A morte de Tiago -
Pedro é novamente preso

A vida dos Apóstolos foi cheia de sofrimentos de um lado, e de triunfos de outro. É o que Léon Denis chamava a mediunidade gloriosa e o martirológio dos médiuns.

As perseguições, as calúnias, as injúrias, as cadeias cobriam sempre de labéu os discípulos de Jesus; mas, por outro lado, os Espíritos operavam, por seu intermédio, maravilhas que lhes davam alegrias e felicidades íntimas.

Uns eram sacrificados ou lapidados em praça pública, como Estêvão, outros eram mortos a espada, como Tiago.

Mas nenhum parecia abandonado. O Céu abriu-se sobre suas cabeças e eles arrostavam encorajados todos os martírios.

Pedro foi um herói das primeiras cruzadas.

Bafejado sempre pelo Espírito, era intemerato, fazia prodígios, e maravilhas se operavam sob seus olhos, a ponto de ficar boquiaberto ele próprio.

Após os maus tratos que Herodes ordenou contra diversos discípulos, e a morte de Tiago, que foi passado a fio de espada, Pedro foi preso por ordem do mesmo Herodes, como se vai ler da narrativa de Lucas, inserta no capítulo XII, 1-9.

Tiago era irmão de João Evangelista e André, estes ultimos também Apóstolos; o chamado Tiago maior, filho de zebedeu, foi o quarto dos doze Apóstolos escolhidos por Jesus, e um dos quatro que acompanharam a Jesus na Paixão, no Jardim das Oliveiras e na Transfiguração no Tabor.

Depois da ressurreição do Senhor, Tiago voltou para Jerusalém donde saíra, por ocasião da morte do Mestre, e pregou o Evangelho com tanto zelo que os membros do Sinédrio exigiram de Herodes Agripa a morte do Apóstolo. Foi ele o primeiro discípulo intemerato que se sacrificou pela religião.

Passemos à transcrição do capítulo:

"Naquele tempo o rei Herodes mandou prender alguns da igreja para os maltratar. E ordenou que matassem a espada a Tiago, irmão de João. Vendo que isto agradava aos judeus, fez ainda mais, mandou prender também a Pedro - e eram os dias dos pães asmos - e tendo-o feito prender, lançou-o no cárcere, entregando-o a quatro escoltas de quatro soldados cada uma para o guardarem, tencionando apresentá-lo ao povo depois da Páscoa. Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas a igreja orava com insistência a Deus por ele. Quando Herodes estava para apresentá-lo, nessa mesma noite, dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o cárcere. E eis que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz brilhou na prisão, e ele tocando o lado de Pedro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E as cadeias caíram-lhe das mãos. O anjo acrescentou: Cinge-te e calça as tuas sandálias. E ele assim o fez. Disse-lhe mais:

Cobre-te com a tua capa e segue-me. Pedro saindo, seguia-o, e não sabia que era real o que se fazia por meio do anjo, mas julgava que era uma visão. Depois de terem passado a primeira e a segunda sentinela, chegaram ao portão de ferro que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo; e saindo, andaram uma rua, e logo o anjo o deixou. Pedro, tornando a si, disse: agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo judaico. Depois de refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas estavam congregadas e oravam. Quando ele bateu ao postigo do portão, veio uma criada chamada Rode ver quem era; e reconhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu o portão, mas correndo para dentro, contou que Pedro estava ali. Eles lhe disseram: Estás louca. Ela, porém, assegurava que era ele. Diziam: É o seu anjo. Mas Pedro continuava a bater; e quando abriram o portão, viram-no e ficaram atônitos. Mas ele, acenando-lhes com a mão que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirou do cárcere, e acrescentou: Anunciai isso a Tiago e aos irmãos, e saindo retirou-se para outro lugar. Logo que amanheceu, houve grande alvoroço entre os soldados sobre o que teria acontecido a Pedro. Heródes tendo-o procurado e não o achando, inquiriu as sentinelas e mandou que fossem justiçadas; e descendo da Judéia a Cesaréia, ali se demorou".

Este magnífico relato, extraído 'ipsis verbis' dos Atos, reproduz todos os fenômenos físicos observados por eminentes sábios nas suas experiências espíritas: quebra das cadeias de ferro, materialização de Espírito, etc.

Nota-se de outro lado que todos os da congregação em casa de Maria estavam muito a par das aparições dos Espíritos, sem o que não podiam ter dito que era o "Anjo de Pedro" (perispírito) e não Pedro.

A grande proteção que tinha Pedro o livrou, como se vê, de muitas tribulações.

Se fizesse um confronto entre a vida de Pedro e a vida dos Papas, ver-se-ia como a destes é a absoluta antítese à daquele.

Como seria bom se os Papas fossem mesmo sucessores de Pedro; o mundo hoje estaria reformado. A Igreja não seria de Roma, nem da Terra; não haveria prata e ouro nos templos, com tanta sobra que dão até para fomentarem o morticínio contra os próprios irmãos, mas haveria prodígios, haveria amor, haveria fraternidade e fé.

Cairbar Schutel