CASOS E COISAS, DAQUI E DAÍ...

1 - PREFÁCIO

Convidado pelo querido Irmão X para escrever algumas palavras no pórtico deste trabalho mediúnico, em que são relatados casos e coisas daqui e daí, apresso-me, como bom pagador de meus débitos, a quitar-me da obrigação moral. Em outra oportunidade, o Irmão X, com sua reconhecida benevolência, resolveu prestigiar-me, prefaciando o livro Reflexões espirituais , por mim ditado ao médium.

Hoje, apesar de sem qualidades, coube a mim apresentar aos nossos irmãos as páginas bonitas e amorosas ditadas por quem é, ainda, o grande prosador das letras pátrias.

Irmão X, autor de tantas obras mediúnicas, das mais importantes na literatura espírita, mantém, nesta coletânea de comunicações, a mesma verve que o tornou, ainda no mundo material, um dos mais apreciados escritores brasileiros. E aqui repontam, como antes, a graça e a ironia, a leveza e a seriedade, o drama e a poesia, tudo como num jardim florido em que rosas, camélias, cravos, agapantos* e miosótis* formam o mosaico de delicados matizes e sublimados perfumes.

Nestas páginas estão presentes também, com rara maestria, as lições mais profundas do Evangelho, ditas com a sabedoria de quem é dono do ofício. Lendo-as, não apenas sentimos que se gravam em nosso espírito, como até ouvimos o som de suas palavras a repercutirem em nossa mente, tal o poder de penetração do estilo inconfundível.

Casos e coisas, daqui e daí... são pequenos eventos que a imaginação fértil do Espírito Irmão X criou para nos transmitir as lições do Cristo como se fossem singelas parábolas. Mas nem tudo é ficção, eis que em suas raízes germina a verdade que tece a trama dos destinos humanos. E' a saga dos espíritos imperfeitos no carreiro de sua evolução, em meio a dores e lágrimas, espantos e contradições, egoísmo e vaidade, orgulho e rancor. Tudo isso cm palavras simples, gostosas, suaves, doces e poéticas, como só o Irmão X sabe transmitir.

Vale ressaltar, em face de certas realidades, por escusa de responsabilidade, que se os casos e coisas destas páginas de luz e amor, tiverem qualquer semelhança com pessoas e latos reais, terá sido mera coincidência...

Albino Teixeira

2 - INTRODUÇÃO

No Rio de Janeiro, na década de 1970, o advogado, jornalista, escritor e médium Heitor Luz Filho recebia, em espírito, a visita do Irmão X.

Desde jovem, envolvido no movimento espírita, Heitor sentiu na ocasião a grata emoção de servir de instrumento a um expoente das letras brasileiras, que se apresentava à sua frente, buscando tão-somente a oportunidade de continuar escrevendo.

O primeiro livro do Espírito Humberto de Campos - depois conhecido como Irmão X - Crónicas de além-túmulo, foi psicografado por Francisco Cândido Xavier e lançado no ano de 1939 pela Federação Espírita Brasileira - FEB. O texto devolvia, às atividades literárias, um dos maiores escritores brasileiros. Da primeira até a última linha, a obra apresentava as mesmas características estilísticas, a idêntica e proverbial eloquência do jornalista, crítico, cronista, contista, poeta e biógrafo Humberto de Campos.

Para os seus fiéis leitores, e para os companheiros de lides literárias, a incrível surpresa juntou-se a uma inevitável reflexão: Humberto de Campos está vivo. Continua escrevendo, ainda discorrendo sobre muitos temas que antes o motivaram, acrescidos das inevitáveis experiências e do aprendizado conquistado na espiritualidade. Reconhece os erros do passado, refletindo melhor sobre a perspectiva espiritual, alinhando-se ao ideal espírita da reforma íntima, aparteando agora a inutilidade dos temas frívolos e sensuais.

Nascido em Miritiba, Maranhão, no dia 25 de outubro de 1886, filho de Joaquim Gomes de Farias Veras e Ana de Campos Veras, aos seis anos, Humberto de Campos Veras, ficou órfão de pai, e foi levado para São Luís do Maranhão. Aos dezessete anos, foi para o Pará, onde lançou seu primeiro livro, Poeira, uma coletânea de versos. Foi colaborador e redator da Folha do Norte e da Província do Pará. Em 1912, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ainda capital do Brasil, ingressando no jornal O Imparcial e, mais tarde, no Correio da Manhã.

Extravasando em seus escritos a erudição filosófica adquirida durante anos de exaustivas leituras, aliada ao talento para expressar-se em síntese, não se envolveu na boêmia, entregando-se às letras com empenho e determinação. Suas crônicas conquistaram os leitores, graças ao seu estilo original. Durante seu mandato pai lamentar na Câmara dos Deputados, bem como na condição de "imortal" na Academia Brasileira de Letras - Humberto manifestou a mesma intenção de colaborar e ser útil à coletividade, sendo discreto na conduta, mas decidido na defesa das posturas assumidas.

