Conclusão

A Vida dos Apóstolos foi uma vida de trabalhos, de incessante luta pela difusão do Evangelho; foi uma vida de abnegação e ingentes sacrifícios; de verdadeiro desapego às coisas do mundo; de dores, de sofrimentos, mas também de glória que não se extingue, de aquisição de tesouros que não perecem, de luzes que não se apagam, de verdades que nos conduzem às alturas, onde melhor compreenderemos a Deus e sua infinita sabedoria.

Basta passar uma vista de olhos no Novo Testamento para distinguirmos os Apóstolos que ministraram a Palavra do Cristo, daqueles que falsamente se dizem representantes do Messias Divino.

O que caracteriza a vida dos Discípulos são seus atos de amor e de sabedoria, sua tolerância para com os ignorantes. sua humildade, sua renúncia, sua compaixão para com os infelizes, sua extraordinária dedicação à difusão dos Ensinos que receberam do Mestre, sua fé firme, inabalável, na continuidade da vida, sua submissão, seu singular devotamento num culto de verdade e de amor às coisas divinas, pondo absolutamente de lado todos os interesses materiais.

Lendo-se, por exemplo, a Epístola aos Gálatas, chega-se à conclusão que os Apóstolos trabalhavam exclusivamente para a moralização e espiritualização do homem e não paro arrastá-lo a cultos sibilinos e a crenças dogmáticas que não têm acesso à razão e nem melhoram o coração.

No capítulo V, vv. 18-25, lê-se: "Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Lei. Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são: o adultério, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissenções, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias, contra as quais vos previno, como já preveni, que os que tais cousas praticam, não herdarão o Reino de Deus.

"Mas o fruto do Espírito é a caridade, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, a temperança; contra tais cousas não há lei. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito".

Aos Efésios, cap. VI, v. v. 14-20, Paulo escreve:

"Estais firmes, tendo os vossos lombos cingidos com a verdade, e sendo vestidos da couraça da justiça e calçados os pés com a preparação do Evangelho da paz, em tudo tomando o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno; e tomai o capacete da salvação e a Espada do Espírito, que é a palavra de Deus, com toda a oração e súplica, orando em todo o tempo ao Espírito, e, para isto, vigiando com toda a perseverança e súplica por todos os santos e por mim, para que me seja dado, no abrir da minha boca, a palavra, para, com ousadia, fazer conhecido o mistério do Evangelho, por amor do qual sou embaixador em cadeias, para que nele tenha coragem para falar como devo falar".

Aos Felipenses, cap. II, vv. 1 e 2, diz:

"Se há, pois, alguma exortação em Cristo, se há alguma consolação de amor, se há alguma comunicação do Espírito, se há alguma misericórdia e compaixão, completai o meu gozo, de modo que tenhais o mesmo sentimento, tendo o mesmo amor, acordes no mesmo Espírito, cuidando numa só coisa; nada fazendo por porfia ou por vanglória, mas com humildade, considerando uns aos outros como superiores a si mesmos; não atendendo cada um para o que é seu, mas para o que é dos outros. Tendo em vós esse sentimento que houve também em Cristo Jesus".

Falando da devoção por meio de cultos e exterioridades, ele diz aos Colossenses - Cap. II, vv. 16-19:

"Ninguém vos julgue pelo comer, nem pelo beber, nem a respeito de um dia de festa ou de Lua Nova ou de sábado, as quais coisas são sombras das vindouras, mas o corpo é de Cristo. Ninguém à sua vontade vos tire o vosso prêmio com humildade e culto aos anjos, firmando-se nas coisas que têm visto, inchado vãmente pelo seu entendimento carnal e não retendo a cabeça de quem todo o corpo, suprido e unido por meio de juntas e ligamentos, cresce com o crescimento de Deus".

Referindo-se ao trabalho e ao amor fraternal, bases da religião, diz aos Tessalonicenses - 1° -, cap. IV, vv. 9-12:

"Acerca do amor fraternal, não tendes necessidade de que se vos escreva; visto que vós mesmos estais instruídos por Deus em amar-vos uns aos outros; pois é certo que o fazeis para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Mas vos exortamos, irmãos, a que nisto abundeis cada vez mais, e procureis viver sossegados, tratar dos vossos negócios e trabalhar com as vossas mãos, como vo-lo mandamos; a fim de que andeis dignamente para com os que estão de fora e não tenhais necessidade de coisa alguma".

Na 2ª Epístola, cap. III, vv. 7-9, ele acrescentou: "Pois, vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, porque não andamos desordenadamente entre vós, nem comemos de graça o pão de homem algum, antes em trabalho e fadiga, trabalhando de noite e de dia para não sermos pesados a nenhum de vós".

Referindo-se ainda ao batismo, na 1ª Epístola aos Coríntios, Cap. I, vv. 14-17, diz:

"Dou graças que a nenhum de vós batizei senão a Cristo e a Gaio: para que ninguém diga que fostes batizado em meu nome. E batizei também a família de Stéfanas; além deste não sei se batizei algum outro, pois não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o Evangelho, não em sabedoria de palavras".

