1 - A QUEDA DOS ANJOS

Prólogo

Capela - 3.700 a.C

A estrela de Capela fica distante 42 anos-luz da Terra, na constelação do Cocheiro, também chamada de Cabra. Esta bela e gigantesca estrela faz parte da Via Láctea, galáxia que nos abriga, e a distância colossal entre Capela e o nosso Sol é apenas um pequeno salto nas dimensões grandiosas do universo. Nossa galáxia faz parte de um grupo local de vinte e poucos aglomerados fantásticos de cem a duzentos bilhões de estrelas, entre as quais o Sol é apenas um pequeno ponto a iluminar o céu. Capela é uma bela estrela, cerca de quatorze vezes maior do que o Sol, com uma emanação de calor levemente abaixo de nosso astro-rei. É uma estrela dupla, ou seja, são dois sóis, de tamanhos diversos gravitam um em torno do outro, formando uma unidade, e, em volta deles, num verdadeiro balé estelar, um cortejo constituído de inúmeros planetas, luas, cometas e asteróides.

Há cerca de 3.700 a.C., num dos planetas que gravitam em torno da estrela dupla Capela, existia uma humanidade muito parecida com a terrestre, à qual pertencemos atualmente, apresentando notável padrão de evolução tecnológica. Naquela época, Ahtilantê, nome desse planeta, o quinto a partir de Capela, estava numa posição social e econômica global muito parecida com a da Terra do século XX d.C.. A humanidade que lá existia apresentava graus de evolução espiritual extremamente heterogêneos, similares aos terrestres do final do século XX, com pessoas desejando o aperfeiçoamento do orbe enquanto outras apenas anelavam seu próprio bem-estar.

Os governadores espirituais do planeta, espíritos que tinham alcançado um grau extraordinário de evolução, constataram que Ahtilantê teria que passar por um extenso expurgo espiritual. Deveríam ser retiradas do planeta, espiritualmente, as almas que não tivessem alcançado um determinado grau de evolução. Elas seriam levadas para outro orbe, deslocando-se através do mundo astral, onde continuariam sua evolução espiritual, através do processo natural dos renascimentos. No decorrer desse longo processo, que iria durar cerca de oitenta e quatro anos, seriam dadas oportunidades de evolução aos espíritos, tanto aos que já estavam jungidos à carne, como aos que estavam no astral - dimensão espiritual mais próxima da material - através das magníficas ocasiões do renascimento. Aqueles que demonstrassem endurecimento em suas atitudes negativas perante a humanidade ahtilantê seriam retirados, gradativamente, à medida que fossem falecendo fisicamente, para um outro planeta que lhes seria mais propício, possibilitando que continuassem sua evolução num plano mais adequado aos seus pendores ainda primitivos e egoísticos.

A última existência em Ahtilantê era, portanto, vital, pois ela demonstraria, através das atitudes e dos atos, se o espírito estava pronto para novos voos, ou se teria que passar pela dura provação do recomeço em planeta ainda atrasado. A última existência, sendo a resultante de todas as anteriores, demonstraria se a alma havia alcançado um padrão vibratório suficiente para permanecer num mundo mais evoluído, ou se teria que ser expurgada.

Os governadores espirituais do planeta escolheram para coordenar esse vasto processo, um espírito do astral superior chamado Varuna Mandrekhan, que formou uma equipe atuante em muitos setores para apoiá-lo em suas atividades. Um planejamento detalhado foi encetado de tal forma que pudesse abranger de maneira correta todos os aspectos envolvidos nessa grave questão. Diversas visitas ao planeta que abrigaria parte da humanidade de Ahtilantê foram feitas, e, em conjunto com os administradores espirituais desse mundo, o expurgo foi adequadamente preparado.

Ahtilantê era um planeta com mais de seis bilhões de habitantes e, além dos que estavam renascidos, ainda existiam mais alguns bilhões de almas em estado de erraticidade. O grande expurgo abrangería a todos, tanto os renascidos como os que estavam no astral inferior, e, especialmente, aqueles mergulhados nas mais densas trevas. Faziam também parte dos candidatos ao degredo os espíritos profundamente desajustados, além dos assassinos enlouquecidos, os suicidas, os corruptos, os depravados e uma corja imensa de elementos perniciosos.

Varuna, espírito nobilíssimo, que fora político e banqueiro em sua última existência carnal, destacara-se por méritos próprios em todas as suas atividades profissionais e pessoais, sendo correto, justo e íntegro. Adquirira tamanho peso moral na vida política do planeta que era respeitado por todos, inclusive por seus inimigos políticos e adversários em geral. Esse belo ser, forjado no cadinho das experiências, fora brutalmente assassinado por ordem de um déspota que se apossara do Império Hurukyan, um dos maiores daquele mundo.

Ahtilantê era um planeta muito maior do que a Terra, e apresentava algumas características bem diferentes do nosso atual lar. Sua gravidade era bem menor, assim como a sua humanidade não era mamífera e, sim, oriunda dos grandes répteis que predominaram na pré-história ahtilantê. A atmosfera de Ahtilantê era bem mais dulcificante do que a agreste e cambiante atmosfera terrestre. Tratava-se de um verdadeiro paraíso, um jardim planetário, complementado por uma elevada tecnologia.

As grandes distâncias eram percorridas por vimanas, aparelhos similares aos nossos aviões, assim como a telecomunicação avançadíssima permitia contatos tridimensionais em videofo-nes com quase todos os quadrantes do planeta, além de outras invenções fantásticas, especialmente na área da medicina. Os ahtilantes estavam bastante adiantados em termos de viagens espaciais, já tendo colonizado as suas duas luas. Porém essas viagens ainda estavam na alvorada dos grandes deslocamentos que outras civilizações mais adiantadas, como as de Karion, já eram capazes de realizar.

Karion era um planeta do outro lado da Via Láctea, de onde viria, espiritualmente, uma leva de grandes obreiros que em muito ajudariam Varuna em sua árdua missão. Todavia, espiritualmente, os ahtilantes ficavam muito a desejar. Apresentavam as deficiências comuns à humanidade da categoria média em que se encaixam os seres humanos que superaram as fases preliminares, sem ainda alcançarem as luzes da fraternidade plena.

Havia basicamente quatro raças em Ahtilantê, os azuis, os verdes, os púrpuras e os cinzas. Os azuis e verdes eram profundamente racistas, não tolerando miscigenação entre eles, acreditando que os cinzas eram de origem inferior, podendo ser utilizados da forma como desejassem. Naquela época, a escravidão já não existia, mas uma forma hedionda de servilismo econômico persistia entre as nações. Por mais que os profetas ahtilantes tivessem enaltecido a origem única de todos os espíritos no seio do Senhor, nosso Pai Amantíssimo, os ahtilantes ainda continuavam a acreditar que a cor da pele, a posição social e o nome ilustre de uma família eram corolários inseparáveis para a superioridade de alguém.

Varuna fora o responsável direto pela criação da Confederação Norte-Ocidental, que veio a gerar novas formas de relacioamento entre os países membros e as demais nações do globo. A cultura longamente enraizada, originária dos condalinos, raça espiritual que serviu de base para o progresso de Ahtilantê, tinha uma influência decisiva sobre todos. Os governadores espirituais aproveitaram todas as ondas de choque - físicas, como guerras, revoluções e massacres; culturais, como peças teatrais, cinema e livros; e, finalmente, telúricas, como catástrofes - para levar as pessoas a modificarem sua forma de agir, de pensar e de ser. Aqueles, cujo sofrimento dos outros e os seus próprios não os levaram a mudanças interiores sérias foram deportados, sob a coordenação de Varuna Mandrekan, para um distante planeta Azul que os espíritos administradores daquele jardim ainda selvático chamavam de Terra.

CapItulo 1

O Primeiro Poderoso

Suméria - 3.600 A.C.

Os sumérios eram uma raça proto-indo-europeia que se tinha implantado no vale mesopotâmico por volta do ano 8.500 a.C., tendo vindo das margens do mar Cáspio, atravessado o planalto do Irã e alcançado o vale que os dois rios irmãos, Tigre e Eufrates, ladeavam. Eram vários clãs da mesma raça, que se tornaram sedentários durante o período neolítico e se dedicaram à agricultura. Não tinham, em 3.600 a.C., nenhuma unidade política. A Suméria era constituída de dezenas de pequenos vilarejos e algumas poucas aldeias predominantes. Os vilarejos tinham de cem a trezentas pessoas e as aldeias maiores atingiam os três mil habitantes. Essas localidades espalhavam-se às margens dos rios Eufrates e Tigre, cujas cheias eram muito irregulares. Ambos nasciam nas distantes montanhas Taurus na Ásia Menor e o nível de suas águas dependia do degelo das neves acumuladas no alto dos montes.

Os antigos sumérios usavam uma irrigação tosca, abrindo valas e pequenos canais para levar a água dos rios até os locais mais ermos. Formavam pequenos açudes, onde a água ficava represada para depois ser levada em jarras para irrigar os campos.

Eventualmente, as autoridades de um vilarejo, constituídas de anciãos - homens com mais de quarenta anos -, convocavam a população para abrir um novo canal ou construir uma obra de importância para a comunidade, o que era feito em regime de mutirão. Não havia, naquela época, um exército regular, assim como a religião também não era constituída e formalizada. Algumas vezes, as disputas por terras, canais e água levavam as aldeias a terem confrontos, que não passavam de escaramuças, onde se gritava muito, gesticulava-se e, eventualmente, alguém saía levemente ferido devido a algum entrevero ou a uma pedra arremessada por um homem mais esquentado. Mas não havia batalhas cruentas nem ataques traiçoeiros para destruir, conquistar e escravizar.

Certa feita, uma cheia terrível destruiu o pequeno vilarejo de Shurupak e a nova aldeia foi reconstruída a certa distância do Eu-frates. Com o aumento gradual e lento da população, houve necessidade de se aumentar a área de plantio. Havia terras disponíveis no lado oriental do vilarejo, excessivamente secas, exigindo que a água fosse levada para lá através de um canal.

O Conselho dos Anciãos reuniu-se e determinou que fosse construído um canal que levasse água do Eufrates à localidade escolhida. A construção do canal que teria de passar pelas terras da aldeia de Kulbab, um minúsculo vilarejo vizinho, foi iniciada com uma turma de voluntários sob o comando de um coordenador. Os aldeões de Kulbab sentiram-se prejudicados e expulsaram os trabalhadores de Shurupak aos gritos, ameaças, jogando-lhes pedras. Os infelizes saíram em desabalada carreira, largando as ferramentas no campo, retornando a Shurupak, contando o que lhes sucedera.

O Conselho de Anciãos deliberou que pelo menos as ferramentas deveriam ser devolvidas. Mandaram dois representantes para negociar com os aldeões de Kulbab. Eles voltaram de mãos vazias e contaram que foram injuriados e, até mesmo, ameaçados de morte caso voltassem novamente, e que as ferramentas haviam sido confiscadas para cobrir os prejuízos causados pela abertura dos vinte primeiros metros do canal.

O Conselho, então, determinou que seria formado um grupo de homens que iria retomar as ferramentas; estas eram caras e difíceis de encontrar. A Suméria era pobre em metais e as ferramentas vinham de outros lugares, por meio de escambo por cereais. Deste modo, o Conselho convocou os homens que tinham mais de quatorze anos e cada um se armou de paus, machados, picaretas, facões, facas e enxadas, dirigindo-se juntos para a aldeia inimiga, que distava uns cinco quilômetros. Colocaram como chefe do grupo e principal negociador um dos homens mais destacados da aldeia.

Cus era um homem de cinquenta anos, filho mais velho de Ziu-sudra. Era casado com Kigal e tinham uma filha chamada Geshti-nanna, que já era casada, e um filho de vinte anos chamado Nimrud. O antigo chefe do Conselho dos Anciãos de Shurupak, Ziusudra, principal lugal ( homem importante ) após o terrível dilúvio que destruira a aldeia, divulgara a notícia de que em sua localidade houvera menos mortes devido a sua previdência. Ele propagara que fora avisado do dilúvio pelos deuses num sonho e, assim, levara o seu povo e os animais para lugar seguro. Pura balela, mas que o povo simples acreditara, tornando-o um eleito dos’ deuses. Na Babilônia, Ziusudra seria chamado de Utnapishtin, mais tarde, em grego tornar-se-ia Xisuthros e, finalmente, na Bíblia, Noé. Devido a isso, Cus, seu primogênito, tornara-se o lugal de Shurupak.

Quando chegaram perto da aldeia adversária, muitos camponeses de Kulbab saíram de suas casas, gritando e vociferando, proferindo pragas e maldições terríveis. Vários dos aldeões de Shurupak estacaram fixos no lugar, e outros deram as costas para fugir. Cus começou a gritar de volta. Os dois grupos pararam frente a frente a uns dois metros de distância, começando agora a segunda fase do confronto. Ficariam gritando durante alguns minutos até que um dos grupos cedesse. Não eram comuns os combates e todos esperavam que houvesse negociações civilizadas. Shurupak queria as ferramentas de volta e Kulbab, uma certa compensação. Quem sabe, uma dúzia de sacas de grãos de cevada?!

Assim que os dois grupos se confrontaram, Nimrud, filho de Cus, tomado de súbita e estranha fúria, lançou-se à frente com um facão e, num movimento rápido, golpeou sua arma no pescoço do homem que estava diante dele. A vítima o olhou com a mais viva surpresa por um décimo de segundo, enquanto o sangue jorrava abundante, em guincho, de sua jugular cortada, e, logo depois, caiu, estrebuchando horrorosamente.

Nimrud era fisicamente igual aos demais, tendo cerca de um metro e setenta e cinco centímetros, pele branca queimada pelo sol inclemente da Suméria, cabelos pretos anelados e uma barba ainda rala, mal cuidada. Seu nariz reto, levemente pronunciado, era típico daquela raça. Era magro, mas seus ombros largos lhe davam uma aparência mais forte. Seus olhos negros, muito juntos e grandes, lembravam uma coruja. Ele definitivamente não era um modelo de beleza masculino.

Ele vivia cercado de uma pequena entourage de dezessete amigos, dos quais dois se destacavam sobre os demais. Efigar era um homem de incomum força, enquanto que Antasurra era dado a visões, alucinações, ataques epilépticos e terrores noturnos. Os demais, da mesma idade de Nimrud, também o consideravam o seu líder.

Os amigos de Nimrud tiveram uma resposta quase que imediata, como se fossem movidos por invisíveis laços. Quando o facão de Nimrud cortou a jugular do infeliz, os demais atacaram os aldeões de Kulbab, com rara velocidade. Urgar foi o segundo a atacar. Ele estava com uma faca curta de cortar cevada, levemente curva, e lançou-se no pescoço do oponente. O coitado assustou-se com a velocidade do ataque de Urgar que o alcançou em menos de um segundo; largou sua enxada e tentou se virar para correr. Urgar pegou-o na hora em que se volvia para fugir, segurou-o com força com o braço esquerdo e, com a mão direita empunhando sua faca, cortou a sua garganta num único talho de orelha a orelha. O homem caiu estrebuchando, e Urgar sentiu o mais vivo prazer de sua vida. Um sorriso de imensa satisfação surgiu no seu semblante e seus dentes crisparam-se de um gozo súbito.

Antasurra, que segurava uma pequena lança, enfiou-a com prazer no estômago do seu rival e, à medida que ela entrava, ele a rodava na mão dilacerando as tripas do infeliz, que urrava de dor. Os outros, todos armados com punhais, facões e lanças, arrojaram-se num ataque frenético, atingindo os seus inimigos em frações de segundo. Os aldeões, tanto de Shurupak, como de Kulbab, estavam atônitos. Os primeiros a se recuperarem do susto do ataque fulminante foram os habitantes de Kulbab que logo voltaram correndo, aos gritos de terror, para sua aldeota.

Os homens de Kulbab não passavam de setenta presentes na aldeia na hora do confronto. O ataque inicial durou menos de um minuto e a aldeia de Kulbab já tinha mais de trinta baixas entre feridos e mortos. O líder Nimrud matara dois homens, Urgar matara três, enquanto os demais feriram ou mataram cerca de dois cada um. Os aldeões de Kulbab não opuseram resistência. Foram tomados de surpresa; aquilo jamais havia acontecido. Todos esperavam um verdadeiro balé de insultos e gritos, com algumas ameaças e depois, quando as partes estivessem mais cansadas, poderiam conversar e discutir o assunto. Não esperavam que alguém os atacasse e, muito menos, que fossem ser mortos ou feridos.

Quando alguns tentaram reagir, levantando suas armas, os amigos de Nimrud, demonstrando um preparo militar incomum, aniquilaram-nos num instante. Os que fugiram para a aldeia foram perseguidos pelos dezoito enfurecidos que entravam de casa em casa, esfaqueando, furando, cortando, decepando tudo o que encontravam. Os homens que se abrigaram no interior das casas foram perseguidos e mortos sem dó, mesmo aqueles que gritavam por piedade. Suas mulheres foram esfaqueadas, assim como as crianças. A sanha assassina tinha sido liberada e, durante meia hora, os que lhes caíram às mãos foram mortos ou feridos. Os demais largaram tudo e saíram correndo campo afora.

Do momento em que Nimrud se precipitou no pescoço do primeiro infeliz ao final daquele massacre brutal, os demais habitantes de Shurupak ficaram, na sua maioria, estarrecidos e parados onde estavam. Nunca tinham visto nada parecido e suas mentes ficaram subitamente embotadas. Calaram-se e baixaram suas mãos, alguns atônitos e outros trêmulos de medo. Houve um ou dois que gritaram para que não fizessem aquilo, mas ninguém efetivamente fez algo para impedir.

A aldeia foi inicialmente saqueada e, depois, incendiada. Nimrud era o herói do dia, o grande vencedor. A batalha de Kulbab fora vencida com audácia e coragem, e agora, com o butim da conquista, havia dezenas de quilos de cevada, milho, aves, ferramentas e uma dúzia de mulheres jovens e bonitas para serem usadas pelos vencedores como bem o quisessem.

A aldeia de Shurupak estava dividida. Uns poucos aprovaram a atitude de Nimrud e sua tropa. A maioria, por sua vez, estava horrorizada com a atitude dos jovens. Os comentários eram que esses jovens sempre foram diferentes, eram estranhos, viviam caçoando de tudo e de todos, não seguiam os costumes da aldeia, trabalhavam pouco e estavam sempre juntos. Algumas verdades foram ditas e muitas mentiras foram inventadas. Diziam que foram vistos falando com demônios, pois isso era um assunto que fascinava os sumérios, que acreditavam em espíritos de mortos e diabos. Os mais velhos diziam que sempre houvera espíritos dos mortos que viviam rondando as casas onde viveram, muitos tentando falar com parentes e amigos. Mas, desde o nascimento de Nimrud e de seus amigos, os espíritos dos mortos fugiram do lugar, sendo substituídos por uma horda jamais vista de horríveis diabos.

Naquele tempo, 3.600 anos antes do nascimento de Yeshua Ben Yozheph, em Beit Lechem, na Judeia, a aldeia de Shurupak registrava em torno de vinte e cinco nascimentos por ano e uma mortalidade geral quase igual. Dos recém-nascidos, um terço morria antes de completar um ano. Desse modo, quando Nimrud nasceu, cerca de vinte outras crianças também nasceram na mesma época, mas por sorte, ou por outro fator alheio à vontade humana, somente dois morreram, fato extraordinário devido à alta mortalidade infantil da região.

Antasurra, Urgar e alguns outros eram parecidos entre si. As demais crianças eram comuns, especialmente as mais velhas, enquanto esses três e mais os seus amigos da mesma idade eram, intelectualmente, brilhantes. No início, quando eram crianças pequenas, esse fato não era visível, a não ser por uma profunda melancolia que parecia ser marca registrada do grupo. Enquanto as outras crianças corriam e faziam a algazarra natural da idade, Nimrud e seus amigos eram quietos e tristes. Mas, a partir da puberdade, a diferença entre eles tornou-se mais notável.

Cus lembrava-se bem do primeiro filho que morrera no dilúvio. Era buliçoso como os outros meninos e trabalhava com grande afinco. Levara o tempo normal para aprender todas as técnicas agrícolas e, com doze anos, quando os deuses o levaram embora, já sabia quase tudo. Já Nimrud aprendera todas as técnicas em muito menos tempo. O que o primeiro filho levara quase cinco anos para aprender ele aprendera em um ano e, mesmo sendo pequeno, com apenas oito anos, fazia os trabalhos de forma mais correta do que seu primogênito com doze. Não há dúvida de que era mais inteligente, mas era preguiçoso. Abominava o trabalho braçal, procurando fugir de todos os modos de sua responsabilidade no campo.

Além desse defeito, o pai descobriu entristecido que seu filho era um ótimo mentiroso. Era capaz de mentir com tamanha desfaçatez que, mesmo apanhado em flagrante, tecia histórias que deixavam todos em dúvida. Ademais, era capaz de falar as coisas mais desconcertantes, sempre argumentando que se podia fazer tudo de outro modo. O moço era dado a pesadelos e acordava gritando, urinando-se e, muitas vezes, tornando-se violento. A mãe escondia tais fatos dos vizinhos, assim como o pai não os comentava com seus amigos.

O pai de Antasurra, igualmente, tinha problemas com seu filho. Além de ser muito mais inteligente do que os outros, também era acometido de terrores noturnos. Falava coisas desconexas e ficava em êxtase, totalmente parado. Esses transes duravam alguns segundos, não mais do que uma dúzia, mas o suficiente para deixar a mãe e o pai preocupados. Quando voltava a si, continuava sua tarefa como se nada tivesse acontecido. Essas crises começaram a acontecer aos doze e treze anos, e sumiram aos dezoito. Antasurra era mais baixo e franzino do que Nimrud. Quanto ao resto, era muito parecido, com os mesmos olhos juntos e o mesmo olhar inteligente, vivo, que não perdia nenhum detalhe.

Urgar era diferente dos demais. Forte como um touro, com vinte anos, era capaz de levantar sozinho o tronco que servia como arado, mas por inteligência ou sagacidade não demonstrava sua força colossal a ninguém. Seu corpo não era diferente dos outros meninos, apenas seus músculos podiam fazer façanhas que os outros não eram sequer capazes de imaginar. Era levemente mais alto do que os demais, mas era sóbrio, lúgubre mesmo, calado e sisudo, impenetrável.

Todas as crianças do bando de Nimrud tinham o olhar inteligente, mas profundamente angustiado. A marca do grupo era uma angústia indefinida, algo que não poderia ser expresso em palavras. Eles se atraíam pela angústia que sentiam e suas brincadeiras eram o reflexo disso. Suas conversas eram a exteriorização de suas aflições existenciais. O que eram, de onde vinham, por que estavam ah eram apenas algumas das perguntas que viviam formulando uns aos outros. Por um desses sentimentos irracionais, eles se achavam diferentes, notando que os demais eram mais limitados, nunca entendendo suas brincadeiras, seus comentários sarcásticos e suas piadas picantes.

Nimrud atingira a idade adulta com bastante saúde e com demonstrações de ser muito esperto e atento. As poucas horas de folga do trabalho doméstico e de campo que, desde cedo, o pai lhe impusera, eram passadas com os amigos da mesma idade. Ele era líder inconteste entre seus amigos de brincadeiras.

Nimrud fazia seu trabalho no campo de forma automática, per-functória. Não tinha prazer em arar o campo - abominava qualquer esforço físico - mas apreciava o resultado. A colheita era a melhor época e ele ficava satisfeito em ver os grãos enchendo os sacos. Gostava de observar como o pai vendia os excedentes em troca de utilidades para a casa. Os sacos de grãos eram levados para uma aldeia maior, vizinha, a vinte quilômetros de seu vilarejo, sendo trocados por objetos úteis, como facas de cobre ou osso, cerâmicas e tecidos de linho rústico.

Nimrud gostava de ir para aquele povoado maior. O movimento de pessoas era mais intenso do que na sua localidade e sempre acontecia alguma coisa diferente: uma briga, uma discussão pública entre dois negociantes, uma mulher bonita com roupas um pouco mais decotadas, sorrindo para ele. Erech era, sem dúvida, mais alegre e divertida do que a sua pequena aldeia de Shurupak. Erech não passava de uma aldeia maior, com ruas de barro batido, estreitas, quase sempre sujas. As casas eram redondas, algumas feitas de tijolos cozidos ao sol e colocados uns sobre os outros, presos com caniços, cipós e, eventualmente, com betume, que era abundante na região.

Pouco tempo antes do ataque a Kulbab, Nimrud alcançara os vinte anos, e era a época de colheita e de negociar a safra em Erech. Nunca fora sozinho e desejava se livrar da presença incômoda do pai, que o cerceava em excesso. Não lhe foi muito difícil colocar um pó, conseguido da maceração de uma palha do campo, na comida do pai. A violenta diarréia provocada pelo pó quase levou o velho a uma morte prematura. Ficou prostrado no leito por quase dez dias, e não havia outra forma: o hlho tinha que ir negociar a safra. O pai, fraco de tanto perder líquidos vitais, cobriu-o de recomendações, as quais não escutou. Sabia o que comprar, o que vender, a quem e de que forma poderia obter certo lucro.

Assim, Nimrud, Antasurra, Urgar e sua irmã Dutura, e mais vinte e oito pessoas se deslocaram juntas com seus burricos carregados de sacos de grãos para Erech. A roda ainda não tinha sido inventada pelos sumérios; portanto, não existiam carroças para transportar a valiosa carga. Dirigiram-se ao mercado, que não passava de um espaço aberto, sem construções, onde alguns aldeões armavam tendas e barracas para vender seus objetos e artesanatos. Ele vendeu os grãos de acordo com o preço fixado e adquiriu os bens de que precisava. Os sumérios nunca tiveram moeda, mas usavam um intricado sistema de escambo, pelo qual determinada quantidade de cereal valia determinado peso de prata, que servia como padrão monetário.

Após as negociações e os pagamentos de praxe, resolveu flanar pelo lugarejo, com seus amigos. Naquela época, a cidade estava cheia de gente estranha, todos sumérios, vindos de outras aldeias. Havia, num raio de trinta quilômetros, mais de vinte e cinco aldeias, cada uma com seus mil e poucos habitantes, agricultores que trabalhavam o rico solo do vale do Eufrates.

Levaram certo tempo passeando pela cidade até que, no final da tarde, o pequeno grupo dirigiu-se para uma vendinha de cerveja e petiscos, que ficava na praça do mercado. Foram todos para a venda de cerveja, onde encontraram o marido de Dutura em adiantado estado de embriaguez. O velho alegrou-se com a chegada da esposa e a abraçou efusivamente, tentando beijá-la, e a muito custo conseguiu dar-lhe um ósculo na face.

Pediram cerveja e ficaram bebendo, entrosando-se com um grupo de jovens da mesma idade que retornava da vizinha cidade de Adab. Mesanipada e seu grupo fizeram boa amizade com Nimrud e seu grupo, tendo todos bebido além da conta.

Cus não se mostrou insatisfeito com as compras do filho e até o elogiou por umas aquisições bem feitas de alguns materiais de que precisavam. O jovem pouco se importou com os elogios paternos e, cheio de desdém, retirou-se, deixando o pai atônito com sua atitude intempestiva.

Shurupak viveu dias conturbados. Ninguém sabia ao certo o que devia fazer. Expulsar os bandidos e correrem o risco de serem assassinados também? Fazer de conta que nada acontecera e continuar a vida normalmente? Muitas palavras foram gastas no Conselho dos Anciãos para tentar debnir uma posição da aldeia. Nesse ínterim, a história se espalhara. Os sobreviventes começaram a contar histórias de como centenas de atacantes os tinham trucidado, de como foram apanhados dormindo e mortos à traição, e outros exageros. As autoridades de Erech, mesmo que não passasse de uma aldeia um pouco mais populosa, estavam alarmadas e enviaram mensageiros para descobrirem o que acontecera de fato. Será que Shurupak, aquela aldeota insignificante, tinha tanta gente assim e fizera uma devastação tão grande em Kulbab?

Os mensageiros chegaram cuidadosamente e conversaram longamente com o Conselho. Foi-lhes contado que, na verdade, não era intenção de Shurupak atacar os habitantes de Kulbab, e sim recuperar as ferramentas e, se possível, abrir o canal de que tanto necessitavam. Ao chegarem perto da aldeia, um confronto normal e civilizado ia ser estabelecido, quando uns poucos jove-ns de sangue quente atacaram e mataram alguns homens. O resto fugiu e os jovens, fora de si, atacaram a aldeia e mataram mais alguns homens e, eventualmente, algumas mulheres, recuperando as ferramentas. Por um descuido ou acidente, a aldeia foi incendiada, mas os jovens foram seriamente repreendidos e castigados pelo Conselho da aldeia.

Os mensageiros pediram para conhecer os jovens e foram levados até alguns deles, já que a maioria estava trabalhando no campo, como se nada tivesse acontecido. Nimrud e Antasurra estavam sentados debaixo de uma das poucas árvores que existiam.

Os emissários olharam surpresos para os dois jovens, não querendo acreditar que eles pudessem, junto com mais dezesseis, ter provocado tamanha destruição. Não passavam de homens jovens que tinham apenas alcançado os vinte anos. Tinham imaginado gigantes ou, pelo menos, homens de armas, e nunca dois jovens comuns, sem armas, sem preparo. Como era possível? O Conselho teve muita dificuldade em fazê-los acreditar e, quando se retiraram, os mensageiros passaram, a pé, perto dos dois, que ainda estavam sentados. Nimrud estava descansando, enquanto Anta-surra, acocorado, parecia estar brincando com umas pedrinhas. Subitamente, Antasurra estremeceu, exatamente na hora em que os dois mensageiros passavam perto deles a caminho de Erech, levantou-se num pulo e numa voz estentórica e cavernosa, falou, olhando para os dois homens:

- Tremam, homens de Erech. Tremam, porque a espada flamejante de Nimrud estará sobre toda a Suméria. Sob seus pés, ele pisará na garganta de seus inimigos, fundará cidades, instituirá impérios e seu nome será cantado em glória no mundo inteiro. Tremam, pois a espada de sangue e fogo já foi desembainhada e só voltará para sua bainha quando estiver saciada do sangue de seus inimigos.

Os dois mensageiros tinham sido tomados de surpresa. Não esperavam nada parecido e um deles sentiu seu sangue gelar e correu. O outro ficou estático, olhando por cima da cabeça de Antasurra, como se estivesse vendo o mais terrível dos demônios. Sentiu sua cabeça girar, seu coração disparou em um ritmo frenético. Quis correr, não pôde. Quis gritar, mas estava aterrorizado. De repente, como se algo o tivesse soltado, o homem saiu em desabalada carreira, gritando e gesticulando como um louco.

Nimrud, que estava meio sonolento, levantou-se assustado e olhou surpreso para Antasurra. Já conhecia seu amigo e sabia que era dado a esses acessos. Mas, dessa vez, ele parecia estar realmente fora de si. Achou ridículo como o segundo homem saíra correndo e riu-se a valer. Olhou para Antasurra e notou que ele já estava novamente calmo. Alguns aldeões se aproximaram temerosos para ver que gritaria tinha sido aquela, mas, ao vê-lo rindo desbragada-mente, acalmaram-se e voltaram para seus afazeres.

Os dois homens do Conselho dos Anciãos de Erech voltaram contando as mais estranhas histórias, afirmando que o povoado de Shurupak estava protegido por um enorme e forte deus que soltava fogo pelas ventas. O povo simples e supersticioso da Suméria não pôde deixar de acreditar e logo essa história fantástica espa-lhou-se pelas aldeias vizinhas. Todos estavam amedrontados com o massacre de Kulbab e com as histórias de deuses e demônios que circulavam livremente entre as aldeias da vizinhança.

Dois dias após a visita dos mensageiros do Conselho de Erech, a aldeia de Shurupak recebeu algumas visitas. Era Mesanipada, o rapaz que Nimrud conhecera em Erech, após as negociações de compra e venda. O jovem de Adab estava com um grupo de doze homens. Vinham em paz, não trazendo armas. Entraram na aldeia pelo caminho de Erech. Procuraram por Nimrud que, agora, não mais trabalhava o campo, o que obrigava o seu pai a fazê-lo. Ele estava debaixo de sua árvore favorita com seus inseparáveis amigos. Mesanipada aproximou-se e foi reconhecido, sendo cumprimentado por todos. Nimrud convidou-o a sentar e a conversarem.

- O que o traz aqui, amigo Mesanipada? - perguntou Nimrud.

- É uma longa história - respondeu, sorrindo, Mesanipada.

- Ah! Então, você deve nos contar tudo - respondeu Nimrud, sorrindo intrigado.

Mesanipada, tomando-se de ares de importância, como convinha a um contador de histórias, principiou:

- Akurgal, meu amigo aqui presente, é bafejado pelos deuses - disse Mesanipada, apontando com a mão espalmada para um rapaz franzino, com ar de doente, que sorria timidamente. - Ele consegue se comunicar com os deuses e, há alguns anos, vem contando-nos algumas histórias estranhas.

O grupo acercou-se mais de Mesanipada para melhor escutar. Ele não se fez de rogado e continuou, saboreando cada palavra que dizia.

