata necessita de auxílio.

Logo estavam no palácio da família de Cícero, em Roma.

Ágata repousava. Brian conduziu a neta, desejava mostrar-lhe algo. Transpôs o ambiente, rumo à sala principal. Inúmeros espíritos desencarnados peram-bulavam; uns pelos corredores, outros, em grupos, contando piadas sem demonstrar interesse algum pelo ambiente; alguns chorando e pedindo socorro, acreditando-se ainda encarnados.

De todos, porém, os piores eram os mal-intencionados, perseguidores frios e calculistas, vingadores, que espreitavam e não largavam suas vítimas, moradores do palácio, sugando-lhes a energia.

Brian conferiu a Gwen o serviço de retrospecção mental, auxiliando-a no penoso desempenho, enquanto lentamente, ela se deparava com as intuições irrompidas pelos favores do Além. Viu, assim, em plena atividade das faculdades emancipadas das cadeias corporais, o passado espiritual incrustado nas paredes daquela morada, bem como o de seus habitantes atuais, e compromissos firmados às portas da reencarnação.

E tal cena, tocante, realizada em região propícia do mundo invisível, abriu-se a ela mais viva. Intuitiva-mente, as imagens informativas revelavam a caridade de mentores espirituais concedendo-lhes advertências e preparo, sem, contudo precisar minúcias, a fim de que prematuros não fossem os seus infortúnios; conhecendo de antemão toda a dramática extensão dos acontecimentos vividos no palácio. Brian revelou-lhe que Ágata tinha a tarefa de reeducar aquele núcleo doméstico; que no momento, estava grávida, e que a atmosfera ali se mantinha saturada de elementos perturbadores.

Avô e neta, compadecidos, retornaram ao quarto.

Brian elevou sua mente ao Criador em sentida prece. Benfeitores espirituais faziam a proteção vibratória, adequando o ambiente para o atendimento de alguns irmãos infelizes. Nenhum deles percebeu a presença de Brian, ou dos demais servidores que trabalhavam em favor deles, que ali acorriam para melhorar-lhes as condições, embora se sentindo constrangidos pelas forças magnéticas que deles emanavam.

O trabalho de socorro aos desencarnados endurecidos estava iniciado. Embora, os espíritos desafortunados não vissem os benfeitores a lhes ampararem, tinham agora relativa tranquilidade para ver e ouvir Gwen.

Afastada do corpo físico, tinha a densidade necessária para fazer-se observada por aqueles espíritos infelizes. Brian dirigiu então, algumas palavras à neta, que as transmitia aos sofredores. Dissertou sobre o perdão, o amor e a amizade, abordou a necessidade que todos tinham em curar-se, voltando-se para Deus.

O ambiente encheu-se de luz espiritual.

Quase tudo asserenou-se. Alguns, nada perceberam, mas muitos, cansados que estavam da triste situação, choravam clamando por socorro e mãos caridosas confortavam a todos com palavras afetuosas e de paz, de sorte que eles, mesmo não vendo, ouviam e sentiam que estavam sendo ajudados.

As entidades beneficiadas eram levadas às instituições socorristas do Além, onde seriam amparadas, submetidas a tratamentos regeneradores. As demais aguardariam até que se animassem à renovação.

Finda a tarefa de cooperação, Brian acompanhou Gwen até sua moradia. Já dentro do quarto e em plena adequando o ambiente para o atendimento de alguns irmãos infelizes. Nenhum deles percebeu a presença de Brian, ou dos demais servidores que trabalhavam em favor deles, que ali acorriam para melhorar-lhes as condições, embora se sentindo constrangidos pelas forças magnéticas que deles emanavam.

O trabalho de socorro aos desencarnados endurecidos estava iniciado. Embora, os espíritos desafortunados não vissem os benfeitores a lhes ampararem, tinham agora relativa tranquilidade para ver e ouvir Gwen.

Afastada do corpo físico, tinha a densidade necessária para fazer-se observada por aqueles espíritos infelizes. Brian dirigiu então, algumas palavras à neta, que as transmitia aos sofredores. Dissertou sobre o perdão, o amor e a amizade, abordou a necessidade que todos tinham em curar-se, voltando-se para Deus.

O ambiente encheu-se de luz espiritual.

Quase tudo asserenou-se. Alguns, nada perceberam, mas muitos, cansados que estavam da triste situação, choravam clamando por socorro e mãos caridosas confortavam a todos com palavras afetuosas e de paz, de sorte que eles, mesmo não vendo, ouviam e sentiam que estavam sendo ajudados.

As entidades beneficiadas eram levadas às instituições socorristas do Além, onde seriam amparadas, submetidas a tratamentos regeneradores. As demais aguardariam até que se animassem à renovação.

Finda a tarefa de cooperação, Brian acompanhou consciência de seu estado, olhou para ele, emocionada e grata.

Despediram-se. Gwen Adormeceu.
Ao despertar, Gwen narrou o episódio à família.

- Na noite passada vovô veio me buscar. Disse-me que Ágata precisa de ajuda. Está grávida. Havia um menino nos braços dele. Estranho medo apossou-se de meu coração, um pressentimento ruim... Refleti muito, antes de contar-lhes o ocorrido. E sei que devemos ir até Roma.

Em consenso com Brigite e Gracie, e inspirado por mentores da Vida Maior, Douglas aprovou a idéia, decidiu que seguiríam viagem a Roma. Ryan apoiou a iniciativa, mas não poderia acompanhá-los em função das responsabilidades junto à propriedade. Com os poucos recursos da época, a viagem demandaria tempo. Assegurada todas as providências, partiram.

CAPÍTULO 16

Após a longa viagem, que transcorreu tranquila, Douglas, Brigite, Gwen e Gracie chegaram ao palacete em Roma. Alba e Cícero os receberam solícitos.

Douglas não teve boa impressão. Em particular, incomodou-se com a presença e os desvelos exagerados com que Sheila tentava, a todo custo, impressionar os moradores da casa.

Alba e Cícero acomodavam-se no pórtico externo na companhia de Douglas e Brigite, bebericando um dos mais caros vinhos. Afonso e Ágata estavam presentes, em conversação cordial:

- O que achou de Roma, meu caro? - perguntou o dono da casa a Douglas.

- Estou acostumado com o nosso pacífico modo de vida, Cícero. O progresso de Roma é notável, porém é uma democracia confusa, com traços materialistas tão profundos, que atemoriza. Nações assim desaparecem, inevitavelmente!

- Seja mais claro, Douglas.

- É possível que os abusos de autoridade e do poder tenham embriagado a sociedade romana. Conquistas a ferro e fogo, corrupções, crimes! Roma deveria retornar aos valores religiosos para preservar seus valores e sua própria existência.

- Os deuses estão sempre interferindo na vida dos homens, a religião está cheia de manifestações deles, meu caro.

A conversação fluiu cordial e incessante. Em primeira oportunidade, Brigite expôs ao esposo as suas impressões quanto a Sheila, solicitando que ele conversasse com o genro para afastá-la.

Douglas já observara bastante para concluir que a jovem, à frente dos familiares, demonstrava-se compassiva e solícita, contudo, havia algo ameaçador no ar em relação à sua presença.

Em momento oportuno, abordou a delicada questão com Cícero, que recebeu bem a advertência e prometeu que tomaria providências.

A situação era delicada. Desde a chegada dos visitantes irlandeses, o estado de Sheila piorou. Intensificaram-se as perturbações. Fortemente influenciada por espíritos mal-intencionados, debatia-se em crises nervosas, agindo por vezes como que enlouquecida.

Certa noite, Gwen recebeu a visita de Brian, que a despertou.

O incansável obreiro a conduziu a outro setor do palácio, de onde emergiam súplicas e gemidos...

Ela percebeu que partiam de um quarto desconhecido. Ao entrar, reconheceu Sheila. Guiada por Brian, notou que a jovem sacudia-se atormentada. Entidades das sombras a envolviam. Eram muitas! O avô orientou-a a aplicar o passe.

Sem que os envolvidos no drama obsessivo percebessem, iniciaram a tarefa de emissão de fluidos calmantes.

Transitando por aquele ambiente sinistro, Gwen teve a impressão de mergulhar em uma zona escura e desolada, e apesar de já ter visitado lugares semelhantes durante o sono, agora, mesmo desperta, a impressão causada foi terrível.

Seres ensandecidos e errantes proferiam palavrões e blasfêmias que lhes revelavam a ínfima posição espiritual. Em dado momento, um, dentre os espíritos mais revoltado, que desconhecia os favores da luz pelo tempo que passara nas trevas, notou a sua própria mãe, dando-lhe conforto e afetuosa atenção.

- Oh, pelos deuses! Minha mãe! É a senhora? Por onde andava? Salve-me... Salve-me... Revoltei-me! Tornei-me escravo de um pesadelo sem disposição de prosseguir. Quando tento me libertar, retorno atraído pelo desejo de vingar-me dessa mulher que destruiu o meu lar e com ele a felicidade, porém, estou cansado, muito cansado, minha mãe. Desejo esquecer isso tudo, só que não tenho forças...

Em lágrimas, aconchegou-se no colo de sua mãe-zinha, implorando-lhe que o levasse.

Infelizes entidades pareciam dispostas a buscar socorro e afastar-se das sombras, mas receavam a influência de cruéis espíritos que os tiranizavam.

Gwen observou que, além de Brian, outra entidade colaborava nos passes em favor de Sheila, que se acalmou lentamente, mergulhando em sono tranquilo.

Gwen permaneceu a seu lado, velando seu sono.

Ao acordar, ela deu sinal de melhoras. Lembranças do ocorrido? Nenhuma!

Surpreendeu-se com a presença da jovem.

- Que bom que você está aqui! Sinto-me enferma, muito enferma, creio mesmo que vou morrer. Estava com uma terrível dor de cabeça... Tive sonhos horríveis... Fui levada a um lugar assustador! Que pesadelo! Um cortejo de seres horripilantes e odiosos me rodeava... Esse palácio é mal-assombrado! E estou perdida, muitos me perseguem! Sinto-me um tanto aliviada agora. Mas e você, como veio até aqui? O que aconteceu?

- Um atendimento espiritual a beneficiou, Sheila. Não é verdade que essa moradia seja mal-assombrada, e não creio que você esteja enferma. Seus distúrbios não vão além da incompreensão daquela que não aprendeu a sofrer, a se resignar com a devida naturalidade, diante das contingências da existência.

- Seja mais clara! Diga-me o que fazer para me livrar desse mau estado...

Não me cabe condená-la, Sheila, mas a meu ver é preciso que eduque a mente e o coração. Tàlvez a dificuldade maior esteja no fato de que nada lhe faltou no decorrer da vida. Por isso mesmo, quando surgem contrariedades, você revolta-se por estar acostumada a ordenar e ser obedecida, desde o berço. Oprime-se tanto que se julga irremediavelmente perdida para a necessária reação.

- Você não entenderia... Sempre fomos bem diferentes!

- Todos temos fraquezas, Sheila, e nos compete o esforço por superá-las, se queremos a felicidade. Você teve a chance de aprender com a nossa doutrina, a entender os verdadeiros caminhos da vida, a encontrar no Criador os melhores atalhos para salvar a si mesma e reconquistar o tempo perdido. No entanto, tem se embaraçado em situações perigosas, em extravagâncias que a comprometem. Esforce-se! Lute! Disse-me há pouco que está se sentindo um pouco melhor. Pode perceber, portanto, que somos protegidos.

- Gwen, minhas noites são povoadas por pesadelos, seres raivosos, perturbações. E agora, sinto-me confusa em sua presença. Sensação incômoda, de pavor, humilhação e vergonha. Peço-lhe perdão por incomodar o seu sono... Mas, prefiro que vá agora!

- Eu vou, mas não antes de lhe recomendar a prece. Ore e reconcilie-se com esses que povoam seus pesadelos. Renove seus pensamentos. Reflita antes de qualquer ação, lembrando-se de que depois de praticada será irremediável e os seus atos se voltarão contra si mesma, comprometendo o futuro, se fizer escolhas erradas.

- Não sei do que fala...

- Ninguém morre e a vida continua depois do túmulo. Se há criaturas que se deixam levar pela fome do ouro e do poder, depois da morte do corpo igualmente prosseguem com a mesma obsessão, porque são os mesmos que perderam os corpos, sem perderem os anseios. Na maioria das vezes, prosseguem algemados aos mesmos interesses, Sheila.

- Mas, quem são esses que me perseguem? Você conhece alguma forma de afastá-los em definitivo de minha vida?

- Ao longo de nossas experiências, por vezes, semeamos causas, e justo é que colhamos os efeitos. Irmãos ignorantes espreitam os nossos passos continuamente, observam-nos com perseverança impressionante, como uma sombra, e não perdem o ensejo de nos desviar. O Criador sempre nos concede meios para que não nos desviemos, porém, muitos de nós corrigimos o rumo quando o destino nos aplica os corretivos da dor. Mantenha os seus pensamentos voltados para o bem. Tenha gratidão pela vida e pelas bênçãos recebidas aqui e agora... Ore, Sheila! Lute! Esforce-se e você conseguirá.

Fez-se silêncio. Gwen levantou-se, pediu licença e afastou-se. Sheila acalmou-se. Como que por encanto, passou as noites subsequentes em sono mais tranquilo.

Após algumas semanas, os familiares de Ágata retornaram à sua terra natal, depois de contribuir com suas preces e ações para amenizar o cativeiro doloroso, em que Sheila deixara-se conduzir por seres maléficos que a dominavam.

Os recursos apresentados pela Espiritualidade deram a alguns sofredores desencarnados o alívio, a compreensão, um novo rumo, pois afligindo a sua presa, eles também sofriam.

Quanto a Sheila, recebera abençoada oportunidade de refletir, mudar de atitude, reequilibrar-se. Dependia apenas dela mesma.

As estações seguiam marcando os caminhos davida.

Em sua moradia, Douglas detinha-se no jardim, à entrada, rústico banco de madeira convidava ao repouso e à contemplação. Flores viçosas e singelas, árvores esplendorosas e a fonte. Estava feliz, muito feliz! A vida agora lhe abria novo ciclo: os netos.

Gracie aproximou-se, aconchegava a filha recém-nascida nos braços. Era uma linda criança. Havia se casado com Alan e viviam felizes. Rompendo o silêncio, disse-lhe:

- Acássia será o nome dela, papai, como o senhor sugeriu.

- Minha segunda neta! E pensar que o filho de Ágata já nasceu, e nem ao menos temos notícia se ele veio ao mundo com saúde, e se ela está bem...

Ora, papai. Notícia ruim chega logo! Com certeza Ágata e a criança devem estar bem!

Douglas devaneou em torno das recordações: o nascimento de suas filhas, a choradeira na hora da fome, os primeiros passinhos vacilantes e miúdos explorando cada canto da moradia, estendendo a curiosidade ao jardim; depois a fonte, a natureza, seus risos inundando de alegria o lar... E agora, os netos!
Em Roma, Ágata havia dado à luz, nascera Ro-nan. Profundamente feliz, ela desvelava-se nas tarefas maternas.

Para Sheila, tudo retrocedera. Melhorara fisicamente, superando indisposições orgânicas, todavia, moralmente, continuava a mesma. A ideia fixa, a paixão violenta por Afonso já lhe era uma doença perigosa, que pretendia amenizar num comportamento irresponsável, sem ideais, desligada de preocupações ou compromissos de ordem superior. O sofrimento sinalizava mudança, porém, permanecia estacionária.

Embora as advertências de Douglas a Cícero, Sheila havia manipulado positivamente a situação a seu favor, permanecendo no palacete.

Ronan, por sua vez, encheu o ambiente de alegria. Afonso desfazia-se em atenções e afagos. Continuava afastado de Sheila, que se sentia mais enciumada com o nascimento da criança.

Fingia comoção ao se aproximar do bebê, oferecia cuidados, todavia completamente cega de ódio, sinistra ideia se lhe embutiu na mente atormentada:

- Chegará a hora! Desvencilhar-me-ei dessa criança! Emílio entrará em cena! Ágata não suportará o sofrimento e retornará à Irlanda.

Na sua mente a ideia sinistra: as águas do Tibre. Sim! Ninguém desconfiaria. Seria um acidente!

Depois seria Ágata, caso persistisse em ficar! Não sujaria as mãos, bastariam algumas gotas de veneno em seu copo e pronto!

Sem ela, Afonso cairia a seus pés novamente! E quanto a Emílio, chegaria a sua vez! Em hipótese alguma ficaria presa a uma testemunha que pudesse comprometê-la! No momento certo, seria ele!

Para seu desagrado, quando expôs a Emílio os detalhes do plano que lhe fervilhava no cérebro apaixonado e vingativo, ele hesitou em cometer o infanticídio.

Acendeu-se larga discussão, porém quando ela ameaçou deixá-lo, acabou cedendo aos propósitos, ambos envolvidos por cruéis entidades das sombras.

Após solene juramento de sigilo perpétuo, planejaram o crime perfeito, a seu ver, tratando dos detalhes da trama criminosa.

Ágata, sensível, pressentia algo ruim, não conseguindo entender a razão de uma ansiedade que a perturbava, quando tudo aparentemente caminhava tão bem.

Ao amanhecer, elevava-se o sol no horizonte desenhando uma atmosfera de neblina clara. Havia promessa de calor em Roma.

Ao longe, as vozes dos serviçais rompiam o silêncio do novo dia. Trabalhavam incessantemente e tudo parecia impecável no luxuoso palacete. Compridas mesas apoiadas em cavaletes haviam sido montadas em fileiras. Haveria um banquete. Comemorar-se-ia o aniversário de Afonso.

À hora aprazada, observava-se o luxo e a riqueza nos detalhes, nos enfeites floridos, a espalhar delicioso aroma. Os convivas admiravam a qualidade e disponibilidade do vinho e das exóticas iguarias.

Quanto às mulheres, todas belíssimas! No ambiente corrompido pelos pensamentos e palavras, encontramos Ágata, sóbria de adornos, preocupada com seu filho aos cuidados de uma serva em seu aposento. Indefinível tristeza lhe inundava a alma.

Sheila concentrava-se em Emílio. Voz adocicada, gestos voluptuosos, insistia para que ele deixasse seu posto de guarda e exagerasse no vinho, comprometendo o seu senso de raciocínio.

Era chegado o momento de acabar com a felicidade de Afonso! Pagaria caro por tê-la abandonado!

Ágata, como se uma advertência lhe chegasse do invisível, sentiu o coração disparado e pensou no filho. Então, ágil e silenciosamente, percorreu o salão em direção ao cômodo.

Emílio, nervos abalados, já havia atingido a galeria que comunicava com as dependências, tratando de desviar as sentinelas que montavam guarda no interior do palacete, todas elas, sob sua ordem.

Sob forte tensão entrou no quarto, tomou a criança no colo e já se propunha a sair com ela, quando ouviu passos aproximando-se.

Célere, tratou de acomodar a criança de volta ao leito buscando conter nervosismo que aflorava em sua expressão ao reconhecer a senhora Ágata.

Ela, surpresa, passou a exigir explicações.

- O senhor pode me informar o que está acontecendo aqui em meu aposento? Quem o autorizou a entrar? Por que estava com o meu filho em seu colo? Onde está a serva?

O roteiro premeditado se alterara. Assustado, Emílio via agora em Ágata uma ameaça que precisava eliminar.

Enquanto isso, como se fosse chamado ao discernimento, uma forma vaporosa de uma alvura impecável e benéfica, do invisível, aproximou-se tomada de profunda tristeza, falando-lhe nos recessos da alma.

- Oh, filho querido! Graças a Deus ela chegou a tempo de impedir essa insanidade... Envolver uma criança inocente? Pense em seus filhos! Você não é um criminoso! É uma pessoa de bem... Desperte! Saia daqui!

Por um momento o, oficial da guarda vacilou. Passou as mãos pela fronte como se quisesse expulsar os planos criminosos que o assediavam. Experimentava imensa confusão de idéias, mas deixou que falassem mais alto em seu íntimo os agentes das sombras:

- Aproveite a oportunidade! O plano é perfeito! Sheila se orgulhará! Se não prosseguir, o deixará.

E naquele alvoroço incontrolável, sob o embate de duas forças opostas, deixou-se levar pelas violentas emoções passionais que o dominavam. Pressionado pelas sombras, com as quais identificava-se melhor, ergueu a espada para atingir a inocente criança.

Ágata apavorou-se!

- Não! - gritou, e num ímpeto colocou-se à frente do agressor.

O golpe violento a atingiu! Banhada em sangue, dobrou-se, caindo ao solo. Em poucos instantes, expirou.

Emílio, apavorado, afastou-se ligeiro, retornou ao seu posto de serviço, e cabisbaixo, como se tivesse caído em si, indagava-se em voz sumida:

- O que foi que eu fiz? Pelos deuses! Sou um covarde...!

Ao ser informada por ele, Sheila sorriu satisfeita. Tudo acontecera melhor do que planejara. Livrara-se da adversária de forma definitiva!

Trocou intenso olhar com o agente de suas decisões, qual se estivesse selando, sem palavras, mais um escuro compromisso, e foi ao encontro dos convivas para não notarem a sua ausência.

Emílio, cauteloso, permaneceu em seu posto. A noite jazia envolvida por espessa neblina, semelhante ao nevoeiro moral que dominava criaturas das sombras que haviam contribuído para a tragédia.

Afonso notou a ausência da esposa e foi até os aposentos do casal.

Desesperou-se ante a trágica visão: a esposa com uma espada atravessada no peito, em sua própria cama.

Fora de si, como louco, ergueu a esposa nos braços, suplicando:

- Ágata! Ágata! O que houve? Acorde!

Em insuportável angústia, constatou que ela estava morta. Murmurava palavras desconexas, alheio aos que se aproximavam, a chorar descontroladamente.

Ágata era a mulher de sua vida, sua razão de viver! Ela o influenciara poderosamente, dando sentido à sua existência!

E agora? O que fazer sem ela? Como viver sem seu carinho?

Pôs-se a blasfemar contra os deuses e alucinadamente, questionando porque haviam levado sua amada.

Instantes depois, cambaleante, em estado de perturbação convocou os oficiais responsáveis pela segurança. Que fosse encontrado o assassino, que haveria de pagar com a própria vida por seu crime. Busca infrutífera. O assassino desaparecera em meio aos convidados.

Em poucos instantes, a trágica notícia espalhou-se. Houve grande constrangimento entre os convidados que se chocaram com o assassinato. Os criados, assustados, temiam ser responsabilizados. A confusão generalizava-se.

Afonso, extremamente abatido, recolheu-se em seu quarto, inconsolável, vendo-se privado da presença da única pessoa a quem amara verdadeiramente, após vagar por todos os cantos, à procura dos criminosos.

Quando a noite se fez mais avançada, Emílio atravessou, aparentemente tranquilo, vasta extensão da via pública, até alcançar a margem do rio. As brisas que sopravam do Tibre - esperava ele -, suavizariam sua mente atormentada.

O céu repleto de estrelas reluzia e espreitava sua consciência culpada. Ágata morta! Ele, um assassino! Dolorosa inquietação aflorou em seu íntimo. O remorso começava a lhe corroer a alma.
Nos dias subsequentes, o jovem viúvo, procurando reagir, prometeu a si mesmo que faria o culpado pagar com a vida pelo que fizera.

Chamava em pensamento inutilmente pela amada, que para ele se fora para sempre. Sua imagem encantadora se desenhava permanentemente em sua imaginação torturada, o que o fazia sentir ardente revolta. Muitas vezes, aos gritos, enlouquecido, percorria cada canto da redondeza clamando: - Ágata! Ágata! Minha doce Ágata... Volte! Volte!

Os soldados seguiram pelos campos e vilas próximas. Interrogaram os moradores, os servos, os plebeus, os poderosos, comerciantes da praça e do mercado, em busca de pistas que pudessem levar ao assassino.

