Epes Sargent

 

 

Epes Sargent nasceu no estado americano de Massachusetts em 27 de setembro de 1813 e desencarnou em 30 de dezembro de 1880. Sua vida apresenta muitos pontos de semelhança com a de Allan Kardec, nascido nove anos antes. Ambos produziram excelentes livros didáticos; defenderam com heróica bravura, até o fim de suas vidas, o Espiritismo nascente; diminuíram todas as atividades da vida para tratarem principalmente do novo ideal; foram casados e não tiveram filhos; escreviam com muita clareza, ao alcance de todas as pessoas; dominavam línguas de importância mundial e foram contemporâneos. Estes e outros pormenores revelam que desempenharam o papel de missionários da mesma obra de transformação do mundo materialista em mundo espiritualista, e deixaram livros que cumpre reimprimir sempre até que realizem seu glorioso destino: a conversão da humanidade.

Epes destacou-se como fecundo escritor, sobressaindo-se com marca de genialidade nos inúmeros jornais em que trabalhou, oferecendo ao público milhares de artigos, cujos temas de tão variados, fizeram longas incursões pelos caminhos da filosofia, da moral e da ciência com talentosa fertilidade. Escreveu narrativas, comédias, tragédias, dramas, e obras primas da poesia tais como Canções do Mar e outros poemas que arrancou elogios dos mais famosos críticos literários americanos. No plano educacional, ele contribuiu sobremaneira, escrevendo obras didáticas para estudante e até para professores, o que lhe conferiu o título de educador emérito, sendo o seu nome citado nos mais longínquos rincões da América. Não havia escola nos Estados Unidos onde o seu nome não figurasse como autor a ser lido e comentado, contribuindo assim para a formação intelectual e o enriquecimento moral da juventude de seu país. Homem de conhecimentos diversificados, dotado de polivalência cultural, não lhe faltavam pedidos para a composição de versos apropriados para ocasiões especiais, principalmente para representações teatrais. De 1852 a 1856 editou em numerosos livros as vidas e produções de célebres poetas ingleses entre eles Thomas Hood, Rogers, Collins, Thomas Campbell, Thomas Gray e Goldsmith, além de traduzir para o seu idioma importantes obras literárias.

Nos últimos 30 anos de sua existência, Sargent veio a interessar-se pelo Espiritismo, estudando-o contínua e profundamente, dedicando muito de suas energias em procurar absorver toda a sabedoria que esta doutrina encerra. Cético a princípio, assistiu a inúmeras experiências e realizando-as igualmente por conta própria, não demorou a convencer-se da veracidade dos fenômenos observados, passando a defender a nova realidade que lhe transformara o intelecto dotando-o agora de uma aura brilhante, fruto do seu entusiasmo e vontade firme. Pensador profundo, espírito indagador e emancipado de preconceitos científicos ou religiosos é soube extrair de fatos a que observou, uma bela e grandiosa filosofia espírita da vida universal e dos destinos do homem, em particular. Sua inteligência e sua pena materializando belas páginas sobre a consistância do Espiritismo invadiram os maiores periódicos americanos.

Em contínua comunicação com líderes espiritistas de sua pátria e de toda Europa, Epes Sargent mantinha-se informado da evolução teórica do Espiritismo, bem como das pesquisas que homens sérios efetuavam iniciando o soterramento da velha era do materialismo. Em plena atividade literária, Epes contraiu uma afecção pulmonar da qual nunca mais se recuperaria. Nos últimos dois anos de sua via, seu estado orgânico debilitou-se com o surgimento de um câncer na boca, que lhe impedia a manifestação oral sem contudo neutralizar-lhe as atividades intelectuais concentradas na elaboração da fase final do seu último trabalho: Bases Científicas do Espiritismo. Em 1880 a doença lhe absorveu as últimas reservas de forças vitais. Estava concluída a grandiosa obra da sua vida que jamais seria esquecida.