- Há alguns dias, Akurgal foi tomado violentamente por um deus que predisse que aparecerá um grande chefe guerreiro. Disse também que todos deverão segui-lo; ele nos levará a grandes vitórias; esse chefe será acompanhado por deuses e demônios e nada lhe resistirá. Quem o seguir tornar-se-á imortal; os que lhe resistirem serão mortos e esquecidos.

Ele continuou sua exposição e afirmou com determinação:

- Depois que ouvimos o que você fez na aldeia de Kulbab, concluímos que você é esse chefe. E, por isso, vim com meus amigos para nos unirmos a você e a sua tropa.

Nimrud ficou inicialmente surpreso e depois riu, batendo com a palma da mão no ombro direito de Mesanipada.

- Mas que tropa? Nós somos apenas dezoito homens e nem armas nós temos.

- É assim que se começa um exército. Nós somos doze. Contando com mais seus dezoito homens, já formamos um início promissor.

Antasurra contava nos dedos quanto eram dezoito mais doze e exclamou:

- Nós somos trinta!

Nimrud e Mesanipada olharam para ele e sorriram. Urgar, sempre muito calado e taciturno, falou com sua voz grave, meio cavernosa:

- Montar uma tropa armada é fácil. Só precisamos de homens e armas, mas o difícil é fazer esse exército ser bom.

Todos olharam para Urgar. Ninguém ali tinha experiência militar. Eram apenas camponeses e suas armas não passavam de enxadas e facões.

- Eu sei como reunir uma tropa - continuou com sua voz mono-córdia. O silêncio reinava - Vamos enviar cinco homens para cada aldeia e falar com os jovens. Vamos contar esta história de deuses e demônios, convidando-os para formar o maior exército de Sumer.

Enquanto isso, cada um terá que trazer uma ferramenta ou alguma coisa que possuir de valor, para que possamos fazer armas. Precisaremos de muitos arcos e flechas, lanças e espadas - e fazendo uma pequena pausa, complementou: - Todos devem se concentrar em Shurupak e, depois, nós os treinaremos no nosso modo de lutar.

Não era um camponês falando, e sim um general habituado a organizar legiões e a comandar tropas. Não era Urgar, o rude camponês; era Urgar, o astuto e sanguinário guerreiro. De onde vinha esse conhecimento?

- Quem conhece um forjador? - perguntou Urgar.

O cobre era trazido das montanhas distantes, ao norte de Sumer, sendo negociado por gado e vários tipos de grãos que os aldeões plantavam. Chegava de forma bruta e precisava ser forjado. Eram construídas fossas onde se queimava o cobre até que derretesse a mais de mil e oitocentos graus centígrados. Depois, com o cobre derretido, podia-se moldá-lo para fazer ferramentas, armas e outros artefatos.

- Eu sou forjador. Meu pai tem uma forja em Adab.

Quem tinha falado era um dos amigos de Mesanipada, conhecido como Agha.

- Você acha que poderia fazer armas para nós?

- Posso, mas o cobre é muito macio. Vocês devem ter notado que, quando o facão bate numa pedra ou em algo muito duro, ele fica todo machucado.

Todos menearam positivamente a cabeça. O cobre realmente não tinha a resistência desejada, amassando com facilidade. Esse metal, quando derretido, ficava com algumas bolhas de ar presas no seu interior, o que não só o enfraquecia, como também oxidava o material.

- Pois acontece que meu pai comprou arsênico e eu fiz uma experiência outro dia: misturando arsênico e cobre consegui uma liga mais forte, que não verga com tanta facilidade. Chamo-a de bronze e tenho certeza de que servirá para fazer espadas muito melhores do que as atuais.

Urgar perguntou-lhe:

- Quantas espadas você poderá fazer?

- Não tenho muito arsênico e, por isso, creio que poderei fabricar umas trinta espadas.

- Ótimo! Dividiremos nossas forças por categoria. Os mais fortes combaterão com as espadas de bronze, os mais fracos serão arqueiros e os outros usarão lanças com terminais de cobre - e com uma expressão de prazer em seu rosto, Urgar complementou:

-Já antevejo como será a formação de combate.

O olhar de Urgar parecia estar a quilômetros de distância, pensando em formações de combate, guerras e, principalmente, na sensação arrebatada de matar. Ele descobrira no combate que matar era uma sensação majestosa. Sentir o outro ser dobrando-se de dor, com o sangue correndo, o medo no rosto, os gritos, os estertores... Aquilo era poder de vida e morte; sentia-se um deus.

Nimrud e Mesanipada passaram o resto da tarde em preparativos e planejaram os próximos passos de modo detalhado. Formaram agrupamentos de cinco pessoas, num total de cinco grupos, para visitarem as vinte e cinco aldeias. Cada uma distava de dez a vinte quilômetros, podendo ser coberta em até um dia de marcha. Cada grupo visitaria cinco aldeias durante a semana - uma por dia -, conversando com os jovens. Diríam que Nimrud era filho de um deus poderoso, o grande deus Anu, senhor dos céus, e que estava juntando um exército para conquistar um reinado que duraria mil anos. Que todos que viessem teriam fama, fortuna e vida longa. Os que recusassem seriam considerados inimigos e estariam afrontando o poder descomunal de Anu.

A ideia de usar o nome do deus Anu foi de Nimrud. Sabia que as pessoas eram supersticiosas e que viríam mais pelo medo da vingança do deus do que pela glória que pudessem colher. O ouro e a prata não faziam parte da cultura daquele povo. Não havia ainda os acúmulos de riqueza que iriam modificar a existência dos homens. Portanto, a ganância e a ambição ainda não haviam se manifestado entre os sumérios e nenhum outro povo da Terra.

O outro grupo de quatro, formado por Mesanipada, Urgar, An-tasurra e Agha, encarregar-se-ia de pegar todo o material necessário para fazer as armas, na forja do pai de Agha. O novo líder ficaria em Shurupak para receber os prováveis candidatos ao seu exército.

Naquela noite, as casas de Shurupak tiveram que ceder provisões para a viagem dos vinte e cinco. Não o fizeram de bom grado, mas com grande receio do deus Anu de Nimrud. Este não acreditava nas histórias de deuses e demônios, mas as usava com grande maestria. Nas casas em que encontrava maiores relutân-cias ou negativas, eles invocavam os poderes do deus tenebroso, amaldiçoando a casa, os moradores e as suas terras. Muito rapidamente, eles mudavam de ideia e cediam os víveres necessários à empreitada.

As aldeias receberam os grupos de cinco rapazes, muitos ainda imberbes, com desconfiança. Mas, em todos os lugares, os mesmos jovens de olhar inteligente, arguto, astucioso e angustiado eram suas platéias. Os mais velhos os expulsavam com palavrões e maldições, mas os mais jovens os recebiam bem, escutando suas arengas a respeito do jovem desconhecido e da formação de um exército. Muitos desses moços não acreditavam em deuses, mas o gosto da aventura lhes era irrecusável. Não houve vilarejo em que não conseguissem aliciar pelo menos dez jovens, muitos ainda com idade inferior a quatorze anos. Mas não eram só os homens; também muitas jovens fugiram de casa para ir até Shurupak. Muitas eram irmãs ou apenas namoradas de alguns jovens, mas todas tinham a mesma marca no olhar: a inteligência viva e a profunda angústia.

Durante toda a semana, foram chegando mais e mais pessoas, formando um largo contingente. Shurupak era pequena demais para abrigar tantas pessoas e todas queriam ver e conhecer Nimrud. Quando o viam e com ele falavam, parecia que o conheciam por toda a vida. Muitos o cumprimentavam como se fosse um velho conhecido e outros, mais respeitosos, falavam com ele como se fosse um semideus. Sua fama o precedera, o que facilitava a aceitação de sua liderança.

Enquanto isso, na forja do pai de Agha, as coisas não corriam tão bem. O pai se recusara terminantemente a dar o arsênico, dizendo que custara muito caro e era difícil de ser conseguido. Agha usou de muita paciência com o pai até que, sentindo que não o conseguiria por bem, obrigou-o a sujeitar-se pelo uso da força. Agha e Mesanipada ameaçaram o pobre velho que, assustado, acabou cedendo, já que sentia que, se recusasse, seu filho e seus amigos o matariam sem pestanejar. Agha e seus amigos colocaram em quatro jumentos que tinham trazido todas as ferramentas, cobre e arsênico que puderam juntar, assim como comida e objetos que pudessem ser úteis. De madrugada, os quatro homens saíram furtivamente da aldeia para nunca mais voltar.

Em Shurupak, foi necessário preparar-se um forno para a forja. Cinco dias depois, começaram a fabricar as primeiras espadas de bronze do mundo. O fogo era alimentado com caroços de tâmaras, já que madeira era rara em Sumer. Agha era muito hábil e testou durante vários dias múltiplas combinações de cobre e arsênico, tendo, no final, conseguido uma mistura que considerou perfeita. Urgar pediu que fizesse diversas espadas com vários formatos e pesos, testando-as de diversas maneiras, até que conseguiu um tipo que lhe satisfez. Era uma espada reta, com duas lâminas, com uma ponta aguda e uma braçadeira simples que protegia o punho. A espada tinha cerca de sessenta centímetros de comprimento e pesava em torno de seis quilos. No momento em que Agha e Urgar conseguiram chegar à espada que consideraram ideal, essa passou a ser produzida para atender às necessidades do exército em formação. Agha tinha conseguido três ajudantes que pareciam ter o dom para o negócio, pois, além de pegarem rapidamente a forma de trabalhar, ainda davam valiosas contribuições ao projeto.

Shurupak não estava exultante com essa invasão. Pelo contrário, naquela semana, cerca de trezentos e setenta e cinco homens tinham chegado para formar o exército e estavam acompanhados de duzentos e vinte e oito moças. As mulheres logo foram acolhidas por Dutura e três amigas, formando um grupo muito especial. Uma das moças teve a ideia de que o exército deveria ter roupas parecidas e, quando falaram com Nimrud sobre esse assunto, foram muito bem recebidas.

- Uma boa ideia! - dissera Nimrud - pois, num combate, será mais fácil saber quem é amigo ou inimigo.

As moças sugeriram diversas roupas e o grupo em comando escolheu um modelo que não era o mais elegante, mas que possibilitava o combate de modo mais livre. Era um saiote que terminava logo abaixo dos joelhos, com um cinto de cordas trançadas. O torso ficaria desnudo, como era de praxe nos homens sumérios. Para completar, um boné bicudo para proteger a cabeça do sol inclemente que, no futuro, seria substituído por um capacete de bronze.

Conseguir o pano para fazer as roupas exigiu um pouco mais de esforço. A vizinha Erech foi visitada por alguns rapazes e moças à procura de tecido. Eles encontraram no mercado a céu aberto de Erech um linho rústico, grosso, marrom-escuro que parecia servir muito bem e não era muito caro. Eles dispunham de vários sacos de grãos, prata ou ouro para trocar pelo tecido; mas, mesmo assim, houve uma discussão entre compradores e o vendedor, referente ao valor total a ser pago. Os compradores, não sabendo fazer as contas mais simples, só queriam pagar uma determinada quantia e o vendedor exigia mais. Urgar, que perdia facilmente a tranquilidade, acabou levando o pano à força e só pagou o que achou justo. Para completar a violência, empurrou o vendedor que queria obstruir sua saída.

O vendedor ficou furioso e foi falar com o Conselho dos Anciãos de Erech. Naqueles tempos, não existia polícia nem autoridade policial ou judiciária, sendo cada aldeia um pequeno estado governado por um Conselho de Anciãos, cujo número variava de cordo com a quantidade de idosos. Alguns tinham dois ou três anciãos e outros chegavam a ter mais de quarenta. Erech era uma cidade grande para a época e tinha um Conselho formado de trinta e dois membros. Até reunir todos e deliberar sobre o que fazer, Ur-gar e seus amigos já estavam longe. O Conselho de Anciãos, após muitas discussões, resolveu que mandaria um grupo de pessoas a Shurupak para trazer de volta o tecido e os bandidos que haviam roubado o honesto negociante.

O amontoado de gente recrutada por Nimrud e intitulada de exército era um desastre. Faltavam-lhes disciplina, tática militar e conhecimento de armas e combates. Urgar os estava treinando por algum tempo, mas não se forma uma boa tropa da noite para o dia. Os homens ainda não sabiam manejar adequadamente todas as armas e seu líder guerreiro esforçava-se em ensinar-lhes, enquanto ele mesmo aprendia. Urgar e seus escolhidos duelavam horas a fio, com suas espadas de madeira, poupando as de bronze, e Nimrud sentia que eles ainda não estavam prontos. Faltava união e comando firme em batalha.

Um dos rapazes, que fora levemente ferido no braço esquerdo por uma espada, tivera a ideia de fabricar um escudo feito de cipós entrelaçados e amarrados, que ele levava no braço esquerdo para se proteger dos golpes contra o local ferido. A ideia fora bem absorvida e todos estavam fazendo escudos de cipós e caniços dos pântanos. Observaram que, se os cipós fossem bem amarrados e presos uns contra os outros, dificilmente seriam trespassados pelas flechas e lanças.

Nimrud teve a ideia de juntar nove lanceiros num pequeno grupo e formar uma parede de escudos e lanças que avançaria pelo campo de batalha. Esse agrupamento seria comandado por um outro lan-ceiro e seria chamado de falange. Atrás deles viriam os arqueiros, que não carregariam escudos, disparando suas flechas por cima da cabeça dos lanceiros. Os espadachins viriam atrás dos lanceiros e arqueiros, atacando o inimigo pelos flancos. No caso de uma carga do inimigo, os lanceiros abririam uma passagem pelo centro, deixando os atacantes penetrarem numa espécie de bolsão, onde seriam exterminados pelos espadachins. Nimrud começara a organizar seu pequeno exército em grupos autônomos e nomeava chefes e subchefes de acordo com a esperteza e a destreza de cada um.

Os enviados de Erech chegaram dois dias depois do pretenso roubo dos tecidos e se avistaram com os conselheiros de Shuru-pak. Contaram o acontecido e exigiram a prisão dos culpados para que fossem sentenciados à morte. Os conselheiros, que nada sabiam desse fato, mandaram chamar Nimrud, que levou Mesanipa-da consigo. Ouviram as queixas do Conselho em silêncio. Mesani-pada sussurrou no ouvido de Nimrud:

- Procure ganhar tempo. Nossas tropas não estão ainda prontas para um combate.

Nimrud assentiu com a cabeça e falou com uma humildade que não lhe era peculiar:

- Dê-nos sete dias para que investiguemos a queixa e, no final desse prazo, levaremos os culpados para Erech para que sejam justamente sentenciados à morte.

O exército só tinha duas semanas de treinamento. Era preciso mais tempo para que estivessem prontos. Nimrud, humildemente, parecia ceder às reivindicações de Erech.

Os mensageiros acabaram concordando e ficou estabelecido que, dentro de uma semana, Nimrud, em pessoa, levaria os culpados para Erech. Com a saída dos mensageiros, os conselheiros de Shurupak aproveitaram para fazer suas próprias reivindicações. Vendo-o humilde, acharam que cederia às suas próprias pressões. Shurupak já não tolerava mais seiscentos novos personagens que se alimentavam de suas safras, que dormiam nas suas casas e que passavam o dia em intermináveis treinamentos estranhos aos costumes sumérios. Além disso, o que mais os deixava horrorizados era o fato de que as moças mantinham contatos íntimos com os rapazes, sem serem legalmente casados. Exigiram que isso terminasse e que fossem todos embora, abandonando a aldeia. Sempre humilde, Nimrud disse que partiriam em duas semanas e que até lá Shurupak tivesse paciência. O Conselho pareceu estar mais tranquilo. Duas semanas e se livrariam para sempre daqueles intrusos mal-educados, barulhentos e comilões.

Quando o prazo de uma semana terminou, ninguém de Shurupak apareceu em Erech. Eles esperaram por mais dois dias e enviaram três mensageiros para ver o que acontecera. Os infelizes não chegaram a entrar em Shurupak. Foram capturados no caminho por uma falange avançada de Urgar e mortos. Seus corpos foram despedaçados e queimados para homenagear o deus Anu. As cinzas dos infelizes foram espalhadas pelos campos.

Erech aguardou por mais dois dias pelo retorno dos seus mensageiros. No final desse prazo, para reunir o Conselho perderam mais um dia. Decidiram que iriam todos a Shurupak para reclamar providências. Levaram mais um dia para reunir duzentos e oitenta homens. Muitos, já em idade madura, não levavam armas, apenas um punhal que costumavam carregar normalmente. Existia uma espécie de milícia, constituída de cinquenta homens que sabiam lidar razoavelmente bem com espadas de cobre e estavam dispostos a mostrar que não se brinca impunemente com os homens de Erech. Tinham perdido quinze dias em marchas e contramarchas, tempo precioso e vital para o incipiente exército de Nimrud, que, durante trinta dias, estivera em árduo e ininterrupto treinamento militar.

Os homens de Erech não vinham andando em formação militar. Pareciam amigos indo para uma festa. Conversavam alegremente, sendo que alguns não estavam satisfeitos por terem que andar tantos quilômetros apenas para dar uma lição em alguns jovens mal-educados e selvagens. Teriam preferido ficar em suas terras, plantando o painço e a cevada, assim como cuidando da plantação de legumes e hortaliças que tanto sabor davam à comida. O calor era insuportável e alguns tinham trazido cerveja fresca que vinham bebendo pelo caminho. Estavam quase bêbedos e riam de suas pilhérias grosseiras.

A estrada era de barro batido pelos milhares de pés que caminharam durante séculos entre Shurupak e Erech. Assim que passaram um pequeno córrego, onde muitos pararam para se refrescar, os espiões de Nimrud, bem escondidos, foram avisá-lo. Ele, então, deu ordem para que todos saíssem sorrateiramente da aldeia e se colocassem no trigal que beirava a estrada. A seara estava razoavelmente alta para esconder os homens, mas suficientemente baixa para não impedir uma boa luta.

Nimrud dividiu seus homens em vários grupos sob o comando de EIrgar, Mesanipada e mais outros subchefes que haviam se destacado nos treinos. Eram cinco grupos. Nimrud ficou com os arqueiros e parte dos lanceiros, e combinou a estratégia com os seus subchefes. O ataque deveria ser fulminante e concentrado na milícia de Erech. Aqueles cinquenta homens deveriam ser eliminados no início do combate, para não oporem resistência e também para destruir o ânimo de outros combatentes.

Os homens de Erech vinham tranquilamente andando pela estrada, quando entraram pela parte em que o trigal ladeava ambos os lados. Subitamente, um som de trompa fez-se ouvir perto e os homens da milícia de Erech, que vinham na frente, foram atingidos em cheio por setas vindas da seara. Na primeira saraivada de flechas, caíram mais de vinte homens trespassados por várias delas. Os demais não estavam entendendo o que estava acontecendo - estavam por demais bêbedos - e ficaram parados por alguns segundos. Foi tempo suficiente para que mais dardos de ambos os lados da estrada chovessem sobre eles, matando-os ou ferindo-os gravemente.

A primeira reação dos homens de Erech foi a de voltar pelo caminho em que vinham e tentar se abrigar em algum lugar seguro. Nessa hora, saíram do trigal várias falanges do pequeno exército de Nimrud que lhes cortou a retirada. Estavam todos enfileirados com seus escudos de cipós trançados, fechando o caminho, e suas lanças prontas para perfurarem eventuais atacantes. Esses, assim que os viram, assustaram-se e tentaram sair pela direita e esquerda da formação. Então, os arqueiros começaram a flechá-los, abatendo os que procuravam fugir.

As falanges de Nimrud andavam rapidamente, em formação cerrada, em direção aos atacantes. Alguns tentaram correr para a seara, pois imaginaram que havia dois ou três arqueiros escondidos e eram eles que estavam atirando. Entraram cerca de dois metros na plantação, brandindo suas facas e facões, quando daquele local surgiram novas falanges tão bem estruturadas quanto as anteriores. Os atacantes de Erech estavam quase encurralados. Havia uma falange atrás deles, bloqueando o caminho de volta e mais duas, uma de cada lado, que os estavam aprisionando numa pinça mortal. As flechas caíam por todos os lados e os homens de Erech tentaram se agrupar para furar o cerco. O único caminho livre era para Shurupak, mas eles estavam receosos de ir para aquela direção e cair em outra emboscada. Formaram, no fragor da batalha, sob o comando de um líder de ocasião, um grupo razoavelmente coeso de cento e cinquenta homens, e procuraram avançar em direção à falange que defendia a estrada de volta para suas casas. Foram se chocar com as lanças dos homens de Nimrud que os perfuraram e feriram com facilidade extrema. O terror havia possuído os infelizes, a ponto de não raciocinarem mais de forma correta. Sentiam que iam morrer e não havia como fugir do cerco. Alguns se urinavam de medo enquanto outros caíam no chão de joelhos, tremendo e balbuciando palavras incompreensíveis.

Os homens de Erech voltaram-se para o trigal e tentaram fugir entre duas falanges postadas por Urgar para impedir qualquer fuga. Uma delas estava plantada ali e embaraçava a fuga pela direita, mas, entre essa e a falange que fechava o caminho de Erech, havia uma abertura de trinta metros. Foi por essa brecha que tentaram fugir e, aos gritos e imprecações, correram para aquela providencial abertura, enquanto algumas flechas atingiam os mais morosos e velhos. Quando chegaram à passagem, depararam-se, saído da seara, onde tinha estado agachado, com um outro grupo de trinta homens armados com espadas e escudos. Não existia ou-tra saída; deviam lutar para fugir. Lançaram-se com fúria e terror contra os que barravam sua fuga.

O choque dos setenta homens contra os escudos e espadas dos guerreiros de Nimrud, liderados por Urgar, criou uma súbita parada no ímpeto dos atacantes. As espadas perfuravam, cortavam e amassavam os infelizes. A carga estancou e os que • ieram atrás tropeçaram nos cadáveres dos que tinham torneado na frente. Enquanto isso, as duas falanges de lanceiros, agilmente, já os tinham cercado e os estavam espetando mortalmente com suas lanças.

Em menos de dez minutos, o local estava coberto de cadáveres, de feridos e de homens que se renderam de joelhos, chorando, histéricos, gritando por misericórdia. Nimrud não permitiu que ?s que se renderam fossem mortos, mas mandou eliminar todos ?s que apresentassem feridas profundas, difíceis de curar, que os levariam a uma morte lenta. Contaram-se os mortos em cento e citenta e três homens; e os prisioneiros, em cinquenta e dois.

No outro lado, na tropa de Nimrud, apenas um dos homens de Urgar fora ferido no antebraço por um facão e outro levara uma flechada, de suas próprias tropas, na perna. Os dois feridos foram levados para Shurupak, onde foram cuidados pelas mulheres.

Após os gritos de vitória e as celebrações no próprio campo, Nimrud pôs seu exército em marcha contra Erech. Ainda não sabia cem o que fazer com aquela vitória. Com pouco mais de vinte anos e com um poder incontestado até aquele momento, pressentia que unha algo de fantástico na mão, mas ainda não se conscientizara do que poderia fazer. Enquanto andava com sua tropa em direção a Erech, sua cabeça parecia estar possuída por um redemoinho de pensamentos e sentimentos. Tantas idéias haviam lhe passado uela mente que não sabia o que fazer quando alcançasse Erech. Destruiría a cidade ou a tomaria? Saquearia a aldeia e ficaria com as mulheres ou devia passar todos na espada e demonstrar a Sumer o que aguardava os que lhe resistiam?

Chegaram a Erech no final da tarde, ocupando a cidade sem lutas. O saque, a destruição e o ataque às mulheres foram proibidos. Não havia planos maiores para Erech, mas Nimrud já resolvera que não a destruiria. O povo amedrontado de Erech não opôs resistência. Assim que se estabeleceram, os conquistadores exigiram alimentos e bebidas, no que foram prontamente atendidos.

Naquela noite, Nimrud reuniu-se com seus amigos e discutiram a situação. Seria a mais importante reunião que aquele grupo jamais teria. Se optassem por um determinado caminho, tornar-se-iam bandidos que a história faria questão de esquecer. Mas, se tomassem a decisão correta, instituiriam o mais importante passo para civilizar a Terra.

Mesanipada tinha uma ideia mais nítida do poder que estavam adquirindo; por isso, foi um dos primeiros a definir um plano de ação.

- Temos que demonstrar grandeza junto ao povo de Erech. Matamos seus homens num combate legítimo, mas não devemos abusar de suas casas e mulheres, pois senão até os velhos irão se revoltar contra nós.

Todos os membros do grupo concordaram. A maioria conhecia Erech desde pequeno e gostava do lugar e das pessoas.

Nimrud falou, enquanto degustava um pernil de carneiro.

- Mesanipada tem razão. Devemos preservar Erech, mas nossas conquistas devem se espalhar. Não desejo voltar para minha vida anterior. Precisamos obter mais alimentos, bebidas, mulheres e tudo o mais que aparecer no caminho. Erech é a maior cidade que conhecemos, mas devem existir outras que desconhecemos e que podem nos oferecer oportunidades semelhantes.

Nimrud complementou, fazendo um trejeito com a cabeça, como se estivesse insatisfeito consigo mesmo: Concordo que não devemos mais saquear as cidades de Su-mer. Nossa atitude em Kulbab foi errada e trouxe-nos a pecha de assassinos. Não devemos repetir a mesma coisa aqui em Erech.

- Para estendermos nossas conquistas, é preciso ampliar as nossas forças. Iremos precisar de mais homens, armas, comida, tecidos, abrigo e muitas outras coisas. Precisamos de um lugar que nos sirva de acampamento definitivo - disse, interrompendo, Urgar.

- Urgar está certo. Por que não usarmos Erech? - perguntou Mesanipada - É uma cidade razoavelmente grande e poderá nos sustentar.

- Gosto da ideia de ficar em Erech, por enquanto. Mas aqui é um campo aberto e não há como nos defendermos num caso de um ataque externo - falou Urgar, como sempre, preocupado com assuntos militares.

- Mas, Urgar, onde é que existe abrigo neste vale? Tudo aqui é plano! - retrucou Mesanipada.

O líder ficara escutando a conversa e se pronunciou:

- Erech deve ser nossa base, pois conhecemos o terreno, e as aldeias em volta poderão nos dar apoio, já que nossas tropas são destes lugares. Para proteger nossa base, precisamos construir um forte. Um lugar onde possamos nos abrigar.

- Um forte é pouco - disse Urgar, com sua voz grave. - O que precisamos é fortificar a cidade toda.

- Isso é impossível! - exclamou Mesanipada.

- Claro que não. Basta construir um muro em torno da cidade - disse Urgar.

- Um muro? Em torno da cidade? - perguntou Mesanipada, assustado com o enorme trabalho que deveria ser encetado.

Antasurra, que escutava a conversa desde o início, exclamou, como se subitamente tivesse tido uma ideia luminosa.

- Um muro, não. Uma muralha!

Todos os presentes voltaram-se para ele:

- O que é uma muralha? - perguntou Akurgal.

Sim, é isso mesmo. Uma muralha. Um muro alto, largo, onde os defensores possam subir para atirar flechas e lanças sobre os atacantes - respondeu Antasurra, fazendo gestos para demonstrar algo que ninguém conhecia e que lhe passara como um relâmpago pela mente.

Houve um certo burburinho na assistência, mas logo a voz do chefe militar se fez presente.

- A ideia de Antasurra é muito boa - concordou Urgar - Precisamos de uma muralha rodeando toda a cidade para nos proteger de atacantes.

Todos meneavam a cabeça em sinal de assentimento. Nimrud também assentiu e complementou a ideia.

- Sim, a ideia de Antasurra é muito feliz. No entanto, precisamos ser práticos. Para construir uma muralha em torno de Erech, precisaremos de muitos homens, tijolos e comida em quantidades enormes e, principalmente, de muita motivação. Sem isso, teremos que obrigá-los a trabalhar e, desse modo, não nos resta opção a não ser usar a força. Se tivermos que usar a violência, tenho minhas dúvidas se isso irá funcionar.

Akurgal, amigo de Mesanipada, tímido e franzino, que sempre estava perto dos líderes e participara das conversas, interrompeu, como se tomado de súbito fervor. Com uma voz diferente da sua, falou fortemente:

- Usem o terror sem usar a força. O grande deus Anu, senhor dos céus, que nos protege, deve ser glorihcado. Levantem para ele um grande templo. Não há quem não queira trabalhar na sua construção, pois isso irá trazer boa sorte a todos. Para proteger o templo, será necessário fazer-se uma muralha, que envolverá não só a casa do grande deus, como também toda a cidade. Deste modo, usando o medo do deus Anu, vocês conseguirão o que desejarem do povo.

Os presentes estavam surpresos com a voz forte e a postura de Akurgal, pois isto não lhe era comum. De um rapazola simples e humilde, levemente afeminado, transformara-se num homem tonitruante, de voz cava e impositiva. Nimrud sentiu que havia algo a mais do que simplesmente um homem ali presente. Havia um deus falando, mesmo que ele não acreditasse em deuses e demônios.

A ideia era ótima. Aquele povo simples e temeroso faria qualquer coisa para, nem tanto agradar aos deuses, mas, principalmente, não irritá-los. Os sumérios acreditavam em deuses com características humanas, logo, um grande deus precisa de uma grande casa, com alimentação farta e muitos servos.

No outro dia, Nimrud convocou o Conselho da cidade, os habitantes e seus soldados, e mandou trazer os prisioneiros. Os conselheiros apareceram muito desconfiados e certos de que seriam mortos. Nimrud reuniu-os no espaço aberto que era usado como mercado ao ar livre e dirigiu-lhes a palavra.

- Amigos de Erech! Grande é o poder do deus Anu. Foi ele que me deu a vitória sobre os guerreiros de Erech, numa batalha onde não perdi nenhum soldado, e vocês perderam todos.

Nimrud estava localizado no centro da praça, sobre uma pequena elevação. Ao falar, levantava as mãos para o alto em gestos largos, denotando poder e majestade.

- O grande e insuperável Anu, deus dos deuses, incumbiu-me de uma missão sagrada.

Os presentes olhavam-no fixamente. Anu era um deus conhecido dos sumérios, mas não era o mais importante, naquela época. Erech adorava Inana, mas Anu também tinha seus devotos entre os habitantes da aldeia.

- Anu escolheu Erech como sua casa, seu lar e jurou proteger esta cidade contra os invasores que nos atacarem. Ele, com seu poder invencível, destruirá todos os inimigos de Erech, dando a esta cidade primazia sobre as demais da região.

Os mais velhos, eminentemente tradicionais, não estavam muito empolgados com a ideia. Durante anos viveram suas vidas monotonamente e achavam que nada mudaria no decorrer dos anos. Não viam vantagens especiais em serem protegidos por Anu ou por outros deuses, pois estes viviam brigando entre si e, quando se enfureciam, eram os homens que pagavam a amarga conta.

Um grupo de jovens cuja idade regulava com a de Nimrud, alguns até recém-saídos da puberdade, achou o plano do predomínio de Erech, da proteção de Anu e de mudanças uma excelente ideia. Todos esses jovens tinham uma característica comum: eram inteligentes e angustiados. Em muitos, o olhar demonstrava uma crueldade e uma frieza que chegava a assustar. Eles começaram a demonstrar profundo interesse pelas palavras de Nimrud.

- Anu deseja um esagil (uma casa de alta cabeça). E eu, seu lugal, prometi dar-lhe este zicurat (edifício elevado). Os que trabalharem nesta construção serão recompensados pelo grande Anu; e os que não desejarem serão amaldiçoados.

Nesse instante, já possuído por suas próprias palavras, extremamente empolgado, bradou:

- Quem deseja construir o grande Etemenanki (casa do fundamento do céu e da terra)?

Os seus soldados, assim como os mais jovens, gritaram uníssonos que tudo fariam para agradar o grande deus Anu. Os mais velhos estavam calados e assim ficaram. Não estavam alegres com as mudanças. Uma grande aldeia sempre atraía desgraças, e suas vidas pacatas não seriam nunca mais as mesmas.

Nimrud virou-se para os prisioneiros e lhes disse:

- O grande Anu é misericordioso. Não deseja sangue inocente. Serão liberados desde que jurem eterna devoção e obediência a Anu e a Nimrud, seu lugal. Caso contrário, serão devorados pelo fogo que acenderemos para honrar o nosso grande deus. Decidam-se agora! Jurem pelo poderoso Anu!

Sob tais condições, todos os prisioneiros juraram obedecer ao grande deus Anu e foram libertados. O gesto de misericórdia de Nimrud foi muito bem recebido pelos conselheiros. Eles imaginaam que todos seriam postos à morte e tiveram a surpresa de ver a misericórdia funcionando onde só esperavam ódio e destruição.

Os meses que se seguiram foram de atividades febris. Ninguém tinha construído nada tão grande. Nimrud foi apresentado a um jovem, Urnanshê, que havia tido a ideia de um grande templo e desenhara toscamente na areia para que todos pudessem ver. Era um edifício alto, que ficava sobre uma grande base que teria quinze metros de altura, alcançável por ampla escadaria, quadrada, com trinta e cinco metros de largura. Iniciando-se sobre essa base, seria construída uma escadaria em volta que permitiría que se pudesse ter acesso ao prédio. As escadarias teriam doze metros. Onde finalmente as escadarias terminassem, começaria, então, um prédio de vinte metros de altura, cercado de colunas altas, e mais escadarias para dar acesso ao interior. O prédio superior seria um grande cubo de vinte metros, encimado por um telhado de duas águas, cobertas com telhas superpostas.

