GUERRA NO ALÉM

INTERAÇÃO ENTRE OS DOIS PLANOS DE VIDA

 

Prefácio

O objetivo deste livro é informar ao leitor, fundamentalmente, a existência e o funcionamento do mais recente Posto de Socorro de Alvorada Nova, que tem o número 109, mas conta com os outros pontos essenciais, tais como:

1. mostrar alguns aspectos de vivência equivocada dos encarnados (racismo, preconceito, rivalidade, ódio, enfim, focos de sentimentos negativos que ainda imperam na Crosta): essas são as histórias das diversas personagens enfocadas;

2. apresentar um retrato, ainda que incompleto, da vida no Umbral, seu ambiente complexo e sem esclarecimento, suas disputas intensas, nos moldes existentes na crosta terrestre, fazendo um alerta aos encarnados para que compreendam a importância de evitar posturas anti-cristãs, afastando-se, assim, das zonas trevosas tanto por ocasião de seus desdobramentos durante o sono físico quanto após o desencarne;

3. descrever a interação que une os dois lados da vida e a interligação existente entre os planos superior e inferior da esfera espiritual, especialmente durante o desenrolar das duas Grandes Guerras Mundiais que abalaram, no Século XX, a Humanidade, enfocando seus bastidores e a influência dos Espíritos na sua eclosão.

Trata-se de uma mensagem de renovação espiritual que visa contribuir para a mudança de mentalidade dos povos em face de guerras destruidoras, vividas pelos dois planos da vida.

Esta obra, pois, revive momentos históricos importantes da Humanidade, a fim de lembrar aos homens a co-participação dos Espíritos em suas vidas.

Em épocas de conflitos mundiais na materialidade, as colônias trabalham arduamente em prol de encarnados, desencarnados e recém-chegados à pátria espiritual, estes, por vezes, retornando vítimas de doenças cruéis ou outro meio brutal. Alvorada Nova trabalhou intensa e incessantemente nesse sentido. No plano espiritual, batalhas imensas foram travadas. Espíritos desencarnavam em massa, a todo instante, em inúmeros pontos do Globo. O Plano Superior estabeleceu programas conjuntos de ação para todas as colônias. O mundo material evoluía a duras penas. Muitos povos foram massacrados, durante o período dessas guerras.

Essa luta pela estabilização, a participação de Alvorada Nova, os conflitos gerados, os resgates que envolveram essa situação, o relacionamento com a guerra armada na materialidade, enfim, o palco de uma das mais difíceis condições que a Humanidade teve a oportunidade de vivenciar estão nas páginas que se seguem.

A narrativa, a partir de certo momento, tem um enfoque especial de cujo cerne nascem os relatos espirituais das duas Grandes Guerras, com incursões no plano físico — a estrutura político-social das nações na Terra —, mas om ênfase para o plano espiritual: o ataque e a tentativa de invasão que o Posto de Socorro 5 de Alvorada Nova sofreu por parte de exércitos umbralinos.

Cairbar Schutel desencarnou em 30 de janeiro de 1.938 e, após breve estágio em Cidade Espiritual Superior, foi convidado a assumir a Coordenadoria Geral de Alvorada Nova, podendo-se avaliar o alcance da tarefa que se propôs aí realizar.

A coleta de dados desta obra pelo Grupo de Estudos Cairbar Schutel teve início em abril de 1.993, pelo método da vidência simultânea de vários médiuns, um confirmando o relato do outro, para, após, haver confimação, retificação ou complementação da Espiritualidade. Houve, ainda, um trabalho de pesquisa e sistematização de dados, realizado pela equipe material, seguido de orientação e correção do Plano Espiritual, sob a coordenação geral de Cairbar Schutel.

São Paulo, 06 de janeiro de 1.996.

Abel Glaser

Guerra no Além

Quem chegasse ao portão de entrada do Posto de Socorro na 109 era imediatamente recebido por uma figura sem-par, cuja imagem avistava-se, desde longe, como se fosse um ponto luminoso, surgido do nada, que se tornava cada vez maior, na medida em que se aproximava do visitante. Tratava-se de um ancião muito simpático, de face oriental, marcada pela sabedoria e cuja testa era grande o suficiente para dar a impressão de inteligência e erudição; usava um manto róseo, por cima de uma veste branca, e carregava um cajado dourado brilhante. Suas sandálias compunham-se de tiras finas, leves e alvas, formando um conjunto tão harmônico com seu traje singular que lhe davam um suave toque campônio.

O dirigente do Posto fazia questão de receber os visitantes pessoalmente. Mantinha a forma perispirítica de sua última reencarnação na Crosta, de monge budista. Tinha a fala mansa e pausada, agradando e encantando a atenção dos seus ouvintes, além de se mostrar igualmente aprazível e cuidadoso, na escolha das palavras para motivar o seu discurso. Chamava-se Chin. Nada mais que isso; tão singelo quanto agradável de ouvir.

Por vezes, vinha sozinho ao portão principal; noutras, fazia-se acompanhar de alguns companheiros, todos semelhantemente trajados, de fisionomia serena e plácida.

Esse Posto de Alvorada Nova era o maior e mais complexo. Tinha várias partes e cada uma delas possuía uma finalidade específica. Quando os Espíritos voltam ao mundo do qual saíram para reencarnar, precisam de adaptação e reequilíbrio, pois nem sempre o desencarne ocorre tranquilamente, contando com a resignação do ser, na sua despedida do plano físico. Há os que, inconformados, não aceitam retornar à pátria espiritual ou mesmo julgam-se traídos por estarem partindo “muito cedo”. Outros, por terem mantido, durante muitos anos, a postura de não acreditar na existência da vida após a morte, costumam chocar-se quando reingressam no plano imaterial. Alguns, por estarem extremamente vinculados ao materialismo ou possuírem conduta flagrantemente oposta à maioria dos ensinamentos cristãos, quando desencarnam, não seguindo para o Umbral ou permanecendo na Crosta vagando, são recolhidos por mensageiros das colônias e encaminhados para Postos de Socorro que circundam o planeta e ficam em zonas umbralinas. Não podem todos esses seguir direto a uma cidade espiritual, visto não terem preparo para integrar-se, de imediato, à vida ali existente. Precisam de adaptação e reequilíbrio.

O Posto de Socorro n° 109 tinha a estrutura ideal para receber Espíritos vindos de todas as partes do Globo, pois composto de unidades separadas, mas não isoladas, cada qual buscando reproduzir os vários cenários e ambientes existentes na crosta terrestre, de modo a tornar mais fácil a estabilização dos que para aí eram encaminhados.

O encarnado que deixa o mundo físico, na África, e outro que o faz no Japão, por exemplo, terão diferentes contextos de vida e experiência; portanto, até que se adaptem à existência espiritual, são recebidos dentro desses diferentes cenários, possibilitando-lhes uma rápida recuperação.

Por outro lado, os Postos de Socorro, situando-se em regiões do Umbral, não deixam de sofrer assédio por parte das entidades inferiores e, por tal razão, possuem baterias magnéticas e sistemas de proteção que rechaçam tais ataques.

Em época de conturbação, no plano físico, tal como acontece quando existem guerras, o mundo das trevas também fica agitado, pelo grande número de Espíritos que desencarnam, violentamente, na Crosta.

Quando visitei, pela primeira vez, esse Posto de Socorro, dirigido por Chin, fiquei surpreso e impressionado. A Coordenadoria Geral de Alvorada Nova envia, periodicamente, alguns grupos para estagiar e conhecer os Postos de Socorro, vinculados à cidade espiritual. Numa dessas ocasiões, estava incluído.

Saímos da colônia, num trem hermeticamente fechado, que percorreu as zonas umbralinas das várias camadas fluídicas, acima da Crosta, até chegar à primeira, onde se situava o Posto a ser visitado. Não conseguíamos sentir como era o clima fora do veículo, pois, no seu interior, brilhava, perene, uma luz tênue, na tonalidade verde-clara, num ambiente tranquilo e estável.

O visor dentro da cabina exibia projeções das imagens externas, e víamos um lugar bastante escuro, cujas cores predominantes eram cinza, preto e roxo; a vegetação rasteira e irregular tinha uma tonalidade escura, impossível de definir, com algumas árvores retorcidas. Vez ou outra, um relâmpago cruzava o cenário, diante das fortes cargas magnéticas negativas que ali predominavam, en-trecruzando-se. Percebíamos, então, vultos andando no meio da paisagem soturna. Eram criaturas disformes que se escondiam à medida que o trem passava.

O percurso era tortuoso e tínhamos a impressão de que o transporte começava a seguir por uma grande descida. A escuridão exterior tornava-se cada vez mais intensa.

A magnetização interna da cabina, em consonância com a alta tecnologia do mundo espiritual, continuava permitindo a viagem mansa e sem sobressaltos.

Aos poucos, na tela de projeção, começava a surgir o branco perolado, matizado de tons prateados, até atingir o azul, com pontos em prata brilhante. Era a imagem dos canhões de luz existentes nas quatro extremidades do Posto de Socorro, os quais emitiam para o alto esferas brilhosas e magnetizantes. Eram luminosas e perolizadas, cortando o céu negro e explodindo ao se encontrarem, liberando a tonalidade prata. Contínuas, como se fossem colares de pérolas saindo dos canhões, elas formavam quatro feixes que se encontravam no alto, constituindo imensa pirâmide de luz e provocando explosões magnéticas que liberavam minúsculas partículas, as quais caíam por sobre essa forma piramidal, dando a impressão de ser coberta por um guarda-chuva prateado.

Quando o Posto recebe visitantes de fora, para sinalizar a sua localização aos trens que vêm pelo Umbral, os canhões, que não ficam permanentemente em atividade, emitem suas luminosidades.

Enquanto essas luzes emanavam, criaturas das trevas escondiam-se apressadas, incompatibilizadas com a claridade brilhante. Essa era também a forma de proteção do lugar.

Ao redor desse Posto, num raio de vinte quilômetros, não havia edificações umbralinas, pois nenhum Espírito dessa região suportaria viver próximo à cintilação intermitente desse local.

A luminosidade interna do Posto era permanente. O solo e cada uma das suas construções pareciam ter brilho próprio. Um bálsamo para os olhos e para o espírito.

Quando descemos do trem, fomos encaminhados a uma sala de adaptação, que ficava logo na entrada principal, pois ingressaríamos num ambiente com vibração diferente e especial.

O transporte entre o Posto e a colônia Alvorada Nova fazia-se também pelas Cápsulas de Comunicação Intermitentes (CCI), pequenos veículos condutores, em formato cilíndrico e com as pontas arredondadas. Da cidade espiritual, controlava-se o fluxo dessas cápsulas, fundamentalmente utilizadas para o transporte de poucos passageiros ou utensílios.

Antes de sairmos de nossa base, recebemos algumas explicações essenciais sobre o Posto que iríamos visitar. Disseram-nos os dirigentes da colônia que ele entrara em funcionamento havia muito, mas ligara-se, especificamente, a Alvorada Nova, em meados de 1992, e situava-se sobre a região amazônica, no Brasil.

Esse Posto diferencia-se dos outros dois de Alvorada Nova1 que recebem, geralmente, Espíritos menos preparados e esclarecidos. Este abriga entidades que estão quase aptas a residir em uma colônia espiritual, mas precisam, ainda, de algum tempo para atingir o reequilíbrio necessário. Encontrando um hábitat semelhante àquele em que viveram no plano material, têm condições de recobrar-se mais rapidamente.

Os Espíritos que para aí vão adormecidos, ficam em dormitórios e não em câmaras de retificação, como nos outros dois postos.

Desencarnados mais preparados seguem, diretamente, à cidade espiritual e não passam por seus postos.

Esse Posto de Socorro possui, em seu centro, duas unidades específicas: “Unidade Geográfica Integrada” e “Unidade Oceânica”. E, ao redor destas, outras seis que correspondem aos continentes do Globo2: “Unidade da Confraternização” (Europa); “Unidade do Sol Nascente” (Oriente); “Palácio das Águas” (Oriente Médio); “Núcleo dos Pássaros” (América do Norte); “Unidade da Integração” (América do Sul e Oceania) e “Núcleo Dourado” (África). Cada uma delas retrata, no seu interior, cenário semelhante ao que existe no plano material, em particular, nessas seis regiões.

O Posto n2 109 tem quatro vezes o tamanho de cada um dos outros dois e capacidade para abrigar, ao mesmo tempo, um milhão de Espíritos.

Livrando-se do apego à carne e ao habitat que teve, a entidade assume a sua posição, no plano espiritual, tornando-se apta a trabalhar, em qualquer outra unidade de Alvorada Nova, ou a retornar ao plano físico, para a nova reencarnação que se fizer necessária.

Quando adquire a consciência de que a unidade onde foi recebido é apenas uma representação daquilo que vi-venciou na materialidade, consegue o Espírito libertar-se de seu passado, alcançando condições para melhor enfrentar o seu futuro.

Com tais dados em mente e, saindo da sala de adaptação, vislumbramos a figura à qual me referi no início, caminhando, alegremente, em nossa direção.

— Saudações, meus amigos da Colônia! — exclamou Chin, tão logo se aproximou do meu grupo. — Sejam muito bem-vindos! Desejo abraçá-los um a um, antes de começarmos nossa peregrinação.

E assim fez, nem dando oportunidade que nós respondéssemos ao seu cumprimento inicial.

Foi vibrante o seu amplexo; ficamos alguns minutos magnetizados e quase adormecidos, sentindo nosso corpo formigando; vimos os fluidos positivos e suavemente brilhantes espalhando-se ao nosso redor. Que força e vigor tinha essa figura oriental que nos havia recebido!

A partir daí, começamos a conhecer o Posto. Extasiados, não deixamos de perguntar a Chin a respeito dos Espíritos que para lá seguiam. Qual era a reação que tinham? Como eram recebidos? Quanto tempo ficavam no setor destinado ao seu país? Enfim, queríamos saber detalhes desse importante processo de readaptação, após o retorno do plano material.

Chin não mediu esforços para nos explicar. Começou contando-nos a história de Iká, que desencarnou na conturbada África do Sul:

No final de 1989, a nação sul-africana encontrava-se em plena agitação social e política. Greves, revoltas e massacres eram a tônica do cotidiano de milhares de pessoas das mais diversas classes sociais ou grupos étnicos. A motivação consistia no preconceito, filho dileto do orgulho, que permeava as atitudes dos homens, vacilantes ainda na senda da evolução.

Os subúrbios da cidade de Pretória, capital administrativa, localizada no Estado do Transvaal, encontravam-se em chamas. Lares eram destruídos, e famílias inteiras dizimadas sem maiores considerações, por pertencerem a um grupo político ou étnico diverso do dominante.

Nos bairros pobres, autênticos guetos campeavam as dificuldades de sobrevivência de toda ordem, e os próprios sul-africanos, diante da violência cultivada, criavam outros tantos problemas à própria comunidade, em flagrante violação aos deveres cristãos.

Nesse contexto, nasceu e cresceu, com imensas dificuldades, o pequeno Meguele, garoto franzino e debilitado, que vivia com o avô, num dos mais precários barracos da região.

Seus pais haviam desencarnado em' confronto com a polícia, numa das várias manifestações contra o apartheid, e seus irmãos mais velhos estavam presos. O garoto, contando dez anos incompletos, refugiara-se com o ascendente paterno, único sobrevivente de sua família.

— Meu neto, você precisa ser forte. Perdemos tudo o que tínhamos. E, por sermos de uma tribo diferente da maioria dessa região, vamos continuar sofrendo agressões de todo tipo, a menos que mudemos para outro local.

— Mas, vovô, para onde iremos? Todos os dias, vejo meus amigos morrendo em confrontos com policiais ou, então, em brigas com outros grupos... Tenho medo de sair daqui e morrer.

— Compreendo o seu temor, Meguele. Entretanto, se ficarmos, seremos mortos. Não temos segurança alguma. Sabe, há muitos anos, quando eu ainda era jovem, cheguei a esta cidade imensa, vindo do interior. Achei que podería recomeçar a vida, enriquecer, talvez ter somente uma vida simples, mas digna. Tinha sonhos, reconheço hoje que eram somente ilusões, mas quem não as tem? Acabei enfrentando tantos obstáculos e perdi vários parentes... Soubesse disso e não teria vindo. Não vou permitir que você se machuque, pois sei da violência que existe ao nosso redor. Temos alguns familiares no norte
do país. Vamos tentar a sorte em outro local, pois é o que nos resta fazer.

— Como faremos isso, vovô?

— Com a ajuda de Deus. Seguiremos pelo interior e haveremos de encontrar apoio nessa caminhada. Fiquemos firmes, Meguele, pois um dia você ainda assistirá ao renascimento de nossa pátria, sem racismo, sem guerras e sem tanta miséria. Lá, você terá a assistência e os cuidados de que necessita para crescer e tornar-se um homem.

— Não fale assim, vovô. Estaremos juntos, por muitos anos, e o senhor também verá tudo mudar .

— Deus queira, mas não sinto assim. Minha idade avança, e minhas forças estão indo embora. Quero que você seja, sobretudo, forte. Não se deixe levar pelo pessimismo e confie em Deus.

Meguele, apesar de infante, conseguia ter uma acurada percepção dos fatos que o volteavam. Confiava no avô e iria partir como fora sugerido, acreditando que era a melhor solução. O mundo é complexo; há pessoas como Iká e Meguele cujas vidas correm sem muitos interesses a serem preservados, sem tantos bens a serem protegidos, enfim, sem o mesmo universo que alguns encarnados têm, em outras partes do Globo. Quando uma comunidade está em conflito, enfrentando uma guerra ou uma revolução, os destinos das pessoas simplificam-se. Morrer ou sobreviver passam a ser os mais frequentes verbos que utilizam no cotidiano. Uma decisão como a que tomaram — partir ou permanecer — não exige planejamento; ao contrário, pede somente celeridade. A fuga do campo de batalha deve ser pronta, não permitindo grandes reflexões. Por outro lado, quando o ser humano perde familiares, de modo violento, vive em situação miserável e não possui laços com a terra onde habita, tudo se torna cruelmente simplificado.

Recolhendo seus poucos pertences, eles seguiram viagem rumo ao interior do país e à busca de novos horizontes.

Partindo de Pretória, em direção ao norte, atravessaram o Transvaal até chegar à sua região de origem. Inimigos naturais aguardavam-nos, tais como animais selvagens e lugares desertos e áridos, cujo dia traz um calor que escarmenta, e a noite chega num um frio torturante.

Durante o dificultoso trajeto, no entanto, o menino descobriu que havia uma África totalmente diferente da urbana, mais selvagem, na sua apresentação, porém mais tranquila, em outros aspectos. A vida rústica e rude podia ser um bálsamo a quem enfrentara discriminação e preconceito de outros seres humanos.

Nas noites frias, ambos conversavam, por várias horas, até caírem no sono, dispostos a vencer, unidos, os percalços que a Natureza impunha.

Um dos assuntos preferidos de Meguele era debater o racismo. Sendo negro, não aceitava o fato de ser subjugado pelo branco; sentia-se profundamente humilhado com o sistema imposto pelo apartheid. O avô não lhe retirava a razão, visto que também sofrerá muitas decepções na juventude, pelos mesmos motivos. Cuidava, entretanto, de aquietar a revolta do neto, mostrando-lhe que havia a Justiça Divina, e tudo se resolveria bem no futuro. Os homens erravam, ao agir daquele modo. Se brancos ou negros, dizia o ancião, não deveria existir diferença entre seres humanos; a igualdade havia de ser plena e um dia seria. O menino confiava no avô e, portanto, acreditava nas suas palavras. Essa é a importância da educação; jamais o preceptor deve fomentar no pupilo o ódio e os maus sentimentos. A nobre missão de orientar os mais jovens implica dar-lhes as bases do Cristianismo, porque, com estas, se consegue superar dificuldades e não se atormenta o coração. Sentindo-se seguro e certo da existência superior da Justiça de Deus, infalível e absoluta, escapa-se da terrível tendência à vingança e dos maus caminhos que se pode seguir, caso se adote a trilha oposta ao amor.

Os dias lhes pareceram meses, mas terminaram por levá-los ao seu destino, uma pequena vila, no norte do país, junto à Soutpansgberg, próximo ao rio Limpopo, fronteira com o Zimbabué. Àquela altura, avô e neto tinham vivenciado horas de muito convívio e de longas e francas conversas. Sentiam-se mais unidos que nunca, sem a interferência das guerras e do ódio racial.

— Veja, Meguele! Aquele é o rio Limpopo, à beira do qual está a aldeia onde nasci.

Diante deles, estendia-se um grande vale de rio, localizado acerca de 500 a 900 metros, acima do nível do mar, e cercado por majestosas montanhas. Suas zonas inferiores, à direita e à esquerda do rio, eram cobertas de um verdejante matagal rasteiro. A temperatura elevada do local permitia aos nativos o cultivo de plantas tropicais, tais como o algodão e o cacau. Na sua parte sul, formava-se um altiplano montanhoso que se estendia em uma planície de 900 a 1200 metros de altura, coberta do mesmo matagal, que era denominado bush veld pelos boers?

— Essas terras são muito ricas, meu filho, especialmente porque aqui estão nossas raízes. Devemos dar valor à Natureza, pois nela está a comprovação do toque divino na superfície do planeta.

Foram bem recebidos pelos familiares. Em pouco tempo, trocaram informações sobre a jornada que haviam vivenciado.

