A viagem de Paulo a Mileto

Nós, porém, indo adiante a tomar a embarcação, navegamos para Assôs, com intuito de ali receber a Paulo; pois, assim tinha disposto, tencionando ele mesmo ir por terra. Quando nos alcançou em Assôs, recebêmo-lo a bordo e fomos a Mitilene; e navegando dali, chegamos no dia seguinte em frente a Quios, no outro tocamos em Samos, e um dia depois viemos a Mileto, porque Paulo havia determinado não tocar em Éfeso, para não se demorar na Ásia; pois, apressava-se para estar em Jerusalém no dia de Pentecostes, se possível lhe fosse. De Mileto mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja. - Cap. XX, v. v. 13-17.

Tendo deliberado estar em Jerusalém no dia de Pentecostes, Paulo pôs-se a caminho passando por várias cidades, onde diria algo aos discípulos. Os seus discípulos foram também, mas em vez de empreenderem a viagem por terra, alguns seguiram por mar até Assôs, onde Paulo tomou a embarcação em que iam alguns deles, como Lucas e outros.

Ele não tinha tempo para pregar nas cidades em que passava, visto se aproximar a festa de Pentecostes e ter necessidade nesse dia de estar em Jerusalém. Mas em Mileto parou um pouco e reuniu os presbíteros, os discípulos encarregados de dirigir as associações cristãs.

Reunidos todos os de Mileto e de Éfeso, que contava grande número de cristãos, resolveu fazer-lhes uma exortação, que foi transcrita em ata especial para ser rememorada e que Lucas incluiu nos Atos.

É uma peça substanciosa e emocionante ao mesmo tempo.

Nesse escrito Paulo resume a sua vida evangélica, e previne-os contra as ciladas dos mistificadores e mercenários, que já naqueles tempos tentavam perverter os chamados do Senhor. Vamos transcrevê-la:

"Vós sabeis como me tenho portado convosco sempre, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e com provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus; como não me esquivei de vos anunciar coisa alguma que era proveitosa e de vô-la ensinar publicamente, e de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus.

"Agora eis que, constrangido no meu espírito, vou a Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo me testifica de cidade em cidade, que me esperam cadeias e tribulações. Porém não tenho a minha vida como coisa preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus. E agora eu sei que todos vós, por entre os quais passei proclamando o reino, não vereis mais a minha face. Portanto, vos protesto hoje que estou limpo do sangue de todos; pois não me esquivei de anunciar todo o conselho de Deus. Atendei por vós, e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, a qual ele adquiriu com seu próprio sangue.

"Eu sei que depois da minha partida virão a vós lobos vorazes- que não pouparão o rebanho, e que dentre vós mesmos surgirão homens falando coisas perversas para atrair os discípulos após si".

"Portanto, vigiai, lembrando-vos que por três anos não cessei dia e noite de admoestar a cada um de vós com lágrimas. E agora vos encomendo a Deus e à palavra da sua graça Àquele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.

"De ninguém cobicei prata nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos proveram as minhas necesssidades e as dos que estavam comigo. Em tudo vos dei o exemplo de que, assim trabalhando, é necessário socorrer os fracos e vos lembrar das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: Coisa mais bem-aventurada é dar do que receber.

"Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se orou com todos eles. E houve um grande pranto entre todos e, lançando-se ao pescoço de Paulo, beijavam-no, entristecendo-se, sobretudo, por haver ele dito que não veriam mais a sua face. E eles o acompanharam até o navio". - Cap. XX, vv. 18-38.

Todo o comentário que fizéssemos desta cena tocante não teria o colorido preciso para deixar ver a humildade, o desapego que ela encerra, e o espírito do dever que ressalta como uma luz cintilante neste magnífico quadro que retrata o puro Cristianismo do Nazareno.

É de notar que Paulo, apresentando-se como o exemplo vivo da Fé e do Amor cristãos, fazia muita questão de salientar a seus discípulos a sua vida, absolutamente livre das injunções do ouro.

Nessa bela exposição, que ele fez aos presbíteros de Éfeso e de Mileto, não esqueceu de dizer que o seu ministério esteve sempre isento das influências monetárias, que tanto prejudicam a Palavra de Deus: "Estas mãos proveram as minhas necessidades e as dos que estavam comigo. Em tudo vos dei o exemplo de que, trabalhando, é necessário socorrer os fracos e vos lembrar das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse - Coisa mais bem-aventurada é dar do que receber".

Em suas Epístolas não cessava de aconselhar a todos o desapego. Na II, Tessalonicenses, III, 7-12, diz:

"Pois vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, porque não andamos desordenadamente entre vós, nem comemos de graça o pão de homem algum, antes em trabalho e fadiga, trabalhando de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós; não porque não tivéssemos o direito, mas para vos oferecer em nós um modelo que imitásseis.

Pois, ainda quando estávamos convosco, isto vos mandamos, que, se alguém não quer trabalhar não coma.

Porquanto temos ouvido que alguns andam desordenadamente, que nada fazem, antes se intrometem nos negócios alheios; a estes tais porém, ordenamos e rogamos no Senhor Jesus Cristo que, trabalhando sossegadamente, comam o seu pão",

Cairbar Schutel