A edificação era perfeita para todos os propósitos. Em volta do prédio principal, seria construída uma série de edificações onde seriam concentrados celeiros, escritórios para controlar o recolhimento dos grãos, cozinhas, habitações para sacerdotes e soldados e um almoxarifado de armas. Uma grande forja seria construída no local, possibilitando que a fabricação de armas e outros utensílios fosse exclusividade do templo. O edifício era bastante alto para que se pudesse olhar toda a planície e, por isso, seria um bom posto de observação militar. E por último, finalmente, a edificação também seria a casa do deus Anu, que deveria ser homenageado de tempos em tempos.

Urnanshê modificou a forma das casas de Erech. Ao invés da tradicional casa arredondada, estabeleceu casas quadradas, com pé direito mais alto, um pátio interno, um telhado feito de madeira atravessada, coberta ou não com argamassa. Em breve, essa forma iria se espalhar por toda a Suméria e os países vizinhos, substituindo as casas arredondadas, típicas das primeiras civilizações.

Nimrud instituiu Mesanipada como seu turtanu, ou seja, o segundo em comando. Seria o responsável pela construção do zi-curat e da grande muralha que cercaria a cidade. Enquanto isso, Urgar iria recrutar mais homens; era plano do chefe fazer três excursões guerreiras. Uma seria dirigida ao leste para atacar o Elam, nas montanhas Zagros; a outra seria dirigida ao norte para atacar a tribo primitiva dos acadianos que, de vez em quando, gostavam de fazer incursões guerreiras nas terras de Sumer; e, finalmente, a última seria contra tribos caldeias, que perturbavam um pouco, a sudoeste. Para tal, imaginou um exército de três mil homens.

Urgar partiu com cinquenta soldados para correr as aldeias vizinhas e trazer homens que estivessem dispostos a participar do novo exército e da construção de Erech. Urgar passou a ser recebido nas aldeias pelos jovens com grande entusiasmo; e com desconfiança pelos velhos.

Na pequena aldeia de Ur, um dos homens gritou para Urgar que aquilo não passava de um exército de crianças, lideradas por uma outra criança. Ele batia com a mão no próprio peito, dizendo-se chamar Entemena, sendo o mais forte guerreiro de Ur. Urgar cha-mou-o para um combate singular e demonstrou sua enorme força ao duelar com o seu oponente. Lutou sem armas, como convinha a um combate singular da época, e, antes que o seu oponente tivesse a oportunidade de reagir, Urgar derrubou-o e o envolveu com um amplexo mortal. O homem, aprisionado no chão pelos braços e pernas do atacante, sentiu quando as mãos de Urgar procuraram sua garganta. Debateu-se para fugir do forte aperto das mãos, até que, sem ar, começou a estrebuchar. Essa era a sensação que mais agradava Urgar, a ponto de sentir forte excitação. Enquanto a vida se esvaia lentamente do homem, Urgar gozou como nunca tinha gozado com mulher nenhuma. O infeliz morreu nas suas mãos e sua tropa gritava de satisfação pela vitória de seu chefe. Urgar le-vantou-se com seu saiote sujo, enquanto o homem morto tinha se urinado de medo e dor.

Daquele momento em diante, o recrutamento da tropa nas aldeias em torno de Erech foi-se processando de forma mais rápida do que se podia imaginar. Isso acabou gerando outros tipos de problemas. Entre eles, o mais premente era o fato de que era preciso alimentar uma pequena multidão de operários, soldados e chefes, que não estavam cultivando os campos. Logo, foi necessário que cada aldeia cedesse parte de suas colheitas para Erech. Isso não foi muito bem aceito e, não desejando se indispor com a população, Nimrud mandou que todo alimento dado fosse contabilizado, porque seria devolvido futuramente. Para tanto, foi necessário pensar-se em alguma forma de registro escrito.

Mesanipada, que era um homem extremamente metódico, teve a intuição de desenhar uma figura para cada tipo de grão e, ao lado, colocar um risco para determinar quantos sacos estavam sendo entregues. Mesanipada ensinou esse método a vários dos seus subalternos, que, por sua vez, desenvolveram outros sinais, de acordo com a necessidade. Finalmente, após alguns meses, os sumérios tinham desenvolvido a primeira escrita do mundo. Os escribas começaram a escrever em suas tabuinhas de argila tudo que entrava na casa grande de Erech. As aldeias cediam, relutantemente, os grãos, os legumes e o sésamo, de onde se extraía óleo. Tinham receio de que uma recusa fosse interpretada como uma ofensa, cujo castigo poderia ser não só a maldição do deus Anu, mas, principalmente, a crueldade de Nimrud.

Novos fatos foram acontecendo em catadupas. Um dos jovens, filho de um ceramista, aproveitara uma plataforma redonda de fazer cerâmica do pai e montara duas rodas, ligadas por uma barra fixa, que girava dentro de dois suportes que estavam presos a uma pequena plataforma. Ele desenvolvera este artefato alguns anos antes, enquanto ajudava o pai a fazer cerâmica. Sua função era a de ir até perto do pântano e buscar barro para que o pai trabalhasse e fizesse potes, jarras, panelas e outros artefatos simples. No início, o rapazinho ia buscar barro e trazia num pote grande, mas o esforço e o pouco que trazia aborreciam-no enormemente. Ficara imaginando um método para trazer o barro sem tanto esforço. Não passava de um adolescente de treze anos e aquela atividade fatigante deixava-o irritado e de mau humor.

Numa manhã chuvosa, que não era própria para trabalhar o barro, pois o ambiente ficava excessivamente úmido, o pai lhe ordenou que lavasse a sua roda debaixo da chuva para que pudesse ficar mais limpa e menos cheia de pedaços de barro seco. O garoto, irritado, pegou a roda, levantou-a de sua bancada, onde o pai a rodava manualmente sobre um eixo fixo, e a jogou na chuva. A roda bateu em pé no chão e rolou por alguns metros. O garoto olhou para aquilo e seu semblante se iluminou, como se ele se lembrasse de algo de que sempre soubera, mas que estava enterrado fundo em seu íntimo. Lavou a roda com redobrado prazer e a colocou de novo no lugar. Depois, saiu no meio da chuva para fazer duas rodas idênticas. Trabalhou por cinco dias, nas suas horas de folga, e fez duas rodas; colocou-as numa barra que as ligava e, finalmente, dez dias depois, ele fazia a primeira carroça que a Terra tinha visto.

Daquele dia em diante, ele aprimorou sua invenção. Desenvolveu uma carroça puxada por um boi, com uma plataforma maior. Depois colocou laterais na carroça, para que o barro molhado não caísse. Com o tempo, desenvolveu um sistema ainda mais sofisticado. Nessa época, já contava com dezenove anos, vivendo numa aldeia distante de Shurupak, mas razoavelmente perto de Erech. Sua nova invenção contava com quatro rodas, puxadas por dois bois ou onagros, sendo que as rodas da frente podiam se mover de um lado para outro de forma a facilitar as curvas. Quando Ur-gar começou a recrutar novos soldados e trabalhadores, nosso pequeno inventor, de nome Eanatum, trouxe sua carroça, cheia de víveres e cerâmicas, abandonando a casa paterna definitivamente. Urgar, quando viu a carroça, ficou admirado e logo levou a ideia e seu inventor para apreciação geral.

Durante mais de cinco anos, o inventor Eanatum passeara a sua invenção pela aldeia, tendo sido ridicularizado e criticado por todos os seus colegas aldeões, com exceção de alguns poucos amigos, que pediram que fizesse algumas carroças similares. Esses amigos acompanharam-no a Erech, com cinco carroças cheias de víveres, muitos roubados dos próprios pais. Nimrud exultou quando viu as carroças, vislumbrando logo as suas diversas aplicações. Uma carroça era capaz de carregar três vezes mais peso do que um burrico de carga. Em uma carroça grande poderiam se locomover seis homens sentados. Urgar logo reconheceu que poderia se transformar numa arma de guerra. Mesanipada percebeu que serviria para carregar os tijolos, cozidos nos fornos de caroços de tâmara, que seriam utilizados nas construções do templo e da muralha.

Um segundo fato surgiu e veio acelerar o processo revolucionário da Suméria. Agha, que tinha sido muito útil em desenvolver espadas de bronze, desenvolvera um instrumento de enorme utilidade. Remontando ao tempo de sua adolescência, Agha fora obrigado a trabalhar no campo de seu pai. A forja era um negócio esporádico, dependendo de pedidos da freguesia que nem sempre tinha grãos para trocar por ferramentas muito caras. Dependiam também de matérias-primas que eram trazidas de longe por caravanas que vinham em intervalos irregulares. Desse modo, Agha, junto com seus irmãos mais velhos, tinha que trabalhar a terra seca e dura do pai.

A terra, naquela época, era trabalhada com enxadas simples, eventualmente picaretas de osso e um arado extremamente tosco. Tomava-se um pedaço de tronco de árvore - já tão rara em Sumer -e, enquanto um homem puxava, por meio de cordas, o instrumento, o outro enfiava a ponta do tronco na terra, rasgando um sulco superficial. Agha abominava essa atividade. Quando era colocado para puxar, o esforço o exauria e seu mau humor logo eclodia. Por outro lado, quando tinha que colocar o tronco no sulco e abrir novas esteiras, seu rumo se perdia e os sulcos ficavam enviesados, invadindo os sulcos vizinhos. Seus irmãos o detestavam, já que Agha lhes era inútil nessa tarefa, além de reclamar incessantemente.

Agha não era de esmorecer diante de um obstáculo. Não era só o esforço físico que o irritava, mas também a morosidade da operação. Ficou imaginando como desenvolver algo mais produtivo. Inicialmente, pensou em puxar o tosco arado com um boi e tentou amarrar uma corda no animal. A corda logo machucou o infeliz, que começou a sangrar. Desistiu do mecanismo e, algum tempo depois, voltou com uma canga feita de madeira a ser colocada sobre o pescoço do animal. Funcionou a contento, mas ele procurou aperfeiçoar o sistema, colocando dois bois ao invés de um. Além de conseguir melhor equilíbrio na tração, conseguiu uma duplicação de força de trabalho. Mas, ao fazer a canga, que se ligava ao tronco por correias, tornou-se difícil tracioná-lo. O tronco saía de prumo e o trabalho se perdia. Agha não desistiu e partiu para uma outra forma de arado. Quebrou a cabeça durante alguns dias até que lhe veio a ideia de substituir o tronco por algo mais sólido.

Usando a forja de seu pai, fez um modelo de arado que misturava uma parte de madeira e outra de cobre. O primeiro exemplar não funcionou; a ponta de cobre não estava solidamente presa à madeira e soltou-se sob os risos e galhofas de seus irmãos. Fez uma segunda peça, mas era pesada demais e, mesmo que o boi puxasse com facilidade, ninguém conseguiría segurar e guiar durante muito tempo. Finalmente, acertou o peso e as amarrações e logrou fazer o primeiro arado de cobre do mundo. Mais tarde, substituiría o cobre pelo bronze, obtendo efeitos ainda melhores.

Quando Agha juntou-se ao grupo formado por Nimrud, teve a oportunidade de lhe mostrar o arado. O jovem líder, que tinha conhecimento de lavoura, logo entendeu que aquele instrumento era uma maravilha. A carroça de Eanatum e o arado de Agha poderíam tornar-se instrumentos valiosos para aumentar a produção agrícola, já que Nimrud estava particularmente preocupado com esse aspecto da questão. Ele sabia que existiam mais de três mil homens trabalhando em Erech, precisando ser alimentados e vestidos, além de terem necessidade de habitação decente. Sem isso, em breve, ele perderia sua equipe de trabalhadores, pois resolvera, temerariamente, começar a construção do templo e da muralha simultaneamente, e o esforço e os recursos para tais obras eram muito grandes.

Urnanshê, o arquiteto e construtor, tinha o domínio completo sobre todas as construções. Era um trabalho estafante que, exigindo deslocamentos permanentes entre o local da construção do templo e da muralha, obrigava-o a desenvolver estimativas completas de logística, número de tijolos, pessoas, betume para juntar os tijolos, refeições e assim por diante. O genial arquiteto era um homem extremamente destemperado. Tinha acessos de fúria, quando era contrariado ou desobedecido. Surrava impiedosamente os operários e não tinha o menor tino organizacional. Mesa-nipada procurava ajudá-lo, mas Urnanshê estava tão imbuído de sua tarefa que qualquer ordem contrária, qualquer intromissão, por menor que fosse, era muito mal recebida. Finalmente, Nimrud teve que intervir e com muito tato conseguiu conciliar a situação.

Para que a obra corresse a contento, Nimrud estabeleceu que a equipe fosse dividida em três grupos. O primeiro construiria o templo; o segundo, a muralha; e o terceiro providenciaria a logística, ou seja, tijolos cozidos, alimentação, betume, transporte e madeiras. Cada um teria um chefe, que dividiria o trabalho com encarregados e estes, somente estes, dariam as ordens aos trabalhadores. Nimrud teve o cuidado de escolher pessoalmente os encarregados e chefes, que se reportariam a Urnanshê. Este continuaria como o grande chefe das construções, mas só daria ordens aos seus três supervisores de construção. A muralha fora planejada para não só abranger a cidade e o templo, como também para deixar um enorme espaço vazio, onde se poderiam construir casas no futuro, pois Nimrud previa que haveria uma expansão natural.

Assim que se estabeleceram em Erech, foram construídas várias casas para abrigar os recém-chegados. Nimrud tomou uma casa ampla e confortável, onde se alojou com suas duas esposas, escolhidas a dedo da grande massa de mulheres que seguia a tropa. Mais tarde, iria ampliar seu plantei de mulheres com prisioneiras de guerra, presentes de chefes de aldeias e eventuais conquistas amorosas. Mesanipada também tinha sua casa e morava com uma mulher que tinha sido sua namorada desde a infância, sendo-lhe fidelíssimo, o que era raro entre os novos conquistadores.

Nimrud fez uma reunião com sua equipe principal, que incluía Mesanipada, Urgar, Antasurra, Akurgal, Urnanshê, Eanatum, Agha e mais quatro pessoas que ele escutava muito. Eanatum ganhara a admiração de todos por ter desenvolvido a carroça; Agha, por ser um grande forjador e ter desenvolvido o arado; e os demais quatro, pelos seus pendores pela arte. Eram, respectivamente, pintor, escultor, astrônomo e matemático. Esses quatros apareceram da enorme massa de pessoas requisitadas nas aldeias por Urgar e logo se destacaram pela sua inteligência, inventividade e tino político.

Esses novos elementos da equipe trabalhavam com Urnanshê. O astrônomo, por falta de palavra melhor para definir sua atividade, desde cedo na infância, sentia fascinação pelo céu e, com seu olhar arguto, marcara as principais estrelas e sua posição no decorrer do ano. Os sumérios, naquele tempo, tinham uma vaga noção da passagem do ano e dividiam o mesmo, grosseiramente, em duas grandes estações, a das cheias, que ia de junho a outubro, e a das plantações e colheitas, que ocupava o resto do ano. Se as cheias atrasassem ou não viessem, eles ficavam profundamente confusos e não sabiam quando deviam plantar. Nimrud fora informado de que existia um homem que havia desenvolvido um método de estipular as datas certas do plantio e ficara curioso em conhecê-lo.

Depois de conversar longamente com o jovem, notou que o seu conhecimento era importante. Nimrud tinha sido agricultor, não muito bom, mas o suficiente para saber que, se perdesse a data do plantio, não teria boa safra. O que esse homem propunha era lógico. Olhando a posição dos astros, era possível determinar que eles estariam na mesma posição de tanto em tanto tempo. Sua principal base de observação tinha sido a Lua e dividira o ano em doze períodos lunares. Cada mês tinha vinte e oito dias. Mais tarde, séculos depois, veriam que, em cada dezenove anos, era preciso colocar um ano com treze meses lunares para que as observações estelares coincidissem. Mas, a curto prazo, doze meses de vinte e oito dias já era um avanço para quem não tinha calendário nenhum.

Nimrud começou sua reunião externando a preocupação com a alimentação. As aldeias vizinhas não estavam dando conta de alimentarem tantas bocas. Começava a faltar comida.

- Precisamos de muito mais alimento. Não só para alimentar os trabalhadores, como também para o exército. Temos também outras necessidades. Precisamos comprar cobre e arsênico para fazermos bronze. Também faltam-nos muitas outras coisas que precisamos adquirir, como madeira, tanto para construção como para móveis, arados e carroças. Para comprarmos tais materiais, precisamos de mais grãos.

Continuou sua exposição:

- Para aumentarmos a produção no campo, é preciso melhorarmos as técnicas agrícolas. Há séculos que nós plantamos mal e colhemos pouco. Precisamos introduzir novos instrumentos. Em primeiro lugar, o arado de Agha e a carroça de Eanatum. Para fabricá-los precisamos de madeira e cobre. Quantos arados existem?

Agha respondeu: - Um.

Coçou a barba, pensou um pouco e indagou:

- Agha, quantos arados você pode fazer por dia?

O jovem olhou para o teto, procurando fazer algumas contas mentais e respondeu lentamente:

Se nós tivermos uma forja alimentada continuamente, tendo material para a fabricação e cinco ajudantes, poderemos fazer de oito a dez arados por dia.

- Você tem cobre e arsênico para fazer bronze?

- Muito pouco.

- Para quantos arados?

- No máximo uns trinta. Mas, se eu fizer arados, não farei espadas. Atualmente, estamos fazendo espadas em um ritmo de trinta por dia. Urgar encomendou-me seiscentas, e já fizemos mais da metade. Na realidade, falta material até para fazer as restantes. Estamos esperando uma caravana do Elam que deverá trazer estanho.

Agha descobrira, há alguns meses, que o estanho dava resultados melhores do que o arsênico.

- E o arsênico? - perguntou Nimrud.

- Prefiro estanho. Dá um bronze muito melhor. O arsênico libera odores que nos fazem vomitar. Além do que, o arsênico tem vindo do Norte e as caravanas rarearam recentemente.

- Por quê?

- Eles têm sido atacados pelos gutos - respondeu Urgar.

- Onde podemos obter estanho? - perguntou Mesanipada.

- As caravanas que trazem estanho têm vindo do Elam, mas andam também rareando porque os elamitas têm cobrado um tributo muito alto para deixar as caravanas passarem. O estanho tem chegado a preços altíssimos. Além disso, as caravanas que vêm do Elam são muito irregulares. Algumas trazem estanho, e outras, não. Não se pode contar com elas - respondeu Agha.

Nimrud olhou para todos e concluiu:

- Nossa situação é difícil e muito precária. Precisamos aumentar a produção agrícola para poder alimentar todos os operários. Precisamos introduzir o arado e a carroça o mais rápido possível. Além disso, existem terras ao leste e ao nordeste que não estão sendo trabalhadas porque são secas demais.

Precisamos levar água té aquelas bandas. Temos que abrir um grande canal, construindo dois ou mais açudes na região, deslocando trabalhadores para lá.

Parou de falar, enquanto reunia seus pensamentos. Fez uma pequena pausa e continuou:

- Para fazermos isso, precisaremos de mais trabalhadores, mais enxadas, mais instrumentos, mais cobre, mais estanho e muito mais comida. Só vejo uma solução a curto prazo.

Todos ficaram olhando para ele à espera da solução. Ele perqui-riu, ao invés de responder:

- Urgar, de quantos homens dispomos devidamente treinados e armados?

O chefe das armas respondeu imediatamente:

- Temos oitocentos e quarenta arqueiros, dois mil, quinhentos e oitenta lanceiros e trezentos e vinte homens com espadas. Podemos marchar com três mil, setecentos e quarenta homens. Ademais, temos oitenta e cinco carroças para transportar viveres e armas, puxadas por dois jumentos cada.

- Quando você acha que podemos atacar o Elam?

Os olhos de Urgar brilharam de satisfação.

- Hoje - respondeu exultante.

Nimrud ficou pensando um pouco e disse:

- Temos que pensar nesse assunto um pouco mais. Vejam o que pode acontecer. Iremos ao Elam e tomaremos o estanho de que precisamos. Ainda assim faltará cobre. O estanho que tomarmos irá acabar em breve, e teremos que voltar para atacar o Elam novamente. Só que, dessa vez, os elamitas estarão preparados para o nosso ataque e, cada vez, tornar-se-á mais difícil.

Nimrud fez uma pequena pausa e arrematou com uma voz decidida.

- Do que precisamos é de uma excursão de conquista e posse. Temos que construir uma cidade ou tomar uma cidade já existente no Elam e mantê-la. Assim poderemos fazer com que o fluxo do estanho seja permanente e certo.

Urgar interrompeu o raciocínio e lhe perguntou:

- Mas, dessa forma, precisaremos de muito mais gente. De onde retiraremos essas pessoas?

Nimrud já havia pensado nisso e respondeu com determinação:

- Eis o problema, Urgar. O que vejo é a necessidade de uma operação mais vasta. De nada adianta irmos até o Elam e destruirmos, matarmos e tomarmos o que queremos. Em breve, teremos que fazer tudo de novo. Devemos recrutar nossa gente com a promessa de uma vida melhor, mais terras e melhores condições de vida.

Mesanipada interrompeu e apresentou uma sugestão ao plenário.

- Nimrud, acho que existe uma opção. Podemos tirar cinquenta homens de cada aldeia e levar para o Elam. Eles ficariam lá com mil soldados. Nós voltaríamos com prisioneiros e substituiriamos os que enviamos por prisioneiros de guerra que passariam a trabalhar para as casas dos homens que levamos.

- A sua ideia é boa, mas será que os homens de nossas aldeias viriam de bom grado? - perguntou Nimrud.

Urgar respondeu com sua voz seca e taciturna:

- Eles não terão muita escolha!

Nimrud riu, mas no fundo estava preocupado. A maioria dos seus soldados provinha das aldeias. Não era boa política atacar as suas terras. Haveria mortes entre parentes e amigos e eles poderíam ficar ressentidos. Não era hora para demonstrar força. O momento era de persuasão.

- Não devemos usar a força contra os nossos homens, se temos outros instrumentos de pressão - interrompeu Antasurra.

- Vocês esquecem que os deuses falam por nós e o que o grande deus Anu deseja deve ser satisfeito?

Nimrud tinha se esquecido dos deuses. É claro, usar os deuses era uma excelente opção. Mesanipada teve outra ideia.

- Usar os deuses é uma boa saída, mas poderiamos usar também a ganância do povo a nosso favor. O que mais faz falta ao povo do que trabalhadores? Resolveremos esse problema. Cada casa que ceder um filho receberá três prisioneiros de guerra como escravo. Se não ceder voluntariamente, a ambição o fará vender até a sua mulher e filhos. Também poderemos oferecer terras novas para serem cultivadas. Quem ceder um varão em condições de lutar receberá uma gleba de terra no nordeste, perto do rio Tigre. Que acham?

O grupo estava radiante. As idéias surgiam em catadupas e a forma de operar estava ficando cada vez mais clara. Urgar iria com Antasurra, que faria a pregação, falando das ordens dos deuses e oferecendo as vantagens. Quem fosse até o Elam ganharia três prisioneiros para trabalhar as novas terras a serem cultivadas ao nordeste de Erech.

Os próximos dias foram de grande agitação. As aldeias foram visitadas e Antasurra em sua roupa de cerimonial fazia sua arenga. Algumas aldeias tinham muitos jovens de quatorze anos ou mais que se predispuseram imediatamente a ir para o Elam. Nas aldeias menos povoadas, os homens não se mostraram muito dispostos a largar tudo e partir. De qualquer modo, Nimrud não queria mais do que mil e quinhentos homens. Mais do que isso faria falta aos campos já depauperados de trabalhadores, exigindo um deslocamento maior do que estavam preparados para fazer.

Dois meses depois da reunião que decidira a invasão do Elam, a tropa partia com três mil soldados, deixando Erech protegida por setecentos homens sob o comando de Mesanipada. Iam também mil e trezentos civis para se implantarem nas montanhas Zagros, terra dos elamitas.

Durante dez dias, a tropa se deslocou, atravessando o rio Tigre e vários outros menores. A travessia era sempre um grande problema, sendo solucionada de forma complexa e perigosa. Alguns homens atravessavam a nado para o outro lado, com cordas amarradas na cintura. Em futuro próximo, passariam a usar bexigas cheias de ar para flutuarem. Não era incomum alguns morrerem nessa tentativa e os que conseguiam passar para o outro lado esticavam as cordas que haviam amarrado na cintura por sobre o rio. Procuravam amarrar a corda em árvores e pedras, e a tropa passava agarrada a elas. Mesmo assim, alguns homens morriam. Quando conseguiam passar um número razoável de soldados, eles amarravam grossas cordas e puxavam pequenas balsas que levavam não só o grosso do exército como também os jumentos, os bois e as carroças. Era uma operação demorada e arriscada que nem sempre terminava bem.

A região era desconhecida dos sumérios e Nimrud estava sendo guiado por um homem que a conhecia, já que trabalhara em algumas caravanas elamitas. Depois de alguns dias de marcha, chegaram aos pés da serra e iniciaram a lenta subida aos altos morros. Nimrud destacara cinco patrulhas de dez homens para fazer um reconhecimento adiantado. Não queria ser surpreendido em terras estranhas. No terceiro dia, após subirem várias escarpas e passarem por entre montanhas, avistaram uma pequena aldeia elamita de, no máximo, quinhentas pessoas.

Os elamitas eram um povo nômade, branco, indo-ariano, parecido com os sumérios, que vivia de forma nômade pelas montanhas Zagros e o planalto iraniano. Esses morros não eram próprios para agricultura, mas ofereciam razoável quantidade de comida que podia ser recolhida das árvores, e eram cheios de estanho, cavado de forma rudimentar. Alguns rios da região tinham estanho que era lavrado como se fosse ouro.

Nimrud preparou sua tropa para um rápido e fulminante ataque que, bem concatenado, pegou o acampamento de surpresa. Houve poucos combates; os sumérios tiveram duas baixas e o inimigo perdeu dez homens. Em alguns minutos, a aldeia estava sob o domínio dos sumérios. Terminada a batalha, Nimrud reuniu todos os elamitas e os passou em revista, analisando-os um por um. Aqueles em que ele notou uma centelha de orgulho, de eventual rebelião ou excessiva subserviência separou dos demais. Contou dezenas de homens perigosos, na sua concepção, de várias idades, retirou-os do agrupamento e mandou executá-los friamente. Suas cabeças foram cortadas à vista dos outros e, usando o guia, que também era intérprete, disse aos demais cativos:

- Os que se sujeitarem ao nosso domínio serão poupados. Serão levados de volta a Sumer, onde servirão ao grande deus Anu, ou dcarão aqui para lavrar o estanho de seus rios e de suas minas. Os que se revoltarem ou não trabalharem a contento serão mortos como foram esses homens. As mulheres e as crianças nos acompanharão e nada lhes acontecerá se obedecerem. Caso contrário, serão mortas, pois, na minha concepção, as mulheres e as crianças não são diferentes dos homens.

O terror estava estampado nas faces dos elamitas. Não havia como resistir. Mais de quatrocentos prisioneiros foram tomados naquele dia.

A campanha no Elam continuou por mais um mês lunar. Oito vilarejos foram destruídos e mais de cinco mil prisioneiros tomados. Em cada aldeia, repetia-se o ritual macabro de selecionar os perigosos e matá-los publicamente. Numa das aldeias, Nimrud aproveitou para matar também três mulheres e duas crianças, sendo que uma apresentava um aleijão de nascença e outra, no início da adolescência, tivera a ousadia de encará-lo cheia de petulância.

Descobriram uma pequena mina de estanho que era trabalhada por uma das aldeias. A produção era pequena, mas o veio oferecia boas possibilidades. Mais uma vez a engenhosidade de Nimrud se fez presente. Destacando um chefe de falange que era mais habilidoso, ele se instruiu sobre como se minerava e, junto com o seu grupo, instituiu aprimoramentos no sentido de aumentar a produtividade da mina.

Perto do local da mina, foi montado um acampamento. Dos cinco mil prisioneiros, cerca de mil foram postos a trabalhar para construir um vilarejo que foi cercado de altas paliçadas de madeira, que era farta na região. A cidade foi chamada de Susa em homenagem à Suméria e à conquista do Elam. Susa tornar-se-ia uma grande cidade, futuramente a capital do Elam, importante fornecedora de estanho e madeira.

Retornaram a Erech após três meses de viagens e conquistas com as carroças cheias de estanho, árvores, alimentos exóticos, armas de bronze e outras riquezas do Elam. Entretanto, uma surpresa desagradável esperava por Nimrud no seu retorno: Erech havia se revoltado em sua ausência. Mesanipada, a muito custo, conseguira debelar com seus setecentos soldados um início de rebelião comandada pelos anciãos de Erech, que nunca aceitaram a dominação dos recém-chegados. Durante duas semanas, o grupo de Mesanipada refugiou-se no templo ainda em construção e resistiu bravamente aos ataques ferozes, mas sem concatenação, dos revoltosos.

Nimrud atacou com sua tropa e cercou os revoltosos na grande praça que antecedia o templo. Os combates foram terríveis, já que os insurrectos lutavam por suas vidas. Rapidamente, Urgar e sua tropa de elite exterminaram os dissidentes em combates furiosos. Alguns homens imploraram por clemência, mas Urgar estava particularmente feroz naquele dia e preferiu que todos fossem mortos.

Nimrud teve um acesso de fúria, ordenando a prisão dos Anciãos, e mandou matá-los sem dó nem piedade. Dois mil cento e trinta e cinco homens foram mortos e seus corpos dilacerados jogados às feras que margeavam os pântanos do Eufrates. Dominada a rebelião, Nimrud, irritado com o fato, resolveu mudar o nome da cidade. Não seria nunca mais conhecida como Erech e quem pronunciasse esse nome seria banido ou morto. Daquele dia em diante, seria chamada de Uruck. A Bíblia a conhece como Arac. Com o sangue dos revoltosos, Erech deixou de existir, e a grande cidade de Uruck nascia. Uruck seria a primeira cidade-es-tado, onde leis, regras e uma administração burocrática e profissional seriam instauradas. Ainda naquele tempo, Uruck atingiria a população total de trinta mil habitantes. Após Uruck, o mundo não seria mais o mesmo. A civilização estava definitivamente im-rlantada na Terra.

Os homens de Nimrud estavam felizes e satisfeitos com o butim Je conquista do Elam. Novas mulheres foram distribuídas entre os soldados, e as terras do leste e do nordeste foram doadas para os ;ue se destacaram na conquista. A maioria das terras do vale, no entanto, ficou reservada para o deus Anu e seus seguidores. Para odos os efeitos, Nimrud era o supremo sacerdote do deus Anu, o ensil - o rei-sacerdote. Antasurra e os outros apenas cuidavam do dia a dia do deus. Uma grande estátua do deus Anu estava sendo feita com pedras trazidas do Elam. Tudo isso fora gerado por um ato estranho presenciado por Akurgal e Antasurra que acontecera dguns dias depois do retorno de Nimrud ao Elam.

O templo não estava ainda pronto e Akurgal, premido por um -entimento possante, resolveu levar um carneiro para ser morto ao deus Anu. Subiu com o pequeno terneiro, branco como a neve, evando-o pelas incompletas escadarias até o topo, onde um altar unha sido começado, mas não estava pronto.

Havia sentido este desejo logo depois do jantar e, mesmo con-rariando sua razão e os rogos de Antasurra, seu amante, ele sele-nonou o vitelo, levando-o para o topo do altar. Antasurra havia-,ne dito que era um desperdício de tempo e esforço, mas Akurgal meria ir assim mesmo. Ele fez um muxoxo, alisou o rosto de An-usurra com a mão espadada num gesto de carinho e o convidou rara ir com ele. Antasurra acabou assentindo, contrariado, afinal, : que não faria por Akurgal?!

A noite estava clara, o silêncio reinava sob uma magnífica lua riena. Devia ser para mais de dez horas da noite quando Akurgal negou ao topo. Escorregara duas vezes na escadaria, mas não caíra. ' terneiro berrava baixinho de vez em quando e Akurgal falava com de, mansamente, com sua voz feminil. Quando chegou ao topo do emplo, com sua cobertura ainda por terminar, ele viu a pedra sacrificial colocada sobre a estrutura onde ele iria matar a oferenda.

Antasurra era um descrente, mas Akurgal havia sido possuído várias vezes pelos deuses. Rolara no chão, babando e grunhindo quando pequeno, e todos diziam que era a doença sagrada. No entanto, ele não perdia a consciência. Lembrava-se de tudo depois. Naquelas horas, ele vaticinava sobre a colheita, a gravidez das mulheres e a sorte dos homens nas caçadas. A aldeia de Adab acostumara-se a ouvi-lo, pois nunca errava!

