Paulo convoca os judeus e prega em Roma

Estamos concluindo a exegese dos "Atos dos Apóstolos".

Lamentamos profundamente que o autor deixasse à margem o fim da carreira apostólica das duas grandes figuras do Cristianismo: Pedro e Paulo.

Nenhuma referência nesse sentido encontramos nos "Atos", por isso não queremos aventurar hipóteses sobre o término da existência terrena desses dois grandes representantes de Jesus. Uns dizem que Pedro foi supliciado em Roma com cabeça para baixo, a seu próprio pedido, visto julgar-se indigno de ser posto na cruz, como Jesus o fora; outros dizem que essa versão não passa de uma lenda e que Pedro nunca esteve em Roma.

Seja como for, não nos interessa o gênero de morte por que passou o Apóstolo, mas sim o gênero de vida de que ele deu tão bom testemunho da Verdade Cristã.

Sobre Paulo também referência alguma faz Lucas, que conclui a sua notícia nos "Atos dos Apóstolos" como se vai ler:

"Decorridos três dias convocou ele os judeus principais; e havendo se reunido eles, disse-lhes: Eu, irmãos, apesar de nada ter feito contra o nosso povo ou contra o rito de nossos pais, desde Jerusalém fui entregue preso nas mãos dos romanos, que tendo me interrogado, queriam soltar-me, por não haver em mim crime algum que merecesse a morte; mas opondo-se a isso os judeus, fui obrigado a apelar para César, não tendo, contudo, coisa alguma de que acusar a minha nação. Por este motivo mandei chamar-vos, para vos ver e falar; pois pela esperança de Israel estou preso com esta corrente. Porém eles, lhe 'disseram: Não recebemos carta da Judéia a teu respeito, nem veio de lá irmão algum que contasse ou dissesse mal de ti. Mas desejaríamos ouvir de ti o que pensas; pois relativamente a esta seita sabemos que por toda a parte é ela impugnada.

Tendo-lhe marcado um dia, foram em grande número ter com ele à sua morada; aos quais, desde a manhã até a noite, dando testemunho, expunha o Reino de Deus, persuadindo-os acerca de Jesus pela lei de Moisés e pelos profetas. Uns se deixavam persuadir por suas palavras, e outros permaneciam incrédulos; e não estando entre si concordes retiravam-se, quando Paulo lhes disse estas palavras. Bem falou o Espírito Santo a vossos pais pelo Profeta Isaías: Vai a este povo e dize: Certamente ouvireis, e de nenhum modo entendereis. Certamente vereis, e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo se fez pesado, e os seus ouvidos se fizeram tardos e eles fecharam os olhos; para não suceder que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos, eu os sare. E havendo dito isto, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda".

E acrescenta para concluir: "E durante dois anos inteiros, permaneceu no seu aposento alugado, e recebia todos os que vinham ter com ele, pregando o reino de Deus e ensinando as coisas concernentes ao Senhor Jesus Cristo com toda a liberdade e sem impedimento" (Cap. XXVIII, v. v. 17 a 31).

O nosso principal escopo, escrevendo esta obra, não foi salientar a morte de Paulo, como também não é lembrar a dos Apóstolos que divulgaram a fé cristã, mas esclarecer, tanto quanto possível, a vida e os atos desses homens humildes e bons, que renunciando às suas próprias pessoas, viveram para Cristo, isto é, cumprindo os desígnios que por Jesus lhes foram confiados.

E, quanto a Paulo, se examinarmos circunstanciadamente o último trecho de Lucas, havemos forçosamente de concluir que o Apóstolo dos gentios, tendo apelado para César, o fez conscientemente com o firme propósito de obedecer à risca a ordem de Jesus, dada em manifestação de espírito, conforme se depara do v. 19, cap. XXIII dos Atos: "Tem bom ânimo, pois assim como deste testemunho de Mim em Jerusalém, assim importa também que o dês em Roma".

O Apóstolo permaneceu dois anos em Roma, recebendo todos os dias a todos os que iam ter com ele, a quem pregava a genuína Doutrina do Cristo, sob as bases indestrutíveis da Revelação, com as suas prerrogativas de imortalidade, aparição e comunicação dos Espíritos.

E o fazia com toda a liberdade e sem impedimento, isto é, com aquiescência direta ou indireta, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente de Nero, que era o César do seu tempo.

As suas epístolas aos Coríntios, mormente a 1ª, capítulos XII, XIII e XIV, esclarecem muito bem o pensamento íntimo da religião do grande Apóstolo. Se nos basearmos por elas, não podemos deixar de receber a luz que esclarece o entendimento e o amor que alegra o coração, para nos encaminharmos para a Verdade, para Deus.

Cairbar Schutel