Início das querelas dogmáticas

Alguns homens, descendo da Judéia, ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo tido Paulo e Barnabé uma grande contenda e discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e alguns outros dentre eles subissem aos Apóstolos e presbíteros em Jerusalém acerca desta questão. Ele, pois, sendo acompanhado até uma parte do caminho pela igreja, passavam pela Fenícia e Samaria, narrando a conversão dos gentios, e davam grande alegria a todos os irmãos. Chegados a Jerusalém, foram bem recebidos pela igreja, pelos Apóstolos e pelos presbíteros, e referiam tudo o que Deus tinha feito com eles. Mas levantaram-se alguns que tinham sido da seita dos fariseus e que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidar os gentios e mandar-lhes que observem a Lei de Moisés. - Cap. XV, V. V. 1 - 5.

O culto externo e o dogmatismo têm sido os terríveis adversários da Religião. Em todos os tempos o culto e o dogma, dois terríveis entraves do progresso têm desnaturado os princípios morais e científicos que são, na verdade, o fundamento, ou antes o escopo das revelações religiosas.

Não é o Cristianismo a primeira vítima imolada no altar da religião. Não poderia ele, portanto, passar sem esse batismo da perseguição que as águas lamacentas do culto e do dogma derramam sobre a cabeça dos inovadores.

Ainda não haviam dado, pode-se dizer, os primeiros passos para o erguimento da Doutrina do Cristo Jesus, nos corações, quando os conservadores da bagagem farisaica, alvoroçando os novos cristãos que haviam passado da gentilidade para a nova Fé, já lhes queriam impor a circuncisão, prática adotada nos primitivos tempos por Moisés, como operação preventiva de uma moléstia que grassava entre os judeus, devido ao clima em que se achavam. Eles não podiam compreender, como não o podem os conservadores do "batismo sacerdotal", que "o que se faz na carne é carne" e, portanto, corruptível e sem valor, e somente o que prevalece para o tempo é o que se faz no espírito.

Mas a circuncisão, como era uma prática tradicional, não podia, segundo o espírito de sistema, ser rejeitada, tendo os Apóstolos grandes controvérsias com os fariseus-cristãos, a tal respeito.

Felizmente o colégio apostólico repeliu com toda a energia esse enxerto que os falsos discípulos pretendiam fazer na Árvore do Cristianismo e, congregados em Jerusalém, demonstraram que os corações não se purificam nos cultos, mas pela fé sincera que Deus nos concede.

Pedro, falando no Cenáculo de Jerusalém, segundo referem os versos 6 a 11, a respeito da circuncisão, diz: "Irmãos, vós sabeis que há muito tempo Deus escolheu-me dentre vós, para que da minha boca ouvissem os gentios a palavra do Evangelho e cressem. E Deus, que conhece os corações, apresentou testemunho a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, como também a nós, e não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, porque privais a Deus, pondo um jugo sobre a cerviz dos discípulos, o qual em nossos pais, nem nós podemos suportar? Mas cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, assim como eles".

Após a palavra de Pedro, Paulo e Barnabé ergueram-se , narraram as peripécias que passaram na sua excursão e os prodigiosos fenômenos que Deus fizera, por meio deles, entre os gentios. (v. 12)

Terminada a exposição dos dois Apóstolos, Tiago deu o seu parecer sobre a matéria em questão, terminando com as textuais palavras: "Julgo que não se deve perturbar os gentios que se estão convertendo a Deus, mas escrever-lhes que se abstenham das viandas oferecidas aos ídolos, da dissenção, dos animais sufocados e do sangue. Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade homens que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados. (v. 13-21).

Esta resolução é sábia e essencialmente cristã.

Outra coisa não se poderia esperar de Tiago, que também foi discípulo de Jesus, tendo sido chamado pelo Mestre no segundo ano de sua pregação. Era filho de Alfeu e de Maria Cleofas, que era irmã de Maria, mãe de Jesus.

Depois do Pentecostes, Tiago, o menor, foi chamado para diretor do núcleo de Jerusalém.

Tiago é o autor da extraordinária Epístola Universal que traz o seu nome. Antes de terminar este capítulo, transcrevemos algo dessa "Carta Magna", que é um verdadeiro primor de Fé e Caridade

Mas dado o parecer de Tiago na assembléia, aprovado por todos, foram escolhidos Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens principais entre os irmãos para seguirem para a Antióquia, em companhia de Paulo e Barnabé, como portadores de uma mensagem que os Apóstolos enviavam ao núcleo daquela cidade, cujo teor é o seguinte:

"Os Apóstolos e presbíteros irmãos, aos irmãos dentre os gentios em Antióquia, na Síria e Cilícia, saúde. Visto que soubemos que alguns dentre nós, aos quais não demos mandamento, vos têm perturbado com palavras, subvertendo as vossas almas, pareceu-nos bem, chegados a um acordo, escolher homens e enviá-los a vós com os nossos amados irmãos Barnabé e Paulo, que têm exposto as suas vidas pelo nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, pois, Judas e Silas, que também por palavras dirão as mesmas coisas. Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor maior peso além destas coisas necessárias: que vos abstenhais de coisas sacrificadas aos ídolos, de sangue, de animais sufocados e de libertinagem; e destas coisas farels bem vos guardar. Saúde".