No topo, o terneiro se debateu e Akurgal pediu ajuda a Antasurra que, de má vontade, segurou o animal. Sem muitas palavras, já que ninguém estava vendo, Akurgal degolou o infeliz bicho que estrebuchou enquanto o sangue esguichava de sua jugular. Naquele momento, uma sombra medonha se interpôs entre a lua e os ofertantes. Antasurra olhou para cima e, assustando-se, largou o terneiro e ficou atônito, diante da aparição. Akurgal levou mais tempo para ver do que se tratava, mas, após tomar consciência do que estava vendo, assustou-se terrivelmente e prostrou-se de joelhos.

Da jugular aberta do carneiro emanava um fluido branco, leitoso, que evolava lentamente em direção a um espectro medonho. Os dois sacerdotes de Anu viram, então, de forma cada vez mais nítida, um homem gigantesco, de três metros de altura, pele púr-pura e duas enormes asas negras que saíam do seu dorso. Sobre a sua cabeça, um grande capacete com plumas raras que encimava um rosto estranho de olhar feroz. Usava uma grande lança e uma espada na cintura, vestindo-se com uma curta túnica vermelha que deixava à mostra suas pernas brutalmente fortes e levemente arqueadas. Seu torso era recoberto por uma armadura de escamas argentinas que brilhavam, dando-lhe um aspecto horrendo.

Antasurra deixou-se cair lentamente de joelhos e, levantando as duas mãos juntas em direção à aparição, disse, com um fio de voz subjugada por um indizível pavor:

- Oh, grande deus Anu, receba esta oferenda dos seus humildes A assombração riu-se de forma desbragada, jogando seu torso para trás e, numa voz límpida e clara, grave e cava, disse:

- Sou Oanes, seu deus, seu guia e seu rei.

Os dois homens entenderam o que aquela visão dissera e ficaram ainda mais amedrontados. Eles entenderam que Oanes era Anu. Quem seria este Oanes de aspecto tão medonho? O espírito respondeu-lhes, como se houvesse lido suas interrogações:

- Sou o chefe de uma poderosa legião que domina esta terra. Atravessei os mares que circundam o mundo em enormes barcas que nos trouxeram até estas plagas. Vim com meus soldados para tornar-me um deus, um guia de homens e um rei. E assim será!

Aquilo tudo era extremamente misterioso para os dois assustados servidores do deus dos céus. Ele falava como um homem e não como um deus. Será que ele não era o deus Anu? Onde estava então o temido deus? Será que ele realmente existia ou era fantasia dos anciãos? Oanes respondeu-lhes com sua voz cava:

- Chamem-me de Anu, se isto irá satisfazê-los. Meu nome verdadeiro não tem importância. Que isto fique entre nós. Digam que vocês falaram com Anu e que, através de vocês, eu darei minhas ordens.

Akurgal, completamente dominado pela visão, pensou o que tudo aquilo representava, e o espírito, lendo suas perquirições mentais, respondeu-lhe:

- Nós todos fomos trazidos para este lugar para nos tornarmos humanos. Todos não passamos de bestas-feras e só através de muitas vidas nos transformaremos em homens. Eu estou aqui para guiá-los nesta difícil senda.

Antasurra, que tudo via e escutava, tomou-se de coragem e perguntou:

- O que deseja de nós, oh grande Oanes?

O espírito, subitamente, mostrou-se com toda a sua legião de asseclas. Atrás dele apareceu uma dezena de espíritos muito semelhantes a ele e, mais atrás, cerca de uma centena de aparições fantasmagóricas. A voz tonitruante de Oanes explodiu no cérebro dos dois:

Desejamos ser cultuados todos os dias. Queremos que nos ofereçam carneiros, bois, cabras e aves no altar do sacrifício. Façam uma estátua de Anu e glorifiquem o nome do deus com oferendas diárias. Queremos o sangue dos nossos inimigos, dos homens que se opuserem à nossa dominação. Desejamos ver o sangue dos inimigos de Uruck escorrendo sobre o altar!

Enquanto assim falava, sua fisionomia tornou-se ainda mais estranha e impressionante. Akurgal desmaiou de susto e Antasurra meneou a cabeça, abobalhado e boquiaberto.

Como um fantasma, a aparição desapareceu lentamente na noite clara. Os dois levaram alguns minutos para recuperarem o fôlego. Antasurra foi buscar água para Akurgal. Depois que ele voltou a si, conversaram sobre o que tinham ouvido e visto. Na verdade, não tinham ideia do que se passara. Entenderam que Oanes era Anu. Quem sabe este era um outro nome para o deus? Como o fantasma dissera que havia atravessado o oceano em enormes barcas e viera com sua tropa - aqueles que apareceram por trás dele -, logo imaginaram que eles haviam vindo fisicamente num barco. Mas de onde eles vieram? De que terra ignota?

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CAPITULO 6

O vôo foi tão rápido como os demais e, segundos depois, chegavam a Ahtilantê. Desceram e encontraram-se com os outros membros da equipe. Atrás deles, podia-se ver um grupo de pessoas minúsculas: seres com cerca de um metro de altura, cor branca, olhos negros grandes sem pupilas, calvos e roupas estranhas aos ahtilantes.

Uriel informou a Varuna as ordens dos superiores:

- Como o grande expurgo está próximo, os nossos Maiores pediram a ajuda de espíritos de outros planetas. Um desses grupos fez questão de vir ao seu encontro, quando soube que você estava voltando do planeta Azul. Dizem que o conhecem e que querem ser úteis em tudo o que for necessário.

Varuna, como espírito aberto que era, achava toda ajuda bem-vinda, mas estranhava o fato de dizerem que o conheciam. Dirigiu-se ao grupo de anões, junto com Uriel e Sraosa. Um deles adiantou-se do grupo, falando-lhe em linguajar perfeitamente compreensível:

- Salve, gentil Helvente! Salve, nobre Varuna! Aceite os votos de seus amigos de Karion. Sou Lachmey, sua amiga.

Por um instante, Varuna ficou estático. A sua memória rebuscou rapidamente em seus arquivos mentais e lembrou-se de Karion e de Lachmey. Doce e meiga Lachmey! E ela estava ali junto dele. Seu rosto azul iluminou-se com um largo sorriso e seus olhos encheram-se de lágrimas. Doce e amada Lachmey. Varuna se ajoelhou de forma a ficar com a mesma altura dela e a abraçou emocionado. Varuna reencontrava Lachmey após cem anos de separação

Gerbrandom havia proporcionado a Varuna a mais bela das surpresas ao convocar Lachmey e seus amigos de Karion.

O retorno de Varuna e sua pequena equipe foi muito festejado por todos. A surpresa do reencontro com Lachmey foi emocionante. Assim que cumprimentou todos, aproveitou para marcar uma reunião geral. Mas, antes de conversar com sua equipe e a própria Lachmey, procurou Saercha para lhe dar ciência do andamento das atividades na Terra.

Eles ficaram algumas horas trocando impressões sobre a Terra, o expurgo e todas as providências que deveriam ser tomadas O ministro observou atentamente as gravações em vídeo mental que trouxeram da Terra, fazendo diversas anotações, para depois comentá-las com o coordenador do expurgo. Terminada a longa exposição, assim como os planos e conceitos que norteavam o futuro exílio, Saercha comentou:

- Esperamos até este momento para lhe informar alguns fatos importantes. Não tínhamos muita certeza, mas agora as probabilidades apontam para a eclosão de uma grande guerra em Ahtilantc

Varuna olhava para o ministro com olhar intrigado. Saercha prosseguiu:

- A atitude dos hurukyans e seus aliados chegou a um limite que não deixa mais dúvida de que irão se confrontar com os ocidentais. Deverá ser uma guerra mais encarniçada e cruel do que as demais, já que estão próximos de desenvolver armas de poder nunca visto. Acreditamos que terminará com a destruição de um dos lados.

Varuna estava trêmulo. Armas nucleares eram desconhecidas dos ahtilantes, mas os espíritos do alto astral conheciam seus efeitos. Tivera oportunidade de ver registros de uma guerra nuclear em outro planeta e ficara horrorizado. Fora uma guerra total, com mais de oito bilhões de mortes, cerca de doze bilhões de seres atacados pela radioatividade e mais de quinhentos anos de lenta recuperação da atmosfera. As cenas que pudera ver nos registros o haviam enchido de horror, e agora tudo levava a crer que isto aconteceria no seu amado planeta.

Saercha comentou, procurando amainar a preocupação estampada no rosto de Varuna:

- Não acredito que se trate de uma guerra nuclear total. Deverá ser um conflito com armas tradicionais; todavia, estimamos que um dos lados deverá alcançar a bomba atômica antes do outro e poderá fazer uso dela para ganhar a guerra de forma mais rápida.

Varuna sabia o que isso representava. Morte e destruição de modo terrível, como nunca fora visto.

- Nós calculamos que esta guerra dure de seis a dez anos. Você deverá acelerar todas as providências para o expurgo, já que, durante a guerra, haverá uma mortalidade muito maior, facilitando a triagem dos espíritos.

Varuna ia interromper Saercha, quando este, levantando a destra, parou-o.

- Eu sei que você desejava retirá-los gradualmente, mas não será possível. O expurgo continuará sendo gradual, mas os primeiros grupos deverão ser bem maiores do que você planejou. Em que isso o afeta?

- Não sei ainda. Terei que conversar com a minha equipe, mas creio que não haverá maiores problemas. De qualquer maneira, não precisamos levar todos os exilados para o planeta Azul numa única viagem, não acha?

Saercha acornodou-se na poltrona, como se algo o incomodasse, e falou, lentamente, como se procurasse as palavras certas:

- No início, nâo. Mas, logo após a guerra, deveremos começar com uma grande renovação. Para tal, precisamos eliminar a existência das faixas trevosas do astral inferior. Os seus candidatos ao expurgo são os que estão situados nas faixas vibratórias densas. Precisamos, em poucos anos, limpar Ahtilantê dessa negridão, pois afeta grandemente o estado anímico das pessoas. Enquanto existirem trevas e espíritos que lá habitem, teremos obsessões, suicídios, vícios horrendos e deformações físicas e psíquicas. Temos, portanto, que retirar os que se comprazem nas trevas e levá-los o mais rápido para outro lugar. Por sua vez, a matéria astral pesada que compõe o astral inferior das densas trevas, dos abismos e das furnas profundas precisa ser destruída. Se continuasse a existir, essa vibração pesada poderia ser captada mentalmente, telepaticamente, por alguns renascidos, como acontece hoje, provocando as mais profundas doenças físicas e psíquicas.

Varuna tinha dúvidas de que, se não existissem mais espíritos trevosos, tendo sido todos removidos para a Terra, se ainda assim os renascidos estariam sob sua influência nefasta. Saercha captou sua indagação e respondeu-lhe prontamente:

- Sim, pois o material astral é apenas a exsudação dos pensamentos dos espíritos. Se a comunidade é positiva, constrói mentalmente um belo mundo. O mesmo acontece com o contrário. Ora. se o material do astral inferior permanecer, os homens continuarão a ter contato com os pensamentos antigos e devassos que geraram esse mesmo local. Tornar-se-ão cativos dos pensamentos desregrados, que irão apenas potencializar ainda mais seus próprios desregramentos. Para que entenda melhor, dar-lhe-ei um exemplo grosseiro. Vamos imaginar que, num determinado quarto, um tísico teve seus últimos momentos. Se esse quarto não for limpo e desinfetado, o próximo ocupante, se estiver com suas defesas físicas fracas, poderá contrair tuberculose. O mesmo acontece com o espírito. Se não estiver preparado, com atitudes salutares e mente elevada, poderá captar as vibrações negativas, tornando-se um doente contaminado pelos miasmas dos tenebrosos pensamentos alheios.

Saercha continuou sua exposição. - Precisamos limpar o astral inferior, especialmente com armas psicotrônicas que irão dissolver as densas vibrações. Não é aconselhável usar essas armas enquanto existirem espíritos no local, porque o lugar atingido entrará em combustão, emanando fogo e calor insuportáveis. Naturalmente, os espíritos que estiverem lá, no momento em que estiver em pleno fogo, não serão queimados, mas terão a nítida sensação de estar sendo cozinhados vivos. A limpeza final do astral inferior é um corolário de sua missão, meu caro Varuna.

A reunião ainda prosseguiu por algum tempo, com Varuna especificando datas e atividades, numa tentativa de estabelecer um novo cronograma em face das novas modificações surgidas com o advento imediato da guerra.

Varuna tinha marcado uma reunião com sua equipe para o início da noite, onde poderiam discutir detalhadamente todos os as-nectos desta nova guerra.

Ele se dirigiu para a grande sala de reunião, onde já estavam ártraghan e Gerbrandom conversando com os demais sobre as celezas, assim como as deficiências sociológicas do planeta Azul, que todos já chamavam carinhosamente de Terra. A bela Sarasva-h era o centro das atenções, já que os ahtilantes não conheciam espíritos femininos que apresentassem seios e fossem de origem mamífera. Vartraghan estava feliz em apresentar Sarasvati como sua esposa, o que a enchia de alegria e orgulho.

Varuna cumprimentou todos, procurando por Lachmey que tinha sido convidada e estava junto com um pequeno grupo de seis karionenses no fundo da sala. Varuna a viu, convidando-a a ficar certo dele, à sua direita. A maioria já conhecia os laços de ami-cade e amor fraternal que uniam a pequena Lachmey ao gigante aruna, de modo que não estranharam o convite. Além disso, ela era um espírito do mundo mental, estando no astral superior por imor ao próximo e sacrifício pessoal, assim como Gerbrandom e mais dois outros karionenses.

Ele perguntou a Uriel o que já tinha sido realizado durante sua ausência. A equipe remanescente, coordenada por ela, tinha avançado bastante nos seus planos. Havia estabelecido uma espécie de fortaleza nas planícies lúgubres e escuras que antecedem as trevas. Tratava-se de uma edificação que tinha por objetivo capturar e manter sob estreita vigilância espíritos candidatos ao exílio. Era uma prisão, assim como um hospital, escola e, por bm, um transportador interplanetário.

O prédio tinha cento e vinte metros de base por cento e oitenta metros de altura. Tinha um formato piramidal. Havia uma entrada principal que dava para um hall, com mais de oito elevadores que alcançavam os últimos andares, despejando-se num imenso átrio que descortinava o interior até o último andar. Não era o maior dos transportadores que havia de ser desenvolvido. Alguns seriam gigantescos, atingindo quase quinhentos metros de altura.

Nos andares mais baixos ficavam os mais dementados, ocupando enormes galerias escuras onde dormiam profundamente. À medida que subiam até o topo do monumental prédio, iam ficando os elementos mais perigosos, assim como as áreas restritas aos alambaques, e no cimo, ficavam alojados os obreiros. Havia local para os enfermeiros em cada andar, sendo que no ápice, ficavam os ajudantes em renascimentos, os médicos e a equipe de comando.

Um dos andares era uma verdadeira fortaleza com mais de trezentos presos perigosos. A capacidade total era de treze mil exilados e mais cerca de quatro mil obreiros. Fora devidamente testado com um voo curto fora do perímetro orbital de Ahtilantê, demonstrando que era capaz de ir aonde seus operadores desejassem.

Varuna estranhou o formato e perguntou por que não foi feito um transportador retangular, e Uriel explicou-lhe o motivo de ser piramidal:

- A pirâmide, como você pode ver no visor, é totalmente negra, feita de material astral mais denso. Pode fazer voos curtos na atmosfera astral, mas não consegue cruzar grandes distâncias. Para tal, é preciso que lhe seja acoplada, como se fosse um chapéu, uma nave de cor avermelhada, dirigida por espíritos do mundo mental. Eles irão acoplar-se no cimo da grande pirâmide e levar-nos até a Terra num átimo.

Uriel explicou que a enorme nave fora desenvolvida pelos ka-rionenses que tinham grande conhecimento de propulsão astral. Eles conheciam também a forma de construção astral bem mais rápida do que o lento sistema tradicional de mentalização. Esse processo era lento e impreciso já que dependia da mentalização do inconsciente. A médica informou que o prédio estava totalmente cheio de candidatos ao exílio, podendo ser transportado para o seu destino imediatamente. Quanto ao transporte do mundo mental, não haveria problema, já que Lachmey e seus amigos de Karion haviam vindo nele.

- Como vocês capturaram esse primeiro grupo de pessoas?

Uriel contou em detalhes como eles haviam aterrissado a grande pirâmide e como foram surpreendidos pela chegada dos alam-baques de Drak-Zuen, liderados por Oanes. Ela reportou a conversa dos tenebrosos e sua intenção de ajudar imediatamente. Ela detalhou a forma como, no outro dia, eles trouxeram seus prisioneiros, e que estavam ansiosos em partir, assim que o mykael fosse para o planeta Azul.

Varuna estava satisfeito com os resultados. As coisas estavam melhor do que imaginara. Os alambaques estavam com ele, o que facilitava em muito o seu trabalho.

- Nem tudo está tão fácil. Há vários grupos que estão se organizando nas sombras para evitar o exílio. Não desejam partir e muito menos servir ao que eles chamam de o impostor, Varuna.

Vayu interrompeu a alegria do grupo, reportando os fatos mais recentes. Cntou que havia muitos dragões que não queriam partir, relutando em abandonar suas antigas posturas de ódio e revolta. Eles se recusam sistematicamente a obedecer às ordens dos guardiões.

- Acho muito natural. Os alambaques nunca obedeceram a ninguém. Não são nem sequer unidos. A maioria luta por territórios e prisioneiros. O que devemos fazer é aproveitar todos os alambaques que desejam trabalhar conosco e mandá-los o mais rápido para a Terra. Devemos deixar os que não querem ir para o bnal. Se no final do expurgo, dentro de algumas décadas, tivermos alambaques ainda endurecidos no mal, renitentes em viajar para a Terra teremos que usar de força e de coerção. Para eles, não teremos condescendência, tendo que obrigá-los a baixar a cerviz. Oremos para que não haja necessidade do uso de força.

Varuna resolveu comentar a situação terrestre, explicando durante quase duas horas todos os detalhes da operação. Com a aceleração inicial do expurgo, devido à iminente guerra, algumas alterações deveriam ser introduzidas. Não se poderia fazer uma transferência lenta e gradual, exigindo que as primeiras levas fossem bem maiores do que inicialmente estimadas. Era um contratempo que não tinha sido previsto, o que representava a construção de muito mais transportadores, uma equipe maior e mais bem treinada e muito pouco tempo para eventuais falhas. Nem tudc corre como se prevê, nem mesmo no astral superior. Os espíritos superiores, cientes desses fatos, enviaram os amigos de Karior. para ajudar no que fosse possível.

Lachmey pediu a palavra, que lhe foi dada por Varuna:

- Nobre Varuna, conforme já lhe foi comunicado, nós temos equipamentos disponíveis para fazer grandes naves. Algumas delas podem ser maiores do que os seus mais altos Zig-Ghurar-Teh. podendo transportar mais de duzentas mil pessoas. Esse tipo de transporte não oferece acomodações adequadas para se transformar em hospital, impossibilitando a regeneração gradativa dos seus habitantes. Pode transportar alto número de pessoas e voltar para buscar mais em pouco tempo. O maior problema é capturar os bandidos, pois muitos deles estão em lugares quase inacessíveis, a não ser para os guardiões e, obviamente, os dragões.

O comentário de Lachmey foi muito bem ouvido por todos. Transportar não seria o problema; capturar seria mais sério e difícil. Não se capturam duzentas mil pessoas com tamanha facilidade, mas parece que os karionenses tinham mais idéias do que se podia imaginar. Lachmey, portanto, ao observar a expressão de desânimo no rosto da maioria dos presentes, continuou sua tranquila exposição:

- Não desanimem, meus amigos. Nós também tivemos um grande expurgo em Karion, há setecentos anos, sendo que na época nós expurgamos cerca de trezentos e sessenta milhões de pessoas, o que é pelo menos doze vezes mais do que expurgaremos aqui, enviando para oito planetas diferentes.

Varuna olhou atentamente para Lachmey e lhe perguntou:

- Como fizeram para capturar tanta gente?

- Usamos diversos processos. Primeiro, os dragões nos ajudaram, como estão começando a fazer aqui. No entanto, não os usamos na extensão desejada. Não soubemos cativá-los para a nossa causa. Segundo, tivemos que lutar contra a maioria dos dragões que não quiseram ser exilados. Usamos armas psicotrônicas de alto impacto. Elas emitem não só a sensação de dor, como de imobilidade por algumas horas. Tivemos que formar legiões celestes para derrotar os dragões. É preciso dizer que os demônios rebeldes não formaram grandes grupos coesos. Pelo contrário, são pequenas gangues, como se fossem facções de rua compostas de transviados juvenis, o que dificulta um pouco a captura, já que elas se proliferam grandemente. Finalmente, após eliminar a resistência dos dragões, recolhemos o grande número de degredados com raios-tratores.

Varuna olhou para Lachmey com grande surpresa. O que era um raio-trator? Gerbrandom meneou tristemente a cabeça; sabia bem o que era isso. Lachmey prosseguiu sua exposição, usando para tal uma emanação mental que desenhava uma forma-pensa-mento, de tal modo que ele pudesse ver e entender como funcionava um raio-trator.

Inicialmente, é preciso dizer que todos os espíritos vibram err. certas faixas que lhe são próprias. Os mais evoluídos vibram em faixas mais altas, emitindo campos energéticos de alta potência. Os menos evoluídos vibram de forma mais lenta, formando campos densos que podem ser registrados em certos aparelhos. Com. a emissão de um campo específico para grupos de frequências, ou seja, grupos de espíritos, podemos capturá-los como se fosse um ímã, puxando-os para um campo de força onde ficam aprisionados. Normalmente, quando um raio-trator atinge um espírito, ele desmaia, podendo ou não sentir dor, sendo literalmente guindado ate o campo de aprisionamento, onde se tornará facilmente dominado Retornará à consciência em algumas horas, a não ser que esteja em estado catatônico, pois, neste caso, continuará como estava.

Varuna achou o raio-trator uma arma que só devia ser utilizada quando o astral inferior estivesse completamente vazio de almas Ele ficara impressionado pelas imagens que Lachmey lhe mostrara, especialmente, com ruína do corpo astral dos infelizes, capturados pelo poderoso raio. Lachmey complementou sua explicação:

- Nós fizemos naves gigantescas, com o formato de pequenas luas, para transportar até quinhentos mil prisioneiros, com enormes e poderosos raios-tratores. Eles eram capturados e levados automaticamente para bordo da nave que, quando estava cheia, era transportada para o planeta de exílio. Devemos usar os raios-tratores como muita parcimônia; estragam grandemente os corpos astrais. Podem criar sérios problemas de readaptação no planeta Terra para os cativos do raio. Entre eles, a sensação de terror que pode levar à mais profunda loucura. Devemos usá-los somente contra os mais impenitentes dos alambaques. Todavia, meus amigos, o mais grave não é capturá-los e transportá-los, mas aclimatados no planeta de exílio.

Todos a olhavam com muita atenção.

- Não podemos apenas descarregar duzentas mil pessoas come se fosse um transporte de carga. Não se trata de pessoas normais São criminosos perigosos. Precisam ser aprisionados, conduzidos gradativamente à regeneração e renascer de forma ordenada, organizada e disciplinada. É preciso, antes mesmo de capturá-los e transportá-los, organizar grandes prédios no astral da Terra para onde, quando ali chegarem, possam ser encaminhados. Eles serão internados em hospitais-prisões já previamente preparados. Deve-se dar preferência aos locais escolhidos. Por exemplo, se forem ingressar na Suméria, como parece ser o plano de mestre Varuna, deverá existir um número adequado de estabelecimentos no local, de forma a abrigar os degredados.

Varuna olhava para Lachmey embevecido. Ela era minúscula em comparação aos enormes ahtilantes, mas se comportava como uma doce princesa, expondo tudo sem afetação, sem ritos ou gestos estranhos. Suas palavras fluíam calmamente, com entonação adequada. Quando era para alertar de algo grave, seu tom torna-va-se mais grave sem, no entanto, apresentar a teatralidade que muitos gostam de impor, quando vão falar algo que julgam ter importância.

Varuna olhou para Radzyel, responsável pela parte administrativa do plano, e lhe disse:

- Amigo Radzyel, creio que a ideia de Lachmey é perfeita. Além do que já foi testada no expurgo de Karion. Sugiro que você planeje, junto com Lachmey e Gerbrandom, um projeto mais amplo possível.

Radzyel assentiu e comentou.

- Aliás, a nobre Lachmey e seus amigos karionenses já nos tinham alertado para tal fato. Já temos um esboço que gostaríamos de colocar à sua apreciação.

Para Varuna era surpresa em cima de surpresa. O reencontro de Lachmey. A eclosão de uma guerra mundial. Equipamentos de que nunca tinha ouvido falar. Os planos estavam muito mais adiantados do que podia imaginar. Só lhe restava parabenizar sua equipe pelas iniciativas tomadas. A qualidade de uma equipe repousa na iniciativa que cada um é capaz de tomar, e na liberdade que o coordenador permite que seja tomada.

Radzyel começou expondo os detalhes do que já tinha feito. Explicou que agora era apenas uma adequação do projeto às necessidades da Terra. Sugeriu que, com o primeiro expurgo, um grande grupo de planejadores e inclusive alguns amigos de Karion fossem para a Terra. Varuna achou a ideia muito sábia e não via nenhum empecilho já que os seiscentos habitantes de Karion estavam dispostos a ir até lá.

A reunião durou mais algum tempo, durante o qual puderam definir alguns passos. Inicialmente, o prédio-nave, que já estava pronto e cheio de exilados, deveria ser enviado para a Terra. Essa nave ficaria lá, servindo de hospital-prisão e centro de renascimento. Varuna iria com eles e mais quantos alambaques quisessem ir. Poderiam iniciar com Mitraton os renascimentos inicialmente planejados para a Suméria e o Vale do Nilo. Varuna voltaria para dar andamento ao restante do expurgo, ou seja, em tempo hábil para fiscalizar e coordenar os eventos durante a guerra mundial, pela qual quase cinquenta por cento dos degredados seriam retirados do astral inferior de Ahtilantê. Significava dizer que, em cinco anos, mais de quinze milhões de pessoas teriam que ser transportadas para fora do planeta. Era uma média de três milhões de pessoas por ano, em quinze viagens anuais com duzentas mil pessoas. Muita gente!

Varuna retirou-se da reunião com Lachmey, levando-a para seus aposentos. Queriam colocar em dia cem anos de ausência. Ele foi logo lhe perguntando como foi que veio parar em Ahtilantê. Lachmey explicou que um expurgo é um fato importante na galáxia. Todos os planetas civilizados são informados, de tal forma que muitos são aqueles que se candidatam a algum trabalho meritório junto aos necessitados. Gerbrandom solicitara a sua presença, se fosse possível, pois sabia que laços de amizade os uniam. Além disso, sua candidatura fora bem aceita por seus superiores. Não foi à toa que Varuna fora treinado em Karion antes de renascer, nem que ele e Lachmey estavam juntos novamente.

- Minha querida Lachmey, gostaria que me contasse tudo o que lhe aconteceu neste século.

Lachmey contou sua história de forma sucinta. Ela continuara baseada em Karion. Ampliara suas atividades e sua educação formal, formando-se como médica especializada em genética interplanetária. Estivera em vários planetas, trabalhando em projetos maravilhosos os quais passaria dias relatando a Varuna. Varuna continuou escutando a vida de Lachmey durante estes cento e poucos anos de separação.

Varuna continuava, no entanto, sem entender o que Lachmey, tão evoluída - a mais evoluída de todo o grupo junto com Ger-brandom e Mitraton -, desejava em Ahtilantê. Sentindo suas dúvidas, desnudou suas mais íntimas emoções.

- Caro Varuna, ser-lhe-ei honesta nas minhas revelações e espero que, de certo modo, você possa me ajudar.

Varuna a olhou preocupado. O que seria?

- Recentemente fui recebida com carinho e atenção pelos meus superiores. Congratularam-se comigo pelo meu esforço na medicina e nas grandes realizações científicas, mas alertaram-me para algumas lacunas ainda existentes na minha evolução.

“O que poderia ser?” - perguntava-se Varuna. “Lachmey era um modelo de espírito feminino, inteligente, sensível, atenciosa e forte. Qual o atributo que lhe faltava?”

- Meus guias me disseram que havia uma distorção nos meus sentimentos. Entenda bem, caro Varuna, o ideal é que cada espírito ame todos da raça humana como se fossem seus próprios filhos. Os mais velhos devem ser amados como se fossem nossos pais; os de nossa idade, como se fossem nossos irmãos; e os mais novos, nossos filhos. É nesse ponto que meu sentimento se ressente. Amo todos em tese, em teoria. Os meus mentores dizem que preciso amar de fato, e não há nada como amar a escória, os aleijados, os criminosos, os degredados. Disseram-me que viesse a Ahtilantê e me tornasse a mãe de todos os exilados. Que viria a ser um grande espírito no dia em que os visse como meus filhos desviados dc caminho do bem. Que seria uma luz no firmamento, no dia em que os exilados me vissem como sua mãe espiritual. Para isso, necessito ser útil. É preciso servir de forma humilde, com o coraçãc amoroso e devotando a existência aos menores.

Lachmey parou de falar por um instante. Varuna analisava suas palavras, vendo que aquilo também lhe servia. Até então se via como o coordenador do expurgo. Tinha piedade e comiseraçãc pelos exilados, mas não tinha amor. Só demonstrara esse magnc sentimento em poucas ocasiões, sendo uma delas quando se con-doera com a situação do homem-lagarto, mas, de resto, havia uma certa distância de tudo, como se aquilo não o afetasse. Agora via melhor. Se Lachmey deveria ser a Grande Mãe, assim como Uriel e todas as mulheres, ele deveria ser o Pai, assim como Vartraghan Gerbrandom, Sandalphon, Radzyel e todos os homens. Ser pai nãc era se derreter em carinhos extemporâneos, em deleites infantis e carícias despropositadas. Aqueles exilados eram perigosos assassinos, ladrões e depravados, mas precisavam de amor e devoção somente esse sentimento podería destruir a carapaça dura e impenetrável que tinham construído para se proteger da injustiça aparente do mundo.

- Você sabe, meu amigo, que penso muito na mãe de uma criança mental e fisicamente debilitada. Ninguém em sã consciência deseja ter um filho excepcional; por isso, quando tal fato acontece, a mãe, especialmente ela, vê-se ludibriada em seus sonhos de mulher. Desejava afagar uma bela criança nos seus braços, embalando-a em seus sonhos cariciosos. Mas o que recebe é, muitas vezes um monstro de feiura e de revolta. Um ser que mal se expressa, quase não anda, não sabe as mais comezinhas coisas, como beijar, pedir e agradecer. Se essa mãe supera sua revolta, amando aquele filho como se fosse a gema mais preciosa do firmamento, como se fosse o maior presente que Deus poderia lhe dar, transforma-se numa madona de comiseração, amor e piedade. Supera suas próprias fraquezas, tornando-se um baluarte de amor e compreensão. Assim devo proceder com meus filhos ahtilantes, meus capelinos, que irão para a Terra transformá-la num mundo mais civilizado. Preciso que você, Varuna, que coordena o exílio, permita que seja a mais humilde das obreiras, ajudando os mais necessitados. Se você permitir, gostaria de ser a primeira a ir à Terra, ajudando os meus filhinhos capelinos, como humilde serva, desde os primeiros renascimentos.

Varuna estava profundamente comovido. Não podia expressar nenhuma palavra. Um nó apertava seu pescoço, impedindo-o de qualquer reação. Só pôde assentir com um movimento de cabeça. Aproveitou a sua intensa emoção para segurar as duas pequenas mãos de Lachmey, beijando-as com enorme ternura. Sim, Lachmey seria a mãe dos capelinos, assim como ele seria o pai dos banidos.

No outro dia, Varuna teve uma reunião definitiva com Saercha e obteve dele a confirmação de que deveria começar o expurgo imediatamente. Já existia uma nave cheia de degredados, necessitando apenas agregar à mesma alguns chefes alambaques, assim como uma pequena equipe de operadores. A viagem foi marcada para dentro de três dias.

Nesse período, Varuna e sua equipe movimentaram-se celere-mente para que todas as últimas providências estivessem prontas. Doze chefes alambaques, que tinham demonstrado disposição inusitada para partir, foram convidados a comparecer, e assim o fizeram, com grande pompa. Cada chefe chegou com dois a três lugares-tenentes, mais algumas mulheres e vinte a trinta mijiga-baks. Foram chegando gradativamente no decorrer dos três dias, sendo alojados na grande nave em locais diferentes para evitar lutas e disputas inúteis entre os vários grupos.

Varuna e Lachmey fizeram questão de receber os grupos de alambaques e todos demonstraram grande respeito pelo coordenador, e surpresa em conhecer a pequena karionense. Para eles, a pequena fêmea de Karion, além de ser muito pequena para os padrões de Ahtilantê, era estranha, com sua cabeça insolitamente grande para um corpo tão diminuto. Não precisaram de muito esforço mental de perscrutação para detectarem que se tratava de um espírito elevado e, mesmo sendo pequena, tinha um poder espiritual bem superior a qualquer um deles. Após as averiguações mentais dos terríveis alambaques, Lachmey passou a ser considerada como uma pequena deusa entre eles.