Como se houvesse um lance do destino, tão logo Meguele estava seguro, Iká adoeceu. Usara toda sua força e perseverança para transpor obstáculos e levar seu neto à tranquilidade de uma nova vida. Findara, ali, o seu intuito. Seu espírito já não via razão para lutar, e os males do corpo físico, que já eram muitos, porém controlados pela tenacidade de sua vibração mental, vieram à tona. Ele não resistiu.

Quando deixou o mundo material, apesar da confiança transmitida ao seu neto, para dar-lhe esperança de vida, estava com muitas dúvidas. Acreditava em Deus, mas não tinha a menor ideia de como seria sua existência, após a morte. Levava seu coração carregado de angústia, em face de uma jornada construída em torno de dificuldades e sofrimentos de toda ordem.

3. Nota do autor material: sul-africanos descendentes de colonizadores holandeses.

Fechou os olhos, e a última imagem que viu foi um céu azul, límpido, contornando um sol dourado e forte, com brilho audaz e compassado que lhe esquentava a testa, mas também lhe provocava um alento. Esse panorama era belo, mas não seu. O céu e o sol eram dos brancos, porque o seu país era dos brancos. Ele, negro, humilhado por toda uma vida, nada tinha... Nem mesmo a maior parte de seus parentes próximos lhe restara. Deixou o mundo material, entristecido, e sem esperança de atingir a sua tão almejada justiça.

Aparentemente contraditória, entretanto, era a sua posição; na realidade, Iká cria em Deus, na Justiça Divina e nos postulados do amor, mas, no fundo, sofrerá tanto que não conseguia cultivar a esperança de ver seu país livre do racismo, em breve tempo, nem tampouco tinha noção do que lhe aconteceria, quando desencarnasse. Esse conflito era natural, não significando que ficasse desamparado nesse desenlace. Foi, então, resgatado por nossos emissários e trazido para cá, sendo encaminhado ao Núcleo Dourado4, que abriga os Espíritos vindos da África.

Recuperou-se, em pouco tempo, e ativou sua memória, também em curto espaço. Sua firmeza de propósitos permitiu-lhe o célere reequilíbrio. O ambiente do Posto ajudou-o, pois esse Núcleo é constituído de belas paisagens africanas, dando boa impressão ao ser que desencarnou naquele local.”

Ficamos absortos pela narrativa de Chin. Mas não tivemos tempo de imaginar como seria tal unidade do Posto porque ele mesmo nos convidou a conhecê-la.

O Núcleo Dourado, a unidade que corresponde à África, possui uma série de construções dos mais variados estilos, todos ligados àquele continente. Desde modernas edificações, nos moldes das grandes metrópoles africanas, passando por tribos do interior e chegando aos palácios e pirâmides egípcias, tudo cercado por imagens de florestas densas, com flora típica tropical.

- E impressionante! — exclamei, arrebatado pelo que via.

— Sim, realmente é muito belo. Como vocês podem ver, algumas construções são reais porque abrigam Espíritos que estão em recuperação; outras são apenas imagens, lançadas para criar um cenário bem próximo à realidade do ser que desencarnou.

A tecnologia para a produção desse resultado, mesclado entre realidade e ficção, era fascinante.

— Os Engenheiros Espirituais devem ter tido muito trabalho na edificação deste Posto — argumentei.

— Nem tanto, meu amigo — continuou Chin. — Técnicas complexas, ainda não descobertas na Crosta, mas, certamente existentes e utilizadas pelos Planos Superiores, são tão perfeitas e eficazes que tornam o trabalho simples e rápido.

- Demoram-se muito os Espíritos aqui? — indaguei.

— Não. Estagiam pelo prazo estritamente suficiente para a recuperação de parte da memória e adaptação ao mundo espiritual. Atingindo esse grau, são levados à colônia, onde seguirão para o hospital. De lá, terão diversas programações a cumprir.

— Existem outros dois Postos, não?

a — Sim, há dois outros ligados a Alvorada Nova que os não possuem a forma deste. São unidades que congregam as entidades cuja capacidade de aceitação é bem mais limitada e cuja revolta ainda é muito grande. Isso significa s que não teriam condições de vir para cá. Não temos câmaras de retificação, nem de sono profundo. Assim, Espíritos de extrema rebeldia seguem àqueles Postos e são submetidos a processos mais complexos de recuperação. Para cá, são encaminhados os que ainda estão vacilantes demais para seguirem diretamente à cidade espiritual, mas também não têm a revolta que os impeça de obter, em curto espaço, o reequilíbrio.

— Na colônia — continuei —, soubemos que tais Postos de Socorro possuem proteção contra as entidades do Umbral, visto que se situam em zonas trevosas.

— É verdade! Temos também mecanismos de proteção. Vou mostrar-lhes, ainda durante esta visita. Mas, vejam, há outros aspectos interessantes no Núcleo Dou, rado: simulamos a mesma temperatura, vegetação, sons e sensações familiares aos africanos.

Realmente era verdade. Sentia-me caminhando por um clima bem semelhante àquele que imaginava existir nas savanas e nos desertos da África. Maravilhava-me a Sabedoria Divina.

Nosso grupo, que havia saído de Alvorada Nova com a missão específica de conhecer esse Posto de Socorro da colônia, era formado de cinco integrantes, e todos estudavamos no Centro de Aprendizado da Luz Divina5.

Naquele Núcleo, ficamos deslumbrados com a imponente paisagem e diante das imagens que, à nossa frente, descortinavam-se. Eram projeções da vida animal, das aldeias africanas, da vegetação dos campos e até mesmo das pirâmides e monumentos egípcios.

Quando contornamos uma colina, localizada em pleno parque florido, avistamos um taludo prédio, todo envi-draçado, cujo brilho das faces obrigava-nos a franzir a testa e fechar, parcialmente, os olhos. Acima da porta principal de entrada, havia um brasão composto de duas mãos — uma negra e uma branca — fechadas em um aperto cordial, dentro de um círculo com fundo verde.

— Mas que bela construção! — exclamei. — Do que se trata?

— E a Unidade da Integração Regional. Dedica-se ao entrosamento entre os sul-africanos brancos e os povos negros da África.

Estranhei a afirmação. Chin percebeu minha inicial indignação e completou:
5. Nota do autor material: ver o capítulo “A descrição de nossa árvore -XII”, no livro “Alvorada Nova”.

Ainda há muita tensão racial naquela região do Globo, infelizmente. Quando desencarnam, mantendo a forma perispirítica e as idéias que possuíam, torna-se mais complexa a reintegração no plano imaterial. Quem cultiva o racismo, na materialidade, julgando-se superior ao semelhante, ao adentrar o mundo dos Espíritos, onde inexiste qualquer forma de divisão por raças, acaba encontrando dificuldade na readaptação à vida espiritual. Portanto, nessa unidade, eles recebem orientação específica e um estágio completo sobre a integral igualdade entre os seres.

— Somente os brancos aí frequentam?

— Não, pois o racismo pode também ser experimentado e cultivado por outras etnias. No caso específico da África, quando alguns grupos de negros tinham-no por bandeira, segregando os brancos, então passam por esse centro também.

Acabei por compreender sua função e desejei continuar conhecendo.

— Vamos, agora, meus amigos, à unidade que congrega os Espíritos provenientes da Europa. Antes, porém, vou narrar-lhes outra história verídica de um irmão nosso.

Entusiasmados, ouvimos atentos:

Em Londres, no ano de 1.990, caminhando pela

Trafalgar Square6, um turista francês buscava o melhor ângulo que sua máquina pudesse captar, para fotografar a National Gallery7, com sua imponente fachada.
6. Nota do autor material: uma das principais praças de Londres.
7. Nota do autor material: um dos mais ricos acervos de arte de Londres.

A praça, local que sempre despertou os melhores sentimentos patrióticos britânicos, era dominada por uma gigantesca coluna de granito, medindo cerca de 45 metros de altura, erigida em comemoração à batalha naval onde perdeu a vida o Almirante Nelson, cuja estátua jazia em seu topo. Diante dessa, encontravam-se duas grandes fontes, circundadas por dois espelhos d’água artificiais, que serviam de ponto de parada para os transeuntes e também aos pombos que habitavam a vizinhança.

Do lado oposto à coluna de Nelson, repousava o suntuoso prédio que iria ser fotografado. Erigido em estilo neoclássico, um dos dominantes na capital inglesa, chamava logo a atenção do visitante que estivesse nas redondezas, pois sua majestosa fachada destacava-se da paisagem, e a entrada principal, constituída de um grande pórtico, com diversas colunas, encimado por um frontão triangular, contendo elementos decorativos, remetia o observador ao Partenon, templo consagrado à deusa Atena, que fora erigido pelo grande Fídias e seus companheiros, na acrópole da capital grega.

Uma torre, com cúpula abobadada, assentava-se sobre essa parte central do conjunto arquitetônico, a dar-lhe o acabamento, com ares de arranha-céu, disposto a alcançar as estrelas.

O francês estava sozinho, pois a esposa e os filhos preferiram tentar a sorte numa das mais famosas lojas de departamento da capital britânica , a Harrod’s.

Desejava, no entanto, ser fotografado diante do famoso museu, o que lhe criou um impasse momentâneo.

Olhando para os lados, teve a ideia de pedir a um jovem que passava, com aparência tipicamente inglesa, do alto de seu porte atlético; cabelos loiros e compridos, caindo pelos ombros, cobrindo a testa e parte dos olhos, com longa franja igualmente displicente. Esguio, trajando-se descuidada e informalmente, logo se colocou à disposição do turista. Pouca comunicação havia entre os dois, dada a diversidade do idioma, mas, para uma foto, existia um código de mímica que logo foi acionado e entendido.

Entregue a máquina nas mãos do inglês, teve início a procura pelo melhor ângulo. Enquanto o jovem estudava o mecanismo de disparo da câmara, para cumprir a missão que lhe fora destinada, o francês subia e descia as muretas, até que encontrou o seu ponto preferido, logo abaixo da coluna de Nelson.

Posou satisfeito e notou que o sol forte retirava-lhe a visão do jovem que iria fotografá-lo. Ainda assim, franzindo o rosto e fechando, parcialmente, os olhos, aguardou alguns segundos o clique do aparelho.

Nada ouvindo, colocou a mão direita sobre os olhos e procurou orientar o rapaz que, talvez, não estivesse encontrando o botão adequado. “Qual era mesmo o rapa%?”, pensou. Eram tantos e tão semelhantes os que por ali passavam. Além do mais, tratando-se de um final de semana, havia muitos desocupados transitando pela praça.

Procurou pelo moço até certa altura, despreocupado, mas somente viu inúmeros pombos levantando voo, conforme ele rodava, em círculos, atrás do solícito inglês. Nada logrou achar. “Seria mesmo um inglês?”, refletiu.

Havería de ser, pois tinha o tipo físico e a cordialidade de um. Pensou mais um pouco e achou que errara, na sua avaliação, concluindo que ingleses nunca são tão simpáticos, afinal, não são franceses.

— Mon Dieu — balbuciou —, onde estará o cavalheiro?

Circulou pela praça e nada. Sumira o britânico e, junto com ele, sua câmara fotográfica.

— Perdi minhas fotos! — foi seu primeiro pensamento, após cair em si. — Como farei, agora, para provar que a Inglaterra é um local interessante a ser visitado? — proferiu, lembrando-se das várias brincadeiras que enfrentou, quando narrou aos seus colegas de trabalho que iria visitar terras britânicas.

Bateu-lhe no peito a angústia da perda de várias memórias ao mesmo tempo. Eram lugares aos quais não voltaria tão cedo. Circulou mais um pouco e não se conformava em ter sido tão ingênuo.

— Essas coisas jamais aconteceriam em Paris — novamente pensou. Voltou-lhe à mente tudo de ruim que um amigo lhe insinuara a respeito dos ingleses e ainda o conselho que recebera no colégio onde trabalhava: “para que visitar a Inglaterra? Não havia nada para ser visto lá que não houvesse melhor em Paris!” - ditava a xenofobia francesa.

Ele havia afrontado tal pensamento médio dos seus colegas de profissão e decidira mostrar-lhes que estavam errados. Justamente por isso, estava tirando muitas fotos, talvez, àquela altura, perdidas.

Foi queixar-se a um guarda, mas logo percebeu que, de fato, não se expressava bem no idioma e resolveu explicar-lhe, também utilizando a mímica, que fora roubado.

Em vão. O austero policial, dando-lhe relativa atenção, logo concluiu que um furto em Londres não seria possível, pois ali não era Paris; voltou as costas e partiu resoluto. O francês permaneceu estático, tentando compreender tamanha frieza e imaginando o que iria fazer em seguida. A melhor das alternativas seria buscar seus familiares e interromper, de pronto, a viagem, retornando ao seu país de origem, disposto a nunca mais tornar à Grã-Bretanha.

No voo de volta, durante todo o tempo, praguejou contra os ingleses, ridicularizando seus hábitos, propondo-se a iniciar uma campanha, em seu país, contra a Inglaterra e seu turismo, enfim, deixando retornar à sua mente a figura do secular rival, num perigoso jogo de generalizações ao qual o ser humano jamais deveria submeter-se. Toda a ilha britânica estava condenada para aquele francês, em face da perda por ele sofrida.

— Maldita Inglaterra! Por que não ouvi meus colegas e permanecí em Paris? — pensava. Apesar dos conselhos recebidos da esposa e dos filhos de que tal fato poderia ter ocorrido em qualquer lugar do mundo, não sendo possível generalizar os atos errados de um inglês a todo um povo, ele permanecia irredutível.

Professor de história que era, ao retornar às suas atividades, passou a transmitir aos alunos a pior imagem possível do país que visitara e que lhe havia subtraído a máquina fotográfica e a confiança.

Durante dois anos, cercou-se de cuidados para difamar, ao máximo, os britânicos. Formou opiniões em suas salas de aula, influenciou alunos e retirou conceito das provas daqueles que não repetiam as suas agressões à Inglaterra. Negativamente, conduziu seu mister, baseado no preconceito e no ódio entre povos, o que não seria de se esperar de um professor culto e inteligente.

As vezes, amarguras momentâneas servem para detonar uma imensa angústia que está represada no coração do encarnado e tudo transborda como se fora um pingo d’água, caindo num barril lotado.

Jean-Pierre, esse nosso amigo, desencarnou no final de 1992 e trouxe para o plano espiritual o mesmo ódio que nutria pelo povo inglês, tal como uma ideia fixa e obsessiva.

Foi encaminhado para a Unidade da Confraternização8, que congrega os Espíritos provenientes da Europa. Depois de estagiar algum tempo nesse local, conseguiu perceber a realidade de suas emoções, equilibrou-se, en-trosou-se — o que é melhor — com os companheiros de jornada que vieram da Inglaterra e teve condições de continuar sua trilha, seguindo para Alvorada Nova”.

— Como é possível confundir os atos de um indivíduo com o preconceito contra todo um povo? — indaguei a Chin.

- Não é difícil que isso ocorra. Infelizmente, ainda prevalece a intolerância em todos os sentidos entre os encarnados. Vemos isso todos os dias, inclusive aqui, no plano espiritual. E por isso que este Posto de Socorro, com características especiais, tem um trabalho extremamente importante para Alvorada Nova. São muitos os Espíritos que retornam do Globo com problemas de entrosamento e adaptação, possuindo, no âmago, as mais variadas formas de idéias preconcebidas e juízos equivocados a respeito dos seus semelhantes: homens que se sentem superiores às mulheres; brancos que não desejam conviver com esta ou aquela etnia; orientais que não se sentem à vontade com os habitantes da nação vizinha; disputas no âmbito de preferências sexuais, morais, intelectuais, enfim, meu amigo, de toda ordem. Colocando-os em unidades separadas, mas próximas ao hábitat que tinham, quando encarnados, o nosso trabalho fica bem mais fácil.

— Isso aconteceu com Jean-Pierre?

— Sem dúvida. Estagiando na Unidade da Confraternização, inicialmente em lugar isolado dos que desencarnaram na Inglaterra, com o passar do tempo, ele percebeu o equívoco que sustentara e apaziguou o seu espírito.

— Mas sua aversão aos ingleses não pode ter sido causada somente por conta do furto de uma máquina fotográfica.

Naturalmente que não. Ele, no passado, já havia estado em guerras contra a Inglaterra e carregou isso consigo, durante muitos séculos. Desabrochou naquela sua viagem a Londres. Por vezes, o encarnado desperta algum amor ou ódio, repentinamente, com relação a alguém ou a alguma coisa. A explicação nem sempre é encontrada na sua vida presente e, sim, no seu pretérito, quando vivenciou outras existências.

— E como é esse núcleo europeu?

— Venha! Vou mostrar-lhes.

O grupo acompanhou Chin.

Vimos uma unidade do Posto totalmente coberta por imensa cúpula branca e, no seu interior, várias divisões feitas por campos verdes e floridos. Cada setor abrigava Espíritos provenientes de um dos países da Europa. No centro, havia uma grande praça semelhante à de São Marcos, na Itália, para onde todas as subdivisões convergiam9, com uma pilastra exibindo uma bandeira azul, contendo diversas estrelas amarelas em círculo. Em sua volta, inúmeras construções, respeitando os vários estilos arquitetônicos dos povos aí representados.

- Ah, a Itália!... - reconhecí a praça tão logo a vi.

— Sim, são edificações de estilo semelhante — admitiu Chin.

Meus companheiros ficaram, como eu, maravilhados.

— Todos a frequentam? - indaguei, referindo-me à praça central.

— Não de imediato. Os Espíritos só têm acesso a essa praça, onde todos os povos se fazem representar, quando falam a linguagem universal do pensamento, que prescinde da divisão articulada por idiomas. Primeiramente, ao chegar à unidade, o desencarnado é conduzido ao seu setor, ou seja, à divisão correspondente à nacionalidade que tinha, quando vivia no plano material e, conforme vai evoluindo, tem contato com seus vizinhos. Gradativamente, progride até familiarizar-se com todas. Depois disso, ele pode circular por todo o Posto, conhecendo as outras regiões.

— E quantas são, exatamente, as divisões dessa unidade europeia?

— Quatro. São elas a nórdica, a anglo-saxônica, a latina e a eslava, que abrange russos e mongóis. A praça central pode ser considerada uma quinta divisão, porque de convívio geral. Além disso, dentro de cada uma das quatro grandes zonas, estão as subdivisões com os seus países pertinentes. No núcleo anglo-saxão, por exemplo, há a região da Inglaterra e, também, a da Alemanha. Elas estão separadas por campos verdes e todas possuem, no seu interior, a representação de ambientes peculiares aos existentes na Crosta.

— E como se dá a locomoção entre as várias divisões? — Como se faz em Alvorada Nova, através dos flaps^, no caso dos pequenos trechos. Para maiores distâncias, há um veículo especial, que segue por trilhos magnéticos.

— Nos moldes do trem que sai de Alvorada Nova?

- Semelhante.

— Tenho uma dúvida. Como são tratadas as entidades que desencarnam na Europa, mas cuja origem étnica não era desse continente quando encarnados?

— Depende do caso. Se lá estavam somente de passagem, seguirão para o núcleo que representa o seu país de origem. Caso residissem, permanentemente, em solo europeu, virão para esta unidade. O importante não é separar o Espírito por etnia, mas permitir-lhe uma adaptação rápida, e isso é conseguido quando ele se sente integrado ao ambiente e ao cenário onde é colocado.10. Nota do autor material: pequeno veículo aberto que dispõe de quatro lugares e locomove-se através de flutuação magnética.

Comecei a conhecer melhor vários aspectos das diferentes etnias que habitam o plano físico, o que me despertou imensa curiosidade de continuar a visita.

Chin convidou o grupo, então, a visitar a unidade que recebia os Espíritos do Oriente. Narrou-nos a história de uma companheira recém-chegada do Japão.

No início dos anos 90, ao redor da mesa de jantar, uma família de classe média da capital japonesa fazia a sua refeição. A residência dos Harada não era diferente de milhares de outras, espalhadas pelo país. A sala principal, medindo aproximadamente vinte metros quadrados — ou dez tatamis, como os japoneses preferem dizer —, servia a uma dupla função: receber visitas e fazer refeições. O ambiente era pequeno, tendo em vista a escassez de espaço reinante na nação, mas totalmente ornamentado, composto por uma mesa de jantar em estilo ocidental — mais barata que a tradicional mesinha onde os convivas sentam-se no chão —; um pequeno aparador, colocado de modo a suportar alguns enfeites, louças e talheres necessários às refeições, além de um conjunto de dois sofás de dois lugares, estofados, em cores alegres, e enfeitados por algumas almofadas. Simpática mesinha lateral trazia algumas fotos das últimas férias da família, em típicos porta-retratos. A mesa de centro em madeira clara continha alguns objetos decorativos e cinzeiros. Finalmente, espalhavam-se, por diminutas estantes, aparelhos de som e vídeo, utensílios que não podiam faltar num lar japonês. Num canto isolado, havia um estandarte representando o xintoísmo, religião oficial do país, servindo de altar de orações.

Nesse contexto de grande metrópole — espaços exíguos, rotina estafante, filas, transportes públicos lotados, refeições rápidas, faces tensas e indiferentes —, vivia Sa-tiko, bancária como seu cônjuge, que lutava para manter-se sempre em dia com seus afazeres profissionais e domésticos. Oprimida como muitas das mulheres orientais por uma sociedade machista, além de viver competindo no seu ambiente de trabalho, ela não possuía, em seu lar, o lugar adequado para a sua estabilização emocional.

