Em torno dos Evangelhos

Todas as religiões cristãs fundamentam-se nos Evangelhos de Jesus Cristo. No entanto, com o objetivo de dar sustentação aos seus dogmas, aos seus postulados, cada uma delas sempre procurou atribuir a alguns dos seus textos a interpretação mais condizente com seus interesses doutrinários.

Isso sem levar em consideração que muitos desses textos foram desvirtuados pelas numerosas discussões e perturbações ocorridas durante os primeiros séculos, após terem sido revelados.

Contudo, isso não significa negar a inspiração divina dos textos, considerando-se que os evangelistas eram médiuns inspirados. Torna-se necessário, porém, separar o trigo que está mesclado com muito joio e, através de um exame meticuloso, descartar os ensinamentos que estão distanciados do seu verdadeiro sentido.

Para melhor elucidação, é oportuno remontar-se às origens dos Evangelhos e à sua acidentada história.

Durante cerca de 50 anos, após a crucificação de Jesus Cristo, prevaleceu tão-somente a tradição oral e viva, semelhante a uma fonte de água viva que a todos pudesse dessedentar. Era conceito, na época, de que um bom e fiel discípulo era aquele que, como uma cisterna sem rachaduras, jamais deixava escapar uma só gota dos ensinamentos do Mestre.

Nesse período, a divulgação dos ensinamentos de Jesus Cristo fazia-se pela prédica, principalmente pela palavra dos apóstolos e discípulos, homems rudes, iletrados, mas iluminados pelo pensamento vivo do Mestre Nazareno. Isso, naturalmente, com exceção de Paulo de Tarso, e outros que eram homens versados nas letras.

Não foi senão dos anos 60 aos 80 que apareceram as primeiras narrativas escritas: a de Marcos, que é a mais antiga; posteriormente, dos anos 80 aos 98, surgiram o Evangelho de Luca assim como o de Mateus, cujo original se encontra desaparecido. Finalmente, de 98 a 110, apareceu, em Éfeso, o Evangelho de João.

No princípio, existiam várias dezenas de Evangelhos, alguns escritos por outros apóstolos. O emérito Comandante Edgard Armond, em sua obra: O Redentor, relaciona, além dos quatros evangelhos conhecidos, cerca de 40 outros que foram considerados apócrifos, portanto marginalizados, por não expressarem o real pensamento de Jesus Cristo, além de muitos outros escritos versando sobre o assunto.

A existência de tão elevado número de Evangelhos levou o pontífice da Igreja Romana, Dâmaso I, no ano de 384, a designar o preclaro Jerônimo para a árdua tarefa de redigir uma tradução latina do Antigo e Novo Testamentos. Para essa tradução, tornava-se imperiosa a seleção de elevado números de textos, o que, inapelavelmente, obrigava o tradutor a fazer profundas modificações, nos referidos textos. Isso, forçosamente, o conduziu a um situação realmente difícil, no afã de colimar a pureza desejável, na pesquisa da Verdade.

Essa circunstância fez com que Jerônimo, posteriormente em carta dirigida a Dâmaso, ponderasse: - "De velha obra me obrigais a fazer obra nova. Quereis que, de alguma sorte, me coloque como árbitro entre os exemplares das Escrituras que estão dispersos por todo o mundo, e, como diferem entre si, que eu distinga os que estão de acordo com o verdadeiro texto grego.

Qual, de fato, o sábio ou o ignorante que,desde que tiver nas mãos um exemplar (novo), depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir, alguma coisa nos antigos livros?" (Cf. Obras de S. Jerônimo, Edição dos Benedinos, 1693).

Após a proclamação da divindade do Cristo, no século IV, depois da criação do dogma da Trindade, muitas passagens do Novo Testamento foram modificadas bem como no século VII, a fim de que expremissem as novas doutrinas.

Afirma Léon Denis, o grande apóstolo espírita francês, citando o Pastor Lebrois, de Strasburgo, que "na Biblioteca Nacional, na de S. Genovena e na do Mosteiro de S. Gall existem alguns manuscritos, nos quais o dogma da Trindade está apenas acrescentado à margem; mais tarde, foi intercalado no texto, onde se encontra ainda".

Paulo A. Godoy