A grande entrada era protegida por duzentos guardiões fortemente armados com as armas que os karionenses tinham introduzido. Na entrada da nave que dava para um grande pátio, existiam duzentos postos de atendimento para onde, à medida que as pessoas entravam, seja para visitas oficiais, seja para trazer espíritos perturbados, deviam se dirigir para triagem e registro. Ninguém não autorizado podia entrar e, diariamente, mais de mil solicitações eram recusadas e pouquíssimas aceitas, de pessoas que queriam visitar alguns dos internos a ser exilados. A recusa se devia ao fato de que aqueles infelizes podiam piorar seu estado, caso vissem pessoas que lhes foram caras durante a existência física. Por outro lado, esses seres, envilecidos na perversão dos sentidos, estavam tão diferentes do que foram quando renascidos que os eventuais amigos ou parentes ficavam chocados e enojados com suas deformações. Muitos pleiteavam visitas, mas poucos eram atendidos.

Do grande hall de entrada, onde se fazia a triagem e os registros, determinando para onde o interno devia ser encaminhado, os espíritos eram conduzidos, por enfermeiros especializados, por elevadores que davam acesso aos andares da nave-prédio. Em cada andar existiam longos corredores centrais que davam entrada para grandes enfermarias, onde deitadas estavam centenas de espíritos. Cada enfermaria tinha sido destinada a um tipo de doente espiritual, já que todo réprobo da Justiça Divina assim é considerado. Existiam enfermarias destinadas aos catatônicos, aos idiotizados, aos suicidas, aos assassinos psicopatas e assim por diante. Os mais perigosos eram amarrados ao leito e, quando começavam a urrar, uma espécie de capacete lhes era colocado na cabeça para analge-siar a mente com fluidos repousantes.

Cada enfermaria tinha um sistema de exaustão muito bem arquitetado. Se as emanações pestilenciais das mentes em derrocada permanecessem na atmosfera, não só tornariam as enfermarias um local insuportável pelo efeito deletério dos fluidos mentais densos, como também potencializariam nos outros doentes todas as suas sintomatologias patológicas. Na entrada de cada enfermaria, existia um pequeno corredor, de tal forma que quem passasse recebería uma espécie de chuveiro fluídico, para não levar material fluídico de uma enfermaria para outra e para prevenir eventuais fugas de alguns dos celerados. Um grupo de dois ou mais guardiões revezava-se na guarda das enfermarias, junto com dois médicos e dez enfermeiros.

Os chefes alambaques foram instalados em locais sem nenhuma mobília, tendo sido dada autorização para que pudessem desenvolver o seu local da forma que achassem melhor. Contudo, explicaram que não poderíam passear pela nave, por razões de segurança. Na realidade, o que se pretendia evitar eram confrontos entre turmas de alambaques e a influência nociva que tinham sobre os prisioneiros. A simples presença de alambaques na nave mudou o padrão vibratório, obrigando a limpezas fluídicas mais constantes.

Varuna e sua equipe, incluindo Lachmey, visitaram todas as dependências, procurando conhecer os vários lugares e os doentes. A maioria estava fortemente sedada, dormindo um sono povoado de pesadelos e repetições infindáveis dos seus crimes. Poucos estavam acordados, sentados na cama. No setor que apresentava as melhores condições de recuperação, havia um grupo de mais de duzentos espíritos profundamente arrependidos. Na maioria, sabiam que seriam exilados em planeta distante, onde teriam oportunidade de se redimir através de renascimentos difíceis, sem as facilidades tecnológicas existentes em Ahtilantê.

Os karionenses fizeram um segundo prédio-transportador idêntico ao primeiro e os obreiros de Varuna conseguiram trazer mais gente para lotar a segunda nave. Os alambaques fiéis a Var-traghan trouxeram mais de dez mil pessoas; e os trabalhadores da seara do Senhor, um outro tanto. Não trabalhavam juntos, mas respeitavam-se mutuamente. Foi com grata surpresa que Varuna encontrou-se com o tenebroso alambaque Tajupartak. Sua imagerr. já não estava tão deformada como antes e Varuna logo o reconheceu, dirigindo-se a ele com amizade e deferência, o que logo trouxe importância ao demônio perante seus pares.

- Amigo Tajupartak, é com grande satisfação que o vejo novamente.

O demônio fez uma reverência toda pomposa, no que foi correspondido por Varuna. Uma dúzia de pessoas de ambos os lados olhava a cena, aguardando o desfecho.

- Mestre Mykael, trouxe-lhe alguns seres hediondos para serem banidos do nosso planeta. Não merecem viver entre nós.

Interessante como a mente trabalha. O sujo falando do mal lavadc

- Sem dúvida. Um belo trabalho. Vejo que abandonou nosso amigo Katlach.

- Ele não serve mais aos meus novos propósitos.

Varuna perscrutou-o com a rapidez de um raio sem que o tenebroso ser o sentisse. Estava profundamente modificado. Não desejava mais apenas vingança e não destilava ódio. Havia uma nova atitude. Queria ser um guia de homens, um chefe, um rei e um deus. Varuna pensou consigo mesmo: “Você o será, meu amige, você o será”.

No dia marcado, com todos a bordo, incluindo Varuna e Lach-mey, a nave preparou-se para a partida. A nave capitaneada peles karionenses sobrevoou a grande construção e encaixou-se sem dificuldades no topo. Começou uma leve vibração. Pouco a pouco a nave-prédio foi subindo, deixando o solo argiloso e grudento do baixo astral onde estava localizada. Após alguns minutos de suave subida, vibrou numa tonalidade mais elevada e num átimo, foi atraída de Ahtilantê para a Terra.

Para cruzar o universo físico, através do mundo astral e mental, era necessário que todo o conjunto constituído da grande pirâmide negra e de sua nave propulsora acoplada no topo vibrasse numa mesma frequência. Para tanto, os que estavam no seu interior também passariam a vibrar em frequências mais elevadas. A simples alteração vibracional desses espíritos degredados induziu--os ao mais puro terror. Os evoluídos que estavam no interior da nave não sentiram a viagem, sendo esta mudança vibracional uma sensação deliciosa. Os alambaques e os banidos, especialmente os que estavam acordados, no entanto, sentiram grande pavor.

Havia dois transportadores. O primeiro partiu com Varuna e Lachmey, enquanto que o segundo partiria dentro de alguns dias. Tajupartak estava no segundo voo. Viu quando o primeiro transportador foi enganchado por uma naveta pequena, vermelha, rubra como fogo em brasa, mal dando para ver devido à intensa luminosidade. Ela chegou voando alto e fez uma longa curva até aproximar-se e encaixar-se no topo do transportador em forma de pirâmide. Na hora de levantar voo, a nave, encaixada na imensa construção astral, começou a vibrar e emitir um zumbido alto. Tajupartak olhou assustado. Que estranho encantamento!

Quando a nave alcançou uma determinada altura, começou a mudar de cor, indo do vermelho ao azul, transformando o imenso prédio negro numa grande bola de fogo e, subitamente, no meio de estrondos atordoantes e raios que cruzaram os céus para todos os lados, desapareceu. Tajupartak ficou estarrecido, bestihcado, atordoado e amedrontado. Que magia fantástica!

O voo para os evoluídos foi uma delícia. Num minuto estavam em Ahtilantê; no outro já tinham chegado à Terra, exatamente no lugar previamente determinado por Varuna e Mitraton. A grande porta se abriu e saíram no astral médio terrestre. Mitraton já os esperava. Cumprimentaram-se efusivamente e Varuna apresentou Lachmey a Mitraton.

A primeira leva de capelinos tinha chegado à Terra para um desterro que, para uns, seria longo e insuportável; para outros, relativamente curto, prenunciando um retorno triunfal a Ahtilantê com os louros da vitória. Algumas horas depois de ter chegado, a maioria, inclusive os alambaques, alguns guardiões e enfermeiros, estava completamente arriada pela poderosa força gravitacional terrestre. Os guardiões e enfermeiros receberam tratamento que lhes possibilitou adaptarem-se rapidamente, enquanto que para os demais - alambaques e prisioneiros - o sono prolongado foi o melhor remédio.

Varuna deixou Lachmey como coordenadora, por ser a mais evoluída do grupo, com recomendações para providenciar os renascimentos o mais breve possível. Pelos planos de Mitraton, os primeiros renascimentos só iriam acontecer dentro de dez a quinze meses, já que seria esse o tempo mínimo necessário para que o corpo astral perdesse a vibração ahtilantê e adquirisse a energia mais material da Terra. Enquanto isso, Lachmey e Mitraton teriam muito o que fazer; seria fundamental planejar detalhadamente os primeiros renascimentos de forma a possibilitar uma boa implantação dos capelinos entre os terrestres.

Varuna fez questão, antes de partir para Ahtilantê, de participar do planejamento dos primeiros renascimentos. Mitraton e sua equipe de planejadores tinham estabelecido vários grupos na Suméria. As aldeias de Shurupak, Erech, Sin, Eridu, Lagach. Kish, Adab e mais algumas outras receberiam os primeiros capelinos. Na nave tinham vindo quase vinte mil exilados, o que permitia que houvesse bastantes espíritos para serem renascidos numa primeira leva.

Num desses dias em que as coisas parecem estar mais calmas, Gerbrandom encontrou-se com Saercha e trocaram um dedo de prosa. Gerbrandom, que acompanhara a grande revolta dos ‘dragões’ de Karion, estava sempre preocupado que a situação dos alambaques pudesse se deteriorar. Entretanto, Varuna acompanhava pessoalmente o desenrolar dos fatos e, muitas vezes, ia pessoalmente tratar com algum alambaque mais reticente, negociando de forma a trazê-lo para o seu lado. Havia, no entanto, alguns que ele não procurava, pois eram aqueles de quem ele recebera notícias de que não queriam sequer falar com ele. Varuna tinha em mente deixá-los para o final; ele sabia que o mal se exaure por si só.

Gerbrandom comentou com Saercha sobre vários alambaques revoltosos, e mais especificamente sobre Razidaraka. Intrigava-o o modo tenaz e persistente com que este alambaque se aferrava a posições que a lógica demonstrava serem insustentáveis.

- O que me deixa preocupado é a motivação deste ser em especial. Ele tem se destacado mais do que os outros alambaques. Algo me diz que há mais do que o simples medo de ser deportado para um lugar estranho e o inevitável receio dos renascimentos purga-toriais a que eles terão que ser submetidos.

- Você não deixa de ter razão. Quando Varuna conversou comigo sobre Razidaraka e vários outros revoltosos, também fiquei intrigado. Após a saída de Varuna, resolvi perscrutar os arquivos para descobrir quem eram alguns deles. A maioria são criminosos comuns que nos odeiam pelas razões mais estúpidas, como achar que fomos privilegiados pelo destino, ou por Deus, e eles não o foram. No entanto, Razidaraka é bem mais complicado.

- Bem que eu imaginei!

Saercha olhou para Gerbrandom e lhe disse com um ar sério.

- Vou lhe franquear as informações sobre Razidaraka, mas não quero que Varuna saiba de nada.

Gerbrandom olhou-o, surpreso. Saercha complementou:

- Quando você conhecer a história dele, você verá o motivo por que eu não quero que ele saiba. Como há um envolvimento dele diretamente na história, ele poderá levar para o lado pessoal, e isto não é aconselhável. O diretor do expurgo deve ser neutro, não tomando partido emocional, pois isto pode obliterar seu julgamento.

- Eu entendo, mas, se conheço bem Varuna, nada poderá obli-terar seu julgamento, pois ele foi imparcial ao degredar seu próprio pai pelos crimes cometidos em Guersuem.

- Concordo, mas prefiro não correr riscos. O trabalho de Varuna já é por demais estressante, para adicionarmos mais um componente complicador.

Gerbrandom concordou com Saercha; poupar os amigos de problemas indesejados também é uma forma de amá-los.

Saercha manipulou seus visores e a história de Razidaraka apareceu nitidamente.
A imagem retornou há seiscentos anos antes daquele instante, mostrando como era um dos grandes continentes de Ahtilante. Era uma época feudal, com características muito parecidas com o mesmo período terrestre. Grandes impérios haviam ruído, substituídos por milhares de pequenas propriedades, dominadas por senhores severos, que exigiam mais do que seus servos podiam dar. Poucas cidades existiam, sendo a maioria localizada no cruzamento de vias de comércio, que era permanentemente assaltad; por malfeitores e grupos de fora da lei.

Num dos feudos mais importantes, que congregava a cidade de Tchepuat, havia um nobre, nem tanto pelas suas características morais, e sim por sua dominação implacável sobre a população tornada servil. Ele pertencia à família dos Mainyu, uma clã rica, que assim se tornara devido a saques, roubos e outras ignomínias. O hefe da clã, Deorócico Mainyu, tinha tido vários filhos, sendo que seus primogênitos eram gêmeos. Esses dois meninos, nascidos com uma diferença de minutos, chamavam-se Spenta e Angra Mainyu.

Os dois foram educados para serem governantes, sendo que o pai Deorócico tomava muito cuidado, educando um para ser rei e outro para ser seu braço-direito. Tudo parecia correr a contento, pois, mesmo sendo gêmeos, eles eram diferentes no modo de agir. Spenta, o primogênito, era calmo, polido, simpático e um político inato. Já Angra era um guerreiro implacável, dominando as armas com rara maestria.

Dois fatos iriam acontecer para modificar os fados. Um foi o aparecimento de um grande profeta, que traria uma revolução nos costumes e hábitos, assim como na forma de encarar a vida. O segundo foi o descobrimento de uma substância química explosiva, extremamente parecida com a pólvora. Esses dois fatos aconteceram durante o reino de Deorócico, o pai dos gêmeos.

O profeta Makenrah havia pregado a existência de um único Deus, a superioridade racial dos azuis sobre os demais povos, a instituição de Tchepuat como cidade santa e, perfeitamente mancomunado com o rei Deorócico, ele pregava a superioridade de Tchepuat sobre as demais cidades de Ahtilantê. Este homem levava uma vida santificada, mas ainda não estava preparado para os altos voos da espiritualidade que não reconhece a superioridade de nenhuma raça, credo ou pessoa, a não ser aquela adquirida pelo amor e alta moral, e, por isso, havia criado uma religião extremamente xenófoba e violenta. A violência estava incrustada em suas palavras, pois ele incentivava a guerra santa contra todos os infiéis, especialmente aqueles que não eram de Tchepuat. Ele afirmava que todo guerreiro de Tchepuat, que morresse em combate, iria direto para um paraíso, cuja descrição mais parecia um harém de mulheres fabulosas, festas intermináveis e depravações inesquecíveis.

Já a descoberta da pólvora, por falta de um termo melhor, havia lançado uma série de inventos na área bélica, que mudaria a face da guerra. Nos tempos de então, os combates eram feitos com armamentos similares aos terrestres da época feudal, ou seja, espadas, lanças, arco e flecha. Os exércitos se movimentavam sobre carroças e viviam da comida que conseguiam no campo.

Deorócico morreu e Spenta assumiu o trono. Em pouco tempo, a grande afeição que existia entre os irmãos gêmeos deteriorou-se. Angra, o segundo-em-comando, um soldado inato, queria usar o novo poder bélico contra os feudos vizinhos, mesmo tendo que passar por cima de tratados seculares que haviam trazido a paz à região. Spenta era contra este tipo de ação. Achava que seria melhor tentar unir os povos vizinhos numa espécie de confederação de cidades-estados amigas, mas cada uma mantendo sua liberdade de escolher seus dignitários e mandatários.

Angra, baseando-se na nova religião do falecido profeta Make-nrah, se deixava inflamar por esta religião um tanto exótica e muito particular, pois pregava que somente os azuis iriam ao paraíso, enquanto os das demais cores - verdes, púrpuras e cinzas - iriam para o inferno. Na realidade, Angra nem era tão religioso como apregoava, mas aquela religião lhe era favorável na consecução de seus objetivos escusos, e ele a usava como base de seus raciocínios.

Os dois irmãos passaram a ter discussões acaloradas. Angra queria a formação de um grande exército e partir para conquistas territoriais, tudo em nome da religião de Makenrah. Spenta achava que o povo de Tchepuat não precisava disto. Ele acreditava que o povo queria paz e prosperidade, e seu plano era aprimorar as técnicas agrícolas e artesanais, expandindo-as e exportando-as.

Angra, vendo que seu irmão estava inflexível em suas resoluções e que estas barravam seus planos de conquista, glória e poder, começou a formar um grupo palaciano que lhe daria apoio em suas pretensões. Ora, o que ele propunha eram conquistas e, a partir delas, os saques, as anexações e a riqueza fácil. Com isto, ele foi formando uma súcia que, também como o intuito religioso, foi lhe dando força e sustentação. Em breve, ele se achou suficientemente poderoso para derrubar o irmão.

O golpe palaciano se deu numa manhã quando as duas luas de Ahtilantê estavam alinhadas - fato raro que só acontecia uma vez em cada oitenta anos. Spenta foi deposto por um Angra Mainyu irredutível, que mandou encarcerá-lo. No entanto, o povo amava Spenta, que diminuira os impostos, incentivara o comércio e transformara Tchepuat num grande centro de peregrinação religiosa. Deste modo, o povo foi à rua, demandando que Spenta voltasse ao seu legitimo lugar.

Angra não titubeou: mandou seus guardas dissolverem a manifestação a golpes de espada e tiros, uma novidade que usava a pólvora recém-descoberta. Os guardas usaram de força máxima e acabaram com a passeata pacífica, com enormes perdas de vida humana. Finalmente, vendo que, enquanto Spenta estivesse vivo, ele corria o risco de ser deposto, assim como ele havia deposto seu irmão, mandou matá-lo na prisão em que se encontrava.

Com o povo de Tchepuat sob seu tacão e sem o risco de o irmão voltar ao poder, ele partiu para a consecução de seu plano. Antes disto, eliminou dois irmãos mais novos, que poderíam ser considerados seus herdeiros, já que não era casado nem tinha filhos.

Durante alguns meses, ele ampliou seu exército, armando-o com as novas armas, que lhe dava a superioridade de que ele necessitava sobre seus vizinhos. Para dar legitimidade à sua sede de conquista, ele propagava que seria uma guerra santa. Assim que se viu pronto, atacou.

A mente humana funciona de um modo muito particular. No início de suas conquistas, ele não acreditava que Deus estivesse ao seu lado, mesmo que realmente ele estivesse seguindo as determinações do profeta. Com o decorrer dos anos, ele foi se convencendo de que Deus o havia, de fato, escolhido como a espada que levaria a verdadeira fé a todos os homens do planeta, pois todos deveríam se curvar à nova fé.

Unindo a força e a ignorância do povo, ele, além de conquistar os feudos vizinhos, também ampliou suas forças e toda a região tornou-se não somente sua, como grande fornecedora de homens dispostos a conquistas, glórias e até a morrer para irem para o paraíso devasso que o profeta houvera por bem imaginar.

Nada resistia a seu poder e, quando assim o faziam, pagavam um preço altíssimo. Quando um feudo resistia, Angra o devastava, matava todos os seus habitantes, aprisionava suas belas filhas, pos-suindo-as e, depois de se saciar, mandava matá-las. Quanto mais cruel e sanguinário se tornava, mais ele se tornava religioso. Estranha forma de apaziguar sua consciência culpada de tantos opró-brios. Ao afirmar para si mesmo que tudo que ele fazia era para maior glória de Deus, ele encontrava justificação para todas as suas conquistas, massacres e destruições. Afinal das contas, pensava ele, ele agia desta forma, não só para maior glória de Deus, como também para converter os infiéis ao verdadeiro credo. E eles se convertiam aos milhares; a opção contrária era a morte.

Enquanto Angra expandia suas conquistas, ele deixava a administração do reino para um homem aparentemente pacífico, mas que era um excelente administrador e um político de mancheia. Este homem chamava-se Huruky e, como homem inteligente, não aparecia. Era a eminência parda, cujo poder ele consolidava gradualmente. Angra não via nele nenhum tipo de perigo, pois acreditava que aquele homem de modos delicados, sempre prestativo. que jamais lhe dizia não e o adulava de modo muito discreto nunca poderia sequer sonhar em tirar-lhe o poder.

Angra, durante várias décadas, fez o que mais gostava: guerrear e matar. Suas conquistas eram de tal modo feroz, que na província de Katabalan ele matou cerca de oito mil habitantes que se haviam refugiado na cidade; após cortar-lhes a cabeça, empilhou-as no portão da frente, fazendo uma pirâmide mórbida. Tudo isto, naturalmente, para maior gloria de Deus e a expansão da verdadeira fé. isto era no que ele acreditava firmemente.

Angra não foi abençoado com filhos vivos. Suas várias esposas, ou eram estéreis, ou geravam natimortos. Os sacerdotes consultados lhe afiançavam que se tratava de magia negra de seus inimigos e ele os perseguia, fossem desafetos reais ou imaginários.

Como só há de acontecer com todos que habitam o mundo físico, a morte lhe fez uma visita num dado dia. Foi de um modo que ele não esperava, pois ele sempre contava morrer em combate para receber seu harém no outro mundo. Contudo, nos últimos três anos de sua vida, ele foi lentamente carcomido por um câncer linfático, que, nos últimos momentos, se alastrou, tomando-lhe todo o organismo e o fazendo sofrer de forma excruciante.

Começou aí o início da revolta de Angra. Como é que Deus podia tratá-lo desta forma, enviando-lhe uma doença fatal, que o matava aos poucos e com dores insuportáveis? Ele, o maior campeão da fé, o que havia espalhado e convertido o maior número possível de infiéis! Por que Deus havia permitido que o diabo o vencesse na tentativa de ter um filho, que poderia prosseguir sua descendência e ocupar o trono que ele havia ganho com tanta luta e sacrifícios? Logo ele que havia dedicado toda a sua existência à propagação da grande verdade, da fé única, do Deus único, do Inigualável!

Com o agravamento da doença, ele não podia mais se locomover, pois o câncer se espalhara para os ossos, e cada movimento era um tormento. Quando, então, o carcinoma atacou a garganta, impedindo-o de falar, fazendo com que cada bocado de comida e cada gota sorvida fossem um tormento extraordinário, ele se escondeu em seu castelo sombrio, sendo atendido por poucos serviçais. Suas mulheres, que jamais o amaram, afastaram-se dele, pois inúmeras erupções cutâneas o enfeavam, transformando-o num mostrengo pútrido.

Enquanto ele se isolava do mundo, Huruky consolidava ainda mais seu poder. Não havia sucessores, nem pessoas distantes da família Mainyu que pudessem reivindicar o trono. Por outro lado, os modos polidos de Huruky cativavam todos, que estavam cansados dos ataques de ira de Angra. Estando há vários anos no poder, como eminência parda, Huruky não teve dificuldades de ser aceito, antes mesmo de Angra morrer.

Angra, sentindo que sua morte era iminente, convocou Huruky e lhe entregou uma carta manuscrita, onde se lia as suas últimas vontades. Huruky, cheio de mesuras e de docilidade aparente, jurou cumprir as determinações de Angra. Ele ordenara que seu mais feroz general assumisse o trono, pois o via como o único capaz de suceder-lhe, já que não tinha filhos ou parentes próximos. Assim que Angra morreu, Huruky, que era tão sanguinário quanto o déspota, só que não tinha a coragem de executar com suas próprias mãos os atos tenebrosos, mandou envenenar o general que deveria suceder ao tirano, e ainda colocou a culpa do crime numa de suas concubinas, que foi degolada após um arremedo de julgamento.

Angra ingressou no mundo espiritual desacordado, sendo imediatamente preso pelos alambaques, que o aprisionaram nas densas trevas. Ele passou alguns anos sem se dar conta de onde estava, entrando e saindo do seu estado comatoso espiritual. Quando, finalmente, despertou e tomou consciência de que não estava no paraíso, que Deus em pessoa não veio recebê-lo com uma coroa de ouro, como havia sido predito pelos sacerdotes de sua religião e que ele estava na região dos grandes juizes, dos temíveis alambaques, sua revolta cresceu a níveis de completa loucura.

Durante anos, completamente enlouquecido, ensandecido de revolta, com um profundo ódio por Deus, por se achar traído pelo Criador, de acordo com sua concepção, e constantemente perseguido por uma malta de espíritos, que o acusava de todos os seus crimes hediondos, Angra foi se habituando àquelas plagas infernais. Por outro lado, vários alambaques o viam como um mijiga-bak poderoso e o tomaram a seu serviço. Se Deus o havia abandonado, então ele se tornaria o maior inimigo do Altíssimo.

Angra foi aprendendo as técnicas espirituais de obsessão, de persuasão mental, de influência espiritual, e tomou-se um devoto aprendiz. As décadas de aprendizado o transformaram num mestre; sua mente superior, sua vontade férrea, seu ódio canalizado, sua extraordinária determinação o transformaram de Angra em Razidaraka, grande dragão.

Para completar seu ódio, ele descobriu que Huruky havia apagado seu nome da história, transformando sua lembrança numa simples lenda. Não havia estátuas, nem praças, nem ruas e avenidas com seu nome. No livros de história, ainda muito restritos e limitados, as extensas conquistas de Angra, na realidade, apareciam como obra de Huruky. O império que ele havia conquistado transformara-se no império hurukyan, e agora um filho de Huruky estava sentado no trono.

Angra não existia mais na mente daquele ser. Agora ele se transformara em Razidaraka, o imperador do mal, o adversário de Deus, e em sua mente completamente doentia, ele se perguntava se realmente existia uma divindade criadora. Onde estava este Deus pelo qual ele conquistara quase um continente inteiro? Onde estava o paraíso que lhe haviam prometido caso ele se tomasse o guerreiro de Deus? Onde estavam seus amigos, seus seguidores, seus fiéis vassalos, seus guerreiros? Por que não estavam ali para adorá-lo, bajulá-lo e endeusá-lo?

Ele se voltou contra a religião, os poderosos, os religiosos, os políticos, os corruptos e, na sua loucura, criou seu próprio domínio. Até os demais alambaques tinham receio dele; seu poder mental era fortíssimo. Ele aprisionava as antigas prostitutas; já que Deus não lhe dera o harém prometido, ele mesmo produziría o seu.

Alguns poucos espíritos superiores tentaram catequizá-lo, mas suas palavras perderam-se ao vento. Razidaraka não aceitava explicações, lições filosóficas, argumentações teológicas. Nada o demovia de sua ideia fixa: tornar-se o inimigo da obra de Deus, se é que Ele existia, pois agora esta nova ideia o visitava com insistência.

Descobriu que existiam várias vidas - fato em que nunca acreditara quando fora renascido -, quando foi atraído por um ser humano físico. Depois de muito perscrutá-lo, descobriu que se tratava de Huruky renascido. Viera como um homem pobre, serviçal de um rico potentado, que o tratava como lixo. Razidaraka, surpreso com sua descoberta, concentrou todo o seu poder sobre o infeliz, que apidamente sucumbiu à sua obsessão. Ele o levou ao crime, e obviamente à prisão. Foi encarcerado numa masmorra fétida, de onde só sairia para uma cova rasa, vinte anos depois. Durante este tempo, Razidaraka o fustigava com raios deletérios, levando-a ao enfraquecimento físico e mental, aumentando o seu tormento. Sua vingança tornou-se perfeita assim que o infortunado serviçal morreu, sendo aprisionado por Razidaraka que se serviu dele das formas mais hediondas e tenebrosas possíveis. Muitas décadas se passariam, quando os guardiões resgatariam o antigo Huruky das trevas, com isto, levando Razidaraka aos cumes da ira, da revolta e da indignação. Então, aqueles privilegiados lhe haviam roubado seu inimigo mortal debaixo do seu nariz? Um ato imperdoável.

Por outro lado, a descoberta de que existiam várias existências não foi um lenitivo para sua mente desvairada. Pelo contrário, ao aprender que todos renascem e, através de novas existências, evoluem e que dentro deste processo resgata-se os crimes e as culpas engendradas no passado, Razidaraka tomou-se de um pavor. Já mais consciente de seus crimes e sabedor que teria que sofrer na pele o que provocara aos outros, enfumou-se no interior de si mesmo, à procura de um reduto interior, onde pudesse fugir da inelutável lei do renascimento. Idealizou que, se fosse um demônio de grande poder, ninguém poderia obrigá-lo a renascer e, com isto, fugiria de seus compromissos. Tola proposta de um insano, como se pudesse fugir da luz enfumando-se nas trevas. O dia há sempre de se seguir à noite.

A imagem do visor foi se apagando e Gerbrandom havia entendido o processo de extrema loucura que se apossara de Razidaraka. Ele, no entanto, tinha uma dúvida, a qual externou a Saercha.

- Você me falou que Varuna não deveria saber disto? Por quê? Por acaso ele foi Huruky?

- Não, ele foi Spenta Mainyu!

Gerbrandom sorriu. Era óbvio que os espíritos superiores estavam tentando unir os irmãos novamente. Será que conseguiríam?

CAPÍTULO 7

Numa noite escura, o presidente da Confederação Nor-te-ocidental reuniu-se com seus ministros para lhes falar da declaração que recebera de Katlach.

- Recebi uma comunicação do ministro das relações exteriores do império hurukyan. Katlach acaba de declarar guerra contra nós.

Não houve entre os presentes nenhuma comoção especial; todos já esperavam isto há vários anos. Desde que Varuna ainda fora vivo, eles vinham se preparando para isto. Haviam modernizado seus equipamentos, treinado seus homens, feito várias alianças com países menores e com a Confederação Sul-Ociden-tal da qual eram parentes raciais e excelentes parceiros comerciais. Estavam prontos para o pior.

- General, quais são as nossas chances de vencermos este conflito, que se afigura gigantesco? - perguntou o presidente ao seu general em chefe.

O general, que havia se preparado anos a fio, não era um sanguinário, ansioso por glórias militares. Era um homem realista que sabia que o império hurukyan era extremamente poderoso.

- As nossas possibilidades são boas, mas será uma guerra longa. Uma guerra longa e terrível.

Um dos ministros presentes, preocupado com certos boatos que haviam sido ventilados, desferiu uma pergunta que estava na mente de todos os presentes.

- Dizem que Katlach está desenvolvendo uma bomba nuclear, capaz de nos destruir completamente. É verdade?

O general, sempre bem informado, respondeu-lhe, calmamente:

- Bem, isto não é completamente verdade. Ele ainda está longe de ter a bomba. Nós também estamos desenvolvendo artefatos nucleares e temos que empreender todos nossos melhores esforços para conseguirmos antes dele.

O presidente ordenou-lhe, então:

- Então, dê toda a prioridade à construção da bomba.

Outro ministro, com muita propriedade, redarguiu:

- Nós temos que impedir, de algum modo, que Katlach obtenha esta arma. O que podemos fazer?

O general não quis entrar em muitas explicações, mas seus espiões lhe haviam revelado que os cientistas hurukyanos ainda estavam nos primórdios da exploração nuclear. Tinham acabado de construir uma fábrica onde pretendiam produzir água pesada, oxido de deutério, sem a qual não poderiam controlar os radioisóto-pos e qualquer artefato nuclear não sairia do papel. Ele respondeu, então, indo direto ao assunto.

- Meu plano é destruir as instalações onde o hurukyanos estão desenvolvendo a água pesada. Sem isto, eles não poderão dominar o átomo.

O presidente perguntou:

- Mas estas instalações devem estar fortemente protegidas. Como você pretende destruí-las?

- Nós não podemos bombardeá-los do ar. Eles têm uma defesa aérea extremamente forte. Mas um comando de soldados, muito bem articulado, pode se infiltrar e destruir a fábrica. Porém, é uma missão suicida, já que não podemos recuperá-los depois da missão cumprida.

Um dos ministros falou, de forma fatalista.

- É o custo da guerra.

O presidente concordou e todos calaram, sabendo que era vital no esforço da guerra acabar com a possibilidade de Katlach ter artefatos nucleares. Se ele tivesse bombas nucleares, ele acabaria com todos, sem nenhum remorso ou pejo.

- Faça tudo que for necessário.

Com esta frase, terminou-se a reunião, e o general saiu para colocar em ação seu plano.

A guerra eclodiu com extrema violência. Os hurukyans foram os primeiros a agredir a confederação Norte-Ocidental e, depois disso, o mundo inteiro uniu-se para destruir o poderio crescente do império. No grande conflito que se estabeleceu entre o império hurukyan e os demais países de Ahtilantê houve batalhas as mais empedernidas. Algumas duraram meses, com a perda de valiosas vidas em ambos os lados. No entanto, houve um ataque que foi crucial para o desenrolar da guerra. Este combate, efetuado por um grupo pequeno de homens da Confederação Norte-ocidental nem sequer foi citada como uma batalha, ou um feito grandioso. Os livros de história de Ahtilantê não fazem menção, pois foi um ataque secreto a um alvo aparentemente sem importância, mas que foi fundamental para a vitória das confederações, e a destruição de Katlach e seus aliados.

Este ataque se deu alguns meses depois da declaração de guerra, quando as forças hurukyans ainda levavam vantagem sobre os seus oponentes. Um grupo de homens, que sabia que estava indo numa missão suicida, foi levado de noite, numa espécie de helicóptero, para perto da fábrica de água pesada. Esta fábrica era fortemente protegida, mas oferecia uma única opção de ataque, que seria por terra, à noite, por um grupo de homens que teriam que se infiltrar pelas cercas e muros que a protegiam.