Hiroshi, seu esposo, jantava circunspecto e não dez tatamis, como os japoneses preferem dizer —, servia a uma dupla função: receber visitas e fazer refeições. O ambiente era pequeno, tendo em vista a escassez de espaço reinante na nação, mas totalmente ornamentado, composto por uma mesa de jantar em estilo ocidental — mais barata que a tradicional mesinha onde os convivas sentam-se no chão —; um pequeno aparador, colocado de modo a suportar alguns enfeites, louças e talheres necessários às refeições, além de um conjunto de dois sofás de dois lugares, estofados, em cores alegres, e enfeitados por algumas almofadas. Simpática mesinha lateral trazia algumas fotos das últimas férias da família, em típicos porta-retratos. A mesa de centro em madeira clara continha alguns objetos decorativos e cinzeiros. Finalmente, espalhavam-se, por diminutas estantes, aparelhos de som e vídeo, utensílios que não podiam faltar num lar japonês. Num canto isolado, havia um estandarte representando o xintoísmo, religião oficial do país, servindo de altar de orações.

Nesse contexto de grande metrópole — espaços exíguos, rotina estafante, filas, transportes públicos lotados, refeições rápidas, faces tensas e indiferentes —, vivia Sa-tiko, bancária como seu cônjuge, que lutava para manter-se sempre em dia com seus afazeres profissionais e domésticos. Oprimida como muitas das mulheres orientais por uma sociedade machista, além de viver competindo no seu ambiente de trabalho, ela não possuía, em seu lar, o lugar adequado para a sua estabilização emocional.

Hiroshi, seu esposo, jantava circunspecto e não admitia conversas durante a refeição. Engolia a comida, mecanicamente, e mal retirava o olhar do prato. Sem saborear o misoshiro™, nem agradecer o carinho da companheira por ter feito, naquele dia, seu prato preferido, um suculento sukiyakí1. Rude e carrancudo, lançava olhares de reprovação às mínimas manifestações dos filhos adolescentes à mesa.

Em determinado momento, Satiko resolveu consultar o marido para saber se poderia mudar de emprego, pois estava cansada do seu ritmo de trabalho e não mais se sentia bem no seu ambiente profissional.

— Hiroshi, estive pensando... — falou baixinho e aguardando um minuto antes de prosseguir, a fim de obter o aval do esposo. Como ele não disse nada, prosseguiu:

— Gostaria de sair do banco. Verifiquei que estão precisando de secretárias numa corporação anglo-americana... Admitem para trabalho em meio expediente, pois a função é exclusivamente traduzir correspondências recebidas e enviadas.

Falando o essencial, sem muito argumentar ante o temor reverenciai que possuía do marido, ela calou.

— Não! Você não deve deixar o seu atual trabalho.

Os filhos se entreolharam e continuaram a comer. Satiko, ganhando fôlego, continuou:

— Por que acha assim?

— Tenho muitos motivos. Você não iria compreender.

— Poderia tentar ouvir suas razões.

Não agora, estou indisposto. Falamos depois.

Sabia que essa resposta colocaria fim à discussão, pois Hiroshi não mais retornaria ao assunto. Ousou insistir:

— Preciso sair do banco; estou saturada de obrigações e já não dou conta do serviço doméstico.

- Bobagem! Tudo está bem e assim prosseguirá.

Ela não teve coragem de seguir adiante. Guardou no coração a mágoa do silêncio e da prepotência marital. Sentiu uma fisgada no braço esquerdo e um aperto no peito. Continuou calada.

Finda a refeição, após algumas atividades de lazer, tais como leituras ou programas televisivos, retiraram-se todos para dormir.

A madrugada oprimia Satiko, que não conseguia adormecer. Não só pelas dores que vinha sentindo, mas sobretudo pela injustiça sofrida durante o jantar, ela estava profundamente deprimida. Ensaiou acender a luz do quarto para voltar ao assunto com o marido, mas acovardou-se. Preferiu as lágrimas solitárias que lhe rolaram pela face entristecida.

Acostumada a ouvir de seus pais, das irmãs, dos filhos e dos amigos que a mulher não deve opor-se ao marido, como mandava a tradição oriental, ela fechou os olhos e tentou desligar-se da vida.

Eram muitos anos de sofrimento calado e profundo. Seu coração estava aprisionado, enquanto seu espírito ansiava por liberdade.

Durante essas reflexões, que acompanharam sua insônia, sentiu-se mal. A taquicardia fez-se presente; ela soluçou baixinho, agitou-se um pouco na cama e notou que estava incomodando o marido. Retirou-se para a sala do diminuto apartamento onde moravam. Sentada em uma pequena poltrona, continuou seus pensamentos. Novamente uma falta de ar assaltou-a, e ela voltou a agitar-se. Seu coração falhara, desta vez, de forma súbita e definitiva, desligando-a da vida material, sem contudo responder-lhe as questões.

Entorpecida, ela somente voltou a despertar em nossa unidade oriental, aqui no Posto de Socorro”.

— Por que ela não foi diretamente à colônia? — indaguei.

— A sociedade oriental, no plano físico, apesar das metamorfoses que vem sofrendo, continua opressora com relação à mulher. Deve ela obediência ao esposo e, ao desencarnar, não tendo preparo suficiente, não se desliga dessa subjugação com facilidade. Precisa de orientação e nada como um estágio na Unidade do Sol Nascente13 para voltar ao seu estado de reequilíbrio. Depois disso, poderá seguir para Alvorada Nova — respondeu Chin.

Meus companheiros não se surpreenderam com a informação dada pelo nosso guia, visto saberem que as comunidades do Oriente, incluídas as do Oriente Médio, possuem determinados conceitos tão estratificados que os encarnados dessas regiões, ao desencarnarem, encontram muita dificuldade de adaptação às regras e hábitos das cidades espirituais, que privilegiam a igualdade entre seus habitantes. Portanto, todos conhecíamos a importância do estágio nesse Posto de Socorro 109, quando, gradativamente, tais Espíritos retomam o prumo do equilíbrio, através dos ensinamentos cristãos, sem o império da opressão, do preconceito ou da discriminação de qualquer espécie.

Começamos a visitar a Unidade do Sol Nascente.

Possuía lindas colinas, cobertas de árvores e flores; várias construções em estilo oriental, formando uma pequena cidade cujas alamedas eram revestidas de pequenas pedras acinzentadas, mas brilhantes, num conjunto harmônico e tranquilizante.

— Como vocês já devem ter observado — disse-nos Chin, apontando ao longe —, essa unidade possui várias construções, uma delas assemelhando-se ao antigo Palácio Imperial do Japão, porém com três andares somente. Em torno de todos os prédios, existem jardins típicos do Oriente, que servem de bálsamo e palco de meditação para muitos que aqui se encontram.

- São todas construções japonesas? - indaguei.

- Não. Há representações de todas as etnias orientais - respondeu, mansamente, Chin.

Dirigimo-nos a uma edificação que parecia um templo budista. Na sua entrada, ainda do lado de fora, vimos a imagem do Buda sentado. Ingressando, notamos um hall com grossos pilares de sustentação, que nos dava uma sensação de amplidão, diante do pé-direito alto e do suave clima que lá dentro podia ser sentido. Os sons eram mínimos, prevalecendo o silêncio quase pleno, mas não a taciturnidade. Era um ambiente convidativo à meditação.

No andar superior, dos dois lados, observamos uma série de camas, colocadas lado a lado, seguindo toda a nave do templo, onde se encontravam entidades adormecidas. No fundo, havia um altar, onde um monge com expressão serena fazia uma oração.

Todos no local estavam usando quimonos brancos.

— Interessante essa forma no trajar... — argumentei.

— O uso do quimono permite a todos uma maior integração ao cenário e à familiaridade desejada ao ambiente, tal como na Crosta. Aqui, os Espíritos recebem orientação ecumênica, ou seja, palestras educativas, de acordo com os fundamentos das várias religiões existentes no plano material, especialmente na parte oriental do Globo.

— Podemos ouvir alguma palestra? — perguntei-lhe, curioso.

— Por que não? Se quiserem, podem vir por aqui — disse-nos, apontando para um corredor que se situava do lado direito da nave central.

Passamos cerca de uma hora ouvindo ensinamentos úteis, constantes das religiões orientais, familiares aos desencarnados que ali estagiavam, interpretados à luz do Evangelho de Jesus.

Circundamos a sala, com o olhar, e verificamos que, no teto do imenso saguão, havia a imagem de um sol iluminando todo o recinto. Vimos, também, transitando pela unidade, inúmeros desencarnados com a aparência de monges, vestindo túnicas alvas: inteiramente carecas, com um semblante manso, transmitiam igualmente paz de espírito.

A Unidade do Sol Nascente possuía, ainda, vários outros prédios parecidos com construções existentes na região oriental da crosta terrestre.

Quando nos colocamos fora do prédio principal, vimos um imenso céu azul, acima de nossas cabeças, e, ao nosso redor, paisagens belíssimas que forneciam a impressão de serem infinitas.

Chin cuidou de nos esclarecer a esse respeito.

— Trata-se de uma ilusão de óptica, causada pela cúpula que envolve a Unidade e tem por fim dar a impressão aos Espíritos aqui residentes de estarem num belo local do Oriente. Por isso, a sensação do infinito.

Enquanto continuávamos o percurso, nosso guia começou a contar-nos outra história, relativa a um companheiro que havia desencarnado nos Estados Unidos. Soube, então, que estávamos seguindo ao Núcleo dos Pássaros14, unidade que congregava Espíritos que tiveram sua última reencarnação na América do Norte.

Na primavera de 1991, o Central Park, exuberante em suas verdes folhas e plácidas águas, recebia, ao longo do dia, como de praxe, vários americanos interessados em correr por suas alamedas, para manter o condicionamento físico. Vistos de cima, à flor da imaginação, seriam como pequeninas formigas cortando as trilhas do formigueiro, correndo para levar comida à rainha.

Da janela de imponente edifício, situado em frente ao principal parque nova-iorquino, uma senhora, entristecida, deitava o olhar na linha do horizonte, sem nem mesmo perceber que havia vida do lado de fora de sua vidraça. Ela permanecia ah, naquela posição, durante várias horas do seu dia, refletindo sobre as mazelas de sua existência. Seus pensamentos iam e vinham.

O prédio, onde residiam os Hartfield, era um dos mais conhecidos da cidade. De aparência sóbria, erguia-se sinistro, imponente e cinzento, junto à paisagem do seu verdejante vizinho, como se fosse uma sentinela atenta.

Entretanto, o prédio ainda conservava toda a elegância e esplendor do início do século, a exuberante belle époque, com suas maçanetas e corrimãos dourados, seus lustres de cristal e funcionários impecavelmente trajados.

O apartamento, rica e finamente adornado, era a residência de John Hartfield, poderoso banqueiro que estava desenganado pelos médicos.

Linda, sua esposa, inconformada que estava, vitri-ficou seu olhar e já não tinha mais expressão serena. Olhava o mundo, à sua volta, mas parecia não ver o que desfilava diante de si. Seus pensamentos estavam desencontrados e eram como um filme desconexo a despejar, em uma tela, cenas sem qualquer relação entre si. Olhava para dentro de sua residência e não se conformava.

Abalada, resolvia andar pelo imenso apartamento, e tudo o que via trazia-lhe muitas lembranças dos diversos anos ao lado de seu marido. Cada objeto lhe fazia ter uma recordação específica.

Sobre a lareira da sala de visita, estava um conjunto de espadas japonesas, relíquia de trezentos anos, que John havia adquirido em sua primeira viagem a Tóquio, depois da guerra, em meados da década de cinquenta.

Junto da porta da sala de jantar, repousava o magnífico jarro de jade que haviam comprado na índia. Linda recordava-se bem dessa viagem. John fora ao Oriente, em viagem de negócios, para fechar um empréstimo do banco de seu pai ao governo do Ceilão e, como sempre, ela o acompanhava. Repentinamente, haviam recebido um telegrama no hotel sobre o falecimento de seu sogro. Apesar de ele já estar doente, por ocasião da partida, John e Linda nutriam esperanças de uma recuperação. Mas, a morte adveio, e eles retornaram a Nova Iorque, consternados.

Cansada mental e fisicamente, sentou-se em sua rica e predileta poltrona francesa do século XVIII, que o casal havia adquirido em um leilão da Sothebj)’s, em Londres, e deixou sua mente vagar em direção ao passado. Lembrava-se, vagamente, de que o leilão tivera espaço na época do falecimento de Sir Winston Churchil.

Os jovens John e Linda Hartfield haviam contraído matrimônio, após o final da Segunda Grande Guerra, com o retorno do noivo da linha de frente na Europa.

O pai de John, o velho e conhecido Arthur, era o proprietário de grande banco, fundado havia décadas e, não cabendo em si de satisfação, não só pelo retorno do seu único filho, mas, sobretudo, pelo seu casamento, presenteou-os com o apartamento mencionado. O herdeiro preparava-se para assumir os negócios da família. Toda sua vida, divagava Linda, tivera uma história e uma motivação especial. Estava, no entanto, chegando a um fim. O inconformismo batia-lhe à porta do coração.

Seus quadros franceses, móveis ingleses, lustres de cristal tchecos, estátuas italianas, tapetes do longínquo Oriente, enfim, tudo que representava o mais fino e requintado mobiliário possível de guarnecer uma residência, não tinha mais importância. Sozinha, ela não sa-beria e não iria querer desfrutar dos seus bens como quando o fazia na companhia do marido. Não tiveram filhos, por puro egoísmo. Crianças não se adaptariam àquela vida luxuosa e cheia de glamour — pensavam.

Sua angústia presente tornou-a uma mulher revoltada e amarga. Quando adormecia, conseguia manter o sono sem sobressaltos apenas por algumas poucas horas. Depois voltava ao estado de vigília, ao lado do esposo, ainda acreditando na ocorrência de algum tipo de “milagre”.

A insistência em estar ao lado do moribundo, sua tenacidade e as vibrações que dirigia ao enfermo seguravam John na Crosta, retardando o seu desencarne.

Certa noite, dispensando a enfermeira, resolveu ficar no quarto com o marido, o tempo todo, observando-o. Suas reflexões a conduziram ao tempo em que o poderoso banqueiro era glorioso e cheio de vida. Dominava seu círculo de relacionamento e era cortejado por toda elite americana, desde políticos até o mundo artístico. Linda era orgulhosa e altiva. Estava agora cabisbaixa e humilhada, pois não aceitava os desígnios divinos e não anuía ao fim da trajetória do encarnado. Iria sofrer muito, ainda, visto que não teria como impedir a partida do companheiro.

Nesse ponto, a riqueza material traz muitas provas, das mais difíceis a serem enfrentadas, pois o indivíduo pode tornar-se muito confiante e cheio de desprezo pelo mundo espiritual, renegando a Deus e voltando os olhos somente a si mesmo.

Agnóstica e inteiramente céptica quanto à vida espiritual, acreditando somente no presente, no valor e no poder do dinheiro, Linda sofria, ao pensar que toda a riqueza do seu marido não seria suficiente para retirá-lo dos braços da morte.

Para os Hartfield havia apenas duas classes sociais: a rica, onde, naturalmente, eles estavam incluídos, e a pobre, constituída de pessoas desprovidas de inteligência, firmeza de caráter e vontade de trabalhar e vencer, ou seja, mártires sociais que, por livre gosto e evidente preguiça, eram intencionalmente ignorantes. Nessa filosofia, passaram a existência. Embora sempre tivessem pautado os negócios pela honestidade e retidão, foram omissos na prática da caridade.

O cultivo de amizades fúteis e interesseiras lhes fora particularmente agradável, pois, em tais círculos, não davam explicações a respeito de suas vidas, só colhiam elogios e belas palavras e não trocavam auxílio. Todos eram auto-suficientes. Era disso que eles precisavam, na época, e nada mais lhes era útil no contato social.

Quando soube da doença que estava consumindo seu esposo, até o final, buscou ignorar o diagnóstico médico, certa de que o dinheiro iria também comprar o seu sossego nessa área, e que John, ainda jovem no seu entender, iria ultrapassar mais um obstáculo.

Nada disso ocorreu, e ele definhou a passos largos. Estava programado para desencarnar naquela noite. Nenhuma soma de dinheiro do mundo lhe traria saúde e, muito menos, paz espiritual.

Quando John perdeu a consciência, estava amaldiçoando o que lhe havia acontecido e não repousou em paz.

Finalmente, o cansaço físico abateu Linda, que dormiu, profundamente, por algumas horas, o que foi suficiente para a equipe de resgate promover o desencarne de John, apoiando-o no seu encaminhamento ao Posto de Socorro na 5, onde ficou em câmara de retificação por alguns anos, recuperando-se após. Antes de seguir para Alvorada Nova, foi transferido para este Posto, a fim de melhor adaptar-se à nova vida que irá levar”.

— Ele se rebelou de igual forma? — perguntei, refe-rindo-me ao que Linda sentia momentos antes do desencarne do marido.

Sem dúvida. Logo que perdeu a consciência, materialmente falando, vagava em espírito pelos cômodos do seu apartamento, afetado e revoltado, sem ter paz e tranquilidade. Assim ficou até o instante em que, desligados os laços que o prendiam à matéria, foi adormecido, com-pulsoriamente, e levado ao Posto n2 5.

— Por que isso aconteceu a uma pessoa tão esclarecida?

— Justamente por ser e julgar-se tão culto e informado, John afastou-se dos postulados cristãos. Achava-se auto-suficiente, bajulado por todos e senhor de si. Desprezava o momento de sua morte e, além disso, nunca procurou meditar sobre o real aspecto da vida. Não praticou a caridade e deixou de ser solidário; seu único grande mérito foi agir, honestamente, ao longo de sua trajetória.

— E não foi suficiente?

— O dever cristão que todos têm não se limita a um único e exclusivo aspecto dos ensinamentos de Jesus. É necessário, para a evolução de cada um, seguir a trilha das virtudes e não de uma só virtude.

— Se foi tão rico e teve tão poucos problemas, ao longo da existência material, por que John desencarnou tão rebelde?

- Justamente por não aceitar a morte, não se conformar em deixar o plano físico, nem tampouco ter sofrido resignado o que a doença lhe impôs. Pura arrogância e altivez.

— Não foi ao Umbral?

— No seu caso, não. Como disse, as suas mazelas

foram omissivas, mas sua riqueza teve origem lícita, e ele sempre se pautou por isso. Defeitos tinha, mas, na sua maioria, ligados à vaidade e ao orgulho. Pode parecer contraditório, mas, ao mesmo tempo em que rebelava-se contra a partida do mundo físico, não se deixava levar pelos argumentos das entidades inferiores. Não se permitiu subjugar. Assim, pudemos intervir em seu favor, levando-o ao Posto de Socorro n2 5 de Alvorada Nova.

— Quer dizer que ele progrediu na sua jornada?

— A maioria progride, meu caro. Poucos estacionam. John terá que retornar, é certo, para cumprir uma série de ensinamentos que omitiu e, para isso, serve a reencar-nação. Talvez, num cenário pobre, consiga, associando outras virtudes à sua retidão e honestidade, prosperar ainda mais em sua trilha evolutiva.

— E Linda?

— Ainda está na Crosta.

— John está aqui?

— Acabou de chegar.

— Podemos vê-lo?

— Ainda não. Ele está precisando de um pouco de isolamento. No futuro, certamente vocês se encontrarão. Mas venham, vamos conhecer o Núcleo dos Pássaros.

— Por que esse nome? — indagou um de meus companheiros.

— Espírito aventureiro da América, que voa sobre ideais e plana sobre os horizontes da vida.

— Bonito! — exclamei.

O prédio central dessa unidade era cúbico e imenso, contendo, nas suas paredes laterais, várias telas gigantescas, mostrando cenários de cidades americanas, canadenses e mexicanas. A maior parte das construções desse núcleo possuía orientação moderna e concepção futurista, tal como a mentalidade dos que chegavam do continente norte-americano. Havia alguns prédios em estilo típico aos países dessa região.

As projeções emanadas do prédio principal permitiam-nos supor que estávamos entre edifícios tão altos quanto os de Manhattan ou do centro das grandes metrópoles americanas. Apenas uma ilusão, mas bastante convincente aos nossos olhos.

- Este local funciona como se fosse um imenso cinema, com quatro telas que formam as paredes externas desse prédio! — exclamei

- Sim — concordou Chin. — Nelas são continuamente projetados retratos do continente americano, permitindo aos habitantes um reconhecimento eficaz do ambiente, além de se imaginarem cercados por alta tecnologia, uma sensação importante aos povos da América do Norte. Interiormente, o prédio possui muitos equipamentos e vários cômodos.

Empolgados, passamos toda uma tarde observando esse núcleo do Posto de Socorro. No dia seguinte, continuamos a visita, conhecendo mais uma história, narrada, pacientemente, por nosso anfitrião:

No Rio de Janeiro do início dos anos 90, residindo na zona Norte, um motorista de ônibus deixava o emprego e voltava para casa todo dia à mesma hora. Pedro tinha uma vida muito dura, com sérias dificuldades em todos os campos. A cidade onde vivia estava em plena guerra surda. O crime tomara conta dos locais que costumava frequentar. Traficantes de drogas dominavam bairros inteiros e tinham poder de vida e morte sobre os que estavam em seu território. Diversos amigos seus já haviam perecido nas mãos desses homens; alguns, por tentarem afirmar-se, outros, simplesmente, por estarem no local errado, na hora errada. Poucos de seus conhecidos tentaram integrar-se aos bandos. Os que tiveram sucesso acabaram viciados ou mortos pela polícia.

Sua mulher, Sônia, apesar de dedicada e trabalhadora, estava cansada de viver e criar os filhos, nesse ambiente de medo, e reclamava incessantemente. A pobreza nunca lhe fora um fardo, já que estava, tanto quanto Pedro, habituada à vida de recursos escassos. Entretanto, com o passar dos anos, o medo da miséria completa invadiu-lhe o ser e trouxe-lhe revolta ao coração. Perdera toda a alegria da época de seu namoro e casamento, muitos anos antes, quando conheceu seu marido, em um ensaio de escola de samba.