Buscas infrutíferas, principalmente pela ação do próprio assassino. Emílio que, como chefe da segurança, seguia sempre por caminhos que não levavam a nada, dando tempo para que a ira de Afonso amainasse ao receber o resultado das investigações.

Afonso julgou enlouquecer de dor. Entidades das sombras o assediavam, sugerindo-lhe atrocidades. Ao mesmo tempo, uma senhora amorosa, do mundo invisível, recomendava-lhe resignação frente ao inevitável, falando-lhe docemente.

Sheila regozijava-se pela desolação e sofrimento do ex-amante e, dissimulada, empenhava-se em consolar os familiares. A consternação no palácio era geral.

Na Irlanda, angústia indefinível dominou Gwen, sem que soubesse explicar o motivo.

Isolou-se em seu quarto, rendeu-se à depressão orgânica. Sonhos tumultuados a perturbavam, agitados por visões sinistras, que pareciam avisos proféticos.

Sentia profundo mal-estar. Os pensamentos completamente voltados a Ágata, como se recebesse um clamor da irmã. Ouvia murmúrios, choro convulsivo, enternecedor:

- Socorre-me, minha irmã! Socorre meu filho!

Súbito, percebeu vibrações harmoniosas que a tranquilizaram. Era Brian, que vinha em seu socorro. Abraçando-a carinhosamente, o avô disse-lhe:

- Filha, nem sempre é possível advertir ou aconselhar os nossos tutelados a tempo. Algo imprevisto aconteceu pelo mau uso do livre-arbítrio de terceiros. Ágata deixou o corpo físico, e está comigo agora, espiritualmente.

Gwen contemplava assustada o avô, ante a inusitada revelação, enquanto ele prosseguia:

- Infelizmente, ela foi vítima de uma teia maléfica arquitetada para aniquilar Afonso. Foi atingida pela insanidade de espíritos encarnados, ligados a processos obsessivos graves de irmãos que já se libertaram da matéria, tão ignorantes quanto eles.

- Então, Ágata...

- Encontra-se comigo. A Terra é um planeta de provas e expiações, minha filha. Desta feita, não foi possível impedir que o mal se concretizasse... No entanto, não se inquiete, confie, pois o bem prevalecerá sempre! O menino, filho de Ágata, tem uma missão. Deverá propagar a nossa doutrina, que necessita de servos fiéis, trabalhadores, enérgicos, para a evolução individual e coletiva. Você intercederá por ele no momento certo.

Abençoando-a e recomendando-lhe fortaleza de ânimo, Brian despediu-se.

No dia sucessivo, ainda no leito, Gwen revelou a experiência noturna ao esposo, implorando que ele a levasse a Roma. Algo muito grave acontecera.

Ryan dispôs-se a levá-la, tranquilizando-a.

Gwen logo passou a informação a Douglas.

- Papai, algo grave aconteceu.

- Ah, minha filha! Novos presságios?

- Não se trata apenas de presságios... Mas de notícias espirituais dolorosas. É Ágata! Ouço seus chamados insistentemente... Ela chora, desolada e inconsolável. Minha irmã fez a passagem, está com o vovô na vida espiritual.

- Não sabe o que está dizendo! Você anda muito impressionada... Sua irmã está hem e feliz! Mas, se for para acalmá-la, um mensageiro poderia partir para Roma e trazer notícias.

- Pai, é tarde! - disse-lhe a filha enxugando as lágrimas -, o senhor não está entendendo. A princípio, eu pressenti que minha irmã precisava de ajuda... Senti-me impotente. Eu deveria ter seguido meu coração e ido para lá, talvez tivesse dado tempo de socorrê-la. Mas, agora, papai... Ágata veio até mim, eu a vi como estou vendo o senhor. Depois, foi vovô... Ágata está com ele! Não sei ao certo o que houve - disse-lhe cautelosa -, somente sei que minha irmã está com ele. Vi também a imagem de uma espada. Não sei explicar...

Douglas ficou estupefato. No fundo, confiava perfeitamente no testemunho da filha, ficou profundamente preocupado e dispôs-se a ir a Roma, a fim de confirmar a dolorosa revelação.

Não foi necessário. Ao anoitecer, um mensageiro, a galope, percorria o chão irregular, driblando os bois, as ovelhas e as cabras, em direção à moradia.

O emissário, após extensa e fatigante viagem, chegava de Roma para comunicar oficialmente a morte de Ágata. Com presteza, Douglas fê-lo entrar à moradia, serviram água, entre preocupado e indiscreto, e sem preâmbulos, interpelou-o:

- Pode dizer: o que o traz aqui?

- Senhor Douglas - começou o mensageiro infelizmente sou portador de uma notícia que caiu como um raio no palácio! Com profundo pesar trago a triste notícia da morte de sua filha, a senhora Ágata, meu senhor. Foi assassinada.

- Assassinada? Foi o que disse...? Como? Mas... E o assassino quem é? Fale!

- Como e por quê?... Ainda não se sabe...!

O mensageiro mal tivera tempo de falar.

Douglas vacilou, deixou-se vergar, perdendo os

sentidos. A terrível surpresa repercutira rudemente nele, quando o prestativo mensageiro amparou-o, clamando por socorro. Por longo tempo assim permaneceu.

Os familiares, igualmente desolados, tentavam enfrentar a dolorosa situação, convencendo-se de que não se tratava de um sonho.
Os dias escoavam lentamente.

Em Roma, a situação continuou triste e estranha

no lar de Afonso. O seu olhar ardente e apaixonado fora substituído por uma expressão de ódio. Sentia-se impotente, incapaz de desvendar o crime.

Os primeiros tempos transcorreram com muita revolta para ele, que anteriormente egoísta, manipulador, mulherengo, experimentava agora somente desolação, sem a presença da amada.

Voltou a recorrer à bebida em demasia. Não quis mais ouvir o nome de Sheila, que irritada permanecia pelas dependências dos criados no palácio.

Interrogatórios, buscas e averiguações foram feitas, e nenhuma conclusão. Naquele momento, o ódio feroz, ao qual nenhuma razão constringe, acompanhava Afonso, cristalizando ainda mais seu rígido coração.

Afonso chamou a si a responsabilidade de apurar o real culpado. Desaparecia, passava tempos sem regressar ao lar.

Infelizmente, o que calara profundamente em seu íntimo fora a paternidade. Desprezava seu filho Ronan, espírito maduro, generoso e sensível, como se o menino, de certa forma, fosse responsável pela tragédia.

CAPÍTULO 17

Os anos correram céleres.

Na Irlanda, alguns meses após a tragédia, a família

foi agraciada por sublimes bênçãos.

Em Dublin, Aurora veio à luz, filha de Gwen e Ryan.

Em Meath, Norah e Sales tiveram um menino. As crianças cresciam lindas e saudáveis, iluminando os lares com seus risos e gestos infantis.

Em Roma, o quadro doméstico prosseguia sem alterações, Ronan tinha agora oito anos de idade. Nenhuma mudança significativa havia se operado. Afonso nunca mais voltou a ser o mesmo homem do tempo de Ágata. Vivia distante e ausente da família. Mostrava-se insensível às necessidades afetivas do filho, que nos poucos momentos de convivência, insistia com o pai sobre a crença dos avós maternos, enfatizando conceitos da realidade do espírito. Em vão!

O menino tinha a certeza de que encontraria novamente sua mãe em outro plano. Essa confiança proporcionava-lhe constante renovação de energias, e chegada à noite, na hora da prece, sentia presenças espirituais. Ronan, cuja sensibilidade resplandecia de virtudes imortais, passou a contemplar a radiosa realidade do espírito, tornando-se necessário lapidar os potenciais psíquicos de ordem elevada, os quais se encontravam latentes, sufocados pela materialidade, à espera do despertar evolutivo.

Sentia as manifestações à sua volta, especialmente de sua mãe e de seu guia espiritual, agente de amor, inspirando-o e protegendo-o, começando assim, a influenciar os avós paternos, encarregados de sua educação, o que faziam com muita dedicação e amor.

Por esta época, Norah, Sales e o filho seguiram para Roma para visitar Ronan e foram muito bem recebidos.

Sales sugeriu levar o sobrinho à Irlanda para visitar os avós maternos. Alba e Cícero, a princípio recusaram, mas acabaram por permitir, ante os rogos do próprio neto.
A viagem para a Irlanda aconteceu sem incidentes.

A primeira impressão que assaltou o menino foi de que os dias tornavam-se cada vez mais agradáveis num tipo de vida que sempre almejara.

Uma aura psíquica especial envolvia o lugar, cuja primavera seguia plena de alegria e beleza.

Os ensinamentos e reflexões diárias sobre a vida espiritual renovavam as forças psíquicas do núcleo doméstico, realizados em torno dos velhos carvalhos enfeitados pelas montanhas agrestes, ornamentadas pelas florestas misteriosas e pelas pedras gigantescas, como se fossem altares sagrados naquela terra de fadas e gênios alados.

Os habitantes apresentavam plena certeza do futuro além-túmulo. Sabiam que as dificuldades representavam condições do testemunho e em tudo havia a possiblidade de honrar as leis divinas.

Espíritos corajosos e empreendedores estavam reunidos. A propriedade rural de Douglas tornava-se cada vez mais bem-sucedida.

Ronan possuía um temperamento calmo, sensível, não gostava de lutas e agradavam-lhe os costumes da crença irlandesa. As rudes brincadeiras dos meninos romanos, o tinir de armas, os jogos de duelos que ouvia falar em sua terra natal, afetavam-no desagradavelmente. Estava deslumbrado com a beleza e a simplicidade do local.

Adaptou-se rapidamente. Em poucos dias identifi-cava-se satisfeito com os hábitos familiares. As fazendas vizinhas interessavam-se pelas iniciativas domésticas.

Crianças da redondeza vinham às aulas dirigidas por Gwen e Gracie, as quais o sobrinho passou a frequentar. Douglas estava impressionado com o devotamento de Gracie que, se anteriormente envolvia-se em crises constantes de melancolia, agora se empenhava pela disseminação da cultura druídica, desenvolvia serviços artesanais, ministrava aulas às crianças. Era outra pessoa!

Precisamente nesta época, nasceu Muriel, a sua segunda filhinha. Tão logo se recuperou do parto, mostrou-se plenamente capaz, retornando às atividades rotineiras.

Gwen e Ryan não cabiam em si de contentes. Desdobravam-se as energias para as tarefas imensas, assinalando as de cunho espiritual e material. Espírito empreendedor, ele movimentava iniciativas cada vez mais prósperas. Nesse tempo, ele e Gwen já tinham duas filhas, Alana e Aurora, que cresciam saudáveis e agora recebiam os primeiros ensinamentos.

As estações desdobraram-se nesse encantador ambiente em Dublin.
Certa noite, o vento ainda era intenso, mas não havia tempestade no céu, estrelas reluzentes convidavam à meditação e ao êxtase, predispondo a alma a suaves contemplações diante da natureza.

Noite clara, os familiares e amigos mais próximos reuniam-se junto a vasta fogueira, contavam histórias e divertiam-se.

Gwen se achava a sós com Ronan, que lhe chamou a atenção para uma confidência:

- Tia, eu vejo uma figura espiritual, uma moça que diz ser minha mãe. E eu sinto que é ela...

- E o que ela diz, meu filho?

- Que me ama de todo o coração, e que eu preciso proteger meu pai, entretanto, eu não me sinto bem ao seu lado. Ele parece culpar-me pela morte dela.

- Ronan, talvez o seu pai ainda esteja confuso com toda aquela tragédia, mas o ama, pode estar certo! Se, porventura, sua mãe está tentando dizer-lhe algo, precisamos analisar e ver do que se trata. Se, por acaso, dispõe de bastante coragem para enfrentar o desconhecido, confie em sua sensibilidade, meu querido.

A tais palavras, ditas em tom carinhoso, Ronan levantou o olhar e fez um gesto afirmativo. Ao deitar-se, Gwen sentiu que havia mais alguém em seu quarto. Notou um vulto. Sentou-se no leito assustada, a princípio, mas logo identificou a visitante.

- Ágata!

- Sim, Gwen, sou eu.

- Que saudade... Após tantos anos... Oh, meu Deus... Nem acredito!

Outra entidade apresentou-se. Era Brian, intercedendo:

- Filha, Afonso necessita de ajuda. A amargura dos primeiros tempos de viuvez foi substituída pela revolta e, sobretudo, pelo abuso do álcool, agregando outras mentes de iguais sentimentos e desregramen-tos. Ágata foi retirada do cenário terreno antes da hora programada, e contamos com Ronan para assegurar o equilíbrio e a paz aos familiares romanos. O menino deve retornar!

Ágata completou:

- Gwen, as últimas impressões da existência terrena e os primeiros dias transcorridos após a tragédia foram muito amargos e dolorosos. Apesar de nossa crença na imortalidade, aterrorizava-me a perspectiva de ter deixado meu filho órfão. Impressões penosas subjugavam-me. Após algum tempo, percebi a presença de vovô. Supus tratar-se de um sonho. Um esperançoso sonho... Foi aí que me reequilibrei. Mas, agora, preciso que transmita a Ronan, que ele vá e auxilie Afonso.

No dia seguinte Gwen conversou com Ronan e transmitiu-lhe as impressões e advertências que chegaram da dimensão espiritual, trazidas por Brian e Ágata. Embora tão jovem, ele possuía a maturidade necessária para receber e entender aquelas informações. Não tardou em solicitar que Douglas providenciasse seu retorno a Roma. O avô, também informado do acontecido por Gwen, logo tomou as providências necessárias.
Alba e Cícero almejavam que o neto fosse o herdeiro de tradições e glórias do império, que colocasse a sua vida ao dispor de Roma.

Afonso pretendia prepará-lo para a carreira de armas, que mais tarde deveria ser substituída pela política.Ronan, porém, mostrava-se descontente, não se adaptava.

Ágata via com lucidez a necessidade da aproximação dos espíritos envolvidos sob o mesmo teto naquela encarnação. Os fatos pretéritos revelavam-se a ela com clareza, que revia espiritualmente os aspectos determinantes dos sofrimentos da atualidade.

Em Afonso, rebelde e agressivo, apegado aos bens materiais, recebera ela a oportunidade de reeducá-lo, na tentativa de libertá-lo das ambições materiais, além da licenciosidade e desrespeito às mulheres.

Em pouco tempo de convívio, Afonso aprendera a devotar-lhe imensa ternura e admiração, além de sentir brotar de si o amor puro. Infelizmente, o tempo foi curto!

Quanto a Ronan, deveria exercitar o perdão e conduzir os demais através do exemplo. O assassinato que ceifara brutalmente a vida de Ágata prejudicara o planejamento espiritual inicial, retardando o necessário ajuste entre os envolvidos. Contudo, prosseguiam todos convocados ao desafio de se harmonizarem, cada qual no seu papel no lar.

Cultos estranhos e até cruéis ainda eram tolerados, com a adoração de deuses representados pelas majestosas estátuas, no empenho de mais poder, mais dinheiro...

Ronan, espírito amadurecido, aborrecia-se com a frieza e a banalidade dos aconselhamentos dos deuses locais, por intermédio de sacerdotisas dotadas de sensibilidade psíquica, mas sem nenhuma intenção virtuosa, apenas interesses materiais. Lembrava-se saudoso dos familiares irlandeses, que prestavam louvor a um Deus não representado por estátuas ou outros objetos, mas pela natureza.

Seguiram-se assim, os meses.

Sheila continuou frequentando o seleto núcleo que circundava a família de Afonso. A todos fascinava pela beleza exuberante, cercada por olhares de cobiça sensual.

Emílio desejava tê-la junto dele em definitivo. No entanto, desde que consumara a trama cruel, depois de tê-lo astutamente manipulado, feito seu confidente, íntimo e conivente, ela se afastara gradativamente.

Ele sofria, humilhado, rejeitado, espezinhado. Enciumado pelas aventuras amorosas dela, sentia-se traído. Sua índole apaixonada impôs-lhe intensa revolta. Cobrava dela as promessas que o levaram a cometer o crime hediondo em nome do amor.

Com o tempo, passou a ameaçá-la, dizendo que revelaria a verdade sobre a morte de Ágata, caso ela insistisse em rejeitá-lo.

Ardilosa, Sheila antecipou-se à confissão que ele pretendia fazer. Traiu o amante, entregando-o a Afonso e isentando-se totalmente de qualquer culpa, a afirmar que ele a ameaçara de morte se revelasse seu crime, quando o vira sair dos aposentos do casal.

Afonso enlouquecido de ódio contra aquele que supunha ser seu servo mais fiel, imediatamente mandou executá-lo, sem dar-lhe nenhuma chance de esclarecer a verdade.

Depois disso, Afonso passou meses pelos campos de batalha. O tempo avançava, não cogitava regressar ao lar, até que em certa noite sonhou com a amada Ágata, que lhe implorava uma aproximação com o filho, fruto de seu amor por ela.

Despertou com a certeza de que estivera com a amada esposa. Resoluto, dispôs-se a retornar ao lar e aproximar-se do filho, atendendo ao seu pedido.

Ronan crescia e precisava de um pai! Não poderia prosseguir rejeitando-o! Desejava resgatar o tempo perdido!

Infelizmente, não foi possível por em prática sua intenção.

Quando já se aprontavam para levantar acampamento, seu batalhão foi atacado por invasores em número bem maior, que não lhes deram chance de defesa. Thdos tombaram vitimados pelas espadas inimigas, inclusive Afonso.
Horas depois, Afonso meio alienado supôs desmaiar, como se o tremor febril que o seu estado lhe causara, o frio e a umidade prostrassem-no por completo, mas fora o golpe que o abatera.

Afastado do corpo, espírito errante tomado por terríveis angústias, ouvia passos e vozes de pessoas que desfilavam à sua frente, a pé ou a cavalo, de mulheres ou de soldados da infantaria.

As vozes, os ruídos dos passos, das ferraduras dos cavalos, o crepitar das fogueiras. Afonso olhava e ouvia tudo que se passava diante dele e à sua volta:

- O que houve? Que pesadelos são esses? Estou sem forças para me locomover...

Apoderou-se dele um sono invencível, mas as vozes dançavam em torno, persistiam e misturavam-se à dor que sentia. Estava muito ferido!

Só podia ser! - concluía -, e fazia esforços por se libertar daquelas imagens. E durante breve intervalo viu surgir entre todas aquelas figuras alucinantes, uma luz ao longe. Alguém que lhe parecera familiar, aproximou-se, e o chamou:

- Afonso! Afonso... Acalme-se.

- Oh! Quem é você? Finalmente alguém para me socorrer!

- Estou aqui para auxiliá-lo.

- É uma mulher? Pois fuja! Não vê que corre perigo neste campo, moça? Meus homens são terríveis! Se a acharem, será ultrajada, depois a matarão a golpes de espada! Vá, enquanto é tempo!

- Confie em mim, nada de ruim vai acontecer.

- Eu não a vejo...

- Embora tudo lhe pareça perdido, está tudo bem!

- Os gemidos, o cheiro de sangue, as gargalhadas... E essas moças? Estão com raiva! Parece que sou o alvo delas! Fui capturado! Estou em campo inimigo, será isso? E você? Por que se arrisca para me salvar?

- Escute! Algumas destas moças sofreram ultrajes e violações, outras desonradas e revoltadas, suicidaram-se por não poder conviver com o peso da humilhação.

- Não entendo... Preciso de minha espada para me defender. Estou desprotegido... Regozijam-se! Preciso estancar o sangue...

- Afonso, o sangue já cessou... Veja!

- Sim... Mas, exijo uma explicação sobre essas vozes.

- TUdo isso faz parte do passado! Foi alertado para mudar de rumo, mas ainda não estava pronto. Que importa agora? À medida que evoluímos, o egoísmo vai sendo extirpado, e o amor e o respeito, gradativamente, vão se instalando em nossos corações.

- Do que está falando? Essas palavras, o seu jeito, parecem ser de minha amada... Mas, ela se foi. E eu sinto-me esmorecer...

- Faz tempo que não a vê?

- Sim... Ela morreu! Ainda esta noite eu sonhei com ela. O que tenho feito de minha vida, senão multiplicar vítimas? E tudo pela ânsia do poder e reconhecimento! Nem ao menos, eu pude salvar a mulher amada de uma cilada sórdida. Depois rejeitei meu próprio filho... Mas, agora preciso me manter vivo a todo custo!

- Está vivo, Afonso! Venha! Levante-se! Não me vê?

- Eu ouço sua voz ao longe, mas sem nada enxergar.

Colhido por entidades infelizes empenhadas em apossar-se dele, o envolviam em escuras vibrações.

fonso perdeu a consciência. Ao retornar, tentou falar ora com um, ora com outro, sem qualquer resultado. E assim, perdeu a noção das coisas, caindo em sonc profundo. Brian que acompanhava Ágata fitou-a e esclareceu:

- Fez o que pôde, minha filha! Quando nos cegamos à luz, o tempo nos fará enxergar as verdades das quais fugimos. O pouco contato que teve foi uma vitória. Afonso se debate no sofrimento criado por ele mesmo.

- Sei bem o que se passa, vovô, mas gostaria de ajudá-lo.

- Ele não a enxerga, minha filha, somente conseguiu ouvir uma voz, pelas vibrações amorosas que permutam, nem mesmo identificando-a claramente com a sua, em face dos impedimentos vibratórios estabelecidos por ele mesmo. Entretanto, o afeto sincero o beneficiou. O auxílio mais efetivo virá com o tempo. Nosso irmão fixou a mente atribulada em faixas vibratórias tão baixas, que é praticamente impossível manter uma aproximação, resta-nos aguardar as transformações que certamente virão!

- E os que estão à espreita? Afonso está, então, entregue à própria sorte, vovô?

- Filha, o Criador Supremo não desampara nenhum de seus filhos e qualquer que sejam nossos desvios, serão sempre transitórios. Quando houver condição, Afonso receberá o auxílio providencial. Benfeitores de elevadas condições traçam diretrizes e supervisionam maneiras diversas de prestar socorro a irmãos em circunstâncias similares a dele.

- Mas, vovô...

- Igualmente ao que ocorre na crosta, em que encarnados e desencarnados agrupam-se com objetivos determinados, legiões sombrias agrupadas serão inevitavelmente reeducadas no desenrolar dos séculos até que se convertam ao bom caminho. Quando chegar o momento, requisitarão a nossa humilde colaboração. Agora, venha comigo!

- Está bem, vovô.

Se, porém, a Afonso fosse permitido devassar os painéis do mundo invisível que o rodeavam, notaria que espíritos mal-intencionados e vingadores, ali estavam ao seu lado, alimentando a sua mente de ações ameaçadoras, que ele absolvia qual indefeso e frágil homem; notaria, também, uma deusa, um anjo bom, a quem tanto amara, e que docemente o ampararia nos dias promissores do futuro.
Na Espiritualidade, Afonso mantinha-se flagelado pelo remorso. Carregava o sentimento de estar mergulhado em séculos de agonias. As últimas impressões da morte subsistiam ainda, abatendo-o em indefinível consternação.

Fora informado por algozes sobre o seu estado de desencarnado, e embora não acreditasse, a notícia somente aumentou o seu estado de perturbação. Sem entender e aceitar a própria condição, peregrinava em lágrimas, dominado por lastimável excitação, confuso, a reclamar seus supostos direitos: se estivesse de fato morto, onde então, estaria sua Ágata? Em determinados momentos, convencia-se do desprendimento de seu corpo carnal. Foi esclarecido que somente uma mudança de estado poderia aproximá-los, ficando enlouquecido por achar-se impotente.

Os feitos cruéis que cometera afloravam à sua mente, com transparência e intensidade, sentindo-se atado pelas cadeias do ódio, era, pois mais uma alma penada a transitar pelos corredores do tétrico palácio.