O grupo conseguiu entrar nas primeiras defesas da instalação e penetrou na fábrica. No entanto, assim que ingressou no ambiente fabril, o alarme foi dado. O que se seguiu foi um combate feroz, tanto com o uso de armas como com lutas corpo a corpo, e o pequeno grupo foi sendo dizimado pelos guardas hurukyanos. No entanto, alguns deles conseguiram plantar as bombas que traziam, junto aos equipamentos que destilavam a água pesada. O chefe do grupo, já mortalmente ferido e perseguido para fora das instalações, conseguiu disparar o mecanismo das bombas e destruiu as instalações, reduzindo todo o complexo a cinzas.

No momento final, quando estava para acionar o botão que iria fazer explodir toda a fábrica, já com suas reservas físicas esgotadas, sangrando abundantemente, prestes a desmaiar, ele recebeu uma força energética de um dos espíritos que acompanhavam essa missão. Essa última carga de vontade levantou suas últimas forças e o fez acionar o detonador. Após tal ato de bravura, expirou.

Os espíritos também participavam da guerra. A maioria dos alambaques e seus mijigabaks apoiavam Katlach, assim como também investiam sobre seus inimigos com o intuito de atrapalhá-los, induzindo-os à covardia, ao erro e à discórdia entre eles. Os espíritos, especialmente os da falange de Saercha, que tinha seus guardiões especiais, atuavam no sentido de impedir que a guerra se alastrasse. No entanto, a atuação dos alambaques revoltosos era muito mais eficiente do que a atuação dos guardiões de Saercha, pois o homem em guerra vibra no mais baixo patamar da bestialidade, aproximando-se mais da vibração pesada dos alambaques do que dos espíritos de grau médio, que constituíam as falanges de Saercha.

A luta foi renhida durante anos, mas o império hurukyan nãc era páreo para todas as nações do resto do mundo reunidas. Aos poucos, as suas primeiras vitórias foram se transformando em amargas retiradas, com derrotas em todas as frentes de batalha Katlach, cada vez mais histérico, perdia o controle da situação. Ao se lançar contra a Confederação Norte-Ocidental, ele não imaginava que os demais povos de Ahtilantê se unissem contra ele. Imainara vencer rapidamente os confederados e, com isto, os demais países, acovardados, iriam ser anexados mais a golpe de pena do que por luta armada.

O que ele não contava, mesmo que houvesse sido alertado pelos seus espiões, é que o discurso de Varuna, no dia de sua morte, iria produzir muito mais efeito do que simples palavras lançadas ao vento. Quando Varuna falara para todos, e ali estava não só a nata da Confederação Norte-ocidental, mas também vários líderes políticos de muitos países que deviam enormes favores ao grande estadista, alertando-os para o perigo de uma guerra com Katlach, muitos não o levaram a sério. Imaginaram que havia um rancor pessoal de Varuna contra Katlach por ter dado um golpe de estado no país de origem do estadista. No entanto, quando souberam que foi Katlach que havia encarregado pessoalmente um esquadrão de assassinos para matar Varuna, viram que as palavras dele eram mais do que um simples conselho era uma ordem imperiosa que devia ser cumprida à risca. A partir deste fato, o assassinato de Varuna - que acabou não sendo em vão -, os países se uniram contra qualquer agressão de Katlach. O assassinato de Varuna foi que derrotou, em última instância, o despótico Katlach.

Durante oito anos eles lutaram em vários continentes, destruindo cidades e matando a juventude em combates horrendos. No final, as duas confederações conseguiram desenvolver artefatos nucleares e explodiram diversas cidades hurukyans, entre elas Tchepuat, a capital imperial. A guerra terminou imediatamente após a explosão das bombas nucleares e com a morte de Katlach. Durante este negro período do planeta, morreram mais de cem milhões de pessoas em decorrência dos combates, indo engrossar ainda mais os candidatos ao expurgo.

Logo após a destruição de Tchepuat pelas bombas nucleares da Confederação Norte-ocidental, Garusthê-Etak que havia se homi-ziado nas trevas, quando da explosão, retornou ao abrigo destruído de Katlach. Seu espírito estava jungido ao corpo, ou ao que se podia imaginar que havia sido um dia o corpo de Katlach. Ga-rusthê-Etak não teve dificuldades em retirá-lo do local, levando-o consigo. O espírito apresentava-se calcinado, irreconhecível, uma pasta fluídica mal cheirosa, completamente inconsciente.

Garusthê-Etak levou-o para a fortaleza de Razidaraka e adentrou o grande salão, arrastando aquela massa disforme e nojenta. Os demais alambaques, agora um grupo bem mais reduzido do que o inicial, afastaram-se dele, tomados de asco. Até mesmo aqueles espíritos acostumados a ver deformações tenebrosas nos demais espíritos acharam aquilo por demais repulsivo. Razidaraka, sentado em seu trono, ainda cheio de empáfia, olhou, apreensivo, a entrada grotesca de Garusthê-Etak.

O demônio encaminhou-se até o trono do grande dragão, jogou o seu fardo imundo aos pés de Razidaraka e falou, com sua voz quase indecifrável:

- Ele morreu.

Razidaraka, tomado de profundo desgosto, tapando as narinas devido ao odor nauseabundo que emanava daquela massa pútrida que jazia aos seus pés, retrucou, com certa ferocidade.

- Tire este lixo daqui, seu idiota!

Garusthê-Etak não se fez de rogado e, pegando Katlach, lançou-o contra uma parede, com violência extrema. Katlach bateu na parede e caiu no chão como um boneco desconjuntado. Dois mijigabaks, obedecendo a um comando gestual do chefe, o agarraram e o tiram do salão. Começaria o longo tormento de Katlach.

Razidaraka observou a expressão de desalento dos seus poucos seguidores. Seu grande grupo havia desertado paulatinamente. O trabalho de persuasão dos alambaques aliados a Varuna, e os maus tratos constantes de Razidaraka haviam feito um trabalho lento e gradativo. No entanto, ainda havia muitos mijigabaks sob o comando mental do velho dragão e, por isto, sua força de atuação ainda era bastante poderosa. Razidaraka resolveu insuflar ânimo nos seus poucos aliados e vociferou, com uma alegria malsã na voz.

Se vocês pensam que fomos derrotados só porque este lixo não obteve sucesso em dominar o mundo, vocês estão enganados. O sofrimento que nós impusemos já é uma grande vitória.

Um dos alambaques remanescentes perguntou-lhe:

- Sim, mas agora que a guerra terminou, o que vamos fazer?

- Lutar. Nós vamos lutar até o fim. Ordene seus mijigabaks para agirem nos cartéis de drogas e nos grupos étnicos de forma que se produzam limpezas étnicas nos países pouco desenvolvidos. Atuem sobre os grupos minoritários, criando dissensões e revoltas. Lancem uns contra os outros. Joguem marido contra esposa e rilho contra pais. Façam as pessoas ricas gastar o dinheiro em coisas inúteis, pois assim iremos gerar revolta nos pobres. Explorem o sexo e a pornografia. Usem de tudo para gerar injustiças, desequilíbrios sociais e psíquicos. Injustiça! Este é o ponto principal de nossa luta. Criem injustiças em todos os níveis.

Outro alambaque estava preocupado com o aprimoramento dos guardiões astrais, pois eles estavam cada vez mais numerosos e mais bem treinados. Além disto, muitos tinham armas diferentes, armas que haviam sido trazidas de Karion e adaptadas às condições de Ahtilantê. Este alambaque perguntou a Razidaraka.

- Os guardiões estão mais bem armados. Nós não alcançaremos grandes resultados. Eles estão com atordoadores psicotrôni-cos extremamente poderosos. Isto irá dificultar em muito nosso trabalho.

O velho demônio, colocou a mão no queixo e, após refletir por alguns segundos, falou com a voz arrastada:

- Capture alguns guardiões. Eu quero saber que tipo de armas eles estão usando. Nós faremos algumas também para nós.

Um dos alambaques, respondeu com entusiasmo:

- Boa ideia. Eu me encarregarei disso.

Razidaraka, de certa forma, contaminado com o entusiasmo de seu aliado, começou a falar, já um tanto destrambelhado, apresentando um estado anímico de modo crescente e demonstrando que mento de novos rebentos, especialmente alguns que teriam características bem diferentes dos demais.

Lachmey, Vayu e Rudra observavam um pequeno grupo de dez crianças sumérias brincando. Outro grupo de dezoito crianças estava sentado debaixo de uma árvore, assistindo às outras crianças brincar. Eles tinham os olhos angustiados e tristes, com idades que variam de seis a dez anos.

Lachmey comentou com os seus guardiões:

- É fácil distinguir os capelinos dos terrestres. Vejam a expressão angustiada, como se eles não pertencessem a este lugar. Há, até mesmo, uma certa perversidade no olhar.

Os dois guardiões observaram o grupo destacado dos demais. A vibração espiritual de suas auras podia se destacar dos demais. Enquanto os terrestres tinham auras claras, eles apresentavam auras escuras, mesmo ainda sendo crianças.

- Por enquanto, eles não despertaram completamente. Mas, quando eles forem crescidos, dominarão os terrestres facilmente. Há uma diferença enorme de inteligência e sagacidade entre eles e as pessoas primitivas da Terra.

O comentário de Vayu era pertinente. Mas, no fundo, era isto que se esperava dos capelinos. Era esta sua função junto aos terrestres: implantar a civilização.

Neste instante, uma das crianças que brincava com seus colegas de mesma idade aproximou-se do grupo de capelinos renascidos e, jovialmente, fez um amável convite, tipicamente infantil:

- Você não quer jogar conosco, Nimrud?

O menino de dez anos, com um ar de desprezo, respondeu, de forma grosseira.

- Não me perturbe! Se você pensa que eu vou brincar seus jogos estúpidos, está muito enganado. Vá embora!

Os outros amigos de Nimrud olharam o menino com desprezo. Ele retornou para junto dos seus amigos, triste por tido sido menosprezado.

Lachmey e os dois guardiões observaram a cena, e o grande espírito de Karion, comentou:

- Como você pode ver, a vibração de capelinos desafina em relação aos demais. Não só eles são mais amadurecidos, como também acreditam que são superiores aos terrestres. Eles já estão formando um grupo somente seu, atraídos pela afinidade vibracional de seus corpos espirituais.

Rudra, que sempre fora o mais circunspecto dos guardiões, demonstrou sua preocupação.

- Dentro de alguns anos, teremos que despertar e libertar os alambaques. O que acontecerá, então?

Os alambaques estavam dormindo um sono profundo, em parte induzido pelos guardiões e obreiros, em parte devido ao pesado material astral terrestre e sua gravidade acachapante para os capelinos.

- A tendência dos alambaques é de procurarem as criaturas da mesma categoria vibratória e eles agirão sobre elas. Por intermédio deles, os renascidos de Capela dominarão facilmente a sociedade primitiva. Temos que esperar para ver o que irá acontecer, mas posso antever violência extrema nesta parte do mundo.

Os três partiram, volitando rapidamente. Ainda não era a hora de libertar os alambaques.
• • •
O grande expurgo de Ahtilantê passaria por três fases distintas. A do início que durou até o final da guerra, em que vinte e poucos milhões de pessoas foram banidas em grandes lotes. Enquanto este processo era implementado em Ahtilantê, na Terra, os capelinos que demonstravam um mínimo de reajuste psíquico renasciam na Suméria.

Após a guerra devastadora de Ahtilantê, houve um período intermediário, quando foram dadas oportunidades redentoras a grandes contingentes populacionais. No entanto, o período intermediário não foi pacífico e tranquilo, como se poderia imaginar. Os alambaques que não haviam partido para a Terra tinham se dividido em duas tendências. Uma aceitava o exílio como fato consumado e até ajudava as falanges de Varuna; e outra, sub-repticia-mente, começou um processo nefasto contra os renascidos, com o objetivo de levar consigo o maior número possível de degredados. Seu raciocínio era extremamente pervertido e constava de uma máxima: se eu me dano, então minha alegria é que todos se danem comigo.

Vinte anos após a grande guerra, Varuna, no retorno de uma de suas muitas viagens à Terra, reuniu-se com Uriel para uma reunião de trabalho. O ministro Saercha e Gerbrandom estavam juntos com o coordenador.

- Cara Uriel, peço-lhe que nos relate os graves acontecimentos por que Ahtilantê está passando.

Uriel começou expondo sucintamente:

- Mestre Varuna, a situação está se tornando cada vez mais insuportável. Há grandes grupos de alambaques espalhados pelo planeta implementando as piores infâmias. Até depois da grande guerra, expurgamos metade dos alambaques. Eles foram de livre e espontânea vontade e muito nos ajudaram na captura, guarda e banimento dos degredados. Nós os tratamos como se fossem obreiros especializados. Metade dos que ficaram continua trabalhando em conjunto com os guardiões. Alguns raros, ansiosos para evitar o degredo, pediram renascimentos difíceis, tendo recebido novas oportunidades em situações penosas.

Varuna acompanhava pelo grande visor o que Uriel falava. Muitos tinham renascido entre os cinzas, sofrendo na carne o próprio preconceito que nutriram por tantos anos. Alguns, em extrema miséria, sem arrimo, mas com grande desejo de progresso. Outros vinham cegos, ou mudos, ou com deficiências inúmeras que os impediam de recalcitrarem no crime. Estavam acontecendo grandes devastações, tanto naturais como provocadas por guerras. Nesses lugares, as crianças morriam de fome nos braços de suas mães. A maioria era composta de antigos alambaques, mijigabaks e lugares-tenentes desses caliginosos seres, purgando existências dificílimas.

- Mas há um grande grupo que sabe que não pode fugir do expurgo. Reconhecem a força maj estática dos Maiores e insularam-se num tal processo mental que, se forem banidos, tentarão levar o maior número de indivíduos possível com eles. Além disso, para complicar ainda mais o aflitivo quadro, existe a miridina que leva ao vício milhares de jovens.

O visor mostrava como as grandes redes de distribuição da potente droga haviam se organizado pelo mundo inteiro. Atacavam as crianças, os adolescentes, os executivos das grandes empresas, os miseráveis e os ricos. Tratava-se de um grande negócio, com ramificações em todos os lugares do mundo. Além disso, era um poder que corrompia políticos, administradores e policiais.

- Temos usado os artistas para divulgar boas idéias, a fraternidade e o amor. No entanto, eles também têm usado as artes para seus propósitos. Há músicas delirantes que falam explicitamente no poder do mal e de Razidaraka, o Grande Dragão, o conceito do próprio mal personificado. Há filmes e peças teatrais que enfatizam a violência, a destruição, plasmando nas mentes infantis e adolescentes o vírus da maldade e do terror. Com isso, têm aparecido mais e mais gangues infanto-juvenis que destroem, seviciam e atacam as pessoas. Grande parte desses acontecimentos é efeito das graves distorções econômico-sociais que os alambaques usam para destilar ódio, desesperança e desavenças.

Varuna, após escutar o relatório de Uriel, falou:

- A evolução espiritual exige que o ser passe por todas as fases, de forma a aprender em cada uma delas as nuanças da realidade. Os alambaques estão nos seus derradeiros estertores. Sabem que dentro de alguns anos serão irremediavelmente banidos, aprisionados e levados à força para o planeta Azul, onde terão que regenerar-se, seja por bem, seja por mal. Fizemos, e você bem o disse, tudo o que podíamos fazer. Demos bons exemplos. Conscientizamos através de peças ficcionais que o bem é o único tesouro duradouro, pois incrusta-se no interior do ser, levando-o ao aprimoramento. Entretanto, Deus usa o mal para o bem. O contato da humanidade ahtilante com os alambaques, com o vício e a degradação, se faz alguns baquearem pelo caminho, faz a maioria progredir e evitar a abjeção de um comportamento inadequado e lascivo. Não podemos protegê-los de tudo e de todos. Queremos aves fortes que saibam voar em dias de tempestade e não frágeis passarinhos que não consigam sair do ninho sem a ajuda de zelosos pais.

Uriel perguntou a Gerbrandom:

- Mestre Gerbrandom, será que, em outros expurgos, tomaram-se algumas medidas defensivas contra os alambaques?

Gerbrandom pensou um pouco e respondeu com segurança em sua voz:

- Em todos os lugares, os dragões empedernidos tornaram-se um instrumento de resolução de problemas e cancros seculares. Explico-me: durante séculos, os seres foram constituindo sociedades onde imperaram determinadas elites. Essa classe social dominou por meio de leis e instituições sociais as demais classes, nunca permitindo que crescessem além de um determinado limite. Agora, com a atuação dos alambaques, com os meios de comunicação, com a religião levada aos extremos, as classes começam a entrar em conflito.

Gerbrandom fez uma pequena pausa.

- Não pensem que, neste nível de evolução, os homens resolvem suas diferenças com o uso da razão. Pelo contrário, as diferenças são resolvidas com lutas armadas, guerras fratricidas e verbalização acirrada. No entanto, não me canso de repetir que Deus, nosso Amantíssimo Pai, usa o mal para o bem. Todos esses conflitos resolvem os problemas, mesmo que a primeira impressão seja a de que eles estejam sendo agravados. Uma guerra fratrici-da acaba por solucionar os problemas que estavam aparentemente esquecidos. Eles trazem à tona velhos ódios que acabam sendo resolvidos com doses superlativas de dor e sofrimento.

Fez-se um silêncio constrangedor na sala. Todos sabiam que Gerbrandom estava certo, mas era triste saber que haveria tanto sofrimento, desgraça e destruição quando tudo podia ser resolvido com bom-senso e sentimento de fraternidade. No entanto, os mais sábios sabiam que não se pode pedir a alguém o que ele não tem ainda.

Varuna falou de forma doce, mas categórica:

- Bom! Temos que tomar algumas atitudes práticas. Devemos lançar nossos guardiões contra os alambaques empedernidos, aprisioná-los e bani-los para a Terra o mais rápido possível. Temos que atacar seus redutos e combatê-los com as armas poderosas que trouxemos de Karion. Deste modo, iremos minando suas forças e destruindo gradativamente quadrante por quadrante do astral inferior.

Com estas palavras, ele trouxe todos de volta ao magno problema que tinham pela frente. Vartraghan tornou-se o responsável pela operação, já que seus guardiões seriam largamente utilizados. Alguns obreiros de Karion, especialistas em emissão de raios, ofereceram-se, já que sua alta tecnologia iria favorecer em muito. Os raios desintegradores eram superiores aos usados em Ahtilantê. que atingiam áreas pequenas, exigindo grande consumo de energia mental por parte dos operadores. Karion tinha desenvolvido um multiplicador de força mental que fazia com que o que fosse mentalizado seria grandemente aumentado.
• • •
Enquanto os fatos se desenrolavam em Ahtilantê, na Suméria. Lachmey, de acordo com o plano traçado por Mitraton e Varuna preparava-se para acordar os alambaques. Naturalmente, dentro do plano minucioso e detalhado, não iriam acordar todos, mas apenas alguns, especialmente aqueles do grupo de Drak-Zuen, que fora um dos primeiros a virem à Terra.

Lachmey com Vayu, chefe dos guardiões ahtilantes localizados na Terra, dirigiram-se para uma série de hangares, localizados no novo umbral da Terra. O planeta ainda não tinha astral inferior, que logo seria criado pelas emanações mentais dos alambaques e dos mijigabaks; portanto, os hangares estavam no limite dos planos astrais médios e inferiores, ainda a serem criados.

Dentro de um dos hangares, havia várias linhas de camas onde estavam dormindo não só vários alambaques, como também inúmeras pessoas deformadas. Lachmey e Vayu conversavam, enquanto passavam por entre as filas de cama.

- Mestre Vayu, é tempo de acordar os alambaques. Os renascidos de Capela já alcançaram a maturidade. Está na hora dos alambaques agirem sobre eles, influenciando-os e conduzindo-os às grandes realizações da civilização.

Vayu, de forma um tanto sombria, pois conhecia bem aqueles espíritos decaídos, respondeu, taciturno:

- Também é tempo de violência e guerra.

Lachmey, que já acompanhara o expurgo em seu planeta natal, também conhecia as sequelas do despertar da civilização, quando consumada por espíritos degradados.

- É inevitável!

Vayu entrou por uma das passagens entre as camas e dirigiu-se para um dos leitos ocupados por ninguém menos do que Oanes. Em sua mão, ele tinha um pequeno equipamento que emitia um baixo zumbido. Ele começou a passar o aparelho, iniciando pelos pés do adormecido em direção a cabeça, liberando pequenas doses de energia. Ele estacionou o equipamento nos vários centros de força por alguns instantes, que começavam perto das zonas sexuais, subindo até a cabeça. Oanes estrebuchou ligeiramente e despertou gradativamente. O alambaque se estirou e se ergueu da cama, olhando em volta para retomar a consciência de onde estava. Passado alguns minutos, ele reconheceu Vayu e se levantou.

Enquanto Oanes se recuperava, Vayu, sob a assistência de La-chmey, acordou vários outros do grupo de Drak-Zuen, sempre repetindo o mesmo procedimento. Decorridos longos minutos de recuperação, o grupo de alambaques acompanhou Vayu para fora do hangar.

Vayu os levou num rápido voo até as planícies da Suméria. Oanes e seu grupo se assustaram com o aspecto seco do lugar. Não se parecia em nada com as imagens que Varuna havia externado, quando de sua visita a Drak-Zuen, para convencê-los a virem de bom grado para aquele lugar.

- Mas que tipo de lugar é este? É aqui que o mykael nos disse que nós nos tornaríamos reis, deuses e profetas?

Vayu, com um sorriso irônico nos lábios, respondeu-lhe, com uma pitada de sarcasmo.

- É aqui mesmo, juiz Oanes. Há tudo para ser feito. Siga seu instinto. Seja atraído pela força dos renascidos e aja sobre eles, orientando-os.

Mudando de tom, como se quisesse alertá-los para os perigos da evolução, falou num tom mais severo.

- Tenha cuidado, entretanto, para não os conduzir aos caminhos da guerra e do sangue. Não se esqueçam da lei. Tudo o que vocês fizerem, vocês receberão de volta!

Assim dizendo, Vayu partiu, deixando-os a sós na Suméria. Os alambaques não estavam nada satisfeitos com os arranjos e o clima inclemente da Suméria. Imaginavam encontrar um lugar já pronto, onde só precisariam atuar sobre os renascidos, recebendo homenagens e presentes.

Oanes se concentrou, como se perscrutasse o ambiente. Ele parecia um grande animal farejando o ar à procura de odores. Em poucos minutos, sua mente parecia ter localizado uma fonte de pensamentos similares aos seus, e ele partiu, voando junto com seu grupo. Eles, atraídos por uma indefinível vibração mental, chegaram perto de um grupo de homens jovens que estavam descansando e conversando, debaixo de uma árvore.

Tratava-se da aldeia de Shurupak e o grupo era liderado por um homem jovem, chamado Nimrud. Ele estava queixando-se da vida aos amigos.

- Este é o lugar mais aborrecido do mundo! Não acontece nada de novo. Eu estou cansado de não fazer nada. Detesto trabalhar nos campos.

Um dos seus amigos respondeu. É Urgar, seu inseparável companheiro.

- E você espera o que deste lugar horrível?

- Eu não sei. Qualquer coisa.

Oanes prestou atenção àquela conversa. No início, a diferença de língua o impediu de entender o que eles diziam; portanto, ele se concentrou na mente do interlocutor e, durante alguns minutos, o perscrutou detidamente.

- Eu conheço este homem. Ele tem um corpo diferente, mas eu juro que eu o reconheço.

Ele se demorou mais alguns segundos, analisando Nimrud, para, subitamente, como se tivesse sido tomado de uma revelação, exclamar para seus amigos.

- Eu já sei! Ele era Mureh, meu mijigabak favorito.

Os demais conheciam bem Mureh. Um mijigabak de estirpe, quase um alambaque. Oanes, satisfeito com sua descoberta, soltou uma gargalhada e falou com sarcasmo.

- Você pode correr, mas não pode se esconder. Quer dizer que agora você se chama Nimrud. Muito bem, Nimrud, nós veremos o que podemos fazer para lhe dar alguma ação. Se é ação que você quer, nós lhe daremos em quantidades superlativas.

Os alambaques se sentem em casa: descobriram seus iguais. Satisfeitos, começaram a perscrutar os demais, descobrindo velhos conhecidos, quase todos mijigabaks de Drak-Zuen. Iriam começar a atuação sobre os renascidos. Faltava apenas uma circunstância propícia para dar início ao processo de civilização.
Quinze guardiões se aventuraram nas trevas. Um deles havia visto um dos seus parentes e, sem as armas adequadas, foram à procura do infeliz. O chefe do grupo acreditava que estava longe dos principais centros de alambaques e, no máximo, iriam encontrar transmudados e espíritos decaídos. Ele não sabia que Razi-daraka havia dado ordens para capturar guardiões com as novas armas.

O chefe do grupo estava preocupado, e os alertava constantemente.

- Nós estamos nos aventurando em terreno perigoso. Nós teremos que voltar, em breve.

Um dos guardiões insistia em continuar, pois seu amigo estava certo de encontrar seu irmão, caído há muitos anos nas trevas.

- Um de nossos homens está buscando o irmão que deve estar perto daqui. Nós devemos estar bem perto do lugar onde ele o viu no outro dia.

Arrependido de ter autorizado a incursão, o chefe do grupo queria retornar, o mais rápido possível.

- Sim, eu sei. Mas nós estamos bastante desprotegidos. Nós não temos as armas novas de Karion. Neste território, os alambaques levam nítida vantagem sobre nós.

Naquele instante, para desespero do chefe do grupo, começam a cair sobre eles bolas negras de material fluídico, que feriu vários guardiões.

- Protejam-se. Tentem atirar nos que estiverem mais próximos.

Uma verdadeira batalha se iniciou. Os guardiões, por orgulho.

não queriam abandonar o campo de luta, mas os alambaques estavam levando nítida vantagem sobre eles, devido ao seu maior número. A luta tornara-se desigual, e o chefe do grupo deu ordem de retirada.

- Retirem-se rapidamente. Reagrupem-se e partiremos imediatamente.

Os guardiões começaram a se reagrupar, para num único bloco, volitarem para longe daquele lugar insalubre. A vibração do lugar era acachapante e não permitia rápidos voos individuais, para aquele tipo de almas. Todavia, três deles estavam feridos e caídos no chão. Imediatamente, os mijigabaks se apossaram deles.

O chefe do grupo tentou ainda uma manobra para resgatá-los e ordenou um ataque desesperado.

- Voltem e vamos libertá-los.

O grupo, já reagrupado, retornou os poucos metros que os separavam dos três prisioneiros, mas os mijigabaks, sob o comando de um poderoso alambaque aliado de Razidaraka, barrou-lhes a passagem. Nestas paragens hediondas, os guardiões, que eram na maioria mijigabaks arrependidos, não eram mais poderosos do que os antigos companheiros. Podiam estar se dedicando ao bem, mas ainda não tinham o poder mental que permitiria dominar os revoltosos com sua vibração superior. Agora, no ponto crucial da refrega, mais alambaques apareceram, vindos de todos lugares, e os guardiões se viram forçados a fugir, enquanto deixavam os três companheiros nas mãos dos alambaques, que se rejubilaram com uma das raras vitórias sobre as forças da luz.

Os prisioneiros foram levados, desacordados, para a fortaleza de Razidaraka e aprisionados numa masmorra subterrânea. Havia sempre quatro monstruosos mijigabaks tomando conta deles. Não havia como fugir; estando desacordados, não se podia esperar nenhuma reação por parte deles. Um espécie de capacete fluídico, negro, viscoso, envolvia a cabeça dos guardiões aprisionados, fazendo-os hcar em estado de profundo coma.

Razidaraka, exultante, recebeu os vitoriosos em grande estilo. A magra vitória foi celebrada com estardalhaço e o número de prisioneiros foi exagerado enormemente. A divulgação para os outros alambaques revoltados foi feita imediatamente. Razidaraka, no entanto, escondeu o fato de que esses incautos nem sequer faziam parte do grupo de Vartraghan, e muito menos de que eles não tinham as armas psicotrônicas especiais dos karionenses. Mas, para quem estava sendo derrotado em todas as frentes e vendo a deserção frequentando suas fileiras em número insuportável, qualquer vitória de polichinelo era motivo de júbilo.

- Vitória! A vitória é nossa. Os privilegiados não sairão vitoriosos desta confrontação. Nós lutaremos até a nossa vitória final. Salvem os poderosos alambaques.

Os remanescentes do grande grupo inicial também exultaram. Tudo devia ser feito para tapar a verdade.

Neste ínterim, o chefe do grupo se reportou ao seu superior, que, após as devidas e enérgicas repreensões, informou a Saercha. O Ministro convocou Varuna e sua equipe com urgência.

Minutos depois, Varuna se encontrou com o seu chefe imediato e foi informado do ocorrido. Vartraghan perguntou a Saercha:

- O senhor sabe que grupo de alambaques nos atacou?

- Não. Cabe a vocês descobrirem. Meus guardiões não estão tão bem preparados quanto os seus para recuperarem seus colegas. O que você pretende fazer?

Todos olharam para Varuna. Ele respondeu com serenidade.

- Primeiro, vou contatar os alambaques que nos são heis e eles investigarão quem nos atacou. Para tal, Vartraghan, peço-lhe que converse com eles, imediatamente. Tenho fortes suspeitas de quem seja o grupo que iria se aventurar a tentar capturar nossos guardiões, mas aguardemos a confirmação de Vartraghan.

O guardião-mor saiu da sala, volitou com rapidez até as densas trevas e conversou com um grupo de alambaques que trabalhava em conjunto com seus guardiões. Como Razidaraka já havia alardeado sua vitória em todos os cantos, com o intuito de recuperar seu abalado prestigio, foi fácil detectar o responsável, e onde estavam os prisioneiros. Vartraghan retomou, num átimo, e informou a Varuna.

O coordenador do exílio baixou a cabeça, contristado, e, após alguns segundos, falou num tom decidido.

- Tenho resistido à tentação de usar a lua negra de Karion. Sei dos seus efeitos terríveis sobre o corpo astral, danificando-o grandemente, o que torna a recuperação demorada e dolorosa. No entanto, pelos relatórios que recebi das equipes de Vartraghan, a fortaleza de Razidaraka é protegida por densos campos de energia que os guardiões têm dificuldade em vencer. Deste modo, vamos cercar a sua fortaleza e solicitarei de mestre Hamaburba que bombardeie a fortaleza de Razidaraka.

Imediatamente Vartraghan, extremamente preocupado, obtem-perou:

- Mas, mestre Varuna, nossos homens estão encarcerados no seu interior. O raio-trator irá atingi-los também.

- Bem lembrado, caro Vartraghan, mas meu plano é retirá-los antes que o raio atinja a fortaleza.

- Mas como? A fortaleza é inexpugnável aos meus guardiões. Eles não conseguem varar as pesadas vibrações que o cercam.

- Eu sei. Mas eu não terei nenhum problema de penetrar naquele antro.

- Você pretende recuperá-los? Pessoalmente? Sozinho? - perguntou, atônito, Saercha.

- Posso levar Vartraghan comigo, mas tenho um assunto pessoal a resolver naquele lugar.

Saercha olhou para Gerbrandom de forma inquisitiva. Será que Varuna conhecia a história dos irmãos Mainyu? Gerbrandom respondeu-lhe mentalmente que achava que Varuna não sabia deste fato. Ele, pelo menos, não mencionara nada ao coordenador do exílio.

Com o silêncio que caíra sobre todos, Varuna levantou-se e ordenou, sereno, a Vartraghan.

Vamos! Os prisioneiros não devem ficar presos muito tempo.

Eles saíram da sala, enquanto Uriel se comunicava com Ha-

maburba, o chefe dos karionenses, que haviam ficado em Ahti-lantê, para ajudar no expurgo. Ela lhe deu as coordenadas e a grande lua negra de Karion começou a se movimentar rapidamente para se localizar sobre a fortaleza de Razidaraka, a milhares de quilômetros de altura. Para tal, ela devia baixar o seu próprio padrão vibratório e preparar-se para lançar uma carga majestosa de raios-tratores. Seria a primeira vez que ele entraria em ação em Ahtilantê.

As forças de Vartraghan cercaram a fortaleza de Razidaraka, em menos de duas horas. As bombas luminosas riscavam o céu, caindo sobre a fortaleza, mas não lhe causavam nenhum tipo de destruição estrutural. A vibração da fortaleza era extremamente densa, constituída de resíduos mentais não só de Razidaraka, como também dos seus alambaques e mijigabaks. Assemelhava-se a um grande depósito de lixo e, por esta razão, as energias lançadas contra ela se dissolviam em contato com as energias deletérias. Os guardiões, na medida em que chegavam perto da aura negra, sentiam-se mal, com ânsias de vômito, tonteiras e mal-estar generalizado, como se estivessem atacados de uma febre malsã.

Varuna olhou para as tropas de Vartraghan, que despejam bombas luminosas, e comentou:

- Estou observando que seus guardiões não estão usando as armas de Karion.