A favela em que viviam localizava-se em um dos morros da Cidade Maravilhosa. Esgotos a céu aberto, fome e doenças eram seus companheiros diários. Havia poucos anos, o casal perdera um filho, em face não só das vicissitudes sanitárias e alimentares a que estavam sujeitos, como também em razão do descaso médico. Seu pequeno João morrera, no saguão do hospital estadual, vítima de infecções generalizadas. Mal teve socorro, porque o nosocômio estava lotado e sem recursos humanos suficientes.

Diante da crueza da vida, Pedro não conseguia con-formar-se. Revoltava-se tal como acontecia com a esposa. Cumpria, mecanicamente, sua obrigação profissional e ansiava apenas pelo final do dia, quando entregava o ônibus na empresa e buscava algum alento na bebida, segundo o seu equivocado modo de pensar.

— E aí, Pedrão? Encerrou por hoje? - perguntou-lhe, como sempre, o porteiro que controlava o tráfego dos carros na garagem.

— E, Ernesto... mais um dia infeliz que se vai.

— Que é isso, cara! Que pessimismo! A vida tem muita coisa boa...

— Só se for pra você! Cada um sabe onde o calo aperta, malandro.

— Deixa de bobagem, homem. Como é, vamos enfrentar a caninha ali no Neco? Ouvi dizer que ele recebeu um tonel lá do interior que é de arrebentar, coisa fina!... Além do mais, você está devendo uma revanche ao Rosa e ao Dedé, na sinuca.

— Claro. Deixa eu estacionar o ônibus e assinar lá os bagulhos e já vamos saindo.

No percurso de volta para casa, já aos 45 anos, Pedro deixava-se levar pelo costume consagrado pelos amigos e refugiava-se num bar, buscando, como fuga, acalmar sua angústia, através do álcool. Ele não pensava na vida, enquanto bebia e, nem após tê-lo feito, ao menos, por algumas horas.

Nunca vira razão para meditar sobre seus rumos como ser humano, pois sentia-se sofrido e injustiçado. O Brasil, para ele, era o final do trilho de um velho trem que cortara continentes para afundar no primeiro oceano com o qual se defrontasse. Ali havia nascido para penar — pensava.

Sua condição econômica e a do país, nessa época, a instabilidade emocional de sua família, enfim, o contorno que sua existência tinha não lhe agradava. Era passivo diante disso. Bebia, portanto, julgando que nada mais lhe restava. O vício consumia as suas forças e sua resistência, pouco a pouco.

A par de toda angústia pessoal, Sônia, paulatina-mente, viu-se sozinha no lar. Sofria a falta do marido, e os filhos não mais contavam com o pai para qualquer atividade. Sabia que a bebida estava consumindo-o e, face à sua revolta, não conseguia buscar as forças necessárias para auxiliá-lo a vencer o vício.

Cada noite, era um martírio para ambos: discussões, censuras, justificativas, vez ou outra, agressões físicas, e o egoísmo estava sempre à solta, ao invés de imperar o amor, justamente para fortalecer o âmago de cada um e compensar as vicissitudes do mundo material.

Isolado do mundo e da família, Pedro afogou-se, cada vez mais, em copos e mais copos do seu alcoolismo contumaz. Durante o dia, trabalhava no rotineiro trajeto do ônibus pelas ensolaradas ruas do Rio de Janeiro e, à noite, perdia a noção da realidade, ao entregar-se ao ócio e ao vício. Nada mais lhe importava, no mundo, a não ser Nunca vira razão para meditar sobre seus rumos como ser humano, pois sentia-se sofrido e injustiçado. O Brasil, para ele, era o final do trilho de um velho trem que cortara continentes para afundar no primeiro oceano com o qual se defrontasse. Ali havia nascido para penar — pensava.

Sua condição econômica e a do país, nessa época, a instabilidade emocional de sua família, enfim, o contorno que sua existência tinha não lhe agradava. Era passivo diante disso. Bebia, portanto, julgando que nada mais lhe restava. O vício consumia as suas forças e sua resistência, pouco a pouco.

A par de toda angústia pessoal, Sônia, paulatina-mente, viu-se sozinha no lar. Sofria a falta do marido, e os filhos não mais contavam com o pai para qualquer atividade. Sabia que a bebida estava consumindo-o e, face à sua revolta, não conseguia buscar as forças necessárias para auxiliá-lo a vencer o vício.

Cada noite, era um martírio para ambos: discussões, censuras, justificativas, vez ou outra, agressões físicas, e o egoísmo estava sempre à solta, ao invés de imperar o amor, justamente para fortalecer o âmago de cada um e compensar as vicissitudes do mundo material.

Isolado do mundo e da família, Pedro afogou-se, cada vez mais, em copos e mais copos do seu alcoolismo contumaz. Durante o dia, trabalhava no rotineiro trajeto do ônibus pelas ensolaradas ruas do Rio de Janeiro e, à noite, perdia a noção da realidade, ao entregar-se ao ócio e ao vício. Nada mais lhe importava, no mundo, a não ser o momento em que se reunia com os amigos, nos bares da zona norte, para beber. A cirrose consumiu-o, completamente, e antes que ele acordasse para a responsabilidade da vida, terminou despertando para a realidade do mundo espiritual.

Difíceis foram os instantes do seu desligamento. Alcoolizado e quase inconsciente, viu-se envolvido pelas entidades que o acompanharam em vibração negativa, durante anos seguidos. Entretanto, por programação do Alto e em face da interferência de Alvorada Nova, foi resgatado por equipes socorristas e levado, diretamente, ao Posto de Socorro nc 6. De lá, quando recuperado parcialmente, foi transferido a este Posto. Está na Unidade da Integração15, que recebe Espíritos oriundos da América do Sul, América Central e Oceania”.

Olhamo-nos surpresos. Essa unidade era imensa. Abrigava entidades de vários continentes e, no nosso grupo, havia alguns companheiros que tinham vivido sua última existência em países das Américas do Sul e Central, inclusive eu. Era-nos, pois, particularmente interessante conhecê-la a fundo.

O prédio principal possuía, no seu interior, uma flora abundante, que emitia brilho especial. O aroma espelhava a própria Natureza. Ao fundo de um corredor, que tinha ligação com o hall principal, havia uma clareira de onde emanava uma luz muito forte e onde se notava uma fonte, com pequenina queda d’água, volteada de muitas flores. Nesse local, encontrava-se também uma estrela de oito pontas, pairando sobre a água e girando sobre o seu eixo em todas as direções, com a função de higienização. Essa Unidade, juntamente com a da Confraternização, eram as maiores do Posto.

Ali se dispunha de um setor que cuidava do estudo interligado da ecologia com a agricultura, preparando a Humanidade para o futuro. Havia, ainda, um acompanhamento da evolução e preservação da fauna, nos moldes existentes no Núcleo dos Pássaros.

— A Unidade da Integração — disse-nos Chin — tem especial ligação com o futuro do planeta e da Humanidade, ante a relevância que o Brasil irá ocupar nesse contexto.

— Como assim? — indaguei curioso.

— Há programação do Plano Superior para que nessa nação floresça a solidificação da força moral da civilização.

— Por que o Brasil? — tornei a perguntar.

- Pela índole benevolente, pacífica e espiritualista de sua gente. É lógico que todos somos Espíritos e podemos renascer, ora no Brasil, ora em outros países do Globo, mas ali estará o núcleo de força da civilização do futuro, ante a grande concentração de entidades reencar-nadas com a mesma concepção doutrinária de vida.

- Refere-se ao Espiritismo?

— Não somente a ele — devolveu Chin —, mas a todas as religiões que estão evoluindo para um núcleo comum de entendimento a respeito da integração dos dois planos da vida. Com o passar do tempo, estaremos unidos em comunicação constante.

— Unidos com quem?

— Com o plano material.

— Quando?

— Assim que o Globo atingir outra fase de sua evolução, e os Espíritos que não se queiram regenerar forem transferidos para outros planetas.

— Parece-me impossível de acontecer a curto prazo.

— Não pensamos a curto, médio ou longo prazo. Temos uma meta e vamos cumpri-la; o tempo nos serve de meio e não é uma finalidade em si mesma. Não temos preocupação com a duração do processo e, sim, com o processo em si.

— É fascinante constatar como a cidade espiritual re-laciona-se com seus Postos de Socorro, e estes, com a Crosta. Tudo em perfeita formação e integração. Cada detalhe é coerente com o todo, e este parece ser a soma exata dos seus elementos. Nada é esquecido, e toda particularidade tem sua importância — argumentei.

— Sem dúvida, meu amigo. Deus nos brinda com sua Sabedoria, ao permitir tanta perfeição.

— Sempre foi assim, quero dizer, tudo tão perfeito e organizado?

— Note! Estamos nos referindo a planos mais elevados. Nem todas as partes da espiritualidade funcionam desse modo. Há regiões trevosas, onde habitam Espíritos com outra mentalidade e cujas comunidades não guardam a menor relação com a nossa. Somos todos irmãos, é certo, porém eles ainda necessitam de muitos esclarecimentos e boa vontade, até que possam pertencer a um Posto como este ou a uma colônia como Alvorada Nova.

— E verdade! Havia me esquecido das entidades um-bralinas. Elas estão completamente isoladas? Possuem alguma comunicação conosco ou com a Crosta?

— Sim. Transitam pela crosta terrestre e fazem parte do mundo material, influenciando a vida de muitos encarnados. Conosco, na realidade, não têm relações diretas, embora, indiretamente, estejamos todos conectados. Quando vamos atender a alguém, em zona umbralina, ou resgatar um irmão, penetramos naquela região. Elas, no entanto, não têm acesso permitido a este Posto ou a outros semelhantes. Situamo-nos em regiões umbralinas, via de regra. Por isso, temos muralhas de proteção e baterias magnéticas que evitam a aproximação dessas criaturas.

— Elas já tentaram atacá-los?

— Sim, aconteceu. Os Postos nss 5 e 6 de Alvorada Nova foram abordados por exércitos de entidades inferiores.

Impressionados com o relato de Chin, novamente trocamos olhares. Ele entendeu e continuou:

— Sei que estão interessados em saber como isso se deu.

Todos concordamos.

Ele prosseguiu:

— Está bem! Enquanto continuamos nossa visita, vou tecer algumas considerações sobre a vida no Umbral. Isso poderá auxiliá-los nos estudos que estão empreendendo em Alvorada Nova.

E Chin principiou:

No meio da escuridão, num ambiente abafado e quente, surgia a imagem de um castelo, cujas muralhas, com a tonalidade vermelho-escuro, eram encimadas por pontas irregulares.

A rudeza de sua construção era evidente, pois se constituía de rochas cortadas, pontiagudas e desiguais. Logo na entrada, numa sala que mais parecia uma gruta escura, existia uma mesa de pedra que servia de local de reuniões e em torno da qual estavam entidades analisando mapas enormes. Tratava-se de um encontro de dirigentes do plano espiritual inferior que, nos moldes militares, planejavam uma guerra e elaboravam o traçado que iriam seguir nessa jornada.

Geralmente, em época de agitação no plano material, tal como guerras de grande porte ou calamidades, as criaturas umbralinas movimentam-se também e participam dos acontecimentos na Crosta, tal como se estivessem ainda encarnadas.

Assim, a partir da eclosão dos conflitos, as comunidades espirituais inferiores agitam-se, formando grupos de apoio aos vários líderes encarnados que comandam os países envolvidos na contenda. O intuito é influenciá-los, a fim de que mantenham o estado de beligerância o maior tempo possível. Comprazem-se as entidades menos esclarecidas com a miséria dos valores morais e com o sofrimento generalizado que os encarnados enfrentam, em caso de guerras ou outros tipos de catástrofes.

Nessa época, a Humanidade caminhava para um embate armado de grandes proporções, a Primeira Grande Guerra.

A hostilidade reinante no Umbral, pela falta de vivência das leis cristãs, lembra, com muita proximidade, as batalhas que ocorrem no plano material. Em vales perdidos na escuridão, Espíritos travam lutas, agridem-se mutuamente, prostram-se pelo chão e, alucinados, vivem na dor e na perturbação.

Quando as criaturas espirituais optam por um dos lados da batalha material, passam a agir como se fossem generais, comandando seus exércitos para envolver os encarnados e, através de contínuos processos de obsessão e subjugação, tomam parte na luta travada na crosta terrestre. Assim, quando guerras ocorrem, em qualquer dos lados envolvidos, encontram-se agindo os Espíritos menos esclarecidos.

As comunidades se formam, pois, também em zonas umbralinas. A partir e em função delas, surgem os líderes e os grupos dirigentes. Estruturam-se essas cidades tal como as existentes no plano físico, visto que os Espíritos, quando desencarnados, carregam consigo a memória de suas últimas vivências na Crosta.

Há, também, certas regiões do Umbral onde impera a completa perturbação, ou seja, não existem comunidades organizadas, e as entidades acabam relacionando-se em total promiscuidade, sem o menor método e sem qualquer rastro de civilização. O mesmo ocorre no vale dos suicidas, onde inexiste esse tipo de organização comunitária.

Tudo depende do grau evolutivo atingido pelos Espíritos. Os mais embrutecidos raramente aceitam viver em grupo, pois falta-lhes qualquer senso de disciplina e obediência.

Por outro lado, entidades mais esclarecidas e inteligentes, embora norteiem seus atos ao mal, buscam formar organizações para conviver, tais como cidades ou vilas. Conseguem escravizar Espíritos menos evoluídos e dirigem as suas atividades. Formam exércitos e desejam viver nutrindo ódio, além de construir para si um ambiente com as mesmas mazelas que enfrentaram no plano físico.

Há, pois, diferenças nas condições de existência, também em áreas umbralinas. As entidades inferiores dividem-se, via de regra, em dois níveis diferentes. Um deles, organizado e inteligente, e o outro, mais animalizado. Esta última categoria costuma ocupar regiões abissais, quase na completa escuridão, ao lado de zonas reservadas aos suicidas. A primeira prefere acomodar-se perto de cidades espirituais e próximo a Postos de Socorro, pois aprecia a luz, embora à distância.

Nas cidades construídas por criaturas, em zonas um-bralinas, há luminosidade, apesar de bastante fraca e sem brilho. Em suas formas de organização, existe também a rivalidade, e grupos inimigos lutam entre si, visando alcançar a hegemonia de uns sobre os outros, além de buscar atacar cidades espirituais evoluídas, tais como Alvorada Nova e seus Postos de Socorro. Outra de suas atividades é acompanhar de perto a vida dos encarnados.

Os Espíritos de parco esclarecimento e os habitantes do vale dos suicidas raramente conseguem prejudicar, diretamente, os homens, justamente pelo seu precário entendimento. Permanecem vagando, até que são aprisionados pelos mais inteligentes, e recebem orientações das mais diversas, passando, aí sim, a representar perigo concreto ao plano material.”

Espantado com o relato, perguntei:

— Mas tudo gira em torno de comunidades, com líderes e organização, tal como no plano físico? E os obsessores? Pertencem a um grupo também?

— Nem tudo — respondeu-nos o nosso guia - está relacionado às cidades formadas em zonas umbralinas. Há lugares em que impera o completo caos e daí também podem sair obsessores. Nem todos os que habitam essas regiões são tão embrutecidos e ignorantes que deixam de obsidiar os encarnados. Há inteligências voltadas ao mal.

Essas, portanto, é que mais influem no comportamento dos habitantes do plano material. Existem obsessores vivendo em comunidades, e outros que vagam pela Crosta ou mesmo pelo Umbral, sem vínculos grupais e atuando, individualmente.

— E tais grupos ou comunidades têm nomes ou denominações?

- Sim, podem ter.

Continuou Chin:

As construções edificadas em zonas do umbral — erguidas com matéria-prima rudimentar, encontrada nessa região — buscam espelhar-se naquelas existentes na Crosta, apesar de não o conseguirem plenamente, tornando-se meras caricaturas, geralmente disformes.

O castelo, que mencionei no início, onde se realizava a reunião, abrigava o posto16 chamado Pátria e ForçcF e situa-se em local próximo ao Posto de Socorro n2 5, num cenário semelhante a um imenso e lúgubre pântano.
16. Nota do autor espiritual: o termo “espiritualidade” com letra minúscula será utilizado para identificar regiões umbralinas do plano espiritual, enquanto que “Espiritualidade”, com a inicial maiúscula, regiões mais elevadas. O mesmo se diga no tocante a “posto”, com inicial minúscula e “Posto”, com maiúscula. O primeiro diz respeito às fortificações do Umbral e o segundo aos Postos de Socorro das colônias espirituais.

O seu interior era iluminado timidamente por uma luz em tom avermelhado, até como reflexo de suas rústicas paredes na mesma cor.

Os líderes, em torno da mesa, falavam e gesticulavam ao mesmo tempo. Muitas opiniões eram proferidas, e a maioria queria organizar grupos para participar ativamente da guerra que se avizinhava no plano físico. O ambiente era rude, pesado, mas não afetava os presentes, já acostumados a tal vibração. Por corredores tortuosos, podia-se atingir outras salas e também as masmorras, onde estavam aprisionados vários Espíritos, vítimas da escravização.

Moldando suas aparências, as entidades mostravam-se como militares, tais como o faziam os encarnados em épocas de guerra.

De outra parte, nessa mesma região, situado no topo de uma série de montes escarpados e íngremes, encontrava-se outro castelo, de construção rude como o primeiro, porém em outro estilo e com a cor cinza predominando. Nesse lugar, estava a comunidade denominada Integridade Nacional™.

No seu interior, outra reunião estava em andamento, e seus condutores também tramavam participar da luta armada no plano físico.

Vislumbrava-se, pelo encaminhamento das discussões, que o posto Pátria e Força pretendia estar ao lado dos dirigentes franceses, e o Integridade Nacional, dos alemães.”

— É impressionante como os fatos se dão nas regiões umbralinas. Eles parecem agir como se estivessem encarnados e desejam participar das atividades, na crosta terrestre, com igual ênfase - argumentei.

— Quanto a isso, não resta dúvida. Os Espíritos menos esclarecidos, materialistas que são, apegam-se muito à vida na Crosta e não se desligam facilmente dela, apesar de estarem vivendo em outro plano.

- Quer dizer que a Primeira Grande Guerra começou por influência dos habitantes do plano espiritual inferior?

— Não. Os encarnados a causaram, como, aliás, dão origem à maioria dos males que os afligem. Entretanto, quando o conflito tornava-se bastante próximo, as criaturas umbralinas muito contribuíram para a tomada das piores decisões. Se um líder encarnado está para decidir se vai ou não guerrear, pode sofrer a in-fluenciação de Espíritos inferiores e acabar optando pelo mau caminho.

— Existe a influência dos bons também?

— Certamente. Todos os rumos seguidos pelo encarnado são frutos de decisões tomadas diante de vários atores. Influências negativas, intuições e inspirações positivas e o seu próprio senso compõem uma decisão nesse sentido. Logo, guerras podem ser causadas por maus conselhos, mas também por vontade do próprio ser humano. Assim como Espíritos Bons tentam impedir as contendas e induzir a paz, mas nem sempre conseguem.

— E como começou essa guerra de grandes proporções?

Chin prosseguiu:

A partir da perda da região da Alsácia-Lorena pela França para a Alemanha, por volta de 1870, restaram feridas abertas, não cicatrizadas. Tanto os encarnados, quanto os desencarnados, agitavam-se em torno dessa porção territorial. Iniciou-se, então, na Europa, uma corrida armamentista e, durante esse período, os alemães e os franceses sofreram enorme influenciação de entidades inferiores, interessadas na eclosão de mais e maiores batalhas.

A França estava isolada da Europa, e a Alemanha, fortalecida. Convenções e tratados foram assinados, muitos deles sob forte envolvimento espiritual.

Por volta de 1905, a situação já estava grave, e qualquer incidente poderia levar à guerra. Entidades ligadas à França concentravam-se no posto Pátria e Força, e as vinculadas à Alemanha, no Integridade Nacional.

A Espiritualidade Superior19, 19. Nota do autor espiritual: Chin não se refere a colônias do nível de Alvorada Nova, mas ao Plano Mais Alto.é óbvio, estava a par dos acontecimentos, mas não interferiu, pois a Humanidade, de um modo geral, deveria passar por essa experiência sozinha. Assim, as zonas umbralinas adquiriram maior força de pressão, e as obsessões eram comuns, em Cortes e Palácios de países da Europa.

Estava formado o antagonismo cruel entre as duas nações mais adversárias do contexto: de um lado, a Tríplice Aliança, liderada pelos alemães e, de outro, a Tríplice Entente, comandada pelos franceses.”

— Jamais imaginei, Chin, que as guerras ocorridas no plano material tivessem participação tão direta do plano espiritual inferior... — comentei.

— Não somente do inferior. Colônias espirituais de planos elevados acompanham as contendas do plano físico, embora, nesse caso, seja para auxiliar os encarnados a tomar as melhores decisões, inclusive para buscar a paz, o mais breve possível. De outra parte, as entidades do plano inferior agem para desestabilizar ainda mais o mundo material, pois regozijam-se diante da perturbação, tal como vivem no Umbral. Logo, é preciso cautela por parte dos que estão em jornada na Crosta, para evitar os assédios negativos que sofrem, diuturnamente, desses Espíritos malignos.

