AS PRÁTICAS EXTERIORES DO CULTO

"E assim, invalidaste, pela vossa tradição, o mandamento de Deus." (Mateus, 15:6)

O Cristianismo sempre foi, desde os seus primórdios, uma doutrina absolutamente refratária às práticas exteriores do culto.

Em parte alguma dos Evangelhos deparamos com qualquer narração que apresente Jesus praticando atos que impliquem em manifestações exteriores ou que corroborem sua prática ou introdução no corpo doutrinário de qualquer religião de ramificação cristã.

Por mais que nos esforcemos, não encontramos em qualquer parte dos quatro Evangelhos, qualquer alusão do Mestre sobre a necessidade do batismo pela água ou recomendando procissões, ladainhas, novenas, quarentenas, casamentos com pompa religiosa, crisma, orações em idiomas mortos ou qualquer outra prática externa.

Afirmando, com vistas ao futuro: "Conhecei a verdade e ela vos fará livres", Jesus tinha por escopo imunizar o Cristianismo contra qualquer agregação de ritos ou práticas exteriores. Entretanto, apesar de todo o cuidado do Mestre, vemos, nos dias atuais, várias religiões do ramo cristão impregnadas desses prejuízos, os quais têm servido somente para empanar o brilho e a singeleza da Doutrina Cristã.

O Espiritismo, que representa a restauração do cristianismo em sua forma primitiva, condena toda e qualquer prática ou manifestações exteriores, representando essa condenação uma das recomendações insistentemente aconselhadas aos profitentes da Doutrina Espírita no sentido de manterem, de forma perene, a singeleza dos princípios basilares codificados por Allan Kardec.

Os Espíritas devem, pois, repelir qualquer tendência no sentido de introduzir essas práticas no corpo doutrinário do Espiritismo, tendo em vista que elas foram as responsáveis pelo amálgama representado pela religiões que se apegaram aos rituais e à observância de vãs tradições, pois isso representa uma forma de aprisionamento a princípios que tolhem a evolução das criaturas rumo ao seu Criador.

O apóstolo Paulo de Tarso representa o melhor paradigma aos que querem abominar essas práticas externas e se "libertarem pelo conhecimento da Verdade".

No início do seu apostolado, ainda neófito no conhecimento do Cristianismo nascente, e, talvez, influenciado por idéias ainda prevalecentes no seio dos primitivos discípulos de Jesus, de quais ele ainda guardava dependência, Paulo de Tarso chegou a praticar alguns batismos pela água. Após conhecer a profundeza e extensão da nova revelação, ele escreveu na primeira Epístola aos Coríntios (l: 14-17): "Dou graças a Deus, porque a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e Gaio. Para que ninguém diga que foi batizado em meu nome. E batizei também a família de Estefanas, além disso não sei se batizei algum outro. Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar.

Tão logo ele se assenhoreou no conhecimento da nova Doutrina, compreendendo o seu sentido libertador de consciências, pôs um paradeiro nas práticas do batismo pela água demonstrando pouco apreço a esse gênero de cerimonial exterior.

A sua missão não consistia em viver apregoando as práticas e inconscientes do batismo pela água ou da circuncisão. Ele exercia a sua missão num nível muito mais elevado, pairando acima das tradições inócuas e tendo por objetivo básico o encaminhamento das criaturas para o Cristo, através da assimilação de todos os ensinamentos que conduzissem à reforma íntlma.

O Evangelho de João (4:2), sustenta que Jesus Cristo não batizava ninguém, apesar de alguns dos seus discípulos usarem essa prática. Nos Evangelhos não existe nenhuma recomendação do Mestre sobre a eficácia ou necessidade do batismo pela água. O verdadeiro batismo é aquele do qual nos falou João Batista: Eu vos batizo com a água, porém ele (Jesus) nos batizará com o fogo. (Mateus,3:11)

Jesus Cristo foi batizado pelo fogo, quando passou pelo sacrifício no Calvário. Sem isso o Mestre não teria vencido o príncipe deste mundo e sua missão não teria a penetração que teve no decorrer dos séculos. Paulo de Tarso também teve o seu batismo pelo fogo quando, por três vezes, foi açoitado com varas, cinco vezes recebeu quarenta açoites menos um, uma vez foi apedrejado, três vezes sofreu naufrágio, além das noites que perambulou nos abismos, nos rios, face aos perigos oriundos das ameaças dos judeus e dos gentios.

Todos nós passamos pelo batismo do fogo. As provações e expiações da vida terrena são formas desse batismo. Quando tivermos triunfado sobre elas, sofrendo com resignação e sobrepujado os obstáculos inerentes à nossa trajetória terrena, estaremos realmente batizados pelo fogo.

O batismo pela água é inteiramente inócuo e apenas serve para propiciar às criaturas terrenas uma falsa impressão de harmonia consciencial. As nossas transgressões às leis de Deus, nesta ou em vidas pretéritas, somente poderão ser redimidas através do batismo pelo fogo, que são as expiações propiciadas pela vida terrena. O batismo pela água não tem a eficácia de redimir erros e transgressões, mas o batismo pelo fogo tem o potencial necessário para se atingir a redenção espiritual.

O batismo pela água é mera demonstração exterior do culto; o batismo pelo fogo, pelo contrário, soergue os homens, emprestando-lhes maior soma de aquisições nobilitantes e permanentes, aproximando-os cada vez mais de Deus.

Enquanto o batismo pela água é meramente simbólico, o batismo pelo fogo é autêntico e de profunda repercussão na elevada destinação das almas.

Paulo de Tarso jamais tergiversou com a verdade. O seu zelo pelas coisas do Alto e pela integridade e pureza da doutrina cristã jamais conheceu limitações. Nada daquilo que pudesse empanar o brilho da mensagem de Jesus Cristo foi aceito por ele. O episódio ocorrido na cidade de Éfeso, quando enfrentou Demétrio e outros ourives da cidade, os quais disseminavam a idolatria, é uma viva demonstração dessa sua luta. No trato das coisas do Alto, ele não regateou esforços, chegando mesmo enfrentar outros discípulos que estavam bitolados pelo tradicionalismo judeu, que desconhecia o potencial e a dimensão da nova verdade revelada.

O ponto alto da missão do grande Apóstolo dos Gentios era a evangelização do povo. Com esse objetivo ele jamais se deixou confinar pelas barreiras do culto externo e dos cerimoniais inconsistentes, muito do agrado das religiões dogmáticas.

Por isso, ele proclamou: "Cristo enviou-me não para batizar mas para evangelizar."

Paulo A. Godoy