- Realmente. Descobrimos que elas são muito mais sofisticadas do que se podia imaginar. Elas foram idealizadas para serem usadas por um determinado tipo de espírito, e a maioria dos meus guardiões não tem a capacidade de operá-las. Deste modo, tive que recrutar e treinar espíritos do astral médio, já quase do astral superior. Não foi muito fácil, pois almas deste quilate não têm muita aptidão para serem guardiões.

- E onde estão?

Trabalhando na crosta. O trabalho nas trevas obriga-os a baixar demais o padrão vibratório e provoca a perda momentânea de poder energético e é por demais sofrido para eles. Só os uso para capturas na crosta.

- Qual é a sua sugestão?

- Temos que destruir o astral inferior e obrigar os alambaques e mijigabaks a partirem para a crosta e lá nós os capturaremos com facilidade.

Varuna pensou por uns instantes e decidiu-se:

- Vamos aprisionar Razidaraka e depois destruiremos o astral inferior, quadrante por quadrante, avisando aos alambaques renitentes o que iremos fazer. Quem se render será tratado com leniência. Os que recalcitrarem serão atingidos pelo fogo astral. No final, usaremos a lua negra, e somente para aqueles que estiverem enfurnados nos grandes abismos, onde a captura seria por demais cansativa e demorada.

Vartraghan sorriu. Era isto que ele queria. Na realidade, ele preferia passar a lua negra sobre todos, mas Varuna sabia que isto seria um terrível castigo. Ele preferia ser mais metódico, até porque existiam muitos deportáveis ainda renascidos. De nada adiantava exterminar os focos de resistência, se os próprios renascidos os alimentavam com suas atitudes deploráveis.

- Vamos ingressar na fortaleza.

Varuna segurou o braço de Vartraghan para levá-lo para dentro. Ele precisava vencer a barreira vibracional. Para um espírito do astral superior tal façanha era de grande simplicidade; bastava concentrar-se, vibrar em padrão mais elevado que todos aqueles fluídos deletérios nem sequer o atingiriam.

Num átimo, ele e Vartraghan entraram como um raio de luz na fortaleza, chegando às masmorras. Ele baixou sua vibração e apareceu para os quatro mijigabaks que montavam guarda. Ao aparecer, assim de supetão, os mijigabaks se assustaram. Como reação natural ao susto de ver um espírito ‘materializar-se’ no seu plano, eles o atacaram incontinenti. Varuna levantou a destra e os acalmou com sua energia serena. Eles pararam, estáticos, como se tivessem sido adormecidos de repente.

Varuna lançou uma vibração sutil que envolveu a cabeça dos prisioneiros, destruindo o capacete fluídico que os envolvia. Com isto, eles acordaram e se livraram das correntes que o prendiam. Reconhecendo o guardião e o coordenador do exílio, precipitaram-se em sua direção.

- Mestre Varuna! Nós fomos apanhados. Como podemos sair deste lugar?

- Da mesma forma que nós entramos. Segure os braços de Var-traghan, que ele os levará para fora.

- Você não vem conosco? - perguntou Vartraghan.

- Ainda não. Tenho um compromisso muito especial com alguém deveras importante. Vão, agora! Eu sairei a tempo.

Os três guardiões se apressaram. Um deles se agarrou no braço direito do guardião-mor, enquanto os outros dois se seguraram no braço esquerdo. Vartraghan mudou seu padrão vibratório e como uma flecha saiu da fortaleza, levando consigo os guardiões.

Varuna andou pelos corredores escuros, passando por vários soldados alambaques, sem que eles percebessem sua presença. Ele entrou no grande salão do trono e, assim que o fez, baixou seu padrão vibratório e se tornou visível.

O choque de sua entrada foi enorme. Vários alambaques ficaram estáticos e alguns mijigabaks cobriram o rosto, pois a luz que ele emanava os cegava. Razidaraka não o conhecia, mas de tanto ouvir descrição de seu poder e de seu modo elegante de tratar os demais alambaques, suspeitou que devia se tratar do grande myka-el. Reagindo, quase por instinto, ele comandou seus mijigabaks.

- Agarrem o mykael.

Antes que os mijigabaks pudessem se recuperar de seu susto, Varuna ergueu os braços e uma luz saiu de suas mãos, iluminando ainda mais o enorme e lúgubre salão. A luz choveu sobre os mijigabaks, que assimilaram aquela luminosidade serena e se tranquilizaram. Muitos ficaram estáticos, com uma expressão estúpida, anestesiados pela dulcíssima emanação do mykael. A luz que saia de Varuna começou a derreter o palácio de Razidaraka, como o fogo derrete a manteiga. As paredes começaram a se esmigalhar lentamente e pedaços do teto desabaram no salão.

Varuna se encaminhou, decidido, como se deslizasse, flutuando a poucos centímetros do solo, em direção a Razidaraka.

- Meu negócio é com você, Razidaraka.

Razidaraka levantou-se do trono e, cheio de ódio e com uma expressão má, vociferou.

- Isso é o que você pensa, seu mykael de m... Eu vou acabar com sua empáfia.

Razidaraka se concentrou e de suas mãos saiu uma gosma negra, viscosa, imunda. Ele criou uma grande bola negra, de um metro de diâmetro, e a arremessou contra Varuna, que calmamente ergueu a destra. A bola, na medida em que viajava em sua direção a alta velocidade, se transformou em milhares de minúsculas pétalas luminosas, que iluminaram ainda mais o lúgubre local. Razidaraka, furioso, tentou novamente. Desta vez, a bola foi menor; seu poder estava se esvaindo. Varuna repetiu o gesto e, novamente, a bola preta se transformou em pétalas luminosas, que se espalharam pelo ambiente. Na terceira vez, absolutamente fora de si, Razidaraka, tentou lançar uma pequena bola negra, que, antes que pudesse sair de suas mãos, Varuna transformou em uma bola de luz, que atingiu Razidaraka. A bola de luz o acertou no meio do peito, no centro de força cardíaco, eletrificando-o e lhe deu um choque brutal. Razidaraka caiu de joelhos, sem forças, sob o impacto da energia luminosa. Quando ele tombou, os alambaques fugiram amedrontados. Em poucos segundos, o grande salão ficou vazio. Ficou somente Varuna e Razidaraka.

O grande espírito, que mantivera a serenidade, o tempo todo, começou a falar de um modo plácido, gentil e amoroso. Há um calor humano em sua voz.

Meu amigo. Não tente mais qualquer outra coisa. Venha comigo. Logo, este lugar será completamente destruído. Não há mais nenhuma razão para você continuar esta luta.

O velho demônio tentou se levantar, mas suas forças o haviam abandonado. Ele se esforçou para resistir e falou com grande dificuldade.

- Me render, jamais. Ir para onde com você? Para o planeta Azul? Você pensa que eu vou querer renascer novamente?

- Renascer é a lei, meu amigo.

- Não para você, seu privilegiado. Você não tem que renascer novamente, não é mesmo?

- Não há nenhum privilégio para quem quer que seja. Todos, sem exceção, têm que renascer muitas e muitas vezes. Se alguns alcançaram os ápices da luz, e não há mais necessidade de renascer, é porque eles passaram por todos os sofrimentos de várias existências. Você também poderá alcançar estas dimensões. Venha comigo! Eu o ajudarei por todos meus meios.

Razidaraka, ainda sob a influência da imensa descarga energética que o havia atingido, respondeu, num tom de voz choroso. Na realidade, ele não redarguira a Varuna, mas a si próprio.

- Você não entende. Eu não posso renascer. Eu conheço muito bem a lei. Eu terei que pagar por todos os crimes que cometi. A dor seria insuportável. Eu serei humilhado e terei que renascer incontáveis vezes. De minha atual personalidade, o grande Razidaraka, só ficará pálida lembrança. Serei estropiado e esmigalhado pela roda do destino, que há de me dilacerar como se eu fosse feito de papel. Não, isto não pode acontecer comigo. O castigo é por demais terrível. Minhas dívidas para com a lei são imensas.

Varuna não podia ficar indefinidamente argumentando com ele. Em breve instantes, a lua negra estaria sobre eles, e Hamabur-ba tinha ordem de atirar assim que estivesse em posição. Varuna, por estar vibrando em outra dimensão, não seria afetado, mas ele queria salvar Razidaraka de si mesmo.

A lei é dura, mas não obriga ninguém a carregar um fardo mais pesado que ele pode levar. Você não pagará todos seus crimes em uma única existência. Você terá bastante tempo para modificar sua atitude. Venha comigo. Nós não temos muito tempo. A lua negra estará logo sobre nós.

Neste momento, Razidaraka lembrou o vaticínio da velha feiticeira - até ela o abandonara, fugindo de sua crueldade e maus tratos. Ele lembrou que ela havia previsto que ele só seria derrotado quando as três luas se alinhassem. Ele não conhecia a lua negra artificial que viera de Karion e, reunindo as últimas forças, buscando do fundo de seu ser o ódio comburente, vociferou, em voz agora já mais forte, levantando-se de sua posição prostrada e humilhante.

- Eu nunca serei derrotado. Isto só acontecerá quando as três luas estiverem alinhadas. Não há uma terceira lua em nosso mundo. Isto só pode significar que, no final, eu serei vitorioso.

Varuna, respondeu-lhe, apontando para cima:

- Então, olhe. A lua negra está se alinhando com as duas luas de Ahtilantê. Seu tempo findou-se. Esqueça toda esta tolice e venha comigo.

Razidaraka olhou para cima e viu uma lua negra que se postou em frente às duas outras luas naturais, eclipsando-as. As três luas estavam perfeitamente alinhadas. Subitamente, ele ficou horrorizado. A velha tinha razão, afinal. Por alguma estranha magia daquele mykael detestável, ele fez aparecer uma lua negra. Mas seu orgulho, sua vaidade, sua prepotência e sua soberba eram doentios, e, no meio de sua insanidade, ele reagiu. Sentiu que fora derrotado, mas queria cair com a cabeça erguida. Ele, Razidaraka, o símbolo do mal, a personificação do diabo, iria ao fundo como um capitão em seu navio, como um general derrotado que se lança à morte na frente de seus soldados e como um tolo que não sabe reconhecer uma derrota.

- Não! Eu não irei. Eu estarei em meu trono.

Num último rasgo de loucura, de completa insanidade, sem atinar que a lua negra lançará um raio que irá dilacerá-lo em tiras e pedaços, lançando-o na mais sórdida das loucuras por séculos, ele se arrastou até o seu trono, símbolo de sua majestade. Com extrema dificuldade, sentou-se no seu trono, um tanto torto, quase decomposto, e bradou:

- Eu sou Razidaraka, o mal supremo de Ahtilantê.

Varuna baixou a cabeça. Uma profunda tristeza tomou conta daquele grande ser. Ele também havia sido derrotado; desejava a regeneração daquele ser mais do que qualquer outro. Sentindo que a lua negra ia disparar seu raio, ele volitou para fora como uma seta, deixando o grande salão, com o demônio derribado sobre o trono.

Naquele instante, um grande raio de luz prateado saiu da lua negra e atingiu a fortaleza que derreteu como manteiga no fogo, com uma velocidade assombrosa, quase instantânea. O estrondo era ensurdecedor, como se milhões de relâmpagos houvessem caído ao mesmo tempo.

O raio tinha a propriedade de destruir tudo que está dentro daquela frequência, mas também atraía todos os espíritos que vibravam naquele diapasão. Por isto, dentro do raio, podia-se ver as almas que eram guindadas em alta velocidade até a grande esfera negra. Razidaraka foi atingido em cheio pelo raio, desmaiando, e foi sugado com extrema violência, arrancado de sua fortaleza, sendo levado para dentro da lua negra.

Dentro do imenso navio esférico, as almas decaídas reapareceram, ‘materializadas’, fortemente queimadas, desfiguradas e desfalecidas. Alguns enfermeiros ahtilantes as levaram em macas sob a vigilância de guardiões fortemente armados e as transferiram para enfermarias especializadas. Razidaraka foi colocado numa das várias enfermarias. Ele estava em estado lamentável, gemendo de dor e desacordado.

Varuna e seus principais assessores foram até a lua negra, para ver o estado em que estavam os infelizes. Andaram por várias enfermarias, até que chegaram ao leito onde um Razidaraka irreconhecível estava em decúbito dorsal. Varuna aproximou-se dele e, com um olhar profundamente triste, proferiu palavras, que quase pareceram uma prece, àquele espírito transviado, mas poderoso.

- Não precisava ter sido deste modo, meu irmão. Eu espero que Angra Mainyu deixe de existir em seu coração e que um homem novo possa renascer no planeta Azul.

Gerbrandom, que estava ao seu lado, se deu conta de que Varuna sabia que Razidaraka havia sido seu fratricida irmão Angra Mainyu. Desde quando ele conhecia esta fementida história? Seria um mistério, pois Varuna jamais mencionou ou mencionaria este episódio de sua sofrida existência, em nenhuma época.

Enquanto a lua negra se afastou de onde havia sido a fortaleza de Razidaraka, os raios vermelhos do sol Capela, finalmente, conseguiram atingir aquelas paragens de sofrimento e ignominias, levando a luz do Amantíssimo Pai.

• • •
Após passarem mais de duas horas, observando os recolhidos pelos raios-tratores da lua negra, um dos guardiões informou algo a Vartraghan que o fez comentar, um tanto contrariado.

- Nós capturamos quase todo mundo, mas Garusthê-Etak e um grupo grande de mijigabaks fugiram para a crosta de Ahti-lantê.

Varuna sabia que aquele demônio, em especial, era um perigo em potencial. Sua atuação sobre Katlach fora de grande importância na declaração da guerra. É verdade que ele apenas empurrou o ditador para o objetivo que ele tinha se proposto, mas não se deixa um ser tão vil solto, especialmente na crosta, onde os renascidos não teriam como se proteger de sua vibração caliginosa. Varuna respondeu, com certa urgência em sua voz.

- Agora, será bastante fácil capturá-los. Vamos atrás deles imediatamente. Eles deixaram um rastro visível. Mas, desta vez, traga seus novos guardiões com as armas de Karion. Esta será a batalha decisiva para testá-los.

Eles partiram da lua negra, enquanto Vartraghan dava ordens para um dos seus imediatos para reunir a nova guarda para um combate que se antecipava como memorável. Ele também desejava mostrar sua nova tropa a Varuna, e estava ansioso para prender Garusthê-Etak.

O rastro fluídico indicava que os fugitivos haviam se homiziado num grande matadouro, numa das cidades de grande porte de Ah-tilantê. Eles haviam fugido para longe da fortaleza de Razidaraka. evadindo-se quando Varuna entrara no grande salão. Vendo que o mykael em pessoa vinha atrás deles, eles partiram, deixando Razidaraka ao seu próprio destino.

Varuna chegou ao matadouro junto com Vartraghan. Em poucos minutos o céu se encheu de riscos luminosos. Eram centenas deles cruzando o espaço. Vinham em direção a Varuna e, na medida em que tocavam o solo, transformaram-se em seres espirituais. Era a nova guarda de Vartraghan.

Sua presença era bem diferente dos guardiões comuns, que se apresentavam vestidos quase sempre de preto. Eles usavam uma roupa prateada, com um capacete da mesma cor, com laivos de dourado. Podia-se notar que eram espíritos bem mais evoluídos do que os guardiões tradicionais. Se estavam fazendo tal trabalho, era por abnegação e devotamento a uma causa superior, pois não tinham as feições grosseiras dos exércitos de mijigabaks redimidos, que eram os guardiões tradicionais.

Vartraghan e Varuna, com o grupo de novos guardiões, entraram no matadouro de animais. O ambiente não podia ser pior, pois, além da vibração dos animais mortos, havia um odor pesti-lencial no ar, formado pelas emanações dos mijigabaks.

- Aqui estão eles. Agora está na hora de mostrar o poder dos meus novos guardiões.

Havia centenas de mijigabaks, conduzidos por Garusthê-Etak. Eles estavam no matadouro, muitos deitados, outros conversando num linguajar chulo, enquanto, num canto, estava Garusthê-Etak, sugando de modo horroroso a vitalidade dos animais mortos. Ele parecia estar em êxtase, drogado e aparentemente feliz.

Vartraghan deu a ordem de aprisionar todos. Os guardiões se movimentaram a uma velocidade incrível. Os mijigabaks, sentindo que estavam sendo cercados por forças poderosas, mesmo que ainda invisíveis, começaram a rugir como animais acuados. No entanto, os guardiões, com as armas de Karion, que pareciam um prolongamento de suas mãos, encaixadas como se fossem luvas, começaram a atirar. Eles haviam colocado os disparadores na vibração dos mijigabaks e, com isto, o raio, ou melhor, a onda vibratória, ao atingi-los, os derrubava, inconscientes, ao solo.

Garusthê-Etak estava tão enlouquecido, após sugar os fluídos vitais dos grandes animais, que estava num canto, devaneando. Vartraghan, deu ordem a dois de seus guardiões, apontando para o monstro:

- Eu quero Garusthê-Etak. Capture-o.

Os guardiões se deslocaram por trás de Garusthê-Etak, que não os podia ver. Eles colocaram um tipo de rede em torno dele e a acenderam. Aquilo criou um vórtice de energia impressionante, despertando o demônio e o fazendo entrar em pânico. Ele tentou fugir, gritando terrivelmente, mas, na medida em que o vórtice se intensificava, ele recebeu uma descarga maciça, como se fosse uma corrente elétrica percorrendo seu corpo. Alguns pedaços de seu corpo astral se despregaram, sob o efeito da descarga fluídica, e ele caiu no chão, estrebuchando de forma horrível. Após alguns segundos de horror, ele parou, abriu os olhos de forma desmesu-rada, sua bocarra, cheia de dentes pontiagudos e sujos, se fechou num aperto de dor e, finalmente, ele desmaiou. Os guardiões fecharam a rede, envelopando-o, e o carregaram embora, como se fosse uma trouxa de roupa suja.

Varuna, que acompanhava a cena, estava entristecido, pois seu coração compassivo não gostava de ver seres, por pior que fossem, sofrendo. Nesta hora, ele comentou com Vartraghan:

- Do jeito que este espírito está endurecido e animalizado, ainda escutaremos falar muito dele, no planeta Azul.

Vartraghan meneou a cabeça em assentimento. Sim, Garusthê--Etak ainda iria provocar muita carnificina.

CAPÍTULO 8

Começaria a fase final do expurgo, quando os covis dos demais alambaques revoltosos seriam destruídos, obrigando-os a sair para a luz do dia, onde se tornariam presas fáceis dos guardiões. Vartraghan e os seus guardiões contatariam os chefes alambaques, convidando-os para dentro de dois dias se juntarem na frente da Instituição Socorrista de Sraosa, onde a primeira operação teria efeito. Os amigos de Lachmey operariam os aparelhos, e os alambaques que viessem poderiam mentalizar suas energias mentais para os equipamentos, dando-lhes energias adicionais, que ajudariam a acelerar o processo. Os que não quisessem estariam avisados que raios e trovões cruzariam os céus negros do astral e que deveriam se abrigar da melhor maneira que pudessem.

Durante dois dias, os guardiões e os próprios chefes alambaques fiéis a Varuna correram todos os cantos espalhando as notícias. Em alguns lugares, os espíritos vociferavam e gritavam insultos aos guardiões, urrando que fossem procurar ajuda em outro lugar. Mas muitos, especialmente os que já estavam há muitos anos no astral inferior, estavam ansiosos por renovarem-se sentiram enorme prazer em trabalhar e se comprometeram a ajudar.

No hora marcada, Varuna e toda a sua equipe composta de mais um milhão de obreiros e cerca de seiscentos karionenses estavam numa enorme planície. Oito operadores estavam sentados numa máquina estranha, que parecia ter oito canhões apontados para o céu, em volta de uma roda gigantesca de vinte e cinco metros de diâmetro e dezesseis rodas menores, colocadas em torno dos referidos canhões.

Durante mais de uma hora que antecedeu o grande momento, chefes alambaques fiéis a Varuna foram se apresentando com seus mijigabaks. Era um desfile de seres estranhos, reptiloides, enormes, mal-encarados, com dentes proeminentes e roupas exóticas. Mais de cinquenta mil seres estavam olhando de forma abrutalhada a máquina que dominava o cenário. Era dia, mas a luz emitida pelo grande sistema duplo de sóis de Capela não conseguia vencer as densas trevas do astral inferior. Os espíritos evoluídos, tanto de Ahtilantê, como de Karion, estavam num outro plano astral, de tal forma que não podiam ser vistos pelos alambaques, mesmo que pudessem facilmente distinguir cada um deles. Dimensionalmente, eles ocupavam o mesmo espaço no tecido espaço-temporal, mas, espiritualmente, eles se sobrepunham e se interpenetravam. Os alambaques não os viam, mas podiam sentir que aquele lugar transmitia a paz e o prazer que lhes faltavam no âmago do ser.

Varuna e Vartraghan estavam visíveis aos olhos dos alambaques, assim como os pequeninos seres operadores de Karion. Os chefes alambaques mais velhos e que detinham maior poder dirigiram-se a Varuna, expressando-lhe saudações e sendo recebidos pelo grande espírito como fraternos irmãos. Ele fez questão de colocá-los em posição de honra, do seu lado direito e informar-lhes que estavam todos esperando a hora marcada.

No momento certo, o equipamento começou a emitir um zumbido e a grande roda, onde repousavam oito canhões apontados para o alto, começou a girar. Varuna olhou para os chefes alambaques e telepaticamente os informou do que estava para vir e que ficassem tranquilos. Eles iriam ver grandes maravilhas, mas que nada poderia atingi-los enquanto estivessem com Varuna. À medida que a grande roda girava cada vez mais depressa, as rodas menores que sustentavam os canhões começaram a girar em falso, iluminando-se e emitindo chispas de luz em todas as direções. Subitamente, um dos canhões disparou um raio para cima. O estrondo que se seguiu foi aterrador. Nada podia ser mais alto e grave do que aquilo. O raio, por sua vez, descreveu um longo arco, como se acompanhasse a curvatura do planeta e, longe dali, caiu como se fosse um meteoro luminoso sobre a superfície do astral.

O estrondo de sua queda foi sentido, e o seria mesmo que tivesse caído a mais de trezentos quilômetros do local onde estavam os alambaques, já que a potência do raio era inimaginável. O chão tremeu a ponto de os alambaques perderem o equilíbrio, e até mesmo os mais velhos dos dragões, acostumados aos piores efeitos de limpeza fluídica que era encetada vez por outra pelos administradores planetários, sentiram um imenso pavor. Os chefes que estavam perto de Varuna sentiram um terror quase incontrolável, mas quando olharam para Varuna à procura de proteção, vendo-o calmo, sentiram-se mais seguros. Menos de dez segundos depois do primeiro disparo, um segundo foi dado, com o mesmo estrondo, e, logo depois um terceiro, um quarto e assim sucessivamente. Os primeiros tiros saíam com diferenças de seis a sete segundos, mas foram se tornando cada vez mais rápidos. De repente, após uns três minutos, cada canhão dava um tiro por segundo.

O barulho era ensurdecedor, mas muito pior era onde os raios caíam. Eles desciam como gigantescas bolas de fogo vindas do céu, vermelhas, atingindo o chão negro, explodindo de forma espetacular. Cada explosão fazia tremer o chão do astral inferior como se fosse um terremoto. Os espíritos que estavam por perto ficavam apavorados. Alguns, que estavam desacordados em profundo coma espiritual, acordavam de forma súbita, ficando totalmente atordoados. Não sabiam onde estavam; sentiam fortes tremores de terra e viam raios rubros riscando o céu, alguns caindo sobre eles de forma impiedosa. Alguns foram atingidos em cheio pelos raios e sentiram uma ardência extremamente forte. Naturalmente, o espírito é imortal, portanto, não podia ser destruído, mas a sensação de dor, terror e da própria morte estampava-se vivamente nas suas mentes. Muitos achavam que iriam morrer, pois não sabiam sequer que já estavam fisicamente mortos.

Varuna orava, elevando seu pensamento para Deus, pedindo que tudo corresse bem e que nenhum de seus irmãos em sofrimento ficasse excessivamente aterrorizado, a ponto de enlouquecer. Sua prece era tão fervorosa e tão dedicada que ele começou a vibrar internamente. De seu peito, onde repousava um coração compassivo e amoroso, começou a brotar uma luz que invadiu todo o seu ser. Um facho fortíssimo de luz, vindo de cima, atravessando as trevas densas, o atingiu, iluminando-o de forma inacreditável. Esse facho de luz foi absorvido por ele, e deu a impressão aos demais de que ele aumentava de tamanho.

Realmente, os espíritos planetários estavam injetando fluidica-mente em Varuna uma quantidade de energia impressionante. Ele cresceu a olhos vistos, mesmo que não se desse conta desse fato. Varuna atingiu a altura de trinta e cinco metros e os alambaques, especialmente os chefes que estavam mais perto, ficaram surpresos e admirados. Um deles levantou sua lança acima da cabeça e começou a bramir vigorosamente:

- Mykael, Mykael!

Os demais o acompanharam e, em menos de dez segundos, mais de cinquenta mil vozes alambaques gritavam:

- Mykael, Mykael!

Seus gritos eram ritmados e empolgantes. Varuna era seu deus, seu líder, seu pai. Era um ser que eles podiam compreender, em quem confiavam e os tratava como se fossem seus amigos. Era justo e severo com os renitentes, sendo compassivo e indulgente com os arrependidos.

Mykael, Mykael!

Os canhões atiravam labaredas quase continuas, que espalhavam fogo fluídico sobre a cabeça dos alambaques. Tornara-se tão intenso que o barulho das explosões fora substituído por um chiado inacreditavelmente alto, quase insuportável. Enquanto isso, os aterrorizados alambaques gritavam “Mykael” de forma ritmada e constante. De suas mentes, na altura de suas cabeças, começara a sair uma luz inicialmente negra, de um material viscoso, como se fosse piche. Gradualmente, à medida que os alambaques se empolgavam e gritavam o cognome de Varuna, a luz escura começou a se transformar numa luz vermelha, extremamente viva. Essa luz se dirigia para a fronte de Varuna, que a recebia e a transformava em luz branca que voltava para os alambaques, banhando-os e trazendo uma impressão de conforto e alegria aos endurecidos no mal, que retribuíam com mais emissão de luzes vermelhas vivas que pareciam pequenas línguas de fogo ou fogos fátuos a volitar por toda a parte. O local estava começando a ficar profusamente iluminado e alguns alambaques não podiam suportar tal luminosidade e cerravam os olhos.

O fogo fluídico, astral e luminoso, que saía dos canhões dos operadores de Karion, estava varrendo sistematicamente cada qua-drante do planeta, tornando o astral inferior incandescente, como se sua superfície estivesse em fogo. Os espíritos, aos milhões, corriam de um lado para outro, fugindo do fogo astral, que dava a impressão de queimar, mas que, na realidade, não os afetava. Alguns, tão abalados, tinham a nítida impressão de que suas peles queimavam e que eram repostas imediatamente para apenas ser queimadas novamente. De fato, era um suplício terrível para aquelas mentes tão endurecidas no mal.

A grande maioria tinha desmaiado de medo e não sentia mais nada. Outros, especialmente alguns chefes alambaques, opositores de Varuna, sentindo por ele uma natural repulsa pelo simples fato de ele ser mais evoluído e, por isso, um privilegiado, na opinião distorcida desses espíritos, logo que viram que aquele fogo não os podia destruir, tornaram-se mais calmos e controlados. Mas, vendo que a maioria estava alucinada, correndo de um lado para outro, com as vestes em chamas e gritando como se fossem dementes, esses chefes e seus sequazes começaram a torturar os alucinados, dando-lhes golpes de clava, agarrando as mulheres e obrigando-as a coisas inconfessáveis; os mais fortes, surrando-os impiedosamente; os fracos, sodomizando-os e torturando-os.

As cenas que se seguiram instigadas pelos chefes alambaques rebeldes foram algo de tão inimaginável que grande parte da noção de inferno transmitida aos habitantes da Terra foi gerada naqueles instantes de horror. O fogo que parecia consumir a todos, junto com os terríveis chefes e mijigabaks revoltados, torturando os infelizes, especialmente os recém-chegados, tornou-se o paradigma do inferno.

Esta mesma operação teve que ser repetida inúmeras vezes. Va-runa dividira Ahtilantê em quadrantes e, sistematicamente, atacava com suas forças cada um deles. Inicialmente, eles avisavam os alambaques da região a ser depurada, e muitos modificavam suas atitudes quando viam as fitas de vídeo da destruição em outros lugares. Outros, mais embrutecidos, achavam que era uma truca-gem - um engodo - e não quiseram abandonar suas cidadelas. A operação era, então, levada a cabo, com a destruição das paragens.

Uma trompa soava alto e distante, durante longos e lúgubres minutos. Era o sinal de que a área iria sofrer a limpeza. Após isso, um silêncio sepulcral se fazia. Aos poucos, vindo de longe, um barulho crescente de explosões e luzes cortava os céus enegrecidos daquelas plagas melancólicas. À medida que a tempestade se aproximava, relâmpagos e estrondos estrepitosos se faziam ver e ouvir. Os alambaques e seus grupos de deformados tomavam-se de terror. Conheciam as limpezas fluídicas, encetadas de tempos em tempos pelos administradores daqueles sítios, que eram muito parecidas com tempestades físicas, mas essa era diferente. O barulho era ensurdecedor. A devastação do local era mil vezes mais poderosa.

Os raios começavam a cair dentro das cidades astrais e, como se fosse uma bomba atômica, esfacelavam toda a área. As casas, os palácios soturnos, as ruas e praças sórdidas volatilizavam-se como manteiga no fogo, com fragor aterrorizante. Os raios atravessavam os corpos astrais dos alambaques e de seus amigos degenerados, dando a sensação de intensa dor, e muitos ainda presos às sensações físicas acreditavam ter sido mortalmente atingidos, caindo no chão, estrebuchando como se estivessem efetivamente morrendo. Muitos desmaiavam. À medida que o local se volatilizava, a luz solar penetrava com intensidade, criando forte fotofobia em alguns alambaques. Outros lugares, situados abaixo da crosta, pulverizavam-se, mostrando a crueza das rochas e das cavernas. Os obreiros entravam em ação logo depois que os raios e as explosões haviam dissolvido os locais, recolhendo os espíritos dementados, assim como aprisionando os alambaques. Era uma operação complexa que envolvia inúmeras áreas e faixas vibratórias do mundo espiritual.

A oportunidade de começar a civilização na Suméria não tardaria a surgir. O canal que os homens de Shurupak começaram a construir logo foi interrompido pelos habitantes de Kulbab. Com isto, os anciãos de Shurupak enviaram seus dignitários e, como não conseguiram reaver suas ferramentas, uniram-se para ir até a aldeia adversária.

Oanes soube do ocorrido e questionou seus pares.

- Que confusão é esta que esses beócios estão armando?

Tajupartak, um dos alambaques de maior projeção do grupo de Drak-Zuen, respondeu, com enfado.

- Tudo isto é por causa de um canal que os aldeões estavam abrindo e os idiotas de Kulbab não deixaram abrir.

- Mas o canal também não ia atender aos habitantes de Kulbab?

- Esses homens são uns parvos.

- São mesmo.

Os alambaques acompanharam o grupo de Shurupak, especialmente porque os seus mijigabaks renascidos iam juntos. Chegaram na aldeia de Kulbab e viram as primeiras gritarias. Oanes, acostumado à violência dos civilizados de Ahtilantê, achou aquela pantomima toda muito fastidiosa.

- Onde eles querem chegar com essa gritaria toda?

Um dos alambaques, já sentindo o cheiro de sangue, fervilhando de emoção, respondeu, com a voz embargada de ódio contido.

- Vamos acabar logo com esta m...!

Não foi preciso muito para que os demais alambaques, tomados do mesmo ódio, atuassem diretamente sobre Nimrud e sua turma. Oanes transmitiu sua raiva sobre Nimrud, que, assimilando aquela vibração densa, passou a ter o mesmo diapasão, partindo para o ataque.

O que se seguiu foi a carnificina que deu origem ao conhecido massacre de Kulbab. A circunstância havia sido propiciada pela ignomínia dos alambaques, com a ajuda dos capelinos renascidos.

Alguns dias depois, quando a aldeia de Shurupak estava ainda em polvorosa com os trágicos acontecimentos, Oanes teve uma ideia que daria a verdadeira dimensão ao episódio.

- Estes meninos são fantásticos. O que eles fizeram em Kulbab foi notável. Se nós tivéssemos um grupo maior poderiamos dominar este lugar.

Um dos alambaques, o mais sanguinário deles, lembrou-se de que havia outros capelinos em outras aldeias, nas redondezas. Oanes concordou:

- Vamos trazê-los. Atuem sobre eles e vamos uni-los sob o comando de Nimrud e Urgar.

Tajupartak lembrou-se de ter visto um grupo de capelinos em Erech, quando Nimrud havia ido, recentemente, ao mercado negociar a safra de seu pai. Oanes exultou:

- Vamos até Adab. Vamos trazê-los para Shurupak.

Em alguns dias, Mesanipada e seu grupo de capelinos da aldeia spccial- de Adab adentrava Shurupak, dando início ao processo de recru-

Ehega- tamento do exército de Nimrud.