— Mas, aparentemente, guerras ocorrem por fatos políticos. É difícil conceber que, por meras obsessões, consigam as criaturas umbralinas influenciar todo um contexto, envolvendo várias nações.

— Não é tão simples assim. Obsessões dirigidas a grandes líderes de nações poderosas podem causar sérios transtornos à Humanidade. Por outro lado, é preciso ressaltar que os homens são falíveis e têm vários desvios de comportamento; logo, não é difícil influenciá-los para o mal. Em verdade, muitas vezes já existe a tendência dos seres humanos para promover lutas ou participar de rivalidades hostis, o que é somente incentivado por criaturas do Umbral. Quem faz a guerra é o encarnado, mas, certamente, há a participação das zonas trevosas.

— A Primeira Guerra Mundial teve início somente por conta do assassinato do arquiduque Ferdinando?

— Não, houve outros fatores determinantes. Muitos deles, acompanhados de perto por Espíritos belicosos e habitantes das regiões escurecidas do plano espiritual. Continuarei meu relato:

“ No século passado, o Marrocos foi um dos países mais cobiçados pelas potências europeias, quando da partilha colonial da África, em fins do século XIX. Na época, era um sultanato muçulmano, convulsionado por tribos insubmissas e por verdadeiros senhores feudais, praticamente independentes. A proximidade do Marrocos da Argélia, já em poder da França, despertava nos franceses interesse especial na região.

Aliás, o Marrocos havia provocado a cobiça de várias nações europeias, devido a algumas riquezas minerais.

A África era bastante grande e, naquela época, suficientemente manipulável para servir de base a uma negociação lucrativa.

Em 1904, o comércio francês já ultrapassava o de qualquer outro país na região. Pretendendo transformar o Marrocos não só numa fonte de riquezas, mas também em um ponto de apoio para a defesa da Argélia, a França fez um acordo secreto com a Inglaterra, a fim de desmembrar o país africano, ficando uma pequena porção fronteiriça de Gibraltar com a Espanha e o resto com a França, recebendo a Inglaterra, em retribuição, absoluta liberdade de ação no Egito.

Nessa ocasião, os gabinetes palacianos da crosta terrestre — franceses e ingleses — foram bastante assediados, especialmente por entidades do posto Pátria e Força. Paralelamente ao acordo franco-inglês que estava em desenvolvimento, os Espíritos ligados ao posto Integridade Nacional, irresignados com a conquista francesa, influenciavam, continuamente, o governo alemão.

Os germânicos, que sempre esperaram receber compensações da exploração dos franceses no território do Marrocos, sentiram-se ameaçados com a aliança Inglaterra-França. Para dar uma demonstração de força, opuseram-se, radicalmente, a essa supremacia que se avizinhava, dando origem a uma crise internacional.

No plano espiritual inferior, ambas as fortificações agitavam suas bandeiras, em torno de um único ideal: provocar a guerra na Crosta, a qualquer custo. Tinham interesses na eclosão de uma luta armada, pois haveria muitos desencarnes e, consequentemente, conseguiríam arregimentar mais seguidores. Note-se que as entidades pouco esclarecidas de regiões umbralinas não agem com muita lógica e racionalidade. Seguem seus instintos, quase sempre frutos da vida desviada dos bons propósitos que levaram como encarnados.

Nutrir ódio e uma meta revanchista somente fortalecia as lideranças das fortificações umbralinas, propiciando aos dirigentes ampliar a dominação das entidades que comandavam. A ocasião parecia propícia ao intuito que perseguiam, de modo que as influências persistiam sem cessar.

A Alemanha, na oportunidade em que a França e a Inglaterra discutiam os termos do acordo, fez seu imperador Guilherme II desembarcar em Tânger (norte da África), pressionando a convocação de uma conferência internacional.

Nessa oportunidade, informados do aparato militar alemão, os franceses quiseram voltar atrás, mas foram obstados pelos obsessores que cercavam, com insistência, os dirigentes do governo. Assim, o melhor caminho foi o de aceitar a conferência proposta, evitando o confronto.

Realizou-se o encontro de cúpulas, em Algeciras, Espanha, em 1906.

Durante os trabalhos, as entidades da fortificação ligada à França, no Umbral, souberam agir com mais astúcia e sobrepujaram a influenciação dos inimigos do Integridade Nacional. Ao final, assinado o tratado, em 07 de abril de 1906, os franceses levaram vantagem.

Inconformados, os integrantes do posto germânico umbralino fizeram várias reuniões, nas quais pregavam como única solução a guerra, mesmo porque sabiam que os adversários desejavam tomar à força a Alsácia-Lorena.

Por outro lado, na materialidade, os alemães tiveram que se contentar com o sudoeste africano. Nesse assunto, envolvido pelas boas vibrações de Mentores Espirituais, o Kaiser nunca fora favorável a uma linha agressiva e, durante algum tempo, a Alemanha esteve perto de não se revoltar contra o acordo de Algeciras.

Trabalhando, também, pelo bem da França, emissários de Alvorada Nova, atuando na Crosta, buscavam influenciar, positivamente, os franceses, para que não mais disputassem, agressivamente, qualquer região africana.

Quando os Espíritos umbralinos de ambos os lados reconheceram que os governos estavam protegidos por Emissários do Alto, voltaram suas forças sobre os comerciantes, através dos quais continuaram a influenciar, a fim de que a questão do Marrocos fosse reavivada.

Os membros da fortificação Integridade Nacional tentavam influir, diretamente, no Marrocos, e, mediante o mecanismo da obsessão, agiam sobre os habitantes desse país, o que causou revoltas internas e hostilidade contra a França.

E' verdade que muitos conflitos, ocorridos no plano material, são frutos exclusivos dos erros e desvios dos próprios encarnados, como já mencionei, embora não se deva subestimar a força espiritual inferior agindo, frequentemente, nesse contexto, para influenciá-los. Há, na realidade, uma intercomunicação entre os dois planos da vida, positiva e negativamente. Há indivíduos que são mais sujeitos a más influências, favorecendo a aproximação de obsessores e, com isso, desviando-se da trilha cristã. Outros, no entanto, em face de um comportamento moral íntegro, são mais bem intuídos e inspirados por Mentores das colônias espirituais, assimilando bons conselhos e permanecendo na senda do bem. Depende sempre do indivíduo a receptividade a uma ou outra mensagem, logo, o livre-arbítrio em aceitar um bom ou um mau conselho pertence a cada um.

A situação interna do Marrocos piorava, a cada dia, e havia movimentos hostis ao sultão Abdul Aziz, acusado de vender o país aos infiéis, no caso, os franceses. Apesar do apoio diplomático francês, o sultão perdeu, rapidamente, o terreno para um rival feroz, seu meio-irmão mais velho, Mulay Hafid - intensamente obsidiado por forças do posto Integridade Nacional—, que foi proclamado sultão em Fez, em janeiro de 1908.

No fim desse mesmo ano, todas as influências negativas das entidades obsessoras da fortificação alemã do Umbral surtiram efeito, e a Alemanha mudou o seu comportamento, visando conseguir um tratado mais favorável aos seus interesses econômicos.

Várias entabulações estavam em andamento, nos dois planos da vida. A ambos os postos do Umbral interessava a guerra, e eles eram auxiliados por outras fortificações, também em zonas inferiores, que atuavam no mesmo sentido. A pressão para a eclosão de uma contenda mundial era imensa. As colônias espirituais também enviavam seus emissários, porém muitos homens ainda não estavam receptivos aos bons pensamentos e deixavam-se levar pelas más influências.

A evolução é lenta e gradual e, por vezes, os grandes conflitos na Crosta são necessários para trazer amadurecimento espiritual à Humanidade.

Os franceses pretendiam manter, a qualquer custo, a dominação marroquina e passaram a apoiar o novo sultão, embora este também não tivesse conseguido dominar, por completo, as rebeliões pelo interior do país.

A partir de janeiro de 1911, houve ataques de tribos rebeldes contra as forças francesas, na área de Casablanca, e, no final de fevereiro, as forças do sultão não conseguiram mais manter as tribos rebeldes fora de Fez.

O sultão pedia à França que enviasse tropas para conter os revoltosos. Nessa oportunidade, as outras nações — Espanha e Alemanha — acreditaram que, se os franceses chegassem ao Marrocos, em grande número, não mais dividiríam a colônia.

No final de abril de 1911, a ajuda francesa foi enviada, e uma força, com cerca de 20.000 homens, comandada pelo coronel Brulard, chegou a Fez, praticamente no mês seguinte. O ambiente interno da nação africana ficou conturbado; multidões de Espíritos inferiores espalhavam-se entre os encarnados, gerando uma cena dantesca.

Enquanto os conflitos instalavam-se no Marrocos, a diplomacia, na Europa, enfrentava uma dura disputa.

O momento pareceu ideal para um ataque maciço de todas as forças espirituais negativas e, contando com o temperamento belicoso reinante entre os alemães, a investida foi dura o suficiente para que, em maio, o governo germânico cogitasse de enviar navios de guerra aos portos marroquinos de Mogador e Agadir, sob o pretexto de defender os indivíduos e as firmas alemãs.

Em julho, uma canhoneira, a Pantera, ancorou na baía de Agadir, o porto mais meridional do Marrocos. E verdade que era apenas um navio, mas o efeito psicológico foi dramático e, quatro dias depois, a Pantera foi substituída por uma belonave maior, o Perlim. Um terceiro navio, o Fber, chegou para fazer o revezamento no momento oportuno, mas o Perlim só saiu de Agadir em novembro.

Os franceses estavam conscientizados do poderio militar alemão e, portanto, dispostos a fazer concessões. Os integrantes do posto Pátria e Força estavam contrariados e aumentaram a pressão que exerciam sobre os franceses, da materialidade.

Dirigentes ingleses, além disso, começaram a ser abordados pelos integrantes do posto umbralino francês, e algumas reações foram colhidas na Inglaterra. O receio de que a Alemanha pudesse fixar bases navais no Atlântico cresceu.

Nessa ocasião, Emissários das colônias espirituais atuavam nas bases diplomáticas de todos os países envolvidos na crise, tentando evitar o acirramento dos ânimos. Os irmãos Paul e Jules Cambon foram diretamente assessorados por Espíritos Elevados, a fim de conduzir as negociações na embaixadas de Londres e Berlim. Apesar disso, entidades negativas os abordavam também e não deixavam um só minuto os governantes francês, alemão e britânico.

Percebendo a atuação vigorosa das equipes umbralinas na Crosta, os enviados de Alvorada Nova, a fim de buscar o equilíbrio das forças — àquela altura o melhor remedio levam o trabalho das entidades inferiores e, ao invés de definitivamente resolvido o conflito, a guerra só tinha sido adiada.

Após isso, as fortificações passaram a estudar, cautelosamente, o porquê de seu plano de contribuir para a eclosão de uma guerra na Crosta não ter dado certo. Verificaram, então, que uma equipe mista dos Postos de Socorro números 5, 7 e 920, ligados a cidades espirituais elevadas, todos localizados na mesma região em que as fortificações estavam, conseguiu dissuadir vários dirigentes encarnados dos países envolvidos. Portanto, pacificaram, momentaneamente, a situação.

Inconformadas, desejavam trocar informações entre si, a respeito dessa interferência das equipes espirituais dos Postos, mas, sendo inimigas, não conseguiram.20. Nota do autor espiritual: essa numeração é pertinente a Postos de Socorro de cidades espirituais, localizadas na quarta esfera espiritual que circunda o Globo.

Iniciou-se, no entanto, uma outra visão, que não tinham antes, de como era importante a força da Espiritualidade Superior na vida dos Espíritos, interferindo e afastando determinadas decisões negativas que gostariam de impor ao plano físico, através dos mecanismos da obsessão e da subjugação.

Quando houve o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, as equipes do plano inferior agitaram-se outra vez. Prevendo a interferência dos emissários dos Postos, foram precavidas e influenciaram Poincaré, no momento em que este estava em São Petersburgo, comentando o referido assassinato e suas consequências. A manifestação, que seria pela paz, apesar dos conflitos já existentes, tornou-se um ato que iria incentivar a Rússia a apoiar a Sérvia contra a Áustria e a Alemanha.”

- É impressionante o seu relato, Chin. Jamais soubera de tantos detalhes sobre a Primeira Guerra Mundial, nem mesmo quando estava encarnado.

— Sem dúvida, mesmo porque agora você está ampliando sua visão do conflito, verificando também a participação do plano espiritual nessa luta que abalou a Humanidade.

— Sempre achei que somente o assassinato do arquiduque tivesse sido o grande determinante desse embate...

- Há alguns dados interessantes sobre esse fato histórico. Deseja conhecer?

— Sim, lógico — disse, entusiasmado.

- Pois bem...

E Chin prosseguiu, fazendo um breve retrospecto na História:

“Na manhã de sua partida para Sarajevo, o arquiduque Francisco Ferdinando encontrava-se hesitante. Passou algumas horas em seu oratório particular, após o que confiou aos seus auxiliares que se encontrava bastante angustiado. Alguns Benfeitores Espirituais cercaram-no de cuidados, buscando intui-lo para não partir naquela data. Entretanto, não atendendo ao aviso recebido, decidiu manter a programação.

Por outro lado, forças umbralinas tramavam, em Sarajevo, a eliminação do dirigente austríaco, visando com isso ter elementos para incentivar a deflagração do conflito entre as nações na Europa. Influenciando encarnados, dessa vez, o pacto teve efeito e, no dia 28 de junho, o arquiduque Ferdinando e sua esposa foram assassinados a tiros, quando retornavam de uma recepção oficial no palácio.

O autor do atentado, Gravilo Princip, de 19 anos de idade, nascido em Grahovo, distrito de Livro (Bósnia), declarou à policia que havia estudado muitos anos em Belgrado e tinha a intenção, já havia muito tempo, de matar uma autoridade, em devoção à causa nacionalista. Além do seu intuito, estava ele sob influência direta dos integrantes das fortificações umbralinas. Associando-se os seus pensamentos desvirtuados aos intuitos em igual sentido dos seres inferiores, formou-se uma simbiose que produziu o nefasto resultado, um dos motivos que conduziu à Primeira Grande Guerra.

Os efeitos do atentado espalharam-se, rapidamente, e, em Sarajevo, onde os sérvios eram uma pequena minoria, a população saqueou casas e lojas. Instalou-se a desarmonia e, quanto mais os encarnados desentendiam-se, tanto melhor era para a atuação dos Espíritos inferiores.

Por todo o Império Austro-húngaro, os ímpetos nacionalistas explodiram. A bandeira sérvia era insultada, e a multidão percorria as ruas, exigindo a punição desse país.

Ao longo da crise, não deixavam de trabalhar os emissários, vindos de inúmeras colônias espirituais, especialmente alguns que envolviam, com cuidado, o imperador Francisco José, na Áustria. Tanto assim que ele chegou a atribuir o assassinato a um erro provocado por um pequeno grupo de homens que não espelhava todo o povo sérvio. Uma declaração, sem dúvida, pacificadora.

A batalha, no entanto, no campo espiritual, acirrava-se, a cada dia, e as entidades umbralinas não se conformavam com a interferência das equipes de luz em seus intentos belicistas. Enquanto os bons Espíritos agiam, de igual modo atuavam, incessantemente, esses membros das fortificações das zonas enegrecidas.

Durante as tratativas diplomáticas e as agitações dos bastidores da crise internacional, aguardava-se que a Rússia não interferisse, dando suporte à Sérvia, pois, se o fizesse, o conflito poderia, de fato, eclodir.

Outro aspecto que a isso se somou foi o pensamento generalizado da Áustria de tomar uma medida de força, antes que a Rússia e a França estivessem totalmente armadas, bem como se antecipar à conclusão das vias férreas russas.

Intensa investida dos enviados umbralinos deu-se, por ocasião da visita oficial do presidente da França à Rússia. Durante um jantar, no palácio imperial de Peterhof, presente toda a nobreza russa, o czar manifestou-se, saudando o visitante ilustre e enaltecendo a amizade entre os dois países. Poincaré respondeu que as diplomacias da Rússia e da França havia muito uniam esforços pelo bem comum e que, realmente, as duas nações contabilizavam sólidos laços de reciprocidade.

Paralelamente, o Império Áustro-Húngaro estava remetendo à Sérvia uma nota oficial que tinha todas as características de um ultimatum, na medida em que concedia ao país destinatário um exíguo prazo de dois dias para a resposta.

Essa nota estava decidindo um dos maiores eventos da história do mundo.

O governo sérvio não aceitou as pressões austríacas, e o conflito tomou maiores dimensões, ocasião em que o príncipe regente da Sérvia dirigiu-se ao czar russo, pedindo auxílio para o caso de eventual guerra que se aproximava.

Antes de Poincaré deixar a Rússia, houve um jantar, a bordo do iate francês, e, por ocasião dos brindes, voltaram as alusões à crise internacional.

Nesse momento, influenciado com vigor pelas forças do posto umbralino ligado à França, Poincaré colocou-se à disposição do governo russo, reiterando os laços de união entre as duas nações, justamente o que faltava para encorajar a Rússia a auxiliar a Sérvia contra o império Áustro-húngaro.

Foi expedida uma nota conjunta pelos dois chefes de governo nesse sentido, o que provocou imensa agitação nos meios diplomáticos, propagando-se por toda a Europa.

O alinhamento das nações europeias não tardou, e cada uma resolveu posicionar-se ao lado que mais lhe convinha; algumas, com a Sérvia, e outras, acompanhando o império austríaco. Logicamente, não fora somente o assassinato do arquiduque a única causa para a Primeira Grande Guerra, embora os ânimos exaltados tivessem sido fatores ponderáveis para tanto. O despreparo dos encarnados, àquela época, foi determinante para gerar uma crise incontrolável.

Assim, a influenciação generalizada das entidades inferiores, encontrando receptividade na Crosta, conseguiu atingir o seu objetivo, e a guerra não demorou a acontecer.

A atividade das fortificações rivais do Umbral tiveram cenários diversos. Enquanto a francesa agia junto a Poin-caré, na Rússia, a alemã atuava sobre dirigentes dos governos alemão e austríaco. Não havia mais possibilidade de recomposição.

O Plano Superior não interferiu - se quisesse, nenhum conflito armado teria ocorrido — já que o progresso da Humanidade também se dá pela dor e pelo sofrimento coletivos. A guerra é uma das situações que proporciona esse amadurecimento dolorido aos seres humanos.

Em meados de 1914, o conflito mundial estava tendo início. Ambas as fortificações comemoraram. A francesa acreditava na recuperação da região perdida, Alsácia-Lo-rena; a alemã, na manutenção do território e, ainda, na conquista de mais alguns.”

— Seria muito importante que todo o plano material tivesse conhecimento dessa grande influenciação que sofre todos os dias por parte de Espíritos inferiores — argumentei, convicto.

- E terá... no tempo certo.

— Durante o desenvolvimento da guerra, as entidades interferiram também diretamente?

— Não só de maneira direta, mas sobretudo organizada.

Continuou o anfitrião:

“Vivendo em completo desatino, muitos sem o esclarecimento necessário de sua condição de desencarnados, esses Espíritos inferiores queriam, a qualquer custo, participar da vida dos encarnados, como se ainda vivessem na materialidade. Para isso, promoviam manobras e tramas que pudessem desestabilizar a paz mundial. Quanto mais confusos e intranquilos estivessem os homens, maior acesso a eles teriam as criaturas umbralinas.

Dentro das fortificações, a movimentação era intensa. Seus coordenadores formaram batalhões de ataque e de defesa. Aos primeiros (ataque), os franceses deram o nome de chacais e, aos segundos (defesa), de vigilantes. Os alemães adotaram estratégia diferente e criaram cinco equipes de atividade: os manobristas, os estrategistas, os invasores, os ativistas e, por fim, os ocupantes.

As divisões da fortificação Pátria e Força tinham dupla finalidade: os chacais receberam a função de estar em todas as frentes de ataque à Alemanha, onde quer que, na materialidade, elas se formassem. Estariam atuando na in-fluenciação aos soldados inimigos, através de processos obsessivos que serviríam para prejudicar-lhes a disciplina e a vontade de guerrear. Além disso, buscariam envolver os dirigentes franceses para que não retrocedessem em suas posturas de declaração da guerra.

Os vigilantes, por sua vez, atuariam dentro dos territórios alemão e austríaco, fundamentalmente, envolvendo os soldados e fomentando-lhes o desejo pela deserção ou induzindo-os à traição, para obter dados dos planos inimigos.

Todas as unidades umbralinas apreciam designações sugestivas, contendo termos como “honra”, “patriotismo”, “força”, “poderio”, “integridade”, enfim, aquilo que lhes possa servir de bandeira para aliciar outras entidades a integrar seus exércitos. Logicamente, com a manipulação dessas palavras, seus dirigentes trabalharam como encarnados, razão pela qual continuam tendo os mesmos pensamentos no plano espiritual. Um dia, por certo, já haviam fomentado guerras à custa de uma “honra” ou de um “ patriotismo” que, em verdade, não deveriam servir a isso. Essa a causa dos nomes desses postos do Umbral {Pátria e Força e Integridade Nacional).

As divisões da fortificação Integridade Nacional possuíam objetivos distintos: os manobristas tinham por finalidade invadir os locais onde os soldados franceses estavam e obsidiá-los até que eles desistissem da luta ou ficassem contra o seu governo — numa atitude próxima àquela dos vigilantes. Os estrategistas visavam ao programa de espionagem, colocando-se em posição de extrair dados dos governos inimigos para transmitir aos seus aliados.