Nascido no dia 27 de setembro de 1813, na cidade de Gloucester, Massachusetts, Estados Unidos, e desencarnado a 30 de dezembro de 1880.
Era filho do mestre de navios Epes Sargent e de Hannah Dane Coffin, e pertencia à linhagem de William Sargent, a quem o governo havia concedido a posse de terras na região de Gloucester, no ano de 1678. Seus ancestrais foram John Winthroup e Joseph Dudley, antigos governantes da colônia inglesa de Massachusetts.

Transferindo seu domicílio de Gloucester para Roxbury, nas vizinhanças de Boston, no ano de 1818, o genitor de Epes Sargent ali se dedicou ao comércio, no que não foi muito feliz, retornando à sua antiga cidade, onde se dedicou novamente à pesca.

Esse descontrole financeiro, no entanto, não afetou o aculturamento dos filhos, principalmente por ver em Epes Sargent um jovem superdotado, de inteligência. Por isso matriculou-o na "Escola Latina de Boston" onde ele revelou invulgar tendência para a literatura, tendo-se graduado em 1829. Nessa época visitou a Rússia em companhia de seu pai.

Atingindo a idade dos trinta anos, fez parte do corpo redatorial de importantes periódicos editados na época. Posteriormente tornou-se correspondente político do "Boston Daily Atlas", em Washington.

Na capital norte-americana teve a oportunidade de contrair a amizade de numerosos políticos, especialmente de membros do Partido Liberal Whig, aproveitando o ensejo para ,publicar, em 1842, o seu notável livro "A Vida e os Serviços Públicos de Henry Clay". Logo a seguir lançou a obra "A Noiva de Gênova" e a tragédia "Velasco", escrita também em 1837 e lançada em 1839.

Nessa época partiu para Nova Iorque, onde permaneceu durante oito anos, trabalhando no celebre jornal "The New York Mirror", fazendo parte, logo a seguir, do "The New World" e do "New Monthly Magazine". Não demorou muito e lançou o seu próprio jornal "Sargent's New Monthly Standard", que teve vida efêmera.

Retornando a Boston, em 1847, participou do corpo redatorial de numerosos órgãos publicitários, dentre eles o "Boston Evening Transcript", "The School Monthly", "The Knickerbocker Magazine" e "The Atlantic Monthly". Justamente no ano que regressou a Boston, deu à publicidade o seu melhor volume de versos, intitulado "Canções do Mar, com outros Poemas".

Sargent casou-se a 10 de maio de 1848, com Elisabeth W. Weld, de Roxbury, não tendo tido descendentes diretos.

As suas atividades no campo educacional foram de grande relevância. Escreveu uma quantidade apreciável de obras destinadas a estudantes e professores, tendo mesmo sido catalogado como educador emérito, tornando-se famoso em toda a América do Norte, na segunda metade do século passado. A sua obra "The Standard Speaker", publicada em Filadélfia no ano de 1852, alcançou mais de sessenta edições. De 1852 a 1873 escreveu numerosos compêndios e manuais de Instrução, os quais foram largamente adotados nos colégios e escolas dos Estados Unidos. Paralelamente publicou, no ano de 1858, outra coleção de "Poemas", com 300 páginas e, em 1870, a narrativa em versos, com o título "The Women who dared", sem contar outras obras de inquestionável valor.

Em 1859 traduziu e publicou .no jornal "The Press ", o escrito de Tomás Celano, notável escritor franciscano, sob o título "Dies Irae". A poesia e a música dessa "prosa", cantada nas cerimônias fúnebres, é de grandeza solene e caráter dramático.

Além do elevado número de obras por ele divulgadas, deve-se acrescentar que muitos dos seus escritos foram publicados anonimamente, deixando por isso de serem registrados em enciclopédias.

Nos últimos vinte ou trinta anos de sua fértil existência; Epes Sargent se interessou pelo Espiritismo, estudando-o profundamente após ter sido um dos que combateram e repudiaram os fenômenos insólitos ocorridos em Hydesville e Rochester, através da mediunidade das famosas irmãs Fox.