Durante vários anos, a limpeza foi sendo efetuada em todos os locais estabelecidos. Muitos alambaques corriam para a crosta para se livrar dos raios desintegradores. Na superfície, eram facilmente dominados pelos guardiões que aplicavam carapaças vibra-cionais em torno deles.

Estando ainda em outra vibração, os guardiões aproximavam-se do alambaque a ser capturado, cercavam-no e aplicavam uma espécie de gaiola vibracional que o envolvia. Mudavam a vibração da clausura e de si próprios e, com isso, aprisionavam o alambaque. O choque elétrico o atordoava, e muitos desmaiavam. O efeito psíquico sobre os demais era aterrador. Subitamente, saída não se sabe de onde, uma luz envolvia o demônio numa espécie de redemoinho, e dois ou três guardiões fortemente armados apareciam no meio da luminosidade, derrubando o capturado que desfalecia incontinenti. Para um espectador desavisado, o susto era grande e tirava qualquer vontade de lutar. Muitos dos acompanhantes do alambaque aprisionado se entregavam em meio a crises de choro convulso. Outros fugiam espavoridos apenas para ser capturados mais adiante por alambaques sob a tutela das forças de Vartraghan.

Com as limpezas fluídicas periódicas proporcionadas pelos espíritos, Ahtilantê apresentou algumas melhoras psíquicas e culturais. A principal atividade a que os ahtilantes começaram a se dedicar com maior ênfase foi uma sistemática luta contra a miséria e as desigualdades sociais. Além disso, um combate contra o crime, a corrupção e as vilanias foi implementado por todos os governos. Aos poucos, no decorrer dos séculos, após terminado o expurgo, os países de Ahtilantê foram se aprimorando de forma gradual, alcançando notáveis níveis de desenvolvimento econômico-social e político.

Na fase final, nos últimos dois anos, os espíritos ahtilantes e os amigos de Karion usaram a lua negra para volatilizar os grandes abismos e as profundas cavernas subterrâneas, para onde haviam fugido alguns alambaques renitentes. Havia a bordo dessa nave negra, raios-tratores que atraíam magneticamente os espíritos adormecidos, os dementados que ainda estavam nas trevas e nos abismos.

Os pestilentos dejetos mentais que formavam o astral inferior, em contato com as luminosidades emitidas, pulverizavam-se como a água em contato com o fogo. A grande nave sobrevoava à distância as trevas e os grandes abismos, agora vazios de seres, e sua luz branco-azulada dissolvia os últimos resquícios de insanidade que, um dia, houvera por mal instaurar-se nos filhos do Altíssimo que teimavam em negar a sua divina procedência.

Após este período, Ahtilantê tornou-se apta a ingressar nos mundos de evolução superior com uma humanidade mais fraterna. Não que não houvesse mais problemas a serem solucionados, mas que seriam resolvidos com uma atitude mais racional e um sentimento mais purificado. Ahtilantê estava no limiar do seu ingresso no concerto dos planetas elevados e, desta forma, iniciando um intercâmbio absolutamente fantástico com outras humanidades de igual quilate espalhadas pelo universo.

Cinquenta anos antes de terminar a extensa purificação de Ahtilantê, quase que totalmente desconhecida dos renascidos, Varu-na ia e vinha inúmeras vezes entre os dois planetas. No planeta Azul, Lachmey comandava os capelinos, trabalhando em estreita cooperação com Mitraton. Em Ahtilantê, Uriel coordenava o processo junto com os irmãos Nasétias, dois espíritos de Karion que pareciam gêmeos de tão parecidos que eram. Gerbrandom ficava mais na Terra do que em Ahtilantê, mas andava sempre muito próximo de Varuna que escutava os seus excelentes conselhos.

Tinham-se passado vinte e três anos desde que o expurgo começara, e Varuna, numa de suas muitas viagens entre Ahtilantê e a Terra, fora visitar, com Lachmey, alguns lugares onde os capelinos haviam renascido. Os primeiros exilados já tinham renascido, há cerca de vinte anos, na Suméria. Lachmey, que coordenava o grupo de capelinos mais evoluído da Suméria, convidou-o para ver o que estava acontecendo, pois os guardiões de Vayu tinham-na avisado de que movimentos revolucionários estavam ocorrendo perto de uma cidade minúscula chamada Erech. Muitos chefes alambaques estavam concentrados nas vizinhanças da aldeia e a excitação era muito grande.

Varuna dirigiu-se para a Suméria acompanhado de Vartraghan, Lachmey e Gerbrandom. Volitaram rapidamente até a aldeia de Erech, baixando o padrão vibratório para que pudessem ser percebidos. Na entrada da aldeia, encontraram uma dúzia de guardiões observando uma longa coluna de homens que se aproximavam. Devia ser por volta de cinco horas da tarde, com o sol começando a declinar no horizonte. A canícula era menos intensa e podia-se observar que a coluna se arrastava lentamente, suada e cansada, pela estrada de terra batida.

Varuna dirigiu-se a Vayu, chefe dos guardiões, que logo o reconheceu, saudando-o como se deve a um grande espírito. Varuna cumprimentou-o e pediu explicações sobre aquela coluna. O guardião-mor logo contou detalhadamente o motivo daquele aglomerado de homens que dentro de minutos alcançaria a aldeia de Erech.

- Houve uma batalha entre os homens de Erech e uma turba grande, bem treinada e armada que se instalou em Shurupak. Os homens de Erech foram derrotados, sendo que, na maioria, foram mortos durante os violentos combates.

Varuna perguntou a Lachmey se aquela turba era de capelinos ou terrestres. Lachmey lhe respondeu:

Os chefes são capelinos. Mais de dois terços da tropa também o são. O restante é terrestre. Estão vindo de vinte e poucas aldeias sob o comando de um capelino cujo nome atual é Nimrud.

Varuna olhou para a coluna, vendo que estava acompanhada de vários alambaques. Cerca de oito grandes vultos negros, com roupagens tipicamente de capelinos púrpuras, estavam volitando pesadamente em torno da coluna. Varuna perguntou a Vayu:

- Você observou aqueles alambaques?

- Sim, mestre Varuna. Temos monitorado a atividade desses alambaques junto aos terrestres. Eles têm influenciado grandemente quase todas as atividades do grupo. Usam muito dois deles de nomes Antasurra e Akurgal, com os quais conseguem se comunicar por meio da intuição, e o tal de Nimrud, que são guiados com relativa facilidade. Um dos renascidos é um perigoso psicopa-ta, um assassino de Ahtilantê, que os alambaques dominam completamente, denominado Urgar.

O guardião olhou Varuna com forte interesse e complementou:

- Eles têm acompanhado esses rapazes há pouco mais de seis meses, quando começaram a acontecer vários tipos de problemas e situações inéditas aqui em Sumer.

Varuna perguntou a Lachmey se os alambaques estavam sob suas ordens e ela assentiu. Sim, os alambaques tinham sido liberados para atuar sobre os jovens.

- Sim, de fato. Estão indiretamente sob minhas ordens. Eles têm, no entanto, demonstrado forte aptidão para a violência. Devemos vigiá-los para coibir os abusos que possam porventura praticar. Os guardiões estão em vigília permanente.

- Sim, mestre Varuna. Nós temos nos revezado constantemente, para não deixá-los muito soltos. Estamos muito atentos a todos seus movimentos.

- Traga-me os alambaques para que possamos conversar com eles. Convide-os para parlamentar comigo - ordenou gentilmente Varuna a Vayu.

A ordem foi a de ativar o desenvolvimento da civilização e não de chacinar os terrestres.

O alambaque dobrou a cerviz em sinal de humildade e assentimento.

- Grande Mykael, entenda a nossa dificuldade. Só podemos induzir para que os homens realizem o que sabem fazer. Não somos instrutores, nem sábios. Não podemos transformar lobos em cordeiros, assim como não podemos ajudar os ahtilantes a se tornarem evoluídos da noite para o dia. Dessa forma, ativamos as bases de qualquer sociedade humana, ou seja, a ganância, o egoísmo, o desejo de ter poder, de dominação e, principalmente, de reconhecimento, de fama e notoriedade. Além disso, a violência é inerente a este tipo de sociedade. O senhor sabe das imensas dificuldades em modificar a atitude das pessoas simples e ignorantes, como são os terrestres. Eles só se alteram mediante o uso da força e do medo. Peço-lhe perdão se abusamos do nosso poder, mas a intenção foi a de estabelecer uma sociedade menos primitiva.

Varuna olhou bem para o seu interlocutor, vendo que estava sendo sincero. O pior daquelas palavras era que aquele ser ignóbil tinha toda razão. Nenhuma grande sociedade saiu do primitivismo para a civilização urbana sem violência e sofrimentos.

- Entendo que estão tentando fazer o que está dentro de suas limitações. Eu sugiro que procurem estabelecer-se em Erech sem violências. Reúna os comandantes esta noite e procurem intuir na mente dos líderes que a civilização inicia-se em grandes cidades, com novos artefatos, novas probssões e divisão do trabalho. Incentivem as invenções como a roda, os transportes, a necessidade de terem excedentes das plantações e da criação do gado. Estabeleçam o comércio com outros lugares. Façam com que, após dominarem Erech pela nova cultura, as novas idéias sejam espalhadas por toda a região.

Os alambaques escutavam atentamente, assim como os guardiões. Varuna prosseguiu:

Observem que Sumer é pobre de tudo, a não ser de uma terra rica. Terão que ir buscar tudo de que precisam em outros lugares. Usem o comércio e a troca. No entanto, é possível que tenham que usar a guerra em certos casos, mas não abusem desse artifício; é uma estrada de duas mãos. O sofrimento que impingirem lhes será imposto de volta com igual ou maior intensidade. Saibam que a civilização é processo que exige muito mais energia para se manter do que para se implantar. O que solidifica uma cultura são suas leis e a correta aplicação da justiça. Portanto, estabeleçam decretos justos e equânimes, sem o que não haverá base para uma cultura próspera.

Os alambaques o olhavam, absortos por suas palavras.

- Em resumo, usem Erech como base. Façam-nos crescer em torno desta cidade. Unam as várias cidades e aldeias da região numa confederação, onde cada local poderá decidir seu próprio destino, mas sob a tutela de um poder central que os impeça de lutar entre si. Essa união poderá fazê-los crescer e a sinergia entre as várias localidades trará progresso. Procurem melhorar a agricultura. É através dela que vocês implantarão a riqueza. Essa permitirá que os homens se ocupem também de outros afazeres. Façam com que todos os artistas e inventores sejam incentivados. Mandem trazer todas as invenções que aparecerem, escolhendo as que realmente são importantes.

Varuna, endurecendo seu semblante, alertou-os:

- Não se esqueçam, no entanto, de que, se desviarem estes povos das sendas do bem, sentirão o peso destes crimes quando, fatalmente, renascerem entre eles e tiverem que suportar as consequências de seus próprios atos. Todo alambaque renascerá entre os terrestres, seja como rei, líder, profeta, simples vassalo ou escravo. Tudo o que plantarem será colhido da mesma forma.

Oanes repudiou esta ideia imediatamente, mas houve alguns chefes alambaques que sentiram que a palavra de Varuna era verdadeira. Eles teriam que renascer, mais cedo ou tarde; esta era a Lei.

Varuna e os alambaques ainda falaram por alguns minutos, mas o tempo estava contra eles, já que a coluna ia entrar na aldeia. Os alambaques precisavam controlar os capelinos renascidos para que não usassem de força excessiva contra a população local. Despediram-se, cheio de mesuras e rapapés, e os alambaques volita-ram para perto da coluna de homens.

Varuna retornou ao seu nível, enquanto Lachmey lhe dava algumas importantes informações a respeito dos chefes capelinos da coluna que estava prestes a entrar em Erech.

Nimrud fora um hurukyan, líder de gangues de rua, traficante e tenebroso assassino. Notabilizara-se entre as várias gangues pela audácia, forte liderança e completo destemor. Mandara eliminar seus desafetos sem o menor remorso, matando-os com requintes de crueldade. Urgar, que agora o acompanhava como chefe de armas, fizera parte de seu grupo, como principal homicida, tendo sido, em existência anterior, um famoso militar, responsável por extensos morticínios. Conseguiram enriquecer de forma ilícita com o comércio de drogas, assaltos à mão armada e prostituição.

Os dois facínoras morreram violentamente há mais de cem anos, tendo sido feitos prisioneiros pelos alambaques, logo após suas mortes. Com o decorrer das décadas, Nimrud tornara-se lu-gar-tenente de Oanes, que o guiava. Urgar era o seu grande amigo e irmão de infortúnio, assim como Mesanipada fora seu aliado e comparsa de crimes em Tchepuat.

Varuna escutou como Lachmey e sua equipe organizaram os renascimentos dos futuros líderes, aqueles que tinham potencial

fpara o comando de homens. Foram espalhados assim como quem semeia, não se colocando todas as sementes na mesma cova. Em pouco tempo, iriam aparecer vários outros, como Shagengur e Ur-bawa, que ainda não haviam desabrochado.

Oanes, devidamente alertado por Varuna, liderou a reunião dos conquistadores de Shurupak daquela noite. O grupo se perdia em discussões estéreis até que o velho alambaque começou a nortear a mente dos renascidos.

Seguindo as orientações do coordenador do exílio, ele sugeriu que eles se fixassem em Erech e que construíssem a muralha. Ele usava a mente de Antasurra, pois ela se apresentava mais flexível; de vez em quando, a mente de Nimrud tinha seus próprios pensamentos, sendo difícil demovê-lo de algo em que se obstinava. Já Antasurra era mais elástico, sujeitando-se às intuições dada por Oanes com maior facilidade.

Quando os renascidos se perderam na forma de como motivar os sumérios a construir o que eles queriam, Oanes tentou dominar Antasurra, mas ele estava entusiasmado e sua concentração tornara-se dispersiva. Oanes, então, procurou entre os presentes quem pudesse receber suas ordens. Em segundos, ele observou o adama-do Akurgal e viu que ele era ainda mais fácil de ser influenciado. Deste modo, ele se apossou da mente de Akurgal e falou com voz tonitruante:

- Usem o terror sem usar a força. O grande deus Anu, senhor dos céus, que nos protege, deve ser glorificado. Levantem para ele um grande templo. Não há quem não queira trabalhar na sua construção, pois isso irá trazer boa sorte a todos. Para proteger o templo, será necessário fazer-se uma muralha, que envolverá não só a casa do grande deus, como também toda a cidade. Deste modo, usando o medo do deus Anu, vocês conseguirão o que desejarem do povo.

Esta seria a tônica daquele momento em diante: usar o terror dos deuses, estabelecendo uma religião em que se pudesse obrigar o povo a fazer o que a elite desejasse. Naquele instante, quase mágico, Oanes conseguiu controlar seu grupo e também obter o que ele e os alam-baques mais desejavam: sacrifícios de sangue, animais ou humanos, que lhes propiciassem fluidos vitais que os entorpecia, dando-lhes a nítida sensação de estarem num corpo físico, sentindo todas as sensações físicas como as libações ventripotentes e viripotentes.

Quando o processo do exílio estava chegando ao final, Varuna, que mantinha contato permanente com Terapitis, foi ao seu encontro. Ele havia recebido notícias de que ela estava para renascer, e queria vê-la antes que isto acontecesse.

O encontro se deu no plano médio, pois Terapitis estava vivendo com o seu pai, Bahcor, que havia se recuperado quase completamente. Por outro lado, Bradonin, o irmão parricida, havia sido internado numa instituição socorrista no astral médio. Ele havia sido calcinado na grande explosão nuclear de Tchepuat, quando estava cumprindo a sua sentença de prisão perpétua pelo assassinato de seu pai. Os seus mentores, no entanto, aproveitaram as últimas oportunidades que estavam sendo dadas a todos os alambaques, mi-jigabaks e criminosos comuns que queriam se regenerar e, com isto, evitarem de ser expurgados, desde que se reabilitassem a tempo.

Haviam instituído um plano de renascimento muito interessante. Bradonin iria renascer numa família de classe média, bastante religiosa, rígida, que lhe daria uma excelente criação, com uma sólida base moral, calcada no ação humanitária e fraternal. Ele iria se casar com Terapitis, que também renasceria, só que na mesma família que ela ajudara a criar com Varuna. Ela voltaria como parente dela mesmo. No momento azado, desposaria Bradonin renascido, e teria vários filhos, entre eles o próprio pai Bahcor. Deste modo, Bradonin renascido poderia devolver a vida que ele ceifara de seu pai, que passaria, nesta existência, a ser seu filho.

Bradonin já havia renascido, tendo cinco anos de idade, e Terapitis estava sendo preparada para a imersão na carne, em breves meses. Bahcor, totalmente recuperado da loucura que se havia apossado dele após a sua terrível morte, trabalhava com afinco e estudava as justíssimas leis divinas com um encantamento crescente.

Varuna encontrou os dois, num momento de grande ternura e encantamento. Ele abraçou tanto Bahcor, seu antigo sogro e benfeior, e num rasgo de gratidão e respeito, beijou-lhe as mãos, carinhosamente. O velho debulhou-se em lágrimas e o abraçou com força.

Passaram algumas horas trocando impressões e, no final do emocionante encontro, Varuna se despediu com os olhos úmidos, reafirmando que, apesar da enorme distância, manteria contato com os mentores deles para saber como estavam se desenvolvendo, rezando ao Pai Altíssimo para que a nova oportunidade redentora e evolutiva pudesse ser coroada de êxito. No outro dia, partiría para mais uma viagem à Terra, uma das mais memoráveis, que marcaria sua personalidade para sempre.

Nesta ida à Terra, Varuna encontrou-se com Lachmey num belíssimo platô, de onde se descortinava uma vista radiante, de tirar o fôlego. Ao longe, o sol amarelo começava a se esconder atrás da curvatura do planeta, alaranjando o céu com seus raios; do outro lado, a lua prateada despontava, e a quase mil quilômetros abaixo, a Terra azulada rolava no espaço negro. Os dois vinham de reuniões diferentes e se encontraram para trocar impressões. Varuna estava preocupado com alguns aspectos de somenos importância e extemou-os à amiga:

- Sabe, minha querida Lachmey, quando nós nos mudamos, devemos fazê-lo de forma integral. Temos que nos mudar não só de corpo, mas principalmente de alma.

- Concordo com você, mas o que o aborrece?

- Muitos dos nossos amigos colaboradores, especialmente dos planos médios, estão apresentando dificuldades de adaptação. Suspiram por uma Ahtilantê que já não existe mais, mas que em suas mentes ainda permanece bela e viçosa como antes da guerra.

- Realmente, isso acontece com muitos. Aceitam mudar de lugar, mas ainda vivem presos mentalmente aos locais anteriores, comparando o que têm e o que deixaram de possuir. Serão sempre infelizes, pois nunca se adaptarão a nenhum lugar.

Sim, é verdade. Creio que a melhor forma de se viver num determinado lugar é esquecer o anterior e cortar todas as lembranças, substituindo-as por novas. É fundamental que se possam ver as belas coisas do novo lugar e esquecer o que se tinha antes.

Varuna olhou para Lachmey e disse-lhe suavemente:

- Nós temos que dar o exemplo. Não posso continuar com esse aspecto totalmente diferente dos terrestres. Eu ainda mantenho o aspecto gigantesco em comparação aos espíritos coordenadores terrestres. Por outro lado, você é muito pequena em relação a eles, seus olhos são diferentes e não tem cabelos. Gostaria de convidá-la a se alterar para ficarmos o mais parecidos com eles e sermos um exemplo para nossos povos. É preciso esquecer Ahtilantê; aqueles que forem ficar na Terra, sejam ahtilantes, sejam de Karion, deverão se adaptar às novas condições. O que você acha?

- Amado Varuna, você está completamente certo. Não vamos obrigar ninguém a se modificar, mas vamos alertá-los amorosamente para que sigam nossos exemplos.

Dito isso, foram juntos procurar Mitraton e lhe comunicaram a decisão. Ele confirmou que a modificação seria facílima, bastando que se concentrassem mentalmente e a mudança ocorreria espontaneamente. O corpo astral é moldado por ideoplastia e era necessário apenas concentrarem-se para que seus moldes mentais se alterassem e, consequentemente, o resto seguiria a nova modelagem mental. Mitraton propôs induzi-los a uma forma de hipnose autossugestiva que os ajudaria muitíssimo. Sem a hipnose, haveria maior dispêndio de material mental e o resultado seria mais demorado; os bloqueios naturais do inconsciente não permitiriam mudanças bruscas.

Dirigiram-se ao Templo da Divina Consagração, nas bordas do plano mental com o plano astral superior, e lá encontraram muitos espíritos trabalhadores oferecendo suas preces vespertinas. Mitraton procurou o hierofante cujo templo lhe era afeto e conversou com o mesmo durante alguns instantes na presença de Varuna e Lachmey.

O hierofante era um figura impressionante. Ele era muito alto, medindo perto de dois metros, sua pele era negra, tinha longas barbas e cabelos lisos cor de azeviche a lhe cair nos ombros másculos e portentosos. Magver era proveniente de outro sistema solar e alcançara o plano mental num planeta tão avançado como Karion. Seu imenso e alvo sorriso logo demonstrou sua vontade em ser útil. Segurou Varuna pelo braço como se fosse um velho amigo e ajoelhou-se perante a pequenina Lachmey e, pegando na sua mão minúscula, falou com eles:

- Este é um momento de grande relevância. Irão renascer espiritualmente, morrendo para o passado. Abandonem seus nomes antigos, abracem novos nomes e façam disso um motivo para um renascimento interior. Começa agora a verdadeira saga do seu povo, que, junto com o nosso, tornar-se-á uno na presença do Altíssimo. Não haverá mais duas estirpes e, sim, uma única. Você, Varuna, grande chefe dos ahtilantes escolherá um novo nome; e o mesmo se dará com você, bela Lachmey.

Magver disse mais, tomado da mais viva e impressionante em-polgação, como se milhares de espíritos lhe insuflassem suas palavras:

- Um feito notável como esse deve ser motivo de júbilo público. Chamem seus amigos, seus colaboradores. Encham este átrio. Lotem o templo; é chegada a hora de rebatizá-los.

Assim dizendo, levantou as mãos para os céus, numa voz grave e bela, convocou todos os amigos e colaboradores de Varuna e Lachmey para que estivessem presentes ao extraordinário feito, exortando em tom alto e cristalino que ecoou nos mais distantes lugares, como se fosse um potente alto-falante, convocando todos para a solenidade:

- Espíritos amigos da Terra, de Karion e de Ahtilantê, venham ao Templo da Divina Consagração e louvem ao Senhor Altíssimo.

A voz do poderoso hierofante foi ouvida a milhares de quilômetros e, em breves minutos, compareceram centena de milhares de espíritos do alto astral. Para os presentes, o santuário parecia cobrir todos, e suas colunas pareciam ser transparentes. O templo subitamente tornou-se enorme e abrigava milhares de espíritos evoluídos dos três planetas.

Magver olhou para todos e lhes disse:

- Espíritos imortais, filhos do Altíssimo, obedientes servidores dos Maiores em sua cocriação divina, ouçam as minhas palavras e que possam calar fundo em seus corações amorosos e compassivos, ansiosos por ainda mais luzes, como o esfaimado anseia por alimento. Perante mim, humilde e insignificante hierofante deste venerável Templo, estão Varuna Mandrekhan e Lachmey, espíritos que amam a Deus como a si próprios. Cientes de que sua missão está acima das formas das convenções humanas, acharam por bem abandonar suas antigas roupagens por novas, para melhor servirem ao Altíssimo. Assim como eles, meditem na necessidade de libertarem-se dos antigos hábitos, pois nada representam aos olhos do Senhor. Não é a vestimenta, nem a forma, nem a cor, nem o sexo, nem todos os paramentos externos que louvam a Deus e, sim, o coração puro, imaculado e ardente de amor fraternal, e também uma mente racional, lógica e temperada que trabalha para o aprimoramento pessoal e coletivo.

Dirigiu-se primeiro para Lachmey e lhe disse em tom grave e sereno:

- Você, Lachmey, grande espírito, não tem por que estar aqui. Se assim preferiu, foi por amor aos seus semelhantes. Nada a impedia de ascender às alturas de novos reinos maravilhosos e gozar legitimamente sua excepcional condição de espírito liberto dos liames da matéria. Se prefere unir-se aos degredados de Ahtilantê é porque seu coração transborda de dedicação pelos infelizes da Terra.

Lachmey fechara seus grandes olhos pretos e orava para que o Senhor lhe desse sempre força para superar o egoísmo e o culto à personalidade. Mais importante do que qualquer ser, era Deus; todos somos suas humildes criaturas. Magver olhou para o alto, de onde surgiam flocos de luzes cristalinas que caíam sobre La-chmey e lhe disse em tom forte e amoroso:

- Querida filha de Karion, você aumentará seu aspecto externo para acompanhar o que já é enorme no seu interior. Exteriori-ze no seu novo semblante a sua missão, a de ser a mãe espiritual desta nova raça.

Fachos de luz incidiam sobre Lachmey a ponto de ofuscar todos os presentes. No final de um curto tempo, Lachmey despontou de dentro da luz. Tinha-se transformado. Apresentava-se agora com um metro e setenta, cabelos negros longos que alcançavam sua cintura. Seu rosto tornara-se terrestremente humano, com um nariz pequeno, lábios e faces levemente rosadas. Seus olhos, amendoados, negros, com longos cílios escuros que lhe davam um olhar extremamente doce, transmitiam uma energia poderosa. Vestia uma túnica prateada, com um cinto azul-claro, que lhe marcava a cintura delgada, acentuando ainda mais seu colo bem proporcionado. Seu rosto era belo como uma aurora e havia um sorriso meigo que lhe coroava a beleza interior. Varuna ficou espantado com a transformação, assim como todos os presentes. Magver exultou com a bela aparição e lhe disse, pleno de alegria, totalmente dominado pela energia dos espíritos superiores, que acompanhavam a sessão, em outra dimensão:

- Em nome dos Maiores, eu a rebatizo de Grande Mãe. Você será conhecida doravante como Phannuil - a face de Deus.

Os presentes estavam maravilhados com sua esplendorosa beleza, embora não importe o aspecto exterior, pois um grande espírito, por mais que se apresente como um humilde servo, demonstrará sempre uma beleza interior insuperável.

Magver voltou-se para Varuna, olhando-o fixamente. Ele se ajoelhara e curvara sua fronte em total submissão aos desígnios do Senhor. O poderoso e glorificado hierofante disse:

Você, Varuna Mandrekhan, recebeu dos Maiores a espinhosa missão de trazer para este orbe os irmãos ensandecidos e tres-loucados na matéria. Aqui neste mundo primário, irão evoluir e fazer os nossos irmãos primitivos se desenvolverem. Trarão novas técnicas que impulsionarão o progresso material, que é fundamental para a evolução do espírito. Ensinarão artes e ciências, mas também aprenderão através de terríveis confrontos a se municiarem de novas armas. Aprenderão, pelo caminho da dor, do sofrimento, dos renascimentos continuados e do sacrifício, aquilo que poderíam ter apreendido em seu planeta sem passar por tais provações. Deus é compassivo e bom. Deus não é um ser discricionário como muitos pensam. Muito pelo contrário, Ele asperge suas benesses sobre todos indistintamente e, por isso, terão sempre novas oportunidades.

Olhando para cima, totalmente tomado por luzes que desciam sobre sua fronte, Magver, o hierofante, parecia crescer e falava não mais para Varuna, mas para todos:

- Este belo ser será o exemplo do ser angélico. O anjo é aquele que consegue se equilibrar entre duas asas, sendo uma da razão plena; e a outra, do sentimento puro. A combinação e o amálgama dos dois transformam o homem num ser divinizado.

Olhando-o nos olhos, Magver lhe disse em voz alta:

- Olhe para dentro de si e redesenhe seu exterior. Para conviver aqui, no seu plano de existência, diminua seu tamanho exterior e aumente sua luz interior.

Varuna começou a se metamorfosear lentamente. Magver continuou sua prece, agora totalmente possuído de milhares de mentes poderosas que o ajudavam na metamorfose.

- Seu esplendoroso tamanho deverá diminuir para que, ao se humilhar, seja exaltado.

Varuna começou a diminuir até alcançar a altura de um metro e noventa. Tornara-se humano de forma bela e proporcionada. Sua pele azulada tornou-se branca e alva, seus olhos azuis escuros tornaram-se mais claros e sua grande testa calva e pronunciada encheu-se de cabelos castanho-dourados, caindo até seus ombros.

Magver continuou sua exortação:

- Varuna Mandrekhan, qual será o seu novo nome?

Varuna não havia pensado nisso e não lhe ocorria nenhum nome. Lachmey, então, que estava próxima dele, observando, maravilhada, a sua transformação, sussurrou para o hie-rofante:

- Mykael.

Magver escutou e mentalmente entendeu que esse era o nome de Varuna Mandrekhan junto aos alambaques. Era o grande mago. O poderoso comandante. O arcanjo de espada flamejante. O arcanjo da justiça, aquele que pesa as almas dos banidos e as lança no fogo da redenção interior. Sim, nada mais justo. Mykael seria o novo nome de Varuna.

- Pois que assim seja. Eu, pelos poderes a mim conferidos pelos Logos Planetários, o rebatizo como Mykael. Você será conhecido pelos homens como o Arcanjo do Senhor, aquele que conduz a humanidade para o caminho do Altíssimo, aquele que traz as grandes mudanças. Você que foi o messias de Ahtilantê, o eleito dos Maiores, também será conhecido como o chefe dos arcanjos e o dominador dos dragões. Mykael será o protetor da Terra e o condutor das nações.

Sobre o novo Mykael, choveram milhares de flocos de luzes de variadas cores e todos os presentes estavam tomados da mais viva emoção. Varuna Mandrekhan cessara de existir. Agora, Mykael tomara seu lugar para os próximos milhares de anos, para ajudar aos povos de Ahtilantê e da Terra a encontrarem os verdadeiros caminhos do Senhor, Pai de infinita bondade, Doador da vida, riquíssimo em oportunidades para seus pequenos filhos ainda incapazes de grandes voos da alma.

Após esses exemplos de humildade e de aceitação da nova missão, milhares de espíritos alteraram seus aspectos exteriores para que pudessem se adaptar melhor às novas condições. Começaram pelos espíritos dos planos mais evoluídos e, depois, desceram aos espíritos dos planos astrais médios.

Gerbrandom modificou-se, ansioso que estava para assumir nova personalidade, sendo ele também rebatizado, ganhando o novo nome de Raphael e assim passou a ser conhecido.

O enorme Vartraghan alterou-se também para que sua missão de vigiar os temíveis alambaques se tornasse mais adequada ao seu novo formato terrestre. Tomou o nome de Kabryel. Aliás, ele tinha, em contato com o amor de Sarasvati, amenizado suas feições. Ao invés de seu aspecto brutal, ele apresentava, agora, uma face mais humana. Ele era extremamente parecido com Sarasvati, sendo a sua contraparte masculina. Na realidade, o amor transforma seres tão díspares em pessoas que se complementam, tornando-as quase similares. Com o decorrer dos tempos, tornam-se almas gêmeas, mesmo mantendo suas características pessoais.

Vayu, braço direito de Vartraghan, passou a se denominar Samael. Muitos o iriam confundir com Lúcifer, o Portador do archote ou da luz, Príncipe decaído das lendas, figura mítica dos próprios capelinos. Tudo isso por ser o executor severíssimo das ordens de Mykael. No entanto, ele tornar-se-ia de suma importância para os arianos, sendo conhecido como um poderoso deus, e para os semitas, seria o acusador de Israel.

A cerimônia tornou-se completa quando, subitamente, o céu pareceu rasgar-se de alto a baixo, e uma luz dourada banhou profusamente o recinto. Do meio da luz, apareceu a mais bela forma feminina jamais sonhada e a maviosa voz de Himalda se fez ouvir:

- Amorosos filhos do Altíssimo. Que este dia seja conhecido como o verdadeiro começo da civilização dos homens. Que os espíritos capelinos e terrestres se mesclem até que não se possa distinguir um do outro.

Himalda fez uma pausa e prosseguiu, enquanto sua imagem flutuava entre os presentes. Ela não estava ali de fato, só a sua projeção mental.

- A você, meu amado Mitraton, está reservada a coordenação da evolução global da Terra, em conjunto com Mykael, o arcanjo dominador dos dragões.

Todos olharam para Mitraton, que desde o início da cerimônia estava com os olhos marejados d’água, possuído de intensa emoção.

Os dois citados aproximaram-se um do outro e, em fraterno amor, abraçaram-se. A imensa multidão ovacionou os dois enquanto um coro de milhares de vozes começou a entoar um canto celestial ao Senhor. A bela imagem de Himalda foi se apagando, deixando no ar uma doce fragrância que encantou a todos.

Phannuil olhou para Mykael com um olhar doce e pensativo. Realmente, o verdadeiro trabalho estava apenas começando. Longo seria o caminho dos anjos decaídos para retomarem ao seio do Senhor, e Mykael teria muito o que fazer, pois era agora que realmente se iniciava a saga dos capelinos.

F I M