Ágata acompanhava o caso e confessou a Brian que almejava cooperar, solicitando que a levasse até Afonso, entretanto o pedido fora negado por ordens superiores. O avô elucidou-a que a união de um homem e uma mulher na Terra constitui um dos mecanismos mais eficazes de aprimoramento do espírito. Que no tempo certo seria autorizada a interceder a seu favor novamente, com a possibilidade de formar um novo lar, entretanto deveria ter paciência. Caso ela aceitasse, futuramente, seguiría com ele rumo a novos aprendizados terrenos, restabelecendo a aliança fraterna com o núcleo da família espiritual a qual os dois pertenciam.

O planejamento original foi retardado, mas não aniquilado.

O tempo daria conta de realizá-lo!

Aos doze anos Ronan adoeceu gravemente. Alba permanecia em seu quarto procurando aliviar-lhe os sintomas da enfermidade com ervas e chás caseiros. O médico de confiança o havia medicado.

Expressão sofrida, a febre prolongava-se ao longo dos dias. Ronan encontrava-se visivelmente sem forças:

- Alba - disse Cícero abalado necessitamos de outro médico com urgência.

- Vovô, se me permite..., eu sonhei com mamãe. Disse-me que meus tios poderão me curar.

- Lá vem você com essa história, Ronan. Se alguém pudesse curá-lo, os médicos que aqui estiveram já o teriam feito! Quanto à sua mãe, lembre-se: ela morreu!

- Não, vovô, foi minha mãe que veio me visitar. E se pediu que o senhor providenciasse a vinda de meus tios, é isso o que deveria fazer para me salvar! O meu mal não é físico, foi o que ela disse. Depois, não reclame aos deuses!

Cícero e Alba, já bem idosos, receosos de seu estado, ponderaram o apelo do neto. Enviaram emissários, solicitando ajuda aos familiares, pois tudo já fora feito e o menino só piorava.

Gwen e Ryan, ao serem informados, partiram imediatamente a Roma.

Chegados da longa viagem, já no palacete em Roma, no quarto do sobrinho, passaram a cooperar ativamente com Brian, com cautela, pois Gwen podia constatar a fúria das entidades mal-intencionadas que se mantinham em posição contrária a deles.

O ambiente extremamente carregado dificultava a ação da Espiritualidade benfeitora. Impossível retratar fielmente os fluídos menos simpáticos que provinham daqueles irmãos, na verdade, irmãs, pois em maioria, eram espíritos femininos. Brian destacava-se entre os demais benfeitores.

O grupo de entidades perversas aparentemente estava sob o comando de transtornada mulher. A cólera extravasava em palavras rudes e vulgares. O aspecto deformado correspondia à sua atitude mental. Exalava odores repulsivos, e mais de dez parceiras estavam à sua volta, numa arruaça ensurdecedora. Naquela noite, nas horas de sono, Brian dirigiu-se a Gwen, convocando-a ao serviço:

- Filha, não estranhe, nem se surpreenda diante das lições que permitem crescimento e elevação espiritual. Resguardemo-nos na oração e confiança.

- Mas, vovô, Ronan é somente uma criança inocente! Por que vibrações tão odientas em torno dele?

- Ele não está desamparado. Para todas as ocorrências há explicações, e a injustiça não tem vez na lei universal. O que acontece é um desencadeamento de ações e reações. A psicosfera aqui reinante, irrespirável, é formada por adversários pessoais de nosso infor-

tunado Afonso, que os tem desde vivências anteriores; outros procedem de espíritos ligados afetivamente a quem ele prejudicou mais recentemente. Depois do extermínio do corpo físico, ele ainda circunda pelas dependências do palácio, sofrendo o cerco de tais entidades. Nesse campo magnético, há inevitáveis choques vibratórios. As sucessivas ondas prejudiciais estão alcançando Ronan, desarticulando suas defesas orgânicas.

- Vovô, mas como fazê-los recuar?

- Filha, esperamos realizar algo, ministrar-lhes alguma assistência. Faça uma prece em voz alta, pois uma vez encarnada, tem mais condição de acessá-los, em função da faixa vibratória de fluidos materiais em que ainda se encontram. Ressalte a necessidade do perdão, o cultivo dos pensamentos positivos, das idéias enobrecedoras, das aspirações otimistas, facultando-lhes a renovação das paisagens íntimas.

E assim foi realizado.

Os dias sucederam-se, e oportunidades benditas reacenderam a chama da fé no coração daqueles sofredores já tão amargurados. A assistência fez-lhes despertar, predispondo-lhes a uma viagem de volta, de vida nova, que lhes era oferecida através do serviço sugerido por Brian, encarregando-se de fazer florescer a esperança, brotar e desdobrar-se a paz. As vibrações benfazejas propiciaram reflexões sobre a ociosidade reinante entre eles, despertando-lhes a disposição à libertação e ao crescimento. E dóceis à inspiração superior, diminuídas as dificuldades vibracionais, abriu-se--lhes, de certa forma a visão, sintonizando-os, naturalmente com Brian, recebendo então, o auxílio efetivo.

Algumas daquelas entidades ajoelharam-se diante dele, outras se mantiveram resistentes, outras ainda, apavoradas, desapareceram. O benfeitor acercou-se mansamente das que ficaram. Saudou-as em nome de Deus. O ambiente encheu-se de luz espiritual, quase tudo serenou.

Aos prantos, algumas pediram socorro, mãos caridosas confortavam, palavras de paz e carinho derramavam-se, de modo que a maioria delas, mesmo não o vendo, ouviam e sentiam que estavam sendo auxiliadas. Uma delas, de olhos esbugalhados, cabelos em desalinho, feição carregada, extremamente magra, enraivecida como limalha ao imã, resistia. Sob o véu da invisibilidade buscava vingar-se de Afonso por meio, especialmente, do menino. Desesperada, a moça gritava, ameaçava os invasores. Indignada com as absurdas ponderações, na impossibilidade de alterá-las, acalmou os ânimos exaltados. Finalmente aquietou-se! Imensa sensação de alívio assaltou-a e lágrimas vieram copio-sas e mansas. Caíram as vestes sujas, amarrotadas, alvas sedas a envolveram, mudando sua roupagem espiritual. Teve o seu rosto transfigurado. Igualmente, a cena se desfechou com as outras companheiras ainda resistentes. O grupo asserenou-se.

Ryan, então, aproximou-se e colocou a mão na cabeça de Ronan. Gwen, em voz alta, orou com sentimento, para que o amor e a fraternidade fossem o i clima, e o perdão a chave que abriria as portas de nova biografia. Suplicou que reconsiderassem tudo o que, porventura, houvessem feito contra elas, rematando: - Encerramos hoje um ciclo. Graças ao divino í amparo do Alto conseguiram superar sentimentos de revide. O Criador forneceu-nos recursos preciosos para | os resultados ditosos que ora colheremos. Qualquer mal por nós realizados, cabe ao Criador programar
o reajuste, o reequilíbrio. Abrem-se agora novos horizontes que lhes cumpre saber utilizar. É indispensável refazer caminhos. A vigilância e a humildade constituem roteiro de segurança; a oração, a rota do equilíbrio. Adiante, as claridades superiores lhes mostrarão o caminho! No momento, a moça que comandava as demais caiu em si. A antiga obsessora implacável de Afonso e as demais, reunidas na mesma faixa, compreenderam que Ronan não era responsável pelo triste desfecho que tanto as fez sofrer. E que, para o seu próprio bem, deveriam libertar-se definitivamente de tudo que as prendessem ao algoz desencarnado, seguindo então, acompanhadas pelos benfeitores que as acolheram. Ronan se recuperou a olhos vistos, mostrava-se feliz. Com a sensibilidade mais aflorada, agradecido à sua mãezinha, que do invisível velava por ele, demons-
trava espontânea afinidade pelos tios, reconhecia que legítimos laços de afeto e simpatia os uniam.

Os servos espalharam boatos que o menino vira o espírito de Ágata e que os tios da Irlanda o haviam curado. Alba e Cícero ficaram gratos, pressentiam que não teriam muito tempo de vida. Necessitavam eleger alguém que se responsabilizasse pelo futuro do neto.

Sheila cada vez mais tentava se aproximar, arregimentando estratégias com sua conversa fácil e sedutora em torno do núcleo, colocando-se sempre à disposição. O instinto caprichoso e a ganância permaneciam como chagas morais expressivas.

Ronan, porém não se enganava, mostrava-se ar-redio, mantendo-se indiferente ao zelo dela, insistindo em partir com os tios maternos, percebendo claramente os hospedeiros invisíveis em torno.

Ágata, em espírito, nas horas de sono apresen-tou-se a Gwen, grata pela sua presença, dizendo-lhe que na trajetória da família espiritual, a ascensão de alguém a todos eleva, e qualquer queda a todos aflige. Comentou ainda que temia pela vida de Ronan. Implorou que o levasse com eles, pois nenhuma in-tercorrência havia amoldado o caráter de Sheila e as estruturas de sua personalidade, a prepotência moral e o orgulho que lhe constituíam marcas e reminiscên-cias do comportamento antigo, arbitrário e ambicioso.

Gwen, ao despertar, recordou-se da promessa de zelar pelo sobrinho, trazendo o sentimento que fosse o que fosse, o levaria com ela. Cícero e Alba, elucidados nas horas de sono, aceitaram serenos a transferência de Ronan à Irlanda, com o entendimento que era para o seu próprio bem.

Em mais alguns dias, despediam-se os três do núcleo familiar, seguiram a Dublin, como Ágata havia solicitado do Além, deixando o cenário romano, ao retorno às atividades irlandesas que haviam ficado para trás.

CAPÍTULO 18

Os anos escoaram-se rapidamente e, com eles, as crianças, assinalando os mais variados ensinamentos, tornaram-se belos jovens. A paisagem em Dublin, a crença, os hábitos acentuavam-lhes os ideais relevantes e sentimentos nobres. Histórias emocionantes, argumentos encantadores eram aproveitados pelos poetas, músicos e trovadores - os bardos, a entreter a todos. Geralmente em versos, os contadores de dramas e histórias verídicas, como em um livro, transmitido pelas palavras, narravam os grandes dramas de amor, os feitos de guerra, e principalmente, os princípios da crença, tão somente memorizados, não escritos. Túdo isso se passava tanto no recinto doméstico como fora dele.

Ronan, desde que chegara à casa dos avós maternos, encantara-se com aquela vida. As atividades que de início apresentaram-se novas para ele, o motivaram e o entusiasmaram.

Que diferença encontrara! Em Roma, sentia-se navegando contra a maré de suas crenças e valores, e ao contrário de lá, ali se sentia em casa! Agora já se percebia ajustado ao seu tempo e ao seu lugar! Após todos aqueles anos, lidava de forma natural com os dons, entretanto, à noite, ao receber a visita materna, surpreendeu-se:

- Filho, sou eu, Ágata, sua mãe. Querido, você precisa retornar a Roma, pois seus avós Cícero e Alba, idosos e já cansados, estão no fim da existência terrena. Aproveite a paz do momento para despi-los das ilusões do mundo transitório, preparando-os para a passagem. Eles não se conformam com a perda de seu pai, e sentem em demasia a sua ausência. Vá, filho! Esclareça-os! Ajude-os!

Aquelas palavras fixaram-se em seu íntimo.

Ronan, seguindo a orientação do invisível, retornou a Roma.
E o tempo seguiu, inexorável.

Nos últimos meses, Douglas preocupava os familiares. Manifestara nele febre contínua e resistente aos medicamentos caseiros, bem como tosses persistentes com escarros sanguinolentos, sinalizando grave enfermidade. Ele intuía que sua vida rapidamente se escoava. Não permitia que as filhas se afastassem dele.

Falava-lhes, comovedoramente, de todas as iniciativas que deveriam ser tomadas.

Na sua derradeira manhã, lúcido, confessava-se aliviado. Ao bafejo de presenças espirituais conhecidas, chegava a conclusões rápidas e profundas. Dormia pouquíssimo, em vista das aflições ininterruptas; alimentava-se já com dificuldade e as pernas inchadas impediam-lhe até movimentos leves. Gracie reanimou-o, comentando sobre a visita providencial de Norah, a irmã mais velha, que chegara de Meath.

O enfermo procurou afastar os pensamentos tristes e sorriu buscando demonstrar bom ânimo à família. Saudava a filha, quando Brigite, carinhosa, se aproximou com um copo de água e o levou aos lábios do esposo. Ele bebeu em goles sentindo dores, pois tinha a garganta contraída. Então, por sobre os ombros da esposa, viu Gwen, que se aproximou com os olhos claros voltados para ele. Gwen trazia a expressão marcada pela presença de lágrimas, as quais não conseguia conter. Douglas levantou a mão trêmula e tomou a da filha, e ela ajoelhou-se ao seu lado para ouvi-lo dizer:

- Filha, meu tempo na matéria acabou - e direcionando o olhar à esposa, prosseguiu: - dou graças ao Criador, por você, Brigite, ter me dado as filhas que deu.

- Sou eu quem deve lhe agradecer, meu querido.

Brian, em espírito, estava presente, juntamente com Ágata. Os familiares, comovidos, postaram suas mãos sobre a cabeça de Douglas, o que intensificou os raios de luzes circundando seu tórax.

- Filhas, eu muito desejei recuperar minha saúde para continuar mais um pouco na convivência física e no trabalho nesta nossa caminhada familiar, mas o Criador, certamente tem outros desígnios.

- No entanto, papai, na medida de nossas necessidades e merecimentos, sabemos que o amor divino tudo pode - disse-lhe Norah.

- Vocês sabem que é durante o sono, que mais nossa alma se aproxima Dele, e que neste estado, muitas vezes se tem notícias do que está por vir, sem dúvida, por que então gozamos de uma liberdade integral. Na noite passada - prosseguiu -, sonhei que meu pai vinha me buscar. Ele chegou afetuoso, tomou-me nos braços e depois vi minha mãe, além de Ágata.

- Papai - disse Gwen já compreendendo a proximidade do desenlace dele -, eles estão aqui agora confirmando que os laços de amor continuam após a passagem como força maior do Universo.

- Sim, creio nisso, minha filha. Lutem por manter a nossa crença, na qual tudo se esclarece e tem explicação. Esperarei por cada uma de vocês. Agora a dor está forte... Talvez sejam os sintomas da dissolução do corpo. Não quero que me vejam assim...

Órgãos enfraquecidos, a expressão de Douglas sofrerá modificações mais intensas. Os lábios quase entorpecidos tentaram leve movimento inexpressivo. Seu coração mostrava-se perceptivelmente mais fraco, embora o ritmo se acelerasse. Gwen curvou-se então sobre o pai, e tomou-lhe o rosto gelado e úmido nas mãos. Atraiu para os seus olhos, os olhos arregalados dele, e em atitude mental de júbilo, murmurou hipnoticamente:

- A agonia passou, papai. Olhe para mim, o senhor não sente mais dor... Vá em paz, ficaremos bem. Acredite! Siga com o vovô. Cumpriremos o que nos cabe. Vá em paz...!

E repetia, repetia. Douglas via os olhos da filha e ouvia-lhe a voz. Os olhos dela brilhavam para ele como um raio de luz que guia o navegante. Desta maneira, com a sensação de que era delicadamente embalado por uma voz suave que o amava, ele sentiu-se flutuar, viu imagens, mas sem dor, com uma impressão de leveza e liberdade que se apoderava dele. O momento fora de júbilo e paz. Ele sorriu, e a expressão parecia ser retribuída por alguém, que de algum lugar longínquo vinha ao seu encontro, num momento impregnado de ternura, amor e compaixão:

- Filho! Venha... - disse-lhe Brian que se preparava para arrebatar Douglas. Havia outros espíritos familiares e amigos, conservando-se em atitude de prece.

- Há uma falange de espíritos familiares, vamos orar para que papai siga em paz - disse Gwen, cujas lágrimas teimavam em cair.

Douglas cumprira, e muito bem, a missão a ele confiada, e aos presentes restavam a gratidão e o afeto que o tempo não destrói. Ele então entregou sua alma aos familiares desencarnados.

Os meses passaram monótonos.

Em Roma, Ronan sentia-se contrariado. As discussões domésticas tornaram-se rotineiras. Alba e Cícero experimentavam profunda angústia quanto ao futuro do neto, cobravam que assumisse as funções reservadas a ele, de guardião das tradições e administrador do patrimônio da família.

O dia estava muito quente. O sol abrasador despejava nos céus de claro azul, sem nenhuma nuvem, mais e mais raios de muito calor e luz. A terra ressequida se estendia intensa em cores e poeira, buscando o horizonte distante, sem fim. Após desentendimentos domésticos, Ronan saiu desnorteado e com idéias confusas. Seguia em penoso silêncio atraindo poeira que se apegava às vestes. Avançava sempre em seu cavalo, lenta e penosamente. Os pássaros estavam imóveis.

De repente, inexplicável mudança no tempo. O céu se fizera quase negro. Com os trovões regendo os ventos, as árvores se agitavam. O barulho, por sua intensidade e início repentino, chegara assustando. Por sobre as montanhas ressoavam, ensurdecidos, os estrondos. O vendaval se intensificou em minutos e o granizo transformara-se em golpes contra seu corpo. Trazidos pelo vento, escutava o que lhe parecia sons de animais, vozes, assobios intensos... O rapaz parou sob imensa árvore para proteger-se. Os trovões contínuos e ensurdecedores envolviam-no. Depois veio mais chuva. Uma intensa chuva com vento e estranhamente, muito frio! Sentiu-se solitário, sem forças, como jamais se sentira. Era um refém das forças sobre-humanas da natureza. Os relâmpagos inflamados faiscavam em seu rosto. Queria meditar, pensar em seu futuro, tomar a decisão do que fazer, não sabia ao certo que caminho seguir. E a tempestade, movida por uma lógica estranha, aumentou mais ainda!

Lembrou-se de uma gruta próxima, dirigiu-se a ela. E lá ficou. Perdeu a noção do tempo e constatou, verdadeiramente, que jamais presenciara semelhante temporal. Ronan acomodou-se a uma grande pedra e meio que adormeceu. Sonhou com um ancião. Viu Brian, o bisavô, que não conhecera naquela existência ao lado de seu avô Douglas. O sonho fora confuso. Pareceu-lhe que um véu caíra de seus olhos, como se ele houvesse conversado com as duas figuras. E, sem entender o que sucedia, fixou-se em Douglas, que em espírito, dirigia-se ao neto:

- Filho, eu não sei se conseguirá registrar as minhas palavras. Eu fiz a passagem, abandonei meu corpo. Sua tarefa agora é novamente entre os nossos, na Irlanda. Coloque todo o amor ao aprendizado para poder ajudar mais, e as portas da natureza se abrirão para suprir as suas necessidades de conhecimento. Empenhe-se em preservar o nosso sagrado tesouro. Sua mãe tinha razão, você se propôs, atendeu-lhe a solicitação e fez o que pode por seus avós paternos. Abriu-lhe os olhos! Agora, a sua batalha será silenciosa e anônima, pessoal e intransferível. O processo exigirá desapego e renúncia.

A voz silenciou, o rapaz olhou em volta, procurando inutilmente alguém familiar. Parecia ser seu avô.

Aos prantos caiu de joelhos, quis agradecer pela experiência que passara, mas sumiu-lhe a voz e obscureceu seu raciocínio. Somente conseguiu chorar e agradecer. Foi então que teve a certeza de ter visto o avô, que lhe falara tão claro e naturalmente, que a orientação mais se assemelhava a velho projeto. Sim! Entendera! Seu avô provavelmente se desligara do corpo carnal durante as horas de sono e veio ao seu encontro! Era isso! - pensou o rapaz -, só poderia ser isso...

Naquela madrugada, já em casa, não conseguiu adormecer. Em sua mente, não passava a hipótese do desencarne de Douglas, mas a orientação recebida veio ao encontro de seus anseios. Sentia em sua intimidade que não pertencia àquele mundo, e que o seu lugar era na Irlanda. Reafirmava tal pensamento, quando notou a presença de um ancião, era Brian, seu bisavô, que o convidou a um repouso tonificante. Logo em seguida, dormiu profundamente.

Na manhã seguinte, conversou com Cícero e Alba sobre suas intenções, que igualmente intuídos pela Espiritualidade, consideraram inútil continuar forçando a situação, e aprovaram o intento do neto de partir em definitivo para a Irlanda.

Menos de um mês foi necessário para os preparativos da viagem. O jovem tomara todas as providências com dedicação e esmero, auxiliado de perto pelos avós paternos que o abençoaram.

Com a chegada de Ronan em Dublin, as efusões foram ruidosas por parte dos familiares, cujos corações naturalmente se franquearam a alegria do momento. A existência em Roma continuou a se desenrolar num turbilhão de perturbações para Sheila, ainda que a vida lhe houvesse oferecido inúmeras chances de mudança.

Cícero encontrava-se enfermo. Mantinha-se na expectativa de receber notícias de uma serviçal que fizera delações, entregando-lhe conspiradores que afirmaram, foram cúmplices de Sheila no triste assassinato de Ágata. Procurou-a, e por que ela não apareceu, nem os demais acusados, Cícero percebeu o que realmente se passara. Impossível, seria, efetivamente, que permanecessem no palácio, uma vez desvendado o crime.

Em desespero, fogem. Sheila retorna à Irlanda. Impressionantes crises de nervos sucederam, tornando-a presa de terríveis forças obsessoras que se avolumavam. Emílio, em espírito, vencido pela insânia do ódio, imantava-se a ela, que o infelicitava, assumindo indébita posição de cobrador, incidindo, por sua vez, em erro não menor. Vagava por muitos lugares da dimensão espiritual, regiões desconhecidas de miséria e dor, de sofrimentos atrozes, contudo, na maior parte de seu tempo, mantinha-se à espreita de sua presa, julgara-se enlouquecer à procura daquela que achava ser sua inimiga mortal. Em sua insanidade, avaliava que eliminando Sheila, a traidora, ele teria paz novamente.

Afonso, em espírito, igualmente estava próximo, e não lhe permitia tréguas, revolvendo-se na lama, num ambiente triste, gelado e nevoento, formado pelas mentes em desequilíbrio, cujas vibrações entrelaçavam-se. Trocavam acusações terríveis, explosões de ódio, ameaças repetiam-se contra eles próprios como se num círculo fechado. Amontoavam-se irmãos desencarnados desvairadamente na atmosfera, cujas mentes se alinhavam num mesmo diapasão, refletindo os sentimentos conturbados que ali imperavam. Nossos irmãos desencarnados, seres vivos, somente despidos da matéria, eram tão sofredores quanto a encarnada, esperando o cair em si, e consequentemente, o auxílio que um dia chegaria.
Ora, muito tempo após a fuga, Sheila, combalida e desolada, um dia surpreendeu-se transitando pela região onde sua família residia. Sentia-se para lá arrastada, nem mesmo sabia como conseguira chegar. Reconhecia-se fatigada, excessivamente desanimada, aturdida, humilhada, e com fome. Mas, o certo era que - meditava ela mesma enquanto caminhava -, passara pela vida sem valorizar as pessoas, sem dedicações, nem afetos...

Durante a infância e a adolescência repugnou pessoas humildes, recusou qualquer opção de fé, tramou situações prejudicando pessoas e sempre se julgou invencível. Agora ali estava, sem ter para onde ir, com quem se socorrer, cheia de dor e faminta. Assim Caminhava, caminhava..., pela mesma estrada solitária e agreste, que há alguns anos transitara em rico transporte rumo aos planos sórdidos e à poderosa Roma.

