CÉU E INFERNO - ESTADOS CONSCIENCIAIS

"O Reino de Deus não virá como visível aparato." (Lucas, 17:20)

No modo de crer de numerosas religiões, o Céu é um lugar determinado, circunscrito, delimitado. Uma região situada acima das nuvens, onde reinam a beatitude e a contemplação beatífica. Em vez de apresentarem um Deus dinâmico, que segundo o dizer de Jesus jamais deixa de atuar um só instante, apresentam um Deus estático.

Na concepção dogmática dessas Igrejas, entidades angelicais, ao som harmonioso de celestiais harpas, proporcionam alegria aqueles que tiveram a ventura ímpar de merecer acesso a essa esplendoroso região do Infinito, algumas vezes por meio indevido, um esforço, sem mérito, bastando para isso ter sido um bom religioso ou ter freqüentado os bancos de determinada religião terrena. Nesse Reino, chamado Céu, impera a inércia, não há trabalho, nem luta, sem esforço, e, os que ali estão não podem entrar em contato com aqueles que lhes são caros e que ficaram na Terra.

Não se pode dizer que tal ambiente, aureolado com indescritíveis gozos, anjos, músicas e luminosidade, seja desagradável, mas ninguém lhe pode negar os inenarráveis inconvenientes da monotonia, da sonolência e o triste castigo 'não fazer nada", considerando-se que a estagnação representa interminável suplício.

O Inferno, em perfeita similitude com o Céu, segundo a mesma concepção religiosa, está também situado em lugar determinado, circunscrito, tendo como sede algum lugar delimitado no interior da Terra, nele existindo o fogo eterno, que jamais se extingue e que atormenta as almas, sem as consumir.

Segundo o absurdo dogma do Pecado Original, todos os homens e mulheres mandados pela culpa de Adão e Eva (os utópicos personagens que teriam habitado o mundo em seus primórdios), estariam virtualmente condenados às penas eternas. Entretanto, a Misericórdia Divina faculta-lhes um meio de salvação, representando pelo sacrifício de Jesus na cruz, para redenção de quantos fossem eleitos para o recebimento da graça. Essa predileção e favoritismo, evidentemente, representam acintoso atentado à bondade e à perfeita justiça de Deus contrariando a sentença proferida por Jesus Cristo de que a cada um será dado segundo as suas obras.

Os dogmas do Pecado Original e das Penas Eternas são solidários entre si, mantendo estreitas relações, pois um é Causa e o outro Efeito. Segundo a crença dessas religiões, o mentor maior dos abismos infernais, travestido de serpente, induziu o primeiro casal do mundo ao pecado, e a culpa de Adão, contaminou todas as gerações, pelos séculos dos séculos, considerando-se que não são muitos os que são favorecidos pelo estado de graça, torna-se necessário que haja espaço nos compartimentos infernais para acomodar tantos contingente de almas pecaminosas.

Acreditava-se, há muitos séculos, que a Terra era o centro do Universo, e que o firmamento formava uma abóbada, em que estavam fixadas as estrelas, ficando o Céu situado no alto e o Inferno embaixo,

Com as descobertas de Copérnico e Galileu, de que os planetas têm um duplo movimento sobre si mesmos, todos girando em torno do Sol, provou-se que é errônea a idéia de subir ao Céu ou descer ao Inferno. Ficou demonstrado, pelo movimento de rotação da Terra, que há lugares antípodas, a se alternarem, permanentemente, de posição, e que sendo infinito o espaço não pode haver alto nem baixo no Universo.

Jesus Cristo afirmou, solenemente, em Lucas (17:21) que "O Reino dos Céus está entre nós".

Omar Khayyam, por sua vez, asseverou: "O Céu e o Inferno estão em ti mesmo".

Ora, se o Reino de Deus está entre nós, torna-se desnecessário procurá-lo alhures.

Desta forma, devemos concluir que o homem, de conformidade com a vida que leva, e pelo seu próprio discernimento, tanto pode criar dentro de si o Céu como o Inferno, passando a viver em qualquer um deles, dependendo de sua própria escolha.

