Paulo e Silas em Tessalônica

Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo o seu costume, ali entrou, e por três sábados discutiu com eles, tirando argumento das Escrituras, expondo e demonstrando ser necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos, e este Jesus, que eu vos anuncio, dizia ele, é o Cristo. E alguns deles ficaram persuadidos e se associaram com Paulo e Silas, bem como uma grande multidão de gregos devotos e não poucas mulheres de qualidade. Porém, os judeus, movidos de inveja, tomando consigo alguns homens maus dentre o vulgacho e, ajuntando a turba, amotinaram a cidade, e assaltando a casa de Jason, procuravam-nos para os entregar ao povo. Porém, não os achando, levaram a Jason e alguns irmãos à presença das autoridades da cidade, clamando: Estes que têm transtornados o mundo, chegaram também aqui, aos quais Jason recolheu; e todos eles vão de encontro aos decretos de César, dizendo haver outro rei que é Jesus. Ao ouvirem isto ficaram perturbados a multidão e as autoridades da cidade e, tendo Jason " os mais prestado fiança, foram soltos. - Cap. XVII, 1 - 9.

Não há apóstolo que cumpra a sua missão sem sofrer o batismo da perseguição que, em todos os tempos, se opõe às luzes que vêm iluminar aos homens o caminho da Verdade.

Recebidos por muitos com grande satisfação, os Apóstolos Paulo e Silas, em Tessalônica experimentaram de quanto é capaz o espírito do obscurantismo. Caluniadores, falsários adúlteros que sempre se opõem ao bem e à justiça, essa horda de perseguidores da Religião, não se cansa de infelicitar os povos e paralisar o progresso moral das nações. Os obscurantistas são capazes dos maiores sacrifícios para o mal, tal como se observa nos nossos dias, mas quando se trata de um benefício que reverte não só em bem a uma pessoa, como à coletividade, nenhuma ação aparece, e se mostram absolutamente alheios aos gestos nobres, às paixões elevadas que se assinalam pela caridade e pela fé, que distinguem as almas de escol.

Submissos diante dos poderosos que exploram a sua maldade, subservientes aos maiorais, sempre cheios de preconceitos, de respeitos humanos, debalde trazem o Senhor nos lábios, quando, na verdade, não o têm no coração.

Esses indivíduos não se envergonham de curvar-se aos ídolos mudos, de auxiliar e concorrer às festas do paganismo, mesmo que o boi Ápis retomasse aos templos, para ser carregado em procissões; mas se acanham com as pregações apostólicas, revoltam-se contra os preceitos de amor a Deus e amor ao próximo, que o Cristo nos legou e exemplificou. São homens porque se parecem com os homens, mas no seu coração se aninha a fera com todos os requintes de maldade e de astúcia.

Senão vejam bem os nossos leitores, como os tais judeus de Tessalônica, desnaturando as palavras dos dois Apóstolos, foram acusá-los às autoridades, de faltas que não praticaram, e os ardis que conceberam para os intrigar perante o povo sem raciocínio e sempre propenso ao mal.

E o que fizeram as autoridades para o bem da justiça e manutenção da ordem? Fizeram o mesmo que costumavam fazer as autoridades de outrora, ignorantes, arbitrárias e más: não encontrando mais os Apóstolos, pois estes, cansados de sofrer injustiças, se ocultaram, prenderam aquele que lhes deu hospedagem e que, naturalmente, devido ao seu progresso espiritual, acolheu com alegria a Palavra de Jesus que eles pregavam.

Geralmente, as autoridades, e o nosso mundo, são constituídas de indivíduos que, em vez de zelar da paz e do bem estar do povo, promovem os barulhos e estabelecem a discórdia nas populações. Eles dizem representar a justiça e a Lei, mas são, em geral, os seus mais terríveis infratores.

E se assim não fosse teriam os Apóstolos sofrido humilhações como sofreram? Que males cometiam eles, que armas carrregavam, o que assaltavam? Só porque tinham uma convicção, um Ideal que lhes inflamava o coração, do qual queriam tornar partícipes seus irmãos, seus semelhantes? Então, não se pode pensar? Temos que pensar pela cabeça dos outros? Somos escravos de sacerdotes, escravos de doutores, escravos de políticos, escravos de governos? Quando a própria Lei, tanto antiga, como moderna, nos permite a escolha da religião, a escolha da Sabedoria, a escolha do princípio que havemos de abraçar!

Para que existiam então as sinagogas, onde era concedida palavra a todos os que, livremente, quisessem comentar as Escrituras?

É que os detentores da Lei não cumprem o seu dever, ultrapassam os limites da sua ação fazendo prevalecer o desacato, a injustiça, o dolo.

Enfim, em Tessalônica, a Palavra de Jesus, que tem por base a Revelação, teve o seu início e a despeito das perseguições sofridas pelos dois intimoratos. Apóstolos, um hom número de novos prosélitos se associaram a Paulo e a Silas, bem como uma multidão de gregos devotos.

E Jason, prestando fiança, se libertou das injunções policiais que lhe tolhiam a liberdade.

Cairbar Schutel