Os invasores atuavam no campo de luta e tornavam mais sangrentas as batalhas, através dos maus conselhos que davam, além de recolherem os Espíritos que desencarnavam, aprisionando-os e levando-os à fortificação umbralina. Obviamente, a sua força só era possível, quando os desencarnados não estavam protegidos por equipes socorristas das colônias espirituais.

Os ativistas agiam no campo político dos dois países. Algumas equipes buscavam influenciar governantes franceses para levá-los a cometer atos suicidas ou disparatados. Outras estavam ao lado dos governantes alemães, incentivando-os, sem cessar, à continuidade da guerra.

Por fim, os ocupantes influíam em linha estreita de ação com os invasores, mas eram aqueles que permaneciam nos territórios ocupados para manter, no campo de vibração espiritual, a predominância dos batalhões germânicos. Assim, após a conquista, restava pouco espaço aos integrantes da fortificação Pátria e Força para insuflar a resistência aos habitantes dos locais dominados.

A estratégia alemã era mais organizada, porém a força dos chacais franceses era maior, em face da sua invulgar astúcia.

As organizações do plano espiritual inferior não guardam muita distância daquelas que são criadas na materialidade.

Quando cada uma das fortificações identificou a ação da outra, a Primeira Grande Guerra estava em andamento. Trataram, então, de intensificar as atividades na Crosta.

Os integrantes do grupo Pátria e Força fixaram seu ponto de atuação, na Lorena, e auxiliaram na criação da famosa linha Maginot. Enquanto isso, os membros do posto Integridade Nacional concentraram esforços na Revolução Russa e acabaram conseguindo afastar esse imenso país do conflito, beneficiando-se. A estratégia das entidades ligadas à Alemanha foi muito inteligente, o que prova serem extremamente astutos alguns desencarnados inferiores. Além das entidades que atuavam, internamente, na nação russa, havia inúmeros membros do batalhão dos ativistas na cúpula da Revolução de 1917.

O que ambas as fortificações não contavam era com a entrada dos Estados Unidos na guerra.

A paz assinada com os russos fortaleceu os alemães, mas os americanos auxiliaram os franceses.

Durante os conflitos, equipes socorristas de Alvorada Nova — através dos seus Postos 5 e 6 —, bem como grupos de trabalho dos Postos 7, 8, 9 e 10 de duas outras colônias, juntaram-se e formaram um forte conjunto de resgate, o que irritou muito os dirigentes de ambas as fortificações.

Ao longo da batalha, quando essas equipes de resgate dos Postos atuavam, retirando do local alguns desencarnados que eram encaminhados a tratamento, entidades inferiores das duas fortificações chegaram a estabelecer contato, mas em vão porque continuavam inimigas e não se entendiam.

Muitos desencarnados, residentes em zonas umbralinas e integrantes de outras comunidades, atuavam na imensa guerra do plano material, cada um optando por um lado ou invadindo países que estavam fora do conflito, aproveitando-se da desestabilização global que imperava.

Logicamente, o avanço dessas forças do mal era mínimo, em face do controle permanente, mantido pelas várias colônias espirituais, ao redor da Crosta. Entretanto, a Espiritualidade Superior continuou afastada para que a Humanidade, por livre-arbítrio, ditasse seus próprios passos e sentisse as consequências.

Já em 1918, houve várias reuniões do alto comando alemão, no plano físico, e, em torno do imperador Guilherme, reuniram-se todas as entidades do grupo dos estrategistas, na verdade onde estava a maioria dos líderes da fortificação Integridade Nacional. Esses encontros geravam imagens impressionantes, pois havia a atuação dos dois planos da vida, através de uma simbiose soturna.

Desencarnados discutiam entre si e, através do mecanismo da obsessão e da subjugação, chegavam a conversar com encarnados. Estes, por sua vez, tratavam do tema da guerra com seus pares e também com estrategistas do plano invisível, sem nem mesmo o perceberem.

Houve, então, ao longo de uma das reuniões, um rompimento ocorrido no grupo Integridade Nacional, pois alguns (os menos inteligentes e os mais rudes) desejavam prosseguir com a batalha até o final. O mero prazer dos combates já lhes saciava a curta visão que possuíam. Outros, mais esclarecidos, queriam colocar um fim à contenda, pois perceberam que os alemães, no plano físico, não po-deriam vencê-la.

Com essa separação, o movimento enfraqueceu, e os vigilantes penetraram no recinto dos encontros.

A partir daí, tantas foram as disputas, no campo espiritual, que muitos encarnados sucumbiram às pressões e abandonaram o imperador. Caiu a monarquia, assinou-se o armistício. O grupo Integridade Nacional estava rompido, e os integrantes do Pátria e Força saíram fortalecidos.

Cessada a batalha, no campo material, a fortificação vencedora invadiu a derrotada, já que as entidades mais truculentas — que queriam prosseguir na guerra — tinham abandonado o posto, refugiando-se em outra região, mais escura e densa.

Vitorioso, o grupo passou a estudar um meio de invadir também os Postos de Socorro que auxiliaram, no conflito, em nome da paz. Não queriam mais a interferência das equipes socorristas e não desejavam influências positivas nas decisões dos governantes encarnados.

O conflito mundial deixara multidões de desencarnados vagando pela Crosta e por zonas umbralinas. Muitos se viram recolhidos pelas cidades espirituais e seus Postos. Outros, porém, sem mérito para isso, foram aliciados pelas diversas fortificações umbralinas, em especial, pelo grupo do Pátria e Força.

Cerca de dez milhões de pessoas haviam desencarnado, em curto espaço de tempo, e um contingente de degenerados de toda ordem invadiu, abruptamente, o plano espiritual. Mais uma prova a ser enfrentada pelos dois planos da vida: pelos encarnados que permitiram a eclosão da guerra e iriam suportar a influência dessas várias entidades errantes e pelos desencarnados que não tinham mérito para ir a colônias, terminando por vagar e sofrer.

As conferências de paz foram povoadas de entidades ligadas aos vários movimentos regidos pelas zonas um-bralinas. O Pátria e Força enviou também os seus representantes.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, reuniram-se em Conferência de Paz, em Paris, os representantes das nações aliadas vitoriosas, a fim de restabelecer a paz (de 18 de janeiro del919al0de agosto de 1920). O trabalho foi preparado por cinquenta e dois comitês de peritos, que submeteram suas decisões ao Conselho dos De% e depois ao Conselho dos Quatro (Woodrow Wilson, dos EUA; Lloyd George, da Grã-Bretanha; Georges Clemenceau, da França; Vittorio Orlando, da Itália); este se reuniu de 25 de março a 06 de maio de 1919.

Em 18 de janeiro de 1919, abriu-se, oficialmente, em Paris, a Conferência de Paz. Nessa data, estava na cidade uma multidão de Espíritos inferiores, rondando, com insistência, os diplomatas. As colônias espirituais também enviaram seus emissários para equilibrar as forças de assédio.

O trabalho que tinham pela frente era imenso. Na realidade, havia a necessidade de refazer a carta da Europa e estabelecer as condições de vida para os novos Estados saídos de suas próprias ruínas. Precisavam repartir o importante império colonial existente e socorrer, se possível, aos escombros em que haviam se transformado algumas das mais ricas regiões da Europa. Enfim, imprescindível restabelecer as condições normais para a produção e o comércio, sacudidos por mais de quatro anos de guerra. Mas, sobretudo, segundo as promessas, a Conferência deveria instaurar a “verdadeira paz, a paz perpétua”, com a qual os combatentes e o povo haviam sonhado, durante a tormenta, e, na falta da qual, parecia inútil o sacrifício de tantas vidas jovens e de tantos bens. Pensava-se ser algo possível, já que as relações entre as nações vinham reguladas com base na justiça e não na força.

O posto Pátria e Força destacou seus melhores representantes para assessorar os diplomatas que lhes eram acessíveis. Novamente estiveram presentes, ao longo do encontro internacional, os processos obsessivos.

O programa para essa paz foi formulado por Wilson, em seus quatorze pontos expostos ao Congresso americano, em 18 de janeiro de 1918, e nas mensagens sucessivas. Ele se resumia aos seguintes princípios essenciais: respeito aos tratados, autodeterminação dos povos, desarmamento e criação da Liga das Nações. Foi feito, levando em consideração a visão americana da situação da Europa, razão pela qual não se adaptava, com perfeição, aos interesses das nações diretamente envolvidas na guerra.

Outro aspecto que facilitou a influência das fortificações umbralinas que apoiavam a França foi o fato de que as condições de paz deviam ser estabelecidas pelos vencedores. Era, pois, quase impossível evitar que os franceses — depois da vitória - deixassem de impor aos derrotados cláusulas humilhantes e vantagens exageradas. Assim, as entidades das zonas escurecidas, associadas ao espírito reinante entre muitos franceses, conseguiram larga aceitação de suas idéias, motivo pelo qual a pressão voltada aos derrotados foi intensa.

O posto Integridade Nacional tinha sido invadido pelos inimigos, restando-lhe apenas escombros. Muitos de seus integrantes fugiram para a crosta terrestre, e outros criaram outra fortificação à qual, com insistência e orgulho, deram novamente o mesmo nome. Estavam enfraquecidos, porém ainda agiam.

Quando os alemães buscaram o apoio do presidente americano, para que o seu plano de paz fosse aceito (os quatorze pontos de Wilson), emissários do novo Integridade Nacional estavam em vigília, junto aos dirigentes do governo dos Estados Unidos, para que a proposta se tornasse viável. Se isso fosse atingido, livrar-se-iam da pressão francesa, sequiosa por impor-lhes uma humilhante derrota diplomática.

O Conselho da Guerra recebeu a proposta de paz, examinando as condições do armistício e a aceitação dos quatorze pontos.

As pressões foram imensas, entre europeus e americanos, e o acordo terminou ratificado, salvo no tocante a dois pontos: a liberdade dos mares e as indenizações de guerra.

Com base nas decisões do Conselho Supremo, fixadas em 04 de novembro de 1918, Wilson, no dia seguinte, comunicou ao governo alemão a aceitação pelos aliados de seus pontos, com as duas exceções. Foi, em seguida a esse empenho político da parte dos aliados em azer a paz, segundo os quatorze pontos americanos, que a Alemanha subscreveu o armistício, no dia 11 de novembro, equivalente a uma capitulação mascarada.

Desde 1917, as nações que se viram envolvidas no Conflito Mundial já elaboravam estudos a respeito de um futuro plano de paz que poderia advir. Criaram, em seus territórios, várias comissões que iriam analisar todos os problemas - territoriais, econômicos, financeiros, jurídicos etc. — que seriam apresentados na Conferência Internacional de Paz. Os vários ministérios forneciam os dados necessários que os integrantes desses diversos organismos — juristas, historiadores, geógrafos, etnógrafos, linguistas, entre outros — examinavam e avaliavam, segundo memórias, cartas e estatísticas, colocadas à disposição das respectivas delegações. A atuação das fortificações também era potente nesse campo. Muitos obses-sores confundiam os técnicos e buscavam passar-lhes dados falsos a respeito das necessidades de cada país. Em grande parte, por conta dessa atuação nefasta, os interesses verdadeiros da Alemanha foram desprezados. Logo, ficou mais fácil à França impor à nação germânica condições superiores à sua suportabilidade.

Os seres humanos nem sempre percebem a grande atuação que o plano espiritual tem nas suas vidas, seja para o bem, seja para o mal. Há inspirações, intuições e influenciações que são passadas, todos os dias, pelos Espíritos que estão na Crosta. Conforme o comportamento individual de cada encarnado, verificar-se-á a tendência a seguir uma ou outra orientação.

A Conferência foi inaugurada, oficialmente, no dia 18 de janeiro de 1919, com um discurso do presidente da República francesa, Poincaré — o mesmo que, anos antes, incentivou a Rússia a apoiar a Sérvia contra a Áustria, um dos fatores que levaram à guerra —, o qual, recordando, sobretudo, os grandes sacrifícios feitos pela França, a agressão do Império Central e a completa vitória dos Aliados, queria também indicar em qual direção deveria inspirar-se o trabalho de paz. Note-se que Poincaré sempre foi facilmente influenciável pelos integrantes do posto Pátria e Força, e sua adversidade com o espírito germânico era fácil de ser reconhecida. Logo, em que pese ter sido escolhido como o principal encarnado a ser envolvido pelos integrantes dessa fortificação francesa, foi, ao mesmo tempo, eleito inimigo declarado dos membros do Integridade Nacional.

Sob forte influenciação espiritual, Clemenceau foi eleito presidente — outro francês com destacado sentimento anti-germânico. Na ordem do dia da primeira reunião do Conselho dos Dez (órgão condutor da Conferência, composto pelos principais países envolvidos no conflito), estava o tema da Liga das Nações. Nessa ocasião, a batalha entre os integrantes das fortificações adversárias foi visível, prevalecendo, na conferência, um clima de vingança e desforra contra os vencidos.

Os emissários das colônias espirituais trabalhavam pela aprovação da criação da Liga das Nações, um órgão internacional que serviría de local para a discussão dos problemas que afligiam os diversos países, sem necessidade de recurso à força armada.

Essa Liga faria a revisão dos tratados internacionais obsoletos e substituiría a garantia da assistência recíproca estabelecida nas fronteiras estratégicas entre as nações, um fator que, aliás, contribuía em muito para a eclosão de conflitos.

Quando se discutiu o desarmamento, as entidades umbralinas de todos os postos das zonas escurecidas investiram no cenário da conferência, contrapondo-se à ação dos emissários das colônias. Lamentavelmente, ainda não estavam inteiramente preparados os encarnados para receber os bons conselhos do plano espiritual, e a posição francesa — contra o desarmamento e, ao contrário, interessada na criação de um exército internacional colocado sob o seu comando, para fazer frente à Alemanha — era rígida e chegou a gerar vários diálogos ásperos entre os representantes das nações presentes ao debate.

Entretanto, a posição americana terminou prevalecendo, e a França resolveu concordar com o desarmamento, embora a contragosto.

No dia 14 de fevereiro de 1919, Wilson voltou para a América, levando consigo o projeto da Liga das Nações já pronto, o que significou uma vitória para os emissários das cidades espirituais, desejosos de que a paz voltasse a reinar na Europa.

Se tudo parecia correr bem nesse campo, de outra parte, os diplomatas franceses, obsidiados pela atuação dos enviados do Pátria e Força, continuavam agitando os bastidores da Conferência contra a Alemanha. No dia 14 de março, a França apresentou suas reivindicações, exigindo o desarmamento da Alemanha, a anexação do Saara e a constituição de uma república do Reno, com benefícios tarifários aos franceses. Eram medidas que consideravam indispensáveis à sua segurança, mas, na verdade, constituíam na maioria um aberto confronto com o princípio da nacionalidade e deveria se formar uma nova Alsácia-Lorena gigante. Finalmente, as entidades que desejavam vingar-se dos germânicos pela perda dessa região no passado estavam começando a atingir seus objetivos.

Por outro lado, na América, o Pátria e Força enviava seus integrantes para exercer pressão sobre os congressistas, a fim de que rejeitassem o tratado que impunha a criação da Liga das Nações. Wilson, então, viu-se enfraquecido, pois o Senado americano começou a criar obstáculos a esse organismo internacional.

Com os Estados Unidos lutando pela aprovação da Liga, os franceses ficaram à vontade para começar a impor suas condições mais fortes à Alemanha, tal como o ponto da indenização.

Juntos, Clemenceau e Poincaré objetivavam vultoso pagamento por parte dos derrotados. Argumentavam que a culpada pela eclosão da guerra fora a Alemanha, logo, devia ser responsável pela integral reparação dos danos. O perdão foi, nessa ocasião, esquecido pelos dirigentes da França, mormente pelo seu envolvimento num sentimento de vingança que contava com a colaboração obsessiva das entidades inferiores.

Tudo parecia perdido num imenso confronto, quando os americanos ameaçaram retirar-se. Assustados e sabendo que, sem a América e a Inglaterra (que lhe poderia seguir os passos), não estariam seguros no palco europeu, os franceses voltaram atrás e cederam. Acataram o compromisso oferecido por Wilson de desmilitarizar a região do Reno, ao invés de torná-la zona de influência direta da França — o que iria afrontar a soberania das nações.

Quando poucos pontos faltavam a resolver, os alemães finalmente foram chamados a integrar as conversações, marcadas para o dia 13 de abril de 1919, em Versalhes.

Após outras desavenças que surgiram, envolvendo, dessa vez, a Itália e o Japão, no dia 28 de abril, uma sessão geral da Conferência aprovou o estatuto da Liga. Em uma outra, no dia 06 de maio, foi apresentado um sumário do tratado com a Alemanha.

Brockdorf-Rantzau, chefe da delegação alemã, recebeu o tratado, observando que somente uma paz baseada na justiça poderia evitar o retorno de um novo conflito. Protestou, ainda, com a declaração de que estava sendo obrigado a assinar como tendo sido a nação germânica a única culpada pelo início da guerra.

Após estudarem as cláusulas do tratado, os alemães fizeram várias observações para a análise da conferência. Entretanto, a maioria delas foi desprezada — em especial pela atuação francesa — o que gerou um sentimento de revolta na Alemanha e fortaleceu outra vez o nacionalismo.

Vários países perceberam o que acontencia e solida-rizaram-se com a Alemanha, pois viam que a humilhação seria grande demais para ser suportada com resignação.

Quando havia debates entre os representantes das principais nações, Clemenceau manipulava muito bem os argumentos: lembrando a união que os envolveu na luta contra o inimigo comum ao longo da guerra, terminava vencendo seus posicionamentos.

Já não restava muito a fazer por parte dos germânicos, e a consagração da vingança francesa ocorreu no dia 28 de junho, na Sala dos Espelhos, em Versalhes, quando foi firmado o tratado.

E realidade que os dirigentes alemães também tiveram comportamento anticristão, durante muito tempo, e provocaram rupturas na ordem mundial — inclusive guerras. Entretanto, um erro não pode jamais justificar outro. Dessa forma, percebe-se que o perdão deve ser exercido em qualquer instância, não só pelos indivíduos, mas, sobretudo, pelas nações, o que não aconteceu com a França.”

— Que quadro complexo! Encarnados e desencarnados agindo em conjunto pela guerra e pela paz, ora prevalecendo uma, ora a outra — comentei.

— E houve mais — disse Chin.

- Como assim?

— Não satisfeitos, continuaram atuando as criaturas do Umbral, confiantes em nova empreitada belicosa na crosta terrestre.

— Dessa forma teve início o processo da Segunda Guerra Mundial?

A influência contínua do plano inferior ajudou, embora, como ressaltei, os encarnados tenham sido, com seu orgulho exacerbado e seu egoísmo acentuado, os principais promotores das piores guerras que a História já registrou.

— Não se deve, no entanto, desprezar a força dos Espíritos inferiores...

—Jamais. Vou narrar-lhes o que aconteceu em seguida:

“Finda a Primeira Grande Guerra, o posto alemão21 da espiritualidade — Integridade Nacional - estava desintegrado e abandonado. Dois grupos formaram-se, como já disse: os que foram contrários à paz estabelecida na Europa e não desejavam a rendição germânica fundaram outro posto com o mesmo nome, e os que estavam articulados com a paz foram buscar refúgio na Crosta.21. Nota do autor espiritual: utilizaremos a designação de alemão e francês para os postos e Espíritos que eram rivais no plano espiritual apenas para diferenciá-los ao longo da narrativa, mas não que seja importante a nacionalidade após o desencarne.

O posto Pátria e Força, fortalecido, logo se perdeu em gloriosas comemorações, inspirado na mesma invigilância dos franceses na materialidade, esquecendo a grande capacidade de reaglutinação que possuíam os alemães encarnados, assessorados pelos Espíritos a eles ligados. A humilhação que pretenderam impor aos germânicos estava longe de ser uma mão estendida aos derrotados e acabou se tornando mais um fator determinante para o incentivo da vingança e do ódio. Serve de lição à Humanidade, pois o vencedor jamais deve menosprezar o perdedor. A este deve destinar amor e compaixão, pois, do contrário, o jogo — em qualquer nível - pode inverter-se e aquele que desdenhou poderá ser do mesmo modo humilhado.

Foram desarticulados os grupos dos chacais e dos vigilantes e mantida apenas a equipe de coordenação no posto Pátria e Força. Os outros — Espíritos embrutecidos e guerreiros - foram liberados para, na Crosta, participarem das comemorações de vitória que aconteciam na França. Eis outro desvio de comportamento que inspira compreensão e piedade no tocante às entidades me'nos esclarecidas que ainda se julgam integrantes da vida encarnada. Elas buscam, incessantemente, a oportunidade de reunir-se aos desmandos do mundo material para reviver posturas de suas anteriores vidas errantes na senda dos vícios de toda ordem.

Enfraquecido e desarticulado, o posto francês da espiritualidade permitiu que os aliados dos germânicos começassem, ostensivamente, a rearticulação. A partir de 1920, eles começaram o seu fortalecimento.

As entidades da fortificação Integridade Nacional, que haviam tomado como refúgio a Crosta, preferiram situar-se na região da Alsácia-Lorena, transformando-a num esconderijo quase perfeito: dificilmente seus inimigos iriam procurá-los justamente no local que acabara de voltar aos domínios franceses. Enfim, outra imprevi-dência do posto Pátria e Força. Atuando escondidos, os Espíritos inferiores ligados aos alemães rearticulavam-se a cada dia.

Havia muito, os rivais na espiritualidade tinham percebido que a questão da Alsácia-Lorena deixara de ser a principal fonte da disputa. Eles mantinham, entre si, um ódio difícil de ser superado. No mais, ambas as partes continuavam perturbadas com a atuação dos Postos ligados às colônias espirituais, apesar de não saberem como afastá-los ou aniquilá-los.

