A ação de João Evangelista

A ação de João Evangelista foi das mais eficazes no Apostolado. Homem de grande erudição tal como se depara do seu Evangelho, que começa com ênfase e o entusiasmo que o fervor da fé o arrebatou: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus", foi um dos doze Apóstolos escolhidos por Jesus para levar às gentes a sua palavra.

João era irmão de Tiago maior, pescador como ele, e estava a consertar as suas redes quando o Mestre lhe disse que o seguisse. Daí em diante sempre o acompanhou e esteve com o Nazareno até o seu comparecimento no tribunal que lavrou a sua condenação, bem como até à morte de Jesus. Depois da morte do Senhor, ele se encarregou de cuidar de Maria, mãe de Jesus.

Samaria, Jerusalém e Ásia Menor foram sucessivamente teatro do seu apostolado. Desterrado depois para a ilha de Patmos, uma das Sporades, teve visões que referiu no seu Apocalipse. O seu Evangelho, bem como suas três Epístolas, que foram escritas em grego, a nosso ver, são livros importantíssimos, indispensáveis de serem estudados com o máximo critério.

João desencarnou já bem velho, e diz-se que ultimamente não pregava mais. Quando comparecia a qualquer reunião de discípulos a sua palavra se limitava ao "Amai-vos uns aos outros", o que levou os seus discípulos a lhe perguntarem por que repetia sempre a mesma coisa. Ele respondia: "Porque é preceito do Senhor".

De fato, as suas Epístolas se podem resumir no preceito: "Amai-vos uns aos outros". Logo na primeira, cap. II, 7-11, ele diz: "Não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo que tendes tido desde o princípio; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Entretanto é um novo mandamento que vos escrevo, o qual é o verdadeiro nele e em vós, porque as trevas estão se dissipando e a verdadeira luz já brilha. Aquele que diz estar na luz e aborrece a seu irmão, até agora está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão, permanece na luz, não há nele o motivo de tropeço; mas aquele que aborrece a seu irmão, anda nas trevas , e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos".

Nos vV. 18-29, o Evangelho trata das revelações, mas as divide em revelação da Verdade e "revelação da mentira".

Com efeito, há revelação da Verdade e revelação da mentira, porque existem profetas e existem falsos profetas; assim como existem espíritos que falam a Verdade e espíritos que falam a mentira.

Este capítulo é muito interessante; não podemos deixar de transcrevê-lo.

"Filhinhos, esta é a última hora; e como ouvistes que vem o anticristo, já se têm levantado muitos anticristos; pelo que conhecemos que é a última hora. Saíram de nós, mas não eram de nós; porque se fossem de nós teriam permanecido conosco; mas eles saíram, para que fossem conhecidos que todos estes não são de nós. E vós tendes uma unção do Santo e todos tendes conhecimento. Não vos escrevi porque ignorais a verdade, mas porque a sabeis, e porque mentira alguma vem da verdade. Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? O anticristo é aquele que nega o Pai e o Filho. Todo o que nega o Filho não tem o Pai; quem confessa o Filho tem também o Pai. O que vós porém ouvistes desde o princípio, permaneça em vós. Se o que ouvistes desde o princípio permanecer em vós, permanecereis vós também no Pai e no Filho".

Estas recomendações eram avisos preventivos contra a tal "trindade" estabelecida pelas igrejas de Roma e Protestante. Esses doutores não permanecem no que ouviram desde o princípio. Escolheram e decretaram a existência de três deuses (trindade) concretizados em um, sendo apesar de tudo, cada um, um deus. O pai já não é porque o Filho sendo de toda a eternidade, não podia ser gerado; e o Filho não é filho, pelo mesmo motivo, pois ninguém pode ser pai ou filho de si mesmo. O sinal do anticristo está bem caracterizado nos crentes da Trindade.

A religião para João era mesmo Amor e não deste ou daquele.

No cap. IV, ele define claramente (7-21):

"Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo aquele que ama é de Deus, e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em que Deus enviou o seu filho unigênito ao mundo, para que vivêssemos por meio d'Ele. O amor consiste, não em termos nós amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós e enviou a seu filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos nos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor é em nós perfeito. Conhecemos que permanecemos n 'Ele e Ele em nós, por Ele nos ter dado do seu Espírito. E nós temos visto e testificamos que o Pai enviou a seu filho como salvador do mundo.

Todo aquele que confessar que Jesus é o filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. E nós temos conhecido e crido o amor que Deus tem em nós. Deus é amor; aquele que permanece no amor, permanece em Deus, e Deus permanece nele. O amor é perfeito em nós, para que tenhamos a coragem no dia do juízo; porque assim como Ele é, nós somos também neste mundo. No amor não há medo, mas o perfeito amor lança fora o medo porque o medo envolve o castigo; e aquele que tem medo, não é perfeito no amor. Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus e aborrecer a seu irmão, é mentiroso; porque aquele que não ama a seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê. E temos d'Ele este mandamento, que aquele que ama a Deus, ama também a seu irmão".

Finalmente, João Evangelista foi um grande Apóstolo que soube definir, na verdade, o Cristianismo. O grande Evangelista foi, para o Espiritismo, o que Joel e demais profetas foram para o Cristianismo. No seu Evangelho, cap. XIV, XV e XVI ele transcreveu textualmente a promessa de Jesus sobre a manifestação dos Espíritos, que constituem a falange poderosa da Verdade e da Consolação que vêm transformar o mundo, e realmente já deram começo a essa ascensão espiritual dos homens.

Bendito seja João, o Apóstolo amado de Jesus, e que ele nos auxilie a cumprir a vontade do grande Mestre.

Cairbar Schutel