Paulo no Pretório de Heródes

Acusação de Ananias e Tertulo

Cinco dias depois desceu o sumo sacerdote Ananias, com alguns anciões e com um orador chamado Tertulo, os quais acusaram Paulo perante o governador. Sendo ele chamado, começou Tertulo a acusá-lo, dizendo:

Visto que por ti gozamos de muita paz, e pela tua providência têm-se feito reformas nesta nação, em tudo e em todo o lugar reconhecemos com toda a gratidão, potentíssimo Félix. Mas para não te enfadar por mais tempo, rogo-te que na tua bondade nos ouça por um momento. Porque temos achado que este homem é um homem pestífero e que em todo o mundo promove sedições entre os judeus, e é chefe da seita dos nazarenos; o qual também tentou profanar o templo, e nós o prendemos, e tu mesmo examinando poderás tomar conhecimento de tudo aquilo de que nós o acusamos. Os judeus também concordaram na acusação, afirmando que estas coisas eram assim. - Cap. XXIV, V. V. 1-9.

As acusações sacerdotais proferidas contra os apóstolos são bem semelhantes às atuais dos sacerdotes romanos e protestantes proferidas hoje contra os espíritas.

É o terrível espírito de seita revoltando-se contra as idéias novas, é a treva revoltando-se contra a Luz, é o erro, a falsidade, o dolo fugindo da Verdade que se esforça para impor-se às consciências.

Esses escravocratas que inutilizam a razão e sufocam as nobres aspirações do coração, pretendem, como faziam antigamente, eternizar a escravidão da razão, dote sagrado que o Criador nos concedeu para que progridamos e concorramos com as nossas forças para o progresso do nosso semelhante.

Mas o sacerdotalismo, preso ao dogma e ao mistério, assim não entende. Pretensiosos, fazendo-se sábios tornaram-se loucos, pretendendo enclausurar numa jaula de ferro o espírito, para que creia firmemente nos seus dogmas arcaicos, no seu ritual, nos seus formalismos, enfim, na superioridade ilimitada da sua razão, completamente desviada da lógica e do bom senso.

O crime de Paulo é o nosso crime: fazer o homem pensar e, como o paralítico da piscina, se erguer e caminhar para Deus, pondo de lado a classe sacerdotal que nos oprime.

Aos romanos, cap. XII, 1-2, ele diz: "Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresentais os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa agradável e perfeita vontade de Deus".

Aos Coríntios lI, cap. III, v. 17, diz: "O Senhor é Espírito e onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade".

Aos Tessalonicenses, 1° Cap., v. 21, diz: "Examinai todas as coisas e abraçai só o que for bom".

Na 1ª - a Timóteo, Cap. IV, vv. 1-8, ele aponta as doutrinas errôneas que prejudicam as almas e esclarece o verdadeiro sentido da Religião.

"Porém, o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, mediante a hipocrisia de homens mentirosos, que têm a consciência cauterizada, que proíbem o casamento e ordenam a abstinência de alimentos, que Deus criou para serem usados com gratidão pelos que crêem e conhecem bem a verdade.

Pois toda a criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado, se é recebido com ação de graças; porque é santificado pela palavra de Deus e pela oração. Expondo essas coisas aos irmãos, serás um bom ministro de Jesus Cristo, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido; mas rejeita as fábulas profanas e de velhas. Exercita-te na piedade. Pois o exercício corporal para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é útil, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser".

Não é preciso nos estendermos em maiores considerações para que se compreenda o motivo que movia os sacerdotes e judeus submissos ao clero hebreu a perseguirem a Paulo. A própria acusação é uma defesa dos princípios cristãos que o Apóstolo pregava e deixa ver o quanto pode o farisaísmo de mãos dadas com os governos despóticos.

Cairbar Schutel