A "TENTAÇÃO" DE JESUS

"Imediatamente, o Espírito o impelia para o deserto. Ali ficou, quarenta dias e
quarenta noites; tentado por Satanás, estava com as feras.E os anjos o serviam."
(Marcos, 1:12-13)

Marcos não foi discípulo direto de Jesus e fez o seu Evangelho muitos anos após a crucificação do Mestre. Pelos informes que conseguiu colher, escreveu que o Cristo foi tentado durante quarenta dias e quarenta noites no deserto. Outros evangelistas foram mais prolixos na descrição, afirmando que Satanás levou Jesus ao pináculo do Templo e a um monte, ali fazendo uma série de propostas, dentre elas uma bastante arrojada: O poder sobre todos os reinos da Terra em troca de sua submissão.

Qual o Espírito das trevas, por mais destemido que fosse, teria a audácia de enfrentar o Cristo de Deus, para lhe fazer propostas de ordem nitidamente humana? Os evangelistas narram que os Espíritos trevosos se sentiam espavoridos pela simples aproximação do Mestre, haja vista, para ilustração, o célebre caso do possesso gadareno. (Marcos, 5:6-7)

A Doutrina Espírita define bem o terno "Satanás": Um Espírito, como os demais, que persiste em permanecer nas trevas e obstinado na prática do mal; entretanto, a lei inflexível, que rege os mundos, fará com que, um dia, retome a senda da evolução, a caminho de Deus, a exemplo do que acontece com todos os Espíritos, sem exceção. O estado de "satanás" não é uma situação permanente, é um estágio transitório, escolhido pelo próprio Espírito, que se compraz ou recalcitra na prática do mal, mas que, inexoravelmente, terá o seu fim, quando, cansado dessa vida devassa, se decida a retomar a trilha do progresso, que o conduzirá à perfeição.

Ora, assim como qualquer treva desaparece ao raiar do sol, qualquer Espírito trevoso se afasta, quando uma entidade sublimada, da categoria daquela a que pertence Jesus, se apresenta.

Conseqüentemente, jamais poderemos aceitar as narrações evangélicas em torno da "tentação" de Jesus Cristo, como expressões fiéis de um fato acontecido, quando apreciadas em seu sentido literal. Entretanto, servem como severa admoestação às criaturas humanas.

Quando Jesus desenvolveu o seu sublime Messiado na Terra, fortes barreiras foram erguidas contra os princípios que viera revelar. As potestades das trevas se mobilizaram, através de seus agentes, encarnados e desencarnados, no sentido de fazer com que o Messias não tivesse amplo sucesso em sua redentora missão.

Enquanto alguns Espíritos de ordem inferior procuravam solapar a fé e a disposição de trabalho dos apóstolos, ora criando rivalidades entre eles, ora tentando fazer desfalecer a fé de Pedro ou mesmo inspirando Judas a trair o Mestre, outras entidade instalaram o seu quartel-general no próprio Sinédrio, insuflar o ódio e o zelo religioso dos Escribas, dos Fariseus e dos sacerdotes. Um terceiro grupo dirigia os esforços, no sentido de criar no seio das massas uma espécie de fanatismo religioso de forma que uma parte da população da cidade de Jerusalém, o havia recebido o Cristo com hosanas e intensa alegria, três dias após, através de alguns de seus membros, ali estava em frente ao pretório, pedindo a condenação de Jesus e a libertação de Barrabás.

A crença na "tentação" de Jesus ainda se torna mais problemática, quando as narrações afirmam que ele estava no deserto, e as sugestões de "Satanás" aconteceram no pináculo do Templo de Jerusalém, ou em cima de um monte - o que faz crer que o que era assim levitado era o Espírito de Jesus, sem o corpo, o que torna completamente ilógica a crença naquela decantada "tentação".

A "tentação"de Jesus, narrada pelos evangelistas, tem o escopo de ensinar que há necessidade de oração e vigilância persistentes, para não cair em tentação, pois, até os Espíritos que descem à Terra, com a finalidade de aqui desempenharem missões relevantes, podem fracassar, se não houver vigilância em face das sugestões ou obstáculos que, sub-repticiamente, emanam dos planos inferiores.

Dada a importância da missão desempenhada pelo Cristo em nosso mundo, forçoso é convir que todos os Espíritos que o assessoram não o fizeram por acaso: foram Espíritos previamente escolhidos, para encarnarem na Terra, a fim de serem seus contemporâneos, e cujas futuras tarefas foram objeto de um plano adredemente elaborado pelo Alto. No Evangelho de João (17: 14-18) afirma Jesus em imprecação dirigida a Deus e referindo-se a seus apóstolos: Eu Ihes tenho dado a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque eles não são do mundo, mas que o guardes do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. Jesus Cristo proclama, deste modo. que o Pai o enviara ao mundo, ele também enviara os seus apóstolos. Como decorrência, é óbvio que se tratam de Espíritos de ordem elevada e com possibilidade de resistirem ao impacto das paixões humanas.

No entanto, vemos Maria Madalena quase fracassar em sua missão, não fora a interferência de Jesus, afastando dela uma legião de Espíritos obsessores. Paulo de Tarso teria sido a antítese do cristão, não houvesse acontecido o chamamento na Estrada de Damasco. Pedro teria sido vítima dos Espíritos trevosos, não fora a providencial intercessão do Cristo, orando ao Pai, para que a sua fé não desfalecesse. Com outros missionários teria acontecido o mesmo, não houvera a vigilância própria e a ajuda do Mundo Maior.

Judas Iscariotes não conseguiu orar e vigiar, suficientemente, e fracassou em sua tarefa.

O ensino propiciado pela "tentação" de Jesus objetiva, pois, demonstrar que o simples fato de estar encarnado na Terra, mesmo em se tratando de Espíritos de elevada hierarquia, envolve a necessidade de oração e vigilância, em face dos atrativos que a vida humana oferece àqueles que se deixam seduzir pelas coisas de César.

Paulo A. Godoy