Manteve correspondência epistolar com numerosos dirigentes espíritas dos Estados Unidos e da Europa. Escreveu numerosos artigos para os órgãos que então se ocupavam da matéria. Foram também de sua autoria as seguintes obras versando sobre Espiritismo: "Revelações do Grande Mistério Moderno Pranchetas, com teorias sobre as mesmas" (Boston, 1869), "Prancheta, ou o Desespero da Ciência face ao Espiritismo" (Boston e Londres, 1869), "A Prova Palpável da Imortalidade (Boston, 1875). Nessa última obra ele descreve os fenômenos de materialização e tece comentários, analisando o Espiritismo face à Teologia, à Moral e à Religião. Finalmente escreveu a obra que se tornou seu canto de cisne "Bases Científicas do Espiritismo" (Boston, 1880), precioso tratado sobre o aspecto científico da doutrina.

Em 1868 havia contraído uma afecção brônquica de que nunca mais ficou livre. No ano de 1872 visitou a Europa, permanecendo algum tempo no sul da França. Como que pressentindo o seu próximo desenlace, pois sua saúde se agravava continuamente, trabalhou dia e noite no afã de terminar "The Scientific Basis of Spiritualism". Finalmente foi acometido de um câncer na boca, o qual logo se propagou, impedindo sua manifestação oral e debilitando sua saúde. No dia 30 de dezembro de 1880 seu Espírito partiu rumo à pátria espiritual, consciente de ter desempenhado uma obra de inegável valor e grande profundidade.

Epes Sargent foi um homem de talento fora do comum. Sua operosidade foi das mais intensas, tendo mesmo merecido de Edgar Allen Poe, que havia tomado conhecimento dos seus escritos anteriormente a 1849, as seguintes palavras: É um dos mais preeminentes membros da extensíssima família Americana - a dos homens de engenho, talento e tato.

O jornal "Boston Evening Transcript", comentando o seu decesso, escreveu: "Qualquer assunto, quando descrito pela sua pena, adquiria uma forma admiravelmente original, como se fora uma nova criação."

Em obra "Bases Científicas do Espiritismo", escreveu ele: "O Espiritismo baseia-se em fatos bem estabelecidos, não só do passado, até onde a História pode alcançar, como do presente. Eles são encontrados em todas as épocas, mas sem uma explicação, apreciando-os englobadamente, porque os atribuíam a faculdades super-humanas ou supramateriais, exercidas inconsciente e anormalmente pelos chamados "instrumentos humanos", ou por seres invisíveis, manifestando-se inteligentes e capazes de vencer obstáculos materiais, não superáveis por qualquer processo físico da Ciência."

Revista O Semeador – Abril de 1981

 

2 - EPES SARGENT - TRAÇOS BIOGRÁFICOS

Epes Sargent, personalidade multiface, foi jornalista, poeta, dramaturgo, novelista, educador, editor e, principalmente na última fase de sua vida, brilhante advogado do Espiritismo.

Nasceu, no dia 27 de Setembro de 1813, no Estado americano de Massachusetts, na cidade de Gloucester, um dos maiores portos de pesca do Mundo. Filho do mestre-de-navio Epes Sargent e de Hannah. Dane Coffin, sua segunda esposa, pertencia à sexta geração de uma familia americana descendente de WilIiam Sargent, a quem o Governo fizera conncessões de terras, em Gloucester, no ano de 1678.

Entre os outros seus primeiros ancestrais, do século XVII, sobressaíram os nomes de John Winthrop e Joseph Dudley, que foram governadores da antiga colônia inglesa de Massaachusetts.

O irmão mais velho do nosso biografado, John Osborne Sargent (1811-1891), destacou-se como jornalista e advogado.

