Conversão de Saulo

Saulo, respirando ainda ameaças e morte, Contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que fossem do caminho, tanto homens como mulheres, os levasse presos a Jerusalém. Caminhando ele, ao aproximar-se de Damasco, subitamente resplandeceu em redor dele uma luz do céu; e caindo em terra, ouviu uma voz dizer-lhe: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu Ele: Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, e dir-te-ão o que te é necessário fazer. Os homens que viajavam com ele, pararam, emudecidos, ouvindo sim a voz, mas sem ver a ninguém. Levantou-se Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada viu, e guiando-o pela mão, conduziram-no à Damasco. E esteve três dias sem ver e não comeu nem bebeu - Cap. IX, v. v. 1- 9.

Saulo nasceu em Tarso, na Cilícia, e pertencia a uma família de judeus da seita farisaica. Foi educado em Jerusalém sendo discípulo de Gamaliel, havendo também aprendido o ofício de tecelão, segundo o preceito da lei judaica, que impunha , todos os doutores da lei a obrigação de saberem um ofício.

Saulo era um moço vigoroso, de espírito forte. Por ocasião da luta entre os judeus que se conservavam fiéis aos preceitos do sacerdotalismo e os primitivos cristãos, Saulo entrou em ação forte contra estes, distinguindo-se pela sua coragem e papel saliente que desempenhava na ofensiva contra os discípulos de Jesus.

Certo dia, ele dirigiu-se ao sumo sacerdote e solicitou cartas para os padres de Damasco que dirigiam as Sinagogas (Igrejas).

O pontífice imediatamente acedeu ao pedido, e partiu instantaneamente em direção a Damasco, unido a alguns companheiros, o jovem doutor que, como diz o capítulo dos Atos, respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor.

Foi justamente ao aproximar-se de Damasco que o Sublime Espírito que fundara o Cristianismo, no desempenho de sua excelsa missão, julgando apta aquela grande personalidade para colaborar na grande causa da redenção humana, vibra sobre ela a sua luz fulgente e brada em tom severo, mas verdadeiramente paternal: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" .

Este apelo penetrou súbito no coração do inimigo gratuito daquele que dentre poucos dias seria o seu maior amigo, o seu maior protetor e até a sua própria vida!

Mas o moço Saulo não se deixou levar unicamente pelas ânsias regeneradoras que transformavam o seu coração. Ele ergueu-se em sua lucidez racionalista e retorquiu: "Quem és tu, Senhor?" A voz se fez ouvir novamente: "Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, e dir-te-ão o que é necessário fazer".

Estava feito o trabalho do Espírito; estava demonstrada a imortalidade da alma; estava estabelecida a comunicação de Jesus com aquele que viria a ser dentro em pouco o seu grande intermediário, para levar a gentios e a judeus a Nova Fé, que os viria libertar do cativeiro sacerdotal.

Já não era mais Saulo que vivia; não era o terrível perseguidor dos cristãos que andava no encalço dos que evangelizavam. Saulo desaparecera para dar lugar a um novo homem vestido da fé, com as armaduras da caridade e do amor.

Uma nova consciência se elaborava naquele homem que há pouco havia participado da morte de Estêvão. Cego, sem luz nos olhos para se guiar a Damasco onde pretendia acumular façanhas e dominar pelo terror, acolitado pelos padres daquela famosa cidade, foi-lhe preciso estender, súplice, as mãos para que o guiassem à cidade, onde esteve três dias sem ver e não comeu nem bebeu.

A conversão de Paulo é um dos fatos mais importantes da história.

O grito de Damasco reboa até agora a nossos ouvidos e repercute pelo mundo todo. Nem as vozes dos dissidentes puderam até agora abafá-lo. É o grito da Imortalidade, é o brado do Amor que ergue o edifício da Fé sobre a rocha da Revelação, é a Esperança na Outra Vida que ressurge, é, finalmente, a Luz raiando das trevas e iluminando a todos nós com os esplendores da Eternidade.

Cairbar Schutel