DIVERSIFICAÇÕES NAS DESCRIÇÕES EVANGÉLICAS

Muitos estudiosos dos Evangelhos vivem procurando encontrar em suas narrações aparentes discrepâncias em torno fatos que se sucederam ao decurso da missão de Jesus. Se existem ligeiras contradições nas descrições ali contidas, deve-se atribuir isso a ligeiras falhas de traduções ou ao modo de descrever as coisas.

Lucas e Marcos não foram discípulos diretos de Jesus, e, como decorrência, seus Evangelhos são frutos de apuradas investigações, de sondagens e de estudos com base nas tradições orais. João e Mateus foram apóstolos e conviveram com Jesus, portanto, tudo indica que estavam em melhores condições para testemunharem os legados do Mestre.

No episódio da crucificação, cada evangelista faz sua narrativa de forma diversa, colocando na boca do Mestre palavras diferentes: Mateus afirma que as últimas palavras de Jesus foram: EU, Eli, lamma sabacthani, traduzidas por "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparastes?" Marcos corrobora Mateus.

Lucas afirma que o Mestre, clamando com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito. João, por sua vez, descreve o episódio, afirmando ter o Senhor dito apenas: Tudo está consumado. E inclinando a cabeça entregou o Espírito.

Porventura essas diversidades de descrição alteram o conteúdo dos Evangelhos? Que importa se um evangelista descreveu que o Mestre curou dois cegos e outro afirma que foi apenas um? Que diferença faz ter Marcos afirmado que o galo cantou duas vezes, antes de Pedro haver negado o Mestre, e João ter escrito que o galo cantou uma só vez?

O que faz melhor os Evangelhos, se Mateus e Marcos afirmam que os dois salteadores crucificados ao lado do Nazareno o injuriaram, ou quando Lucas sustenta ter sido apenas um deles?

João Evangelista não se apegou a pormenores de natureza secundária, quando escreveu o seu Evangelho, pois, na qualidade de medianeiro dos Céus, não podia conceber nenhum sentido pessoal ou de limitação no quadro da revelação cristã.

O próprio Jesus corrobora esse modo de pensar do seu discípulo, quando afirma categórico:

- A Doutrina que vos ensino não é minha, mas do Pai que me enviou".

Muitos dogmas de curso forçado no seio das religiões não encontram base no Evangelho de João, pois, assim como o discípulo amado silencia sobre o caráter do nascimento de Jesus da forma como é narrado por Mateus e Lucas, também nada descreve sobre a ascensão do Mestre aos Céus.

Pois, é óbvio que apenas o Espírito de Jesus ascendeu às regiões altamente espiritualizadas de onde desceu, e não o seu corpo, como apregoam algumas escolas religiosas da Terra.

Paulo A. Godoy