Removido, em 1818, de Gloucester para Roxbury (Povoação anexada à cidade de Boston em 1868, sendo hoje um distrito da mesma), o pai de Epes Sargent resolveu ser comerciante em Boston. Todavia, este novo modo de vida foi para ele um desastre, o que o obrigou, pouco mais tarde, a retornar ao mar. Apesar desses reveses, não descurou da educação e instrução dos filhos. Observando em Epes Sargent uma inteligência precoce e ávida de saber, fê-lo entrar, em 1823, para a "Boston Latin School", escola fundada em 1635, hoje a mais antiga dos Estados Unidos. Logo o menino se revelou um aluno talentos o e esforçado, com fortes inclinações para todos os ramos da literatura. Graduou-se em 1829, ano em que interrompeu o seu curso por alguns meses a fim de acompanhar o pai numa viagem à Rússia. "The Literary Journal", publicado pelos estudantes da "Boston Latin School", estampou vários extratos de suas cartas remetidas de São Petersburgo (hoje Leningrado), os quais eram lidos com grande interesse.

Há uma persistente, porém não confirmada tradição - segundo diz um dos seus biógrafos - de que Epes Sargent frequentou o "Harvard College" por um certo período, pois há escritos seus no "Collegian", periódico estudantil dessa Universidade, e no qual seu irmão colaborou, juntamente com o poeta e ensaísta Oliver Wendell Holmes e outros.

Naquela época, a cidade de Boston constituía o principal centro literário dos Estados Unidos, sendo conhecida como a "Atenas da América", importância que conservou até fins do século XIX.

E' nesse ambiente de inteligência e cultura que o jovem Sargent desenvolveu suas inatas qualidades de escritor, ràpidamente ascendendo na admiração e no respeito da intelectualidade de Boston,

No terceiro decênio de sua existência, pertenceu ao corpo redatorial de importantes periódicos da época, como o "Parley's Magazine", que, dirigido por S, G, Goodrich, foi o principal anuário juvenil daqueles tempos, muito tendo contriibuído na divulgação de escritos para a infância; ,·"The New England Mgazine"; "Boston Daily Advertiser" e "The Tooken", espécie de anuário literário ilustrado, de grande popularidade, também editado por Goodrich, de 1827 a 1842, e em cujas páginas oolaboraram vários escritores, entre eles N, P. Willis, Longfellow, Catarina Sedgwick, Lídia Francis Child, O maior romancista norte-americano do século XIX, Nathaniel Hawthorne, ali estampou, em primeira mão, muitos dos seus contos.

Por algum tempo desempenhou as funções de correspondente político, em Washington, do "Boston Daily Atlas", folha na qual entrara como redator-chefe aos vinte e um anos de idade.

Na Capital estadunidense, formou muitas relações políticas, especialmente no partido liberal Whig. Como fruto dessas relações, surgiria mais tarde, em 1842, seu notável livro - "The Life and Fllblic Services of Henry Clay" (várias edições posteriores, e, a partir de 1852, com acréscimos de Horace Greeley, jornalista de fama nacional), obra que é, segundo o próprio Henry Clay, a melhor e a mais autêntica memória até então publicada a respeito de sua vida.

Foi em 1837 que apareceu a primeira produção literária de Epes Sargent, escrita aos 23 anos de idade. Era um drama poético em cinco atos, intitulado - "The Bride of Genoa". Seguiu-se a tragédia "Velasco" escrita em 1837 e dada à luz em 1839, cuja ação se passa na Espanha do século XI. Ambas estiveram em cena, com êxito, no Teatro Tremont, de Boston, e, subsequentemente, em Nova Orleães e Nova Iorque. "Cheia de beleza como um poema", no dizer de Allan Poe, a última peça apresentou no papel de heroína a Srta. Ellen Tree, uma das melhores atrizes do célebre Teatro de Covent-Garden, e foi, tanto quanto o permitiu a sua encenação, bastante aplaudida, alcançando popularidade nos palcos americanos e até mesmo nos ingleses.

Decênios mais tarde, Arthur Hobson Quinn, doutor em Filosofia e decano da Universidade de Pensilvânia, ao escrever sobre as primícias do teatro americano, não deixou de referir-se ao talento dramático de Sargent.