Envolvido nas tarefas que abraçou, não abandonou o trabalho nem mesmo quando a moléstia-que já tomava conta do seu corpo físico - quase o impedia de escrever. Datilografando com dificuldade, deixou suas derradeiras mensagens no ritmo disciplinado de quem sempre se recusou a entregar-se às lamentações. Cumprindo seu ofício até o final de sua existência e vivendo solitariamente numa pensão, persistiu em extrair das banalidades rotineiras a oportunidade para exercitar sua incrível habilidade em dissecar a alma dos homens.

Amargamente resignado diante da debilidade de sua saúde, sentindo-a irremediavelmente comprometida, revelou, ainda no ano de 1933, em artigo publicado no prestigioso Diário Carioca, sua aproximação da Doutrina Espírita - a partir de anotações em seu diário, do dia 14 de agosto de 1932, um domingo: Por que o senhor não experimenta o Espiritismo? Se o senhor quiser, escreva o
seu nome, sua idade e seu endereço em um papelzinho, que eu dou a meu marido e ele faz a consulta". Humberto de Campos concordou e forneceu as informações. Decorridas três semanas, sem receber notícias do Espiritismo, o escritor afirmou nem se lembrar mais do caso.

No entanto, a mesma senhora retornou à sua presença, alegando que, na verdade, sua ausência devia-se ao natural embaraço em lhe transmitir a resposta. Em duas sessões, por meio de médiuns que não conheciam as respostas apontadas pelos outros, o diagnóstico foi exatamente o mesmo: "...isto é, o senhor está muito doente e pode morrer de um momento para o outro". Humberto sentiu-se estremecer diante da notícia: "Um frio irresistível me corre pela espinha. Agradeço a informação, simulando serenidade...". Sua desencarnação aconteceu no dia 5 de dezembro de 1934, no Rio de Janeiro.

A elegância e a sobriedade do estilo e da linguagem de Humberto de Campos, destacadas na psicografia de Francisco Cândido Xavier -a qual o escritor determinou-se a assinar deu origem a um processo movido contra o médium. No ano de 1944, a família do escritor exigiu os direitos autorais da obra mediúnica. Superada a questão nos tribunais, isentou-se Chico Xavier de quaisquer ressarcimento ou penalidade - ele que doou todas as psicogralias que recebeu para instituições beneficentes, sem reter para si nenhuma importância. A partir daí, depois de uma longa ausência, o escritor desencarnado passou a identificar-se apenas como Irmão X.

Sem jamais esquecer daqueles que aqui permaneceram, Irmão X continuou escrevendo, ampliando ainda mais o número dos seus leitores. Nos seus contos e crônicas, encontramos esclarecimento e ânimo para vencer dificuldades, consolo para enxugar lágrimas e o vigor de uma força inquebrantável que, atravessando o outro lado da vida, nos alcança hoje, graças à mediunidade daquele que também foi jornalista e escritor, o médium Heitor Luz Filho.

O Editor

..CAPÍTULO 1 - A ÁRVORE DA VIDA

..CAPÍTULO 2 - O MENINO QUE VENDIA ROSAS
..CAPÍTULO 3 - O FAXINEIRO
..CAPÍTULO 4 - O HOMEM QUE NÃO AMAVA
..CAPÍTULO 5 - A QUINA
..CAPÍTULO 6 - A LUZ DOS HOMENS
..CAPÍTULO 7 - AS BOAS AÇÕES
..CAPÍTULO 8 - O TRIBUNO
..CAPÍTULO 9 - REENCONTRO
..CAPÍTULO 10 - CAUSA E EFEITO
..CAPÍTULO 11 - PIEDADE
..CAPÍTULO 12 - O NATAL DAÍ E DAQUI
..CAPÍTULO 13 - UMA ENTREVISTA COM AS SOMBRAS
..CAPÍTULO 14 - O PONTO ESCURO
..CAPÍTULO 15 - A SURPRESA DO PASTOR
..CAPÍTULO 16 - A APOSTA
..CAPÍTULO 17 - A CONFISSÃO DO PE. BENEDITO
..CAPÍTULO 18 - A LAVOURA
..CAPÍTULO 19 - SHALOM !
..CAPÍTULO 20 - 18 DE ABRIL
..CAPÍTULO 21 - O ENCONTRO
..CAPÍTULO 22 - A RENÚNCIA
..CAPÍTULO 23 - AMOR ÀS AVESSAS
..CAPÍTULO 24 - PALAVRAS SIMPLES
..CAPÍTULO 25 - AS COISAS DO CÉU
..CAPÍTULO 26 - O HOMEM QUE FICOU LIVRE
..CAPÍTULO 27 - O INVERNO
..CAPÍTULO 28 - O CEGO DE NOTRE DAME
..CAPÍTULO 29 - O ESCÂNDALO
..CAPÍTULO 30 - O CATADOR DE PAPÉIS
..CAPÍTULO 31 - O FALSO MERCADOR
..CAPÍTULO 32 - O CONSELHEIRO
..CAPÍTULO 33 - O BANQUETE
..CAPÍTULO 34 - O PEDINTE
..CAPÍTULO 35 - O RETORNO
..CAPÍTULO 36 - POSFÁCIO