Allan Kardec, em sua obra O Céu e o Inferno , fez a seguinte explanação:

"Se Deus for inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso, e se não é misericordioso, não é infinitamente bom.

Por que daria Deus ao homem a lei do perdão, se Ele próprio não devesse perdoar? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes restitui o mal com o bem, seria melhor que Deus, que permanece surdo ao arrependimento dos que O ofendem, negando-lhes, por TODO O SEMPRE, a mais leve atenuação da pena.

Achando-se em toda a parte e tudo vendo, Deus deve ver também as torturas dos condenados. Se Ele se conserva insensível aos seus gemidos por toda a eternidade, será eternamente impiedoso; ora, sem piedade não há bondade infinita."(Capítulo VI, págs. 70 e 71)

Alguns doutores da Igreja chegaram a descrever as torturas do Inferno.

Santo Agostinho imagina um quadro pavoroso: num verdadeiro lago de enxofre, vermes e serpentes saciando-se nos corpos dos condenados, conjugando suas picadas com as do fogo. Esse fogo, no entender de conceituados teólogos, queima sem destruir, penetrando a pele dos condenados bem como embebendo e saturando-lhes todos os membros, a medula dos ossos, a pupila dos olhos, enfim, as mais recônditas fibras do seu ser.

Num sermão pregado em Montpellier, França, em 1860, dizia o sacerdote: "No Inferno existem as caldeiras ferventes, cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados."

São Tomás de Aquino dá-nos ciência de que os bem-aventurados, ao contemplarem as torturas dos condenados, "não somente serão insensíveis à dor, mas até ficarão repletos de alegria e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios". (O Céu e o Inferno, de Kardec, Cap. IV)

Deus é o Criador de todas as coisas, portanto, se existissem inferno e demônios, seriam também sua obra, suas criaturas. Como conseqüência, nosso Pai Celestial seria extremamente injusto, se criasse seus filhos para que eles fossem, mais tarde, eventualmente condenados ao Inferno eterno, sem possibilidade de remissão, o que contraria a afirmação de Jesus Cristo: "O Pai não quer que nenhuma de suas ovelhas se perca."

No século em que vivemos, já não se aceita mais, da forma como era feito antigamente, a existência do Inferno, do Céu, do Purgatório, das Penas Eternas e do Pecado Original e tantas outras concepções que apenas serviram a uma época.

Muitas religiões, apregoando a teoria da existência do Inferno e das Penas Eternas, querem demonstrar o indemonstrável, justificar o injustificáveI.

O Espiritismo vem, pois, dar uma nova dimensão a essas crenças superadas e absurdas; por isso, vem apregoar que tanto o Inferno como o Céu são estados conscienciais, e o ser humano pode viver no paraíso ou no estado de tormenta, dependendo tudo do rumo que der à sua vida de relação.

O que existe, realmente, é uma escala quase que infinita, abrangendo muitos planos evolutivos, nos quais se situam os Espíritos, na medida em que evoluem, aproximando-se cada vez mais de Deus - o nosso Criador.

Jesus Cristo não desceu ao mundo com o fito de tomar sobre seus ombros os nossos pecados ou as nossas dores. Ele veio para nos ensinar o caminho da reforma íntima, por Ele simbolizado na conquista do Reino dos Céus. Mas, para isso, tornam-se necessários o trabalho, a luta, o esforço. Ele nos recomendou:

"Cada um deve tomar a sua cruz e seguir-me."

Traçou-nos, Jesus, o roteiro a seguir, quando disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". Torna-se evidente que, para no aproximarmos cada vez mais do nosso Criador, devemos estudar e viver os Evangelhos. Não devemos esperar uma salvação pela graça, mas uma redenção espiritual fundamentada no esforço, no aprimoramento, na prática das boas obras e do amor.

Todos somos Espíritos situados no caminho da evolução, e Deus quer que o seus filhos sejam puros e sábios.

Paulo A. Godoy