Em 1839, ele partiu para Nova Iorque, onde permaneceu por oito anos, trabalhando no conceituado jornal "The New York Mirror", com um dos seus fundadores, o jornalista e poeta George Pope Morris; no "New Monthly Magazine"; no "The New World", brilhante folha literária, como editor assistente, ao lado do poeta Park Benjamin, seu fundador; e no seu próprio jornal - "Sargent's New Monthly Standard", que só conseguiu manter-se durante o primeiro semestre de 1843.

Em Nova Iorque deu a público, além de "Velasco", várias outras produções de sua autoria, a saber: "Wealth and Worth, or, Which makes the Man ?(1840); "What's to be done?, The Will and the Way" (1841); "The Life and Public Services of Henry Glay" (1842); Fletwood; or, The Stain of Birth" (1845), sua novela romântica de maior procura.

Na cidade novaiorquina ele se tornou membro de destaque do "Union Glub" e veio a ser um dos fundadores do "New York Glub", que adquiriu certo prestígio na época. O primeiro clube supra-referido, fundado em 1836, ainda sobrevive, e todos os seus sócios pertencem a tradicionais famílias americanas, podendo-se ali ver os Van Cortlands, os Van Rensselaers, os Livingtons, os Suydams, os Griswolds, etc.

Retornando a Boston em 1847, deste ano até 1853 foi o editor responsável do "Boston Evening Transcript", o priimeiro jornal norte-americano propriamente popular, fundado em 1830. "The School Monthly" convidou-o, em 1858, para o seu corpo de redatores. E a contribuição literária e jornalistica de Epes Sargent se estendeu ainda a muitos outros periódicos, entre os quais "The Knickerbocker Magazine e "The Atlantic Monthly", muito lidos na época. O úlltimo, fundado em 1857 pelo poeta James Russell Lowell, estampou trabalhos de grandes figuras literárias de Boston, como Longfellow, Emerson, Hawthorne, Holmes, etc. Foi importante órgão do pensamento nacional e universal de Nova Inglaterra. "The Knickerbocker", um dos primeiros magazines populares de Nova Iorque, apareceu em 1833. Ficou célebre na história do jornalismo americano "The Knickerbocker Gallery", um gift-book (as publicações descritas como anuários literários e livros-para-presente variavam em muitos aspectos mas, eras presenteados e não vendidos) publicado, em 1855, em beneficio do seu editor, o poeta Charles Fenno Hoffman. Abrilhantaram as páginas desse livro os trabalhos dos colaboradores do magazine: Epes Sargent, Washington Irving, Henry W. Longfellow, Oliver Wendell Holmes, William Cullen Bryant, James Russell Lowell, N. P. Willis, T. W. Parsons, J. C. Saxe, Park Benjamin, Rufus W. Criswold, C. F. Brigs e muitos outros famosos escritores da época.

Justamente no ano que voltou para Boston, deu a público o seu melhor volume de versos - "Songs of the sea, with other Poems" (2ª edição em 1849), em grande parte baseado em aventuras ocorridas durante uma viagem a Cuba. Essa obra arrancou elogios de Henry Theodore Tuckerman, Edwin Percy Whipple e Poe, famosos críticos e literatos americanos.

Edgard Allan Poe, em seu trabalho - "The Literati", impresso, em meados de 1846, no "Godey's Lady's Book", declarou que Shells and Sea-Weeds, uma série de poemas constantes naquela obra, era, em sua opinião, "o melhor trabalho em verso do autor, e evidencia uma sutil imaginação, com penetrante apreciação da beleza no cenário natural". Apesar de outros poemas da mesma obra terem real mérito, alcançou grande popularidade, sendo lembrado até hoje, o canto A Life on the Ocean Wave, que chegou a ser musicado pelo famoso cantor e cancionista inglês Henry Russell, cuja bagagem musical se eleva a oitocentas composições, tendo sido uma das mais populares a que musicalizou com a letra de Sargent.

Composições menos líricas, como, por exemplo, The Missing Ship, publicada no "Knickerbocker", A Night Storm at Sect, A Galm, The Gale, Tropical Weather, foram igualmente consideradas excelentes por Allan Poe. A balada The Light of the Light-House é outra produção de Sargent enaltecida pelo famoso poeta de "O Corvo".