Nessa época, muitas entidades ligadas aos franceses divertiam-se à exaustão, na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, buscando reproduzir, jocosamente, o ato de assinatura do Tratado imposto aos alemães. Logicamente, esses atos eram acompanhados a distância pelos rivais, o que fazia o ódio crescer. Os eflúvios emanados dessa situação perduraram por anos no local, já que vários Espíritos errantes insistiam em permanecer no referido palácio, reprisando a referida cena em que os germânicos capitularam, diante da força da tinta de um tratado.

Quando, por volta de 1921, a Alemanha teria que fazer um pagamento de indenização à França, o rancor dos derrotados acirrou-se, tanto no plano material quanto no espiritual. Essa foi a ocasião em que os Espíritos ligados ao Integridade Vacionai fundaram, na Crosta, vários pontos de apoio à sua fortificação umbralina. Denominaram cada um deles como Revanche. O Revanche I — de acordo com o código de identificação que criaram - era o posto-mãe, na espiritualidade; o Revanche II estava na região da Alsácia-Lorena.

Esse posto na materialidade tinha por finalidade isolar — quanto às vibrações — a França do resto da Europa. Para tanto, atuando de dentro para fora, ou seja, no território francês, começou a formar-se uma linha vibratória de ação que abrangia desde os Países Baixos até a Itália. Aí começou a ligação dos germânicos com os italianos. Essa Unha caminhava exatamente na fronteira da França com a Alemanha, atravessando a Bélgica e a Suíça. Era bem estreita, mas penetrante, já que havia entidades vinculadas ao posto Revanche II, em toda a sua extensão: sua tarefa consistia no aliciamento de Espíritos que nessa região desencarnavam, além de estarem presentes em todas as articulações desenvolvidas nos limites desses países, transmitindo as informações colhidas ao posto-mãe.

Do lado espiritual, o posto Pátria e Força também estava atuante, mas discreto, pois acreditava não ter problemas à vista.

Nascia uma força mais preparada, no lado alemão: o Integridade Nacional estava fixando suas bases também na América, mais particularmente nos Estados Unidos (Re-vanche III). Enquanto isso, entidades ligadas ao Revanche II inauguravam outra base de atuação na Itália (Revanche IV). Já eram quatro os pontos de articulação germânicos. É preciso ressaltar que a Segunda Guerra, no aspecto espiritual, não se originou somente por conta da atuação desses núcleos de Espíritos ligados ao posto Integridade Nacional. Inúmeros outros postos e Espíritos influíram, igualmente, no conflito.

A cruel situação econômica italiana pós Primeira Guerra favoreceu a atuação do posto germânico nesse país. Autoridades eram influenciadas todos os dias por entidades ligadas ao Vvanche IV— nascia assim um sentimento nacionalista muito forte, semelhante àquele que os alemães começavam a criar em seu país; nas zonas umbralinas era fomentado por todos os postos ligados à Alemanha.

Quando o fascismo estendeu-se por toda a Itália, por volta de 1921, coincidiu com a época do estabelecimento do IVvanche IV e, portanto, o trabalho de influenciação foi facilitado.

Até 1924, com a convulsão social em andamento, o processo obsessivo instalava-se, de modo permanente, em solo italiano. Facções de Espíritos de todos os locais da Europa deliciavam-se em acompanhar o esfacelamento das estruturas cristãs na Itália, em nome do surgimento de um movimento que iria consolidar o sentimento de guerra e hostilidade entre os encarnados italianos.2222. Nota do autor espiritual: os países que passam por convulsões e movimentos radicais estão, de regra, sob processo coletivo de obsessão, significando várias entidades dominando dirigentes políticos e muitas outras associadas aos pensamentos dos encarnados invigilantes. Quando esse processo é coletivo, é mais difícil para os Mentores auxiliarem as mentes ainda lúcidas contra essa dominação. E preciso, então, que haja um percurso no tempo, arrastando várias catástrofes para que a obsessão seja dominada e restabelecido o predomínio da paz e da lucidez.

Nesse contexto, surgiu a figura de Giácomo Matteotti - político italiano nascido em Fratta Polesino, na província de Rovigo, no dia 22 de maio de 1885.

Formado em Direito e militante na juventude do Partido Socialista Italiano, o rapaz era idealista e possuía íntegro caráter. Assim, para as legislaturas de 1919, 1921 e 1924 foi eleito deputado e começou a ser um obstáculo aos interesses fascistas que estavam crescendo. Era uma oposição inflexível a esse movimento político, contra o qual vislumbrava flagrantes intentos autoritários.

Apesar de certos desvios de ordem pessoal, Giácomo passou a representar um instrumento de algumas colônias espirituais para deter o avanço de um regime que iria levar a Itália à guerra. A união das cidades espirituais era pela contenção da luta armada: muitos encarnados recebiam inspirações e intuições, diariamente, para servirem de força contra os que desejavam o conflito.

Quando as entidades inferiores perceberam a proteção que Matteotti vinha recebendo para continuar a sua jornada política, muitos foram os envolvimentos negativos que utilizaram para derrotá-lo. Como não conseguissem influenciá-lo, diretamente, atuavam, insistentemente, em outros encarnados mais acessíveis ao processo de obsessão.

Giácomo desapareceu de modo misterioso, nas cercanias de Roma, a 10 de junho de 1924, sendo seu corpo encontrado morto em 15 de agosto do mesmo ano.

Resgatado de pronto por Espírito elevados, ele foi conduzido a uma colônia espiritual para iniciar um estágio de recuperação e, após isso, um trabalho de apoio aos encarnados de seu país.

O crime chocou a opinião pública nacional e internacional. Naquela época, entretanto, o regime fascista estava forte e conseguiu permanecer no governo. O cenário para o próximo conflito mundial estava, lamentavelmente, obtendo mais um contorno.

Em janeiro de 1925, Mussolini consolidou-se no poder, transformando o regime numa autêntica ditadura. O posto Revanche IV fortificou sua posição em solo italiano. Seus integrantes incentivavam a classe política dirigente a efetuar várias prisões e, progressivamente, cercear as liberdades públicas.

Enquanto a situação na Itália demonstrava uma atuação eficaz por parte das diversas fortificações um-bralinas interessadas na eclosão do conflito armado, os outros postos ligados ao Integridade Nacional continuavam agindo.

Vários integrantes do posto-mãe Revanche I infiltraram-se no Vaticano e, por conhecerem muito bem essa estrutura eclesiástica, auxiliaram o acordo que foi elaborado entre o Papa Pio XI e Mussolini, em 1929. O Revanche IV estava concluindo sua missão na Itália, levando-a à mesma mentalidade que se instalava na Alemanha. Nesse país, no entanto, os postos Revanche tiveram pouca força na consolidação da mentalidade fascista que proporcionou a ascensão de Hider. Muitas outras entidades, ligadas às demais fortificações do Umbral, trabalharam para isso.

O regime instalado na Alemanha era útil aos propósitos dos postos Revanche, de modo que, formando uma linha fronteiriça desde a Holanda até a Itália, seus membros começaram a atuar junto ao povo alemão, em especial, fascistas e católicos.

As entidades umbralinas, de um modo geral, criam falsas expectativas para suas vidas errantes na espiritualidade. Estando em desatino e em desvio contínuo, acabam nutrindo, como objetivo, algum ideal menos nobre, tal como o de fomentar a guerra e a divisão entre povos encarnados. Dessa maneira agiram aqueles que eram ligados à Alsácia-Lorena, uma vez que não foi a perda dessa região para a França, como já disse, a verdadeira causa de tanta revolta e de tantos desatinos. Em verdade, a falta de um ideal cristão em seus corações impulsionava-os a uma guerra hipócrita e sem fundamento, que apenas lhes preenchia o vazio de amor de seus combalidos corações.

Preocupados com a reconstrução na nação francesa, os Espíritos atuantes no posto Pátria e Força enviavam contingentes para a Crosta, a fim de atuar nessa tarefa. Nenhum deles percebia o crescimento do posto Integridade Nacional e suas extensões.

Irritados com a participação americana na Primeira Guerra, que foi decisiva para a queda da Alemanha, o posto Pevanche III, sediado nos Estados Unidos, vinculou-se de todos os modos possíveis aos encarnados ligados à economia da nação. Durante vários anos, seus integrantes fizeram o possível para obsidiar influentes banqueiros e industriais americanos.

Verdadeiramente, não foi essa atuação a causa determinante que levou o país à grave crise de 1929, mas houve uma colaboração considerável nesse sentido. O espírito materialista contribuiu para que os próprios encarnados prejudicassem a sua economia.

Entretanto, quando houve a quebra da Bolsa, o posto Pevanche III, que muito tinha feito para conturbar o cenário econômico dos Estados Unidos, deu por finda a sua tarefa, retornando para a Europa e subestimando a capacidade de reerguimento da América.

Esse posto acabou fixando-se, em definitivo, em Paris, tendo por objetivo interferir, negativamente, nas decisões do governo francês.

Ignorando a reaglutinação de forças, nos planos material e espiritual, desencadeada pelo Integridade Nacional, o posto Tátria e Força preocupava-se, em meados da década de 20, com o Posto na 5 de Alvorada Nova. Enviou Espíritos para sondar as suas cercanias e montou uma equipe permanente para acompanhar a movimentação do lugar. O posto Tevanche I, que já espionava os atos do adversário francês, buscando não ficar para trás, fez o mesmo. Inúmeras entidades foram deslocadas para preencher esses pontos de observação e espionagem, criados pelas fortificações umbralinas.

Na década de 30, o Integridade Nacional, após vários anos em desenvolvimento, já tinha muitas ramificações. Dessa vez, ele estava descentralizando sua atuação, justamente para ficar mais forte.

Ao surgir o Terceiro Reich, o posto Tátria e Força iniciou uma rearticulação, pois começou a vislumbrar perigo para suas bases na Alsácia-Lorena. Novamente, entidades foram recolocadas, deslocando-se da Crosta para as zonas umbralinas, reforçando a segurança do posto francês. Os chacais e os vigilantes foram reaglutinados. Em 1938, um grupo de chacais foi enviado para acompanhar o crescimento da violência interna na Alemanha, especialmente contra os judeus. Eles, infelizmente, para lá não foram, a fim de defender qualquer grupo sionista, mas, sim, para buscar informações quanto ao militarismo alemão que os assustava.

Os vigilantes descobriram o posto Integridade Nacional recomposto e alertaram seus dirigentes. Em 1939, a situação estava tensa não só no plano material, mas, sobretudo, no espiritual.

As entidades ligadas ao Pátria e Força finalmente perceberam que os germânicos estavam revitalizados e que a paz de Versalhes malograra, em especial, porque subestimaram a capacidade de recomposição do adversário. Além disso, as equipes alemãs que influenciaram os Estados Unidos fizeram com que essa nação se retirasse do cenário europeu, preocupando-se com a crise interna, o que permitiu à Alemanha crescer, novamente, rearmando-se. A revitalização do posto Pátria e Força foi rápida, mas já era tarde para impedir a eclosão da guerra.

O receio dos franceses ligados a esse posto não era, propriamente, evitar uma guerra — que aliás lhes agradava muito — mas, sim, perder a região da Alsácia-Lorena, transformada em ponto de honra para seus integrantes.

O posto Revanche IV celebrou uma vitória inegável de sua atuação, junto ao governo italiano, quando Hitler visitou Roma, em 1938, fortalecendo os laços entre os dois países.

A guerra estava por um fio.

Nessa ocasião, a Tchecoslováquia era adversária do AnschlusP, pois sentia-se ameaçada. Por tal motivo, começou a intensificar a sua preparação militar.

Houve, então, uma declaração de Hitler ao PeichstaçA, no dia 20 de fevereiro de 1938, já que a Alemanha precisava proteger-se, pois suas fronteiras não estavam mais seguras. Adolf Hitler estava cobiçando a Tchecoslováquia, onde cerca de 3.000.000 de pessoas da região dos Sudetos eram de origem alemã. Em maio de 1938, descobriu-se que Hitler e seus generais estavam elaborando um plano para a ocupação desse país. Essa informação foi conseguida por espiões da materialidade, influenciados pela atuação eficaz dos chacais, grupo do Pátria e Força.

Em 21 de maio, temia-se um conflito iminente entre a Alemanha e a Tchecoslováquia, com repercussões no cenário europeu. Para facilitar as tratativas entre os dois países, foi enviado a Praga o inglês lorde Runciman, que deveria agir como mediador, com a função de aconselhar o governo tcheco. O diplomata estava sob proteção direta de Espíritos enviados pelas cidades espirituais. Não obstante ter feito o possível, a situação, em agosto, já não estava estável. Hitler continuava insistindo na autogestão por parte das zonas habitadas por tchecos de origem alemã. A imprensa italiana — com alguns repórteres subjugados pela força obsessora do posto Fevanche IV — sugeria, em manchetes, a realização de um plebiscito nessas regiões disputadas.

23. Nota do autor material: ato de força nacional-socialista de 11 de março de 1938 (dicionário Prático Ilustrado Lello, pág. 1423)

24. Nota do autor material: parlamento do Império Alemão, com sede em Berlim, composto de deputados eleitos por 4 anos (Ibidem, pág. 1843)

Vários contatos diplomáticos entre as nações européias foram intensificados.

Quando Hitier passou a exigir a anexação de parte do território tcheco à Alemanha, até o dia 1Q de outubro, Praga mobilizou-se e, igualmente, prepararam-se a França e a Inglaterra. A luta armada parecia inevitável.

Mas, na noite de 27 para 28 de setembro, o governo francês solicitou ajuda ao governo inglês para que houvesse um pedido de intervenção de Mussolini junto a Hitier, a fim de buscar uma derradeira tentativa de acordo.

No dia 28 de setembro, o chefe italiano enviou mensagem ao governo alemão, pedindo um adiamento de 24 horas, na mobilização germânica. Designou-se uma conferência, em Munique, para o dia seguinte.

No dia 29 de setembro, encontraram-se, em Munique, na Baviera, Mussolini, Hitier, Chamberlain e Da-ladier (dirigentes italiano, alemão, inglês e francês, respectivamente).

Os emissários das colônias vibraram intensas cargas positivas sobre a reunião de cúpula e, finalmente, um acordo foi celebrado.

Uma vez mais, o conflito armado foi adiado.

Em 30 de setembro, o governo de Praga decidiu aceitar, integralmente, as condições estabelecidas em Munique; no dia 1“ de outubro, as tropas alemãs iniciaram a ocupação do território dos Sudetas, prevista no acordo.

O povo inglês vibrou, ao saber que um pacto havia interrompido o perigo da guerra. Na França, houve um estado de espírito semelhante, embora as entidades inferiores tivessem agido para impregnar, em muitos franceses, o sentimento de que eles haviam sido humilhados pelos alemães.

Hitler, no entanto, sempre esteve envolvido por forte carga obsessiva e estava determinado a levar a Alemanha à guerra. Dessa forma, meses depois, anexou o restante da Tchecoslováquia e, também, a Polônia, propiciando, então, a eclosão da luta.

O poderio alemão assustava os franceses, no plano material. Nas zonas umbralinas, o posto Pátria e Força, vislumbrando perder outra vez a Alsácia-Lorena, passou a acreditar que aquele pequeno, mas atuante posto Revanche V, que fora montado nas proximidades do Posto n2 5, era, na realidade, uma extensão deste último. Assim, justificando sua própria fraca atuação, ao longo dos anos, passou a concentrar suas forças e seu ódio contra esse Posto de Alvorada Nova, convencendo-se de que ele seria aliado do Integridade PI acionai, seu inimigo declarado.

Os dirigentes do Pátria e Força, visando acalmar seus agregados, diziam que toda a sua atuação na Crosta, em benefício de seus interesses, era boicotada e impedida pela participação conjunta do Pevanche De do Posto na 5, ao qual eles davam o nome de “Luz Mortal”.

Articularam, então, um movimento de recomposição de seus exércitos em torno desse novo objetivo: destruir o mais “recente aliado” do posto Integridade PI acionai.

A guerra estava em andamento, na Crosta, e as fileiras do Pátria e Força deixavam de atuar na materialidade. Quando o Pevanche I percebeu a estranha articulação do inimigo, em zona umbralina, teve o mesmo pensamento: eles pretendiam atacá-los em composição com o Posto n2 5.

Em meados de 1940, quando a guerra já tinha produzido milhares de desencarnes, os postos Pátria e Força e Integridade Hacional conseguiam, cada vez mais, aumentar seus exércitos. Alheios ao conflito da Crosta, concentravam seu poderio contra o Posto n2 5, cada lado acreditando que se tratava de um aliado do adversário.

O Posto, nessa ocasião, juntamente com a Colônia, trabalhava, intensamente, no resgate de inúmeros desencarnados em campos de batalha. A dificuldade de reintegrá-los ao plano espiritual, após os violentos modos que causaram suas mortes, era real e preocupante. Muitos alemães, levados ao Posto n2 5, por exemplo, recusavam-se a receber atendimento ao lado de franceses e ingleses conduzidos ao mesmo local. A diversidade de culturas seria facilmente absorvida, não fosse a urgência do tratamento e a incessante chegada de mais e mais enfermos do espírito, que pereciam nos campos de batalha.

Alvorada Nova, juntamente com colônias na mesma posição, pleiteou junto ao Plano Superior a ajuda das cidades espirituais que possuíam Postos de Socorro nos moldes do seu atual n2 109.

Enquanto o excesso de trabalho preocupava o Posto n2 5, sua vigilância estava enfraquecida, pois todos os Espíritos-trabalhadores eram aproveitados em atividades internas.

Em 1941, quando os Estados Unidos entraram na Guerra, os postos Pátria e Força e Integridade Nacional acharam que o conflito na materialidade tinha chegado ao seu ápice e seria o momento ideal para a invasão ao Posto n2 5.”

Estava incrédulo com o relato de Chin. Percebia a importância das informações que me eram transmitidas e notei, ainda, como era e é fundamental a participação, na Crosta, dos grupos mediúnicos servindo de intermediários entre os dois planos da vida, proporcionando resgates a Espíritos inferiores revoltados e propensos ao mal, evitando, com isso, a continuidade dos processos obsessivos que causam tantos conflitos entre os próprios encarnados.

As guerras do plano material, de um modo geral, ainda que tenham participação fundamental dos encarnados nesse processo de deflagração, possuem intenso envolvimento do plano inferior que, através dos Espíritos que vagam pela Crosta ou pelo Umbral, atuam nas decisões tomadas nas esferas governamentais de todas as nações do mundo.

Mas eles também entram em luta. Nas zonas tre-vosas, além disso, quando adversários, guerreiam essas entidades entre si, em busca da hegemonia de alguma natureza. Por outro lado, os Postos de Socorro das colônias, que estão localizados em regiões umbralinas, possuem proteção porque também ficam sujeitos a ataques dessas criaturas. Foi nesse contexto de informes que Chin nos contou a agressão sofrida pelo Posto de Socorro na 5 de Alvorada Nova.

Comentou:

“No princípio de 1942, houve o ataque a tal Posto. Obviamente, não seria uma investida de hordas inferiores suficiente para destruir um Posto avançado de uma colônia espiritual. Mas as consequências de uma agressão como essa são muitas e desastrosas, de qualquer modo: os atendidos do Posto, de regra, não estão preparados o suficiente - em matéria evolutiva - para entender o que se passa na mente das entidades não-esclarecidas do Umbral; muitos cedem, portanto, aos instintos controlados que possuíam e passam a ter ódio do adversário, o que prejudica — e muito — o trabalho de readaptação dessas criaturas.

Por outro lado, ataques maciços como esse fazem com que forças do Posto sejam mobilizadas para rechaçá-los, retirando mão-de-obra das enfermarias e locais de recebimento dos pacientes que chegam para cuidados de emergência.

O Plano Superior, no entanto, permite a ocorrência de cada situação, nos planos material e espiritual, para que os Espíritos, de um modo geral, aprendam com os conflitos e possam impulsionar a sua reforma íntima de maneira voluntária e consciente.

No decorrer da guerra no plano físico e com o fortalecimento dos postos umbralinos, recrutando novas forças, em face dos inúmeros desencarnes que ocorriam, além da confusão geral instalada nas zonas trevosas, viram, pois, as entidades vinculadas ao Pátria e Força e ao Integridade Nacional surgir uma oportunidade para tentar cessar a influência benigna que tal Posto tinha — e tem —, a exemplo dos demais, no plano físico. Assim, atacaram o Posto de Socorro n2 5 de Alvorada Nova, durante vários meses, embora de forma desordenada, como é típica a ação dessas criaturas menos esclarecidas.

Realizados de modo não contínuo, os ataques eram acompanhados de aprisionamentos que equipes do Posto eram obrigadas a fazer. As entidades lançavam-se contra as baterias magnéticas de defesa do Posto, sofrendo seus efeitos e entrando em choque, bem como permanecendo em estado de profunda perturbação mental por muito tempo. Os que tinham condições mínimas para recuperação, eram recolhidos e encaminhados a câmaras de sono profundo. Outros permaneciam vagando alucinados pelo Umbral.

Os postos Pátria e Força e Integridade Nacional demoraram a perceber que seria impossível vencer as luminosas forças do bem. Quando desistiram, retornando às enegrecidas zonas umbralinas, deixaram um saldo preocupante: muitos Espíritos do Posto, que estavam em readaptação, passando a sentir, novamente, desejos de vingança e ódio, regrediram no processo de melhora que estavam vivenciando. Outros, sofrendo com o ataque que presenciaram, foram para câmaras de sono profundo para recuperação. O Posto atacado estava com excesso de enfermos, com muitos de seus próprios trabalhadores enfrentando problemas individuais e necessitou do auxílio imediato do Posto n2 6 da colônia, bem como de Alvorada Nova, diretamente.”

