AINDA QUE ESTEJA MORTO VIVERÁ

"Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá." (João, 11:25)

Pode alguém que esteja morto, reviver?

Para nós, Espíritas, que consagramos a reencarnação, isso é perfeitamente verossímil, pois todos nós viveremos muitas vezes, ou seja, tantas e quantas forem necessárias, para atingirmos a perfeição, quando passaremos a desfrutar do status de Espíritos puros, e quando a reencarnação somente acontecer em casos de missões.

Entretanto, o dizer de Jesus tem um outro significado, porquanto é evidente que, para Ele, vivo é o que tem vivência, segundo a vontade de Deus, e morto é o que tem vivência contra a vontade de Deus.

Quem crer em Jesus e seguir os seus ensinamentos obviamente estará tendo uma vivência reta; estará vivo e atento para as coisas de Deus, obedecendo a sua vontade soberana. Por outro lado, o que desconhece o Cristo, não vivendo os seus mandamentos, estará morto para a prática de atos condizentes com a vontade de Deus.

Ter vivência, segundo a vontade de Deus, é praticar o bem sem ostentação e sem olhar para ninguém, fazendo-o, despretensiosamente, sem esperar recompensas, sem esperar retribuições. Ter vivência contra a vontade de Deus, é praticar o mal. É viver desregrado e egoisticamente, malbaratando os valores morais e espirituais, relegando a prática da caridade para segundo plano.

Evidentemente, não basta crer em Jesus. É necessário assimilar os seus ensinamentos, praticando-os e aplicando-os na vida de relação.

Muitos indivíduos acreditam que se basta rotularem de cristãos, para ficarem enquadrados nos ditames evangélicos. Outros são de opinião que para serem cristãos basta freqüentarem uma Igreja ou ser membro de uma religião cristã.

É necessário fazer obras de cristão, e, para fazer isso, é imperioso que haja uma disposição inabalável, no sentido de se reformar inteiramente, para a prática do bem, sem mistura do mal.

Busquemos nos Evangelhos exemplos de criaturas que são mortas ou vivas para as coisas de Deus.

Os Judeus, contemporâneos de Jesus, não acreditavam nas boas obras que os Samaritanos viessem a praticar. Pelo contrário consideravam os habitantes da Samaria como autênticos apóstatas e relapsos.

No entanto, o Mestre, numa de suas maravilhosas parábolas lhes fez ver que estavam errados nessa crença. Narrou Jesus que um homem viajando de Jerusalém para Jericó, quando foi assaltado e despojado de todos os seus haveres e deixado semimorto à beira da estrada.

Por ali passaram um Levita e um sacerdote, ambos considerados como autênticos religiosos e profundos observadores das Leis de Moisés, dos Dez Mandamentos. Nenhum dos dois, porém, socorreu o moribundo.

Logo, a seguir, passou pela mesma estrada um Samaritano. Condoendo-se, este, da sorte do homem, desceu do seu cavalo amparou o ferido, cuidou de suas feridas e conduziu-o a hospedaria, onde ele ficou confortavelmente alojado. No dia seguinte, tendo que prosseguir viagem, deu determinada quantia ao hospedeiro, prontificando-se a ressarci-lo, em sua volta, de quaisquer outros gastos que viesse a ter com o ferido.

Qual deles amou mais o pobre homem ferido? Qual deles fez obra de verdadeiro cristão? Qual deles viveu os sublimes preceitos da caridade despretensiosa? Qual deles estava mais próximo do Reino de Deus?

Obviamente, o Levita e sacerdote, que se julgavam fiéis seguidores do Decálogo, não praticaram o que estipula o primeiro mandamento: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos." Não obstante, eles se consideravam religiosos, privilegiados do Pai e membros de uma raça eleita, apesar de estarem mortos para a vivência da vontade de Deus. Samaritano, no entanto, apesar de ser tido como herético e desprezível, foi quem melhormente acatou o mandamento, pois realmente seguiu a vontade de Deus e amou o seu próximo. Ele estava vivo para a prática do bem.

O sacerdote e o Levita estavam, na realidade, mortos para grandes realizações que enlevam a alma e que têm o seu fundamento na prática do amor.

Foi com relação aos que têm vivência para as coisas de Deus Jesus afirmou: "Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão parte no majestoso banquete da Espiritualidade Superior.

Os que estão mortos para a prática do bem, evidentemente, "ficarão do lado de fora".

Paulo A. Godoy