Escritor fértil e talentoso, Sargent, ainda em 1847, publica, em dois volumes, a interessante narrativa, "American Adventure by Land and Sea", seguida, dez anos depois, de outra no mesmo estilo, intitulada "Artic Adventures by Sea and Land", em cujas páginas descreve, com aquela fluência que lhe era característica, desde as primeiras viagens às terras árticas até as últimas expedições que saíram à procura do célebre almirante e explorador Sir John Franklin.

A 10 de Maio de 1848, casa-se com Elizabeth W. Weld, de Roxbury, não tendo tido descendentes diretos.

A comédia satírica "Ghange makes change" e a tragédia em cinco atos "The Priestess", ambas editadas em Nova York que, no ano de 1854, foram representadas com êxito nos Estados Unidos e no exterior.

No plano educacional é significativa a contribuição de Sargent. Muitas obras didáticas de sua autoria, para estudantes e até mesmo para professores, tiveram ampla acolhida e consagraram-no como educador emérito, sendo o seu nome conhecido em quase toda a América, na segunda metade do século XIX. Entre outras, e afora as que não lhe levaram o nome, citam-se estas: "The standard speaker" (Filadélfia, 1852), que teve dezenas de edições, mais de sessenta; "Selections in Poetry, for exercices at School and Home" (Filadélfia, 1852); "The first-class standard reader, for public and private schools" (Nova lorque, 1854).

Essa série de compêndios e manuais de instrução foram largamente adotados nos colégios e nas escolas estadunidenses. Lisongeiro e bem maior renome veio juntar-se ao que já angariara com os seus apreciados livros de versos, de aventuras, novelas e outras miscelâneas, e com seus trabalhos editoriais. E embora várias de suas produções não tenham tido uma importância duradoura, ele foi, na verdade - conforme acentua um dos seus biógrafos -, "uma força a prol do bem e um líder da educação nos seus dias".

Certo escritor, contemporâneo de Sargent nos seus tempos de mocidade, disse que "ele era um homem de pequena estatura. guapo e elegante, vestido com apuro, a girar uma fina bengala preta polida, parecendo a personificação do bom ânimo", retrato que está mais ou menos de acordo com o que dele traçou Poe em "The Literati", crítico este qne escreveu mais isto: "Suas maneiras são distintíssímas."

Em 1858 apareceu outra coleção de "Poems", com 300 páginas, e, em 1870, a narrativa em versos intitulada "The Woman who dared",

Quanto à sua extensa novela "Peculiar; a tale of the great transition" (Nova Iorque, 1863; Londres, 1864, com prefácio de WiIliam Howitt), que apresenta quadros das transformações sociais no sul dos Estados Unidos, durante os primeiros anos da Guerra da Secessão, o escritor Francis WiIliam Newman, professor de Latim na University College de Londres. e de Literatura Clássica no New College de Manchester, elogiou-a, dizendo que as personagens são ali como que reveladas fotograficamente. Nova edição apareceu em 1892 com o titulo - "Peculiar, a hero of the southern rebellion" .

A vida de Sargent era bastante ativa e aos seus múltiplos afazeres se somavam os constantes pedidos que lhe faziam, de versos apropriados para ocasiões especiais, principalmente para representações teatrais. E Samuel Griswold Goodrich, famoso escritor norte-americano, menciona-o em suas "Recollections of a Lifetime" (1856, 11, pág. 275) como um dos que o ajudaram na preparação de vários livros da famosa série Peter Parley. Com este pseudônimo, Goodrich trouxe a público cerca de cem volumes para as crianças, e que vieram atender às necessidades educacionais do seu tempo, sendo vendidos aos milhões de exemplares.

Conhecendo bem os problemas do ensino e os métodos didáticos para um melhor aproveitamento do estudante, de vez em quando ele prelecionava, satisfazendo, assim, a solicitações que lhe eram dirigidas.