Chin cessou a narrativa por um momento. Olhou-nos, amigavelmente, e disse:

- Não estamos imunes a tais ataques, como alguns de vocês podem estar pensando, pois os Postos das cidades espirituais situam-se em zonas umbralinas e as criaturas que ali se encontram não os respeitam, assim como mal sabem encaminhar suas próprias existências no plano espiritual. Por isso, existem as proteções das baterias.

— Realmente é peculiar observar que guerras acontecem também no Umbral.

— Com frequência: contendas entre si, dos próprios desencarnados que nessas regiões escurecidas habitam, investidas deles contra os encarnados na Crosta e, por vezes, agressões a Postos de Socorro, situados nas partes umbralinas do plano imaterial.

— Guerra no Umbral?! — proferi, num misto de exclamação e indagação.

— Como em qualquer outro lugar, meu amigo. Mas o mal jamais triunfará. Se o Plano Superior permite tais situações é porque deseja que a evolução se dê, gradualmente, porém de modo irreversível. E preciso que os Espíritos progridam nos seus sentimentos, de modo natural. Suas passagens pelo Umbral, seus conflitos e sua confusão mental fazem parte desse processo evolutivo, longo, mas certo.

— Como terminou a Segunda Guerra?

Chin prosseguiu:

As fortificações umbralinas que atacaram o Posto n2 5, desarticuladas, recomeçaram suas atividades para voltar a influir no contexto da guerra na materialidade.

O posto Pátria e Força, cético quanto à atuação dos franceses na guerra do plano material, revoltado com a perda novamente da Alsácia-Lorena, em 1940, e inconformado com a resistência do Posto n2 5, precisava, urgentemente, de uma vitória contra os alemães para dar sobrevida ao seu agrupamento. Assim, associou-se, maciçamente, aos russos e participou, com todas as suas forças, da Batalha de Stalingrado. Eram soldados encarnados, envoltos por massas de obsessores espirituais, lutando entre si, num cenário cruel e macabro.

Stalingrado era uma cidade de porte médio, situada às margens do Rio Volga, ao sul da União Soviética.

A irresistível maré de conquista alemã voltou-se contra a Rússia, durante o verão de 1941, tal como acontecera com a Europa Ocidental, no ano anterior. O Exército Vermelho capitulava, em princípio, diante do poderio germânico.

Durante a ofensiva dos alemães, um grande número de militares soviéticos desertou, influenciados pelos agentes da fortificação Integridade Nacional, fornecendo ao inimigo informes preciosos. Cresceu o inconformismo das entidades que defendiam os interesses do Pátria e Força, verificando a inabilidade para lidar com a situação que estava sendo enfrentada pelos chacais e pelos vigilantes.

Assim, o comando espiritual do posto francês decidiu concentrar seus esforços na investida da Alemanha contra a Rússia. Percebendo a chegada do rigoroso inverno europeu, influenciou os comandantes alemães a prosseguir na jornada rumo a Moscou, enquanto criava conições para que a guerrilha soviética se armasse. Atuavam os Espíritos, dando contínuas sugestões aos dirigentes do exército russo e conseguiram sucesso.

Os alemães, ingressando no território inimigo, alongaram, excessivamente, suas linhas de abastecimento e, quando chegaram às portas de Moscou, foram colhidos pela resistência, além de encontrarem uma cidade deserta que não lhes podia dar qualquer reabastecimento.

Não havia alimentos, roupas e equipamentos adequados; o combustível congelava nos tanques, e o óleo se solidificava. A pólvora não detonava, e as armas tornaram-se quase inúteis.

Os soldados germânicos começaram a perecer. Assim que os primeiros grupos de combatentes desencarnaram, os membros do Integridade Nacional, preocupados, buscaram recolhê-los, levando-os a integrar as fileiras do seu exército, no Umbral. Entretanto, não tiveram sucesso absoluto, pois muitas cidades espirituais resgataram parte desses soldados, encaminhando-os a tratamento. Outros recusaram-se a seguir com as entidades inferiores e permaneceram vagando, incertos, pela Crosta. Um pequeno número integrou as fileiras do posto germânico da espiritualidade. Assim fazendo, deram informações importantes a respeito da batalha que os exércitos alemães estavam perdendo, no plano material, por causa do frio excessivo. Os dirigentes umbralinos sabiam que a Natureza não podiam controlar, motivo pelo qual tentaram influenciar os generais da Alemanha a promoverem um recuo estratégico.

Nessa ocasião, depararam-se com a antecipação dos chacais e dos vigilantes que, em conjunto, já haviam envolvido, em processo obsessivo, grande parte do comando germânico.

Outras fortificações umbralinas enviaram seus contingentes, interessadas em derrubar e desestruturar os dirigentes da Alemanha, nação líder da guerra, motivo pelo qual os integrantes do Integridade Nacional pouco puderam fazer.

Hider, um espírito forte e determinado, verdadeira inteligência voltada ao mal, não era aberto às influen-ciações recebidas das entidades que visavam resguardá-lo, tais como as da fortificação alemã da espiritualidade. Fechado em seu próprio objetivo, que erigiu à categoria de ideal, e cego aos conselhos externos, afundou-se em seu desatino, determinando que a luta armada na Rússia prosseguisse.

O Füher sempre relutou em aceitar qualquer argumento sobre as possibilidades de vitória do Exército Vermelho. Assim, o maior inimigo dos generais alemães que lideravam a batalha na Rússia passou a ser o próprio dirigente germânico, uma vez que estava, continuamente, interferindo na estratégia traçada pelo comando militar.

Enquanto os russos recuaram para promover a sua reorganização, Hitler outra vez subestimou-os e determinou novas ofensivas, especialmente contra Stalingrado.

Iniciada a investida contra essa cidade, massas de Espíritos voltearam os campos de batalha, pois todas as fortificações umbralinas sabiam da importância dessa aventura militar. Encarnados e desencarnados confundiam-se, nas trincheiras, como se a guerra estivesse envolvendo os dois planos da vida.

O general russo Timoshenko contava com apoio e assistência integral dos chacais, razão pela qual teve liderança arguta ao criar a Frente Stalingrado. Ainda assim, os soviéticos começaram perdendo, e cidades da região sucumbiam diante dos alemães.

Stalin nomeou o general Yeremenko para comandar outra frente de resistência e, com muita garra e enormes perdas humanas, conseguiram os russos deter o avanço germânico.

A partir daí, seria conveniente ao exército alemão um recuo, porém Hitler estava ensandecido e jamais admitiría a derrota. Nessa ocasião, agindo com extrema malícia, integrantes do Pátria e Força buscaram uma aproximação junto ao Fiihere., ao invés de tentar passar-lhe más sugestões ou planos de ação, elogiavam-no e sugeriam-lhe que era o maior líder que a Humanidade já tivera a oportunidade de conhecer. O orgulhoso chefe germânico, então, cedia às influenciações recebidas, porque estavam de acordo com o seu próprio pensamento e com a sua personalidade, de modo que o trabalho de penetração, traçado pelo posto francês do Umbral, foi, por isso mesmo, muito facilitado.

Ironicamente, o ditador refutava os conselhos das entidades que de fato o apoiavam — como os de recuo estratégico passados pelos integrantes do Integridade Nacional —, aceitando os outros que somente iriam prejudicá-lo.

A vaidade o cegou, e o preço pago foi alto para o seu aventureiro plano de conquista.

Com muito esforço, os russos começaram a reorganizar suas linhas de defesa e a reconstruir suas fábricas, atingidas, constantemente, pelos bombardeios germânicos.

O avanço dos alemães era lento. Cada metro do território era longamente disputado.

Stalingrado estava, a essa altura, em ruínas, o que atraía, continuamente, maior número de entidades do Umbral, pois o cenário aproximava-se muito daquele que essas criaturas cultivavam nas zonas escuras da espiritualidade. Por isso, em qualquer ambiente hostil, como o de uma guerra, torna-se muito difícil para os encarnados manter a sintonia com Espíritos elevados, exceto para aqueles que, envoltos na senda cristã, possuem maior equilíbrio e fé. Àquela época, no entanto, a maioria não tinha suporte interior para resistir a tantas pressões dos desencarnados inferiores, e a batalha tornou-se sangrenta e cruel.

Parecia não ter fim o conflito, quando o inverno, novamente, bateu às portas da Rússia, e os alemães sentiram-se acuados e sem força para resistir muito tempo à luta.

Ainda que para os russos a mudança do tempo fosse prejudicial, estavam mais acostumados ao frio intenso e encontravam-se em seus domínios, situação que lhes era favorável.

Hitler, novamente alertado, não só pelos seus generais encarnados, mas, também, pelo comando da fortificação integridade Nacional, desprezou, outra vez, todos os conselhos de recuo e determinou a permanência do exército alemão em território soviético. Cerca de 300.000 soldados estavam envolvidos na batalha. O desastre logo foi sentido.

Em algum tempo, o inimigo estava cercado pelos russos, e a batalha tornou-se ainda mais sangrenta.

Pelo menos um terço do contingente alemão pereceu, e a batalha de Stalingrado foi perdida.25. Nota do autor material: para maiores dados sobre a função das Coordenadorias, ver o capítulo “Coordenadorias Especializadas”, no livro “Alvorada Nova”.

Vencidos os alemães, o Pátria e Força conseguiu resistir à completa decadência. Desertores retornaram, e outros Espíritos foram ainda capturados para servir naquele posto.

Entretanto, enquanto ele buscava a rearticulação e o seu fortalecimento, Alvorada Nova, através de suas Coordenadorias, em especial, a de Proteção25, resolveu intervir e não permitiu que o posto Pátria e Força atingisse o seu objetivo, pois outro ataque poderia ser desencadeado contra o Posto na 5. Organizando uma missão de resgate, sem precedentes, enviou várias equipes que invadiram esse posto, no início de 1943, quebrando a hegemonia dessas entidades na região.

As equipes da cidade espiritual eram compostas tanto de habitantes da colônia como do Posto de Socorro na 5: quando elas cercaram o posto, houve uma mudança na atmosfera que o clareou. Havia quatro canhões de luz, a forma de um cilindro com extremidades pontiagudas, sendo rápidos nos deslocamentos e com grande capacidade de acomodação interna. Partiam para várias colônias, onde deixavam as entidades a elas mais ligadas; não só para Alvorada Nova foram, pois, os resgatados.

Os mencionados veículos — que têm receptores energéticos — deslocam-se pela energia enviada de Alvorada Nova, com avançada tecnologia. Um Espírito condutor dirige o veículo, que se chama VAPE (Veículo de Apoio Externo) e é usado somente para resgates e nunca para ataques.

Os VAPEs são utilizados para deslocamentos em grandes distâncias.

Ao final da missão, todos os Espíritos que trabalharam no resgate reuniram-se em outro local para, juntos, fazerem uma oração de agradecimento ao Plano Superior. Uma luz vinda do Alto emanou dessa cena e formou um feixe luminoso multicolorido que se projetou até a clareira formada no Umbral, após o fim do Pátria e Força.

O posto Integridade Nacional, vendo desaparecer, por completo, o seu adversário Pátria e Força, mudou-se, com pressa, e desfez sua fortificação. Seus integrantes fugiram, e a maioria dirigiu-se para os postos Pevanche II, III e ÍK, na Crosta. O posto Paevanche V fora desativado, por ocasião do ataque ao Posto de Alvorada Nova.

A guerra caminhava para o seu final, enquanto os membros dos postos Pevanche II, III e II z auxiliavam, de todos os modos, os alemães encarnados. Entretanto, quando do desembarque dos Aliados, na Normandia, em unho de 1944, o posto Revanche II foi descoberto por equipes de Alvorada Nova e inteiramente desativado. Logo após, caiu o posto III, sediado então em Paris. Somente em 1945, com a queda derradeira de Mussolini, terminou o último foco de resistência do Revanche Jfo.

Quando a Segunda Grande Guerra terminou, o saldo de mortos era imenso. As equipes de busca e resgate das cidades espirituais trabalhavam, incessantemente, e sem a menor pausa para descanso. A crueldade dos encarnados culminou com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, época em que desencarnaram mais de 300.000 pessoas direta ou indiretamente ligadas às explosões. Os leitos de Alvorada Nova e de seus Postos lotaram, e unidades móveis de emergência foram enviadas de colônias superiores. Não faltou tratamento a quem merecia, mas não foi uma fase fácil para os habitantes da cidade espiritual.

O ataque desencadeado pelas zonas umbralinas e as duas Grandes Guerras da Humanidade serviram de motivação para Alvorada Nova ampliar os seus trabalhos e, ainda, de exemplo a muitos Espíritos, por todo o Globo, ligados à Colônia.”

— E a partir daí surgiu este Posto?

- Outras colônias já tinham Postos semelhantes; Alvorada Nova, como disse, já trabalhava, havia algum tempo, com o 109, construído após a Segunda Grande Guerra, que assolou a Humanidade; todavia, sua vinculação específica com nossa cidade aconteceu em 1992. Isso porque ele era de uso de várias colônias, ao mesmo tempo, mas tornou-se, depois, privativo de Alvorada Nova.

— Há perigo para novas guerras desse porte?

- É possível, pois o planeta ainda é um mundo de expiação e provas. Estamos todos trabalhando para que isso não ocorra novamente. Entretanto, há muitos conflitos no Oriente Médio, e temos investido grande parte de nosso trabalho — e digo isso no tocante a todas as colônias espirituais que volteiam a crosta terrestre - na pacificação dessa região.

— Não vi nenhum setor desse Posto destinado a recepcionar Espíritos que desencarnam nessa parte do Globo.

— Mas verá. Venham comigo.

Chin levou-nos ao Palácio das Águas. Esse nome simbolizava a união dos rios da região terrestre do Oriente Médio, por ser a água, como sempre foi, de fundamental importância aos habitantes desse local na Crosta.

Seu prédio principal possuía a forma de um templo, cujas paredes externas eram revestidas por pequenas pastilhas coloridas e brilhantes, envoltas em filetes amarelo-ouro, constituindo uma espécie de mosaico que continha símbolos históricos do judaísmo e do maometismo. Pareciam fazer um registro da História, mas, ao invés de expressar ódio e guerra, exibiam união e integração. Eles refaziam as bases das religiões desses povos, usando seus símbolos sagrados entrelaçados.28

O tom predominante dessa construção era o dourado; ela tinha uma especial carga vibratória que a envolvia, visando proporcionar ambiente ideal à aproximação dos árabes e judeus que, desencarnando, eram levados a essa mesma Unidade do Posto de Socorro.

Nesse local, havia um grande auditório em formato cúbico. Ali se reuniam os habitantes desses dois povos para ouvirem palestras que uniam as principais religiões dessa região do Globo, agora compreendidas à luz do Evangelho de Jesus.

No interior da edificação, havia uma grande arena, com várias cadeiras em volta, onde frequentadores iam ao púlpito, ali existente, para discursar. Essa área central era formada por um círculo em cujo interior havia uma estrela de Davi — símbolo dos judeus — envolta por uma lua crescente, que era o dos árabes.

No centro da unidade estavam — localizados frente a frente - o Palácio Judaico e o Palácio Árabe, cada um preservando sua arquitetura original — antiga e tradicional. Entre eles, passava uma larga avenida, ladeada por palmeiras. Atrás do primeiro, havia várias construções modernas, no molde judaico, e, atrás do segundo, edificações no estilo árabe.

Imensa cúpula envolvia todos os prédios ali existentes, dando uma noção de infinito para quem estava no seu interior. A paisagem que refletia era constituída de desertos, oásis e pirâmides, nos moldes egípcios, além de pastores, com seus cajados e ovelhas.

Ficamos extasiados. Ao sairmos, Chin nos convidou a conhecer as unidades científicas do Posto de Socorro.

Iniciamos pela Unidade Geográfica Integrada, que se ligava, diretamente, a Alvorada Nova e cuidava da construção dos prédios que compunham as diversas partes do Posto, sendo o seu centro principal. Preocupava-se também, com o estudo geográfico secular do Globo. Vinculava-se aos Núcleos de Desenvolvimento da Cidade Espiritual30.30. Nota do autor material: maiores detalhes podem ser conhecidos no livro “Alvorada Nova” (“A descrição de nossa árvore”, III), que trata dos “Núcleos de Desenvolvimento”.

Tinha, ainda, por função administrar o Posto de Socorro, controlando as entradas e saídas, suas diversas unidades, a energia e a permanência dos Espíritos, nos vários setores, atuando como faz a Coordenadoria Geral em Alvorada Nova31.

A Unidade Geográfica Integrada compunha-se de três construções interligadas que se situavam, lado a lado, e era a menor unidade do Posto. Ali se encontrava, também, a Sala das Civilizações, onde existiam maquetes de todas as culturas que habitaram o mundo físico. Entre elas as da Atlântida, do Império Romano, do Egito Antigo, enfim, do progresso terrestre, antes e depois da chegada dos capelinos32.

A frente das maquetes, existiam painéis com controles que permitiam aos visitantes fazer consultas.

Conforme as informações eram transmitidas, as maquetes alteravam a sua forma e exibiam uma formação tridimensional, do futuro ou do passado, proporcionando àquele que consultava uma visão global da civilização objeto da pesquisa.

Elas mantinham, quando em repouso, a imagem da última consulta feita, em forma de holograma.

Além das maquetes, existiam livros, arquivos e documentos, no local.
31. Nota do autor material: ver no livro “Alvorada Nova” o capítulo “O Prédio Central”.

32. Nota do autor material: alusão aos habitantes de um planeta pertencente ao sistema da estrela Capela, da constelação do Cocheiro, que foram degredados para o nosso mundo quando aquele orbe passou do estágio de expiação e provas para o de regeneração.

As informações que estavam nessa unidade também eram mantidas no Arquivo Geral de Alvorada Nova.

Os Postos de Socorro tinham laboratórios próprios, e esse terceiro de Alvorada Nova possuía uma unidade avançada de pesquisas, na sua administração, autônoma em relação à cidade espiritual, porém a ela ligada no que tange às descobertas que fazia.

Quando um trabalho de pesquisa concluía-se com sucesso, era imediatamente encaminhado à Coordena-doria Geral da colônia.

Todos os laboratórios do Posto vinculavam-se à sua Unidade de Pesquisa, mas aquele que cuidava da evolução dos remédios ligava-se ao Núcleo de Desenvolvimento da Medicina Espiritual da Colônia.

Outra unidade destacava-se no aspecto científico. Tratava-se da Unidade Oceânica33, que visava estudar os oceanos e os mares de todos os pontos do Globo terrestre, inclusive servindo de apoio aos Postos de Trabalho que existiam sob suas águas. Tinha, por fim, também, cuidar da evolução que ocorria na sua flora e fauna. Ela foi instalada, no Posto de Socorro n2 109, para servir de interligação entre esses Postos subaquáticos e a colônia Alvorada Nova.

O solo do seu interior era formado por pequenas pedras, como se fosse a areia de uma praia. Uma emanação magnética delas emanava, dando a impressão de que estavam envoltas em água. Em verdade, tratava-se de um sistema vibratório interno da unidade que servia para dar a impressão de se estar, ao ingressar no local, mergulhado em um oceano. Era um mecanismo de manutenção do ambiente fluídico local.

Externamente, o prédio tinha o formato de uma âncora invertida, no tom azul-claro brilhante.

Internamente, possuía um imenso hall de entrada, donde se podia ver todos os andares, que eram abertos. Assim, desse centro do prédio, via-se até o último lance, já que os corredores dos andares voltavam-se para dentro do hall.

Tais corredores representavam ligações entre os setores da Unidade, não havendo, ali, quartos. Existiam aposentos, nas partes da frente e do fundo, mas não nas laterais.

Do alto da Unidade, internamente, um cone de luz azul-clara, que provinha de sua cúpula, envolvia todo o ambiente.

Grandes telas, em volta do térreo do hall central, apresentavam imagens dos oceanos do plano material, inclusive projeções dos núcleos espirituais que ali existiam.

Uma de suas finalidades era controlar a qualidade das águas na Crosta, verificando os índices de poluição dos oceanos, mares, rios e lagos. Quando se tornavam alarmantes os referidos índices, encarnados dos órgãos especializados na materialidade eram informados, por intuição ou inspiração, a fim de tomarem providências cabíveis.

A Unidade tinha, por fim, ainda, estudar a energia que os mares poderíam transmitir aos encarnados, não só em alimentação, mas também em termos vibratórios.

Chegávamos ao final de nossa longa visita pelo Posto de Socorro n2 109, que durou alguns dias, mas cujo relato foi concentrado nessas poucas linhas. Chin acompanhou-nos ao trem que nos levaria de volta à colônia. Despe-dimo-nos emocionados. Eram muitas e importantes as informações que havíamos recebido. Iríamos utilizar tais dados, em nossos estudos, em Alvorada Nova.

Meu grupo e eu desejamos permanecer anônimos, pois éramos apenas mais um dos tantos que visitaram as unidades externas, ligadas à cidade espiritual que habitamos e extraíram valiosos subsídios para o conhecimento e o aprimoramento espiritual.

Quando nos afastávamos do Posto, víamos, pela tela do interior do vagão, que os canhões bombardeavam o céu negro com suas rajadas de pérolas brilhantes, formando imensos arcos argênteos a destoar nas trevas. Lembrando de tudo o que vimos e ouvimos, fixamos uma visão e uma mensagem em nossos espíritos: a forte esperança no futuro promissor da Humanidade.

F I M