A defesa de Paulo - A ressurreição dos mortos

Tendo o governador feito sinal a Paulo que falasse, disse:

Sabendo que há muitos anos és juiz nesta nação, com bom ânimo faço a minha defesa, visto poderes verificar que não há mais de doze dias subi a Jerusalém para adorar; e que não me acharam no templo disputando com alguém ou fazendo ajuntamento de povo, quer nas sinagogas, quer na cidade, nem te podem provar as coisas de que agora me acusam. Porém, confesso-te isto que, segundo o Caminho a que eles chamam seita, sirvo ao Deus de nossos pais, crendo todas as coisas que são conformes à Lei e estão escritas nos Profetas, tendo esperança em Deus como também eles esperam, de que "há de haver uma ressurreição tanto de justos como de injustos". Por isso também me esforço para ter sempre uma consciência limpa para com Deus e para com os homens. Depois de alguns anos vim trazer esmolas à minha nação, e fazer oferendas, e neste exercício acharam-me purificado no templo, não com turba nem com tumulto; mas alguns judeus vindos da Ásia - e estes deviam comparecer diante de ti e acusar-me, se tivessem alguma coisa contra mim. Ou estes aqui digam que iniqüidade acharam, quando estive perante o Sinédrio, a não ser acerca desta única frase que proferi em alta voz, estando no meio deles: "Por causa da ressurreição dos mortos é que eu estou sendo julgado por vós",

Mas Félix que sabia muito bem dessas coisas acerca do caminho, adiou a causa, dizendo: Quando descer o tribuno Lísias, decidirei a vossa questão; e ordenou ao centurião que Paulo fosse detido e tratado com brandura, sem impedir que Os seus o servissem. - Cap. XXIV, vv. 10-23.

A Ressurreição dos Mortos tem servido de escândalo para os sacerdotes de todas as épocas. Essas palavras do doutor dos gentios justificam plenamente a nossa afirmação.

Condenar um indivíduo por crença na demonstração da Vida Eterna, é a cousa mais estulta que pode haver.

Se a religião é o laço que nos une a Deus, esse laço forçosamente se perpetua na Vida Eterna por inúmeros degraus ascendentes de perfeição espiritual, manifestados pela ressurreição, sem o que não teríamos conhecimento deles.

A prevalecer a morte, se extingue toda a perfeição, toda a felicidade. A não vigorar a ressurreição dos mortos, os laços que nos unem a Deus ficam destruídos, e a fé se torna vã, o amor fraterno não pode prevalecer.

Por que Cristo ressuscitou? Para demonstrar a Imortalidade. À Maria Madalena Ele diz: "Vai a meus irmãos e dize-Ihes que subo ao meu Pai e vosso Pai". A Tomé disse: "Chega aqui o teu dedo e olha as minhas mãos; chega também a tua mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente".

No Evangelho de Lucas, Cap. XXIV, vv. 38-39: "Por que vos turbais? E por que se levantam dúvidas nos vossos corações? Olhai para as minhas mãos e meus pés, pois sou eu mesmo".

O que quer dizer tudo isso? Não é a demonstração da Imortalidade pela ressurreição?

Paulo fazia Rocha-Viva da sua Doutrina, a Ressurreição dos Mortos, de que Jesus Cristo tem as primícias, isto é, a Primazia, o direito de se manifestar e de falar primeiro.

Tendo Jesus declarado que vinha fazer cumprir a Lei e Os Profetas, parece claro e lógico que deve prevalecer a Imortalidade e a ressurreição dos mortos, sem o que a Lei é inútil e os Profetas não têm de ser.

É por isso que vemos na Vida dos Apóstolos uma série Contínua de manifestações genuinamente espíritas.

Muito especialmente sublinhamos no capítulo que transcrevemos dos Atos os trechos pelos quais se compreende o motivo dos judeus, e mormente dos sacerdotes, condenarem a Paulo.

De fato, não tendo ele crime algum, conforme declarou o tribuno, como se justifica a acusação dos judeus, a ponto de exigirem o decreto de morte para o Apóstolo?

Não se pode compreender o sentimento religioso sem Imortalidade. E não pode compreender, repetimos, Imortalidade sem ressurreição dos mortos, ou seja, reaparição dos mortos.

No encontro de Jesus com os saduceus (Lucas, Cap. XX, v. v. 27-40) o Mestre diz: "Mas que os mortos ressuscitam, Moisés o indicou na passagem a respeito da sarça, onde se diz que o Senhor é o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois todos vivem para Ele".

Enfim, Félix, que havia compreendido tudo, adiou a causa, até a chegada do tribuno Lísias, mas ordenou ao centurião que Paulo ficasse detido, porém fosse bem tratado, e lhe fossem facultadas certas regalias.

Cairbar Schutel