De 1852 a 1865, editou, em numerosos livros, as vidas e algumas produções de célebres poetas ingleses, entre eles Thomas Hood, Rogers, CoIlins, Thomas CampbeIl, Thomas Gray e Goldsmith. Editou ainda: "Select Works of Benjamin Franklin", com autobiografia, memória e notas (Filadélfia, 1863); "Works of Horace und James Smith" (Nova Iorque, 1857); «The Modem Standard Drama" (15 volumes, 1846-58); "The Mariner's Library", com muitas edições; "Harper's Cyclopaedia of British and American Poetry", só aparecida póstumamente, em 1881; bem como outras obras de interesse cultural, fato que levou AIlan Poe a dizer, em seu escrito "A Chapter on Autography", que, "como editor, Sargent também se distinguiu", acrescentando logo a seguir: "Ele é um cavalheiro de bom gosto e grande talento" (He is a gentleman of taste and high talent).

Sargent traduziu "Dies Irae", de Tomás de Celano, notável escritor franciscano falecido em 1255. A poesia e a música dessa "prosa", cantada nas missas dos mortos, são, segundo os entendidos, de uma grandeza solene e de caráter profundamente dramático.

A referida tradução para o inglês foi publicada com destaque no jornal «The Press" (Filadélfia, 27 de Outubro de 1859) pelo seu ilustre redator literário e crítico dramático Robert Shelton Mackenzie.

Outras obras lhe são ainda devidas, como: "The Critie Criticised: a Reply to a Review of Webster's Orthographielll Systemin the Demoeratie Review for March, 1856" (Boston, 1856): "Original Dialogues" (1861); "The 'Wonders on the Artic World" (Filadélfia, 1873), um relato de todas as pesquisas e descobertas nas regiões polares do Norte. E são vários os escritos de sua autoria, publicados anônimamente, e que as enciclopédias deixaram de registar.

Nos últimos vinte ou trinta anos de sua existência, Epes Sargent se interessou pelo Espiritismo, estudou-o contínua e profundamente, dedicando-lhe muito de suas energias e de seu talento. E. entretanto, foi ele um dos cépticos que em 1848 ridicularizou os fenômenos tiptológicos de Rochester, acoimando seus autores de embusteiros. Assistindo, porém, a inúmeras experiências e realizando-as igualmente por conta própria, ele não tardou a convencer-se da realidade dos fenômenos espíritas, na defesa dos quais saiu valentemente em campo. Mas não ficou aí. Pensador profundo. espírito indagador e emancipado de prejuízos científicos ou religiosos, soube brilhantemente extrair dos fatos objetivos uma bela e grandiosa filosofia espírita da vida universal e dos destinos do homem, em particular.

Esteve em correspondência com líderes espiritistas de sua pátria e da Europa, e escreveu, além de muitos artigos para quase todos os periódicos que, nos Estados Unidos e na Inglaterra. se ocupavam do assunto, - "Revelationll of the Great Modern Mystery, Planchette, with theories respetting it" (Boston, 1869), com 28 páginas; "Planchette; or, The Despair of Science: an Account of Modern Spiritualism" (Boston e Londres, 1869), com 404 páginas, obra que faz um amplo relato do Modern Spiritualism, seus fenômenos e as diversas teorias que lhe dizem respeito, acrescido de uma vista geral do Espiritismo na França; "The Proof Palpable of Immortality" (Boston, 1875), com 238 páginas, obra que apresenta uma descrição dos fenômenos de materialização, bem assim comentários sobre o Espiritismo em face da Teologia, da Moral e da Religião; e "The Scientific Basis of Spiritualism" (Boston, 1880), com 372 páginas, obra que no dizer do Prof. C. Moutonnier, da École des Hautes Études Commerciales, de Paris, "é um dos tratados mais completos e mais convincentes que já foram publicados sobre esse tema, e que ficará como um monumento digno de passar à posteridade" .

Escritos com muito saber e com aquela "facilidade" que Poe assinalou na obra literária de Sargent, todos os três últimos livros tiveram inúmeras edições nos Estados Unidos, e por eles se pode inferir o desenvolvimento das idéias do Autor acerca do assunto e a sua atitude serena e científica ante os fatos.

