Ação de Paulo ante Felix e Drusila

Passado alguns dias, vindo Félix com Drusila, sua mulher, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o acerca da fé em Jesus Cristo. Discorrendo Paulo sobre a justiça, a temperança e o juízo vindouro, Félix ficou atemorizado e disse: Por ora vai-te e, quando eu tiver ocasião e oportunidade, mandar-te-ei chamar; esperando também ao mesmo tempo que Paulo lhe desse dinheiro; pelo que, mandando-o chamar com mais freqüência, conversava com ele. Passados, porém, dois anos, teve Félix por sucessor Pórcio Festa; e querendo alcançar o favor dos judeus, Félix deixou a Paulo na Prisão. Cap. XXIV, vv. 24-27.

Pelo que se lê no relato de Lucas, Paulo permaneceu preso em Cesaréia dois anos. Embora gozasse de regalias que Félix lhe havia concedido, o Apóstolo era, de fato, um prisioneiro do governo daquela cidade. Nem para um lado nem para o outro. Ele tinha que seguir para Roma, mas não podia fazê-lo por ter sido constrangido em sua liberdade.

Havia talvez necessidade de ficar dois anos em Cesaréia?

Com certeza, do contrário os Espíritos que o seguiam e Jesus que agia nele, não permitiriam que tal acontecesse.

Nós já vimos como Pedro foi liberto da prisão pelos Espíritos do Senhor, e como o próprio Paulo, por vezes, fora liberto das mãos dos seus inimigos. Se tal permanência do Apóstolo se deu em Cesaréia, era que havia necessidade espiritual para a conversão de muitos, pois o próprio Félix já havia recebido a palavra com sua mulher Drusila.

Foi pena que este governador, que era potentíssimo, se tivesse deixado levar por interesses subalternos. Ele estava, com certeza, pronto a soltar a Paulo, mas o faria só por certa quantia, como se depreende da narrativa.

Nota-se que o Apóstolo não quis submeter o representante da justiça ao vilipêndio do suborno, pois, tão criminoso é o que suborna os seus semelhantes, como os que são passivos ao suborno, e Paulo não desejava participar da obra infrutuosa das trevas. Deixou-se ficar prisioneiro e, tanto quanto lhe era possível, exercia seu ministério dentro dos estreitos limites das concessões que lhe faziam, a todos pregava aquela doutrina fundada por Jesus Cristo e contra a qual não podiam prevalecer a falsidade e a impostura.

Nós não sabemos a influência que teve Drusila no ânimo de Félix, em face da prisão do Apóstolo, mas cremos que ela concorreu para que fossem amenizados os sofrimentos de Paulo, e teria talvez dado a sua opinião complacente ao prisioneiro.

As mulheres, quando não são fanáticas e supersticiosas e chegam a libertar-se das garras sacerdotais, se esforçam para se colocarem ao lado da reta justiça, além do que recebem, dos Espíritos bons, intuição que as encaminham para a verdade e o bem.

Nós vemos, segundo refere Mateus, cap. XXVI, 19, que por ocasião do julgamento de Jesus a esposa de Pilatos enviou especialmente um portador a este, recomendando-lhe a não se envolver na questão desse Justo, pois havia tido sonhos naquela noite em que ela tinha padecido muito por causa do Senhor.

A ação espiritual da mulher, sob o influxo da Revelação, é muito comum nas páginas da história. Infelizmente, essa ação tem sido nulificada pelo sacerdócio ganancioso e venal, que se obstina a permanecer numa materialidade degradante.

Félix, como se nota da narração de Lucas, embora de posse já da Verdade, fez-se campo de espinhos, sufocando a palavra com os cuidados do mundo, pois queria alcançar favor dos judeus, até que Pórcio Festo veio substituí-lo, tomou várias resoluções.

Cairbar Schutel