Logo à chegada, procurou seus familiares. Foi rejeitada, e assim sentiu-se efetivamente sem rumo. Não tinha para onde ir, o que fazer, a quem recorrer. Ibrnou-se um vulto triste a vagar pelas ruas, tendo por abrigo lugares públicos ou abandonados e até mesmo grutas escuras e úmidas, que se tornaram, então, seu endereço. Triste e enfermiça, agitada e nervosa, pensou em Ryan, quem sabe ele pudesse socorrê-la? E ficou pelas imediações onde pudesse encontrá-lo. Certa feita, ele retornava de seus afazeres na vila. Estranhou a presença daquela mulher desfigurada, que propositadamente se lançou à frente de seu cavalo. Desceu para socorrê-la, quando reconheceu Sheila:

- O que houve com você? Por que está vestida desta forma?

- Preciso de ajuda, Ryan. Eu fugi do palacete de Roma, e meus pais recusaram-se a me receber. Estou vivendo ao relento - disse, aos prantos.

- Certamente não deve ser ao acaso... E o que pretende?

- Se ainda resta um pouco de piedade em seu coração, ajude-me. Pelos velhos tempos! Estou sendo procurada, não tenho a quem recorrer. Sei que é capaz de perdoar, estou desesperada!

- Você foi cruel, Sheila. Desconfio que esteja por trás da morte de Ágata. Está colhendo o que plantou.

Se não tem culpa, pare de se esconder... Se entregue, e prove a sua inocência!

- Eu não preciso provar, pois sou inocente! Eu sempre o amei. Aceite-me em seus braços, dos quais eu jamais desejei sair.

Calou-se, fitando-o, olhar lascivo, a enlaçá-lo.

- Contenha-se! - exclamou Ryan -, você enlouqueceu?

- Perdoa-me. Não há ninguém aqui além de nós. Acolha-me em algum lugar, e jamais se arrependerá.

- Esqueça-me! Eu amo a minha esposa.

Sheila, contrafeita, permanecia em súplicas com os olhos baixos, não se atrevendo a levantá-los. Falava por entre soluços, percebeu que ele estava irredutível. Num gesto extremado, soltou o fecho do vestido que caiu ao chão aos seus pés. Ele aflito, afastou-se, montou no cavalo. Quando já se retirava, escusando-se dos comportamentos extravagantes que dirigiam aquela mente atormentada, escutou uma gargalhada nervosa:

- Eu prefiro a morte a ser mais humilhada! Utilizarei veneno! Somente a morte será a solução para a minha vida! E você será o culpado já que não me compreende e me abandona!

- Você está louca! Completamente louca...!

Ryan, consternado, reuniu os familiares, e informou o triste episódio que se passara. Contou-lhes cada detalhe. Solicitou que mantivessem distância. Os dias sobrevieram. Sheila continuava sem ter onde ficar. Seu estado de fraqueza era grande. Sentia-se frágil e insegura. Estava só no mundo! Muito andara em
busca de um abrigo, até que, sem saber como, acabou chegando a um casebre abandonado.

E a Espiritualidade atuava.

Brian e Ágata, em espírito, conduziram Gwen, Ronan e Marven, o preceptor, ao sítio improvisado onde Sheila instalou-se. Embora a moradia estivesse desocupada há muito, havia fumaça, o que lhes fez aproximar-se. Entraram. Habitação muito simples com toscos móveis de madeira que se dispunham no interior da residência abandonada.

Quem ali chegasse veria um fogão improvisado, uma mesa, duas cadeiras, prateleiras de tábuas rústicas e por fim um leito. Túdo sujo, empoeirado e cheirando a mofo! Os três, quando atraídos para aquele lugar, nem desconfiavam o que se passaria em seguida. Sheila encontrava-se no chão, febril, sufocada, debatendo-se, suplicando por socorro, chorava e praguejava. Retraía-se de medo. Havia um cerco organizado, energias desequilibrantes e perturbadoras jaziam em torno. Emílio, em espírito, dominado pela ira, jogava-se sobre ela, atacando-a com furor. Quanto tempo ali permaneceu sozinha? Não saberia dizer! Quando deu por si, ouviu vozes, abriu os olhos. Viu o ancião, Gwen e Ronan. Sheila tentou levantar-se, não conseguiu. E, Emílio, vibrações furiosas, prosseguia:

- Sua vadia! - exclamava, esbofeteando-a mais e mais.

Embora a pobre parecesse não sentir conscientemente os golpes, encolhia-se instintivamente. Os três recém-chegados naquela atmosfera sinistra sentiram-se mal ao defrontar-se com tão deplorável cena. Gwen começou a sentir arrepios gelados que percorriam seu corpo seguidos de forte dor na cabeça.

Acolhendo a sugestão mental de protetores espirituais, venceu a vontade de sair imediatamente dali. Não só ali permaneceu, como se aproximou da enferma, mesmo detendo a certeza da presença, naquele local, de visitantes espirituais mal-intencionados. Existia igualmente a presença do protetor espiritual a velar pela moça e que jamais se apartara dela. Tentava sempre ajudá-la, mas não conseguia devido à barreira posta pela vontade insistente de Sheila em seguir sempre pelo caminho mais fácil da inconsequência.

Brian, através da intuição, esclareceu-lhes as hábeis manobras de que se utilizavam os espíritos vingativos, conclamando-os à vigilância e à oração, na tentativa de aliviar a atmosfera densa formada pelo círculo de ligações deploráveis e pensamentos desarticulados em tornada enferma; um verdadeiro emaranhado de perturbação em que se transformaram aquelas pobres consciências envolvidas.

Silêncio pesado, desconcertante, observava-se que o corpo esbelto e o belo rosto da moça se modificaram, encontrava-se fraca, olhos fundos, cabelos desalinhados. A poucos metros de distância, mais alguém a observava. Era um rapaz bem trajado, elegante, de tez pálida e cabelos castanhos. Afonso, em espírito, com vibração deletéria, igualmente encontrava-se presente e a dominava, definindo um quadro que poderia ser descrito como verdadeira possessão:

- Não a deixarei! - exclamava enfurecido, voltando-se a ela que em seu torpor não o ouvia-, nem a você, nem a Emílio! São dois criminosos que merecem corretivo! Mas você é bem pior que ele! Odeio você, com todas as minhas forças, por que ainda sofro e como eu sofro... Tirou-me Ágata! Hei de fazê-la padecer, pois desgraçou a minha vida! Hei de atormentá-la para sempre!

- E quanto a você, traidor - Afonso gritava exaltado, olhando em outra direção -, não se aproxime! Esta presa é minha, cuja ruína será por minhas mãos! E não pelas suas!

Era a Emílio que direcionava as suas palavras, cujo olhar naquele momento era de desespero, de medo, como um animalzinho acuado, diante de um perigo. Afonso, sem conter-se, avançou para ele aos socos.

- Maldita! - exclamava Emílio direcionando-se agora a Sheila -, mil vezes maldita! Destruiu a paz do palácio! Destruiu a minha vida! Minha família! Desgraçada! Há de me pagar!

Sheila, desnorteada, com a cabeça fervilhando, rodeada pelos adversários invisíveis, implacáveis, encontrava-se encolhida no chão, disputada a ferro e fogo. Era a astúcia dos vingadores lutando contra as reservas de forças da enferma, que cedia. Com a presença deles, começou a recordar da tragédia ocorrida com Ágata, das manipulações em torno dos familiares de Afonso, das traições e tudo o que fizera contra Emílio. Ao despertar destas lembranças, deixou-se envolver pelo sentimento de culpa, gerando o remorso, e isso a colocou sob suas influências diretas e de outros, que desapiedados, igualmente, não lhe davam trégua.

Marven e Ronan acomodaram-na no leito. Os presentes conheciam o fenômeno que se verificava no desolador ambiente, resolvendo tentar alívio à sofredora pelos métodos que possuíam. Oraram em súplicas ao socorro divino, quando Marven dirigiu-se à enferma, interrogando-a, mas em verdade, dirigindo-se ao obsessor:

- Quem é você? Por que procede dessa forma desumana com ela, meu caro irmão? O que vai ganhar com isso?

Afonso, que se servia das faculdades transmissoras de Sheila, adequou-se melhor e respondeu:

- Com que direito vem me interrogar? Por que devassar enigma que não lhe pertence?

- Com o direito de auxiliar a você, a ela e a todos os presentes, pois a mim não é mistério a realidade que você vive, e o que se passa entre você e ela.

E o diálogo foi breve. Marven sabia que não era vantajoso conversar com a entidade perseguidora por intermédio de Sheila, pois não era veículo recomendável, visto tratar-se de uma enferma afeita as irradiações vibratórias inferiores do perseguidor. Então, posteriormente, daria sequência à conversação através de Gwen, que oferecia maior garantia e êxito ao processo.

Momentaneamente, o que ocorreu foi proceder daquela forma. Sheila estava muito fraca, sem perceber a presença de enfermeiros do Além, espíritos dedicados que a auxiliavam de extrema aflição há dias. De certa forma, a enfermidade fora providencial, obstruira os planos suicidas dela, estava sem força para praticar o que idealizara, evitando um mal maior. E, envolvida em vibrações doentias, debatia-se aflita. A situação doía-lhe no íntimo, e dominada pelo desequilíbrio, dizia a si própria, o que achava ser a solução para sua alma aflita: - Sofrerei pouco! Tão logo consiga, libertarei-me das trevas em que estou vivendo.

Sendo assim, Gwen organizou o recinto, ateou fogo à lenha seca, dando início ao preparo de um caldo. Marven e Ronan ausentaram-se em busca de mais água e alimento, ela quebrou o silêncio:

- Sheila! É de vital importância que entenda que estamos aqui para ajudá-la. Estamos a sós, agora. Tem algo a dizer?

E a enferma, em estado aflitivo, confessou que fora responsável pela morte de Ágata, narrando com frieza os detalhes, inclusive revelando o nome do cúmplice do crime. E ela prosseguiu:

- Contei a Ágata sobre o meu romance com Afonso, que de início depositou aos meus pés tudo o que a fortuna poderia proporcionar, mas que logo se confessou perdidamente apaixonado por ela, rejeitando-me desde então! Ágata e eu tivemos uma grave discussão, e eu resolvi me vingar.

- Como se vingar?

E explicou o sórdido plano premeditado. A ouvinte estarrecida, até então longe de suspeitar o abismo de pensamentos e sentimentos que devoravam a pobre alma enfermiça, intercedeu:

- Sheila, tudo temos suportado por entender que tem agido como uma criança inconsequente e mal--educada. Mas, como pôde ser tão cruel? Vingar-se através de uma criança?

E Sheila, fria, esclareceu que o plano se modificara, resultando na morte de Ágata.

- Sheila - disse-lhe Gwen com lágrimas nos olhos -, acha possível triunfar sobre o sofrimento alheio?

- Estou cheia da vida! Thdos conspiram contra mim! Mas vocês não se dão conta que eu sempre triunfo!

- Está cega! Não percebe o profundo abismo em que mergulhou? Transformou-se em uma assassina! O que fez para desequilibrar-se dessa forma?

- Traí Emílio, que bem mereceu! Ameaçava-me o tolo! Foi quando o delatei a Afonso, que lhe determinou a morte. Afonso triunfante contou a Emílio que eu o havia denunciado, e finalmente deu-lhe o golpe fatal. Mas, antes Emílio revelou que fora somente o executor, que eu fora a verdadeira culpada, a ideali-zadora dos planos! Afonso enlouqueceu! Tive tempo de escapar, e como fugitiva sofri horrores! Expulsou minha família e a família de Emílio de suas terras as quais nos havia cedido. Posteriormente, eu soube que Afonso havia se entregado ao álcool, foi quando eu retornei. Ludibriei-o com a justificativa de que Emílio havia mentido por ser apaixonado por mim, e que ele o invejava mais que tudo por acreditar, sobretudo, que eu fosse apaixonada por Afonso.

- E...?

- Confiou na história, pois fazia sentido, todos acreditaram! Depois Afonso morreu, o tempo passou. E só recentemente alguém me delatou ao velho Cícero! Velho decrépito! Saí fugida novamente até que eu me restabeleça e arquitete nova estratégia. Desta feita, o meu plano será perfeito, e minha vitória definitiva!

- Que vitória? Está fora de si! Olhe à sua volta! Veja em que situação se encontra. Não vê que estamos aqui para lhe oferecer um pouco de auxílio? Para que tantos planos macabros? Não percebe que todos são em vão? Se não fosse Ágata..., seria Ronan, então? Tirar a vida de um bebê aliviaria a dor do amor não correspondido? Se amasse de fato Afonso, permitiría que ele fosse feliz, ainda que longe de você! Interpôs-se a ele e a Emílio, que tinham uma amizade pura e verdadeira!

- A vida inteira eu fui rejeitada. Ryan me usou, descartou-me... Afonso fez o mesmo! Sempre foi assim..., desde pequena!

- Sheila, você sempre foi a mais bela! Mas, quem controla os sentimentos? Ryan me ama. Afonso amava Ágata. Mas nada justifica... Ninguém está isento de padecimentos. Basta! Chega de querer a todo custo manipular o destino de todos, revidar e ferir! O destino somos nós que fazemos através de nossas escolhas.

- Emílio morreu com ódio, desejando vingar-se. Desde então, eu não consigo dormir. Sinto-me enlouquecer! Preciso livrar-me de tais pesadelos. Ajude-me...! Eu imploro.

Emílio estava presente no momento, Gwen percebeu:

- Compreendo o que está se passando - disse mas nada poderemos fazer para auxiliá-la se não tentar as imprescindíveis mudanças. láis transformações dependem da vontade e empenho em se melhorar. Abra sua alma ao Criador, peça perdão por tudo o que tem feito de errado, e de todo coração peça também que Emílio a perdoe.

- Não creio em nenhum Criador, desprezo-o! E quanto àquele maldito! Usei-o! Nunca o amei!

E assim transcorria o diálogo dos tristes feitos. Emílio, desesperado e sofredor, confuso e enlouquecido, se fazia presente, implacável, atormentando-a, sem deixá-la um minuto sequer.

Na Espiritualidade, afeições amigas se empenhavam para que os dois sofredores, Emílio e Afonso, se perdoassem, e, sobretudo, perdoassem Sheila.
Sheila negava-se aos alimentos e crises violentas de choro a sacudiam dia e noite. Sentia-se enferma desde quando as figuras apavorantes se intrometeram em sua casa mental, roubando-lhe a paz e a deixando presa às alucinações, visões terríveis que a enchiam de horror. Não sabia como fazer para continuar vivendo.

Qual seria a reação de sua família ao descobrir os seus deslizes? E Emílio? E Afonso? Como confiar em Gwen? Seria ela, realmente, capaz de compreendê-la e perdoar? Certamente, não! Seria então repudiada por todos! E Ryan? Como pôde rejeitá-la? E os adversários invisíveis que a torturavam? E Ágata? Por certo, deveria odiá-la! Em vão, Gwen desdobrava-se em cuidados:

- Sheila, jamais se interessou por nossa doutrina. Já ouviu falar da sublime lei da Criação, que opera a reeducação das almas culpadas? Nossos princípios arrebatam quem os abraça para ideais elevados, ensinando a enfrentar os acontecimentos da vida, seja dos mais melindrosos, aos mais trágicos, por um prisma diverso. Resigne-se à sua condição e lute para melhorar, certa de que possui uma alma imortal criada à imagem e semelhança do Criador, a qual progride e se eleva através dos Círculos da Imortalidade, para a glória da felicidade.

- Círculos...? Sim...! Lembro-me de algo, uma vez ouvi uma preleção de seu avô...

- Sim! Os círculos da progressão dos espíritos das existências que percorreremos. À medida que interagimos com a verdade das leis divinas, praticando-as, vamos ascendendo aos reinos superiores. O conhecimento muito contribui para a compreensão dos códigos que regem a vida. Um dia, nossas almas serão lindas, esplendorosas, através das experiências educadoras.

Sheila tapou os ouvidos. Em alguns momentos parecia arrependida, todavia, logo em seguida, continuava vencida por torturante amargura, debulhando-se em pensamentos deprimentes, que levavam à fixação. Outros cobradores, não menos austeros, no desejo de desforra, passaram a sitiar a sua casa mental.

- Sou uma pessoa má! Perversa! Não percebe, Gwen?

- A opção pelo bem ou pelo mal é fruto do patrimônio gerado pelo livre-arbítrio de cada um, Sheila. Saiba que meu avô está aqui, e muitos benfeitores espirituais a acompanham, tentando induzi-la ao caminho do bem, como expressão máxima da Misericórdia do Criador. Acorde para a verdade enquanto é tempo!

- Não vejo ninguém...! Nem este deus, nem seu avô, nem outros... Desejo a morte, somente a morte!

- Não diga isso!

E em seu íntimo a ideia sinistra do suicídio já se esboçava como sementeira funesta dos adversários invisíveis. Ideia fixa!

- “Se não houver outro remédio, eu me mato!" -pensava.

Gwen intuída, transmitia-lhe a ideia do Pai Supremo, da necessidade de renovar-se, da confiança no Alto. Em vão! Presa às ilusões transitórias, nunca haviam conseguido dela a crença e o respeito devido às leis divinas. Nesse sentido, sendo ela a devedora, seria justo compreender que deveria contribuir para a renovação própria, através do esforço pessoal. Não se dava conta dos investimentos que estavam sendo direcionados em seu favor, ignorando a Misericórdia do Pai que estava ao seu alcance:

Em verdade, não sei por que perde o seu tempo comigo...!

- Ah, Sheila! Cada um de nós tem em sua bagagem um amontoado de fraquezas, entretanto o Criador nos oferece diariamente ensejo de nos levantarmos. Viver sem esperança é o pior de todos os males! Devemos bem conduzir os desejos, bendizer as aspirações e vigiar os pensamentos.

A conversação, de certo modo, a fez serenar, adormeceu.

Então, uma cena invisível aos olhos materiais desenrolou-se. Afonso, em espírito, permanecia no ambiente, e ouvindo os comentários, aproximou-se de Gwen. Esta interpretou que poderia dar passagem ao espírito, que tinha em mente comunicar-se, e o preceptor Marven consentiu:

- Senhor Marven, sou eu, Afonso! Aceite meu profundo respeito e admiração, ao senhor e a Gwen -disse -, quero-os bem, por isso retraio-me na presença de vocês. Mas, quanto a essa desalmada, eu a odeio com todas as minhas forças!

- Entendemos que o seu ódio não é gratuito, meu filho.

- Tenho razão para detestá-la! Afiançou-me que me impediría de ficar com Ágata e assim fez! Foi premeditada! Eu bem sei que ela foi a responsável pela tragédia...

- E vingando-se dessa forma desleal, acobertando-se no manto da invisibilidade para atingi-la, acredita que ficará bem? Pois, engana-se! Estão todos presos em uma teia estarrecedora! Liberte-se desta masmorra que construiu para si mesmo, meu filho.

- Não posso deixar essa insana criatura liberta.

- A sua liberdade está vinculada a isso. Pois, não anseia pela presença de Ágata? Dê-nos a possibilidade de auxiliar Sheila, de tentar, sobretudo reeducá-la.

- Não! - prosseguiu colérico -, ela errou porque é má! Traiçoeira! Sórdida! Deve sofrer para aprender, e desejo ser instrumento fiel desse sofrimento! Aliás, há uma disputa! Há outros...! Todos em luta a ver quem fica com o troféu que depois será massacrado.

- Meu filho, é preciso perdoar, esquecer o passado, porque a vingança perpetua o crime sem consolar o vingador e remediar o passado. Ela está frágil de saúde. Se não atenderem ao clamor do Alto, e se ela morrer na matéria, então, o litígio continuará na dimensão espiritual, espraiando-se em dores no estágio de trevas. Em nome do respeito que tem por nós, peço-lhe uma folga somente por alguns dias. Veja o estado em que a pobre se encontra!

- Pois, então, serão alguns dias! Breve trégua!

Outra entidade descontente e agitada encontrava-se no ambiente. Era o espírito ligado a consulente romana contratada por Sheila.

- Senhor Marven, Afonso se foi... - disse Gwen -, mas, há outro irmão, revoltado, nervoso, que a todo custo deseja lhe falar.

- Permita-o falar, Gwen.

Gwen através das ações enobrecedoras, como instrumento mediúnico, edificara uma couraça de resistência aos irmãos mal-intencionados e às suas descargas mentais, permitiu:

- Ora! Ora... Os enigmas se abrem!

- Quem é você? O que deseja?

- Eu? Ah...! Houve um acordo entre essa daí e a consulente, minha serva. Foi em busca de conselhos. Nós avisamos que se não fizesse tudo conforme instruímos, ela perdería tudo! Privilégios, luxos! Seria desprezada e perseguida!

- Escute, meu amigo, ou amiga... Sei que há outros irmãos com você que se sentem ludibriados, mas não acham que ela já está sofrendo demais?

- Outros? Sim! Mas, a nossa insatisfação é com a ação de alguns, dificultando-nos o combate.

- A quem se refere?

- Ao ancião, vítima... E agora, a vocês. Estão obstruindo o nosso caminho! E se insistirem lhes sobrará fogo cruzado!

- Onde pensa que irá chegar assediando espiritualmente belas mulheres? Você conhece as forças ocultas. É hábil! Não passam de mercadores do Além! Sheila é presa fácil a quantos desejam estabelecer-lhe o cerco de alienação das forças, mas, sobretudo, está colocando o orgulho de lado, implorou por ajuda. E nós vamos ajudá-la! Gostaríamos de auxiliá-los igualmente.

- Não necessitamos de ajuda! Não a obrigamos a nada! E não nos dispomos a trabalhar de graça para ninguém.

- Veja bem, meu irmão, tem incentivado fantasias e paixões, fornecendo idéias que se materializam atraés de medianeiros, atentando contra o livre-arbítrio de pessoas já desajustadas. Não tem receio do futuro?

Sheila permanecia adormecida. Gwen manti-nha-se firme, contudo, intenso tremor tomava-lhe o corpo. Organicamente havia um ajuste de vibrações para que pudesse manter o espírito comunicante psiquicamente jungido a ela. Súbito, clara e providencial intuição segredou a Marven cautela, pois chegaram dois espíritos afetuosos, tentando fornecer fraternal auxílio.

- Há personalidades apresentando-se a você -disse Marven intuído -, são afetos especiais, um rapaz e uma jovem mulher com cabelos longos e negros. Vejo uma pedra verde, um talismã na testa da moça, além de um sorriso amoroso.

- Não sei quem são esses a que se refere, não tenho ideia de quem sejam, pois não há tempo para o amor em minha vida!

- Pense bem, tem ideia do quanto este momento poderia lhe propiciar um novo caminho? O amor, somente o amor ultrapassa todos os obstáculos, meu filho.

- Absolutamente! Não sei do que está falando.

- Sei que sabe. Trata-se de alguém que aparentemente tem tentado auxiliá-lo. Não devemos viver do comércio dos dons, mercadejar o que recebemos de graça, aquilo que nada nos custou pode ser oneroso ao nosso espírito. A cada mau passo, cabem parcelas de responsabilidade, tanto mais significativa quanto maior for o próprio conhecimento. Quanto mais pesados débitos você contrair, mais se afastará desses que o amam. Pense nisso!

- Não tenho nada a dizer.

- Aprendemos em nossa crença druídica que há dons espalhados por todos os lados. Manipulamos e pesquisamos fórmulas que servem para curar, todavia, muitos as usam para destruir e constranger o livre--arbítrio das pessoas. É isso que o seu grupo tem feito! Assustam-nos o fato de desperdiçarem tão sublime oportunidade de serviço em favor do próximo, enganando, repassando informações prejudiciais...

- Sinto-me fraco, sensação estranha... Não sei o que está ocorrendo. Sei que os frutos plantados com as sementes de minhas ações do passado e que hoje colho, têm sido amargos. Mas, não posso abdicar! E no mais, sou mero intérprete da vontade de cada um. Eu leio em suas almas o que desejam e simplesmente lhes dou o que querem!

- E não estaria na hora de abdicar os lucros materiais em prol de quem o seu coração aspira?