"The Scientific Basis of Spiritualism", que ora se publica em português, em 2ª edição, sob o título - "Bases Científicas do Espíritismo", foi, em verdade, o canto de cisne do eminente escritor norte-americano.

Cerca de doze anos antes, contraíra uma afecção bronquial de que nunca mais se recuperaria. Em 1872 visitou a Europa, passando algum tempo no sul da França. Nos últimos dois anos de vida, sua saúde piorou com uma complicação de doenças. Como que adivinhando o fim próximo, ele redobrava de esforços, dia e noite, na preparação final do livro acima mencionado. Surge-lhe agora na boca um câncer dolorosíssimo. Ràpidamente, a terrível doença lhe vai impedindo a manifestação oral e consumindo as energias, até que, a 30 de Dezembro de 1880, lhe absorve as derradeiras forças vitais. Estava, porém, concluída a grandiosa obra de sua vida, e que nunca ficará esquecida. Prefaciando-a, escreveu com toda a convicção: "O Espiritismo já não é o desespero da Ciência, como o classificara eu no frontispício da minha primeira obra sobre esse assunto. Seus direitos a um reconhecimento científico, da parte dos observadores inteligentes, já não podem ser postos em dúvida."

Transpondo as fronteiras da Pátria espiritual, certamente o receberam, com júbilo, os muitos amigos que o respeitavam e admiravam e que na Terra foram destacadas figuras das Letras, do Jornalismo e da Política americana, entre eles Henry Clay, Daniel Webster, John C. Calhoun, William Camppbell Preston, Samuel Goodrich, Horace Greeley, Park Benjamin e tantos outros. Talvez presente a esta festa de recepção estivesse o próprio Allan Poe, que, desencarnado em 1849, apenas pôde apreciar parte da pradução intelectual de Epes Sargent, suficiente, porém, para lhe permitir reconhecer a inteligência promissora do jovem escritor, que aos trinta anos de idade recebia esta referência elogiosa do grande poeta e critico: "Numa palavra, ele é um das mais proeminentes membros de uma extensissima Família Americana - a dos homens de engenho, talento e tato."

O jornal ((Boston Eveningl Transcript", ao traçar-lhe o necrológio, falou de suas raras aptidões jornalísticas, de sua facilidade e precisão. na escrever e do seu excelente senso critico. "Qualquer assunto, quando, descrito pela sua pena, adquiria uma forma admiravelmente original, como se fora uma nova criação."

Espírito sereno e simples, não era, porém, homem que permanecesse impassível ante a erro ou qualquer coisa que despertasse justa indignação. Nestas circunstâncias, dizia o jornal supramencionado:"tornava-se um antagonista difícil de ser vencido". A força e a virilidade de seus dotes intelectuais, a par de uma linha de conduta nobre e leal, permitiram-lhe triunfar em várias controvérsias, sem que sua memória - conforme assinalau a "Boston Evening Transcriipt" - se manchasse com malquerenças ou ódios.

A vida de Epes Sargent apresenta muitos pontos de semelhança com a de Allan Kardec, nascido nove anos antes. Ambos produziram excelentes livros didáticos; defenderam com heróica bravura, até ao. fim de suas vidas, o Espiritismo nascente; diminuíram todas as outras atividades da vida para tratarem principalmente do novo ideal; foram casados e não deixaram filhos: escreviam com muita clareza, ao alcance de toda a gente; dispunham de línguas de importância mundial; foram contemporâneos.

Com as conquistas da Ciência e da Técnica, o Materialismo vai-se tornando um Moloc sempre mais apavorante para toda a Humanidade e não está longe o dia em que todos os homens o detestem, temam e busquem salvação no Espiritualismo, voltem a estudar essa grande literatura dos cem anos mais recentes, sempre confirmada por fatos novos. O refúgio do homem em Deus será o que fatalmente há-de-ocorrer. FEB