A carta foi lida em reunião geral, na Antióquia e a congregação muito se regozijou. Falaram por essa ocasião, Judas e Silas, que também eram profetas, transmitindo aos irmãos palavras de fortaleza e consolação.

Judas e Silas descansaram alguns dias em Antióquia, deliberando este último ali ficar, sendo que depois acompanhou a Paulo numa outra excursão evangélica, e Barnabé seguiu depois a Jerusalém com João Marcos, ficando Judas nesta última cidade.

Pelo que se verifica nos tempos apostólicos, a circuncisão foi um "sacramento do Mosaísmo" contra o qual muito lutaram os Apóstolos.

Em suas diversas Epístolas dirigidas às igrejas, Paulo não cessa de bater essa prática que se ia introduzindo entre os cristãos como um estigma herdado do farisaísmo.

Escrevendo, por exemplo, aos Gálatas, cap. V, v. 6, ele diz: "Porque a circuncisão e a incircuncisão não têm virtude alguma em Cristo Jesus; mas sim a fé que obra por caridade".

O grifo é nosso para chamar a atenção daqueles que fazem, atualmente, muita questão do batismo, como faziam os judeus da circuncisão, mas esquecem da fé que obra por caridade.

Na 1ª aos Coríntios, Cap. VII, V. 19, diz: "A circuncisão nada é, e também a incircuncisão nada é, senão a guarda dos mandamentos de Deus".

Na sua exortação aos Colossenses, Cap. III, V. 5-11, ele lembra: "Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra: a luxúria, a imundícia, a paixão, a má concupiscência e a avareza, que é idolatria; pelas coisas vem a ira de Deus; nas quais também vós andastes noutro tempo, quando vivíeis nelas; mas agora deixai todas estas coisas: a ira, a cólera, a ma1ícia e a calúnia, a palavra torpe da vossa boca; não mintais uns aos outros, tendo-vos despido do homem velho com os seus feitos, tendo-vos revestido do homem novo, que se renova para o pleno conhecimento segundo a imagem d' Aquele que o criou, onde não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, escravo, livre, mas Cristo é tudo e em todas as coisas".

De fato, o reino de Deus não é circuncisão, nem batismo, nem sacramento de espécie alguma, mas sim amor e sabedoria, devendo prevalecer, em vez de exterioridades que nada valem, o verdadeiro fruto do Espírito, que é: "Caridade, paz, longanimidade, bondade, fé, mansidão e temperança".

Na Epístola de Tiago, a que acima fizemos referência, se encontra a súmula da Religião que deve ser abraçada por todos. Recomendamo-la na íntegra aos estudiosos. Limitamo-nos a alguns trechos que esclarecem bem as nossas afirmações.

"De que serve, meus irmãos, se alguém disser que tem fé se não tiver obras? Acaso pode essa fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e necessitarem de pão cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e saciai-vos e não lhes derdes o que é necessário para o corpo, que lhes aproveita? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas alguém dirá: tu tens fé, eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras".

"Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem e estremecem. Mas queres saber, ó homem vão, que a fé sem as suas obras é nada? Não foi pelas obras que Abraão, nosso pai, foi justificado quando ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar? Vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas suas obras a fé foi consumada, e cumpriu-se o que diz a escritura: E Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado para justiça, e ele foi chamado amigo de Deus. Vês que é pelas obras que o homem é justificado e não somente pela fé. Do mesmo modo também não foi Rahab, a meretriz, justificada pelas obras, quando recebeu os espias e os fez partir para outro caminho? Pois assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem as obras é morta". (Cap. II, v. v. 14-26).

Tratando da sabedoria ele diz:

"Quem dentre vós é sábio e instruído? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas se tendes zelo amargo, e o espírito de contenda nos vossos corações, não vos glorieis e não mintais contra a verdade. Esta sabedoria não é sabedoria que vem de cima, mas é terrena, animal e diabólica; porque onde há zelo e espírito de contenda, ali também há confusão e toda a obra má. Mas a sabedoria que vem lá de cima é primeiramente pura, depois pacífica, moderada, fácil de se conciliar, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e hipocrisia. Ora, o fruto da justiça é semeado em paz para aqueles que são pacificadores". (Cap. III, 13-18).

Para aqueles que, cheios de dinheiro, julgam que estão na religião por concorrerem para construção das igrejas e aquisição de ídolos; aqueles que geralmente enriquecem e não fazem uma obra boa de caridade, tendo ainda adquirido mal a sua fortuna, Tiago diz:

"Eis agora, vós ricos, chorai dando urros, por causa das desgraças que hão de vir sobre vós. As vossas riquezas estão apodrecidas, as vossas vestes estão roídas pelas traças, o vosso Ouro e a vossa prata estão enferrujados, e essa ferrugem dará testemunho contra vós e devorará a vossa carne, como um fogo. Entesourastes nos últimos dias. Eis que o salário que desfraudastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, dama, e as vozes dos ceifadores têm chegado aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Tendes vivido em delícias sobre a terra e vos tendes regalado; tendes cevado os vossos corações no dia do morticínio. Tendes condenado e matado o justo; ele não vos resiste". (Cap. V. 1 - 6). O resto da Epístola recomendamos aos internautas.

Cairbar Schutel