Ouvem-se gritos e blasfêmias, ao lado de soluços e de muitas lágrimas. Havia uma luta invisível embaraçosa. As entidades com irradiações perversas atuavam tentando superar as vibrações do bem.

- Não pretendo renunciar a nada! Desejo vê-los longe!

- Então, diga tudo isso você mesmo a eles que estão aí ao seu lado. Vamos, olhe, tenha coragem!

- Não posso! Afaste-a! Eu tenho vergonha.

Não se envergonhe! - disse Marven -, não tem saudades da antiga convivência junto à amada?

Nesse instante, ele enxergou uma imagem envolvida num foco de luz, banhando-o. Humildemente, ajoelhou-se diante dela, demonstrando ligeira submissão. Sentiu-se mergulhar num ambiente de serenidade e paz, lembrando-se de que já tivera um lar à luz do amor. E emocionado chorou, entregou-se.

Brian e Ágata testemunhavam o quadro e sorriram:

- Vamos, Ágata! A nossa prece foi ouvida. Há ainda Emílio e Afonso. O tempo os fará receber o sagrado influxo de nossos apelos, a semente do perdão e da esperança.

Marven apressou-se, instruiu Gwen que pernoitasse com Sheila. Ronan conduziu Marven até o carro puxado por dóceis e rápidos animais, e seguiram à sua moradia.

CAPÍTULO 19

Ronan regressou ao lar, reuniu os familiares, narrou os últimos acontecimentos. A família ficou desolada. Ryan, contrariado, aprontou-se para buscar a esposa, mas a família o conteve. Enquanto isso, no casebre, Sheila perdia-se em ânsias insensatas, pressionada pela atuação obsessora. A confissão que fizera a Gwen, a vergonha diante da rival e dela própria eram a degradação suprema para o seu sentimento, a humilhação sem precedentes para o seu frágil caráter. Gwen exausta adormeceu, em desdobramento reviu o amado e vigilante avô:

- Filha, Sheila está psiquicamente enferma, constrangida à ação desses espíritos, corre perigo, pois, lhes reforçam idéias suicidas. Iguala-se, vibratória e moralmente a Emílio, seu antagonista, que assumiu o comando dessas ações, envolvendo-a, deprimindo-a, com um ódio inveterado à vingança. A cura é difícil, pois exige reformas morais intensas que não se realiza de um dia a outro, talvez demande séculos. Estamos tentando afastá-lo, além disso, há outros, todavia depende dela tomar resoluções regeneradoras. São almas infelizes que se punem e se castigam, pois todos eles sofrem! A Providência Divina, sempre atenta, está tentando socorrê-los.

Na manhã seguinte, intuída pela visita que rece-bera do avô, em espírito, Gwen voltou a falar sobre as consequências que o suicídio acarreta.

E a Espiritualidade não descansava.

Ágata empenhava-se em convencer Emílio para que deixasse a adversária em paz, contudo ele estava irredutível, desejando levar a vítima para junto dele. Afonso, agora, encontrava-se num estado um pouco jBHB melhor. A saudade de Ágata, o amor que sentia por ela,

Sheila mostrando-se ligeiramente diferente, tudo lhe penetrava no íntimo de forma benéfica. As lágrimas levaram-no à prece, evocara ao Alto, implorou por algum esclarecimento. As vibrações de terna afeição dilataram as percepções visuais e o entendimento. Distinguiu uma figura alva ao longe que se aproximava dele. Era Brian. Afonso o viu, e implorou por ficar ao lado de Ágata. Brian o convenceu a abandonar Sheila.

Deixou-se conduzir a uma região onde recebería tratamentos intensivos, ao saber que esse seria o primeiro passo para que um dia pudesse ficar ao lado da amada:

- Confia, filho!

- Alegro-me que alguém tenha me escutado, pois • sofro demasiado, senhor. Errei... Errei muito! Mas, quando a conheci tive vontade de me transformar, de ser uma pessoa melhor. Quando ela se foi, pensei que fosse enlouquecer. Agora tudo eu farei para merecê-la novamente, um dia. Quem sabe um dia...

- Um dia, filho! Por enquanto, mantenha-se firme no ensejo de perdoar e esquecer o passado, pois nesses processos o vingador é tanto ou mais desgraçado que a sua presa. Quanto ao futuro, chegará o tempo de adormecer para esquecer, em busca da paz. Até então receberá tratamentos e esclarecimentos.

- Adormecer e esquecer...?

- Sim...

- Não sei bem o que seria... Mas, se for para ter nova chance ao lado dela, estou feliz, senhor.

- Um dia, filho, aprenderemos que é bem mais fácil amar que odiar, perdoar que vingar, esquecer ofensas que sofrer indefinitivamente, evitar processos como esses, pois uma vez em livre curso, exigirá séculos para extinguir-se.

No casebre, Sheila estava bem melhor. Emílio vagava pelas imediações, desolado e impotente, como que tolhido pela sua liberdade, sem poder atingir totalmente o ambiente de onde saíra.

E a Espiritualidade incidia sobre ele vibrações de claridade, qual advertência protetora, como eco provindo de longe, murmúrios de preces, em conselhos de paz, convites ao perdão e esquecimento das ofensas, contudo resistia, atendo-se ao que supunha ser seu dever: vigiar Sheila, lembrando-se das desgraças pelas quais passara. Sheila, após boa melhora, outra vez via as cenas cruéis que impetrara: Ágata morta, a traição contra Emílio, sua execução, seu corpo dilacerado... E atordoada, abriu campo mental a Emílio, que em crises de desespero repetia:

- Há de me pagar! Infeliz... Há de pagar!

O dia findou rapidamente.

Marven e Ronan retornaram às suas moradias, Gwen permaneceu no casebre. Ryan, tomado por forte pressentimento, dirigiu-se ao local em busca da esposa. Sheila, inconformada, tudo fez para retê-la, mas ele não permitiu.

Invisível, à espreita, Emílio aproximou-se.

Despejou em sua presa, que não oferecia resistência, seus funestos pensamentos tentadores. Deu-lhe asas à imaginação para convencê-la de que era uma desgraçada, que nada mais deveria tentar neste mundo porque tudo ruíra à sua frente. E Sheila, totalmente passiva, fiel às intenções de Emílio, firmou-se veementemente na ideia do suicídio. Sentia-se triste, angustiada, teve crises de choros, e seus pensamentos sintonizavam com ele com uma insistência atordoante. A alguns metros de distância, observava-a atentamente. Sheila sentia-se completamente jungida à força mórbida que a conduzia. Lágrimas ardentes corriam de seus olhos, entretanto, uma voz amorosa que jamais a abandonara e que tentava acalmá-la, murmurava:

- Sheila! Confia no Pai, minha filha.

Seria necessária uma reação ativa da vontade dela para que pudesse resistir ao tentador. Para reagir, ela poderia rogar à misericórdia do Alto e até dar o testemunho de ânimo e fé a que era chamada. Mas, exausta e dando-se por vencida, entregou-se à cena terrível que se desenrolou. Emílio jungia-se a ela, de tal forma que pareciam um só ser alucinado:

- O suicídio! Seja livre! Deixe de sofrer!

Sheila poderia ouvir a voz de sua consciência, ou a intuição amorosa de seres que tentaram dissuadi-la. Seria possível libertar-se do cerco do mundo invisível inferior, visto que fora larga a intervenção dos benfeitores que vieram ao seu socorro, ou até pelo amparo dos próprios guias espirituais dos algozes, que desejavam o progresso deles e dos demais. Poderia, portanto, ter-se libertado da faixa criminosa em que permanecia, renovando-se, mas dependería dela, e somente dela, curar-se. Tfido em vão! Ela não procurou afastar-se, tornou-se joguete dos algozes. Ouvia Emílio e seus comparsas, e suas intenções ressoavam em seu íntimo, dizia para si mesma:

- A morte! Somente a morte irá me libertar!

E resolveu. A imagem que dominava sua mente e todos os seus sentidos, obsedando-a ao indescritível, uma obsessão fixada em sugestões mentais, uma desesperação surda que lhe oprimia a vontade, fez com que voltasse a sua própria ideia de dirigir-se ao armário em que deixara escondido um frasco de um líquido tóxico.

Desta forma, a manhã desdobra-se.

Gwen, Marven e Ronan chegaram ao casebre, e enquanto os dois amarravam os cavalos, Gwen empurrou a porta, que cedeu facilmente. Entrou, deixando para trás a claridade e a beleza matutinas. Na penumbra do aposento, vislumbrou bem à sua frente, Sheila. Depois de uma noite insone, em seus olhos, o pavor:

- Eu estava à sua espera. Enveredei por um caminho espinhoso. Ryan tinha razão! Nunca fui confiável! Você o roubou! Aniquilou a minha felicidade! Não desejo que tenha pena de mim... O destino... Ah! O malfadado destino...! Pois, sabe qual era o meu destino? Você nem imagina... Thla! Não era outro senão acabar com a sua vida!

- Sheila? Você está transtornada. Acalme-se! Vou repetir: o destino somos nós que fazemos. E você pode mudar o seu. Não pense dessa forma! O que houve depois que fui embora?

- Odeio você! Odeio Ágata! Ryan me atrapalhou, estava tudo pronto para a noite passada! Poucas gotas... E pronto! Agora, já estou condenada!

- Quem a condenou? Ágata a perdoou. Lembra-se? É você mesma que está se condenando, por que sua alma tem consciência da gravidade de seus atos. Mas você está arrependida! Eu sei que está...! Pode ainda endireitar a sua vida e deixar tudo isso de lado. Mas, agora, resista a estas idéias! Lute!

- Não desejo inspirar piedade...! Estou comprometida com as trevas! Odeio você! Na verdade, voltei para acabar com a sua vida! E, por ironia do destino, se dispôs a cuidar de mim...

- Atendi a recomendações espirituais, Sheila. Você está rodeada de proteção, de luz, e não está abandonada. Se voltar-se ao Criador, as trevas não terão forças contra você. Quem guia seu caminho pelo amor não se desvia.

- Eu cobicei a sua vida, Gwen, desde pequena. Nunca percebeu? E quanto a esse deus, não desejo nada com ele, nem ele comigo! Esse aí jamais amaria uma criatura cruel como eu!

- Pois, se já possui a consciência de sua crueldade, por que não se propõe a mudar de rumo?

- Não! Estou feliz do jeito que sou, e sei que os amigos das trevas que me auxiliam não permitirão que nenhum mal me aconteça, ao contrário de você ou deste deus, que só aparecem para aborrecer, jamais estão presentes quando eu preciso!

Um suor viscoso escorreu em sua fronte. Grossas lágrimas desceram pelo seu rosto. Não notou a presença de benfeitores que, sucessivamente ao seu lado, muitas vezes, choravam ao presenciar as desventuras, fazendo tudo para ajudá-la. Num gesto rápido, aos prantos, virou as costas e como que hipnotizada, desviou da rival, deixou o interior do casebre, saiu em disparada em direção a uma ribanceira. Coração descompassado. A chuva desabava pesada e grossa. Havia algo em suas mãos: o frasco!

Gwen correu em sua direção tentando contê-la, mas escapou-lhe das mãos. Sheila, que adquiriu uma força que poderia ser qualificada de sobre-humana, continuava avançando em correría vertiginosa. Estava inteiramente dominada pelos obsessores, talvez nem mesmo refletindo sobre suas ações, embora com a noção, porém sem força para conter-se. Suas percepções e seu raciocínio estavam anestesiados. Ouviu o chamado de Gwen. Um estremecimento perpassou--lhe o corpo. Procurou reagir, porém, debalde. Sheila sentiu-se impelida a correr. Algo além lhe acenou, indicando falsamente o que seria para ela o rumo à liberdade. Súbito, aproximou-se de um precipício. Abaixou a cabeça, contendo as lágrimas, e avançou mais um pouco. Não faltava muito, agora, e tinha que prosseguir! Já perdera muito em sua vida, precisava seguir em frente! Parou por uns instantes, olhos enevoados pelo pranto e pela chuva. Finalmente, alguns passos e alcançou a beira do abismo. Ficou estarrecida com a visão. Era uma costa íngreme e rochosa. Por alguns momentos, permaneceu paralisada. Inspirou profundamente, tomando coragem. Num impulso louco, trágico, positivamente cumprindo a vontade do obsessor, tomou o conteúdo do frasco, Gwen moveu-se em sua direção:

- Não se movimente, Gwen! Senão eu me jogo! Este veneno que eu tomei foi preparado para você! Se ontem à noite tivesse ficado em minha companhia... Você estaria morta! Morta! Entendeu? Ryan a salvou! Eu ia acabar com sua vida!

- Sheila, você está fora de si! Eu imploro... Não se jogue!

Com as feições alteradas e movimentos estranhamente calmos, quase mecânicos, irônico sorriso contraía-lhe os lábios:

- Ore por mim!

E a enferma, que a esta altura já começara a se sentir asfixiada pelo efeito do líquido ingerido, desviou o olhar para o Alto. Sentiu muito medo, o qual se mostrava registrado em sua expressão de pavor. A última coisa que ponderou foi na solidão. Nunca antes, em toda a sua vida, havia se sentido tão só. Mesmo apavorada, seguiu em frente - "Era sua única saída”.../ -, pensou. Mais e mais enlouquecida, se espantava com a própria gargalhada que a sacudia. Em seguida, com a voz quase morrendo na garganta disse:

- Acabou...! Adeus!

Deu um passo à frente e jogou-se no precipício:

- Sheila...! - gritou Gwen.

Assim, infelizmente, Sheila aniquilou o precioso corpo - ensinado na tradição druídica como templo de sua alma, o qual a Providência lhe concedera a fim de progredir, de elevar-se moralmente e intelectualmente e de se reabilitar compensando atitudes contrárias ao bem, acontecidas em vidas pretéritas. Sentindo-se asfixiada, via seu corpo sangrando. Neste mesmo momento, registros de sua memória com fragmentos de sua vida lhe vieram à mente. Figuras repugnantes, mentes desequilibradas desfilavam. Ouviu gargalhadas infernais. Com um movimento mecânico, parou onde estava e continuou vendo seu corpo ensanguentado, curvado como uma boneca de pano atirada em um canto. Como aquilo podia estar acontecendo? Não havia morrido? Morrera! Sim! Tomara o veneno e jogara-se no precipício. Não sabia explicar, mas estava quase certa de que havia morrido! Desgrudara-se de seu corpo inerte, confusa demais para entender o que estava acontecendo. Aterrada, mexeu-se, e percebeu que ainda estava viva. Mas o corpo permanecia sem vida. Tsria sido uma ilusão e ela ainda permanecia viva? Súbito, sentiu falta de ar. Ah! Não morrera! Estava viva! Os mortos não precisam respirar... Tãlvez, fora somente um desmaio.

Então, Marven e Ronan aproximaram-se de Gwen, que caiu de joelhos, sem forças e chorou convulsivamente:

- No fundo, eu sabia, eu sabia... Não poderia tê-la deixado só. Estava perturbada demais... Sou a culpada!

E consternados, os dois a levantaram.

Mesmo passado um tempo, sempre que Gwen se dirigia ao lugar dessa tragédia, sentia forte emoção. De igual forma e quase sempre em lágrimas, ouvia o brado e o gargalhar de horror de Sheila a ressurgir das profundezas do tétrico precipício.

Quanto a Emílio, que se sentiu por instantes vitorioso depois do crime consumado, abandonou a paragem. Começando a cair em si, sentia-se agora aterrorizado. Tentava fugir da falange que o ajudara, com receio das exigências que dele começavam a cobrar. A revolta o havia impelido ao ódio e à vingança contra as ofensas recebidas. Via-se, porém, agora, uma luta ainda maior, pois neste meio invisível ele também descobriu que existe a traição, a maldade, a delação, a intriga, e tudo de forma bem mais intensa. Emílio sofria. Sua intenção era apoderar-se de Sheila, torturá-la, mas, não a viu mais. Demandou, então, à região terrena onde morara, onde fora feliz com a esposa e os filhos, não mais os encontrando por lá. Sofredor inconsolável, vagava perambulando pelos cantos à procura dos familiares, temendo que os companheiros da falange do invisível, cobradora de serviços praticados para o mal segundo a lei que os regem, o achasse e se apoderasse dele.

Emílio, porém, não era um homem propriamente perverso. Ele fora um trabalhador honesto, leal a Afonso e à família. Foi cumpridor dos seus deveres, até conhecer Sheila, apaixonando-se perdidamente por ela, sendo usado, manipulado e posteriormente atraiçoado. Revoltou-se desvairadamente; e então, refugiava-se agora, onde vivera e fora feliz. Não teria sido capaz de odiar, trair e fazer mal, se não tivesse se entregado àquela desvairada paixão.
O impacto da sua ação suicida foi grande.

Os familiares de Sheila por rejeitá-la, muitos se encontravam agora consumidos pelo remorso. Gwen intimamente acusava-se por tê-la deixado à mercê de influências perversas. Muitas vezes, ao se lembrar do fato, ouvia a derradeira gargalhada a qual ecoava em seu íntimo, e para se refugiar, se punha fervorosamente em prece. Distendia a percepção espiritual para ver se alcançava aquele espírito sofredor que havia deixado o fardo corpóreo em tão sinistra condição. Gwen refletia sobre as consequências do ato perpetrado por Sheila considerando, sobretudo, que ela não morrera, entendendo a palavra morte como o fim de tudo, pois o ser que pensa, ama e que tem qualidades e defeitos, em sua individualidade, permanece além da extinção da sua contraparte física, por que é imortal. Assim, Sheila em espírito sobreviveu ao envenenamento e ao despedaçamento do corpo físico. Desta maneira, a suicida, em parceria com seus algozes espirituais, foi levada por eles a beber o tóxico e em seguida se projetar no penhasco. Porém, já durante a ação tres-loucada, permaneceu consciente e num lapso vislumbrou o que acontecia. Suas faculdades de raciocínio se entorpeceram e ela como se desfaleceu, cruelmente traumatizada, como que se em estado de choque. E assim permaneceu por longo tempo, sem a noção se haviam decorrido dias ou séculos.

Gwen desgostosa com o trágico desfecho, por muitos dias sentia grande tristeza e inconsolável pesar. Foi quando, numa noite sublime, recebeu Brian, seu avô amado que intercedia mais uma vez do invisível, falando-lhe amorosamente:

- Ah! Minha neta, minha amada, reaja. Nenhuma dor é perdida no balanço divino das múltiplas existências do ser. A amargura, o sofrimento, o desespero de um suicida, sempre muito mais intensos que as dores que o levaram a esse amalfadado ato, cuja compreensão está além da possibilidade humana, acabará por fim por promover o progresso da criatura, pois ela, exausta de sofrer esse padecimento indescritível, acabará por se dirigir ao Pai voluntariamente, reabilitando-se então.

O ancião fez breve pausa, observando o efeito de suas palavras, prosseguiu:

- Sheila por seu pretérito, tinha propensão ao suicídio. Trazia em seu histórico registros de outras vezes ter optado por caminhos que supunha mais fáceis. Esse comportamento alucinado tem se repetido por diversos renascimentos até que em um momento da eternidade, regulamentado por sábias leis de amor e justiça, a medicação amarga do sofrimento imporá novos recomeços sob distintas condições. Cedo ou tarde, ela, bem como outros em iguais condições, irão se candidatar ao bem!

Brian fez uma pausa mais longa, e tornou a falar com segurança:

- Houve imenso embate espiritual: de um lado irmãos persistentes no mal, explorando-lhes as tendências, e de outro, a tentativa promovida por protetores espirituais para que ela buscasse a renovação. Intercedemos positivamente. Mas a decisão cabia a ela. Somente a ela! Não basta somente afastar os adversários para que os obsidiados se recuperem. A transformação íntima é o fator mais importante, pois procede das profundezas de cada um e deve ser trabalhada, insistentemente, para que se desfaçam os fatores propícios, os motivos que levam às dores, libertando a própria consciência, de modo a não abater-se de novo, e de novo... Fez o que estava ao seu alcance, minha filha. Não se culpe! Ore! E confie!

Sorriu afetuoso, encerrando as elucidações. E foi a partir daí que Gwen se sentiu mais confortada, jamais deixando de dirigir uma prece ao Alto em intenção da suicida. Nos cultos familiares, o núcleo orava com o pensamento firme, coração sincero, pelo restabelecimento daquela que cortara o fio da própria vida, visto que conheciam bem as amarguras causadas por esse ato. A doutrina druídica reverenciava a vida, e não a morte.

CAPÍTULO 20

A natureza renovava a esperança.

O céu tingia-se delicadamente de tons róseos-es-maecidos. Raiava o sol, responsável pelos esplendores de uma alvorada primaveril. As flores faziam a con-traparte de cores e perfumes, marcando o suceder dos anos.

Brigite, a mãe amorosa e dedicada, desencarnara com idade avançada.

Marven, o sábio e querido preceptor, igualmente havia abandonado as vestes carnais.

Gracie passou algum tempo à beira do leito, havia adoecido há alguns meses. Abatida por forte crise, cerrou os olhos do corpo físico deixando Alan, seu esposo, e as filhas Acássia e Muriel.

O desenlace de todos eles foi sentido pelos familiares. No entanto, resignaram-se, considerando-o natural, pois para o núcleo, os chamados mortos eram verdadeiros vivos, e com os quais conviviam prazerosamente.

Sabiam que eles foram recebidos festivamente no mundo espiritual pelos entes amados que na jornada os precederam e lá encontravam-se felizes.

Ryan encarregava-se da administração da propriedade e dos serviços de assistência com o apoio de Alan e Ronan. Fizeram-se fazendeiros, dedicados ao trabalho e ao bem geral.

Gwen estendia o apoio à família, mantinha-se fiel em sua tarefa de disseminar a Doutrina. Aurora e Alana, suas filhas, tornaram-se belíssimas moças e a apoiavam na vida simples, mas fértil em ações de encaminhar todos ao Criador, segundo as diretrizes seguras da Espiritualidade que os assistia.

Neste tempo, já passado do drama ocorrido com Sheila, desde o momento no qual ingeriu o tóxico e jogou-se no precipício, ela tinha a sensação permanente que as próprias entranhas se aniquilaram. Sentia-se como num vácuo e não distinguia senão trevas. Mais e mais, em grande sofrimento, percebia que uma infelicidade muito maior que as vividas por ela em Roma e na Irlanda, eram presença constante em seu viver neste lugar literalmente infernal.

Desnorteada, em choros convulsivos, vislumbrava figuras confusas, expressões odiosas e cruéis, que a maldiziam e a aterrorizavam, fazendo-a sentir que esses pesadelos eram compostos por imagens representativas de desespero incontrolável à revelia dela própria. Ouvia à sua volta vozes que blasfemavam ou que gargalhavam, manifestando loucura e proferindo ameaças em diabólicos desígnios.

Sheila, contudo, vislumbrava o cenário, sem compreendê-lo devidamente. Noção do tempo? Nenhuma! Pouco a pouco, a memória desentorpeceu... Recordou o acontecido e aí, então, cenas de sua vida surgiram a partir do ato inconsequente até a infância, em sentido retrospectivo e retornando em seguida, desde a infância até o suicídio, tudo revendo e em pensamento revivendo. Assim repudiou a sua própria essência..., até a sua morte!

- Eu morri...! - presumia -, sim, aniquilei a minha vida... Mas, não! Estou viva ainda...! Não se deu a morte! Seguiu-se a vida...! Sentia-se como se algo lhe tivesse corroído as entranhas, a garganta, os pulmões sufocados, as partes de seu corpo despedaçadas. E não morrera! Pelo contrário, continuava sentindo-se viva em agonia torturante e permanente... Vagava por muitos lugares do mundo espiritual, regiões desconhecidas de miséria e dor, de sofrimentos atrozes e gritos de desespero, emitidos por seres humanos, e soluços convulsivos que a atordoavam em cenário desolador e tétrico.

