Paulo em Corinto

Depois disso Paulo partiu de Atenas e foi a Corinto.

Achando um judeu por nome Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália, e Priscila, sua mulher (por ter Cláudio decretado que todos os judeus saíssem de Roma), foi ter com eles e, por ser do mesmo ofício, com eles morava, e ali trabalhavam; pois, o ofício deles era fabricar tendas. Todos os sábados discutia ele na sinagoga e persuadia a judeus e gregos. - Cap. XVIII, v. 4.

Como já tivemos ocasião de ver, todos os doutores do farisaísmo eram obrigados a ter um ofício, pois, caso lhes fosse necessário para a subsistência, não lhes faltaria recurso.

O Apóstolo Paulo, desde o início de sua carreira apostólica, dedicou-se ao seu ofício, para se poder manter independente; e do que lhe sobrava ele repartia com os seus companheiros mais necessitados e os pobres.

Disto lhe veio um grande mérito e uma grande autoridade, pois dizia: "Nunca fui pesado a nenhum de vós, e para a minha subsistência e a dos meus, estes braços me serviram".

A vida missionária é espinhosa e aqueles que a exercem precisam precaver-se contra a emboscada dos interesses terrenos que têm prejudicado a muitos.

De fato, o trabalho material não é incompatível com o trabalho espiritual, como julgam os sacerdotes das religiões, há tempo para tudo, e assim como há tempo para o trabalho Espiritual, também o há para o trabalho material. Aquele mantém o espírito, mas este é indispensável para manter o corpo. O Apóstolo fazia tanta questão de que essa orientação fosse mantida entre os cristãos, que chegou a dizer: "Quem não trabalha não come".

Comer à custa alheia, vestir à custa alheia, viver à custa alheia, sob pretexto de exercício de uma missão divina, não está direito.

A independência do homem se revela também pela sua ação no trabalho. O trabalho é fonte de todo o bem-estar e progresso. Pregar, consolar, curar, mas dando tudo de graça, e trabalhar para manter a vida, é ótima orientação que todos devem adotar, e que Paulo nos ensinou.

O Apóstolo era muito feliz na fabricação de suas tendas de campo; utilizava-se de bom material, fazia serviço esmerado, por isso com facilidade seus produtos eram preferidos. E além dos seus afazeres, anunciava quotidianamente a Palavra de Jesus, trocando idéias com os que o procuravam.

Nos sábados, o Apóstolo não perdia as discussões na sinagoga, e tomando parte na exposição das Escrituras e suas interpretações, persuadia a judeus e a gregos.

"De modo que quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo estava ativamente ocupado com a Palavra, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo" (Cap. XVIII, v. 5).

Uma das maiores campanhas, que perdura até os tempos atuais, é justamente essa de negarem os judeus ser Jesus o Cristo.

Eles até agora esperam um Cristo (Enviado) que venha cercado de todos os poderes materiais, como César, Alexandre ou Napoleão e que funde um reinado para eles, aqui na Terra. Não podiam compreender que aquele que disse: "o meu reino não é deste mundo", seja o Cristo. Então, Paulo, como os outros Apóstolos, tratava largamente de dissuadir os judeus de suas velhas crenças, pois, de fato, Jesus era Rei, mas não rei de uma nação ou de um povo; e o seu reinado era puramente Espiritual.

Mas eles blasfemavam e não aceitavam a palavra dos Apóstolos. Em virtude da repulsa, Paulo, sacudindo as vestes, disse-lhes: "O sangue que derramastes venha sobre as vossas cabeças; eu estou limpo e desde já vou para os gentios". Refugiando-se na casa de um certo Tício Justo, que era contígua à sinagoga, evangelizou a muitos que se converteram, inclusive Crispo, chefe da sinagoga com toda sua família, bem como muitos Coríntios que viam em Cristo um homem direito.

O trabalho de Paulo estava produzindo muitos frutos, quando Jesus, o Senhor, lhe apareceu novamente, para animá-lo ainda mais e dizer-lhe: "Não temas, mais fala e não te cales; porque eu sou contigo e ninguém te porá a mão para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade". (Cap. XVIII, v. v. 8 - 10).

Paulo cumpriu fielmente as ordens do Divino Mestre, concorrendo para que as "ovelhas descarregadas de Israel entrassem novamente no aprisco, pois, para isso viera o Senhor ao mundo, e permaneceu em Corinto um ano e seis meses, trabalhando sem cessar e ensinando a Palavra de Deus". (v. 11)

Por suas Epístolas aos Coríntios vê-se que eram numerosos os crentes daquela cidade e circunvizinhanças.

Cairbar Schutel