Comunidade Cristã

E da comunidade dos que creram, o coração era um e a alma uma, e nenhum deles dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas tudo entre eles era comum. E com grande poder os Apóstolos davam o seu testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as traziam o preço do que vendiam e depositavam-no aos pés dos Apóstolos; e repartia-se a cada um conforme a sua necessidade. 4: 32-35.

A Doutrina de Jesus é a Religião da Paz, da Fraternidade, do Desapego, finalmente, do Amor não fingido. Jesus não admitia o orgulho e o egoísmo, fatores principais da desorganização social.

No encontro do Mestre com Zaqueu, das propostas deste e da proclamação de Jesus: "Hoje entrou a salvação nesta casa", pode-se perfeitamente concluir o pensamento íntimo do Senhor.

A sua Palavra sobre o Rico e Lázaro, também é muito frisante.

O trecho do seu Sermão no Monte que assim começa:

"Não ajunteis para vós tesouros na Terra" é mais que categórico. No cap. VI - 19-34, Mateus, os internautas ajuizarão melhor esses preceitos.

As ordenações do Senhor para que seus discípulos não carregassem ouro nem prata, nem alforjes, demonstram muito bem o desapego aos bens terrenos que todos deveriam ter.

E o interessante é ainda que todas essas ordenações concordam perfeitamente com os preceitos de João Batista, que foi o precursor de Jesus. A pregação de João é um apelo à humanidade, ao arrependimento e ao desapego aos bens da Terra.

No cap. III, 10, quando o povo perguntou a João o que deveria fazer, o Batista respondeu: "Aquele que tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e aquele que tem comida faça o mesmo".

A dizer com franqueza, segundo a linguagem dos tempos atuais, os dois grandes Revolucionários Cristãos eram francamente comunistas.

Ninguém há que lendo os Evangelhos e o Novo Testamento, nos possa contestar esta verdade.

Naturalmente que não se tratava de um Comunismo Materialista, que degenera em Anarquismo, mas poderíamos intitulá-lo Comunismo Cristão, com todas as insígnias de Fraternidade, Igualdade e Liberdade.

Estas três palavras, sob a Paternidade de Deus, representam a trilogia divina.

Elas se estreitam e interpenetram. Não é possível desuni-las, pois perderiam o seu significado verdadeiro.

De fato, como pôr em prática e ajuizar a Igualdade sem a Fraternidade, quando só a Fraternidade poderá regular com justiça a Igualdade!

A Igualdade, tomada arbitrariamente, é de impossível execução. No próprio Universo nós vemos que a Lei que reina de absoluta desigualdade. Não há uma estrela semelhante em absoluto à outra; não há um rio que seja igual ao outro na Terra; não há duas folhas iguais de uma árvore, assim como não há duas árvores iguais. Nas nossas próprias mãos não temos dois dedos iguais.

A desigualdade é o brasão do Universo. Entretanto, tudo vive, tudo progride, tudo se movimenta, porque tudo é regido por Lei, que tanto tem ação sobre o grande como o pequeno; sobre uma gota de água, um grão de areia, como sobre os mais volumosos rios, o mais poderoso Sol, a mais portentosa Estrela que se balança no Éter. O próprio Éter está debaixo da direção dessa Lei de Unidade que rege a Diversidade.

A lei da relatividade descoberta por Einstein é uma pura verdade e não vigora unicamente para as grandes coisas, mas também para as mínimas. A Igualdade como a Liberdade são, portanto, leis que só podem ser regidas pela Lei da Fraternidade.

Na "Comunidade Cristã", conforme deparamos nos Atos, todos os bens dos Cristãos eram reduzidos a dinheiro, sendo estes haveres depositados em bem da comunidade, isto é, de todos, e administrados pelos Apóstolos. Está bem claro no texto que a repartição se efetuava periodicamente a cada um segundo sua necessidade.

Não havia, na "Comunidade", propriedades reservadas, bens pessoais, mas o que havia pertencia a todos, por isso que nenhum necessitado havia entre eles.

Essa união, solidariedade fraterna, constituía uma contribuição forte para que o poder de Deus se manifestasse por meio deles. O testemunho que eles davam de sua Fé, da obediência severa aos preceitos de Cristo, tornava-os respeitados e até temidos, devido às maravilhas que se iam verificando.

Diz o texto que José, companheiro de Matias, havia sido convidado pelos onze, para tomar parte no Apostolado, mas que a sorte recaiu neste, e possuindo José uma propriedade, um campo, vendeu-o, entregando o dinheiro aos Apóstolos. José foi cognominado Barnabé, que quer dizer - filho da exortação ou seja da consolação. José era da Tribo de Levi, natural de Chipre.

Não podemos terminar este capítulo sem fazer referências ao modo por que tem sido interpretada pelas Igrejas oficiais, com especialidade a Romana, essa resolução dos Apóstolos sobre a constituição da "Comunidade Cristã".

As Igrejas, umas instituindo o dízimo, outras vivendo com as suas numerosas associações, confrarias, conventos, templos e sacerdotes - padres e frades, freiras - à custa do povo, baseiam essa sua atitude nos versos acima descritos, dos Atos, transviando assim por completo o pensamento Apostólico.

Nas congregações primitivas, como a que reuniu em Jerusalém 5.000 almas, todos participavam dos bens, todos comiam do mesmo bolo, todos se vestiam da mesma linhagem.

Na Congregação Católica é muito diferente; são os sacerdotes que vivem à custa do povo e com as espórtulas e donativos que recebem; enchem as suas arcas de ouro, prata, pedras preciosas; adquirem fazendas e terrenos, edificam quintas e palácios, chegando a constituir um Estado separado, como é o Vaticano. Não lhes faltam carruagens, automóveis, rádios, telefones, telégrafos. Os párocos de todas as cidades, quando não têm propriedades, têm depósitos mais ou menos avultados nos Bancos.

Em todo o mundo as construções - igrejas e catedrais - são feitas à custa do povo e, entretanto, são propriedades do Catolicismo.

O "Comunismo Romano" é uma obra de astúcia admirável.

A Igreja tudo recebe e nada dá.

Entretanto, são também "Comunidades", onde todos os clérigos participam do produto recolhido em seus cofres.

Não podíamos deixar de salientar esse fato digno de menção, para deixar ver, mais uma vez, que a obra sacerdotal é a antítese da obra Apostólica. Enquanto os Apóstolos se esforçavam para pôr em prática os Preceitos do Senhor, os sacerdotes desnaturam e desvalorizam a obra do Cristianismo.

Os Apóstolos e seus discípulos viviam para a Religião, chegando a sacrificar seus bens em benefício da Comunidade.

Os sacerdotes vivem da Religião, traficando com as coisas delas e sugando o dinheiro dos homens para viverem comodamente, sempre fora da lei do máximo esforço.

Cairbar Schutel