Então, novamente via-se arrastada pelas impressões terríveis de sua ação, reacendendo os tormentos dos primeiros dias do suicídio, quando elos poderosos ainda a prendiam ao corpo sacrificado indevidamente. Sentia-se sufocada por emanações desagradáveis, sem ainda sequer ter a noção das circunstâncias. No pesadelo que mais a horrorizava, havia um gargalhar sinistro de adversários que a acompanhavam, dominando-a. Ela chorava constante e inconsolavelmente, sem compreender a razão de seu estado e de tais companhias. Sem perceber as emanações superiores provenientes de orações e vibrações amorosas dos protetores espirituais, Sheila, em espírito, embora melhor do que antes, se enredava em pensamentos e sentimentos mórbidos. Inconsolável perambulava pelos arredores, buscando seus familiares sempre em torno do núcleo. No seu perambular, sentia permanentemente um odor fétido de cadáver, o qual identificava exalar de suas entranhas. Já percebia mais e mais a amplitude da desgraça que a atingira e com esta percepção, também mais e mais sentia angústia, medo e, desta form, um grande desespero foi se apossando dela, mas sem que pudesse entender na totalidade a origem dele. Sentia-se asfixiada, corroída física e moralmente e apavorada, debatia-se.

Estaria louca porventura? Sua mente estaria subjugada a vontades estranhas ao seu ser? E as diabólicas inspirações? E as insuportáveis gargalhadas? Ela havia mercadejado o auxílio de muitos Espíritos das trevas para dar curso às suas sinistras intenções, todavia estava certa de que o mundo invisível não poderia ser nada parecido com aquele. Afinal, ainda respirava! Assim, vagava desequilibrada, de canto a canto, ora no plano espiritual, ora nas acomodações dos familiares.

Então, em lágrimas, sua mente reacendia os tormentos vivenciados. Revivia a asfixia provocada pelo veneno e, ao mesmo tempo, sentia presente as vertigens da queda no precipício.

Em verdade, não era capaz de reconhecer o que se passara. Sabia que num momento de excessiva emotividade, descontrolada mentalmente, com os sentimentos indisciplinados, provocara a própria desgraça. Mas não era claro para ela o que de fato acontecera. Debatia-se, então, neste estado confuso. Quanto mais esforço para fugir do sentimento de culpa, mais intensiva amargura se lhe afigurava no íntimo. Embora, no ato do aniquilamento de seu corpo físico em si, quando a vontade dela foi débil quando comparada a vontade quase impositiva dos obsessores, seu comprometimento maior perante as leis de amor e justiça vinha do seu histórico de vida que, pela repetição continuada de desacertos, redundou naquele fatídico ato.

No entanto, os erros, o desequilíbrio, as privações jamais abafam o sentimento superior da ordem e da harmonia universal que temos em nosso íntimo. Desta maneira e felizmente, por mais que insistimos em nos afastarmos da oferta de amor feita por Deus, nosso Pai, em nossa profundeza íntima subsiste um princípio imperecível contra o qual todos os desatinos, toda a desordem, todo o ódio, toda a brutalidade, tem obrigatoriamente um prazo ainda que indefinido de validade. De tal modo, nenhum mal e seu consequente sofrimento duram em definitivo e a reparação que se nicia com o arrependimento dos erros, seguido pelo início da prática do bem, é o lenitivo que por trazer de volta a esperança, já diminui em grande proporção a amplitude da dor.

Sheila tinha percepção da continuidade da vida no mais além e sentia, ainda que de forma confusa, que os seus sofrimentos se multiplicaram pela sua opção em cometer o malfadado ato do suicídio!

Pela sua escolha em se embrenhar nesse emaranhado de enganos, ao atingir limiares impensados de sofrimento, num lampejo, acabou finalmente por se descobrir imersa em um oceano de amor no qual por recusar abrir a boca, desfalecia de sede de afeto.

Assim, neste clarão de lucidez, resolveu elevar o pensamento em oração buscando o amparo do Ser Supremo, de quem se afastara há tanto tempo e que era fonte infinita do bem e de amor. Revolvendo-se na lama, num ambiente triste, gelado e nevoento, começou a orar. Suplicou perdão a Ele ou a quem pudesse ouvi-la. Lágrimas de arrependimento regaram sua alma, limpando-a das emanações deletérias que levava e também das que adquirira em seu entorno.

Neste instante, Sheila recebia como respostas à sua singelíssima e contrita oração, o favorecimento de bênçãos que se desdobravam, facilitado ainda pela mudança da situação devido às atitudes positivas dos demais envolvidos.

Afonso, já havia dado um passo em prol do próprio reajuste. Emílio retirara-se, uma vez consumada a tragédia.

Haviam atenuantes, pois Sheila, alma já desequilibrada e necessitada de reajuste, não teve em alguns momentos amparo de familiares, e assim se permitiu mais facilmente ser arrastada por espíritos obsessores, que a dominaram. A espiritualidade amiga estava a postos, como sempre, à espera do momento propício para socorrê-la da melhor forma. Embora o seu ato fosse atenuado pelos motivos acima expostos, passava pela consequência inevitável que acompanha o desprendimento do espírito pela agressão do ato suicida.

Entretanto, não há nuvem que não se dissipe, assim como não há culpa que não alcance o perdão. Pela força das circunstâncias, pelo instante de sua singular oração e pelo penoso sofrimento em regiões inferiores, surgiu na mente de Sheila o desejo de perdoar aos que a prejudicaram, bem como perdoar a si mesma e modificar os rumos de sua vida.

Desejava verdadeiramente receber auxílio. Sen-tia-se extremamente só. Aspirava se libertar daquele mundo de limo e de sombras. Que remorso, agora, por não ter ouvido as advertências fraternas...! Que remorso por não ter valorizado a vida com todas as suas forças...!
O tempo estava nublado. Estranha cor cinzenta impregnava o céu. O núcleo doméstico de Douglas aproximava-se do destino: o lugar dos montes. Do alto, fitaram belíssimo horizonte. O sol apareceu, incendiando o local com sua luz vermelho vivo, refletida por uma edificação denominada Newgrange.

De onde estavam, podia se ver o cume da real colina de Tára. Olhando para baixo, do declive, gansos deslizavam nas águas do rio Boyne. Era considerado pela população local como um rio sagrado. Para quem estivesse ao nascer do sol em Newgrange no solstício de inverno, que no hemisfério norte é o dia mais curto do ano, observaria que a luz do sol penetraria por alguns momentos a edificação até o seu interior.

Newgrange é uma edificação circular enorme. Vista de fora, suas laterais semicilíndricas sustentam o enorme teto convexo coberto de grama. Suas bases eram assentadas com pedras monumentais cujas superfícies entalhadas traziam desenhos, círculos, zigue-zagues e espirais. A superfície do monumento voltada para o sol nascente era faceada pelo quartzo branco, e era essa imensa parede curva que, captando o nascer do sol, cintilava, brilhava, reluzia, fazendo voltar ao alto grande parte daquele esplendor de luz, que acontecia no amanhecer daquele dia que era o solstício de inverno. Haveria ali, naquela data, uma cerimônia tradicional. O lugar escolhido foi um pequeno círculo ao lado de uma solitária pedra erguida. Essas pedras, sozinhas, ou em grupo, eram uma característica normal na paisagem - colocadas, ali, diziam os anciãos, presumidamente pelos ancestrais ou pelos deuses. O dia estava propício para que as benções superiores se derramassem. Todos no núcleo tinham a impressão de que algo aconteceria. Havia no ar algo providencial.

Sheila estava também ali presente em silêncio. Após sofrer os referidos reveses de todas as ordens, arrependera-se como sabemos. Naquele momento no qual orou, pedindo sinceramente ao Criador, fosse Ele quem fosse que permitisse que se lembrasse dela e lhe estendesse o auxílio, pois não aguentava mais. Após aquela sincera prece, surgira sobre ela uma luminosidade. Ela percebeu essa claridade vinda do alto e olhou à sua volta. Em seguida ouviu uma voz a qual identificou como sendo de alguém que conhecia. Pôs-se a procurar de onde partia o sussurro, uma senhora flutuava, acima de sua cabeça, envolta em suave luz branca:

- Acalme-se, Sheila, minha filha. Ore, minha querida, recorra ao Alto com toda a sua força. O Criador a socorrerá!

Perplexa, foi a primeira voz suave que ouviu após o trágico dia. Pôs-se a procurar de onde vinha. Fixou o olhar, tentando identificar quem era que tinha pronunciado as doces palavras. E de repente, tudo se fez claro. Era sua avozinha, como assim a chamava em criança, e o olhar bondoso dela lhe dizia que viera para auxiliá-la e não para acusá-la. Reconhecendo nesse olhar o amor que a ela dirigia, sentiu que a lucidez de seu pensamento aumentava e assim caiu em si reconhecendo que estava desencarnada. Entendeu igualmente que ali, sua querida avó em espírito, estava misericordiosamente a lhe estender as mãos. Sheila sentiu então um impulso de abraçá-la, mas, em um relance, a lembrança de suas cruéis realizações aflorou em sua mente. Envergonhada recolheu as suas mãos. "Não era digna daquela bênção”, - pensou ela! Sentiu então uma nuvem escura que a envolvia, atraída por seus sentimentos de mágoas e culpa. Ainda assim, levantou os olhos timidamente e deparou com o olhar afetuoso de sua avó que a estimulava.

- Reaja, minha neta! Confie no amor de Deus que não desampara ninguém... - vibrava a avozinha desencarnada.

Sheila desejava muito sair de seu estado mental de profundo sofrimento! Sentindo o desejo sincero dela, a nuvem de vibrações enegrecidas, emanada de espíritos das sombras, muitos dos quais haviam deixado a carne envoltos em desejo de vingança e ódio, foi se dissipando mais e mais e com o afastamento dessas entidades, ela acabou por desaparecer.

Ibdos eles encontravam-se unidos com o propósito de arrastá-la para as regiões sombrias inferiores. Por maior que fosse o poder desses nossos irmãos em desvio, assim como o de qualquer outro de igual carência moral, nenhum deles era forte o bastante para enfrentar o poder de uma vontade que se liga verdadeiramente na fonte infinita do amor de Deus. Mais debilitados eles se sentiram ainda, diante das entidades iluminadas presentes, que os enfraqueciam nos seus propósitos escusos. Assim, eles não tinham meios de atrair e levar Sheila para os seus vales de sofrimento sem o consentimento dela!

Para Sheila, era recomendado, então, aproveitar este tempo de ajuda e luz para erradicar de si o pensamento de que culpada, deveria ser punida, pois se assim persistisse, ela mesma estaria se colocando à disposição deles, e desta forma, não teria forças o suficiente para acreditar que não precisava habitar os vales de trevas. Hesitou. Sentia o peso do remorso. Oscilava entre o desejo sincero de se perdoar e a culpa que a atormentava. Mas teria que decidir! E esta decisão resumia-se em se colocar acima da influência do mal, no empenho de eliminá-lo de si mesma, e de edificar nova história.

A avozinha, em oração, tentava alcançar o coração da neta, e então Sheila distinguiu à distância, o imprevisto. Verificou ao longe, como se emergisse de um foco luminoso, alguns conhecidos reunidos. Qual réstea de sol tonificante, a alentadora luz se projetava docemente sobre sua alma. Oravam, dirigiam súplicas ao Alto, vibrando amorosamente por ela, para que ela acreditasse que era digna do perdão. A lição amarga do drama fez com que a cada amanhecer, Gwen dirigisse à suicida singela prece, que agora era repetida pelo núcleo.

Sheila, sentindo-se exausta, carecia sem mais delongas de repouso e consolo! Sob o impositivo de um arrependimento sincero, seguido de vontade forte em fazer continuadamente o bem para reparar, na medida do possível, as torpezas perpetradas, aproximou-se do grupo em oração que irradiava um brilho dourado.

Sentindo-se agora fortalecida, continuou absorvendo do grupo as vibrações afetuosas que se formavam em beneficio dela. Deixou que seu ser absorvesse mais e mais aquela luz que a inundava, restaurando nela a vitalidade e equilíbrio outrora perdidos. Sheila, sentindo-se novamente arrebatada e ao mesmo tempo acuada por sua própria consciência, orou com palavras de súplica e arrependimento:

- Piedade - disse em lágrimas -, eu errei demasiadamente. Muitos sofreram pelos meus desva-rios. E agora, nada posso fazer. Socorra-me alguém, perdoe-me. Eu imploro!

Atemorizada e ainda sob as impressões do pesadelo em que o suicida conserva como um sonho recorrente, pouco a pouco se deixou envolver pela vibração benéfica. Naquele momento persistiu em seu caminho em direção ao centro do foco luminoso e após alguns passos atingiu o local. Por estar mais próxima, reconheceu agora cada um dos companheiros que reunidos oravam por ela. Em seguida, no centro do círculo luminoso composto pelos personagens encarnados e desencarnados, postou-se a avozinha desencarnada, mobilizando forças afetivas para socorrê-la e a advertiu novamente:

- Filha, lembre-se de que o Criador é Pai de todos nós, e ninguém está desamparado sob as Suas vistas sublimes. Confie! Acalme-se, querida, serene seu coração.

Outra vez em lágrimas, Sheila compreendeu com mais profundidade ainda o drama infeliz do qual era ela a protagonista. Viu com os olhos de seu corpo espiritual, em um minucioso panorama, a dramática cena, o seu suicídio.

Compreendeu mais integralmente, o que a surpreendeu e desapontou, que o tóxico letal seguido da projeção do seu corpo no abismo, foram ineficientes como lenitivo para os males de sua alma que também compreendera ter, ao contrário do que pretendia, se agravado e muito! Perplexa, mais uma vez não entendia como sabia ter o seu corpo se desfeito ao se jogar no precipício, e, como assim ela ali permanecia viva! Sentia ainda a sensação permanente de que o seu estômago, o esôfago e a garganta estavam em ebulição. Como podia sentir a perene falta de ar em seus pulmões? Como poderia estar acontecendo tudo aquilo se todos os membros estavam desconectados pela queda? Como sentia essa longa agonia se prolongando infinitamente ainda, enlouquecendo-a? Reconheceu-se pesada, retida como se vigorosas raízes a fixassem ao chão. Desesperada, gritou tomada pela penosa asfixia dilacerante!

Finalmente, se o seu corpo de carnes extintas, fora destruído por um ato da sua vontade mal dirigida, sua verdadeira personalidade, a espiritual, continuava em plena posse da vida. Sim! Estava viva em espírito! Era isso! Percebendo-se amparada, chorou de alívio e gratidão. Desmaiou, sendo levada desfalecida sob os cuidados amorosos de sua avozinha. Adormeceu profundamente.
Gwen sentiu a presença angustiante da suicida, mas, que agora, entregara-se ao Pai! A partir daquele dia, não ouviu novamente a terrível gargalhada de horror que ecoava em sua mente desde o trágico acontecimento. Tárefa cumprida, o núcleo regressou ao lar.
Por esse tempo, acontecimentos expressivos haviam modificado o panorama sereno de Dublin. Imposto pela força da cultura que se seguia à força bruta das armas nas campanhas contra os celtas, impiedoso patrulhamento foi ordenado pelos que aderiram aos costumes romanos, na tentativa de subjugar aqueles que revelassem inclinação e simpatia à crença dos druidas.

Rotulavam os celtas como bárbaros sedentos de sangue dedicados a sacrifícios animais e humanos, no entanto, era muito mais um subterfúgio político do que a realidade, Tal como nas culturas grega e romana, pode ter havido grupos individuais que se excederam, mas, como um todo; a Espiritualidade dos celtas reverenciava a vida e por isso, este povo nunca aprovaria como procedimento usual, o sacrifício dela. A divulgação pelos romanos da existência de sacrifícios em rituais praticados entre os celtas, era parte de uma estratégia política, a qual buscava justificar os atos de brutalidade perpetrados por Roma.

Desta maneira, a cada dia as invasões romanas nos domínios celtas tornaram-se mais e mais opressoras.

Era um dia de setembro, fazia calor quando um imenso céu azul de nuvens se estendia entre as colinas e um mormaço se espalhava pelos vales. Havia vestígios de fumaça no ar. O rebanho havia descido das colinas e estava agora pastando próximo à casa em que residiam. Fora o ocasional mugido do gado no pasto e o suave roçar da brisa nas folhas, tudo era silêncio, se não fosse a agitação de Ryan, que entrou em casa apressado.

A qualquer momento esperava-se que grupos de homens surgissem para roubar o gado e até mesmo incendiar as fazendas e apossar-se das terras. Os moradores estavam sempre prontos a enfrentá-los, mas o motivo de sua aflição não era esse:

- Tropas! - enfatizou Ryan -, romanos vêm subindo pelo vale. Estão já a poucos quilômetros de distância! Embora nossa ilha seja uma defesa natural por dificultar invasões, tropas vinculadas aos romanos, embora não tão numerosas, avançam de tempos em tempos em ataques contra nosso povo.

- Acha que desejam o gado?

- Não! Fui informado que o motivo é outro, Gwen. A nossa crença, que é o que principalmente dá unidade aos povos de nossa língua e cultura! As ameaças são reais! Vou levá-los para um lugar seguro e retornarei para enfrentá-los.

- Não - ela disse -, ficaremos juntos.

Ryan estava apreensivo, seria terrível ter de abandonar a casa e o rebanho para invasores. O gado, principalmente, era meio de subsistência. Entretanto Ryan não estava tão preocupado como dizia, com a casa e com o gado, mas com algo bem mais sério: a vida de Gwen, que com certeza não se separaria dele, preferindo lutar ou até morrer, ao seu lado. Precisava tirá-la dali.

Foi então, que teve uma ideia. Era ousada e perigosa e também seria necessário habilidade para convencê-la sem, no entanto revelar para ela os detalhes de seu plano. A propriedade estava sendo vigiada; havia um cerco formado por um contingente de soldados inimigos que viriam atacá-los, os coagindo a se renderem. Ryan sabia bem o que fazer e o seu plano consistia, sobretudo, em retirar os familiares em segurança, ficando ele no enfrentamento ao invasor. Caso compartilhasse sua estratégia com a esposa, dando-lhe ciência dos fatos, ela não aceitaria. Então, portando um autoritarismo que nunca antes existira no seu falar, disse:

- Gwen, não me faça perguntas e aceite minha determinação: teremos que partir esta madrugada. É arriscado, e se não der certo, talvez eles nos matem! Vou detalhar a você o meu plano, definindo o que precisamos fazer e necessito muito de sua ajuda.

Gwen que percebia, ainda que não totalmente, os riscos a serem assumidos por Ryan, tentava argumentar levantando motivos para impedir a atitude do marido. Então pensou: Como partir? Deixar a sua ilha?

Que decisão é essa, Ryan? Por que deixar o nosso trabalho, o nosso lar, enfim o nosso futuro aqui, por causa de supostos invasores, que não temos nem certeza se virão? Por que ainda, caso venham, não enfrentá-los?

- Gwen! Gwen! Não há outro remédio! Se desejar que a nossa família sobreviva, deveremos partir!

Inconformada com a possibilidade de se separar do marido naquele momento de intenso perigo e ainda ter de abandonar a sua ilha, olhou para ele pensativa. Por ora, frente à convicção de Ryan em seu plano, aceitou, entretanto não conseguia encontrar uma explicação que a convencesse de estar agindo certo, ainda mais que continuava sentindo aquela estranha sensação que dominava seu íntimo.

Não sabia o que, exatamente. Aqueles eram tempos perigosos! Finalmente, deixou-se convencer, tudo deveria ser feito para resguardar a vida dos familiares. Ryan, então, tomou as necessárias providências, pois naquela noite, eles seriam levados para esconder-se em uma gruta, levando o mínimo de bagagem possível, e posteriormente seguiríam para outras terras. Ilido acordado! Ryan e Ronan traçaram as diretrizes seguras do plano de fuga, que na verdade, era outro!

Era noite. Ryan foi dar uma volta pelos arredores do jardim, saudoso, rememorando as alegrias dos primeiros tempos quando conheceu a esposa. Ela não acreditava no que estava acontecendo. Entreo-lharam-se como dois espíritos de muitas vivências em comum, demonstrando nessa troca de olhares, extrema afetuosidade, ainda que fosse um momento no qual se viam despertados de um sublime sonho para fatos que se mostravam no seu desdobrar serem verdadeiramente dolorosos.

Não obstante, tomassem as providências necessárias, ambos saíram para o jardim que existia quase escondido no bosque e que era para o romantismo deles, um jardim secreto o qual foi palco do encontro primeiro deles como casal. Uma vez a sós, ele a tomou com carinho e a abraçou em demonstração efetiva de amor. No melhor estilo dos que estão verdadeiramente apaixonados, intensificado ainda pela indefinição do porvir e sem faltar o testemunho obrigatório das estrelas que guarneciam o céu e em contraponto à claridade da lua, este cenário de sonho testemunhou um beijo, que reviveu em cores de sentimento, os primeiros encontros deles.

A realidade como sempre bateu, então, na porta. O despertar é obrigatório e quase sempre cruel. Ele comentou que a situação era muito grave, que ela e o grupo iriam à frente, mas que logo, iria encontrá-la:

- Eu sinto muito, minha querida. Jamais almejei desapontá-la. Sei que por você, jamais deixaria a sua ilha...

- Ryan, o nosso verdadeiro bem é o que construímos dentro de nós, nossas virtudes, e essas levaremos para onde formos. Quanto a nossa ilha, jamais pretendí sair daqui... Isso é fato! Sinto na intimidade mais profunda de meu ser que aqui foi o local em que a Providência nos colocou para o aprendizado necessário, para superarmos as limitações trazidas de existências pretéritas. Mas, não podemos nos deixar abater - disse ela, de modo a encorajá-lo, em lágrimas.

- Gwen, não chore, tudo dará certo. Em breve nos veremos! E vou trazê-la de volta... Custe o que custar. É uma promessa!

- Ah, Ryan! Ryan! Seus planos... Há algo, não sei bem o que, sinto um forte aperto em meu íntimo. Espero que não esteja me escondendo nada, pois imaginar ser enganada por você seria, com certeza, a decepção maior que eu poderia ter. Gostaria de ficar ao seu lado, e encontrar os demais posteriormente.

- Não, Gwen! Impossível! Pode ter certeza absoluta de meu amor por você. Além disso, deve passar segurança ao nosso núcleo. Confiam em você! Em seguida, irei ao seu encontro.

E assim permaneceram por mais alguns momentos. Despediram-se tendo cada um o sentimento vivido de que a partir daquele momento a separação seria duradoura. Depois de outras considerações, visando prolongar este momento, o esposo lhe disse que estaria à sua espera sempre.

Sem conseguir manter a naturalidade e a calma que desejava, ela novamente se emocionou com intensidade. Sentiu vontade incontrolável de chorar, entendendo que seria o pranto a maneira a afugentar aquele sentimento de profunda angústia. Havia algo estranho no ar... Muito estranho! O quê? Com a percepção dilatada, através de sua fé reforçada por orientações vindas da dimensão espiritual, chegara à conclusão de que deveria confiar na Proteção Divina que sabia sempre o que é melhor em todas as situações para todos nós. Mais ainda, se sentir segura e transmitir por palavras e pelo exemplo segurança aos jovens.

Entretanto, somente Ronan conhecia o arriscado plano: desviar a atenção dos invasores, preparar uma emboscada, salvar os familiares. A noite chegara, e sob o seu comando algumas carroças e cavalos deixaram a fazenda sem chamar a atenção, rumo a uma gruta próxima. Ryan, demonstrando qualidades morais possuídas por poucos, podería ter seguido com o grupo para o abrigo.