Aos Romanos, cap. XII, vv. 9-21, diz:

"O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegai-vos ao bem; em amor fraternal sede afeiçoados; na honra cada um dê preferência aos outros; no zelo não sejais remissos; no Espírito, sede fervorosos; servi ao Senhor; na esperança sede alegres; na tribulação, pacientes; na oração, perseverantes, socorrei as necessidades dos santos; exercitai a hospitalidade. Abençoai aos que vos perseguem; abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai com os que se alegram, chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; não cuideis das coisas altivas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios aos vossos olhos.

Não torneis a ninguém mal por mal; cuidai em coisas dignas diante dos homens; se for possível, quando depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor. Antes, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a tua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem".

Não é preciso mais citações. Os Apóstolos não poderiam compreender a Doutrina de Jesus de modo diverso do que Ele a pregou, tanto mais que se achavam assistidos pelo Espírito que o Mestre lhes havia prometido para a boa orientação no trabalho que com tanta dedicação desempenharam.

Eles compreenderam muito bem que o Senhor havia trazido ao mundo uma nova concepção da Religião, muito diversa daquela que era obedecida pelos povos de então e pelo sacerdotalismo ignorante e orgulhoso.

A começar pela revelação de Deus: Ele excluiu da tela religiosa aquele "deus" cioso e vingativo, cujo caráter é um complexo de caprichos, virtudes e paixões humanas, para proclamar o Deus único, indivisível, ao qual está sujeito o Universo, um Ente perfeito que faz nascer seu Sol e vir sua chuva sobre os bons e maus, justos e injustos. Não é aquele "deus" cuja justiça é vingança, nem aquela Providência, cuja interposição arbitrária, faz da sua Revelação um segredo confiado a poucos, mas sim o Pai do Céu, o Pai de nós todos, e nós, a sua família. Com a Paternidade de Deus, Jesus revelou a igualmente humana e sua conseqüente fraternidade.

Para esclarecer ainda mais o seu pensamento, o Mestre nos mostra Deus como um Pai amoroso, justo, carinhoso, a quem devemos dirigir as nossas solicitações para que Seu Nome seja santificado por nós, pois é Ele que nos dá o pão necessário e não quer que nos conturbemos pelo alimento e vestuário, que dá até aos passarinhos e às flores do campo. É o Pai que sabe de todas as nossas necessidades antes de lhas expormos, que perdoa as nossas dívidas e nos livra das tentações e do mal; é o dono do rebanho e das cem ovelhas, que manda procurar a que se extraviou para que todas fiquem resguardadas no aprisco. Por isso é indispensável que O amemos de todo o nosso coração, entendimento e alma e com todas as nossas forças.

A Doutrina de Jesus é a Religião da Perfeição pelo trabalho, pelo estudo, pelo esforço em progredir: "Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai Celestial".

Enfim, a Doutrina do Nazareno, como bem a resume o seu Sermão do Monte, é o progresso para a Sabedoria e para o Amor, pela humildade e esforço pessoal para o Bem.

Como admitir que esse Ensino, que Spinosa chamou - "o melhor e o mais verdadeiro símbolo da sabedoria celeste", consiste em cultos sectários, em práticas exteriores de um ritual complicado? Como admitir que essa Religião que Kant denominou - "a perfeição ideal", consista em sacramentos desta ou daquela igreja?

Como pensar que essa extraordinária filosofia religiosa, que Renan chamou - "incomparável" se compare aos formalismos dos sacerdotes, práticas absolutamente avessas à razão e ao coração? Regel disse que a Religião de Jesus "é a mais completa união do divino e do humano", e essa união só se pode fazer pela razão e pelo coração, crescendo sempre no conhecimento da Verdade, da imortalidade, de Deus.

A constituição do Apostolado não podia ter, pois, outro intuito que despertar a razão e o coração, para o homem receber a Boa Nova, que lhe daria elementos indispensáveis a esse progresso, a essa perfeição que nos aproxima do Supremo Senhor. E o trabalho dos Apóstolos foi justamente esse: ensinar, instruir, iluminar os homens, tirá-los das trevas para a luz, da materialidade para a espiritualidade, da escravidão do sacerdotalismo para a conquista de crescentes liberdades, em busca da Verdade, dos seus destinos imortais, enfim, de novas terras e novos céus, onde a felicidade está guardada para os que buscam a Palavra de Deus e se esforçam para pô-la em prática.

O Cristianismo veio, como disse Paulo, "restaurare omnia", renovar o espírito, o caráter, renovar o amor, renovar os costumes; e os seus Apóstolos, no cumprimento de sua alta missão, não fizeram outra coisa senão trabalhar para que essa renovação se efetuasse com a possível presteza, para que o Reino de Deus venha a nós, e Jesus Cristo possa verdadeiramente ser por nós compreendido e continue a nos auxiliar em nossa ascensão espiritual.

Cairbar Schutel