A visão em Tróade

Atravessaram a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia; e tendo viajado na direção de Mísia, tentavam seguir para a Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu; e tendo passado ao lado de Mísia, desceram a Tróade. De noite apareceu a Paulo esta visão: Um homem da Macedônia achava-se em pé rogando-lhe: passa à Macedônia e ajuda-nos. Depois desta visão, procuramos logo partir para a Macedônia, concluindo que Deus nos havia chamado para aí pregarmos o Evangelho.Cap. XVI, v. v. 6 - 10.

Os apóstolos andavam sempre por visão. Em todos os seus atos e desde o início da sua carreira apostólica, a visão representava um papel predominante.

Na região frígio-gálata, o Espírito apareceu a Paulo e a Timóteo, impedindo-os de anunciar a palavra na Ásia, visto, certamente, nenhum proveito produzir, devido ao atraso daqueles povos, e para evitar maiores dissabores aos pegureiros da verdade. Eles se voltam em direção à Bitínia, e o Espírito de Jesus lhes aparece não permitindo também que eles seguissem para a Bitínia pelo que eles mudaram o seu itinerário seguindo por Mísia para Tróade.

Nesta cidade Paulo teve nova visão: Viu um homem da Macedônia em pé diante dele, rogando-lhe: "Passa à Macedônia e ajuda-nos".

O Apóstolo obedeceu às solicitações e seguiu com seu companheiro para a Macedônia, pois julgaram que aquela visão era uma ordem divina para que naquela cidade pregassem o Evangelho.

E tendo navegado de Tróade, diz o trecho seguinte, se dirigiam a Samotrácia, no dia seguinte a Neápolis e dali a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e Colônia. Aí ficaram alguns dias. No primeiro sábado, eles saíram da porta da cidade, procuraram um lugar de calma, mais afastado, junto a um rio, onde encontraram um ermo silencioso para oração; aí sentaram-se e como muitas mulheres os seguissem, pois que haviam tido notícias deles, falaram anunciando o Evangelho. Por essa ocasião, uma mulher chamada Lídia, que era vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, recebeu com alegria em seu coração a Palavra do Senhor, sendo "batizada", e ofereceu, em sua casa, hospedagem aos dois Apóstolos. Nessa cidade permaneceram por algum tempo (Cap. XVI, v. v. 8-15).

E iam todos os dias em lugar mais retirado a fazer oração, pois nesses momentos tinham sempre, ou visão, ou manifestâção de Espírito.

O silêncio é tudo para o homem espiritual. O retiro, a calma, o afastamento das turbas é grande coisa para se conseguir grandes coisas. O filósofo disse: quanto mais me afasto dos homens, mais me aproximo de Deus; e o poeta acrescenta: Deus fala quando as turbas estão quietas, e as campinas em flor.

Numa dessas saídas para oração, foi-lhes ao encontro uma moça que tinha um espírito adivinhador (Cap. XVI, v. v. 16-18), na qual com suas adivinhações dava muito lucro aos amos. Ela seguindo a Paulo e os demais Apóstolos e crentes que lá se achavam, clamava: "Estes homens são servos de Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da Salvação". Mas tanto repetia que Paulo, enfadado, virou-se para ela e disse ao espírito: "Eu te ordeno em nome de Jesus Cristo que saias dela"; e na mesma hora saiu.

"Vendo os seus amos que se lhes havia acabado a esperança do lucro, pegaram em Paulo e Silas e arrastaram-nos para a praça à presença das autoridades e apresentando-os aos pretores, disseram: Estes judeus estão perturbando muito a nossa cidade e anunciam costumes que não nos é lícito receber nem praticar, sendo nós romanos. A multidão levantou-se a uma contra eles, e os pretores, rasgando-lhes os vestidos, mandaram açoitá-los com varas e, depois de lhe darem muitos açoites, lançaram-nos numa prisão, mandando o carcereiro que os guardasse com segurança; e ele tendo recebido tal ordem, lançou-os na prisão interior e apertou-lhes os pés no tronco".

O espírito da mercancia está por toda a parte. Não é só nas igrejas que mercadejam. Existem muitos que fazem das graças do Céu mercadoria de tráfico: uns aplicam seus dons espirituais a troco de dinheiro, de bastardos interesses, e mesmo a serviço de interesses de terceiros; outros procuram indivíduos dotados de dons para com eles auferirem lucros. Enfim, antigamente como hoje, o dom dá mediunidade se corrompia, e apareciam indivíduos tarifados, adivinhos, zíngaros que, conquanto afirmassem a missão dos Apóstolos em altas vozes, aplicavam a sua mediunidade para fins estranhos às demonstrações da imortalidade e as confirmações do Evangelho.

E o interessante é que os negociantes desse gênero, se exasperam de tal forma quando se vêem privados do seu tráfico, que não vacilam em abraçar as maiores infâmias, perseguindo tenazmente aqueles que reprimem sua ação nefasta.

Na vida dos Apóstolos, nós encontramos muitos desses casos, mutatis mutandis, parecidos com o da moça que tinha o espírito adivinhador.

Uma coisa nós aprendemos ainda no gesto de Paulo. É o dom que Jesus deu a seus Apóstolos de ligar e desligar:

"Tudo aquilo que ligardes na Terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será desligado no Céu".

Paulo, como Pedro, impunha as mãos sobre os convertidos e o Espírito ligava-se a eles, médiuns, e falavam várias línguas e produziam maravilhas; de outro lado, eles davam ordens, como aconteceu à voz de Paulo, que se retirasse o Espírito, e ele desligava, aos influxos de poderes superiores, perdendo o médium por certo tempo a mediunidade ou ficando o indivíduo impedido do exercício desta faculdade.

Não é preciso nos estendermos em considerações sobre as angústias que sofreram os dois Apóstolos, massacrados por uma turba inconsciente e perversa, como tolhidos na sua liberdade e acorrentados por autoridades que tinham obrigação de zelar da justiça. Mas não é de estranhar que acontecesse tudo isso naquele tempo, quando hoje, em pleno século XX, nós vemos ordens de prisão e processos instaurados contra médiuns curadores e receitistas, pelo simples fato de curarem, quando no inverso são glorificados uns, divinizados outros, pelo fato de ferirem e matarem. .

O nosso mundo ainda está muito atrasado; é uma região de selvícolas, de cafres e hotentotes que só pensam no mal. Por mais que Deus envie seus mensageiros aos homens e lhes dê progresso e bem-estar material, comodidades e grandes novidades, eles aplicam todas essas inovações para o mal; materializam aquilo que deviam espiritualizar.

Mas vem chegando o tempo em que Deus fundará o seu reinado neste mundo e todos os dominadores da consciência e inimigos da liberdade serão exilados da Terra, convertida em Paraíso, onde a Árvore da Vida não mais cessará de oferecer a todos os seus frutos de Vida Eterna.

Cairbar Schutel