Contudo, preferiu se oferecer como isca, e esperar os invasores para atrair a atenção deles e lutar ganhando tempo para que os familiares se refugiassem, tendo, com isso, a vida preservada.
Um dia se passou. Ao longe, viam-se os soldados aproximando-se da propriedade. Cumprindo o esperado na estratégia de Ryan, se achassem que a casa estava defendida, talvez se espalhassem para poderem se proteger. Porém, ainda à distância, viam sinais de que era evidente que a moradia fora abandonada às pressas. A porta estava escancarada, silêncio sinistro. Ainda em formação compacta os homens avançavam. O terreno era delineado de um lado por um leque de árvores frondosas, e de outro, por um muro baixo. O chão declinava suavemente. Os homens ainda estavam a alguns metros, quando houve um sinal. Súbito, o trovejar de cascos começou. Parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, fazendo com que o grupo de assalto parasse confuso, olhando de um lado para o outro. Então, eles horrorizados viram o que era. As manadas avançavam. Já corriam bastante e, quando os dois conjuntos acabaram de dar a volta no moinho e convergiram, tornaram-se uma única massa na qual o enfileirar de chifres pontiagudos dos bois que estavam na linha de frente se destacavam. Os cavaleiros atrás delas, gritando e estalando açoites a fim de forçar o estouro da boiada.

Desta forma, uma avalanche composta por centenas de bois e de peso descomunal desembestou ladeira abaixo formando uma extensa muralha de chifres, lançada contra os atacantes abaixo. Os homens procuravam uma salvação. Não havia para onde ir! A grande manada enchia todo o espaço entre as árvores e o muro, não havia como alcançar nenhum dos dois. Os invasores procuravam desesperadamente um meio para fugir, todavia a boiada já estava em cima deles. De onde estava, Ryan montado em um cavalo, viu a muralha de bois a esmagar os homens. Espadas voaram pelos ares, gritos, mugidos, cavalos a relinchar; em seguida, somente o fluxo do rebanho arrastando tudo o que via pela frente. Ryan vitorioso desceu do cavalo levantando e agitando os braços em comemoração! Seu plano deu certo! O gado, após passar por cima dos invasores, se espalhava. Ryan agora pastoreava os animais habilmente, fazendo com que voltassem. Inspecionava os estragos. Os homens, a maioria mortos, outros jaziam gemendo. Atrás, onde o grupo invasor foi surpreendido, via-se uma verdadeira carnificina. A manada atropelara todos, constatara Ryan. Eles, homens da lida no campo, milagrosamente salvaram famílias e lares da sanha dos guerreiros invasores. A emboscada fora bem preparada. Felizmente, os seus familiares estavam salvos!

Então, inesperadamente, um grupo de soldados inimigos que estava mais atrás da falange dizimada, surge a galope e faz imediatamente prisioneiros os vaqueiros, os quais juntamente com Ryan, foram surpreendidos longe de suas montarias. O grupo de Ryan foi rapidamente dominado e cada um deles tinha agora ao lado dois soldados que lhes seguravam os braços. Um guerreiro aproxima-se de Ryan:

- Onde estão as mulheres? Estamos à procura de uma, em especial: a feiticeira. A que tem o poder sobre a fonte! Vamos capturá-la!

- Mulheres? Que mulheres? Não vê que eu estou só?

- O paradeiro dela... Vamos! Fale! É a sua última chance!

- Esqueça! - admitiu Ryan -, jamais a encontrará...

Uma espada perfurou seu peito, matando-o instantaneamente.
Na gruta, o grupo doméstico aguardava Ryan. Gwen estranhava a demora de sua chegada, afinal, ele os encontraria em dois dias! Um, dois, três, quatro dias, correram... Em vão!

Foi então que Ronan finalmente resolveu revelar o que o tio havia planejado: esperaria os invasores, armaria um estouro da boiada, para encurralar os soldados a fim de que os familiares ganhassem tempo e fugissem. Se ele não chegasse no dia aprazado, que partissem!

Gwen, pálida, feições transtornadas, mãos trêmulas, só agora entendia as últimas palavras do esposo. Seus pressentimentos... Sua angústia... Como fora tola! Ryan havia se sacrificado para salvá-los! Cega de lágrimas recordou-se de suas impressões, ao conhecê-lo. Emoção, certa nostalgia, uma revelação que não deixava de conter ensinamento e beleza, quando ouviu:

- Eu sinto muito, minha tia - aproximou-se Ronan e a abraçou -, o tio Ryan me proibiu de falar de seu plano. Uma emboscada bem preparada... Um plano astucioso. Eu relutei a aceitar, pois sabia que talvez ele não sobrevivesse. Entretanto, refletindo bem, mesmo que o pior possa ter acontecido, ele estava certo! Foi para salvar a todos! Perdoe-me, tia. Não me queira mal.

Ah, meu filho, - disse ela compreendendo agora todas as consequências da escolha de Ryan -, tenho hoje a certeza de que ele e seus companheiros se sacrificaram para que nós e nosso ideal de fé sobrevivéssemos...

Ronan gesticulou consentindo.

- Querido Ronan, - ela prosseguiu com a voz embargada, - tenho também em meu íntimo, a certeza de que o seu tio deu a própria vida para nos salvar.

A escuridão desceu. A lua trazia para a estrada uma luz suave a qual, pelo contraste das árvores mais escuras em relação ao leito do caminho de terra, a fazia parecer serpentear entre elas. Ficaram então tristes, silenciosos e pensativos olhando um para o outro. E como se despertasse, Ronan levou a mão de Gwen aos lábios, beijou-a, e inspirado, pronunciou afetuosamente:

- Tia, tudo isso deve ter um propósito, cujo entendimento em sua completude se alonga para além de nossa capacidade atual de refletir! Um dia voltaremos à nossa ilha, tenho certeza! É uma promessa. Conte comigo no que necessitar e principalmente para cultivar nosso ideal de fé. Tenha a certeza de que tem em mim um filho espiritual e aliado verdadeiro, nesta e em outras vidas!

- A existência tem misteriosos propósitos, que muitas vezes permanece oculto a nós. Eu sinto que Ryan fez a grande viagem do plano terrestre para o invisível, meu filho.

Consternados, porém convictos da importância de seguir em frente, a pequena caravana seguiu para Meath, onde residiam Norah e Sales, os quais com hospitalidade e carinho acolheram os familiares. Ibdos sentiram que lá era efetivamente um refúgio seguro. Naquele tempo de invasões e saques, mesmo lá as dificuldades foram muitas. Porém, em um esforço de superação e fé, desde a chegada deles, cada qual trabalhou na tentativa de demonstrar seu empenho em um esforço solidário, cooperando com boa vontade na solução até dos mínimos problemas.

CAPÍTULO 21

Estações sucederam.

Naquele dia, em especial, incidiram sobre o grupo novas irradiações e desdobrou-se importante episódio.

Algum tempo depois da morte física, Ryan despertou. Quanto tempo teria permanecido na inconsciência após a sua partida da matéria densa? Não sabia. Viu-se acolhido por mãos amorosas as quais não identificou no momento. Por já ter conhecimentos sobre a realidade espiritual, compreendeu sem muito espanto ou trauma o que tinha acontecido. Entretanto, pensava na esposa amada e mesmo com a sua compreensão da perenidade da vida e da certeza do reencontro, sentia a separação.

Gwen todas as noites, em orações que elevava a Deus pedindo por ele, enviava igualmente de si, através dos laços que os unia, vibrações amorosas. Depois de algum tempo começou a ter sonhos com ele, de uma clareza e nitidez como nunca experimentara. Percebia que ele a visitava! Por serem esclarecidos e a saudade que os separava ser ausente de inconformismo, ante os desígnios de Deus, foi permitido a ela atingir as estâncias espirituais onde estava o seu amado.

Amparado por benfeitores espirituais, Ryan tinha algo a lhe revelar. Ela o via em um lindo jardim, tal como o havia visto quando o conhecera. O mesmo sorriso terno, sincero e cativante. Como na vez primeira, trazia consigo um arranjo de flores e escolhendo uma delas em especial, a retirou, ofereceu a ela e declarou seu amor. Foi assim que aconteceu! Era assim que o via!

Depois, desperta e já em seus afazeres, Gwen refletindo, passou a ter certeza de que o encontro realmente acontecera em uma realidade paralela.

Longe de se parecer com aquelas peripécias desconexas das aventuras oníricas que acontecem nos sonhos comuns, aquele fora lúcido e, mais ainda, deixou nela o sentimento vivido da plenitude de um encontro real com um ser muito amado!

Com o suceder dos dias, a viagem ao além acontecia com maior frequência. Certa noite, Gwen teve a visão de Ryan a dizer-lhe que sentia saudade, porém estava bem. Desta feita, rejuvenescido e sorridente.

Emitindo vibrações encantadoras, disse-lhe:

- Eis-me aqui, minha amada Gwen, ainda mais vivo e senhor de mim, visto que agora tenho maior consciência. Meu amor se intensificou. Perdoe-me por tê-la deixado tão cedo. Somente quis protegê-la.

No sono de cada noite, eu a espero. Continuamos unidos através do pensamento, dos nossos valores e do nosso ideal.

Após breve pausa, emocionado prosseguiu:

- Eu disse que você retornaria à ilha que tanto ama. E assim será... Pois, embora passado um tempo relativamente longo, é chegada a hora! Poderá retornar no momento em que seu coração pedir! Rogo-te que continue a orar ao Pai Criador, por nós, para que em seguida à sua decisão de partir, eu possa, com o auxílio de nossos Mestres Espirituais, guiá-los em segurança de volta.

A silhueta amada extinguiu-se lentamente, ela acordou, e na penumbra do ambiente e permanecendo aturdida, não sabia como proceder. Mas, tinha certeza! Era a confirmação dos últimos sonhos.

Sentindo repercutir ainda em seu íntimo, com o espírito sereno por conta da vibração benfazeja da visita, informou segura aos familiares que poderíam regressar a Dublin e que teriam a proteção espiritual, especialmente a de Ryan.

Os familiares ouviam emocionados. Quando cessou de falar, só ela, embora com a voz embargada, tinha os olhos secos. Ibdos choravam emocionados. O recado foi dado! Seriam protegidos pela Espiritualidade benfeitora quando fossem retornar à Ilha Esmeralda! E era isso que iriam fazer...!

Na Espiritualidade, depois de algum tempo em re-fazimento, Gracie encontrava-se agora ao lado de seus familiares, de Douglas, Brigite, Brian, Ryan e Ágata, dentre outros.

Ernesto recebia tratamento em uma instituição adequada ao desequilíbrio mental. Afonso e Emílio já se mostravam mais aptos ao reerguimento moral. Ágata permanecia disposta a amparar e dividir as responsabilidades de um lar com Afonso, em futura existência reencarnatória.

Sheila estava sendo reeducada pelos benfeitores, amigos e familiares que carinhosamente cuidavam dela. Quando após um tratamento ela despertou, foi com alegria que ouviu a avozinha perguntando:

- Como está, minha filha?

Sheila olhou para ela com os olhos úmidos de lágrimas, apanhou sua mão e a beijou, falando entre soluços:

- Sinto-me bem melhor, vovó. Como se... Como se eu tivesse renascido!

- Pois, renasceu, minha filha, experimenta uma nova vida.

- Por que... ? Por que fui tão má? Por que fiz tanta coisa errada?

- Os que erram, fazem por ignorância, minha filha.

- E os meus inimigos? E Afonso? E Emílio, vovó?

- Assim como você, os dois têm amargado muitas culpas, entretanto, mostram-se arrependidos e pedem uma nova chance para se modificar. Quanto aos demais pedem renovar. mais, alguns lamentavelmente, ainda nutrem desejos de vingança. É muito difícil para os que se destacam em importância nas trevas desapegarem-se de seu poder.

- E Ágata, me odeia?

- Ágata é uma alma nobre. Hoje trabalha auxiliando espíritos que desencarnam.

Sheila permaneceu algum tempo em reflexões profundas. Havia tanta coisa que queria aprender...! As palavras da avozinha muitas vezes pareciam estranhas para ela. Seus erros foram graves, e embora já muito tivesse sofrido, e houvesse atenuantes, não se isentava de culpas.

Contudo, uma coisa havia compreendido: a necessidade de aprender os verdadeiros valores do espírito. Não desejava mais permanecer presa a instintos inferiores. Aspirava conhecer mais sobre o bem e a verdade para conseguir se libertar dos desenganos e perceber a realidade que paira acima das trevas da ignorância.

Para os benfeitores espirituais, o melhor para ela seria retornar à Terra em breve tempo, para a própria edificação moral e refazimento do perispírito danificado pelo ato suicida. Assim foi programado.

Na ilha, vamos encontrar nossos personagens mergulhados em intensas expectativas. A vida era cada vez mais cheia de esperança para eles, que se sentiam renovar.

As suas existências começaram a se transformar, tornando-se cada dia mais alegres e animados na disseminação da Doutrina. Ali, nos arredores, suas idéias se espalhavam. Atendiam os peregrinos que vinham em busca de consolo, paz, saúde e orientação. Prosseguiam nas tarefas enxugando lágrimas e recompondo vidas com a distribuição de esperança.

À noite, ainda fazia frio e várias fogueiras eram acesas.

Em rodas alegres, os moradores divertiam-se, os jovens dançavam cada um se esmerava mais, na elegância e arte. Cantavam canções, declamavam poesias. A escola se revitalizou, e progredia, atraindo mais pessoas para a redondeza e alguns comerciantes que buscavam a vila para explorar as suas mercadorias.

O solo ganhava o verde que se sustentava abundante como roupagem daquelas terras, símbolo vivo de esperança. A natureza explodia em cores e perfumes na ilha esmeralda. As árvores acolhedoras que os cercavam mostravam-se mais frondosas, oferecendo flores que antecediam os frutos bem como fluidos sutis de energia vital. Os pequenos animais selvagens pareciam atrever-se mais ao deixarem suas tocas em busca dos alimentos. Pássaros faziam alegria cantando e voando livres...

Passaram os dias, até que uma comemoração serviu de prelúdio para algo importante que começava a ocorrer na alma dos jovens que, curiosamente alcançavam quase que simultaneamente a mesma idade. Neles desabrochavam novos sentimentos. Empolgados e fervilhantes de vida, sentiam-se felizes entre as vibrações fraternais do ambiente doméstico e a proximidade de outros jovens que lhes despertavam sonhos e mesmo com pouca convivência, alguns até já trocavam juras, seguidas de promessas apaixonadas de união perene.

Acássia e Muriel, filhas de Gracie; Ronan, o filho de Ágata; Alana e Aurora, filhas de Gwen, eram as crianças que cresceram e se fizeram jovens belos e saudáveis e com percepção aguçada dos efeitos produzidos por suas ações, para o bem ou para mal.

Aqueles dias foram para Ronan e para a bela Alys-sa, moça filha de vizinhos, a constatação de que entre os dois havia algo forte, inusitado, capaz de despertar sonhos que prometiam felicidade. Esse sentimento evoluiu e então, passaram a se encontrar e a timidez manifestada por ambos nas primeiras trocas de palavras foi desaparecendo com a frequência de seus encontros. Isso sinalizou para as famílias e amigos que estavam "oficialmente" enamorados. Suas atitudes de afeto recíproco e o fato de estarem sempre juntos ,bem como a maneira como trocavam olhares, eram os indicadores seguros da intensidade do sentimento que os unia. Assim sendo, seguindo a ordem natural, em pouco tempo se comprometeram a assumir a permanência de sua união em cerimônia segundo os seus costumes, para a qual marcaram um dia.

O tempo trouxe, em breve, a data aprazada. Os raios de sol, que enfeitavam a floresta, formavam um painel de luzes e sombras destacando um espaço vazio de árvores grandes, ambientando uma catedral de folhas. Ainda fazia frio, mas o dia estava sublime. Reuniam-se familiares e amigos para oficializar o compromisso matrimonial de Ronan e Alyssa.

E se as atenções dos circunstantes não se encontrassem tão focadas neste acontecimento, o qual era pleno de alegria, claramente perceptível nos risos e nas músicas festivas, seria certo que aquele que possuísse percepção psíquica do invisível, teria deparado com o belo quadro que ali mesmo se desenrolava enquanto os nubentes recebiam as bênçãos. A cena, já normalmente emocionante pelo enlevo de sentimentos recíprocos do casal, no momento era mais potencializada em emoção, acrescentada pelo transbordar dos eflúvios vindos do mais além.

Brian, Myrna, Marven, Douglas, Ryan, Brigite, Ágata, Gracie e outros seres amados do plano espiritual, estavam presentes ali, trazendo bênçãos que se traduziríam em ventura e paz. Eles compartilhavam a alegria do momento a qual unificava literalmente Céu e Terra. Formavam uma corrente circular por fora, acompanhando outra que se formava internamente com os personagens encarnados.

Outros benfeitores espirituais ligados ao núcleo os envolviam, produzindo emanações de paz e harmonia, enquanto de suas mentes luzes em cores safirinas jorravam, tendo como centro o altar de pedras. Suave melodia, inaudível para o ouvido do corpo físico, porém percebida com encantamento pela alma, era tocada por musicistas invisíveis, propiciando ao ambiente vibrações transcendentes de elevação.

Ronan e Alyssa, com as suas almas mergulhadas nesse vórtice de luz, se abraçaram e enlevados selaram o momento de união com um beijo que representava e antecedia a ligação física das núpcias, unindo seus corpos e almas que, já foram prometidos um ao outro em data anterior à vinda deles ao mundo de matéria densa.

Um benfeitor, vindo de esferas altas da Espiritualidade, sinalizou que Brian intuísse Gwen para que ela transmitisse as bênçãos ao casal. Canalizando essa solicitação espiritual, Gwen espalmou suas mãos sobre a cabeça dos noivos e, com o olhar elevado e olhos cerrados, orou colocando palavras de beleza, suavidade e fé, moduladas pelos eflúvios transcendentes do momento, elevando a intensidade das vibrações de amor que fluíram, plenificando o espaço da cerimônia.

Finda a oração, sem dar tempo a qualquer manifestação dos presentes, inclinou-se e beijou o casal. No silêncio do momento em que este templo da própria natureza parecia iluminar-se de novas luzes, os soluços dos presentes se assemelhavam a preces murmuradas. Estava escrito, todavia, que aquela cerimônia simples pela ausência de pompas e circunstâncias visíveis, reservaria ainda outra surpresa. Logo mais à noite, cena diversa aconteceu no aposento de Gwen, quando seu avô em espírito se manifestou advertindo-a:

-Gwen, para encerrar um doloroso capítulo da vida de Sheila, abre-se uma nova oportunidade. Nossa irmã deixou-se impregnar pelos próprios desequilíbrios, pelo vazio existencial que criou em seus projetos de vida quando privilegiou as paixões inferiores, fixando em si a impressão de que não existia solução para os seus problemas, acabando por ficar sem esperança e inutilizar o seu corpo físico, utensílio de aperfeiçoamento e progresso. Assim, por esse ato de suicídio, lesou gravemente seu corpo espiritual.

Antes que Gwen perguntasse algo, Brian adian-tou-se:

- A fim de que ela possa retomar sua marcha evolutiva com empenho no bem, benfeitores do mundo maior avaliaram a possibilidade de ela reencarnar brevemente. Assim sendo, durante o tempo de permanência dela nesta jornada encarnatória, o amor, que precisará ser dedicado a ela incondicionalmente por seus futuros pais, deverá devolver à Sheila a esperança e a fé, as quais demonstrou por seu ato estarem enfraquecidas. Nascer de novo é também refazer-se. Sheila vai ter a oportunidade de dar mais um passo na sua evolução moral, pois a sua recuperação se dará gradativamente, aumentando nela a certeza de que o Criador Supremo é amor e justiça.

Brian, cujas vestes brancas agora brilhavam como a neve nas manhãs de sol, prosseguiu:

- Filha, conforme combinado com vocês antes do reencarne de ambos, Alan, que assim como você já tem claro na mente o seu ideal de trabalho, deverá partir para outras paragens, para fazer conhecida a nossa crença, no entanto sempre deverá voltar à nossa ilha. Quanto a você, como sabe e como percebo em seu pensamento, deverá permanecer aqui e se empenhar, de preferência pela educação dos jovens e crianças, pois só a obra de uma sólida educação moral-intelectual, firmada em princípios, os encaminhará na aquisição dos valores verdadeiros. Seja boa e virtuosa e assim contribuirá, com afeição e boa vontade, para que esta nova geração cresça orientada para o bem e para a busca da verdade.

- Ah, vovô... Vendo a independência dos jovens aos quais me empenhei na criação e até pela idade que tenho, pensei por alguns momentos que bndara minha tarefa aqui, seria breve o meu retorno à vida espiritual e que este momento estaria próximo...

- Jhdo tem a hora certa no relógio de Deus, minha filha. Sinto muito, mas, existe ainda muito trabalho pela frente e sinto mesmo que, pelos afazeres programados para você, está mesmo longe o tempo de chegar sua hora...

- Sim, vovô, pois então, sabendo disso, que seja feita a vontade de Deus que se expressa na vontade de nossos protetores espirituais. Até este dia chegar, por favor, continue me apoiando e peço que não me deixe...

- Jamais, filha! Conte sempre com a minha ajuda, sempre!

Abraçaram-se os dois espiritualmente, na extensão de todo o amor que duas almas podem sentir.

Dessa forma, na dimensão invisível foram então traçadas linhas gerais para estender o socorro a Sheila: seria recebida como filha de Ronan e Alyssa que haviam se casado, e consultados pela Espiritualidade superior nas horas de sono, consentiram em recebê-la com muito amor, para que durante sua reencarnação, através deste amor, se realizasse um reajustamento no perispírito dela e, mais ainda, marcando sua existência com uma dose maciça de afeto que substituiría em seu psiquismo, em parte ou possivelmente na quase totalidade, o trauma do ato profundamente desarmo-nioso para o espírito imortal que ela escolheu fazer.

E, o resultado não se fez esperar!

A gestação decorreu com graves dificuldades. Sheila, qual se houvesse encontrado o socorro providencial a que necessitava veio à luz. A criança foi colocada nos braços maternos, que houvera se encarregado de ter a missão de gerar e receber um bebê, com grave deficiência neurológica, o qual demandou dos pais, até os 12 anos de idade, cuidado, carinho e atenção que não faltaram a essa criança, que nasceu exatamente para receber dos pais, amor intenso traduzido em cuidados e carinho permanentes.

Até a proximidade da partida dela, em idade tão jovem, Sheila, embora com comprometimento grave de seu cérebro que lhe impedia a fala e que limitava em muito o entendimento, pelo olhar, sua alma mais e mais se comunicava com seus pais retribuindo também mais e mais o amor recebido.

Os pais, espiritualizados que eram e com consequente certeza na imortalidade da alma, bem como na permanência perene dos laços de afetividade, que unem os seres os quais verdadeiramente se amam, se conformaram com essa deliberação, quase que, para muitos de nós, incompreensível, da determinação divina. Posteriormente, o casal teria outros filhos já programados.

Sheila recebeu o providencial beneficio, que a preparou afetivamente para uma nova encarnação, isenta de deficiência tão grave como fora essa última, para que durante esse período pudesse por si, no exercício pleno de seu intelecto e de sua vontade, reparar fazendo o bem para compensar os desacertos pretéritos.

Assim, com o tempo que traria novas experiências e com o concurso da boa vontade dela, aprendería a valorizar, como exercício de progresso moral da alma, outra existência na qual enfrentaria lutas e amarguras temporárias, respeitando e conservando bem o corpo físico, porquanto ele significa a maior dádiva divina para o progresso do ser imortal que todos somos.
Nova etapa de vida cheia de alegria e bênçãos envolvia mais os nossos personagens. Durante o tempo decorrido desencarnaram quase todos do núcleo doméstico. Norah e os familiares permaneciam em Meath; Alan disseminava a doutrina em regiões distantes; dos mais velhos, em Dublin, restava somente Gwen. Ela experimentava, agora, uma sensação in-definível.

Sentia uma saudade vaga e incompreensível que acontecia nos momentos meditativos. Eram fenômenos introspectivos no qual seu espírito evocava recordações de seu passado longínquo e nele as lembranças desfilavam em revoada. Nesses momentos, ela via que ao passado de sombras, sofrimentos e malquerenças, sobrepunham-se imagens de um tempo futuro com desvelo e realizações edificantes. As representações apareciam agora claras em sua mente, como projetos as quais cumpriría a todos transformarem em bem-aventuradas realizações.

Daquele grupo de personagens reencarnados em torno de Brian, quase todos se haviam convertido ao bem em lutas redentoras e agora eram espíritos de boa vontade, que se encaminhavam para novos ciclos de ascensão para o Criador.

Gwen permaneceu ainda encarnada, por muitos anos, amparando os jovens que por sua vez se casaram, e naturalmente, tiveram seus filhos. Alyssa e Ronan foram contemplados com dois rebentos. O mesmo aconteceu com Aurora e Alana, filhas de Gwen; e Acássia e Muriel, filhas de Gracie: todas casadas e agraciadas por garotos e garotas a correrem alegres por todos os lados. Atendiam todos juntos, tarefas sublimadas, em prol de conservar e disseminar o conhecimento e prática de sua crença druídica e, de certa forma, saíram-se bem na dura prova.

Criaram um hino cuja letra consoladora e melodia sutil halsamizava as tristezas da alma de todos os matizes, o qual era cantado por toda a redondeza. A mesa de refeição era sempre farta. Mas, Gwen, não se sentava, esperava até a última criança para tomar parte na mesa com os demais. Então, servia-os. Depois orava e os presentes acompanhavam a oração mentalmente. Houvesse ou não pessoas de fora, o programa era esse! E todos se curvavam àquele modo de vida simples, e se deliciavam embaixo das fartas árvores, que cresceram com eles. As crianças ouviam enlevadas as suas histórias, que descreviam de múltiplos modos a certeza do amor infinito, revelado na paternidade do Criador. O esplendor da natureza era sua escola, sua igreja e seu palco no qual dava vida oral aos personagens de suas histórias, nas quais as crianças compreendiam e assimilavam seus ensinamentos e, por isso, amavam Gwen até o limite da veneração.

Nos festivais, todas as crianças, por menores que fossem, e dentro das próprias possibilidades, habilitavam-se às canções, instrumentos, poesias e declamações. Era uma casa de amor e arte, cheia de vida, bem movimentada e, sobretudo feliz.
Mais anos se passaram. Ronan, naturalmente, após muito estudo assumia o posto de conselheiro e árbitro das questões e conciliador de conflitos entre os que o procuravam.

Gwen, já bem idosa, notou que o seu corpo como veículo, atendia com muitas limitações às necessidades do seu espírito. Desta maneira, como a chama que se esgota por falta de combustível, sua vida na realidade física se extinguiu e ela, em espírito, feliz, regressava à vida verdadeira. Ao acordar na dimensão espiritual, passado pouco tempo se percebeu em um corpo sutil, rejuvenescida e à sua volta uma atmosfera de suave encantamento. O seu despertar fora semelhante ao de alguém que tivesse sono calmo, profundo, restaurador e sereno.

Em um instante, após muito tempo que não acontecia, sentiu uma fragrância que lhe comoveu muito. Era trazida pela presença de seu avô, o que a fazia se sentir imensamente feliz.

À sua frente, sorridentes, felizes e envoltos em roupagens claras e com os braços estendidos para frente, num gesto de quem recebe alguém muito querido e amado após longa e penosa viagem, inúmeras entidades a esperavam: o tão amado esposo, seus adorados pais, suas irmãs, os avós e os guias espirituais. Tbdos vinham recebê-la e a felicitavam por sua volta, plena de realizações no bem e igualmente a incentivando para um recomeço na pátria espiritual.

Gwen fitou demoradamente todas aquelas almas afins.

Súbito, com velocidade ilimitada, seu espírito recuou no tempo e no espaço, até localizar-se numa xistência muito longínqua; daí, em sequência rápida, porém com tempo suficiente para a percepção de cada imagem vista, voltou, passando por outras vivências, num desfile de cenários, personagens e coisas conhecidas. As suas vidas anteriores desenvolveram um panorama sequencial formando um enredo com significação unificada, o qual ela agora compreendia na sua totalidade. Compreendeu muita coisa! E como se despertasse de um entorpecimento, por muito tempo permaneceu abraçada a Ryan e aos entes amados. As lágrimas que umedeciam seus olhos escorreram profusas, quando Brian, seu avô, murmurou:

- Filha, seja bem-vinda! Cumpriu sua programação reencarnatória com êxito! Uma jornada proveitosa em auxílio ao próximo e a si, bem como Ryan, e preparando-se, como sabem, para tarefas mais complexas.

- Sim, meu avozinho! Porém, sem sua proteção e orientação, com certeza não teríamos, Ryan e eu, colhidos os bons frutos que colhemos.

- Gwen - disse Ryan -, há certas coisas a respeito da perfeição das leis de Deus, sobre as quais já me foi dado raciocinar. Suas impressões, pressentimentos, visões de outrora, tudo tinha sua razão de ser. Desde vidas passadas, experimentadas juntos, tínhamos necessidade de progredir e renovar nossos valores morais e intelectuais. Em recuada experiência terrena, eu lhe causei um grande sofrimento, na verdade, tirei a sua vida, e por isso, concordamos em enfrentarmos unidos os desafios dessa experiência, que as leis de Deus nos apresentaram como estímulo para o progresso através da necessidade de nos dedicarmos ao bem. Especialmente eu, que muito longe estava na escala moral, voltei-me novamente a Ele, e assim, nós adquirimos méritos para o futuro, orientados pelas superiores esferas do amor. Espero você há muito...!

Emocionada e confiante, Gwen argumentou:

- Os desacertos ocorridos em tempos passados, com suas atitudes atuais no bem, foram superados. Se ontem me tirou a vida, hoje, pelo amor demonstrado à família, ao nosso povo e a mim, quando ofereceu a própria vida na estratégia para nos salvar, o saldo contábil entre o mal praticado e o seu empenho em nos fazer o bem, ficou zerado, Ryan. Os registros dos nossos erros do passado, pelas leis naturais que regem a nossa vida de caminhantes do tempo, nunca são apagados e por isso, são perenes na intimidade de nossa consciência. Podemos até ignorá-los temporariamente, mas estão escritos em nós, como em um livro, arquivados nos recônditos ocultos da nossa memória. Esses registros de nossas imperfeições foram produzidos em todas as nossas vivências, em épocas anteriores, desta ou de outras encarnações pretéritas, e estão sempre disponíveis para serem resgatados, com a finalidade de corrigir didaticamente a nossa rota ascensional evolutiva, regulamentada pelas leis divinas de amor e justiça.

- Sim, eu compreendo, Gwen.

- Todavia, meu querido, para ler esses registros e superar as limitações descobertas nesta leitura, ou seja, fazer um exame de consciência e se autocorrigir, torna-se necessário um ato de vontade suficientemente forte para vencer a força contrária dos condicionamentos egoísticos adquiridos na alvorada de nossa vida, como aprendizes de humanidade e recém-chegados pelo renascimento, dos reinos inferiores da evolução.

Breve pausa, e acrescentou:

- Estes reinos sub-humanos são regidos pelos instintos que neles são os substitutos da inteligência funcional e da vontade exercida com autonomia no reino hominal. Creio que os desafios serão cada vez maiores nas lutas de crescimento que nos aproximam da perfeição de Deus. Entretanto, agora, com registros também permanentes de padrões de acertos como referências de aprendizado, já portamos recursos necessários para que enfrentemos até dificuldades maiores.

Assim dizendo, Gwen acendeu um leve sorriso.

Mãos entrelaçadas, os dois se sentiam novamente começando uma nova vida em comum neste novo ato de renovação de votos de amor eterno, que se ouve nas catedrais de pedra ou de natureza viva.

Nesta encarnação saíram vitoriosos, ambos ti-nham tarefas a cumprir e eram gratos a Deus e aos protetores espirituais, que lhes proporcionaram a ventura de serem mais que marido e esposa, ou seja, constituírem almas entrelaçadas para a imortalidade. Estavam felizes. Haviam cumprido integralmente a programação reencarnatória feita no advento da volta à vida física na Terra.

Nossa irmã Sheila estava qualificada, agora, para novas experiências no exercício do bem.

Posteriormente ao desfecho do processo de re-encarne e novo desencarne na matéria, passou pelo repouso restaurador, tomada de algum bem-estar, despertando suavemente num leito macio, dando sinais de que algo novo ocorria em suas entranhas.

O amor recebido de seus pais, Ronan e Alyssa, em sua infância na Terra, produzira os resultados esperados. Com isso passou a vibrar de maneira sustentada em faixa vibratória mais positiva. Este período encarnado, embora de duração limitada a 12 anos, foi como se acordasse bênçãos entorpecidas, harmonizando-a às leis de Deus, dando a ela novas chances para ser reeducada e esclarecida, de modo a reparar com o bem, o mal que praticara contra si e contra o próximo.

A jornada terrena a fez abandonar as vibrações de ressentimento e ódio em que mergulhara, sendo agora induzida a examinar seus atos impensados de forma controlada, conscientizando-se de seus erros e atenuando, assim, na consciência dela os tormentos trazidos por seu passivo existencial. E já em condições de refletir verdadeiramente sobre si mesma, reviu as pessoas que prejudicou, sentindo a necessidade de reparar cada erro. Acessou todas as circunstâncias em que se deixou levar por caprichos. Por fim, fixou a atenção no ato final que cometera com o próprio corpo.

E depois, o socorro recebido pela Misericórdia de Deus.

Soluços atrozes emergiam sem que pudesse controlar.

E após intermináveis crises de pranto, percebeu por si mesma, a tendência recorrente de eximir-se aenfrentar as dificuldades, sempre à procura de fugir pela porta fácil das soluções imediatistas, impensadas. E já com relativa condição de reflexão sobre seus atos, com alguma condição de trabalhar pela própria mudança íntima, foram sendo tomadas as medidas iniciais, preparando-se agora para voltar à Terra, na tentativa de se habilitar para a própria edificação moral.

Sob o amparo de encantadora entidade, Sheila teve, em linhas gerais, alguma noção de sua futura programação: - Deverá reencarnar em breve a fim de reabilitar-se das faltas que lhe oprimem a consciência. Sua reencarnação foi planejada pelos mentores espirituais que a ouviram também, tendo em vista a necessidade do aprendizado do perdão e do aprimoramento moral.

Foi então planejado que Sheila nascería no seio de uma família de espíritos conhecidos seus, que lhe dariam amparo.

Emílio e Afonso por algum tempo, igualmente, permaneceram em baixa zona vibratória, passando por terríveis sofrimentos, encontrando-se em péssimas condições espirituais, necessitados da intercessão de benfeitores espirituais, a fim de esclarecê-los e prepará--los; visando ao início de um novo processo reencar-natório. Amigos, familiares e mentores devotados e solícitos, sempre a postos. Entretanto, Emílio logo de início, recusou-se a aceitar ajuda, até que chegara esse momento; quando então, com os recursos benéficos das preces afetuosas, os dois despertavam a novo ânimo, em condição de equilíbrio, ainda que precário, que possibilitou o êxito de intercessões benéficas.

E com os dias, Emílio reviu igualmente os atos que o levaram àquela condição, que se envergonhava e que agora, era ele a solicitar uma nova existência.

Nessa ocasião, com o recurso de Sheila assumir a aparência de sua personalidade anterior à última, na qual fora filha de Ronan e Alyssa, ela e Emílio foram colocados frente a frente pelos benfeitores. Ela envergonhava-se, reconhecendo que o havia induzido criminosamente, sentia-se responsável por ter se utilizado de seus atributos femininos para seduzi-lo. Reconheceu que deu motivos para Emílio a haver odiado. Assim sendo, com humildade, pediu a ele perdão.

O infortunado espírito, sentindo sinceridade nos propósitos de Sheila, se aproximou dela e a abraçou entre lágrimas:

- Perdoo você, Sheila! Mas, perdoa-me também. Ela, então, respondeu com outro abraço o qual ele igualmente retribuiu.

Deu-se outro encontro providencial: Afonso cumprimentou Emílio com respeito e em seguida, foi objetivo:

- Dentre meus homens, destacava-se um pela lealdade verdadeira. Este homem era você, Emílio. Peregrinei em perigosas atitudes de revolta e vingança, perdi muito tempo para alcançar algum equilíbrio e atingir condição de receber o auxílio de amigos devotados e solícitos. Por fim, chegou a hora! Deixemos tudo de lado! Há uma possibilidade, de nos reunirmos em nova experiência, caso aprove.

- Sinto-me extremamente culpado e traidor de sua confiança. Peço a você, Afonso, se possível for, perdão para esses erros enormes que cometi. Perdoe-me, meu irmão! Sei que era o seu servidor de confiança e por causa de uma paixão desvairada por Sheila, eu o traí. Fiquei cego! Inicialmente só tive olhos para a paixão e, posteriormente, parti para o desvario da vingança! Com meus pensamentos e atitudes, atraí e deixei que outras forças cruéis me entorpecessem cada vez mais. Fui eu principalmente que, repelindo toda espécie de assistência dos protetores espirituais, a induziu ao suicídio!

- O que passou, passou, meu caro! Nessa teia de desacertos na qual, vítimas e algozes se revezam na prática dos desatinos, não se torna necessário identificar culpados ou inocentes, e sim cabe no momento, o bom ânimo! Foi concedida nova chance de reparação. Sheila, que por sua encarnação como filha de Ronan e Alyssa, em corpo com deficiência grave, já avançou bastante em seu caminho evolutivo, impulsionada que foi pelo amor intensivo que recebeu durante 12 anos e aos quais aprendeu retribuir, encontrará ainda pela frente dificuldades outras, mas está resignada. De igual forma, eu e Ágata, do mesmo modo, por amor aceitamos a tarefa de embalá-la nos braços como filha, em nova existência na carne. E quanto a você? Sou portador de mensagem de nossos protetores que me solicitaram perguntar se aceita recebê-la como esposa em renascimento de ambos após algum tempo da ida minha e de Ágata para as lides da Terra. Então pergunto: Aceitará?

Emílio, sentindo emoção intensa pela proposta de Afonso, disse:

- Prometo realmente me empenhar para prote-gê-la! Quero recompensá-la por tudo que a fiz sofrer. De minha parte, me comprometo a me esforçar para aprendermos juntos a nos amarmos complementando a força da atração física da paixão com sentimentos elevados!

- Que Deus nos ajude a superar a nossa própria inferioridade. A volúpia do sexo, do dinheiro, do poder, do prazer, do orgulho e da insensatez devem merecer mais amplas atenções de nossa parte. Fui informado que esses são os pontos vulneráveis de nossas quedas. Aí estará a fragilidade de nossas defesas morais às quais se descuidarmos, serão inviabilizadas ou destruídas as nossas possíveis realizações. Que possamos nos reeducar e educá-la. Creio que não será simples vencer as nossas fraquezas, entretanto o roteiro será favorável e a proteção de nossos mentores espirituais será permanente, a fim de que sejamos vitoriosos!
As sublimes lições das leis da vida iluminavam as consciências de nossos personagens, todos eles, seres faltosos, mas revestindo-se de forte propósito para novos aprendizados.

Recolhida em oração, Sheila elevava nas preces o pensamento em rogativa sincera:

- Ofereço, Pai, o que possuo de mim mesma sem ser dádiva Sua recolhida no jardim natural da vida, que é a determinação forte de sobrepor a Sua vontade justa e certa sobre a minha, a qual até então se mostrou vacilante. Assim, suplico que sejam realizações de minha futura vida na carne, não mais os meus caprichos, mas acertos no bem e no amor em cumprimento à Vossa Vontade. Tenho consciência do quanto ainda sou primitiva e vacilante, atada aos condicionamentos dos instintos e das paixões. Todavia, tenho forte desejo íntimo de mudar. Que o adormecer da minha memória antes do alvorecer da nova vida na Terra traga ao meu viver a paz, para que solidifique em mim o aprendizado de amor que tive de meus amados pais, Ronan e Alyssa, quando na prisão física de meu último corpo. Obrigada, Pai de Amor, por esta graça de adormecer para esquecer tudo o que eu fiz, recuperando assim, ainda que temporariamente, até o saldo do meu débito, a paz de minha própria consciência, o que me permitirá caminhar em igualdade de condição dos que caminharão comigo e que já sabem das vantagens infinitas do reconhecimento do bem e das virtudes, como via única para a felicidade sustentada individual e coletiva. Conceda-me, Senhor, forças para a resignação frente ao sofrimento incontornável quando advindo de insistentes tentativas minhas de utilizar desvios do caminho balizado por práticas do bem e do amor. Se eu não conseguir atingir este propósito, Senhor, minha vontade determinante me assegura que tentarei de novo, e de novo..., quantas vezes forem necessárias. Até que consiga caminhar para frente na estrada temporal da evolução dos seres. Ampara-me, Senhor!

Assim, terminada essa súplica sincera, sua face transfigurada pela força de sua determinação, se cobriu de lágrimas...

CAPÍTULO 22

Ágata já havia retornado às lides terrenas, em regresso ao bom combate. O seu empenho seria na reeducação de Sheila, que ainda sob a influência dos instintos que, tão bem dominavam seus sentimentos, permanecia no desejo de posse, de prazer, de poder, situando-se em estágio primário, a favorecer desvios.

Nesse sentido, Ágata assumiría papel de preponderância no futuro lar doméstico. A tarefa dela não seria fácil, estava ciente de que deveria propiciar meios para que Sheila pudesse domar os instintos, na tentativa de disciplinar os sentimentos, resgatando-a da acomodação, da viciosa rotina de luxo e prazeres inconsequentes, bem como Afonso e Emílio, para as devidas expiações.

Sheila, como sabemos, sentia-se encorajada e suplicando por novas lutas, dispondo-se a seguir o roteiro do reajuste, que contemplava ela e a todos quando reencarnam, obedecendo às leis que presidem a evolução dos seres.

Ibmando novo corpo, com as percepções limitadas pelo esquecimento temporário, teria a chance de seguir novo rumo, empenhando-se em fazer todo o bem e evitar todo o mal. Dessa forma, alentada pelo espírito tutelar incumbido de sua proteção e fortalecida pela esperança de avançar a estágios espirituais mais resplandecentes, despedia-se para com confiança efetuar novo mergulho terreno, ouvindo no seu caminhar as palavras do seu protetor espiritual:

- Nada receie, filha! Velarei por você sempre! Por mais que haja noites escuras, haverá sempre o encantamento renovador de novo alvorecer. Deus a abençoe! Ore e vigie seus pensamentos, suas palavras e suas atitudes.

Sheila afastou-se acompanhada de seu guia espiritual que a preparava para ligar-se à futura mãe. Tinha ainda insegurança, prenunciando as imensas dificuldades que enfrentaria para efetuar seu projeto de vida.

Ela agora sabia bem das condições expiatórias para o resgate consequente de seus atos desacertados. No entanto, a voz de seu protetor, firme, porém suave e parecendo longe, se fez ouvir:

- Filha, não há crime imperdoável. Reeduque-se em espírito, sob a direção dos que a irão guiar. Somos filhos da luz. Busquemos, dessa forma, o farol de infinito amor que nos atrai para a paz e para a felicidade com sua claridade eterna.

A noite se fazia rica em aromas suaves de perfume de flores.

Uma sensação de calma induzia Sheila a sobrepujar seus temores. Então, sentindo imensa paz, adormeceu. Sonhou que se agitava entre brumas nas águas de um mar nevoento. Muitos sonhos sucederam-se... Agora sentira mais e mais as águas se agitarem em fúria. Ruídos estranhos se sobrepunham ao marulho das ondas ameaçadoras e furiosas... Queria chamar por socorro, todavia não conseguia articular a palavra. Foi ainda por mais um tempo que se sentiu em um estado de permanente afogamento. Percebia que, sobre ela, ondas enormes ameaçavam envolvê-la por completo.

Sob uma onda mais forte, sentiu a respiração faltar e ela se via afundando cada vez mais na água turva... Fortíssima angústia... O sonho mais e mais parecia inhndo... Águas... Águas... Tsntava nadar..., sobreviver às águas, porém as profundezas a puxavam... Mas, em determinado momento, voltando desse demorado mergulho, conseguiu lançar um grito! Um choro agudo e estridente e assim, Sheila vem da sombra à luz do mundo, pelo renascer na carne!

Emoção superior era sentida pela família espiritual, que desde muitas eras compartilhava os campos de trabalho da Terra e do Céu. Estavam certos de que viviam um momento culminante de felicidade que pontuava suas vidas imortais.

A paz os envolvia originada na confiança em Deus, conscientes de que o futuro sempre traria o melhor em favor do progresso.

Permaneceriam ainda na Espiritualidade por mais algumas dezenas ou centenas de anos, em preparo superior, à espera do recomeço reencarnatório, bem como na fixação no agir de condicionamentos altruísticos consolidados no além, ou reforçar saberes adquiridos em vivências terrenas pretéritas.

Então, no encadeamento das encarnações futuras, amparar-se-iam criando mais e mais laços de afetivi-dade e no espelhamento do outro, veriam mais facilmente em si as deficiências ocultas pelo atavismo das vivências guiadas pelo egoísmo, na poeira dos séculos.

O amor lapidaria arestas e conduziría gradativamente ao glorioso destino aquelas almas afins que abraçaram o compromisso de trabalhar por uma verdadeira religião não dogmática, com princípios de fé construídos sobre bases racionais, essencial para a harmonia e progresso intelecto-moral dos povos.

Essa nova religião, seguindo planejamento da mais alta esfera espiritual planetária, teria por base fundamental a fraternidade, trazendo como impositivo de convivência a cooperação a suceder em definitivo a competição.

Esses fundamentos acabariam assimilados pela humanidade como força maior da economia, apresentando uma lei de mercado na qual as trocas de bens e serviços se daria pelo desejo de servir.

Os homens aprenderíam a exercitar o amor, vencendo o egoísmo e favorecendo a promoção do planeta na sociedade dos mundos, a caminho da regeneração.

Brian, o amado benfeitor druida, cumprira a missão de colaborar humildemente com a instauração de uma nova era.

Ele atingira, por seu estágio evoluído de inteligência e moralidade, uma nova condição espiritual, na qual não mais teria a necessidade de reencarnar.

Estava liberto das experiências na carne. Suficientemente evoluído, tem agora em seu estado normal de consciência o conhecimento pleno das vivências anteriores na Terra e no mundo espiritual. Atingiu uma estabilidade perfeita, a condição em Gwynfyd, quando o ser desfruta do conhecimento em plenitude das existências, e se liberta das formas materiais e da morte, evoluindo para a perfeição superior na qual atinge o círculo da felicidade.

Brian ajoelhou-se, rendendo graças pela oportunidade de haver guiado os seus tutelados naquela, e em outras etapas, pautados na consciência de que o progresso é vontade divina de tudo o que foi criado, no amor a Deus e no ideal de servir, até a superação de suas fraquezas, muito além da ilusão, do personalismo, da vaidade e do egoísmo humano.

Brian para eles era a luz do dia, o calor do sol, o alento da vida, o benfeitor que os guiaria no fluxo das reencarnações, em que tudo se perpetua e se renova, amando-os, protegendo-os, projetando sobre eles as vibrações célticas com os testemunhos de solidariedade imensa que liga todos os seres e todos os mundos, conduzindo-os pelos caminhos verdadeiros da fé na força divina.

Aquela tarefa estava encerrada.

Novos compromissos esperavam por ele.

Pouco tempo depois, cumpriram-se as profecias sobre a vinda de Jesus, que por sua vez, deixou para a posteridade a promessa já cumprida nas dobras do tempo, de que enviaria o Consolador, que ficaria para sempre com os homens.

F I M